Fui a um
supermercado em um vilarejo próximo à chácara em um final de semana e casualmente
me deparei com um lindo Jeep Ford-Willys, antigo. Tinha a mesma cor bege
daquele que usei em Belo Horizonte, onde trabalhava em projetos florestais. Era
também igualzinho a aquele que um dia, ainda criança de 10 anos, imaginei que
meu pai o compraria de um amigo fazendeiro que fora à nossa fazenda
especialmente para vendê-lo, mas, não houve negócio. Bom mesmo foi o de BH, o
Pafuncio, que nele trabalhei um ano
inteiro. Esse era seu esquisito, mas carinhoso nome. Em 2004, cerca de 36 anos
depois que deixei o Pafuncio de BH, que tanto me transportou pelas montanhas de
Minas, encontro outro igual. Foi amor à primeira vista e por coincidência, a placa
era de origem mineira, de Juiz de Fora. Tudo a ver, a paixão aumentou ainda mais
ainda. Mas, por que você quer comprar um jeep velho? Perguntavam-me e
simplesmente respondia: porque quero, sempre quis! Você vai usá-lo para andar
na cidade de Brasília ou ir e vir para a chácara? ... Não! Você vai reformá-lo
e vender para ganhar um dinheiro? ... Não! Também, não...! Então para que quer comprá-lo?
... Para NADA! NADA! Entendeu...? Entendeu..? Assim eu reagia, já irritado com
tamanha insistência e petulância dos amigos e membros da família. Minhas respostas
curtas e incisivas, não satisfaziam as expectativas dos interrogantes que,
quase sempre, não encontravam motivos plausíveis para a compra de um velho
jeep, originário de um colecionador militar do Exército, de Juiz de Fora. E
comprei, mesmo! Apenas para satisfazer
um sonho pessoal de afeto, de doces lembranças dos tempos de infância e
juventude. Queria aquele lindo e antigo modelo Jeep Ford-Willys 4x4 na minha
garagem. Não que precisasse dele para uso, não..., pois tinha uma grande e
confortável SUV. Queria-o apenas para
deleite da alma. Lógico, depois tomei gosto e passei a usá-lo para trilhas nas
montanhas (e Brasília tem montanhas?) e no lago que construí especialmente para
mergulhos com o velho e bonito Jeep. Aliás, era o melhor dos passeios, tendo as
crianças aboletadas na pequena carroceria, em plena alegria, mas, lógico, longe
dos pais deles...., pois aquilo era coisa que só os avós são capazes de fazer e sem
direito a reclamações... rsrs
Tive que
enfrentar, suportar e responder aos irritantes inquéritos de amigos e
familiares. Ora, ora.., vou comprar porque quero! Vou colocar um acessório para
reboque de carreta e um cambão bem à frente, para poder leva-lo à reboque em
meu SUV.... Mas, por que você vai fazer isto? Acoplar uma carreta, também? Vai
levar frutas da chácara para vender na feira? Nãããã...o ! Não me amolem mais, vou
fazer isto porque quero..., vou colocar o reboque e sair por aí, pela chácara,
sem nada, carga nenhuma na carreta, apenas porque quero me lembrar dos tempos
de criança quando enchia de terra a carroceria dos caminhõezinhos que
ganhávamos no natal! O cambão dianteiro é para engatar num SUV para eventuais
visitas à cidade, para ali passear ou fazer reparos de manutenção. E mais, vou
instalar um aparelho de radio-amador, faixa cidadão igual ao que tenho no SUV, vou
andar por trilhas nas montanhas e pelo cerrado afora e falar com o mundo
inteiro..., pelo meu rádio-amador (numa época em que ainda não havia telefone
celular, nem internet e eu gostava de falar com amigos no Peru, Estados Unidos,
França e Itália). Venci a oposição e os chatos que acham que os outros só podem
fazer aquilo que eles pensam que é certo ou lhes convém. Confesso que fiquei um pouco chateado com tantas perguntas
indiscretas e descabidas para o meu alter ego, pueril mesmo. Graças a Deus que
encontrei nos filósofos e melhor ainda, nos poetas que canto em veros e prosa
todas as explicações necessárias para esse comportamento reverso de criança.
Fiquei em paz comigo mesmo. Não era nenhum maluco, doido, como diziam, pois apenas
seguia o figurino humano retratado pelos poetas e filósofos. Ufa... !
E mais ..., um
dia, quando eu ficar muito velho e não mais puder dirigi-lo, ele estará lá, na
garagem, como um troféu das minhas lembranças. Memórias vividas naquele veículo
de tração nas quatro rodas e das pessoas que me acompanhavam, como os netinhos
a bordo, com seus olhinhos arregalados e o jeep “afundando e derrapando” no
lago cheio de jacarés”. Ou mais distantes ainda, a recordações das andanças pelas
íngremes montanhas de Minas Gerais, na Serra do Caraça, Maquiné, Rola Moça,
Pico do Itacolomi, Mariana, Ouro Preto, Serra do Cipó (eita ventania cortante
por ali...) e tantas outras onde plantávamos eucaliptos, essências florestais nativas,
além do pinus e kiri, árvore exótica de
origem asiática, cuja madeira se destinava a usos especiais. Plantei mais de
dois milhões de árvores em reposição às florestas transformadas em carvão
vegetal para as indústrias siderúrgicas da Mannesman, Aluminas, Cauê, Cominci e
outras. Estas duas últimas localizadas nas encostas da cidade de Pedro Leopoldo,
onde, ainda hoje, lá se encontram resquícios daquelas florestas por mim
plantadas e as vejo da janela do avião quando em pousos pela cabeceira norte do
aeroporto de Confins. A imaginação voa, e mesmo já passados mais de 50 anos,
“vejo” o menino, jovem engenheiro agrônomo, em seu Jeep Pafuncio, de cor bege, tal qual aquele visto
no vilarejo próximo à Brasília e adquirido em seguida.
