sábado, 31 de outubro de 2026

O Amor que Fica: Uma visita aos jardins do passado

 

 
Belíssimo Jardim de Lavras, com as flores da centenária árvore Tipuana, 
formando um tapete dourado ao lado do coreto. 
Foto: acervo Renato Libeck  


Esses dias, me peguei contemplando duas fotografias de um mesmo cenário, mas, separadas por décadas. O impacto visual foi imediato. Que sorte a nossa quando o tempo decide poupar as paredes, preservando o cenário físico quase intacto, permitindo que uma simples foto do jardim da cidade natal, ou de meninos brincando de rodar dentro de um pneu..., sim, isso mesmo, dentro do pneu, rodando ladeira abaixo, tal qual aparece na gravura editada e se transformem em testemunhas dos anos. Diante daquelas imagens, fechei os olhos e o gatilho do subconsciente disparou, transportando-me para lá, vendo e ouvindo, um a um, os amiguinhos de infância contando suas vantagens pueris e depois paquerando as meninas naquele belíssimo jardim. Imagens que se superpõem, como se não houvesse o tempo a separá-las. Doce devaneio que enleva a alma. 

 
Minha casa da infância com seu lindo ipê amarelo e, tendo a Serra da Bocaina como moldura. Uma enorme chácara a 200 metros da rua principal da cidade de Lavras. Recanto bucólico, que atraia os meninos de toda região  para as mais variadas brincadeiras. Alguém já viu essa perigosa aventura intitulada “viagem no pneu”?  O pneu chegava em velocidade naquele muro de pedra e nele batia com força e às vezes até o ultrapassava quando saía quicando.  Deus sempre foi misericordioso com as estrepolias dos meninos, pois nunca ninguém se machucou de verdade. Por via das dúvidas um dos meninos, ficava no final da linha para socorrer o passageiro-vítima, que saía de dentro do pneu ou era simplesmente atirado para fora, inteiramente tonto, cambaleando e apavorado... 
Foto: edição de Rogério Salgado  

Quase todos que olham para trás reagem da mesma forma, exclamando em coro: "Bons tempos! Tempos que não voltam mais!". É o inevitável Tempus fugit, o tempo foge, como já alertava o filósofo Virgílio na antiguidade e que hoje encurtamos para um simples "o tempo voa". E voa mesmo. Com ele, vão-se as tardes intermináveis e os agora distantes parceiros de travessuras. Como bem cantou o príncipe dos poetas, Guilherme de Almeida: "Tudo muda, tudo passa nesse mundo de ilusão, vai para o céu a fumaça e fica na terra o carvão".

Mas o exercício da nostalgia nos impõe um lindo e doloroso dilema para o coração. O mestre Rubem Alves — que deixou suas profundas raízes e ensinamentos na minha querida Lavras, em Minas Gerais, escreveu certa vez um aviso severo aos navegantes do passado: "Se você amou muito um lugar, não faça a besteira de visitá-lo. Porque você vai pensando que encontrará o tempo, mas o tempo não está mais lá". Para o autor,  a felicidade pertence ao tempo, não ao espaço.

E quanta razão tinha Rubem Alves! Mas, contraponho outro argumento, pois quando olhamos uma foto do passado, não queremos apenas vê-la, contemplar a paisagem ou o nosso jovem semblante ali retratado. Queremos mais, queremos sentir, reviver aqueles momentos. Visitar um local onde vivemos, especialmente a infância e a juventude, é mais que contemplar uma foto. É escancarar a alma, não importa que só você ali esteja presente, pois, num simples relance do olhar sua mente trará de volta, novamente, tudo e todos daquela época, com suas roupas, brincadeiras  e até mesmo a voz de cada um.    

