segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Dia de Finados

 

Cemitério Americano da Normandia- França 
Foto do autor - 2013 Normandia/França 


Ontem eu escrevi uma crônica intitulada “O amor que fica, Uma visita ao jardim do passado”.  Hoje, Dia de Finados, volto ao tema, mas não para lamentar, chorar a partida de entes queridos. Todos eles ainda estão no meu coração. Foram ali, apenas numa viagem e lá nos aguardam, pois as lembranças gravadas na mente são indeléveis. Na história de ontem, na algazarra das crianças disputando coragem para “viajar” dentro de um pneu de caminhão, ladeira abaixo, que seria parado, interrompido, com enorme impacto da muralha de pedra a uns 30 metros abaixo, faltaram as figuras dos pais e da irmã que já se foram. A mãe partiu prematuramente, aos 49 anos de idade e a irmã caçula aos 16 anos. Faltaram na crônica anterior? Não, pois, nos meus saudosos devaneios, todos lá estavam. As irmãs fazendo vista grossa às aventuras dos dois irmão, cercados de meninos das redondezas. Perigo? Sim, muito perigosa aquela brincadeira, mas graças a Deus nunca aconteceu nada de pior. Só alegria e porque não dizer a cumplicidade, os laços amorosos entre todos nós que ali estávamos.

Assim, hoje, não vou chorar ausências. Vou celebrar a graça imensa de ter sido amado por eles. Meus familiares não partiram de vez; mudaram apenas de endereço, transferindo-se para o cantinho mais bonito e protegido do meu coração. Ali permanecerão para sempre!

Enquanto o mundo lá fora veste-se de silêncio e de flores coloridas levadas aos cemitérios, recordo que raramente fiz esse ritual nos últimos 50 anos. Entendo que o verdadeiro altar, o mais sagrado e intocável, não fica sob lápides de granito ou coroas de crisântemos; fica aqui dentro, no peito.

No entanto, eu também visito cemitérios, ainda que raramente. Frequentei-os aqui, nos Estados Unidos e na França. Nesses países, fui reverenciar aqueles que merecem nossa eterna admiração: o soldado desconhecido, que tombou defendendo nossa liberdade, e um Chefe de Estado americano. No Brasil, sempre procuro os monumentos aos Pracinhas. Recentemente, participei dos funerais de um deles, o lendário Coronel Nestor Silva, que faleceu aos 106 anos. Nessas visitas, sempre me recordo daquele velho enunciado filosófico dos tempos de colégio: “Quando você nasceu, todos sorriam e só você chorava; viva de tal modo que, quando você morrer, todos chorem e só você sorria”.

No âmbito pessoal, já enfrentei uma situação inusitada e dolorosa ao extremo, que não desejo a nenhum amigo. Por exigência legal, presenciei a exumação de corpos de pessoas queridas para a liberação do túmulo. Mesmo decorridos mais de cinco anos do sepultamento, alguns materiais resistiram ao tempo. Identificar peças de vestuário, longas próteses de titânio parafusadas no fêmur ou até mesmo cabelos compridos foi um choque que doeu na alma. É impossível segurar as lágrimas. Há emoção demais em contemplar o que restou de quem tanto nos marcou. Passado o impacto, porém, desvio o pensamento para os momentos felizes que tivemos juntos. Eles continuam vivos em cada gesto meu, em cada lembrança boa que insiste em florir, bonita e teimosa, bem no meio desta gostosa longevidade que desfruto.

 Com mais de oitenta anos, a gente olha para trás e percebe que a vida foi um sopro. A infância passou ligeira; a juventude voou como uma andorinha apressada. Concordo com o filósofo e poeta Rubem Alves quando diz que a vida não deve ser medida por batidas de coração ou ondas cerebrais; ela não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta essa possibilidade, o corpo transforma-se em uma casca de cigarra vazia — um morto-vivo, acrescento eu.

Pensando nessas idas e vindas, de repente a gente se vê na cabeceira da mesa, transformado em guardião das histórias de uma família inteira. É uma responsabilidade bonita e, ao mesmo tempo, solitária. Mas repito, prazerosamente: solidão é palavra que não combina com saudade mansa. No fundo, eu nunca estou sozinho, pois, como sempre digo, saudade é o amor que fica.

Sempre que acompanho um amigo em seu adeus final, levo uma rosa vermelha, símbolo de amor e gratidão. Faço questão de cumprimentar os familiares e explicar o simbolismo daquele gesto simples. É assim que encaro a partida ao término de uma vida. Esse mesmo sentimento me acompanhou, mesmo distante, no Cemitério Americano da Normandia, na França, onde guardei silêncio diante de cerca de 10 mil soldados que tombaram no fatídico Dia D da II Guerra Mundial. Mesmo distante aquela guerra, meus pais também sofreram, por parentes e amigos, os pracinhas que para lá foram lutar e ainda passaram muito medo com os aviões em sua fazenda, por causa dos voos rasantes de pilotos do Aeroclube de Lavras, em treinamento para a Guerra na Itália. Dois amigos não voltaram, repousam no Cemitério de Pistóia. A simples  homenagem que prestei, presencialmente aos soldados sepultados na Normandia, também se estendeu aos pracinhas brasileiros tombados na Itália.

Portanto, neste Dia de Finados, reverencie quem partiu. Agradeça pela vida que compartilharam e pelo legado que ficou. Hoje e sempre.

Amém!

 

Brasília, 02 de novembro de 2026

Paulo das Lavras  


 
A estrela de David para os judeus e a cruz para os cristãos 
Foto do autor – 2013 Normandia/França 


 
Memorial, no Cemitério Nacional de Arlington- Washington – DC 
Foto do autor – 1988 


 
Expedicionário Cel. Nestor Campos, celebrando 100 anos.
 Faleceu aos 106 anos de idade
Foto do autor, no QGEx  - 2020


 
Nossos heróis tombados na Itália.
Foto do autor- Memorial no Jardim de Lavras (Pça Augusto Silva) 


 
Neto de Samuel Gammon, em visita ao túmulo do avô, em Lavras-MG. Sam Gammon foi  
fundador da instituição de ensino precursora da  Universidade Federal de Lavras. 
 Gratidão eterna de nossa cidade a esse emérito benfeitor!   
Foto: Dan Gammon - 2017










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