Além do jeep,
também afloram as lembranças da bela perua Rural Willys, apelidada de Raimunda,
rodando pelas mesmas montanhas, comandando equipes de 20 a 30 trabalhadores
plantando pequenas mudas das árvores que ainda hoje sobrevivem, apesar da
frenética urbanização que tudo destrói. Aqueles plantios eram projetos
especiais, aprovados pelo antigo IBDF, hoje IBAMA, com incentivos fiscais para
as usinas siderúrgicas. Do alto das
montanhas e com fotos aerofotogramétricas especiais estendidas sobre seu capô,
fazíamos a identificação de divisas das fazendas, seus córregos, estradas e
outros acidentes geográficos, por meio do estereoscópio, aparelho portátil de
duas lentes em forma de binóculo, mas concêntricas sobre duas fotos colocadas
paralelamente e que nos propiciavam visão em terceira dimensão.
Não bastassem
as escaladas no trabalho, havia ainda os passeios pela crista da majestosa Serra do Curral que emoldura BH,
descortinando maravilhosa vista da cidade e seus arredores. Passei alguns medos
naquelas trilhas de montanhas acima, algumas abertas pelos nossos próprios
tratores e com perigos sem fim, derrapagens no cascalho, ou no barro das chuvas
tão comuns na época de plantio. Às vezes quebravam os feixes de molas da suspensão em pontudas
pedras chamadas “cangas”, de puro minério de ferro, natural daquele
quadrilátero. Não à toa, a região é conhecida na Geografia como quadrilátero
ferrífero, a riqueza das Minas Gerais, ferro, manganês, bauxita (alumínio) e
outros valiosos minérios com jazidas infinitas, até mesmo o ouro, como na mina
de Morro Velho em Nova Lima. São reminiscências que fazem parte de minha
memória afetiva, habitam prazerosamente meu coração, minha alma e o jeep Pafuncio, foi um dos principais
protagonistas dessa parte da vida do jovem profissional da engenharia
agronômica. Nossas jornadas eram árduas, mas, por outro lado, foram inúmeras as
sensações de alegria, prazer em contemplar horizontes infinitos, lindos,
maravilhosos que nos faziam cantar e gritar como um louco de alegria nas
inúmeras paradas para pura contemplação. Descortinavam-se à nossa vista,
precipícios, rios, vales e muitas outras sucessivas montanhas de rochas às
vezes reluzentes, com a do Caraça, ou simplesmente azuis na complexidade da
difusão caleidoscópica dos raios de luz em meio
à bruma seca do frio ou das chuvas fininhas que enregelavam os ouvidos e
até a alma, no assobio das rajadas de ventos. Rajadas às vezes muito fortes ali no
topo das montanhas. E os peões quase sempre gritando em tom de brincadeira para
o magrelo menino-engenheiro agrônomo: cuidado, coloque algumas pedras no bolso
da japona, para a ventania não te levar
e rolar montanha abaixo...rsrs.
Ah..., que saudade daquelas travessias pelos leitos de riachos, às vezes nos surpreendendo com locas, poços invisíveis , engolindo o jeep e então se perdia um dia inteiro de trabalho, até alguém voltar a pé, numa fazenda mais próxima, pedir emprestado um trator para rebocar o jeep emburacado no riacho, ou então uma junta de bois para retirar o veículo pesado demais e sem tração alguma , com o motor e escapamento submersos. Ao final, cansados, enxarcados e enlameados, e muita peleja para fazer o motor funcionar novamente, ainda tínhamos fôlego para um dedo de prosa e um cafezinho da garrafa térmica e agradecer a Deus por mais uma vitória e pedir as benção Dele para o aquelas boas almas que vieram nos socorrer. Vitória? Sim, conseguir sair do fundo do poço, literalmente e secar o cano de escapamento e principalmente o distribuidor, que alterna e conduz a centelha elétrica aos cilindros do motor em perfeita sequência e fazê-lo funcionar novamente, depois do chamado calço hidráulico era, de fato, uma grande vitória.
Antes de chegar a Ouro Preto, de intenso e gelado frio, uma paradinha no aprazível vilarejo de Catas Altas, com uma só rua e com deliciosos vinhos artesanais e compotas de doces. Numa dessas portas, de casa de família, encostávamos os jeeps, Pafuncio e pelo menos dois outros, em comboio, da Companhia Siderúrgica Alumínio Minas Gerais- ALUMINAS, para a qual prestávamos serviços e tomávamos um delicioso vinho licoroso, esquenta-peito. Na volta, ao final do dia ou à noitinha, ninguém queria ser o motorista do Pafuncio, pois a ele se proibia tomar vinho... Muitas pirambeiras até chegar a Ouro Preto e não podíamos abrir a guarda..., pois queríamos chegar vivos para o pouso na cidade, nossa base de apoio regional.
