domingo, 11 de novembro de 2018

Ser reconhecido ou reconhecer-se?


(para o Prof. Alfredo Scheid Lopes)


Certa vez o ministro Carlos Ayres Brito disse: “em tudo o que faço, não faço questão de ser reconhecido, mas em me reconhecer!”. Tal afirmação revela o profundo caráter da pessoa que sempre cumpriu sua missão sem esperar recompensas. Para essas, não importa agradar aos demais e sim, a correção o acerto de suas próprias atitudes, ainda que essas ações venham a afetar positiva ou negativamente a seus críticos. O importante é que a ação reflita aquilo que de mais essencial há em sua pessoa, a verdade, a ética e o respeito ao próximo.

Essa é mesmo uma verdade lapidar, própria de quem tem o controle sobre si e consciência de seus atos. Não existe maior recompensa que, ao chegar ao final da carreira profissional, ouvir ou receber homenagens pelo seu trabalho realizado. E essas homenagens são maiores, mais significativas, quando não esperadas. São as surpresas, mais que a ação propriamente dita, que mais tocam aqueles que bem cumpriram sua missão profissional.

Com esse preâmbulo, quero fazer um elogio, em cima de outros elogios, ao Professor Alfredo Scheid Lopes. Tenho acompanhado sua página nas redes sociais e ali sempre aparecem ex-alunos a elogiar seu competente trabalho, dedicação e zelo para com o futuro profissional de seus orientandos. Também faço parte desse coro de gratidão, e notem, fui aluno dele há exatos 54 anos. Sim cinquenta e quatro anos e ainda o tenho na memória e mais que isso com muita gratidão no coração. Agora, depois de tanto tempo, vejo que continua o mesmo. Ainda que aposentado, há bastante tempo, a universidade ofereceu-lhe uma sala, permanente, onde dá expediente, gratuitamente, para produção científica e de pesquisas e orientação de alunos de cursos de pós-graduação.

Parabéns, Prof. Alfredão, você foi o melhor não apenas na educação agrícola superior, mas também na profissão de especialista em Solos sob Cerrado, ajudando a desenvolver nossa agricultura nesse imenso cerradão nacional. Foi também, ao lado de extremo e positivo rigor nas exigências do aprendizado de seus alunos, o mais amigo, o maior incentivador profissional daqueles jovens rapazes e moças, seus alunos, até mesmo no esporte, onde você foi campeão sul americano. Sua humildade, simplicidade e ética no trato com todos, aliadas à capacidade e conhecimento técnico e extensa lista de publicações no país e no exterior, levou-nos à certeza de que ele nunca se preocupou em “ser reconhecido”, mas sim de transmitir a verdadeira formação aos seus alunos e trabalhar pelo desenvolvimento agrícola.

Isso é o que importa! E hoje (na verdade ao longo de toda sua vida profissional), você colhe os frutos de seu dedicado e competente trabalho. As palavras do ministro Ayres Brito estão certas, mas, no meu entendimento e em especial aplicado a você, faltou complementar: “... pois, o reconhecimento virá por acréscimo!”. E ele tem sido farto para você. Porque tudo que você fez veio direto do coração!
 

Que seus anos de vida se prolonguem e possa continuar a recompensadora colheita, por muito tempo ainda, além dos 80 já completados. Amém!

Brasília, 11 de novembro de 2018

Paulo das Lavras  



Professor Alfredo Scheid Lopes, recebendo uma homenagem internacional e em seu gabinete
 na Ufla, aos 80 anos de idade.

 "The state of mind which enables a man to do work of this kind … is akin to that of the religious worshipper or the lover; the daily effort comes from no deliberate intention or program,
but straight from the heart"
(Albert Einstein - From a Speech “Principles of Research”, 1918)

("O estado de espírito que permite que um homem faça um trabalho desse tipo é semelhante ao do adorador religioso ou do apaixonado; o esforço diário vem não de uma intenção ou um programa deliberado, mas direto do coração") 
 
Citação e tradução de Camilla Kovalsky, em homenagem ao Prof Alfredo S. Lopes)
 
 


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Por que não uma Ministra da Educação?


