quinta-feira, 30 de abril de 2026

O Retorno à terra onde nasci

 

 Janela do quarto onde nasci. Fazenda Retiro dos Ipês- Lavras MG. 
O Solo que me alimentou, guarda o umbigo do recém-nascido. 
Na finitude receberá as cinzas, que serão depositadas no mesmo lugar, 
embaixo da janela, à sombra dos ipês amarelos.  Amém!






 Lembra-te que és pó e em pó te tornarás. 
                                                                                                  Sejamos gratos ao solo,  ele nos alimenta 
                                                                                  na vida e nos acolhe na morte.  



As duas frases em epígrafe me tocaram profundamente, desde o primeiro instante em que as conheci pela primeira vez. A primeira delas é bíblica e já aos sete amos de idade a conhecemos pelas lições de catequese, ainda menino, mas capaz de entender seu profundo significado. A segunda demorou um pouco mais, foi logo no ingresso da faculdade de Agronomia, aos 18 anos. Nunca as esqueci, principalmente aquela sobre o amor ao solo. Nasci na fazenda e ali meu umbigo voltou para o solo. Cresci vendo a produção agrícola, o preparo do solo, a semeadura, adubação, irrigação, tratos culturais, colheita, secagem e beneficiamento dos grãos, para nosso consumo alimentar, a produção de ração que alimenta os animais que produzem leite, carne, ovos, couros e lã para nosso vestuário, além daqueles que serviam ao trabalho, como os bois de carro e cavalos para montaria de lazer e viagens pelas fazendas. Tudo isto e mais, tem origem no solo. Era dali que brotavam as sementes que produziam os alimentos básicos, frutas e até mesmo a Água que bebíamos e saciava a sede dos animais, servia para irrigação e produção de energia elétrica em usinas que iluminavam as fazendas e cidades. A trilogia água-solo-planta fazia a alegria de nossos pais que, em tudo davam graças ao Senhor ao verem a mesa farta, com todos a seu redor, inclusive convidados, era  a forma mais sublime de gratidão ao Criador. A harmonia e paz no campo é celebrada até pelos poetas e salmistas de todos os tempos.

 

Ah..., o Solo! Muitas são as razões para que sejamos gratos a ele. Tudo vem dele, nasce dele e poucos se dão conta disso. Nos dão água, alimentos, comida para os animais e madeira para nossas casas, além dos metais preciosos ou comuns como o ferro, alumínio , manganês e outros mais raros. Pode-se dizer, também, que ele é um dos fatores influentes na qualidade do clima, com abundância ou falta de florestas e água. Aprendi a admirá-lo desde a infância, estudei-o detalhadamente na Agronomia, sua fisiologia, morfologia e fertilidade, métodos de conservação e fertirrigação. Tudo para dele retirar o melhor e não o esgotar, pois, caso contrário, o levaríamos a se transformar em deserto, de areia inerte, imprópria para a produção agrícola,  alterando-se assim as condições de clima e temperatura ambiente. Assim, aprendi mais, muito mais do que apenas saber que tudo dele brota. Fazer experimentos na faculdade com diferentes tipos e qualidades do solo, adicionar doses programadas, variando as quantidades  e espaços entre as aplicações de fertilizantes para, em seguida ver, constatar as diferenças na rapidez do crescimmento e produção da planta, era fantástico, quase inacreditável. 

Pois bem, cresci em meio ao respeito ao solo onde nasci. Formei-me  nas ciências do solo, plantei florestas e mais florestas, dois milhões de árvores em todas as regiões do estado de Minas Gerais,   fruteiras mil, planejei fazendas de produção agropecuária, plantei e cuidei de mais de 120.000 pés de café em fazendas próprias e sempre com a gratidão ao solo que me alimentava e proporcionava elevado nível de qualidade de vida. Cuidei de ensinar em universidades públicas e privadas, e em Brasília, tive o privilégio de administrar a Educação Agrícola Superior, no Ministério da Educação, por mais de trinta anos. Pratiquei o bem, sempre, e defendi o Solo, de todas as formas, seja na sua direta conservação com práticas agrícolas sustentáveis ou proporcionando treinamentos e especializações no exterior, em cursos do PhD e pós-doctor a inúmeros docentes brasileiros. Também criamos cursos de graduação, mestrado e doutorado e, com isto, em apenas dez anos o cerrado brasileiro foi desbravado, alçando país como o primeiro produtor e exportador mundial de alimentos. Mas, agora, encerrada a carreira, distante da terra natal, onde aprendi a amar e a estudar o solo e seu potencial, e ciente daquela verdade bíblica , em epígrafe,  é hora de cuidar do retorno à terra onde nasci. Que ali repousem minhas cinzas, o pó que retornará ao pó da terra, Solo sagrado  que nos alimentou a vida inteira e guardou meu umbigo, naquele longínquo ano de 1945. As cinzas se juntarão a ele em sinal de respeito e amor. Este será o retorno definitivo. Para sempre, para o local que nunca deixou seu coração desamparado. Tenho certeza de que será uma volta sem igual, ao lugar de onde veio, reverenciando assim aquilo que meus pais cultivaram, conservaram e deixaram..., o Solo como legado de Vida.

