quarta-feira, 30 de setembro de 2026

As mais tristes e doloridas surpresas que a vida nos reserva

 

 
Suely, aos 13 anos. Partiu aos 16, em 30 de setembro de 1959
  

É natural que pensemos que a perda de um ente querido seja a maior dor que a vida nos reserva. Verdade,  sejam os pais, irmãos, cônjuge ou um filho, estas são mesmo as mais doloridas perdas a que estamos sujeitos durante a nossa existência. Mas, afora essas situações, sobre as quais não temos nenhum controle dos acontecimentos, há outras tão dolorosas e tristes quanto essas. Alguém já teve que desfazer o guarda-roupa de um ente querido que nos deixou? Triste, muito triste. Participei de um ato desse, logo após a cerimônia do funeral de uma sobrinha muito querida, que partiu muito jovem, com apenas trinta anos de vida. Suas irmãs cuidaram de separar os vestuários, dando-lhes destinação a cada peça, um vestido, um calçado, uma bolsa, joias, bijuterias e acessórios. A cada peça retirada do guarda-roupas seguia-se um ritual respeitoso, comentando-se a origem daquela roupa, o dia em que foi comprar, ou provar na costureira, quando a usou pela primeira vez, numa  na festa ou outro evento importante e outros detalhes que, no decorrer dos relatos, provocavam  lágrimas de pesar, puro amor a aquela que partiu e deixou seu quarto vazio, para sempre. Prova cabal de que a nossa casa é tão querida não pelas suas paredes, móveis e fachadas. mas, sim pelo que nela há: os entes queridos. Sem eles a casa é vazia de sentimentos, apenas um abrigo.

Não suportei mais que uns três momentos como esses do ritual descrito, de se retirar as peças do vestuário e mimos espalhados pelo quarto, os comentários sobre seu significado na vida daquela que partiu para sempre e decidir a quem doar. Duro golpe na alma. Deixei o quarto e fui fazer companhia à minha irmã, mãe de minha sobrinha, que também não quis presenciar aquela dolorosa tarefa. Para mim, a mais triste das emoções foi quando abriram os pequenos baús de afeto, aquelas caixinhas onde ficam guardadas as mais doces recordações, fotos antigas, convites de formaturas, pequenos objetos de lembranças de outros entes queridos que faziam parte de sua vida. Também é comum encontrar, nesse baú de afeto, uma flor esmaecida que um dia enfeitou seu buquê de noiva,  a primeira cartinha e foto de um filho ou sobrinho querido, a correntinha de prata da festa dos 15 anos, cartas de amor recebidas do namorado/noivo, recortes de jornal de datas festivas de sua vida e ainda as fotos de parentes mais queridos. Lá estava uma foto minha, abraçado a ela. Quanto amor, quanta saudade. Tudo que ali estava, naquelas caixinhas de afeto, foi amorosamente distribuído entre os parentes e nada, nenhum objeto foi descartado ou doado a outros que não os da família. Esta foi a minha primeira experiência mais dolorosa que participei após a morte de um ente querido.

            A segunda experiência também muito dolorida, foi receber de minha família o chapéu, de pelo de lebre, da famosa marca Ramenzoni, que meu pai usou até o dia em foi hospitalizado, após uma queda, aos 101 anos de idade. Era o chapéu tradicional usado por quase todos os fazendeiros e homens da cidade durante todo o século 20. Naquele dia, no início do mês de dezembro de 2007, desembarquei em Belo Horizonte depois de horas de atraso do voo e com isto não o alcancei ainda com vida. Cheguei cerca de duas horas após seu passamento. Duro golpe, mas voltei para casa, dias depois, com o mimo que caracterizava sua figura, o chapéu, que aparece em todas as suas fotos.

 

            Nesse campo, de dores inevitáveis, enfrentei ainda um segundo tipo de dor também associada aos entes queridos e que reabriram feridas passadas,  que já estavam cicatrizando. Fui obrigado, por lei, a participar da exumação de corpos em túmulo da família. A dura lei determina que há necessidade de exumação dos corpos, depois de no mínimo cinco anos de sepultamento, quando se precisa usá-lo novamente. No ato de exumação é obrigatória a presença de um familiar  e coube a mim essa dolorosa missão, quando se precisou usar o túmulo para novo sepultamento. Havia  dois corpos de entes queridos, em compartimentos separados no túmulo Portando máscara cirúrgica e distante apenas um metro, acompanhamos toda a cerimônia, realizada com o máximo respeito por parte dos profissionais. A retirada dos ossos, que são acondicionados em caixa de plástico bem resistente, é anunciada e solicita-se a atenção do parente, conforme determina a lei.  Lacra-se a caixa, identificada com plaqueta metálica, e em seguida é acondicionada nos fundos da gaveta do túmulo. Em cada uma das duas exumações simultâneas, identifiquei peças de vestuários  e até uma prótese de titânio no fêmur da familiar que falecera justamente por causa de uma  queda em casa. Ao rever os restos mortais de cada um e poucas peças de vestuário, que ainda resistiam depois de mais de cinco anos de sepultamento, invadiu-nos um sentimento de dor lancinante em nossa alma e que ser nenhum é capaz de suportar sem que as lágrimas desçam. Não é fácil encarar os restos mortais de entes queridos. A dor é em dobro, primeiro por relembrar a partida, a perda e, agora, ali, a pensar no tempo já decorrido daquela partida e a falta que eles ainda nos fazem, restando apenas a saudade que, aliás, é o amor que fica, dizem os poetas e filósofos. Triste, muito tristes essas doloridas surpresas que a vida nos reserva.

            Duas missões, profundamente dolorosas, que nos fazem reviver vidas perdidas para sempre e pensar nos valores da nossa própria Vida. São as piores dores da vida. Os  corpos se transformam em pó, mas o amor aos entes queridos é eterno! Eles se foram, porém, o luto da alma é a saudade daqueles que pariram  e que  tanto amamos. A saudade..., ah..., ela é apenas o amor  que fica e dedico esta crônica aos entes queridos que já se foram, em especial à memória de minha jovem irmã, de apenas 16 anos, falecida nesse mesmo dia 30 de setembro, do ano de 1959. Que Deus a tenha e a todos que partiram em paz!

Amém!

 

Brasília, 30 de setembro de 2026

Paulo das Lavras. 


 
Consuelo, a linda sobrinha que partiu aos 30 anos.


 
Linda homenagem, prestada pelo Ministério da Aeronáutica ao meu pai,

Clovis Pereira da Silva, lúcido até os 101 anos de vida.

Na foto em entrevista concedida à Força Aérea Brasileira – FAB, comemorando

seu centenário de vida, em 2006, juntamente com a invenção do avião, em

feliz coincidência que lhe granjeou a homenagem da Aeronáutica.

Foto: Jornal da Secomsaer/MAer.  

 



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