Uma amiga postou nas redes sociais um convite para “Mudar o Brasil”. Propõe que as mudanças sejam praticadas e implantadas por você próprio, o cidadão: “Não fure fila; não jogue lixo no chão; recolha seu lixo; siga as leis de trânsito; confira o troco e seja honesto; não pegue nada que não seja seu; respeite a todos; respeite as vagas dos deficientes e idosos; não ultrapasse na faixa dupla das vias; respeite quem estiver na faixa de pedestres; trabalhe fazendo o melhor e seja a mudança que você quer ver. Tais recomendações vieram a propósito da crise politica, social e econômica que atravessamos em nosso país. Também se insere nesse contexto o recente escândalo da prova anual do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio. Envergonhou a Nação, escreveu o jornalista Claudio Humberto, in verbis:
“O aparelhamento da prova do Enem causou mal-estar no Palácio do Planalto e irritação no Ministério da Educação, em razão das questões nitidamente “contaminadas” pelo clima eleitoral... Além de endossar conceitos da ideologia de gênero, a prova do Enem até fez propaganda de um dicionário gay sobre expressões “secretas”... A avaliação é que o tema da redação estimulou os alunos a atribuírem a derrota do PT a suposta manipulação de mensagens do WhatsApp... Aparelhadas” por grupos anti-Bolsonaro, as provas foram avaliadas como uma “provocação desnecessária”, na definição de um ministro, informou o jornalista”.


                Outro jornalista, Marco Antonio Villa, publicou no jornal Correio Braziliense, de 07/11/2018, um artigo intitulado: “Enem: o livro vermelho do PT”. Afirma que o panfletarismo petista continuou dominante. A cientificidade desapareceu. O conjunto do exame foi edificado para impor a visão do mundo petista e sem qualquer preocupação de uma avaliação do conhecimento obtido no ensino médio, completou o jornalista. E prossegue indagando por que dois textos de Eduardo Galeano? Um deles, inclusive em espanhol, mas, o importante era a crítica de Galeano ao capitalismo. A questão 31: Acuenda o Pajubá, sobre o dialeto secreto dos gays e travestis é ridícula ao afirmar que o dialeto é patrimônio linguístico. Ainda na esfera da ideologia de gênero, a questão 38 pede a interpretação de uma passagem do livro “Vó, a senhora é lésbica?”. Parece que a literatura brasileira está na prova do Enem apenas para legitimar uma determinada leitura das relações pessoais, disse o autor do artigo. Prossegue, com a questão 34 sobre a negritude e em seguida, cita a de número 45 que desqualifica Gilberto Freyre, disse Villa.

               Em sua extensa e competente análise sobre a malfadada prova do Enem-2018, o autor enumera outras questões sofríveis em relação à cientificidade e aferição de conhecimentos do ensino médio.  A de número 23, por exemplo, com conteúdo – O presentismo -, com negação do passado, publicado pela revista Carta Capital, órgão a serviço do projeto criminoso de poder (segundo classificação do STF, no processo do mensalão).  Também as questões 57 e 59 deturpam o conceito da Geografia e do papel do Estado, classificando-o de burguês. No campo da politica nacional, as questões 62 e 84 enaltecem o governo Goulart e atacam o regime militar sem mencionar a anistia, assinada poucos meses depois do artigo de Henfil, citado como base para as perguntas.  Como formar o aluno, com parcialidade e viés político?

            Vê-se, portanto, pelas análise dos dois jornalistas que o exame do Enem não buscou avaliar os conhecimentos do dos alunos adquiridos em três anos do ensino médio. Causou mal-estar no Palácio do Planalto e irritação no Ministério da Educação, com suas questões nitidamente “contaminadas” pelo clima eleitoral, além de endossar conceitos da ideologia de gênero, propagandear um dicionário gay sobre expressões “secretas” e induzir os alunos a acreditar que a derrota do PT se deveu à fake-news nas redes sociais. Finalizaram dizendo que as provas foram avaliadas como uma “provocação desnecessária”.
Mas, e agora? Bem, antigamente os professores do curso primário, que hoje corresponde às cinco séries iniciais do Ensino Fundamental (6 a 10 anos) eram quase todos do sexo feminino. Hoje representam 81,5%. No antigo curso ginasial, que corresponde às quatro séries finais do fundamental (6ª à 9ª série), dos 11 aos 14 anos, já aparecem em bom número os professores do sexo masculino, embora, ainda, a quantidade de professoras seja considerável. No ensino superior a relação de professoras/professores é mais equilibrada, quase meio a meio. A diminuição de mulheres no ensino médio e superior, em relação ao ensino primário, fica notória quando a educação vai se afastando do conceito de “cuidar” e as funções passam a ter características mais de ciência e tecnologias. Culturalmente, as mulheres sempre desempenharam o papel de educadora sensível e infinitamente melhor que o homem na educação das crianças e formação dos jovens. Mas, hoje, com a crescente emancipação, as mulheres já são maioria nas universidades e detém 52% dos títulos de qualificação superior. Ultrapassaram os homens nesse quesito.
 Assim, diante dessa nova realidade e considerando ainda suas qualificações, especialmente no magistério, a indicação de uma mulher para ocupar as elevadas funções de Ministra da Educação seria altamente desejável na atual conjuntura nacional. São talhadas para a formação humanística e como ninguém, sabem repassar os mais elevados princípios de respeito e moral para as gerações.
O Brasil precisa de um choque na Educação! Mais formação e menos politicagem nas escolas. Ninguém melhor que uma mulher para isso, sensível, vocacionada para a educação e formação de consciências humanitárias para a não-violência. Costumo dizer que, se antes, há mais de 50 anos a educação, os princípios morais e as regras de convivência social eram ensinadas em casa e tinham plena ressonância nas escolas, hoje está mudada a situação. As crianças são confiadas à escola desde os primeiros meses de vida, na creche e em seguida no jardim de infância, a pré-escola e por isso, é preciso que cuidemos mais da Educação e não simplesmente confia-las às cuidadoras, nem sempre instruídas ou qualificadas para tal. Talvez assim não vejamos tanto desrespeito aos professores, alvos frequentes de violências físicas e morais por parte de alunos.

