domingo, 23 de agosto de 2026

Mães do mundo

 

 
Mariinha aos 18 anos 


Há pessoas que vêm ao mundo para servir, cuidar de outras, de seus semelhantes, especialmente dos familiares mais próximos. irmãos mais novos e sobrinhos. Nunca pensam em si próprias. Renunciam a tudo para se dedicarem a cuidar dos mais necessitados. Conheci duas dessas mulheres, à quais chamo de “mãe do mundo”, pois acolhem a todos que precisam de cuidados. Hoje falarei de uma delas. Nascida em 24 de agosto de 1938, pele bem clara, olhos azuis, cabelos pretos anelados, à moda italiana, linda, muito linda aquela moça descendente de portugueses que aportaram em Lavras no ano de 1750 em busca do ouro e aqui se estabeleceram definitivamente. Dos 20 aos 25 anos recusou dois casamentos com rapazes dos mais disputados pela meninas de então, colegas de colégio. Rapazes ilibados, “um pão”, como elas diziam, no início dos anos 60. Além de frequentar os melhores colégios da cidade, ambientes requintados da arte do saber e da cultura,  havia também os saudáveis pontos de lazer,  como os bailes no Clube de Lavras, as concorridas sessões de finais de semana do Cine Brasil, o footing na Praça Augusto Silva, o jardim de Lavras onde as caminhadas, ou “desfiles” se separavam por faixas etárias, os jovens adolescentes, no local chamado “Redondo”, pois circulava um lago com fonte luminosa. O segundo local do footing era o chamado “Rela”, passarela lateral, na calçada da rua da histórica Igreja do Rosário (fundada em 1754 ). Neste, as moçoilas de 18 anos davam mil voltas, flertando com os guapos rapazes, ali parados, de pé, em grupos apreciando o movimento e lançando olhares e sorrisos para as garotas. Havia  ainda, um terceiro local na praça do jardim, chamado de “passarela dos namorados”, defronte ao Colégio Kemper (comemorando neste mês de agosto, 157 anos de fundação), situado do lado oposto à Igreja do Rosário. Sua calçada era ampla e dispunha de vários bancos de cimento, muito disputados pelos casais. Ali, a nossa homenageada de hoje, que apelidamos de mãe do mundo, se divertia com as colegas de colégio e o namorado, naquele início dos anos 60.                    

Aquela linda praça da cidade, com requintado paisagismo e arborização centenária, era de fato o  point daquela sadia juventude dos anos 60, época em que a TV estava engatinhando, no preto e branco, pois a TV em cores só surgiu no Brasil em 1970.  Tudo isto a garota viveu, mas optou, talvez por força das circunstâncias, por renunciar a todos os convites próprios da juventude, inclusive ao noivado com  um bonito rapaz também de olhos azuis, iguais aos seus e de origem italiana. ele seria transferido para a cidade de Volta Redonda, onde assumiria o posto de gerente de uma grande loja comercial. Foi sua primeira renúncia em favor da família. E novos pretendentes não faltaram. Relataram-me que onde ela estivesse presente, nas festas juninas do colégio, ou qualquer festinha com hora dançante em casas de família ou no clube (assim eram chamadas os encontros de jovens naqueles idos tempos), não sobrava rapaz bonito para ninguém, pois ela era cortejada o tempo todo, a mais bonita, clarinha, olhos azuis e cabelos ondulados bem pretos, fazendo aquele célebre estilo das atrizes italianas de então.

Éramos crianças de 8 a 15 anos, estudantes em colégios da cidade. Nosso pai passava a maior parte do tempo na fazenda e ficávamos, mãe, filhos e agregados na grande chácara, próxima à Estação de Costa Pinto. Quatro irmãs e duas tias estudavam no Colégio de Lourdes. E mais tarde uma delas, transferiu-se para o Instituto Presbiteriano Gammon, onde se formou em Contabilidade, no ano de 1961. No Colégio de Lourdes, as madres e professoras carinhosamente as chamavam de “as seis moças da família Abreu”. O carinho delas era tão grande que a própria diretora do Colégio e muitas das freiras frequentavam nossas casas na cidade e na fazenda, levando algumas das meninas do internato para esses passeio dominicais na fazenda e chácara, repletas de frutas e cavalos para cavalgadas. Me lembro que fiquei admirado, aos 15 anos, ao ver a Irmã Marcelina, uma das diretoras, cavalgar galopando num mangalarga marchador, para espanto de todos que temiam por ela.

O instinto de servir ao próximo, inato em poucas pessoas neste mundo, mais uma vez predominou quando, inesperadamente, nossa mãe nos deixou, prematuramente. Adveio a segunda grande renúncia à vida particular, pois assumiu de vez a responsabilidade pela família, ali na grande casa da chácara, na cidade. A nova  matriarca, de apenas 25 anos cuidava de todos, inclusive dos primeiros sobrinhos que já haviam chegado e aumentado a família. Assim permaneceu por mais de uma década, até que todos nós nos formássemos na faculdade e seguíssemos vida própria. Encaminhados os irmãos, mudou-se para a fazenda e foi cuidar de nosso septuagenário pai, renunciando pela terceira vez ao direito à vida própria e dele cuidou por todo o tempo de sua abençoada longevidade de 101 anos. Parece que Deus nos recompensou pela falta prematura de nossa mãe, concedendo-nos mais tempo para convívio com nosso pai... cento e um anos de vida!

