terça-feira, 12 de julho de 2016

Um Seminário na década de 1950 Parte I - Uma viagem ao passado




Cap. I de: Um Seminário na década de 1950 
 (Veja Nota Explicativa ao final, com  a estrutura completa do livro e links dos capítulos já publicados neste blog)

https://contosdaslavras.blogspot.com/2016/07/um-seminario-na-decada-de-1950-parte-i.html


Tripulação, preparar para o pouso..., assim soou a voz suave do comandante em toda a cabine do avião.  O menino foi despertado de seu devaneio nas nuvens, literalmente. Um ligeiro tranco e o barulho característico do trem de pouso baixando, indicava a iminência do pouso. O moderno Boeing 737-800, de prefixo PR-GTQ, procedente de Brasília com mais de 100 passageiros a bordo, pousou suavemente na pista do Aeroporto de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte, naquela manhã ensolarada de seis de setembro de 2013. Enquanto taxiava pela pista o menino das Lavras contemplou as alterosas montanhas que tanto o marcaram na infância, como também no internato, na cidade de Itaúna rodeada de montanhas de ferro e siderúrgicas. Montanhas faziam parte de sua vida, mesmo mais tarde, morando na capital de Minas Gerais, onde também cercavam a cidade, notadamente a Serra do Curral. Ali, em Belo Horizonte, recém-formado na faculdade, trabalhou em seu primeiro emprego. Mineiro das montanhas, as linhas sinuosas do horizonte lhe eram muito familiares e queridas, pois sabia medi-las com os olhos, mais que as planuras do planalto central a despeito de ter passado neste, a maior parte de sua vida. Lembrou-se das palavras do filósofo e poeta Rubem Alves descrevendo a alma movida à saudade. Para o poeta a alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam. Perderam-se? Mas..., esses pedaços estavam bem ali mesmo, havia cinquenta e cinco anos... Era o que buscava, naquele momento, em meio aquelas montanhas de ferro e manganês. Despertado desses devaneios, pela voz da comissária de bordo que convidava os passageiros para o desembarque, deixou a aeronave, caminhou até o saguão, embarcando rapidamente no automóvel que o aguardava. Percorreu pouco mais de 100 km em direção ao oeste do estado da velha conhecida Minas “Geraes”, seu berço e inspiração de toda a vida. Tinha um encontro marcado com o passado de 55 anos..., rever o Seminário onde estudara, em Itaúna.

 

Rubem Alves tinha razão, a alma é mesmo movida à saudade, como também o escritor e poeta francês, Marcel Proust, que escreveu sua mais famosa obra, “Em busca do tempo do perdido”. Nesta, inebriado, revive toda a infância depois de mergulhar o bolinho “madeleine” numa xícara de chá, tal qual fazia nas manhãs de domingo na casa da tia do escritor, quando ainda era menino. Da mesma forma que a lembrança dos bolinhos de chuva levou Proust a relembrar sua infância, as montanhas cobertas de minérios de ferro e manganês, serviram de gatilho que despertou o pensamento do menino para as memórias escondidas nos escaninhos do inconsciente. Talvez por isso, pelo especial significado daquela viagem o voo foi bem diferente daquelas centenas de outros que fizera entre as duas capitais. Afinal, passou mais de quarenta anos em missões de trabalho naquela rota. O aeroporto, velho conhecido, até mesmo por causa de um sério desastre sofrido a bordo de outro Boeing, lhe parecera mais interessante, a estrada mais bonita, tudo enfim respirava alegria. Ressurgiu o espírito do menino ansioso a caminho do seminário.

 

Enquanto o motorista dirigia por entre montanhas o passageiro revia, com doce emoção, o filme em seu imaginário de todo aquele longínquo passado. Rever o passado e suas imagens é, como explicam os psicólogos, lembrar-se exatamente do local e eventos onde estivera muito tempo antes. É uma característica de nossa mente que “grava” com maior intensidade aquilo que foi marcante em nossa vida. É a chamada memória cintilante. Agora, potencializada com a emoção de rever, presencialmente, os espaços físicos daquela época, muitos ainda preservados no original. Enquanto apreciava a bucólica paisagem  pela estrada afora, cercada de  montanhas, pensava em seu passado. Como poderia evitar, se afinal de contas, era disso que se tratava aquela viagem, depois de muitos anos da primeira vez que ali chegou, menino de apenas 12 anos, para uma mudança radical em sua vida? Quase não conseguia conter a agitação, a mesma ou até maior que aquela de 55 anos atrás, quando pela primeira vez fez uma viagem de verdade, longa, para bem longe da família, de onde nunca tinha antes se afastado. Ah..., quanta emoção, como seria hoje a cidade, a estação do trem, o hotel e o principal alvo, o Seminário?  Assim, reavivado e antenado nos detalhes da paisagem, desembarcou na praça central da cidade de Itaúna. Respirou fundo e caminhou em direção ao adro da igreja. Adentrou a Igreja Matriz de Sant´Ana, cujo nome é o mesmo da matriz de sua cidade natal. A enorme matriz estava ali, do mesmo jeito, onde participara de tantas missas dominicais e festas religiosas dos dias santos, cantando no coral dos seminaristas. As cores vivas de seu interior, com pinturas e imagens sacras, pareceram-lhe mais lindas que aquelas guardadas na mente, mas esmaecidas pelo tempo. Rever ali o altar onde se celebravam as missas e logo à entrada o elevado mezanino, onde os meninos do coral se posicionavam para cantar, sob a regência do Padre Adriano ou do Padre Luiz, com os acordes do órgão e tendo ampla e privilegiada visão de toda a nave da igreja, foi uma sensação indizível, do fundo da alma, de arrepiar. Foi possível “ver e ouvir” aquele coral de seminaristas cantando o Kyrie-eleisson, ou o Pater Noster qui est in coelis... e tantos outros belíssimos hinos. Parecia mesmo ouvir a própria voz, peito cheio, dando vivas a Deus nos solenes Kyries de exaltação da alma a Deus e aos santos como no Salve Mater Misaericordiae. Se entrar e contemplar aquele belo cenário da matriz já lhe causara arrepios na alma, lembrar-se e “ouvir” o coral cantando o belíssimo hinário sacro, que ainda sabia de cor, em latim, fez com que o menino derramasse lágrimas de pura nostalgia naquele ambiente sagrado que, por mais de trinta anos não o frequentava, ainda que em outros locais. Demorei-me um pouco ali  e ainda “cantei”, em silêncio, algumas estrofes daqueles hinos dos quais ainda me lembrava. Enxuguei as lágrimas, agradeci a Deus.  O dia prometia..., pois logo no primeiro encontro com o passado as emoções se transbordavam.