Uma Mulher para Ministra da Educação, professora, educadora por vocação e sem filiação partidária, seria o melhor presente de Natal para este ano de 2018.

Brasília, 07 de novembro de 2018

Paulo das Lavras

 Esther de Figueiredo Ferraz – Ministra da Educação 1982/85

Foto: Internet



quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O pesadelo vai acabar – Eleições 2018


Em minhas sete décadas de vida, cinco das quais enfrentando eleições obrigatórias (não temos a mesma sorte que os cidadãos americanos, onde o ato de votar é opcional), nunca passei por eleição tão tensa como essa de 2018.  A polarização dos candidatos trouxe uma instabilidade emocional sem precedentes para o pacato cidadão brasileiro que, pela primeira vez, engajou-se de corpo e alma entre dois extremos. Assisti, ou melhor, acompanhei discussões homéricas entre amigos ou apenas conhecidos pelas redes sociais. Nem acreditei que dois deles romperam a amizade de longos anos. Deixaram as coisas comuns, que os aproximavam e os uniam desde os tempos de infância, como o gosto pelos estudos no colégio, a musica de rock dos  dos anos 60, incluindo Beatles e Rollings Stones ou mesmo dos mais modernos Maroon 5,  Bruno Mars, Adele ou Taylor Swift. Deixaram tudo mesmo, por causa de outra faceta que ambos não conheciam, mutuamente.

As acusações foram recíprocas aos respectivos políticos ou partidos de preferencia. Fascista e corrupto eram qualificativos mais suaves que, os até então amigos, apontavam direta ou indiretamente. Ora, ora..., que coisa mais idiota e estúpida. Colocar tudo a perder por causa de ideias de candidatos políticos, com acusações nem sempre diretamente imputadas aos protagonistas, mas a seus seguidores ou tutores, como no caso de corruptos da Lava-jato que disparam ordens de dentro do presídio? Ou de outro que elogia supostos torturadores?  Sandice! Seria também, o amigo, corrupto ou fascista? Por que não dar a ele, o amigo, uma chance, digamos, pós-eleições ou após seis meses ou um ano de governo daquele politico que vier a ser eleito?

Mas, há casos de sandices extremadas de alguns. Já faz um ano que um amigo replicou outro velho amigo, que veio com essa história de candidato ou juiz fascista, afirmando, ainda,  que aquele ex-presidente condenado pelo juiz Moro, não merecia ser preso. Assim,disparou virulenta campanha de fora Temer e numa de suas postagens protestava e desejava a morte do presidente em exercício e também a do juiz  Moro, “por ter condenado um inocente”.  Por um raciocínio torto, canhestro, ele afirmava que “havia crimes maiores e outros ladrões de colarinho branco, da elite da direita, que não são investigados nem julgados....”. Por isso, na sua ótica, não deveria, aquele corrupto, ser condenado. Ora, mas que raciocínio torto, totalmente equivocado, como se um crime justificasse outro.

Pois bem, confiado na antiga amizade, o incauto amigo postou um comentário bem suave, apoiando o fora temer, mas discordando da aura na cabeça daquele outro politico corrupto, condenado e seu preferido. E ainda, ao final, credulamente disse-lhe: “queira-me bem.” . Ele não imaginava que, com aquele leve comentário, pudesse despertar tanta fúria, ira do fanático admirador do condenado politico. Amizade? Direito de expressão em termos polidos? Ah..., a resposta foi fulminante e grosseira, antes de tudo: “ ... se você não gosta do meu politico preferido,  não escreva isso em minha time-line. Fique quieto. Recolha-se à sua ideologia. Deixe a minha em paz”. Foi difícil acreditar, confessou-me o amigo atingido.