Para completar a tortura do motorista, ao qual negávamos e o proibia de
tomar qualquer bebida alcoólica, levávamos outra garrafa de rosé e íamos
degustando-o até chegar à fria e gelada Ouro Preto, onde os lençóis do hotel
pareciam estar molhados de neve na hora de se deitar..., um gelo terrível, de
tiritar os dentes e a alma! Nessa hora, dava para entender por que os europeus
detestam tomar banho. Duro demais despir-se naquele frio gelado. Mas, a
recompensa vinha logo, no aconchego da cama limpinha cheirosa e cheia de
cobertores de lã e com a alegria por termos vencido, apesar do cansaço físico,
mais um dia na natureza quase inóspita. Hoje, posso dizer com absoluta
segurança: Saudade é o amor que ficou daquelas montanhas e das aventura quase
que diárias do jovem engenheiro agrônomo, com mapas, bússolas, clinômetros, estereoscópio
de bolso e fotografias aéreas para identificação de divisas das fazendas, com
coordenadas geográficas, feitas pelos aviões da USAF (Força Aérea Americana - Aerial Squadron
Team) que tão bem havia conhecido, ao vivo em Lavras. USAF? Sim e me lembrava
das conversas com o piloto norte-americano, do avião bimotor Beechecraft, equipado com sensores especiais para
aerofotogrametria, fazendo o sensoriamento remoto do território mineiro, como
parte do Projeto de Mapeamento Cartográfico do Brasil,
executado pelo Serviço Geográfico do Exército Brasileiro. Lavras era uma das
bases aéreas, com seu campo de aviação de pista encascalhada. O piloto
norte-americano não falava uma única palavra em português e gostava de ver-me
esforçar praticando o idioma inglês. Doava-me gasolina azul para a moto-Vespa, naquele
período de voo, em 1966, apenas dois anos antes do uso que fiz daquelas mesmas
fotos para fins profissionais, as quais foram feitas por ele, em seu avião
especial e que tanto me fascinava. Pelo menos uma vez eu o levei de volta ao
hotel, de carona na garupa da moto-vespa, pois se adiantara muito e o taxi que
o buscaria ainda demoraria bastante. Por conta disso, meu trabalho naquelas
montanhas geladas de Ouro Preto e em
várias outras do estado de Minas, tinha um sabor especial para quem conhecia a
história e o valor daquelas fotos aéreas, suas origens, o modo como foram
feitas, capturadas de avião e que, então, estavam ali em meu próprio auxílio,
como novidade técnica indispensável ao nosso trabalho.
Embora por algumas vezes as montanhas e campinas mineiras se
apresentassem hostis, até mesmo com a presença de animais silvestres, cobras
venenosas, onças e o famoso lobo Guará que habita as florestas da Serra do
Caraça, nunca tivemos nenhum acidente grave, de jeep ou a pé. Apenas aqueles
atoleiros e pneus furados. Um dos pneus,
novinho, foi cortado por pedra pontiaguda, no encascalhado que pavimentava a
estrada de Lagoa Santa à Serra do Cipó. O corte foi grande e o inutilizou, mas,
por sorte não estourou e foi se esvaziando devagarinho, a tempo de parar o jeep
sem perigo. Deus na sua Sabedoria e Bondade, só deixou gravadas nos escaninhos
da alma as boas lembranças. E as lembranças do Jeep Willys bege são recorrentes
e quase sempre de paz na alma, alegria, ali nas alturas das serras mineiras e
seus riachos, muitos transpostos a vau, no seu leito de cascalho e água
chegando ao estribo e nunca sem antes checar a profundidade com uma vara, como
se estivéssemos fazendo uma batimetria para cálculo do volume de água. Tempos
depois, sempre que sobrevoava aquelas regiões em voos comerciais, em modernos
jatos e confortavelmente assentado, ficava a contemplar as maravilhas que Deus
colocou ao nosso dispor. Impossível não nos lembrarmos aqueles duros dias de
trabalho no campo, usando o companheiro de tração 4x4 e chegando ao topo das
montanhas alterosas da nossa querida
Minas Gerais. Ainda assim, após tantas dificuldades e perigos, não havia como
não apreciar, admirar e se extasiar com as
belezas que se descortinavam à frente, respirando aquele ar puro e leve com a
brisa e cheiro das matas. O cansaço, depois de longo e extenuante dia de
trabalho, era compensado ao chegar em casa, em BH ou mesmo nos frequentes
pernoites em Ouro Preto. Nossa alma se enchia de paz, com alegria no coração,
mente leve, flutuando, depois de muito meditar e ficar encantado ali no alto das
montanhas e até nos parecia que aqueles lugares elevados e silenciosos, nos
aproximavam de Deus. Medos? Sim, às
vezes, mas, até neles sentíamos o sabor da vitória por enfrentá-los e vencer,
sempre agradecidos a Deus. Talvez por isso mesmo sempre quis ter aquele Jeep na
minha garagem. Foram tempos marcantes e suas memórias são carregadas de
sentimento. Pura reminiscência, amor que exala da alma. Ainda bem que, depois
de minhas duras e irônicas respostas aos impertinentes inquiridores, ninguém
mais ousou perguntar-me sobre as razões para comprar um velho Jeep Willys..., para
ficar na garagem!
