Esses dias, me peguei contemplando duas fotografias de um mesmo cenário, mas, separadas por décadas. O impacto visual foi imediato. Que sorte a nossa quando o tempo decide poupar as paredes, preservando o cenário físico quase intacto, permitindo que uma simples foto do jardim da cidade natal, ou de meninos brincando de rodar dentro de um pneu..., sim, isso mesmo, dentro do pneu, rodando ladeira abaixo, tal qual aparece na gravura editada e se transformem em testemunhas dos anos. Diante daquelas imagens, fechei os olhos e o gatilho do subconsciente disparou, transportando-me para lá, vendo e ouvindo, um a um, os amiguinhos de infância contando suas vantagens pueris e depois paquerando as meninas naquele belíssimo jardim. Imagens que se superpõem, como se não houvesse o tempo a separá-las. Doce devaneio que enleva a alma.
Quase todos
que olham para trás reagem da mesma forma, exclamando em coro: "Bons
tempos! Tempos que não voltam mais!". É o inevitável Tempus fugit,
o tempo foge, como já alertava o filósofo Virgílio na antiguidade e que hoje
encurtamos para um simples "o tempo voa". E voa mesmo. Com ele,
vão-se as tardes intermináveis e os agora distantes parceiros de travessuras.
Como bem cantou o príncipe dos poetas, Guilherme de Almeida: "Tudo
muda, tudo passa nesse mundo de ilusão, vai para o céu a fumaça e fica na terra
o carvão".
Mas o
exercício da nostalgia nos impõe um lindo e doloroso dilema para o coração. O
mestre Rubem Alves — que deixou suas profundas raízes e ensinamentos na minha
querida Lavras, em Minas Gerais, escreveu certa vez um aviso severo aos
navegantes do passado: "Se você amou muito um lugar, não faça a
besteira de visitá-lo. Porque você vai pensando que encontrará o tempo, mas o
tempo não está mais lá". Para o autor, a felicidade pertence ao tempo, não ao espaço.
E quanta razão
tinha Rubem Alves! Mas, contraponho outro argumento, pois quando olhamos uma
foto do passado, não queremos apenas vê-la, contemplar a paisagem ou o nosso
jovem semblante ali retratado. Queremos mais, queremos sentir, reviver aqueles
momentos. Visitar um local onde vivemos, especialmente a infância e a
juventude, é mais que contemplar uma foto. É escancarar a alma, não importa que
só você ali esteja presente, pois, num simples relance do olhar sua mente trará
de volta, novamente, tudo e todos daquela época, com suas roupas, brincadeiras e até mesmo a voz de cada um.
Afinal, a
nossa história em Lavras não acontecia apenas na nossa casa, na nossa rua. Ela
se estendia pelos rituais sagrados e profanos da juventude. Quem não se lembra
do burburinho sagrado das missas dominicais na Igreja Matriz? Da solenidade que
logo se transformava no doce descompromisso no footing, na praça central,
chamada simplesmente de Jardim? Ali, naquele vaivém de olhares tímidos,
sorrisos ensaiados e paqueras inocentes ao redor do coreto, ou da fonte
luminosa, a vida acontecia em câmera lenta. E quando o domingo prometia mais, o
destino certo eram as horas dançantes no Clube de Lavras, onde os primeiros
acordes das músicas da época faziam o coração disparar no compasso dos
primeiros romances. Grande decepção tive, quando me mudei para Belo Horizonte,
aos 22 anos, para exercer a minha primeira atividade profissional, pois, logo
no primeiro domingo fui à missa na matriz de Santa Efigênia. Detestei, padre
desconhecido, alheio às questões sociais da vida humana, nenhuma empatia e
pior, não identifiquei uma única pessoa sequer que fosse minha conhecida. Foi
então que me dei conta de que a igreja, com suas missas dominicais, tinha
função social maior que a religiosa. Sem esses ingredientes essenciais da vida
gregária, fui aos poucos me desligando daquele costume religioso, mas não da fé
em Deus. Há um ditado bíblico ensinando-nos que Deus está em nós, e é verde.
Mas,
retornando às visitas aos locais do passado, há quem pergunte: de que adianta ali estar, se as pessoas se mudaram,
envelheceram, tomaram rumos distantes, não mais ali estão e muitas até mesmo já
partiram para sempre? A velha casa, a praça e o salão do clube preservados são
apenas molduras bonitas, mas vazias. A verdade mais profunda é que a saudade
não é da rua, do jardim ou dos clubes. A saudade é de quem nós éramos
naquele tempo. Esta é a grande verdade, é a falta daquela pureza que doía
na alma ao ouvir o chamado no fim do dia. Os poetas sabem muito bem dessa
verdade e a exploram. Quer ver? Essa dinâmica poética da infância urbana era
tão poderosa que inspirou até a arquitetura da nossa capital federal. Oscar
Niemeyer, ao projetar as superquadras de Brasília, onde vivo há 50 anos,
limitou os prédios residenciais a no máximo seis andares de altura. por uma
razão puramente humana: ele queria garantir que a voz das mães pudesse ecoar do
alto, gritando pelos filhos para subirem para o banho e o jantar. Ah, minha
moderna Brasília, mas com ares de bucólica, toda arborizada e enfeitada com imensos
jardins, repletos de flores, onde crianças ainda brincam no pilotis, o térreo
do edifício, reservado para o lazer que elas merecem.
Que doce vida.
Que doce e bela infância. Que doce e pura juventude, sem vícios e em meio à uma
vida cercada de vizinhos que nos tratavam como se filhos fôssemos. Voltar
àquela rua, à casa da infância ou ao jardim da praça central, seja em passos
reais ou virtualmente na tela de um computador, nos dá a chance de reencontrar
o amor que ficou guardado para sempre em nossa alma. Jardins do passado?
Saudades? No fim das contas, a fumaça pode até ter subido para o céu, mas o
carvão que ficou na terra ainda mantém aquecida a nossa melhor metade, a
saudade, o amor que fica. E aqui em Brasília, cidade florida, cheia de
bosques e alamedas, revivo diariamente esse amor que ficou.
Brasília 31 de outubro de 2026
Paulo das Lavras
- Clique no vídeo abaixo e veja a belíssma arte criada pelo amigo e artista no uso da IA, Rogério Salgado, a quem agradeço pela perfeita figuração, a partir de fotos e croquis em perspectiva que desenhei. A muralha de pedra, lá em baixo, era o ponto final da aventura. O passageiro, com o impacto, e não raras vezes, era atirado para fora. Caía tonto, desnorteado e prontamente socorrido por um dos meninos que ali se postava como um bombeiro de salvamento. A misricórdia de Deus era imensurável... Amém!