Melhor se afastar de gente fanática, grosseira, que grita e dá ordens:... “fique quieto, recolha-se à sua ideologia”   (se o outro fosse também um ideológico poderia também lhe chamar de fascista, autoritário, egoísta?...rsrs). Talvez aquela ordem verbal,  vociferada pelo fanático da ideologia política, devesse ser revertida a si próprio. Ora, ora, ninguém gosta de receber ordens, ainda mais de presunçosos fanáticos de ideologias ultrapassadas e condenadas no mundo inteiro. Portanto, Fora (suposto) Amigo! Houve erro de avalição no grau de amizade e polidez (inexistente). O amigo se enganou, penitenciou-se consigo mesmo e corrigiu o erro imediatamente. Voltou à pagina do suposto e grosseiro amigo. Arrependido, deletou todos os seus comentários ao longo de todo o período em que foram amigos na rede social e em seguida o bloqueou para sempre.

Melhor acercar-se de quem se importa e que acrescente algo de verdadeiro à vida. Isto é mais que saudável. Basta ignorar, com arte e elegância aqueles que nos agridem. Não há porque dar importância a quem não merece. Sigamos em paz, longe de quem carrega e dissemina ódio. É a melhor solução! Principalmente em época de eleições polarizadas. E nessas eleições aprendemos algumas lições. A primeira e mais importante, foi a perda do protagonismo da mídia nas campanhas eleitorais. Não tem mais o jornal influente e rede de TV (aquele grande jornal, que falha em S. Paulo e a maior rede de TV p.ex.), pois,  de certa forma perderam credibilidade junto ao cidadão.
A segunda lição foi a redução dos custos de campanha. Agora as mobilizações de passeatas, comícios e outras, são feitas via redes sociais. Tudo é feito nelas. Mais barato e cômodo, tanto para o candidato que não precisa de se deslocar, gastar tanto dinheiro e também é superconfortável para o eleitor que tudo faz, tudo vê pelos smartfones ou computadores em casa, no trabalho ou no trânsito das  ruas. A terceira grande lição foi que o eleitor está mais antenado, ligado. Derrubou, mandou para casa, aqueles políticos antigos que faziam da política o seu balcão de negócios, onde a corrupção era o carro chefe.




Tomara que esse pesadelo eleitoral, com postagens hostis, termine de vez no próximo domingo! E essa hostilidade que se traduz em elevados índices de rejeição de ambos os candidatos (em tono de 45%), decorre desse ambiente polarizado, antagônico e até mesmo pela falta de propostas concretas de políticas em prol do povo. Este está cansado de tanta corrupção e violência contra o cidadão. E nesse contexto, é de se esperar que, passadas as eleições, possamos seguir em paz e as amizades voltem à normalidade. Odeio politicagem, mas reconheço que precisamos votar e escolher o “menos pior”!

Boa sorte no seu voto, com a esperança de que, até o próximo Natal, tenhamos a reaproximação dos amigos chamuscados que “se estranharam” nessas eleições. Faltam só quatro dias....

Brasília, 24 de outubro de 2018

Paulo das Lavras 



Nunca passei, nas últimas cinco décadas, por eleição tão tensa como essa de 2018.
 A polarização dos candidatos trouxe uma instabilidade emocional sem
precedentes para o pacato cidadão brasileiro
Foto: internet

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Um Fotógrafo de primeira viagem


 
Com uma câmera bem antiga, de marca Kapsa, produzida no Brasil pela D.F. Vasconcelos, na década de 1950 e emprestada por João Sampaio, proprietário de um estúdio fotográfico, o Foto Guimarães, situado à Rua Santana, em Lavras, o menino de 12 anos partiu para a fazenda do pai a fim de fazer algumas poses com cavalos e paisagens do bucólico Retiro dos Ipês. Garoto curioso e sem nenhum conhecimento sobre fotografia quis saber como era o interior da máquina. Abriu-a, verificou o filme ali colocado, enrolado nas bobinas, mostrou para a mãe, fechou-a novamente e partiu para a esperada ação.

Fotografias naquela década de 1950 eram raras, pois quase ninguém possuía uma máquina fotográfica, principalmente nas pequenas cidades do interior mineiro. Fotografar era um processo complicado e, por isso mesmo, as fotos se resumiam às tradicionais 3x4 para documentos ou então às de festas como 1ª comunhão, casamentos, bodas de ouro e as solenes formaturas desde o curso primário (sim, havia festa para essa formatura) à faculdade, com a mais pomposa das festas. Esta, sim, era o maior evento na vida de um garoto dos anos 1950/60. Nem mesmo aniversários ou batizados eram fotografados, pois isto implicava na contratação de um fotógrafo profissional. Assim, nada mais justo do que as pretensões do garoto que queria ter suas próprias fotos na bonita fazenda, para guarda-las de recordação ou, quem sabe, para exibir aos colegas de escola.