 Amém!

 Brasília, 30 de abril de 2026

            Paulo das Lavras




domingo, 19 de abril de 2026

Dia do Índio – 2026

 

 
Tacape da tribo Xakriabá, de Januária-MG. 
Foto: do autor- Acampamento em Brasília-DF


O que comemorar neste 19 de Abril, data escolhida para se celebrar o Dia do índio? Provavelmente você irá ouvir apenas uma notícia de dez segundos na TV, simplesmente anunciando que hoje é o dia do índio. Nada mais, pois os índios só servem mesmo como massa de manobra para algumas ONGs inescrupulosas e políticos oportunistas. Nos últimos anos tenho acompanhado a movimentação indígena aqui em Brasília, a capital política de nosso país e o que vi e tenho visto é por demais decepcionante, triste mesmo. Vejam algumas das fotos que fiz, há alguns anos, na Esplanada dos Ministérios e outros locais da cidade. São, ou não, massa de manobras políticas?

A demarcação das terras indígenas é assunto que tramita no Congresso desde o ano 2000. Até mesmo antes disso os caciques Raoni e Juruna, das nações Kaiapó e Xavante, lutavam pela demarcação. Em 2013, 2014 e 2015 registrei as manifestações dos índios em Brasília. Nada ou quase nada progrediu. Em 2015 as manifestações atingiram seu auge, com várias nações indígenas, de todo o país, acampadas na Esplanada dos Ministérios. A 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). de 2026, aconteceu em Brasília de 5 a 11 de abril, reunindo milhares de indígenas. O  tema deste ano foi  “Nosso Futuro Não Está à Venda: a Resposta Somos Nós”. Em 2016 foram proibidos de acampar em Brasília. Há 26 anos, desde o ano 2.000, eles têm vindo à Esplanada dos Ministérios para celebrar o seu Dia. Pobres indígenas...,quase nada conseguem, servindo apenas de massa de manobra para aproveitadores. Ainda bem que nossas escolas ensinam às crianças a respeitarem os indígenas. Em casa, nosso ex-curumim adorava se fantasiar de índio. Da última vez, chegou em casa e não retirou o adorno, um cocar indígena. Certamente, podemos esperar dias melhores para nossos índios. E por isso, não desistimos, vamos comemorar, sim, o 19 de Abril- Dia do Índio.

 

 Brasília, 19 de abril de 2026

 Paulo das Lavras


Em 2014 um índio flechou um policial, durante as manifestações em Brasília. Tudo a ver: cavalo, soldado armado de lança, partindo para cima do indígena... Essa batalha ele conhece muito bem, na selva. Antes que a lança do soldado “pudesse atingi-lo”, tome flechada. no peito... Pura legítima defesa, em caso real, acontecido de fato. Faltou prudência da Polícia. 
Foto: - Correio Braziliense 


 Defesa dos indígenas em plena Esplanada dos Ministérios. 
O 19 de Abril de 2014 transformou-se em guerra. 
Foto: - Correio Braziliense 


 Tribo Tabajara, da Bahia, na Esplanada dos Ministérios. 
Foto: do autor 


 Tribo dos Guaranis, do Mato Grosso do Sul, na Esplanada dos Ministérios. 
Foto: do autor




Nos EUA só encontrei este índio da tribo Navajo, abraçando Mrs June Mills 
e Lacy, minhas assistentes em viagem à Tucson-Arizona
Foto: do autor


 Cacique Juruna com o cantor Sting, em Paris 
Foto: - Correio Braziliense

 

 
Meu pequeno curumim, em meu escritório, em casa, pesquisando sobre o Dia do Índio. 
Foto: do autor