E hoje, neste 24 de agosto de 2026 presto minhas homenagens, quando ela completa oitenta e oito anos de vida, inteiramente dedicados a cuidar da família. Maria José de Abreu, é o nome de minha querida irmã, carinhosamente chamada de Mariinha, e a qual apelidei de “Mãe do mundo”, que a todos acolhe. Cuidadora inata, nos braços da qual, com um último abraço, partiram nossa mãe e nosso pai e que ainda hoje cuida de seus tetranetos, filhos de seus bisnetos de coração, sem nunca buscar aplausos ou recompensas.  Seus “filhos, netos, bisnetos e tetranetos”, certamente estarão, hoje e sempre, a lhe cumprimentar com muito carinho e gratidão por toda a sua dedicação e amor ao longo de tantos anos.

Saúde! Que Deus lhe conceda muitas bênçãos e que nunca lhe falte o afeto, recompensa merecida, pois nunca ninguém percebeu que aquela menina que aprendeu a ser forte também precisava de colo, sentia-se sozinha, mesmo rodeada de pessoas.

Meu abraço, de parabéns pelo seu aniversário.

 

Brasília, 24 de agosto de 2026

Paulo das Lavras 


 

Uma de suas amigas dos tempos de colégio, disse: onde a ela estivesse, num baile,

 festa ou até mesmo na porta do Colégio, não sobrava rapaz bonito para ninguém...





sexta-feira, 31 de julho de 2026

Uma despedida diferente

 

478.382 visualizações no Blog, em 31/07/2026 (blogger report)


   “A alma dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!”


 

Subi na plataforma daquele enorme veículo de transporte de carga, semienterrado na trincheira recém escavada pelo trator , servindo de rampa de acesso. Conferi as amarras, as cintas de travamento nos quatro pontos bem tensionados pelas catracas de ajustes. Cinco toneladas, cada uma, era o quanto resistiam aquelas cintas de nylon, disse-me o motorista. Recuei os retrovisores da preciosa carga, colocando-os em posição paralela ao para-brisas, de forma mais protegida para a longa viagem de quase 1.000 km. Tampa do capô e cambão de reboque travados, o para-brisa sem a capota, idem, tudo certo e ajustados. Também a grande e bonita antena do rádio amador, faixa-cidadão, de dois metros de comprimento, estava bem afixada e ainda ostentando em sua extremidade duas ou três tiras em verde e amarelo, remanescentes dos garbosos  desfiles de 7 de Setembro ou na ventania das trilhas pelo cerrado afora. Quatro pneus sobressalentes, borrachudos, tratorados, especiais para trilhas em áreas alagadas, areião ou íngremes montanhas, estavam bem-dispostos e travados no assoalho da plataforma. Tudo em ordem! Um último afago e dolorido adeus para aquele que viajaria como passageiro especial até o seu destino final, no sul de Minas. Uma viagem sem volta. Permaneci a seu lado por alguns instantes naquela posição de afago sobre o metal frio, mas que para mim tinha alma, a alma de um menino que gostava de brincar e pregar peças memoráveis em outras crianças.  A emoção com sinais de travamento no menino começou a tomar conta desde o momento em que o trator começou a escavar enorme vala e aterro lateral para o embarque daquele jeep de tantas histórias. Buraco enorme e a cada palmo que se aprofundava, mais parecia estar escavando uma cova para ali enterrá-lo. Triste pensamento, bobo, descabido, mas, agora e ainda bem, ali em cima da carroceria, os devaneios eram outros. As imagens afloradas do subconsciente levaram-me a recordar, como num filme a cores, as aventuras ali mesmo na chácara, no imenso lago artificial, bem à frete, com mais de 100 metros de comprimento, onde, com as crianças à bordo, fazíamos trilhas aquáticas com água ao nível dos assentos, fazendo-o jogar lama a grandes alturas para espanto e deleite dos pequenos passageiros, agarrados às barras de segurança. Olhos arregalados e todos sujos de lama que escorria desde o alto de suas  cabeças. Gargalhando ao extremo, matreiramente eu desligava a tração dianteira e assim mais ele derrapava e afundava, lançando lama para todos os lados e à grande altura. Parecia atolar cada vez mais e diante da suposta e “apavorante impossibilidade” dali sair, as crianças gritavam: vovô..., vovôoooh...,vamos descer e empurrar o jeep! Era exatamente o que eu esperava ouvir e para assustá-las ainda mais, gritava imediatamente...Nãaaoooo...! Aí tem jacaré feroz...! Silêncio estarrecedor, olhinhos implorando misericórdia e imediatamente religava a tração nas quatro rodas e nos “salvávamos milagrosamente”. Gritaria geral..., o herói salvou-nos do naufrágio... Crianças são bençãos de Deus em nossa vida. Rubem Alves tinha razão quando disse: As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!”

    

     

O Jeep ajudou a construir a lagoa que serviu para as trilhas aquáticas com as crianças.

