É natural que pensemos que a
perda de um ente querido seja a maior dor que a vida nos reserva. Verdade, sejam os pais, irmãos, cônjuge ou um filho, estas
são mesmo as mais doloridas perdas a que estamos sujeitos durante a nossa
existência. Mas, afora essas situações, sobre as quais não temos nenhum
controle dos acontecimentos, há outras tão dolorosas e tristes quanto essas.
Alguém já teve que desfazer o guarda-roupa de um ente querido que nos deixou?
Triste, muito triste. Participei de um ato desse, logo após a cerimônia do
funeral de uma sobrinha muito querida, que partiu muito jovem, com apenas
trinta anos de vida. Suas irmãs cuidaram de separar os vestuários, dando-lhes destinação
a cada peça, um vestido, um calçado, uma bolsa, joias, bijuterias e acessórios.
A cada peça retirada do guarda-roupas seguia-se um ritual respeitoso,
comentando-se a origem daquela roupa, o dia em que foi comprar, ou provar na
costureira, quando a usou pela primeira vez, numa na festa ou outro evento importante e outros
detalhes que, no decorrer dos relatos, provocavam lágrimas de pesar, puro amor a aquela que
partiu e deixou seu quarto vazio, para sempre. Prova cabal de que a nossa casa
é tão querida não pelas suas paredes, móveis e fachadas. mas, sim pelo que nela
há: os entes queridos. Sem eles a casa é vazia de sentimentos, apenas um
abrigo.
Não suportei
mais que uns três momentos como esses do ritual descrito, de se retirar as peças
do vestuário e mimos espalhados pelo quarto, os comentários sobre seu
significado na vida daquela que partiu para sempre e decidir a quem doar. Duro
golpe na alma. Deixei o quarto e fui fazer companhia à minha irmã, mãe de minha
sobrinha, que também não quis presenciar aquela dolorosa tarefa. Para mim, a
mais triste das emoções foi quando abriram os pequenos baús de afeto, aquelas
caixinhas onde ficam guardadas as mais doces recordações, fotos antigas, convites
de formaturas, pequenos objetos de lembranças de outros entes queridos que
faziam parte de sua vida. Também é comum encontrar, nesse baú de afeto, uma
flor esmaecida que um dia enfeitou seu buquê de noiva, a primeira cartinha e foto de um filho ou sobrinho
querido, a correntinha de prata da festa dos 15 anos, cartas de amor recebidas
do namorado/noivo, recortes de jornal de datas festivas de sua vida e ainda as
fotos de parentes mais queridos. Lá estava uma foto minha, abraçado a ela. Quanto
amor, quanta saudade. Tudo que ali estava, naquelas caixinhas de afeto, foi
amorosamente distribuído entre os parentes e nada, nenhum objeto foi descartado
ou doado a outros que não os da família. Esta foi a minha primeira experiência
mais dolorosa que participei após a morte de um ente querido.
A
segunda experiência também muito dolorida, foi receber de minha família o chapéu,
de pelo de lebre, da famosa marca Ramenzoni, que meu pai usou até o dia em foi
hospitalizado, após uma queda, aos 101 anos de idade. Era o chapéu tradicional usado
por quase todos os fazendeiros e homens da cidade durante todo o século 20. Naquele
dia, no início do mês de dezembro de 2007, desembarquei em Belo Horizonte
depois de horas de atraso do voo e com isto não o alcancei ainda com vida. Cheguei
cerca de duas horas após seu passamento. Duro golpe, mas voltei para casa, dias
depois, com o mimo que caracterizava sua figura, o chapéu, que aparece em todas
as suas fotos.
Nesse
campo, de dores inevitáveis, enfrentei ainda um segundo tipo de dor também
associada aos entes queridos e que reabriram feridas passadas, que já estavam cicatrizando. Fui obrigado, por
lei, a participar da exumação de corpos em túmulo da família. A dura lei
determina que há necessidade de exumação dos corpos, depois de no mínimo cinco
anos de sepultamento, quando se precisa usá-lo novamente. No ato de exumação é
obrigatória a presença de um familiar e
coube a mim essa dolorosa missão, quando se precisou usar o túmulo para novo
sepultamento. Havia dois corpos de entes
queridos, em compartimentos separados no túmulo Portando máscara cirúrgica e
distante apenas um metro, acompanhamos toda a cerimônia, realizada com o máximo
respeito por parte dos profissionais. A retirada dos ossos, que são
acondicionados em caixa de plástico bem resistente, é anunciada e solicita-se a
atenção do parente, conforme determina a lei. Lacra-se a caixa, identificada com plaqueta
metálica, e em seguida é acondicionada nos fundos da gaveta do túmulo. Em cada
uma das duas exumações simultâneas, identifiquei peças de vestuários e até uma prótese de titânio no fêmur da
familiar que falecera justamente por causa de uma queda em casa. Ao rever os restos mortais de
cada um e poucas peças de vestuário, que ainda resistiam depois de mais de
cinco anos de sepultamento, invadiu-nos um sentimento de dor lancinante em
nossa alma e que ser nenhum é capaz de suportar sem que as lágrimas desçam. Não
é fácil encarar os restos mortais de entes queridos. A dor é em dobro, primeiro
por relembrar a partida, a perda e, agora, ali, a pensar no tempo já decorrido
daquela partida e a falta que eles ainda nos fazem, restando apenas a saudade
que, aliás, é o amor que fica, dizem os poetas e filósofos. Triste, muito
tristes essas doloridas surpresas que a vida nos reserva.
Duas
missões, profundamente dolorosas, que nos fazem reviver vidas perdidas para
sempre e pensar nos valores da nossa própria Vida. São as piores dores da vida.
Os corpos se transformam em pó, mas o
amor aos entes queridos é eterno! Eles se foram, porém, o luto da alma é a
saudade daqueles que pariram e que tanto amamos. A saudade..., ah..., ela é
apenas o amor que fica e dedico esta
crônica aos entes queridos que já se foram, em especial à memória de minha
jovem irmã, de apenas 16 anos, falecida nesse mesmo dia 30 de setembro, do ano
de 1959. Que Deus a tenha e a todos que partiram em paz!
Amém!
Brasília, 30 de setembro de 2026
Paulo das Lavras.
Clovis
Pereira da Silva, lúcido até os 101 anos de vida.
Na
foto em entrevista concedida à Força Aérea Brasileira – FAB, comemorando
seu
centenário de vida, em 2006, juntamente com a invenção do avião, em
feliz
coincidência que lhe granjeou a homenagem da Aeronáutica.
Foto:
Jornal da Secomsaer/MAer.