Serra do Curral? Torres de telecomunicações da Embratel? Nunca mais...
e os locais mais altos que ali voltei a frequentar foram pontos bem abaixo do
topo da montanha, como o Belvedere e o
alto do Palácio das Mangabeiras, de onde também se tem ótima vista da cidade e
ainda se passa pela Rua do Amendoim. Rua
famosa por supostamente os carros rodarem morro acima, desligados e em ponto
morto e para completar, dizia-se que isto só funcionava à noite, quando os
casais de namorados por lá ficavam. Pura ilusão de ótica, fui lá conferir,
levando uma clinômetro, pequeno aparelho que usávamos para medir declividades
para o traçado de curvas de níveis e construção dos terraços para contenção de
enxurradas nas lavouras. Havia sim, um pequeno trecho quase nivelado, mas que
dava a impressão de aclive, pois ao final se confundia com a verdadeira subida.
Pura ilusão de ótica. O que se pensava que era subida, era na verdade descida,
ainda que em pequeno declive, medido e conferido...
Passou-se o ano de 1968, deixei BH, a capital dos mineiros, voltei para
minha cidade natal, onde fui ser professor de engenharia rural, construções e
saneamento ambiental na Universidade Federal de Lavras. Ali, também andei de
jeep e rural Willys. Sete anos depois fui transferido para Brasília, para atuar
no Ministério da Educação. Aqui, sob o regime da “esgravatura”, com terno e
gravata de 12 a 15 horas ao dia e constantes viagens a todos os estados do país
e exterior, em mais de vinte países, notadamente Estados Unidos e França onde
permanecia por semanas a cada semestre, o menino pediu arrego. Não aguentou a
escravidão diária da gravata, em salas com ar condicionado. Acostumado que foi ao trabalho direto na
natureza, queria um lugar especial, uma chácara para lazer, com pés no chão,
botina, plantações, jardins, passarinhos e animais domésticos, cães, cavalos e
galinhas caipiras. Assim fez, adquiriu uma chácara e nela construiu casa, lagos
e caprichado paisagismo, tudo que
lembrava a vida rural da infância e juventude e até mesmo os lindos canteiros
de flores da cidade de BH, dos quais cuidou durante um ano inteiro, quando lá
trabalhou numa empresa de paisagismo e planejamento agroflorestal. Não à toa
trouxe de sua terra natal mudas de várias plantas ornamentais, cana-índica de
cores variadas, ipês, cipó rosa, acácia
rosa (trazida da principal alameda do campus histórico da ESAL/UFLA), jatobá,
espirradeira, primavera, quaresmeira roxa, buganvília,, espatódea e a pata-de-vaca
(Bauhínea), espécie arbórea de médio porte que plantei e cuidei no enorme
estacionamento/praça da CEMIG em Sete Lagoas-MG, no sopé de uma montanha.
Também trouxe mudas de pêssego, maçã, pera, ameixa e outras fruteiras, além de
mudas de café, produzidas na ESAL/UFLA, das variedades Catuaí, Mundo Novo e o lindo Bourbon amarelo,
docinho com sabor de infância e lembranças das aulas do saudoso paraninfo de
formatura na Agronomia, Prof. Paulo de Souza, também chefe da Estação
Experimental de Lavras, especializada em pesquisas do café.
O sufoco da cidade grande, Brasília, e a pesada carga de trabalho, levavam-me a um destino certo para os finais de semana, a nova chácara onde construí meu paraíso da infância e juventude. O poeta Mário Quintana nos ensinou que "a gente continua morando na velha casa em que nasceu”. Assim, trouxe da cidade natal um carro de boi original, doado por um sobrinho e ainda, o arado de aiveca -u relíquia da família e que pertencera ao nosso pai. Veio também um moinho e torrador de café (plantei 11.000 pés de café, em experimento pioneiro em Brasília, juntamente com outro colega lavrense , Eng. Agr. Paulo Menicucci Castanheira). Em São João Del Rey (Prados) fui buscar uma roda de fiar, carda e outros apetrechos próprios da fiação de lã e algodão, iguais aos que minha mãe utilizava na fazenda para produção de fios coloridos destinados à fabricação de colchas de lã, ótimas para enfrentar o rigoroso frio do sul de Minas. Juntei tudo e aqui chegou em transporte fretado, a mil quilômetros de distância e os instalei na chácara.
.. e a velha casa onde
nasceu o menino tinha carro de boi, arado de aiveca e roda de fiar que
pertenciam aos pais e agora trazidos para a chácara em Brasília. O poeta Mário
Quintana sabia ler a alma de todos
nós...
... a roda de fiar, usada por nossa
mãe, costume dos ancestrais portugueses para fiação de lã e algodão, para
confecção de colchas que nos abrigavam no frio cortante do sul de Minas. Os jardins
também representam a velha casa, cercada de canteiros de jasmim, begônias,
rosas , dálias, copos de leite (lírios) e tantas outras flores do gosto da
família. Tudo isso acariciava, tocava profundamente a nossa alma, saudosa da
casa em que nascemos e que nunca a abandonamos. Ah..., os poetas sabem cantar a
alma... Ainda seguindo os conselhos dos mestres da saudade, como outro grande
escritor, Marcel Proust, romancista e memorialista francês que escreveu a
maravilhosa obra “Em busca do tempo perdido”, o menino fez pista de aeromodelismo, em lembrança
à prática nos finais de semana em sua terra natal, no campo de futebol do
Colégio Aparecia, defronte à sede do Tiro de Guerra. Ar, Terra e Água, os três
elementos da Natureza sempre presentes na vida do menino e, por isso, também
não podiam faltar na chácara os lagos para pesca e trilhas anfíbias com o jeep.