 A praça e a igreja nada mudaram. Ali nas escadarias pude "sentir", como no passado, o abraço e o perfume da mulher mãe com os afagos carinhosos que algumas senhoras nos distribuíam, bem ali, após as missas, como se nossas mães fossem. Esses eram os únicos carinhos que o menino recebia, ali na distante terra. E quase sempre eram acompanhados de palavras de elogios, enaltecendo nosso desempenho no coral. Lembrei-me, particularmente, de um forte abraço que recebi, com votos de felicidades na missão de seminarista e, olhando para o rosto daquela bondosa senhora, vi as lágrimas escorrendo em sua face. Puro amor de mãe que ali projetava, talvez, a imagem de seu próprio filho, ausente que nunca pensara em ser seminarista, ou talvez a falta de um filho que não tivera, para desejar-lhe um futuro promissor de vida sacerdotal. Mas, Mas, agora, o interesse maior era chegar logo ao Seminário, distante uns 200 metros apenas, numa rua que se iniciava na praça da matriz. Não foi preciso consultar ninguém, nem mesmo o Google-maps ou GPS para chegar até lá. O mapa ainda estava vivo na memória, pois fizera o mesmo trajeto inúmeras vezes com seus colegas seminaristas. Todos os domingos havia a santa missa com os cânticos de nosso coral regido pelos padres holandeses, irmãos de sangue, Luiz e Adriano Turkenbourg. Em todos os ofícios sacros lá estávamos naquela imponente catedral, especialmente na Semana Santa. Quanta emoção reviver ali, in locco, a alegria do menino seminarista nos rituais de sua igreja.

Ansioso e já impregnado pelo espírito do menino seminarista, caminhou pela Rua Melo Viana, que se inicia na praça da matriz e conduz ao Seminário situado a um quarteirão apenas. Ao final deste, já na esquina da Rua José Gonçalves com seu declive moderado, avistou o imponente prédio do Colégio Sant´Ana, que compõe a fachada do Seminário propriamente dito. Novamente foi tomado por indescritível emoção. Parou, contemplou tudo e o filme daquele cenário de tanto tempo atrás não parava de rodar em sua mente. Faltou-lhe o fôlego e ofegante de tanta emoção, ficou ali estatelado, arrepiado com os sentidos à flor da pele diante daquele reencontro. Ali estava, extasiado, parado no exato lugar que o menino de 12 anos chorara copiosamente no primeiro dia, na chegada ao novo endereço que ele próprio escolhera. Bem ali, em meio à rua, defronte ao portão do Seminário, agarrado à mão do diretor, Pe. Adriano, quando o pai e a irmã se despediram e desceram a rua acenando-lhe um último adeus dolorido na alma. Dali eles voltariam em direção ao hotel e à estação do trem para a viagem de volta à casa. Foi a sensação mais dolorida e marcante que o coração do menino experimentara em toda a sua vida. Desesperado e aos prantos custou conter o ímpeto de largar a mão amiga e correr em disparada atrás do pai e da irmã, que acabavam de dobrar a esquina, como a dizer-lhes... não me deixem aqui, sozinho com desconhecidos e tão distante... Mas, como reclamar ou desistir de ficar? Demais para o garoto que nunca saíra de casa. Só lhe restara adentrar o grande portão, mitigar a dor da separação e depois adaptar-se à nova vida de seminarista que tanto almejara. Deus haveria de consolar aquele coraçãozinho angustiado pela despedida e ainda por cima o impacto do ambiente totalmente desconhecido e tão distante como uma eternidade, reforçando a sensação de isolamento..., Era mesmo demais para o menino. Desde logo reconhecera o quanto é importante o amor dos pais e a união da família onde todos se sentem seguros e fortalecidos. Cortar bruscamente os laços familiares de um menino produz um grande impacto emocional, mas, com certeza reforça e molda um caráter mais forte e maleável às adversidades.

 Após rodar esse filme e entender a dor da separação pela primeira vez, tendo que suportá-la com galhardia, pois fora ele próprio que assim escolhera seu futuro, o menino das Lavras ali permaneceu parado, no meio fio, defronte ao majestoso prédio do antigo Seminário. Estático por alguns minutos e absorto em sua doce e emotiva recordação, contemplou a realidade  daquele instante. Mas, foi subitamente despertado ao ver à sua frente uma mãe e filha que atravessavam a rua de mãos dadas. Essa cena disparou novamente o gatilho do subconsciente, reforçando aquela lembrança de seu próprio pranto agarrando forte a mão confortadora de seu tutor. O menino puxou fundo a respiração, suspirou e lacrimejante como a 55 anos atrás, sacou o celular e fotografou mãe e filha, de mãos dadas, como se registrasse o resgate de sua própria história. Emoções a mil e um misto de alegria e lágrimas a contemplar aquela cena familiar carinhosa de um simples dar as mãos entre mãe e filha, como a recordar que ali, exatamente naquele local, um dia bem distante, também passara por isso. Ainda que não tivesse revisto mais nada, a viagem teria valido a pena por esse inesperado episódio. Que ótimo, faltava apenas adentrar o Colégio e o antigo Seminário que lá estavam com as mesmas belíssimas fachadas. Seria possível? Nada havia sido marcado com a direção do educandário.