Inúmeras poses foram encenadas em frente à bonita casa da fazenda ou desfilando com a sua bela égua Mangalarga, totalmente negra e de elevado porte. Bonitas e diferentes paisagens também foram fotografadas com aquele filme de 24 poses em preto e branco. Um luxo para a época. Assim, retornou ao estúdio fotográfico para a revelação do filme. Empolgado, foi busca-las no dia aprazado. Decepção total. O filme fora inteiramente velado. Também...,  quem mandou abrir a câmera e escancarar o filme contra a luz? Coisa de fotógrafo de primeira viagem, ou melhor, de menino curioso que nada sabia sobre a sensibilidade dos filmes fotográficos.... Lição nunca mais esquecida e não revelada a ninguém, tamanha a decepção pelo erro cometido, nem mesmo ao incrédulo João Sampaio que não viu defeito algum na Kapsa e tampouco imaginara o que se passou.

Aliás, só estou rememorando esse episódio por causa do passamento desse fotógrafo que marcou época em Lavras. Esteve presente em todos os acontecimentos sociais da comunidade e ao comentar, numa rede social, sobre o ilustre fotógrafo e narrar esse episódio, uma amiga, da família Melo, contou toda contente que ainda possui uma Kapsa, que pertencera a seus pais. Reliquia que deve ser guardada com carinho.

Boas recordações da infância e juventude, naquele final da dácada de 1950, na cidade de Lavras, Terra dos Ipês e das Escolas. O amigo e fotógrafo, João Sampaio, deixou registradas não somente as milhares de fotos de nossa cidade e sua gente, mas também registros indeléveis em nossa memória. Um pedaço de nós que se vai, para sempre.


Brasília, 11 de dezembro de 2012

Paulo das Lavras

(Crônica escrita em 2012, dedicada à memória do fotógrafo João Sampaio, falecido naquele ano)



 
Rua Santana-Lavras: à esquerda Foto Guimarães (de João Sampaio) e onde trabalhou, mais tarde, o fotógrafo Antônio Oliveira. Logo acima, o Salão e Barbearia Planche, pai de José Alves de Andrade.
À direita , o casarão de Ângelo Alberto de Moura Delphim
Foto: Acervo de Renato Libeck


O fotógrafoJoão Sampaio,  em 1967
Foto: Acervo de Renato Libeck


O garoto Antônio Oliveira, que também trabalhava no foto Guimarães
e sua máquina de ponta, uma  Rolleiflex e flash Braun.
Eles só emprestavam aqueles caixotes, como eram chamadas as Kapsas.
Foto: arquivos de Antônio de Oliveira


Máquina fotográfica Kapsa, anos 1950, apelidada de “caixote”
Foto: Internet



João Sampaio, em 2012
Foto: Acervo de Renato Libeck





O menino (1967), em foto tomada pelo saudoso fotógrafo João Sampaio,
 na Praça do Colégio de Lourdes.  Ele também usava uma Vespa,  toda equipada, 
tal qual a  "pretinha" que o menino usava para ir à faculdade.
Ao fundo a casa de Miralda Bueno
Foto: João Sampaio – arquivo do autor








quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O Dia da Árvore


Vinte e um de setembro é o Dia da Árvore. Dois dias depois começa a estação da Primavera. Termina o inverno. Odeio invernos! Desde menino, aos 10 anos de idade, quando passei para o turno matutino, na Escola Municipal Pe. Dehon, no distante ano de 1955, quando foi inaugurada na minha cidade natal, Lavras.  Situada no sul de Minas, elevada altitude e aninhada entre montanhas, o frio atingia temperaturas baixíssimas, de até 6º C. Pouco tempo depois, já no ano de 1957, gravei muito bem na memória o valor dessa baixa temperatura do inverno de junho. Lembro-me, exatamente do Pe. Raimundo Weilhermman, tiritando de frio e anunciando os terríveis 6º Celsius (era professor de Física e gostava de aproveitar ocasiões para incentivar os estudos da matéria). Esfregava rapidamente as mãos que regeriam a execução do hino nacional, cantado pelos meninos do Colégio Aparecida. Temperatura fria demais, às 07h da manhã, as mãos se enregelavam, doíam e até os dedos dos pés, também gelados, doíam dentro do sapato de couro fino, sem nenhuma proteção, após caminhada de três quilômetros para chegar à escola. Era um tremendo sacrifício caminhar, carregando pesada pasta com livros e cadernos, saindo às 06:00 horas, rua abaixo que mais parecia um túnel de vento gelado.