Acabou-se aquele doce tempo, lá se vão mais de vinte anos e antes que eu acordasse dessas doces reminiscências, o motorista do caminhão, que percebeu a situação, gritou lá de baixo... Tudo certo, ancorado e travado? Sim, tudo nos conformes, bem ancorados e travados. Porém, não disse a ele que havia uma peça fora dos eixos, que estava mais travada que todos os itens de segurança checados, conferidos rigorosamente  para a longa viagem noturna.... E essa peça travada, o coração, foi capaz de desestabilizar a alma de quem despachava aquela preciosa carga para seu destino final, bem longe.... Era, sem dúvida uma carga carregada de afeto, de sentimentos, emoção, companheira de lazer, depositária de muitas lembranças da vida do menino. Estava, sim, entranhado aquele sentimento de despedida, de quase perda, coração dolorido e destravá-lo levaria dias. Convenhamos, despedidas não são fáceis, sobretudo quando pressentimos o início de uma nova etapa de nossa vida.  Rubem Alves,  poeta, escritor e renomado filósofo da Unicamp e que viveu parte de sua vida em Lavras, minha cidade natal, onde ministrava aulas no Instituto Presbiteriano Gammon, descreve as diversas etapas sentimentais de nossa vida.  Disse ele:

  “Os velhos quando sentem que a finitude está chegando começam a doar suas coisas, pequenos pertences, mimos”.

 Era exatamente o que estava acontecendo, ali, naquele instante, pois doei meu velho Jeep Willys a um sobrinho que dele cuidará, ali na fazenda onde nasci. Mas, continua o filósofo Rubem Alves...,  “as pessoas que doam seus pertences querem ser lembradas pelos entes queridos. Sabem que vão partir e aquela joia, ou objeto de estimação, ficando nas mãos do ente querido representa a sua lembrança, a perenidade de sua existência”.  Assim é a alma humana  e ele, o poeta filósofo, a retratou muito bem.  Não foi diferente aqui, pois chegando aos 80, na reta da última etapa da vida, esta foi a primeira doação de uma de minhas joias, cheia de sentimento. Joia que habita o escaninhos de minha alma, sem dúvida um dos mais importantes de todos os “brinquedos” que já tive. Desci da plataforma depois de um último afago e senti a trava dolorida na alma, ameaçando a estabilidade emocional do menino, prestes a desabar.

Já iniciava a noitinha e o caminhão partiu levando o jeep, deixando para trás sua história. Como um pai que, no passado, despachava o filho para o distante internato, pedia ao motorista que desse notícia da chegada ao destino, também pedi ao motorista do caminhão, Guilherme, que desse notícia assim que chegasse. Entrei em meu carro e acompanhei a viagem até os primeiros 10 km, já no escuro da noite, na rodovia iluminada que exibia a silhueta daquele que me acompanhara e me alegrara durante muito tempo em meu dourado exílio de Brasília, pois, na figura daquele jeep, relembrava os tempos de menino e de jovem engenheiro nas montanhas do Caraça, Rola Moça, Itambé e Serra do Cipó. O jeep que ali usava era igualzinho a este de hoje que também apelidei de “Pafuncio”, xará daquele dos trabalhos em BH, no distante ano de 1968. No novo Pafúncio brincava com os netos. Pura emoção! Agora, naquela noite de 15 de janeiro de 2026, seguia o caminhão com o jeep em sua carroceria e enquanto dirigia meu SUV, naquele curto trajeto, com lampejos de luz neon, despertou em meu subconsciente as imagens da chegada à Brasília, exatos 50 anos antes. O caminho, no entanto, agora era inverso. Daquela vez,  me deslumbrei com a feérica iluminação em tom amarelado do vapor de sódio das lâmpadas, avistadas do alto da chegada pela BR 040, mostrando o contorno da cidade em forma de  asas de avião. Agora, em sentido contrário, o farol iluminou uma placa rodoviária indicando o sentido à esquerda: Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e o caminhão à frente, com o jeep a bordo, contornou à esquerda o balão (rotatória) e rumou para o  sul de Minas, levando de volta à minha cidade natal  um pedaço de minha alma. Mais uma vez, uma lágrima furtiva escorreu pela face, naquele último adeus e sumiu na escuridão da estrada. Mas, para meu consolo, o jeep tinha destino certo, pois ficaria em boas mãos e sua memória sempre lembrada. Ainda hoje, decorrido já algum tempo de sua partida e sempre que chego à chácara nos finais de semana, encontro sua vaga na garagem vazia e aquela mesma trava, que me surpreendeu no alto da carroceria no dia de sua partida, volta com mais força e age como gatilho que destrava o subconsciente de doces recordações. Assim é a vida!  

   

Foram mais de 10 minutos seguindo, ao cair da noite, o caminhão com aquela preciosa carga. 
 Sem dúvida, uma despedida diferente