Brasília, setembro de 2013

Paulo das Lavras 



O Seminário de Itaúna e o Colégio Santana, ao fundo, em 1958 


 
... e o Boeing de prefixo PR- GTQ pousou                    
 suavemente no aeroporto de Confins, em BH             


 
a majestosa Catedral de Itaúna, local onde os seminaristas
 cantavam nas missas de domingo


Uma mãe e filha, de mãos dadas, no mesmo local onde o             
             menino, do mesmo jeito, deixou o pai e a irmã para adentrar o Colégio  e                                     
  e Seminário pelo grande portão lateral                    
que aparece ao fundo, à esquerda da foto.



   55 anos se passaram, mostram com as mãos, o menino ex-seminarista e o atual diretor do Colégio, Prof. Marcinho, à direita


 
 O mesmo prédio do Seminário de 1958, agora, em 2013, sem as  árvores da fachada principal.


Dormitório dos “menores”, em 1958. Camas “patente”, bem estreitas. Armários de 1,0 metro de altura e sobre o qual se colocavam as malas. Padre Adriano, o diretor, à esquerda, fiscalizando os meninos. O primeiro seminarista à direita, sentado chama-se Adão, o terceiro, Eustáquio e o último, próximo à janela é Adílio Mansur. Trajavam o uniforme de gala para a missa solene de domingo pela manhã, na Igreja Matriz de Itaúna. 
Minha cama ficava do lado direito, umas três antes da primeira da foto. O corredor era mínimo,conforme se vê pela posição do primeiro menino, de pé, à direita, passando pelo estreito corredor formado pelas camas. 
No fundo havia uma portinha, próxima à última janela da direita e que servia para as visitas noturnas, de surpresa, do supervisor. Uma “guerra dos travesseiros”, única daquele ano, atingiu quase toda a ala da direita e foi flagrada pelo Padre Luiz. Castigo certo no dia seguinte.. 


 
Cerimônia do lavabo durante a missa na capela do Seminário,  com o menino das Lavras ajoelhado à direita, usando
a paramentação completa, a batina preta, sobrepeliz branca, de rendas e
escapulário preto sobre os ombros. Era a “glória” para os seminaristas


 
Em frente à barra de exercícios. O primeiro à direita, agachado é o menino das Lavras. Semblante triste.
Adão é o 1º em pé à esquerda. O terceiro, em pé, é Eustáquio, o Taquinho. Eram os melhores amigos,
companheiros de todas as brincadeiras naquele Seminário, em 1958. Três deles não estavam muito
alegres, inclusive o menino que sentia muita saudade de casa.


 
         Éramos 13 seminaristas que integravam a turma de 30 alunos, do 2º ano do ginásio,
do Colégio Santana, anexo ao Seminário. O menino é o terceiro da esquerda para a direita, da primeira fileira
 Também nesta foto, não conseguiu sorrir ao comando do fotógrafo.



 Alma rejuvenescida com as reminiscências de 55 anos atrás, bem defronte ao mesmo prédio, majestoso, que abrigava sua  humilde cama “patente”, de molas, no dormitório dos menores, próximo à 9ª janela, da esquerda para a direita, do 2º  pavimento.
Dali, contemplava o alvorecer do dia através daquela janela, simples basculante desprovida de cortina e que deixava irradiar os raios dourados de sol, convidando-o à meditação. Na solidão daquelas madrugadas, pensando nos valores da vida e na importância da família distante, indagava a si mesmo por que estava ali, qual a razão? Por que tanta saudade, que apertava o coração a ponto de sempre rolarem lágrimas? Essa era a sua “oração” diária, rogando a Deus forças para vencer os obstáculos. Cresceu em espírito, amadureceu com elevado senso de responsabilidade e princípios éticos que o acompanharam para sempre.




(*) Nota Explicativa: Esta crônica é parte do livro: “Um Seminário na década de 1950”.  A obra compreende os capítulos de I a IX Os capítulos já publicadas neste blog, estão com os links indicados abaixo, na estrutura editorial:

Título geral: Um Seminário na década de 1950

I-   Uma viagem ao passado – já publicada: http://contosdaslavras.blogspot.com.br/2016/07/um-seminario-na-decada-de-1950-parte-i.html

 

II- O despertar da vocação no menino -     

              http://contosdaslavras.blogspot.com/2021/03/o-despertar-da-vocacao-sacerdotal-um.html

 

III- a viagem para o distante Seminário - http://contosdaslavras.blogspot.com/2020/07/a-viagem-para-o-distante-seminario.html

IV- A vida no Seminário

4.1- a rotina de um internato

       http://contosdaslavras.blogspot.com/2021/04/a-vida-no-seminario-rotina-de-um.html

4.2- os seminaristas

4.3- os estudos do colégio 

4.4- A religiosidade               

4.5- o lazer e cultura

              4.6- Eventos marcantes

                      4.6.1 - Fundições e Tecelagem Itaunense 

                      4.6.2- Morro do Bonfim- a capela -   https://contosdaslavras.blogspot.com/2024/05/o-morro-do-bonfim.html



                      4.6.3- Copa do Mundo de 1958

      4.6.4- A morte chega ao Seminário  - já publicada:   http://contosdaslavras.blogspot.com/2017/07/a-morte-chega-ao-seminario.html

V – A viagem de volta - O fim

VI- O reencontro – 55 anos depois

VII- O legado 

VIII- Anexos: Curiosidades de 1958

IX- Pos-Scriptum: 