Importante, também, um cavalo mangalarga marchador, para cavalgadas nos
arredores e um aeromodelo para pilotagem no aeroclube local.
Por terra, a cavalgada num Mangalarga Marchador,
ou no Jeep 4x4. No ar, me aventurava nos pequenos aviões.Nas montanhas ou ainda na água rasa, com o Jeep é mais
seguro
que um barco no mar.
Na terra, no solo, todas as atividades de produção artesanal de frutas, hortaliças, café e principalmente o caprichado paisagismo, gosto adquirido em BH, quando cuidava dos jardins da cidade e do gramado do Mineirão. Também construímos, para deleite dos netinhos e seus amiguinhos, um moinho movido por força hidráulica, na verdade uma roda d´água que funcionava o tempo todo, girando pela força da pequena queda da bica d´água, instalada no rego que abastecia a chácara.
Café, cujas
mudas, da espécie Arábica, nas variedades Catuaí e Rubi (de cor amarela) foram
adquiridas de colega engenheiro agrônomo, de Lavras, aqui residente, produziam
excelente bebida e com razoável produção. Saudade pouca é bobagem e tudo foi
importado, trazido da terra natal.Mas, faltava algo, mesmo com os lindos jardins de flores, com requintado paisagismo que explora os espaços gramados, árvores floríferas e frutíferas que atraem pássaros e outros animais como até mesmo o lobo-guará que ia se deliciar comas bananas no pé, ou os tucanos e araras a comerem castanhas, lagos e benfeitorias inteiramente integrados ao ambiente.
Paisagismo na chácara também fazia parte das velhas casas onde vivemos – Lavras e BH,
especialmente os ipês amarelos que formam verdadeiros tapetes
dourados no chão seco do Planalto Central.
Faltava algo além do paisagismo, benfeitorias e dos animais como os pássaros, cavalos, cães e outros bichos naquele paraíso. Estava incompleto e para ser fiel a Proust e Mário Quintana, e então dei cabo a uma constante saudade, reminiscência que aflorava a toda hora. Surgiu a ideia de se comprar um Jeep. Era o que faltava para fechar o conjunto da velha casa onde moramos e a carregamos para o resto da vida. Afinal, já havia construído três lagos artificiais, faltava apenas de tamanho maior e que serviria de pista anfíbia para “mergulhos” a bordo do jeep, à semelhança daquela experiência profissional de atravessar córregos a vau na região de Ouro Preto, ou seja, enfrentando o leito do riacho e seus buracos na correnteza. E foi assim que depois de alguns anos da dura “esgravatura” que, às vezes, nos obrigava a compromissos sociais à noite ou em fins de semana, além de prolongadas estadas no exterior, decidi, definitivamente, comprar o “prometido” Jeep Willys 4x4. Casualmente fui a um pequeno arraial, próximo à chácara, em um mercadinho e avistei, estacionado, um lindo Jeep bege, igualzinho ao Pafuncio que eu tanto gostava de dirigir em BH e em toda a Minas Gerais. Estava sem a capota e por isso suas linhas graciosas e por demais conhecidas pelo menino, se destacavam e me interessaram muito. Me aproximei, examinei-o e decidi esperar pelo dono. Não demorou e ele apareceu, um jovem estudante da UnB. Quer vender, perguntei de supetão. Uéh, quanto você está disposto a pagar? Não sei, diga quanto quer. Ele pediu o equivalente a cinco mil e quinhentos dólares. Ofereci quinhentos a menos, cinco mil dólares à vista. Negócio fechado. E nem me importei mais com as impertinente perguntas do porquê e para quê um jeep. Marcamos encontro para o dia seguinte na casa do vendedor, na 308 Sul, quadra modelo de Brasília, onde eu havia morado por um ano e meio logo que cheguei de mudança, vindo de Lavras. Lindo lugar, com a Igrejinha de Fátima, referência mundial da arquitetura de Oscar Niemeyer. Examinei a documentação, seguimos para o Detran e fizemos a transferência do veículo e dali nos dirigimos a uma agência bancária, onde procedemos a respectiva transferência do pagamento, direto para a conta do vendedor.
Era o ano de 2004, mês de janeiro, chuvoso, bom para testar o
presentinho que o menino acabara de dar a si próprio. Jeep Ford-Willys, motor
original Hurricane, importado, ano de fabricação 1976, cor bege, igualzinho ao Pafuncio
original, de BH e foi logo assim batizado aquele irmão idêntico e apenas dez
anos mais novo. Feliz da vida levei-o para a casa e no final de semana foi para
a chácara. Que prazer dirigir e relembrar os tempos nas montanhas das Minas
Gerais. Ao colocá-lo na garagem, relembrei-me de Mário Quintana: "a gente
continua morando na velha casa em que nasceu". Pura verdade, o ninho onde fomos criados com amor fala
mais alto, e está sempre presente em nossas mentes. Ali estava mais uma peça
que compõe essa casa imaginária da infância e da juventude.
O SUV/Blazer, de apoio, sempre acompanha o passeio,
com suprimentos, cabos de aço para reboque, pneus especiais sobressalentes e
ferramentas para reparos de emergência e possíveis desencalhes, vai que...