          Mas, para melhor entender a intensidade desse sentimento, é preciso compreender onde e quando tudo começou. Há 50 anos, na madrugada de 05 de agosto de 1975, cheguei à Brasília, de mala e cuia, como dizem os mineiros. Dirigia o próprio carro e mais tarde, por volta do meio-dia, no aeroporto, já estava recepcionando a família que chegava de Belo Horizonte. Por sorte e mera casualidade, encontramos ninguém menos que o fundador da nova capital, que ainda contava apenas 15 anos de vida... Sim, Jk, em pessoa, que também desembarcava do mesmo voo de minha família. Atencioso, gentil, cumprimentou-nos, a mim e meu irmão que me acompanhava e ainda pude dizer-lhe um elogio sobre a linda cidade-parque, Brasília, que ele criou. Bom presságio ser recebido pelo grande estadista e fundador da cidade. Ele, de sua parte, se desmanchou em sorrisos sinceros e agradeceu minha saudação. Mais um aditivo ao entusiasmo do menino que chegava à capital federal com toda energia e empolgação. Ficaria aqui, à serviço no Ministério da Educação-MEC, apenas três ou quatro anos, enquanto durasse o governo de então, com o Ministro Nei Braga, que nos convidara a trabalhar na gestão do ensino agrícola superior, recém-transferido do Ministério da Agricultura para o MEC. A Universidade Federal de Lavras - UFLA aprovou nossa transferência e providenciou o transporte da mudança que também chegara naquela manhã de 05 de agosto. Concluído o período de governo, os planos de volta à UFLA foram interrompidos na manhã do dia 15 de março de 1979, ali no mesmo aeroporto de Brasília. Este aeroporto, no qual embarquei e desembarquei por mais de 1,500 vezes, só me proporcionou alegrias. Fui designado para recepcionar o novo Ministro da Educação, Eduardo Portella,  ao pé da escada do avião da Varig, pois não havia ainda as rampas telescópicas, os chamados fingers e os desembarques ocorriam na pista. Procedente do Rio, dei-lhe as boas-vindas e  apresentei-me ao novo ministro que se empossaria logo mais. Agradeceu a recepção e foi logo dizendo que sabia do sucesso dos programas de desenvolvimento do ensino agrícola superior, que administrei nos últimos quatro anos e que queria contar com a minha participação em seu ministério. Deduzi que algum assessor do gabinete do MEC informara previamente ao ministro Eduardo Portela sobre quem iria recepciona-lo ao pé da escada do avião, dai já ter engatilhado o convite. Cabe lembrar que naquele tempo eram poucos os executivos de Brasília e cada Ministério tratava de recrutar pessoal qualificado em suas representações nos estados da federação. No caso, do MEC, as fontes de recursos humanos eram a universidades federais, de onde recrutavam-se professores para desempenhar funções executivas em Brasília. Pois bem, foi-me formulado o convite, ali mesmo ao pé do avião, para permanecer no Ministério da Educação. Surpreso, aceitamos de pronto o convite do ministro  e o conduzimos ao carro oficial, que se dirigiu ao hotel e mais tarde ao Congresso Nacional para a solenidade de posse do novo governo, seguindo-se então, para o Palácio do Planalto, onde foram empossados seus ministros. No final daquela tarde houve a transmissão do cargo de Ministro, no próprio Ministério da Educação. Entrava Eduardo Portella e saía o Ministro Euro Brandão, que substituiu interinamente Ney Braga, o qual supostamente havia nos recomendado ao novo ministro, em face do bem-sucedido programa de desenvolvimento  do ensino agrícola superior. O sucesso do treinamento de docentes no país e exterior, a ampliação da oferta de cursos de pós-graduação em ciências agrárias e por consequência, houve expressivo progresso nas pesquisas agrícolas, e isto repercutiu de maneira muto positiva em todo o país,  principalmente no Ministério da Agricultura, que sempre se apoiava nas universidades agrícolas para o treinamento e formação de seus técnicos e pesquisadores da Embrapa, já em grande ascensão no cenário mundial. Durante o discurso de posse do ministro, pudemos entender mais claramente a razão de seu convite para minha permanência na gestão do Ensino Agrícola Superior, no MEC. Ele havia elegido como uma de suas metas no ministério, a capacitação e valorização dos docentes, meta que fez parte, e com muito sucesso, dos programas de desenvolvimento da educação agrícola superior, então executados pelo MEC. Assim, estava garantida a nossa permanência em Brasília por mais cinco anos, aliás, ali naquele Ministério,  permaneci por trinta e quatro anos.

 Tudo começou aqui, em 05/08/1975, com a chegada da família em Brasília. Duas meninas
 com as babás e a caçula no colo da mãe, chegaram no mesmo voo que Juscelino Kubitscheck


        Abortado bruscamente o plano de retorno a Lavras, havia que se pensar em algo que aliviasse  a dor de abandonar a terra natal e mais que isto, o estresse de se viver em cidade grande, onde tudo que se respira é política e todos são estranhos, vindos de outras terras, outros estados, com outros costumes e sem vínculo afetivo algum. Por outro lado, a “escravidão” do terno e gravata, de 12 a 15 horas diariamente, manhã, tarde e noite em jantares e recepções de ofício, de segunda à sexta feira e às vezes aos sábados e até mesmo aos domingos, com idas ao aeroporto para recepcionar os mais de 120 gringos que chegavam, um a um todas as semanas, com direito a briefing e debriefing. Era estafante dar apoio logístico a todos eles, a troca de dólares por moeda nacional, check-in em hotel e toda a assistência necessária para seus primeiros dias (não falavam português). Tudo isto com pontualidade britânica e sem margem para erros, portanto,  era de fato envolvente e estressante, pois, embora contássemos com equipe suficiente, além da supervisão e coordenação, sempre participávamos das reuniões, quando se tratavam de planos de pesquisas e orientações de teses em cursos de pós-graduação aqui e nos EUA. Lógico, tudo isto além dos 200 dias de viagem/ano visitando universidades por aqui e nos Estados Unidos, onde tínhamos 250 professores da área de ciências agrárias cursando programas de PhD em 32 universidades norte-americanas que demandavam nossas visitas de trabalho.  Com esse preâmbulo historiando a nossa permanência em Brasília, torna-se fácil entender as razões das buscas por lazer à moda antiga: a aquisição de uma chácara para descanso nos finais de semana. A solução para aliviar o estresse veio dois anos depois com a aquisição da almejada chácara, onde pudéssemos relaxar com plantas, paisagismos e animais. E nessa chácara aconteceu o previsto até mesmo pelas palavras de poetas, escritores e filósofos: “a gente continua morando na mesma casa que nasceu...”. Como assim? Explico, segundo os especialistas, temos a tendencia de reproduzir nossos brinquedos, nossas lembranças da infância e Rubem Alves ainda foi mais direto, afirmando que:

 “os velhos, cansados da mesmice e agruras da vida, se tornam crianças para se curar da adultite. E para tanto, “é preciso tomar chá de infância, virar criança de novo.... Os poetas desejam voltar às suas origens. É lá que mora a verdade que os adultos esqueceram. Fogem da loucura da vida adulta. Buscam reencontrar a simplicidade da infância. Para se curar da adultite é preciso tomar chá de infância, virar criança de novo”.

Foi assim que, logo adquirimos uma chácara na zona rural de Brasília, numa  região de vale fértil, cercado por pequenas montanhas, coisa rara, aliás, no planalto central, o que me levava às reminiscências das montanhas alterosas das Gerais, onde passara toda minha vida. Mãos à obra,  construí e reproduzi tudo que havia nas fazendas onde vivi, a começar por bonitos jardins, água corrente, lagos,  carro de boi e arado de aiveca trazidos da fazenda em Lavras. Não faltaram os lagos construídos, matas reflorestadas, pomar com várias fruteiras, incluindo peras, marmelos e maçãs, tão comuns nas regiões serranas do sul de Minas, mas que não se negaram a produzir por aqui no Planalto Central. No reino animal, as galinhas, o cavalo marchador, cães de diferentes raças, não faltavam, além da presença de aves silvestres, até mesmo tucanos, araras, curicacas, carcarás, quero-quero, pombas do mato  como a asa branca que sempre apareciam para se aproveitarem da abundância de frutas que ali plantamos. Para não perder o costume de agrônomo havia também plantios de hortaliças, milho, feijão cana, mandioca, bananas. O café mereceu destaque especial com vários pés em franca produção, com maquinário próprio para beneficiamento dos grãos, torrefação em fogão a lenha e moagem em moinho típico das fazendas. Nada ali foi esquecido, até mesmo a máquina manual para moagem da cana e produção do caldo tão apreciado pelas crianças após uma pescaria nos lagos bem ao lado. Para meu próprio deleite, construí um moinho de brinquedo, movido pela bica d´água. Finalmente chegou a cereja do bolo, o Jeep Willys antigo, reformado e em plena forma para fazer trilhas nas montanhas, matas e no lago especialmente construído para essa finalidade.

O tempo passou, os netos cresceram e o jeep permaneceu na garagem por muito tempo. Chegou a hora de doar nossos mimos para aqueles que nos sucedem. Vivo num exílio dourado em Brasília, onde alcançamos as glórias do trabalho de toda uma vida profissional. Aqui criamos a família que é o maior bem de nossa existência. O castelo imaginário da infância foi trazido para cá, construído, vivido e compartilhado com os netos.  O jeep foi também protagonista de toda a minha vida, desde a infância nas fazendas, passando pelos anos de vida profissional da agronomia e agora como peça sentimental, de afeto para a alma. Seguirá para o local onde passei os dias mais felizes de minha infância e ali estará bem cuidado, à espera da visita que, de certa forma, será sempre desejada.

Uma despedida diferente, sem dúvida! Um misto de saudade e a certeza de que o tempo chegou. Há tempo para tudo, diz a bíblia. Mas, ainda que distante no espaço, aquele mimo será revisitado para afago na alma. Alma de menino que nunca deixou a casa em que nasceu e sabe que a felicidade está nessas pequenas coisas da vida. Amém!

 Brasília, 31 de julho de 2026

Paulo das Lavras


O jeep estava sempre preparado para trilhas ou simples passeios nos finais de semana. Cambão dianteiro para reboque, galão de 20 litros, acoplado e abastecido de combustível  para reabastecimento, pois o possante e original motor Hurricane, rendia apenas 04 km/li e seu tanque comportava somente 40 litros.