-  http://contosdaslavras.blogspot.com/2015/06/reencontro-do-seminarista-foragido.html

-  http://contosdaslavras.blogspot.com/2018/06/29-de-junho-de-1958-sessenta-anos-da.html

http://contosdaslavras.blogspot.com/2019/03/o-algodao-as-ovelhas-de-producao-de-la.html

 - https://contosdaslavras.blogspot.com/2022/02/o-som-do-silencio-na-alma-haendel-e.html
















domingo, 3 de julho de 2016

Os Livros e o Prazer da Leitura


Quando criança participava de uma brincadeira muito instrutiva que consistia em sentar-se em roda, juntamente com as irmãs, abrir o livro didático de Português (colegial) e ler as poesias clássicas. Aberto o livro, aleatoriamente, passava-se a leitura da poesia e os demais acompanhavam atentamente, cada qual com seu livro. Ao primeiro gaguejar, ou errar a leitura, era imediatamente interrompido pelo alerta geral. Nesse caso o candidato leitor era eliminado. Vencia quem conseguisse permanecer depois de várias rodadas e com a eliminação do penúltimo a gaguejar ou errar a leitura de alguma palavra, especialmente as paroxítonas e proparoxítonas. Assim, adquiri o gosto pela leitura e ainda hoje tenho memorizados os principais versos de poesias de Guilherme de Almeida, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Olavo Bilac e outros muito difundidos naqueles anos 50/60 do século passado.
           
 Infelizmente, a oferta de livros naquela época era limitadíssima e os recursos para adquiri-los, praticamente, não existiam. Até mesmo os livros didáticos eram muito limitados. Na área de matemática existiam apenas dois autores que publicavam livros colegiais. Em física, apenas o professor L.P.Mesquita Maia, da PUC-RJ. Era o único disponível no colégio e assim em quase todas as áreas. Predominava o sistema de reutilização do livro por toda a família, tal era a dificuldade para aquisições.     

Encantado com a química de hidrocarbonetos alifáticos e aromáticos e da física da mecânica, dinâmica, ótica e eletricidade, tive que recorrer à pequena biblioteca do colégio e lá encontrei somente exemplares em inglês. Estudar física, em inglês, mesmo para os admiradores dessa ciência, convenhamos era um sacrifício para um jovem de 15 anos. Mas, um sacrifício que se revelou proveitoso, pois também adquiriu gosto pelo idioma e pode dominá-lo, algum tempo depois, a ponto de usá-lo em seu local de trabalho nos EUA.  Na faculdade o problema era o mesmo. Falta de livros editados em nosso país. Certa vez realizei, a pedido do professor e às duras penas, a tradução completa de um capítulo de livro de fitopatologia (doenças de plantas), de autoria de um pesquisador norte-americano. Hoje, nossas livrarias estão repletas de publicações, técnicas ou literárias, produzidas por autores nacionais além das traduções de obras estrangeiras. Que bom!

Quando entro numa boa livraria fico maravilhado com a quantidade e diversidade de obras disponíveis. Vou pegando um aqui, outro ali, lendo e degustando um pouco do conteúdo para avaliar se vale a pena comprar/ler ou não. Quase sempre seleciono mais do que posso levar, pois o tempo para leitura é bem aquém do desejável. Mas, Freud explica essa compulsão de adulto que nada mais é do que uma manifestação neurótica de regressão aos desejos da infância, quase sempre tolhidos pelos adultos. Minha esposa sempre pergunta: por que comprar tantos livros se você já tem mais de 100 (literalmente) não lidos ou cujas leituras não foram concluídas? E é verdade, em cada aeroporto que passo compro um novo livro, o companheiro de viagem ou de esperas intermináveis pelos voos atrasados.

Mas, a compra de um novo livro não é aleatória ou apressada. Ao contrário, sempre carrego no smartfone uma lista de títulos, porém, nunca os adquiro sem farejá-los, como dizia Rubem Alves: “Nenhum cachorro abocanha a comida. Primeiro, cheira. Faço o mesmo com livros”. Isto porque o prazer da leitura não é casual. É cultural, tem toda uma bagagem anterior que remonta à nossa infância, a curiosidade de aprender, aprender e aprender mais, sempre! Por isso, é preciso selecionar o livro. A leitura tem que ser prazerosa, tem que nos cativar. Se o livro nos cativa ele passa a ser nosso companheiro, aliado da nossa filosofia. Nesse caso podem e devem ser marcados, remarcados com marca-texto ou canetas vermelhas para destacar nossas anotações de concordância ou discordância do enunciado. Isto, de certa forma, contraria os ensinamentos que recebemos na escola, que não se deve escrever ou marcar um livro. Acrescento a esta norma: “Só se for com referência ao livro do alheio, pois, o meu é o companheiro, aliado, com marcas e destaques para as suas principais idéias”. Quando da sua releitura, passado algum tempo, o prazer é redobrado ao ver ali grifadas aquelas frases que um dia admiramos e que nos marcaram, às vezes com profundo significado para a alma.

