Há pessoas que vêm ao mundo para servir, cuidar de outras, de seus semelhantes, especialmente dos familiares mais próximos. irmãos mais novos e sobrinhos. Nunca pensam em si próprias. Renunciam a tudo para se dedicarem a cuidar dos mais necessitados. Conheci duas dessas mulheres, à quais chamo de “mãe do mundo”, pois acolhem a todos que precisam de cuidados. Hoje falarei de uma delas. Nascida em 24 de agosto de 1938, pele bem clara, olhos azuis, cabelos pretos anelados, à moda italiana, linda, muito linda aquela moça descendente de portugueses que aportaram em Lavras no ano de 1750 em busca do ouro e aqui se estabeleceram definitivamente. Dos 20 aos 25 anos recusou dois casamentos com rapazes dos mais disputados pela meninas de então, colegas de colégio. Rapazes ilibados, “um pão”, como elas diziam, no início dos anos 60. Além de frequentar os melhores colégios da cidade, ambientes requintados da arte do saber e da cultura, havia também os saudáveis pontos de lazer, como os bailes no Clube de Lavras, as concorridas sessões de finais de semana do Cine Brasil, o footing na Praça Augusto Silva, o jardim de Lavras onde as caminhadas, ou “desfiles” se separavam por faixas etárias, os jovens adolescentes, no local chamado “Redondo”, pois circulava um lago com fonte luminosa. O segundo local do footing era o chamado “Rela”, passarela lateral, na calçada da rua da histórica Igreja do Rosário (fundada em 1754 ). Neste, as moçoilas de 18 anos davam mil voltas, flertando com os guapos rapazes, ali parados, de pé, em grupos apreciando o movimento e lançando olhares e sorrisos para as garotas. Havia ainda, um terceiro local na praça do jardim, chamado de “passarela dos namorados”, defronte ao Colégio Kemper (comemorando neste mês de agosto, 157 anos de fundação), situado do lado oposto à Igreja do Rosário. Sua calçada era ampla e dispunha de vários bancos de cimento, muito disputados pelos casais. Ali, a nossa homenageada de hoje, que apelidamos de mãe do mundo, se divertia com as colegas de colégio e o namorado, naquele início dos anos 60.
Aquela linda praça da cidade, com requintado paisagismo e arborização
centenária, era de fato o point daquela
sadia juventude dos anos 60, época em que a TV estava engatinhando, no preto e
branco, pois a TV em cores só surgiu no Brasil em 1970. Tudo isto a garota viveu, mas optou, talvez
por força das circunstâncias, por renunciar a todos os convites próprios da
juventude, inclusive ao noivado com um bonito rapaz
também de olhos azuis, iguais aos seus e de origem italiana. ele seria
transferido para a cidade de Volta Redonda, onde assumiria o posto de gerente
de uma grande loja comercial. Foi sua primeira renúncia em favor da família. E
novos pretendentes não faltaram. Relataram-me que onde ela estivesse presente,
nas festas juninas do colégio, ou qualquer festinha com hora dançante em casas
de família ou no clube (assim eram chamadas os encontros de jovens naqueles
idos tempos), não sobrava rapaz bonito para ninguém, pois ela era cortejada o
tempo todo, a mais bonita, clarinha, olhos azuis e cabelos ondulados bem
pretos, fazendo aquele célebre estilo das atrizes italianas de então.
Éramos
crianças de 8 a 15 anos, estudantes em colégios da cidade. Nosso pai passava a
maior parte do tempo na fazenda e ficávamos, mãe, filhos e agregados na grande
chácara, próxima à Estação de Costa Pinto. Quatro irmãs e duas tias
estudavam no Colégio de Lourdes. E mais tarde uma delas, transferiu-se para o
Instituto Presbiteriano Gammon, onde se formou em Contabilidade, no ano de
1961. No Colégio de Lourdes, as madres e professoras carinhosamente as chamavam
de “as seis moças da família Abreu”. O carinho delas era tão grande que a
própria diretora do Colégio e muitas das freiras frequentavam nossas casas na
cidade e na fazenda, levando algumas das meninas do internato para esses
passeio dominicais na fazenda e chácara, repletas de frutas e cavalos para
cavalgadas. Me lembro que fiquei admirado, aos 15 anos, ao ver a Irmã Marcelina,
uma das diretoras, cavalgar galopando num mangalarga marchador, para espanto de
todos que temiam por ela.
O
instinto de servir ao próximo, inato em poucas pessoas neste mundo, mais uma
vez predominou quando, inesperadamente, nossa mãe nos deixou, prematuramente.
Adveio a segunda grande renúncia à vida particular, pois assumiu de vez a
responsabilidade pela família, ali na grande casa da chácara, na cidade. A
nova matriarca, de apenas 25 anos cuidava
de todos, inclusive dos primeiros sobrinhos que já haviam chegado e aumentado a
família. Assim permaneceu por mais de uma década, até que todos nós nos
formássemos na faculdade e seguíssemos vida própria. Encaminhados os irmãos,
mudou-se para a fazenda e foi cuidar de nosso septuagenário pai, renunciando
pela terceira vez ao direito à vida própria e dele cuidou por todo o tempo de sua
abençoada longevidade de 101 anos. Parece que Deus nos recompensou pela falta
prematura de nossa mãe, concedendo-nos mais tempo para convívio com nosso pai...
cento e um anos de vida!
E
hoje, neste 24 de agosto de 2026 presto minhas homenagens, quando ela completa
oitenta e oito anos de vida, inteiramente dedicados a cuidar da família. Maria
José de Abreu, é o nome de minha querida irmã, carinhosamente chamada de
Mariinha, e a qual apelidei de “Mãe do mundo”, que a todos acolhe. Cuidadora
inata, nos braços da qual, com um último abraço, partiram nossa mãe e nosso pai
e que ainda hoje cuida de seus tetranetos, filhos de seus bisnetos de coração,
sem nunca buscar aplausos ou recompensas. Seus “filhos, netos, bisnetos e tetranetos”,
certamente estarão, hoje e sempre, a lhe cumprimentar com muito carinho e gratidão
por toda a sua dedicação e amor ao longo de tantos anos.
Saúde!
Que Deus lhe conceda muitas bênçãos e que nunca lhe falte o afeto, recompensa
merecida, pois nunca ninguém percebeu que aquela menina que aprendeu a ser
forte também precisava de colo, sentia-se sozinha, mesmo rodeada de pessoas.
Meu
abraço, de parabéns pelo seu aniversário.
Brasília,
24 de agosto de 2026
Paulo
das Lavras
Uma de suas amigas dos tempos de colégio, disse: onde a ela estivesse, num baile,
festa ou até mesmo
na porta do Colégio, não sobrava rapaz bonito para ninguém...