 

 

 O embarque na chácara para a longa viagem de quase 1.000 km 

 

 “Boa noite, Sr Paulo, estamos aqui para desembarcar o jeep”. Foi a curta e esperada notícia,  via zap, daquela longa viagem de 24 horas. O Pafuncio chegou, são e salvo, bonito, tal qual saiu de Brasília. 
Foto – Guilherme, motorista 16/01/2026


 Um bom banho de lava-jato  à chegada e a garagem a lhe esperar, no mesmo galpão que 
         construí em 1972, na fazenda do Retiro dos Ipês, bem ao lado da janela do quarto onde nasci
  













fotos nr ... 8 a 13


 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Famílias que se entrelaçam, vínculos que ficam para sempre



   Nascer e viver em Lavras é privilégio. A Terra do Ipês e das Escolas ensinou-nos a cultuar, respeitar aqueles que a ela se dedicaram. Ali aprendi a admirar a família Haddad, e dentre tantos, o Dr Orlando Haddad se destacava, ainda nos anos de 1950, quando o menino de 12 anos, estudante do Colégio Aparecida, foi levado ao seu consultório, no térreo de sua casa, ali na Praça Augusto Silva, a principal da cidade. Havia sofrido uma queda, em jogo de futebol, no próprio Colégio e dali foi levado ao médico, com suspeita de fratura no antebraço. Ao chegar em casa, com o braço engessado pelo próprio médico e relatar o ocorrido, com ênfase no tratamento recebido no consultório médico, ganhei uma aula sobre a vida e a dedicação daquele que me tratara como se filho fosse, com tanto carinho e atenção, embora não tivesse conseguido conter o choro por tanta dor, antes do raio X e aplicação de analgésicos. Aprendi, assim,  com meus pais que o próprio Colégio onde estudava e aconteceu o acidente corriqueiro e sem grandes consequências, teve como um dos fundadores o próprio Dr Orlando Haddad que, juntamente com meus avô, Anísio (Gaspar) Alves de Abreu, contribuíram financeiramente, como acionistas, para a fundação do colégio, em novembro de 1941. Ano seguinte, logo no mês de março, foram iniciadas as aulas daquele educandário que funcionou até o ano de 1985, dando origem ao UniLavras. Por isso,  o prestativo e caridoso Dr Orlando, contribuía com seus serviços de assistência médica  gratuitamente, ali no Colégio Aparecida, disseram os meus familiares. Além disso, era também um dos médicos da família. Desde então, convivi com a família do Dr Orlando. Seus filhos, Hélio e Rui foram meus contemporâneos de colégio. Ambos seguiram a carreira do pai, a Medicina. O outro filho, o mais jovem, Orlandinho, desde cedo demonstrava sua paixão pela música e seguiu esta careira nos Estados Unidos. Se os dois primeiros escolheram  a arte de curar as feridas do corpo, o caçula se dedicou à arte da música, remédio da alma. Família abençoada!


(... em cnstrução...)

 

domingo, 31 de maio de 2026

Museu da Vitória – Força Expedicionária Brasileira: Requiem para o herói Cel. Nestor Silva

 

 
 Cel. Nestor Silva, expedicionário mais longevo da FEB, partiu ontem, 
aos 109 anos de idade. Figura exemplar que inspirou muitos jovens em nosso país. 
Foto do autor - 2014, solenidade Dia do Soldado - QGEx-Brasília, DF 


Aprendi desde criança a admirar os pracinhas brasileiros. Nos desfiles de 7 de Setembro sempre havia a ala dos pracinhas, verdadeiro pelotão de nossos veteranos expedicionários, que lutaram na 2ª Grande Guerra, na Itália. Quase sempre havia um antigo Jeep estilizado com os acessórios de guerra e alguns soldados uniformizado à caráter. Com o passar do tempo, a idade avançando, foram escasseando e passaram a desfilar em viaturas de época, enfeitadas com seus troféus de guerra, especialmente o emblema da “cobra fumando”.  Não foi diferente aqui em Brasília. Passei a frequentar os bastidores e a sala de estar, montada especialmente para eles, bem ao lado dos palanques oficiais. Foi ali que conheci o Cel. Nestor Silva, sempre com a vistosa boina azul, ostentando a logomarca da FEB, a “cobra fumando”, ele era um dos mais antigos, senão o mais antigo expedicionário da aviação do Exército Brasileiro. A aviação militar teve naquela guerra, o seu batismo de fogo, quando já ostentava a nova denominação de Força Aérea Brasileira-FAB, com atuação de destaque ao lado das forças norte-americanas nos campos de batalha italianos. 

O Cel. Nestor Silva, nos deixou hoje, aos 109 anos. Sim, cento e nove anos, pois nasceu em 1917 e era a simpatia em pessoa. O conhecia de longa data, desde os tempos em que levava meus filhos pequenos aos desfiles de 7 de Setembro e procurávamos os pracinhas para lhes dar um abraço de gratidão. Não faz muito tempo, ainda o cumprimentei e fizemos fotos, no QG do Exército em solenidades do Dia da Vitória. Nas solenidades dos 80 anos da FEB, lá estava ele a comemorar a data, pois, integrou as fileiras do 11º Regimento de Infantaria da FEB e foi promovido por bravura durante a Tomada de Montese. Participou de importantes batalhas também em Monte Castelo e Castelnuovo. Pela sua bravura, reconhecida oficialmente,  recebeu a mais elevada condecoração, a Cruz de Combate de 1ª Classe que somente é concedida a militares que demonstraram bravura excepcional diante do inimigo.

  Foi, sem dúvida alguma um dos mais notáveis veteranos da Força Expedicionária Brasileira-FEB.  Deixa um legado exemplar de disciplina e profissionalismo, tendo prestado grande serviço à Pátria, mesmo depois de aposentado. Sua  postura, caráter e empatia, influenciaram muitos jovens a seguir carreira no Exército, incluindo uma de minhas filhas, da primeira turma feminina de oficiais, ainda na década de 1990. Sua morte representa a perda de um dos últimos elos vivos com a geração de brasileiros que enfrentou os campos de batalha da Europa entre 1944 e 1945, disse o Exército em nota oficial.