Bem, mas esse é o prazer referente a uma nova descoberta por meio da leitura. É a novidade que aparece à nossa frente e nos apressamos em registrá-la em nossa mente para tirar proveito em situações futuras. É a lição que recebemos de nossos pais e da escola: leiam e aprendam muito para vencer na vida. É a cultura do saber que se impregnou em nós. Porém, há ainda outro prazer na leitura. É aquele que acontece com o passar dos anos e cresce cada vez mais quando nela encontramos a explicação para um fato ou causas de eventos acontecidos ou acontecidos no passado. Explico, como é bom, agora, por exemplo, ler sobre as imigrações de japoneses, italianos, poloneses, alemães, sírio-libaneses, judeus e norte-americanos dentre tantos estrangeiros que povoaram nosso imenso país. Sírio-libaneses dominavam o comércio em minha cidade natal. Ali, também os italianos trabalharam a lavoura e ainda se destacaram nas artes e indústria. Os norte-americanos que se instalaram inicialmente na região de Campinas (Americana) em 1869 e depois, em 1894, mudaram para a cidade de Lavras onde fundaram o Colégio Instituto Gammon, seguindo-se a Escola Superior de Agricultura de Lavras – ESAL, em 1908, que depois se transformou em Universidade Federal (UFLA). Da mesma forma sobre os imigrantes japoneses, vivenciei e observei a “garra” e o extremo amor pela terra que esses colonos do cinturão verde de São Paulo dedicam às suas plantações especializadas de hortifrutigranjeiros em pequenas propriedades. Em meu estágio acadêmico numa grande empresa de fertilizantes, pude conviver com aqueles abnegados imigrantes e recentemente ao se comemorar o centenário da imigração japonesa, a imprensa ressaltou a obstinação daquela laboriosa gente que tanto tem contribuído para o progresso da agricultura e o desenvolvimento de nosso país.

Assim, a leitura de qualquer matéria, seja um livro ou artigo na mídia sobre esses assuntos, torna-se duplamente prazerosa, pois além de se aprender mais, podemos confrontar situações vividas no passado e estabelecer o elo causal, compreendendo em maior profundidade os sonhos e as realizações daqueles imigrantes que há mais de 100 anos aqui estão e perfeitamente integrados à nossa sociedade.

Quer prazer maior do que se deparar com uma resenha de um livro em uma revista especializada e cujo autor foi seu colega de trabalho? Foi assim com “História das Agriculturas no Mundo – do Neolítico à Crise Contemporânea”, de Marcel Mazoyer, professor e pesquisador do Institut Agronomique Paris-Grignon e que foi colaborador no acordo de cooperação do MEC com o Ministério da Agricultura da França, cujo convênio de cooperação dirigimos por mais de 10 anos. Especialista em sistemas de cultivos agrícolas, o Prof. Mazoyer veio ao Brasil várias vezes e assessorou por muito tempo uma universidade do sul do Brasil na implantação de um curso de agronomia com ênfase na gestão do agronegócio. Na França, orientou muitos professores brasileiros em cursos de pós-graduação. Visitei seu laboratório de pesquisas em Grignon e prestou importante colaboração na reestruturação da formação agronômica em nosso país. Por isso, corri à editora e encomendei o livro recém lançado. Alguém duvida que essa leitura seja duplamente prazerosa?

É lógico que conhecendo e tendo vivenciado experiências relacionadas ao assunto que se lê o prazer da leitura e as reflexões que dela decorrem são infinitamente maiores. Sinceramente, não saberia dizer qual o maior prazer decorrente da leitura.  Seria ler algo sobre assunto de vivências passadas, ou que nunca soubera antes ou sequer imaginaria que existisse?  É por isso que afirmamos que além de cultivar o bom hábito adquirido em família e nos meios acadêmicos, com o passar dos anos aumenta-se o prazer e cresce o aprendizado. Isto porque a leitura nos permite compreender a mensagem, entende-la por meio da análise crítica e armazená-la em nossa mente, criando uma verdadeira biblioteca em nosso cérebro. Sempre que necessário fazemos a recuperação da informação, associando-a às necessidades e problemas do momento. Num estágio final desse processo leitura/assimilação/recuperação podemos então comunicar, transmitir aquilo que aprendemos e até produzir nossos próprios escritos.

O prazer da leitura é ilimitado. Há coisa melhor que olhar sua estante, ler os títulos na lombada, relembrar seu conteúdo e não resistir em pegá-lo novamente para uma releitura? E facilitada pelos grifos e marcações em amarelo luminosos do marca-texto? Esse é meu maior vício. De tanto “implicarem” com o amontoado de livros em meia dúzia de prateleiras em meu escritório doméstico, dei-me ao trabalho de conta-los, 326 livros, afora os de capa dura, brochuras luxuosas como os de plantas ornamentais que ficam sob a mesa de centro da sala de estar. Descartar algum? Nem pensar, foram lidos e relidos várias vezes, apenas uns vinte ainda estão aguardando a leitura. Todos eles contêm o saber gostoso, farejado antes, degustado com prazer. Aliás, Nietzsche falando sobre o filósofo Tales de Mileto, nos recorda que a palavra grega que designa o “sábio”, o saber, está etimologicamente ligada a “sapio”, eu saboreio, sapiens, o degustador, mais apurado.

 Sim, meu pequeno amontoado de livros foi degustado, digerido e armazenado na mente, pronto para ser rememorado, usado, sempre! Relê-los é tão prazeroso quanto receber novos exemplares embora o espaço não seja suficiente. Levá-los para a chácara, junta-los a outras centenas, embora o espaço seja amplo, não proporcionaria a mesma utilidade e prazer, à vista. Sérgio Buarque de Holanda foi bem original na arte de enganar a esposa que implicava com seus amontoados de livros. Tinha táticas e estratégias para chegar em casa com novos livros sem aborrecer a fiscal da ordem, da limpeza e da esmerada decoração: contava com a cumplicidade dos empregados que os passavam pela janela, pois a porta era sempre bem vigiada. Por aqui..., bem, por aqui muitos livros chegaram sob o paletó.

Segundo o cronista Gustavo Faleiros: falta de espaço será tua sina, ó nobre leitor!