Agora sim, já tinha um brinquedinho que, em breve poderia compartilhar
com as crianças. Revisão completa, instalação de freio a disco, direção
semi-hidráulica, daquelas usadas em Chevrolet Opala, aquisição de pneus
exageradamente lameiros, típicos off-road, usados pelos aficionados por trilhas
em terrenos íngremes ou desertos arenosos, e ainda o principal acessório, o
snorkel, tubo elevado, com filtro de aspiração de ar para o carburador. Esse
equipamento é indispensável para travessias de cursos d´água com o jeep
semi-submerso. Essa seria a principal aventura e para tanto, construí um novo
lago, bem grande e com estrada submersa encascalhada no fundo para evitar
atolamento total. O menino-criança (como dizia Rubem Alves... os velhos se
tornam crianças...) estava mais que empolgado, pois seria uma aventura e tanto
e tinha certeza de que, tanto as
crianças, como os adultos, iriam adorar “navegar” com o jeep sem capota,
sacolejando e espalhando água e lama por todos os lados, com “rodovia” submersa
que o próprio jeep, recém-comprado, ajudou a construir. Uma pista com mais de
100 metros de comprimento, construída com todas as técnicas da engenharia
hidráulica e rodoviária, aprendida na pós-graduação numa das mais conceituadas
escolas do país, a Escola de Engenharia de São Carlos/USP.
O vertedouro da barragem foi
construído em estrutura de concreto armado, e podia-se controlar o nível da
água no lago, de acordo com a intensidade da emoção desejada: água cobrindo
apenas as rodas do veículo ou mais elevada, até a cintura do motorista. Esta
era a mais emocionante pois chegávamos a flutuar nos bancos e batia o medo do
desconhecido, com água para todos os lados. Mas, na construção da pista
submersa, já havíamos previsto tais “sustos de brusca submersão”, pois a
construímos com pequenos trechos em forma de tobogã, com altos e baixos,
justamente com esse objetivo, causar
sustos. E estes poderiam ser de maior ou menor monta, bastando controlar o
nível da comporta de água no vertedouro. Em qualquer dessas situações o
desempenho do motor não mudava muito, pois o snorkel, mais alto que o para-brisa, evitava o famoso calço
hidráulico que é a entrada de água nas partes do motor. Vir em velocidade com o
jeep e mergulhar na lagoa já era, por si, uma sensação indescritível. Agora,
some-se a isto o susto do mergulho do jeep com água acima da cintura... Haja
fôlego e domínio do pânico. Gritos de todos os jeitos eram ouvidos e os adultos
sempre foram mais escandalosos, pois seus gritos de pavor podiam ser ouvidos a
quilômetros, ocasionando até congestionamento na via paralela, de acesso às
demais chácaras. Todos queriam ver aquele “acidente” do jeep que “caiu” na
lagoa cheio de gente gritando apavorados. O impacto inicial do jeep com a água
era mesmo de se assustar, voava água para todos os lados e lama por cima dos
passageiros do compartimento traseiro do veículo anfíbio...
O jeep na lida, ajudando a construir o vertedouro
regulável da barragem
A rua de acesso às chácaras vizinhas, foto abaixo era paralela à margem do lago, numa extensão de mais de 200 metros. O pânico e a gritaria dos passageiros novatos, naquela trilha anfíbia, eram notados pelos motoristas que passavam pela rua. Paravam para oferecer “socorro” às vítimas do suposto “acidente” aquático”. Verdadeira aventura à la Indiana Jones e depois do susto, a alegria das crianças..., incluindo aquela de cabelos grisalhos...
Na foto abaixo, vista privilegiada do lago, a partir da rua vizinha, especialmente em dia de trilha aquática, com gritarias e água subindo por cima do jeep e das crianças na carroceria. Ao fundo a floresta que plantei em 2002, já adulta em 2017. Paraíso construído, reproduzindo a casa, o local em que nascemos e passamos a infância cheia de experiências e aventuras coloridas.
Pista encascalhada, submersa, com mais de 100 metros de comprimento pelo lado direito do lago, cheia de altos e baixos, que o próprio jeep Pafuncio ajudou a construir e depois ali passava em velocidade, como numa montanha russa com redemoinhos de água para deleite das crianças.
É
preciso ter a sensibilidade de Quintana, Rubem Alves e Marcel Proust para
entender por que os velhos se tornam crianças e recriam seus paraísos perdidos.
Trilhas pelas
estradas da zona rural eram frequentes, como também no arraial onde o jeep foi
visto pela primeira vez que o encontrei, flertei e comprei. A enorme antena de
rádio amador, instalada no para-choque traseiro tremulava com bandeirola e
fitas verde-amarelas. O rádio era um luxo, pois se podia falar até mesmo na
cidade de Brasília, pois havia
interconexão à rede telefônica nacional, via Estação-Radio- Base da LABRE- Liga de Amadores Brasileiros
de Rádio Emissão. Era só apertar o PPT ("Push-to-Talk"), anunciar
PX-9 Alfa ...92 e solicitar conexão com telefone número tal, tal. Um achado, a
salvação para a zona rural desprovida de qualquer outro meio de comunicação,
pois a telefonia celular somente foi instalada em Brasília no ano de 1990 e um
pouco mais tarde na zona rural (1994), com
o caríssimo “tijolão Motorola PT-550, que custava o equivalente a R$ 15
mil ou cerca de 12 mil dólares. Pouco depois surgiu o concorrente Nokia. Por
isso, o rádio faixa-cidadão instalado no jeep, antes da chegada e popularização
da telefonia celular e conectado à rede fixa de telefonia nacional e
internacional, fazia grande sucesso onde
quer que se chegasse com o Pafuncio. Falávamos frequentemente no Peru, EUA,
França e Itália. Os amigos ficavam fascinados, ouvindo nosso diálogo com o
mundo inteiro em outros idiomas e a alegria contagiante dos interlocutores
estrangeiros, e mais ainda, quando, a pedido, fazíamos ligações para seus
parentes na cidade. Coisa inédita nos sertões do Brasil Central, ou seja,
falar, à partir da zona rural com seus parentes e amigos na distante cidade,
via radio-telefone, ali mesmo no jeep, no meio do mato.