Descanse em paz, guerreiro querido de nosso país e de muitos italianos! Que Deus conforte e continue a abençoando seus familiares. Amém!

 Brasília, 31 de maio de 2026

Paulo das Lavras


 
O Coronel Nestor Silva, comemorando seus 100 anos de idade 
Foto - arquivos da FEB


 
O Coronel Nestor Silva, em desfile de 7 de Setembro 
Foto - arquivos da FEB


 
A capela Ecumênica- Oratório do Soldado, no QGEx enfeitou-se com as flores naturais de buganvília para recepcionar o corpo do herói, o Cel. Nestor Silva, em sua despedida final. 
Foto do autor


 
 
Guarda de Honra - Dragões da Independência - RCG 
Foto do autor


 
Os Dragões da Independência, honram a chegada de um militar aposentado e esposa, 
com outros oficiais, à entrada do Oratório do Soldado. 
Foto do autor 


 
Soldados com uniformes usados nos campos de batalha 
 da Itália em 1944 e 1945. Homenagem ao grande guerreiro 
Foto do autor 




 Os símbolos da Vitória nas batalhas da 2ª Guerra Mundial, o capacete, cantil e 
 o coldre, com as bandeiras do Brasil e da FEB, estilizada com a figura da cobra fumando, 
como a nos lembrar sobre a bravura daquele soldado que um dia 
defendeu a nossa liberdade, em distantes terras. 
Foto do autor

 


 



 




 



 



 



 


quinta-feira, 30 de abril de 2026

O Retorno à terra onde nasci

 

 Janela do quarto onde nasci. Fazenda Retiro dos Ipês- Lavras MG. 
O Solo que me alimentou, guarda o umbigo do recém-nascido. 
Na finitude receberá as cinzas, que serão depositadas no mesmo lugar, 
embaixo da janela, à sombra dos ipês amarelos.  Amém!






 Lembra-te que és pó e em pó te tornarás. 
                                                                                                  Sejamos gratos ao solo,  ele nos alimenta 
                                                                                  na vida e nos acolhe na morte.  



As duas frases em epígrafe me tocaram profundamente, desde o primeiro instante em que as conheci pela primeira vez. A primeira delas é bíblica e já aos sete amos de idade a conhecemos pelas lições de catequese, ainda menino, mas capaz de entender seu profundo significado. A segunda demorou um pouco mais, foi logo no ingresso da faculdade de Agronomia, aos 18 anos. Nunca as esqueci, principalmente aquela sobre o amor ao solo. Nasci na fazenda e ali meu umbigo voltou para o solo. Cresci vendo a produção agrícola, o preparo do solo, a semeadura, adubação, irrigação, tratos culturais, colheita, secagem e beneficiamento dos grãos, para nosso consumo alimentar, a produção de ração que alimenta os animais que produzem leite, carne, ovos, couros e lã para nosso vestuário, além daqueles que serviam ao trabalho, como os bois de carro e cavalos para montaria de lazer e viagens pelas fazendas. Tudo isto e mais, tem origem no solo. Era dali que brotavam as sementes que produziam os alimentos básicos, frutas e até mesmo a Água que bebíamos e saciava a sede dos animais, servia para irrigação e produção de energia elétrica em usinas que iluminavam as fazendas e cidades. A trilogia água-solo-planta fazia a alegria de nossos pais que, em tudo davam graças ao Senhor ao verem a mesa farta, com todos a seu redor, inclusive convidados, era  a forma mais sublime de gratidão ao Criador. A harmonia e paz no campo é celebrada até pelos poetas e salmistas de todos os tempos.

 

Ah..., o Solo! Muitas são as razões para que sejamos gratos a ele. Tudo vem dele, nasce dele e poucos se dão conta disso. Nos dão água, alimentos, comida para os animais e madeira para nossas casas, além dos metais preciosos ou comuns como o ferro, alumínio , manganês e outros mais raros. Pode-se dizer, também, que ele é um dos fatores influentes na qualidade do clima, com abundância ou falta de florestas e água. Aprendi a admirá-lo desde a infância, estudei-o detalhadamente na Agronomia, sua fisiologia, morfologia e fertilidade, métodos de conservação e fertirrigação. Tudo para dele retirar o melhor e não o esgotar, pois, caso contrário, o levaríamos a se transformar em deserto, de areia inerte, imprópria para a produção agrícola,  alterando-se assim as condições de clima e temperatura ambiente. Assim, aprendi mais, muito mais do que apenas saber que tudo dele brota. Fazer experimentos na faculdade com diferentes tipos e qualidades do solo, adicionar doses programadas, variando as quantidades  e espaços entre as aplicações de fertilizantes para, em seguida ver, constatar as diferenças na rapidez do crescimmento e produção da planta, era fantástico, quase inacreditável. 