Brasília, 2005/2016
                                      
                                                Paulo das Lavras   


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Chororô, lágrimas de despedida

                                                                                 (crônica com 1.228 visualizações em 06/09/2022- 20:00h - blogger)

Adeus para sempre nunca existiu na minha vida. Acostumado a constantes viagens de trabalho, o ir e o vir tornaram-se rotina. Nas despedidas sempre estava presente o fator “plano de viagem”, com data de retorno e logo a seguir a previsão de nova partida, para outro diferente lugar. Por isso as despedidas eram sempre mais suaves do ponto de vista emocional, embora chegasse a passar mais de 200 dias por ano fora de casa, em sucessivas viagens. Foi assim até mesmo quando me mudei para Brasília e deixei o torrão natal, nas Minas Gerais. Havia um plano para se ficar apenas dois ou três anos e em seguida retornar para a universidade, onde exercia as funções de professor e pró-reitor.  Porém isso não aconteceu e eis que já se passaram 40 anos.  À parte as primeiras despedidas chorosas, dos filhos pequenos, sempre engambelados com a promessa de uma lembrancinha de viagem, pode-se dizer que essas despedidas eram recheadas de certa alegria, ainda que tímida, pela certeza de que na volta ganhariam “novidades” compradas em outros lugares, especialmente dos EUA, de onde vinham as maiores surpresas de brinquedos inovadores, inexistentes no Brasil. Foi assim com o mini-projetor de filminhos clássicos de White Snow, Three Little Pigs e muitos outros com locução em inglês, o que até motivou as crianças no aprendizado daquele idioma. Em outra vez foi a sirene de carro de policia, própria para instalação na bicicleta e um jogo de radiocomunicação walk-talk. Uma perfeição e quando tocavam a sirene, todos se confundiam até mesmo os adultos daquele final dos anos 70 e início dos 80. Na escola, com os mini-projetores da Fisher Price, ou ainda na área de lazer do prédio, com as estridentes e idênticas sirenes de carro de polícia, o sucesso era certo, pois todas as crianças queriam experimentar as novidades, ainda inexistentes nas lojas nacionais. Assim, para as crianças, as constantes despedidas no aeroporto soavam mais como um papai-noel que iria buscar os presentes.

Embora quase não tivesse havido chororôs nas despedidas, o coração sempre apertava e a solidão nos longos voos internacionais, a demorada permanência fora de casa em ambientes totalmente desconhecidos faziam rolar, muitas vezes, lágrimas doídas e inevitáveis, como a contradizer a “falsa alegria” da viagem. Pensando bem, acho que as promessas de presentes novidadeiros foram apenas uma tática usada para enganar o coração, pois os registros do subconsciente da alma desmentem-nos a toda hora. Lembro-me de um longo chororô, ocorrido aos 12 anos de idade, quando da despedida do pai e da irmã que deixaram o menino no internato do Seminário, a 16 horas de distância, por trem maria-fumaça, passando por Ribeirão Vermelho, terra dos ancestrais, a caminho da capital mineira. Ainda hoje, a memória insiste em transformar o passado em presente e se recusa a apagar aquela marcante passagem de minha vida. Da mesma forma, procuro enganar a mente tentando desligar as lembranças de pessoas queridas, os parentes e amigos distantes, pois morando a quase 1.000 km de distância, ficamos alijados das visitas dominicais, almoços, aniversários e confraternizações. A distância impede a presença mais constante de parentes, amigos de infância ou de colégio. Brasília é a capital dos brasileiros, nova e eclética, sem tradições centenárias de laços familiares e do bem acolher, receber na cozinha, como se faz na terra dos mineiros. Aqui estão os brasileiros de todas as regiões, com os mais distintos costumes e sotaques. Familiares por aqui são raros, apenas os filhos. E nesse contexto, a partida em longa viagem do pai de família deve mesmo abalar os sentimentos de quem fica e também de quem parte. Os presentinhos só enganam as crianças, pois para elas não existem passado e nem futuro, é só o hoje, o agora. Por isso vivem a perguntar, meu pai vai chegar hoje? E quando eles próprios estão em viagem, logo nos primeiros minutos perguntam se já está chegando a casa da vovó, ou o destino combinado.

Mas, nesse campo do chororô da saudade a mente não trai. Ela sabe quando destampar a bica das lágrimas. Mas ela, a mente, também não me engana mais, pois aprendi que ela só deixa verter as lágrimas quando a experiência do passado foi marcante e assim permanece indelével na alma. Felizmente nossa mente tem capacidade de armazenar muito mais as boas experiências do que as ruins. Assim, quando for visitar algum lugar, especialmente os da infância, ou simplesmente deixar bater a saudade de alguém querido, saiba que não adianta querer enganar o coração. A mente já determinou previamente que as lágrimas vão rolar e assim deixe o chororô falar mais alto e mostrar que você é feliz! As lágrimas lavam a alma. Um filósofo disse que elas são o supremo sorriso. O certo é que elas são o transbordamento de emoções que, de tantas, nem cabem no coração. Representam palavras não ditas e que aquecem os corações cheios de amor. Por isso elas não doem e expressam uma esperança ou certeza.

          Ah..., o título da crônica é “Chororô, lágrimas de despedida”? Errei..! Deveria ser  “Chororô de chegada”, pois era quando eu desabava, comprovando que o melhor da viagem é a volta para casa, o porto seguro da alma, sobretudo quando, antes mesmo do desembaraço das bagagens, avistava ao longe as crianças alegres, de olhinhos arregalados, ansiosas a correr para o abraço. Foi assim no primeiro dia de chegada de minha família, quando fui busca-la no aeroporto de Brasília, a cidade que escolhemos para morar. E chegadas assim se repetem a cada reencontro no lar. É preciso viajar muito para saber o valor de sua casa, seu lar, refúgio da alma. Lágrimas para que te quero.... Não sei por que a imprensa e o cinema teimam em só mostrar os chororôs das despedidas. O adeus não existe para mim, pois quem tem uma família nunca estará só, ainda que esteja distante e em longas viagens.