Mas, as
diversões com o jeep incrementado não paravam por aí. Cavalos-de-pau eram
executados ali na ampla área do campo de futebol contíguo à lagoa. Nesta,
preguei uma grande peça nas crianças, novatas n o rally. Entramos na lagoa em
baixa velocidade e aos gritos de advertência: Cuidado, crianças, segurem
firmes, água à vista. Voou água para todos os lados após o impacto inicial e,
bem no meio do lago, desliguei a tração dianteira e acelerei. As rodas
traseiras patinavam e jogavam água e lama por sobre as cabeças das crianças, já
com olhos arregalados. Não tem jeito, crianças, o jeep atolou e não sai mais
daqui! Vovô, nós vamos descer para empurrá-lo... . Vocês estão loucos? E o jacaré
que mora aqui na lagoa? Vai devorá-los... Instalou-se o pavor na criançada. Meio
arrependido pelo exagero, em segundos
engatei novamente a tração dianteira e o jeep saiu de mansinho... Foi assunto
por muito tempo e elas foram recomendas pelos pais a não mais andar de jeep com
o avô, para lá de doido. A mãe de uma das crianças, Renata, de espírito
aventureiro, a ponto de ser levada para alto mar em seu caiaque, aos dez anos
de idade e ser resgatada por um aparato considerável do Corpo de Bombeiros de
Guarapari, e não contente, alguns anos depois, saltou de parapente, da Pedra da
Gávea, aterrissando na praia de São Conrado, contou para sua filha, uma das vítimas da aventura do jeep na lagoa, que, certa vez
em Lavras e com menos de oito anos de idade, eu a levara para passear a cavalo, na fazenda
do avô. Região muito montanhosa e na subida de uma forte ladeira, o arreio virou
e a jogou ao chão. Sorte que caiu do lado de cima do ladeirão, sobre o capim
macio e o cavalo, muito manso, parou imediatamente e serviu de anteparo. Mas,
se tivesse caído para o lado contrário, teria rolado pirambeira abaixo até cair
dentro do grande reservatório de água, a barragem sobre a qual havíamos acabado
de passar. Puro descuido deste avô ao arrear o cavalo, não apertou a
barrigueira o suficiente e por isso..., completou a mãe da vítima, eu que sou
filha dele já sei dos perigos..., finalizando o sermão à filhinha e sobrinhos...
“parece doido, não o acompanhem mais nessas aventuras” ( como se ela também não
fosse aventureira de mar e parapente... rsrs). Doido coisa nenhuma, e
relembrei-me, mais uma vez, do poeta, Rubem Alves , que disse que os velhos se
tornam crianças, que só veem a alegria
nas coisas e atos do momento. Descuidam de tudo o mais, bem ao estilo do vovô
que se tornou criança junto aos netos.
A antena de radio-amador com bandeirola verde-amarela e galão militar, para gasolina adicional, são essenciais em qualquer trilha, seja nas montanhas, nas planuras do cerrado do Planalto Central ou em atoleiros naturais ou construídos especialmente para diversão. Um hobby, mas antes de tudo, um mimo para a saudosa alma de quem passou boa parte da vida com a presença de um Jeep Willys como este.
Pafuncio, gasto ou investimento?
O Jeep Pafuncio
tem servido para minhas reflexões sobre os valores da vida. Esse “retiro”, na
calmaria e beleza da natureza, também se faz necessário devido à agitação da
vida em grandes cidades, sobretudo na capital federal onde as relações,
inclusive de trabalho, perpassam pela vertente política. É uma verdadeira selva
de pedra e com todas as demais mazelas próprias como trânsito caótico e
crescente violência que nos deixam estressados e até neuróticos. Nele e ali na
calmaria da chácara, me reencontro como “pessoa” em minhas reflexões,
pois, também o trabalho demasiadamente
intelectual e desenvolvido com elevado padrão de ética, exigindo profunda e
completa imersão nas questões, nos leva à exaustão. E essa exaustão é mais
acentuada quando nos comunicamos em outros idiomas, especialmente quando
estávamos em missões no exterior. Não bastasse a exaustão mental, a intensa
demanda profissional como professor e conferencista em estratégias para a
formação em Engenharia e Agronomia, nos empurrava, quase sempre, para o isolamento
do convívio social, devido ao tempo consumido nessas atividade. Assim, diante
do esgotamento mental, ainda que breve, só mesmo o “paraíso” de Quintana e Proust,
reforçado pelas teses de Rubem Alves, para recarregar nossas baterias. Mas, nem
pensem que sou saudosista extremado, são apenas “surtos” de saudade, pois não
sou daqueles que desejam que o tempo retorne e que se volte à época dos arados
de aiveca (conheci tratores ultra-modernos nos EUA, onde trabalhei, dotados, já
em 1977 de GPS, TV e ar condicionado na cabine). Não desejo a volta dos carros
de bois, dos cavalos como meios de transporte ou a iluminação à lamparina, a
pena e o tinteiro com o mata-borrão para escrever cartas a serem levadas por
mensageiros ou, ainda, no transporte e viagens usar exclusivamente o duro e
desconfortável Jeep Willys. Não há nada mesmo, com certeza, que eu desejasse
hoje como era antigamente. A tecnologia e a modernidade aí estão para nos
proporcionar maior conforto e bem-estar. Melhor viajar num jato de 4 ou 400
lugares, jantando em Nova York ou Paris e tomar o café da manhã no Rio de
Janeiro, como já o fiz várias vezes em viagens de trabalho e é superlegal. Ou
então rodar num SUV importado, com ar condicionado, mídia e GPS, usar o celular
ou a internet para se comunicar com o mundo inteiro por áudio, mensagem ou
vídeo, ao vivo, instantaneamente. Muito melhor e mais confortável que esperar o
mensageiro a pé, a cavalo ou de trem e barco, ou andar léguas para se encontrar
o interlocutor ou destinatário. Mas, nem por isso devemos desprezar o passado.