Afinal, a nossa história em Lavras não acontecia apenas na nossa casa, na nossa rua. Ela se estendia pelos rituais sagrados e profanos da juventude. Quem não se lembra do burburinho sagrado das missas dominicais na Igreja Matriz? Da solenidade que logo se transformava no doce descompromisso no footing, na praça central, chamada simplesmente de Jardim? Ali, naquele vaivém de olhares tímidos, sorrisos ensaiados e paqueras inocentes ao redor do coreto, ou da fonte luminosa, a vida acontecia em câmera lenta. E quando o domingo prometia mais, o destino certo eram as horas dançantes no Clube de Lavras, onde os primeiros acordes das músicas da época faziam o coração disparar no compasso dos primeiros romances. Grande decepção tive, quando me mudei para Belo Horizonte, aos 22 anos, para exercer a minha primeira atividade profissional, pois, logo no primeiro domingo fui à missa na matriz de Santa Efigênia. Detestei, padre desconhecido, alheio às questões sociais da vida humana, nenhuma empatia e pior, não identifiquei uma única pessoa sequer que fosse minha conhecida. Foi então que me dei conta de que a igreja, com suas missas dominicais, tinha função social maior que a religiosa. Sem esses ingredientes essenciais da vida gregária, fui aos poucos me desligando daquele costume religioso, mas não da fé em Deus. Há um ditado bíblico ensinando-nos que Deus está em nós, e é verde.

Mas, retornando às visitas aos locais do passado, há quem pergunte:  de que adianta ali estar, se as pessoas se mudaram, envelheceram, tomaram rumos distantes, não mais ali estão e muitas até mesmo já partiram para sempre? A velha casa, a praça e o salão do clube preservados são apenas molduras bonitas, mas vazias. A verdade mais profunda é que a saudade não é da rua, do jardim ou dos clubes. A saudade é de quem nós éramos naquele tempo. Esta é a grande verdade, é a falta daquela pureza que doía na alma ao ouvir o chamado no fim do dia. Os poetas sabem muito bem dessa verdade e a exploram. Quer ver? Essa dinâmica poética da infância urbana era tão poderosa que inspirou até a arquitetura da nossa capital federal. Oscar Niemeyer, ao projetar as superquadras de Brasília, onde vivo há 50 anos, limitou os prédios residenciais a no máximo seis andares de altura. por uma razão puramente humana: ele queria garantir que a voz das mães pudesse ecoar do alto, gritando pelos filhos para subirem para o banho e o jantar. Ah, minha moderna Brasília, mas com ares de bucólica, toda arborizada e enfeitada com imensos jardins, repletos de flores, onde crianças ainda brincam no pilotis, o térreo do edifício, reservado para o lazer que elas merecem.

Que doce vida. Que doce e bela infância. Que doce e pura juventude, sem vícios e em meio à uma vida cercada de vizinhos que nos tratavam como se filhos fôssemos. Voltar àquela rua, à casa da infância ou ao jardim da praça central, seja em passos reais ou virtualmente na tela de um computador, nos dá a chance de reencontrar o amor que ficou guardado para sempre em nossa alma. Jardins do passado? Saudades? No fim das contas, a fumaça pode até ter subido para o céu, mas o carvão que ficou na terra ainda mantém aquecida a nossa melhor metade, a saudade, o amor que fica. E aqui em Brasília, cidade florida, cheia de bosques e alamedas, revivo diariamente esse amor que ficou.

 

Brasília 31 de outubro de 2026

Paulo das Lavras  


      -  Clique no vídeo abaixo e veja a belíssma arte criada pelo amigo e artista no uso da IA, Rogério Salgado, a quem agradeço pela perfeita figuração, a partir de fotos e croquis em perspectiva que desenhei.                                                                                           A muralha de pedra, lá em baixo, era o ponto final da aventura. O passageiro, com o impacto, e não raras vezes, era atirado para fora. Caía tonto, desnorteado e prontamente socorrido por um dos meninos que ali se postava como um bombeiro de salvamento. A misricórdia de Deus era imensurável... Amém!





 A igreja Matriz de Lavras, com suas missas dominicais. 
Foto acervo Renato Libeck  


 
Fonte Luminosa no Jardim de Lavras 
Foto: Catarina Júlia


 O Clube de Lavras- anos 50 , as mais gostosas horas dançantes 
Foto acervo Renato Libeck


 

 O menino em BH, cuidava dos jardins da cidade e do gramado do Mineirão. 
Nesta foto, ao lado da desenhista de arquitetura e paisagismo, próximo a um 
canteiro de flores, na Av. Francisco Sales, meu tio bisavô, também nascido em 
 Lavras e  ex-governador  de Minas Gerais. 
Jardins sempre foram a minha praia, na casa de minha infância  na juventude 
 em Lavras, BH e ainda continuam em Brasília. Passado e presente que 
se fundem na paixão pela natureza florida, no campo e na alma, sempre! 
Foto do autor 1968