Pior mesmo deveria ser para aquela outra turma, de oito ou dez trabalhadores rurais, boias frias, moradores da Pedreira, ao lado da caixa d’água da PML (hoje, COPASA), à rua Otacílio Negrão, a esperar o Dr Weber Almeida, com sua caminhonete pick-up Wyllis, amarela e branca, a leva-los na carroceria aberta para a “apanha de café” em sua fazenda pelos lados da estrada de terra para Itumirim. Chapéus enterrados na cabeça e mulheres com o tradicional turbante a proteger-lhes os longos cabelos, todos enrolados em surrados panos e agasalhos de frio, agachados, encolhidos, ali no na calçada (nem existia, pois a rua era encascalhada), segurando seu embornal com a marmita contendo apenas arroz, macarrão, angu e feijão.  Eram assim os meses de junho e julho, pico do inverno e da colheita do café, com intenso e insuportável frio às seis horas da manhã. Anos mais tarde, já no início dos anos 70, tornei-me produtor de café e nossos caminhões faziam o mesmo transporte, porém dotado de cobertura de lona e, na hora do almoço, reforçávamos com carne cozida e mandioca a boia fria, trazida de casa por aquele mutirão de 30 ou mais apanhadores de café. A lembrança dos boias frias da Pedreira, tiritando de frio, marcou indelevelmente o menino, pois ele também passava pelo mesmo frio, com a diferença que depois da rua seguia-se a sala de aula, embora fria, mas nem tanto como ao relento.

Não era fácil enfrentar o inverno do sul de Minas. Sofria-se mais que nos cinco graus negativos de Michigan/EUA, ou zero grau em Paris, onde trabalhei temporariamente por alguns anos. Nesses lugares, de rigorosos invernos sujeitos às nevascas, o cidadão conta com a proteção da calefação em qualquer ambiente, mesmo nos meios de transporte. Por aqui, até as salas de aulas eram geladas, daí o desconforto a ojeriza acumulada nessa situação. Mas, porém, todavia, entretanto, contudo, não obstante e ainda assim..., aquele mal, gelado das Lavras do Funil, durava pouco tempo. Já nas paradas (desfiles) de 7 de Setembro o frio era bem mais atenuado, embora o uniforme fosse camisa de manga curta, de malha fina, sem blusa de frio. O melhor estava por vir e tinha data marcada, o dia da árvore, 21 de setembro, quando o frio já tinha ido embora e o calor já se fazia sentir. Nessa época toda a vegetação mostrava seus brotos explodindo e revestindo as árvores de intenso verde folha. Também a chuva já se anunciava e os pássaros com intensa cantoria, em festa de acasalamento, saltitavam de árvore em árvore a se mostrarem para as suas futuras companheiras. A natureza é sábia. Os pássaros cantam na primavera não é para “chamar chuva”, como diz o povo, mas sim pelo fato de que é hora de se acasalar, construir os ninhos e 21 dias depois da postura dos ovinhos, nascem os filhotinhos..., em época de plena fartura de frutas, facilitando a sua alimentação. Sábia Natureza!

Mas, aí estamos, chegou o 21 de Setembro – Dia da Árvore. O cheirinho gostoso de terra molhada aguça nosso olfato e as pretinhas jabuticabas ali já estão a nos esperar. O homem do campo, mais que esperançoso, começa a olhar para o céu em busca de sinais mais promissores da chuva, sulca a terra para plantar a semente que germinará e produzirá seu sustento. Saudemos, pois, a Árvore que nos alimenta na vida, nos dá sombra, conserva a água das nascentes, nos dá a madeira para a nossa casa e toda sorte de móveis e utensílios e até mesmo para locomoção, desde os mais remotos tempos. E, por último, ainda fornece a madeira que nos conduz ao repouso final no solo, de onde viemos como dito nas Sagradas Escrituras.

Ao Dia da Árvore segue-se a Primavera, a estação das flores que alegra a alma. É também a estação dos frutos, da semente que germina e produz o alimento para nosso corpo. Alguém pensa nisso, o que representa a Árvore para as nossas vidas? Prepare sua alma para a alegria, a beleza e celebre essa importante data da nova estação do ano que se avizinha, mas nem sempre lembrada nas urbes dominadas pela tecnologia, ferro, aço plástico e os eletrônicos que ocupam, agora, a maior parte de nosso tempo.
 Árvore e Primavera, água, solo, planta e a fauna, são os símbolos da Natureza, da Vida.