Devemos olhá-lo com respeito e admiração, pois se constitui em verdadeiro
aprendizado que valoriza o progresso de hoje e nos impulsiona para o amanhã. Ah..., e tem mais, a saudade é apenas “um
buraco dolorido na alma”, a presença de uma ausência. A gente sabe que alguma
coisa está faltando. Saudade é o amor que fica. Meu Jeep voltará para a casa
onde nasci, pois tudo tem seu tempo. Levarei de volta as relíquias para a
origem. O arado de aiveca, que aqui está e pertenceu a meu pai, também voltará,
e este já tem destino: o Museu Rural de Lavras, criado pelo saudoso colega,
museólogo Ângelo Delphim.
Afinal,
comprei um Jeep..., um sonho, um afeto pessoal, como intitulado nesta crônica. Tem
sido ou foi um bálsamo para alma, às vezes cansada ou simplesmente estressada. Às
favas os questionamentos descabidos do porquê comprar um jeep. Desfrutei desse mimo,
afeto merecido para descanso com as lembranças da infância e da juventude que surgem
como ferroadas implacáveis, com doloridas reminiscências que somente são
aplacadas com as lambidas no doce da vida. E há, porventura, melhor “doce” do
que reviver as coisas doces da vida? E na data de hoje, seguindo o figurino da
finitude, decidi doar a um sobrinho esse brinquedinho que será bem cuidado, ali
na fazenda onde nasci. Melhor lugar não haverá para essa relíquia, mimo de
tantas e tão doces recordações. Por ironia do destino, ali na fazenda da
família, ficará abrigado no galpão das antigas tulhas de armazenamento e
beneficiamento de café, construído exatamente sobre o local, onde uma dia o Sr
Duti, fazendeiro de Nepomuceno, cidade vizinha, levou e estacionou um reluzente
e novinho jeep dessa mesma cor, bege, para vender a meu pai. Me lembro, como se
ainda fosse hoje, da frustração do menino de dez anos, diante da não realização
do negócio. O Sr Duti impôs uma condição, só faria o negócio se recebesse seis
juntas de bois de carro, um preço muito elevado para a época, naquele ano de
1955. Mas, o negócio não se realizou nem
tanto pelo preço, mas pelo fato de que meu pai não poderia dispor de seus bois,
verdadeiros motores de cargas e tração de arado para o preparo do solo, numa
época em praticamente inexistiam tratores para substituí-los nos trabalhos da
fazenda. Ali estará o meu Pafuncio e quando eu lá for, o verei sobre o solo
onde um dia o garoto sonhou em dirigir e nele passear pelos campos. Tenho
certeza de que será bem cuidado e estará à minha espera para uma escalada à
Serra da Bocaina. Assim, a despedida que dele farei, quando o despachar para a
terra natal, certamente não será uma despedida final e sim um até breve,
enquanto não chegarem minhas cinzas que serão depositadas ao pé do ipê amarelo,
ao lado da janela do quarto ende nasci, naquela mesma e saudosa fazenda, onde
estará o jeep.
A
vida é assim, devemos nos tornar crianças, especialmente na finitude, com a
certeza de que a vivemos com amor e alegria. Graças a Deus. Amém!
Brasília,
11 de janeiro de 2025
Paulo
das Lavras
Um trato depois da trilha em barro ou nos campos do cerrado
e morrotes...
A fascinação pelos jeeps é uma constante. Aqui, no
Museu da 2ª Guerra Mundial, no local de desembarque das Tropas Aliadas, nas praias
da Normandia- França.
... e bota paixão... Aqui, num desfile militar de 7 de Setembro em Brasília.
Tomei de assalto (sentimental e de afeto), do filho de um ex-pracinha, o jeep e
o capacete de guerra. Pura emoção
ao relembrar nossos Pracinhas na guerra, na Itália.
No QG do Exército em |Brasília. Dia do Soldado, com
capacete da 2ª Guerra Mundial
e os recrutas uniformizados à caráter e o velho jeep
de guerra.





















