As duas frases em
epígrafe me tocaram profundamente, desde o primeiro instante em que as conheci
pela primeira vez. A primeira delas é bíblica e já aos sete amos de idade a conhecemos
pelas lições de catequese, ainda menino, mas capaz de entender seu profundo
significado. A segunda demorou um pouco mais, foi logo no ingresso da faculdade
de Agronomia, aos 18 anos. Nunca as esqueci, principalmente aquela sobre o amor
ao solo. Nasci na fazenda e ali meu umbigo voltou para o solo. Cresci vendo a
produção agrícola, o preparo do solo, a semeadura, adubação, irrigação, tratos
culturais, colheita, secagem e beneficiamento dos grãos, para nosso consumo
alimentar, a produção de ração que alimenta os animais que produzem leite,
carne, ovos, couros e lã para nosso vestuário, além daqueles que serviam ao
trabalho, como os bois de carro e cavalos para montaria de lazer e viagens
pelas fazendas. Tudo isto e mais, tem origem no solo. Era dali que brotavam as
sementes que produziam os alimentos básicos, frutas e até mesmo a Água que
bebíamos e saciava a sede dos animais, servia para irrigação e produção de
energia elétrica em usinas que iluminavam as fazendas e cidades. A trilogia água-solo-planta fazia a alegria de nossos pais que, em tudo davam graças ao Senhor ao verem a mesa farta, com todos a seu redor, inclusive convidados, era a forma mais sublime de gratidão ao Criador. A harmonia e paz no campo é celebrada até pelos poetas e salmistas de todos os tempos.
Ah..., o Solo! Muitas são as razões para que sejamos gratos a ele. Tudo vem dele, nasce dele e poucos se dão conta disso. Nos dão água, alimentos, comida para os animais e madeira para nossas casas, além dos metais preciosos ou comuns como o ferro, alumínio , manganês e outros mais raros. Pode-se dizer, também, que ele é um dos fatores influentes na qualidade do clima, com abundância ou falta de florestas e água. Aprendi a admirá-lo desde a infância, estudei-o detalhadamente na Agronomia, sua fisiologia, morfologia e fertilidade, métodos de conservação e fertirrigação. Tudo para dele retirar o melhor e não o esgotar, pois, caso contrário, o levaríamos a se transformar em deserto, de areia inerte, imprópria para a produção agrícola, alterando-se assim as condições de clima e temperatura ambiente. Assim, aprendi mais, muito mais do que apenas saber que tudo dele brota. Fazer experimentos na faculdade com diferentes tipos e qualidades do solo, adicionar doses programadas, variando as quantidades e espaços entre as aplicações de fertilizantes para, em seguida ver, constatar as diferenças na rapidez do crescimmento e produção da planta, era fantástico, quase inacreditável.
Pois bem, cresci em
meio ao respeito ao solo onde nasci. Formei-me
nas ciências do solo, plantei florestas e mais florestas, dois milhões
de árvores em todas as regiões do estado de Minas Gerais, fruteiras mil, planejei fazendas de produção
agropecuária, plantei e cuidei de mais de 120.000 pés de café em fazendas
próprias e sempre com a gratidão ao solo que me alimentava e proporcionava
elevado nível de qualidade de vida. Cuidei de ensinar em universidades públicas
e privadas, e em Brasília, tive o privilégio de administrar a Educação Agrícola
Superior, no Ministério da Educação, por mais de trinta anos. Pratiquei o bem, sempre, e defendi o Solo, de
todas as formas, seja na sua direta conservação com práticas agrícolas sustentáveis
ou proporcionando treinamentos e especializações no exterior, em cursos do PhD
e pós-doctor a inúmeros docentes brasileiros. Também criamos cursos de
graduação, mestrado e doutorado e, com isto, em apenas dez anos o cerrado
brasileiro foi desbravado, alçando país como o primeiro produtor e exportador
mundial de alimentos. Mas, agora, encerrada a carreira, distante da terra
natal, onde aprendi a amar e a estudar o solo e seu potencial, e ciente daquela
verdade bíblica , em epígrafe, é hora de
cuidar do retorno à terra onde nasci. Que ali repousem minhas cinzas, o pó que
retornará ao pó da terra, Solo sagrado
que nos alimentou a vida inteira e guardou meu umbigo, naquele longínquo
ano de 1945. As cinzas se juntarão a ele em sinal de respeito e amor. Este será
o retorno definitivo. Para sempre, para o local que nunca deixou seu coração
desamparado. Tenho certeza de que será uma volta sem igual, ao lugar de onde
veio, reverenciando assim aquilo que meus pais cultivaram, conservaram e
deixaram..., o Solo como legado de Vida.
Amém!
Brasília, 30 de abril de 2026
Paulo das Lavras








