Ontem eu
escrevi uma crônica intitulada “O amor que fica, Uma visita ao jardim do
passado”. Hoje, Dia de Finados, volto ao
tema, mas não para lamentar, chorar a partida de entes queridos. Todos eles
ainda estão no meu coração. Foram ali, apenas numa viagem e lá nos aguardam,
pois as lembranças gravadas na mente são indeléveis. Na história de ontem, na
algazarra das crianças disputando coragem para “viajar” dentro de um pneu de
caminhão, ladeira abaixo, que seria parado, interrompido, com enorme impacto da
muralha de pedra a uns 30 metros abaixo, faltaram as figuras dos pais e da irmã
que já se foram. A mãe partiu prematuramente, aos 49 anos de idade e a irmã
caçula aos 16 anos. Faltaram na crônica anterior? Não, pois, nos meus saudosos
devaneios, todos lá estavam. As irmãs fazendo vista grossa às aventuras dos
dois irmão, cercados de meninos das redondezas. Perigo? Sim, muito perigosa
aquela brincadeira, mas graças a Deus nunca aconteceu nada de pior. Só alegria
e porque não dizer a cumplicidade, os laços amorosos entre todos nós que ali
estávamos.
Assim, hoje,
não vou chorar ausências. Vou celebrar a graça imensa de ter sido amado por
eles. Meus familiares não partiram de vez; mudaram apenas de endereço,
transferindo-se para o cantinho mais bonito e protegido do meu coração. Ali
permanecerão para sempre!
Enquanto o
mundo lá fora veste-se de silêncio e de flores coloridas levadas aos
cemitérios, recordo que raramente fiz esse ritual nos últimos 50 anos. Entendo
que o verdadeiro altar, o mais sagrado e intocável, não fica sob lápides de
granito ou coroas de crisântemos; fica aqui dentro, no peito.
No entanto, eu
também visito cemitérios, ainda que raramente. Frequentei-os aqui, nos Estados
Unidos e na França. Nesses países, fui reverenciar aqueles que merecem nossa
eterna admiração: o soldado desconhecido, que tombou defendendo nossa
liberdade, e um Chefe de Estado americano. No Brasil, sempre procuro os
monumentos aos Pracinhas. Recentemente, participei dos funerais de um deles, o
lendário Coronel Nestor Silva, que faleceu aos 106 anos. Nessas visitas, sempre
me recordo daquele velho enunciado filosófico dos tempos de colégio: “Quando
você nasceu, todos sorriam e só você chorava; viva de tal modo que, quando você
morrer, todos chorem e só você sorria”.
No âmbito
pessoal, já enfrentei uma situação inusitada e dolorosa ao extremo, que não
desejo a nenhum amigo. Por exigência legal, presenciei a exumação de corpos de
pessoas queridas para a liberação do túmulo. Mesmo decorridos mais de cinco
anos do sepultamento, alguns materiais resistiram ao tempo. Identificar peças
de vestuário, longas próteses de titânio parafusadas no fêmur ou até mesmo
cabelos compridos foi um choque que doeu na alma. É impossível segurar as
lágrimas. Há emoção demais em contemplar o que restou de quem tanto nos marcou.
Passado o impacto, porém, desvio o pensamento para os momentos felizes que
tivemos juntos. Eles continuam vivos em cada gesto meu, em cada lembrança boa
que insiste em florir, bonita e teimosa, bem no meio desta gostosa longevidade
que desfruto.
Pensando
nessas idas e vindas, de repente a gente se vê na cabeceira da mesa,
transformado em guardião das histórias de uma família inteira. É uma
responsabilidade bonita e, ao mesmo tempo, solitária. Mas repito,
prazerosamente: solidão é palavra que não combina com saudade mansa. No fundo,
eu nunca estou sozinho, pois, como sempre digo, saudade é o amor que fica.
Sempre que
acompanho um amigo em seu adeus final, levo uma rosa vermelha, símbolo de amor
e gratidão. Faço questão de cumprimentar os familiares e explicar o simbolismo
daquele gesto simples. É assim que encaro a partida ao término de uma vida.
Esse mesmo sentimento me acompanhou, mesmo distante, no Cemitério Americano da
Normandia, na França, onde guardei silêncio diante de cerca de 10 mil soldados
que tombaram no fatídico Dia D da II Guerra Mundial. Mesmo distante aquela
guerra, meus pais também sofreram, por parentes e amigos, os pracinhas que para
lá foram lutar e ainda passaram muito medo com os aviões em sua fazenda, por
causa dos voos rasantes de pilotos do Aeroclube de Lavras, em treinamento para
a Guerra na Itália. Dois amigos não voltaram, repousam no Cemitério de Pistóia.
A simples homenagem que prestei,
presencialmente aos soldados sepultados na Normandia, também se estendeu aos
pracinhas brasileiros tombados na Itália.
Portanto,
neste Dia de Finados, reverencie quem partiu. Agradeça pela vida que
compartilharam e pelo legado que ficou. Hoje e sempre.
Amém!
Brasília, 02 de novembro de 2026
Paulo das
Lavras






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