Pois bem, cresci em meio ao respeito ao solo onde nasci. Formei-me  nas ciências do solo, plantei florestas e mais florestas, dois milhões de árvores em todas as regiões do estado de Minas Gerais,   fruteiras mil, planejei fazendas de produção agropecuária, plantei e cuidei de mais de 120.000 pés de café em fazendas próprias e sempre com a gratidão ao solo que me alimentava e proporcionava elevado nível de qualidade de vida. Cuidei de ensinar em universidades públicas e privadas, e em Brasília, tive o privilégio de administrar a Educação Agrícola Superior, no Ministério da Educação, por mais de trinta anos. Pratiquei o bem, sempre, e defendi o Solo, de todas as formas, seja na sua direta conservação com práticas agrícolas sustentáveis ou proporcionando treinamentos e especializações no exterior, em cursos do PhD e pós-doctor a inúmeros docentes brasileiros. Também criamos cursos de graduação, mestrado e doutorado e, com isto, em apenas dez anos o cerrado brasileiro foi desbravado, alçando país como o primeiro produtor e exportador mundial de alimentos. Mas, agora, encerrada a carreira, distante da terra natal, onde aprendi a amar e a estudar o solo e seu potencial, e ciente daquela verdade bíblica , em epígrafe,  é hora de cuidar do retorno à terra onde nasci. Que ali repousem minhas cinzas, o pó que retornará ao pó da terra, Solo sagrado  que nos alimentou a vida inteira e guardou meu umbigo, naquele longínquo ano de 1945. As cinzas se juntarão a ele em sinal de respeito e amor. Este será o retorno definitivo. Para sempre, para o local que nunca deixou seu coração desamparado. Tenho certeza de que será uma volta sem igual, ao lugar de onde veio, reverenciando assim aquilo que meus pais cultivaram, conservaram e deixaram..., o Solo como legado de Vida.

 Amém!

 Brasília, 30 de abril de 2026

            Paulo das Lavras




domingo, 19 de abril de 2026

Dia do Índio – 2026

 

 
Tacape da tribo Xakriabá, de Januária-MG. 
Foto: do autor- Acampamento em Brasília-DF


O que comemorar neste 19 de Abril, data escolhida para se celebrar o Dia do índio? Provavelmente você irá ouvir apenas uma notícia de dez segundos na TV, simplesmente anunciando que hoje é o dia do índio. Nada mais, pois os índios só servem mesmo como massa de manobra para algumas ONGs inescrupulosas e políticos oportunistas. Nos últimos anos tenho acompanhado a movimentação indígena aqui em Brasília, a capital política de nosso país e o que vi e tenho visto é por demais decepcionante, triste mesmo. Vejam algumas das fotos que fiz, há alguns anos, na Esplanada dos Ministérios e outros locais da cidade. São, ou não, massa de manobras políticas?

A demarcação das terras indígenas é assunto que tramita no Congresso desde o ano 2000. Até mesmo antes disso os caciques Raoni e Juruna, das nações Kaiapó e Xavante, lutavam pela demarcação. Em 2013, 2014 e 2015 registrei as manifestações dos índios em Brasília. Nada ou quase nada progrediu. Em 2015 as manifestações atingiram seu auge, com várias nações indígenas, de todo o país, acampadas na Esplanada dos Ministérios. A 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). de 2026, aconteceu em Brasília de 5 a 11 de abril, reunindo milhares de indígenas. O  tema deste ano foi  “Nosso Futuro Não Está à Venda: a Resposta Somos Nós”. Em 2016 foram proibidos de acampar em Brasília. Há 26 anos, desde o ano 2.000, eles têm vindo à Esplanada dos Ministérios para celebrar o seu Dia. Pobres indígenas...,quase nada conseguem, servindo apenas de massa de manobra para aproveitadores. Ainda bem que nossas escolas ensinam às crianças a respeitarem os indígenas. Em casa, nosso ex-curumim adorava se fantasiar de índio. Da última vez, chegou em casa e não retirou o adorno, um cocar indígena. Certamente, podemos esperar dias melhores para nossos índios. E por isso, não desistimos, vamos comemorar, sim, o 19 de Abril- Dia do Índio.

 

 Brasília, 19 de abril de 2026

 Paulo das Lavras


Em 2014 um índio flechou um policial, durante as manifestações em Brasília. Tudo a ver: cavalo, soldado armado de lança, partindo para cima do indígena... Essa batalha ele conhece muito bem, na selva. Antes que a lança do soldado “pudesse atingi-lo”, tome flechada. no peito... Pura legítima defesa, em caso real, acontecido de fato. Faltou prudência da Polícia. 
Foto: - Correio Braziliense 


 Defesa dos indígenas em plena Esplanada dos Ministérios. 
O 19 de Abril de 2014 transformou-se em guerra. 
Foto: - Correio Braziliense 


 Tribo Tabajara, da Bahia, na Esplanada dos Ministérios. 
Foto: do autor 


 Tribo dos Guaranis, do Mato Grosso do Sul, na Esplanada dos Ministérios. 
Foto: do autor




Nos EUA só encontrei este índio da tribo Navajo, abraçando Mrs June Mills 
e Lacy, minhas assistentes em viagem à Tucson-Arizona
Foto: do autor


 Cacique Juruna com o cantor Sting, em Paris 
Foto: - Correio Braziliense

 

 
Meu pequeno curumim, em meu escritório, em casa, pesquisando sobre o Dia do Índio. 
Foto: do autor