Brasília, 21 de setembro de 2018

Paulo das Lavras



A Árvore é o mais belo presente da Natureza

Foto do autor – 07/09/2014, Ipê amarelo na PGR/Brasília 


O frio em Lavras somente começava a atenuar em setembro, com
a chegada da primavera.
 Foto: Arquivos de Renato Libeck-  Pe. Raimundo Weilhermman,
 desfile de 7 de Setembro – CNSA 1957 


Os trabalhadores da colheita do café passavam muito frio,
no mês de junho, quando inverno em Lavras era mais intenso.
O  menino que se tornou cafeicultor nos anos 70, sempre
se lembrava dos boias-frias tiritando de frio, enquanto
esperavam o transporte à beira de seu caminho para a escola.
Foto: maio 1975


Mesmo com clima mais quente que o sul de Minas, o café irrigado vai
 bem em Brasília. Aqui não tem aquele frio congelante das montanhas.
 Foto – 2015


Novembro de 1977, em frente ao escritório de trabalho,
 na Michigan State University. Em seguida era época de
muito frio, com nevascas que chegavam a
um metro de neve na porta do prédio. Hora de voltar para os trópicos


Mas, em compensação, a primavera no hemisfério norte é belíssima,
com temperaturas agradáveis e floradas diferentes das nossas.
Foto: East Lansing, maio 1978




Da mesma forma que nos EUA, o natal na França é congelante,
mas só na rua, pois os ambientes fechados  e os meios
de transporte  são dotados de calefação.
Foto: dezembro  2013


Primavera em Nancy/França. Recebendo os diretores de Escolas de Agronomia, 
Juventino J Souza/ESAL-UFLA e Aino Jacques- E.A./UFRGS
Foto: maio  1988


Vovô, pode colher uma pera?  A surpresa do netinho ao encontrar
 um pé de pera, carregado de frutas e a seu alcance... 


A árvore e suas milhares de jabuticabas, para deleite das crianças
 e também dos adultos..., com sabor de infância


Primavera é a mais bela estação do ano. A exuberância do Emerocalis de cores
 variegadas, tendo à esquerda um pé de pitanga, o pinheiro ao centro (vitimado 
por um raio, no verão seguinte) e goiabeira à direita.


Infelizmente um dos pinheiros, de mais de  mais de 30 anos de idade, foi vítima de um raio, em tempestade do verão de 2014. Mas, foi imediatamente replantada outra muda. Oportunidade ímpar para educar as crianças com a consciência ambiental


Nova árvore, vida nova, crianças aprendendo a respeitar e amar a natureza


Vamos comer ameixa amarela (nêspera) ? Sim, mas também temos que planta-la e cuidar

Foto do autor: abril 2014


E tome flores..., beleza estonteante. Ipê roxo, próximo à sede da CNC, Brasília
Foto do autor, agosto 2012


Mais flores..., árvores de ipê amarelo, na janela do quarto onde nasci
Foto do autor: Sítio Retiro dos Ipês/Lavras – 2014



domingo, 9 de setembro de 2018

Um ciclista profissional em Lavras na década de 1960


Era uma noite de sábado do mês de fevereiro de 1962. Havia caído, à tarde, uma chuvinha fina típica de final de verão, mas nada que afugentasse os jovens em seu habitual programa de footing pela praça, aliás, jardim. O “jardim” estava apinhado de gente. Jardim, era como os lavrenses chamavam a sua principal praça, Dr Augusto Silva, o coração da cidade. Ali aconteceria o encerramento de um evento ciclístico que ficou famoso na cidade. Tão famoso que, mesmo depois de exatos 53 anos, dois protagonistas daquele evento se encontraram na distante Brasília e o relembraram com alegria, como a dizer: nós estávamos lá, você se lembra? Assim são os amigos. É o mesmo que estar em casa sempre, pois são como irmãos, garantindo-nos que a sua infância e juventude também estão guardadas no coração deles. Alegria em dose dupla.

E Brasília às vezes surpreende a gente. Mais de meio século depois, entrando numa loja comercial da capital federal, eis que de repente e surpreendentemente, alguém em meio a centenas de pessoas estranhas (é sempre assim em cidades grandes, você é apenas mais um anônimo) gritou meu nome e esboçou um largo sorriso de satisfação. Era o amigo dos tempos de juventude em Lavras, José Alcides Alvarenga. Estudamos no mesmo colégio, frequentamos os bailes do Clube de Lavras, as sessões de fins de semana do Cine Brasil, cada qual com sua namorada e por fim, ele como aluno na ESAL/UFLA e eu como professor. Desde então não mais nos vimos. Alegria sem fim no reencontro. Deixei as compras e passamos logo a conversar sobre os bons tempos passados em Lavras. Marcamos outro encontro, visitamos a chácara, meu refúgio e finalmente fui despedir-me dele, na casa de sua irmã, Lenita, onde se hospedara, a poucas quadras de onde moro. Foram horas de conversas sobre a cidade e sua gente, os familiares e amigos, principalmente dos tempos de estudante e primeiros anos de profissão.

 Lennon e McCartney foram muito felizes na canção “In My Life”, quando disseram que há lugares, coisas e pessoas que a gente se lembra pelo resto da vida. Embora algumas tenham mudado e outras até desapareceram de nossas mentes, muitas permanecem indeléveis. E desses amigos e lugares, os melhores são aqueles com os quais compartilhamos a vida, os tempos dourados da juventude. E eles sempre serão relembrados, onde quer que estejamos ou os reencontremos. Amigos são mesmo flores plantadas ao longo do nosso caminho e assim a vida será eterna primavera.
 