Brasília, 08 de junho de 2016


Paulo das Lavras 



 
Um chororozinho despistado, por detrás da câmera, na melhor chegada de viagem
que assisti, do alto da sacada do aeroporto de Brasília, quando recepcionei a família
chegando para morar na capital, em 1975. Duas gêmeas com as respectivas babás e 
a mãe, à frente, com a menor no colo




Viajar, ainda que por muitos dias, com a promessa de
 trazer um presente diferente..., evitava o chororô das despedidas, tanto
 do pai quanto das filhas pequenas. E esse projetor com vários filmes
 infantis, realmente era surpreendente, pois não havia nada igual no país
naqueles difíceis tempos de importação. Há poucos dias, uma das filhas,
 remexendo caixas lacradas, na chácara, chegou até mim, com esse brinquedo
 que aparece na foto. Esse gesto, por si, demonstra as boas lembranças que ela cultiva
 de um presentinho recebido depois da viagem do pai. Os cartuchos de filmes estavam
intactos, as engrenagens e respectiva manivela que fazem girar o filme, também. Os netos, crianças de hoje, 35 anos depois, vibraram com a descoberta desses “dinossauros” diante das
 modernas parafernálias eletrônicas de touch screen dos tablets e smartphones.



 
A sirene de Polícia, instalada nas bicicletas, fez sucesso entre
 a meninada do prédio. A reposição de baterias era constante
  

 
Após minha chegada de viagem e ainda no estacionamento do aeroporto,
parece que alguém mais queria usar o sombrero


 
depois de quase 40 anos, assisto a uma chegada diferente, Sarah aos
cinco anos, em sua primeira Corrida Kids... é correr para o
abraço, com chororô na certa....


 
outra chegada diferente, depois de quase 40 anos..., o neto chega ao
final do ano, com troca de faixa. Pedro, de 6 anos... Um abraço e....

  

As lágrimas lavam a alma. São o supremo sorriso, transbordam as emoções que, de tantas, nem cabem no coração. Representam palavras não ditas e que aquecem os corações cheios de amor. Por isso elas não doem e expressam uma esperança ou certeza.
E crianças são especiais demais. Tantas vezes, ao chegar de viagem, sentei-me, de terno e gravata, no chão do aeroporto e derramei lágrimas ao receber o abraço dos filhos. Agora, veja a belíssima foto acima, a mãe voltando da guerra do Iraque e ouvir: Hi, mom.. I miss you... e então diga: quem não choraria? Pode ser que o chororô da despedida seja protagonizado pelos que ficam, mas na chegada em casa... Nunca tive vergonha de chorar, sentado no chão do salão de desembarque com três crianças agarradas no meu pescoço. Alma lavada...., coração explodindo!







domingo, 29 de maio de 2016

A Arte de Ser Professor


Hoje é Dia mundial do Professor - Entrevista/ CONFEA                           ( 1.340 acessos em 16/10/2022)

Embora se comemore no Brasil o Dia do Professor em 15 de outubro, você sabia que mundialmente esse profissional é homenageado em 5 de outubro? No Confea existem alguns professores; entre eles, estão Danilo Sili Broges, da GPP, Paulo Roberto da Silva, da GRI, e Otaviano Eugênio Batista, da GCI.

 
Prof. Paulo Roberto da Silva

         Desde os 24 anos, Paulo Roberto dá aula em nível superior. Ao todo, são 41 anos de dedicação em salas de aula. Segundo ele, cada dia é um aprendizado novo. “Ser professor é um prazer renovado, pois lidar com jovens requer uma alta dose de compreensão e entusiasmo pelos sonhos que cada um tem”. Ser professor para Paulo Roberto é ter responsabilidade ética não só de ensinar as técnicas, mas, sobretudo, de procurar formar um cidadão e profissional competente e consciente da sua profissão. “Ser professor de curso superior nas áreas do Sistema Confea/Crea é um privilégio, sobretudo quando se ensina ética e legislação profissional”, afirmou. Segundo ele, a carreira de professor sempre foi muito respeitada por todas as pessoas e em todas as épocas. Ele acredita que isso acontece pelo elevado grau de amor e dedicação dos mestres aos seus alunos.


                    Na entrevista acima, concedida em 2010, no Dia Internacional do Professor, por ser de cunho mais formal não pude dizer que, na verdade, me tornei professor desde os 16 anos, quando ministrava aulas particulares, remuneradas, de matemática para candidatos a exames de admissão ao ginásio. É isto mesmo. Na década de 1950 e início de 60, havia a exigência de se prestar exames de qualificação para ser admitido no curso ginasial, que corresponde hoje ao período da 6ª a 9ª série do ensino fundamental. Mais tarde, já no curso científico, 2º grau atual, aceitei o pedido do professor de matemática, Nelson Werlang, recém-chegado do Sul, jovem, querido e admirado por quase todas as garotas da cidade, para substituí-lo e dar uma aula para o 2º ano do curso de normalista do Colégio N.S de Lourdes, frequentado só por meninas. Assim era também, na década de 60, quando ainda havia colégio para meninos e outro só para as meninas. Entrar no colégio delas..., nem pensar..., a gente tinha medo até de ser “mutilado” pela Irmã Superiora, tal era o rigor do controle. Entre os rapazes a aposta máxima era quem conseguiria adentrar aquela sagrada e impenetrável fortaleza...