Mas,  certa vez, muito marcante, e não era primavera em Lavras, e sim final de verão daquele ano de 1962, relembrou-me o dileto amigo José Alcides e emendou: “tenho uma foto em que você aparece ao meu lado, naquela noite de encerramento da prova de resistência de um ciclista profissional, que pedalou por três dias consecutivos, sem descer da bicicleta e eu estava, com uniforme militar do Exército, guarnecendo a área de isolamento, pois prestava Serviço Militar Obrigatório, no Tiro de Guerra  da cidade”. Incrível, memória de elefante, lembrar-se de um evento de 53 anos atrás e com detalhes de imagem na memória... O Menino das Lavras nem acreditou quando, poucos dias depois da viagem de volta do amigo, dele recebeu  e-mail com a referida foto. Ali estávamos os dois e outros amigos de colégio. Também não era primavera, nem em 1962, em Lavras e tampouco em Brasília naquele ano de 2015, quando nos reencontramos. Ainda assim, Lennon e McCartney estavam certos em sua bela composição musical “In my life”, pois o Menino pôde viver “eterna primavera” com as “flores” rememoradas pelo amigo.
 
Ciclismo era coisa rara, tanto pela época como pelo costume local. Cidade montanhosa de difícil pedalar, Lavras não tinha muitas bicicletas como a cidade de Governador Valadares e outras. Mas havia, sim, na década de 1960, algumas delas de marcas alemãs, como Göricke e Mercswiss, a polonesa  Gulliver e as recém lançadas no Brasil, Caloi  e   Monark. Em casa havia uma Mercswiss, na cor vermelho-goiaba, aro 26, própria para meninos, muito resistente. Havia, também em Lavras algumas bicicletarias, onde se faziam a manutenção e comercialização de bicicletas usadas, de marcas estrangeiras. A Bicicletaria Ferreira era a mais importante da cidade e até tinha propaganda pela ZYI-6, Rádio Cultura de Lavras. Após o surgimento das bicicletas nacionais a gurizada passou a preferi-las pois havia maior quantidade de modelos e tamanhos. Outro detalhe era que as bicicletas estavam sempre equipadas com campainhas, dínamo gerador e farol. este era necessário porque as cidades do interior, além de muito mal iluminadas, não dispunham de iluminação em mais da metade de sua área. A bicicleta, em muitos casos, era o único meio de transporte para aqueles que residiam mais distantes do centro da cidade, daí a necessidade de farol.
Pois essas e outras reminiscências, sobre as bicicletas da década de 1960, foram gostosamente relembradas pelos dois amigos e aqui as compartilhamos com todos.
 
Brasília, 15 de outubro de 2015
Paulo das Lavras
 
José Alcides Alvarenga e Paulo das Lavras, em Brasília, outubro de 2015,
53 anos depois do evento ciclístico em Lavras, cuja foto, ele próprio enviou-me.
A alegria do reencontro casual, depois de tanto tempo, até nos fez rejuvenescer e nos
 sentirmos  como naqueles idos de 1962.


José Alcides, com uniforme militar, guarnecendo o cordão de isolamento
da prova ciclística de três dias, sem descer da bicicleta.
O menino das Lavras  aparece de paletó cinza, camisa branca e calça clara, ao lado de outro com
terno escuro, ao centro da foto. Também aparece na foto, a meu lado, de camisa xadrez,
  o garoto Nilton José Arruda que, mais tarde, tornou-se professor em colégios da cidade.
Foto: cedida por José Alcides Alvarenga


Bicicleta robusta, a mais vendida nos anos 60 – Goricke
Foto: internet


A mais preferida pela garotada, aro 26, de bom tamanho
e também muito robusta. Havia uma desta em casa e gostávamos
 de fazer trilha pelas pastagens da chácara .
Foto: internet


P.S – em, 21/10/2015, apenas seis dias após ter escrito a crônica acima, comparecemos aos funerais de Lenita Alvarenga, de tradicional família lavrense e irmã do amigo José Alcides Alvarenga. Pioneira de Brasília, chegou à cidade logo após sua inauguração. Foi casada com o advogado Everardo Curado Fleury, já falecido e também pioneiro da capital federal.
Por essa razão, não publicamos a crônica que ficou esquecida em nossos arquivos. Hoje, 10/09/2018, com a infausta notícia da morte de José Alcides, decidimos publicá-la em homenagem a ele, sua família e aos amigos.
Amigos são mesmo flores plantadas ao longo do nosso caminho e assim a vida será eterna primavera e a memória dos mesmos é e será sempre indelével em nossa alma!