            Lá fui eu, todo faceiro, com a melhor roupa, sorriso largo e matéria na ponta da língua que ele, o Prof Nelson, havia me repassado ali mesmo, na arquibancada do campinho de futebol, onde nos encontrávamos. Rabiscou uma reta e a equação numa meia folha de caderno. Ainda me lembro que a matéria de geometria que seria ministrada versava sobre as propriedades da linha reta. Nela se marcavam os extremos A e B e mais um ponto “C” em qualquer local de sua extensão. Assim, arma-se a equação: CB/AC = AC/AB. Daí resultava que considerando a reta de valor igual a 1, e o segmento AC=X, o outro segmento CB será igual a 1-X.  Substituindo-se as letras pelos valores, resulta que 1-X/X = X/1, donde a equação se resume à expressão algébrica x² + X -1 = 0. Nada como o repetez, repetez toujour, pois quase 50 anos depois, numa de minhas visitas a Lavras, eis que encontro o Prof. Nelson, entrando numa lanchonete e antes que me avistasse, gritei bem alto: Der Lehrer Werlang...”. Alemão, era seu segundo idioma preferido e no qual foi educado na infância. Sorridente veio até a mesa, tomamos um café e relembramos aquela aula em que lhe substituí, no longínquo ano de 1963. Mente brilhante, mesmo aos 80 anos, foi logo dizendo que aquela equação dos segmentos da reta tinha o nome de “Divisão Áurea de um Segmento de Reta” e ali mesmo, sobre o guardanapo, rabiscamos e resolvemos um problema hipotético por ele formulado, com aquela equação. Doce recordação e ótimo exercício mental.  


Dia seguinte ao pedido do mestre, dirigi-me ao Colégio e a primeira providência foi apresentar-me  à Madre Superiora (puxa que arrepio..., pois o folclore pinta essa figura como o terror do colégio e ali estava um rapaz, jovem, sabe-se lá com que intenções para cima daquelas garotas, pensava ela, certamente...). Dominando bem o assunto, o jovem estudante/professor demonstrava bastante autoconfiança. Em seguida, ainda um pouco apreensivo fui direto à sala de aula. À porta respirei fundo, cabeça erguida, autoconfiança em alta, adentrei com toda a pompa e circunstância que se exigia do professor naqueles idos de 1963. Mas eu disse autoconfiança em alta? Sim, mas... porém, todavia, entretanto, contudo não obstante e ainda assim....., surgiu um detalhezinho imprevisto pelo todo empertigado e neófito professorzinho substituto. Ali, naquela classe, estava ninguém menos que a própria namoradinha, paixão recém conquistada e de conhecimento de toda a classe (qual a mulher que resistiria a um segredo desses....?). O mundo veio abaixo, o rubor se espalhou pela face diante dos olhares e risos de surpresa de toda a turma de meninas (eram mais de 40 e só meninas) que sabiam e apoiavam o namoro da colega com aquele jovem e agora "importante" professor substituto que acabara de adentrar a classe.


            O jovem professor, atrapalhado no íntimo, não se fez de rogado. Cumprimentou a todas, sentou-se à mesa, num tablado elevado e iniciou a célebre chamada nominal de cada aluna, registrando no Diário de Classe as presenças e faltas. Risos contidos, feições traindo a emoção e certamente as coisas iriam se complicar quando fosse declinado o nome dela que, a essa altura, estava nas nuvens conforme confessara posteriormente. Mas, outra vez não se fez de rogado... pronunciou o nome, ironicamente e com ar de convencido, sorridente, disse: "essa eu conheço bem"... e... gargalhada geral. Foi uma catarse. Terminada a chamada e as brincadeiras que nos permitimos, o novo professor pôde então iniciar sua aula e cumprir o compromisso sem que houvesse qualquer perturbação no ambiente respeitoso que se instalou a seguir. Durante 50 minutos a aula transcorreu normalmente. Após a explanação sobre a teoria da “Divisão Áurea de um Segmento de Reta”, passaram-se aos exercícios para a fixação dos conteúdos.


            Esta foi a minha primeira aula formal e embora tensa no início, a considero como a melhor e mais divertida que ministrei ao longo desses quase 50 anos de magistério. Deve ser por isso que adquiri gosto pela carreira e, certamente, aquela primeira aula em uma classe formal muito contribuiu para isso. Além disso, no decorrer do 2º e 3º ano do curso científico, outro jovem professor, Roussaulière Mattos, lavrense, recém graduado pela PUC-RJ em Química e Física, convidou-me para ser monitor naquelas disciplinas. Aplicava provas mensais para outras turmas e ajudava na preparação de aulas práticas nos laboratórios do colégio, o que se traduziu em prestígio e respeito entre os colegas e maior desempenho nos estudos. Lembro-me que algumas experiências com motores elétricos eram descritas em compêndios em idioma inglês, o que dificultava ainda mais a produção de textos para acompanhamento dos alunos. Assim fui adquirindo gosto pela atividade de docência além de receber maior estímulo ao aprimoramento nos estudos. Toda essa experiência em sala de aula, iniciada ainda bem jovem, devo a esses dois eminentes educadores que incentivaram e confiaram-me a honrosa missão de seguir seus passos.


            Ao rememorar o dia do Mestre, volto o meu olhar para esse distante passado e, agora, no presente, ainda desfrutando do prazer da sala de aula, resta-me agradecer a Deus por tudo isso. Ter tido o privilégio de lidar com os alunos no ensino superior, ao longo de toda a minha vida profissional, foi uma benção, pois sempre mantive o espírito jovem, acreditando num brilhante futuro para todos eles.


Brasília, 05 de outubro de 2010/ novembro 2015

Paulo das Lavras 


 
                       Prof. Nelson Wilibaldo Werlang  –   Renomado professor de Matemática em                             
     Lavras-MG. Iniciou   a  carreira  em 1955  no  CNSA e  aposentou-se na UFLA                    
 (foto da década de 1960- Arquivos de Renato Libeck).                                
                                                  


 
Prof. Rousaulière Mattos, entregando diploma do 3º Científico a Paulo das Lavras, dezembro de 1963.
Roussaulière iniciou a carreira docente no CNSA, em 1962 e aposentou-se como professor da UFLA.
Coincidentemente, Nelson Werlang, Roussaulière e Paulo Roberto terminaram suas carreiras docentes na Ufla
Paulo inicou como docente universitário, na Ufla, em 1969, antes de seus dois queridos mestres do colégio. 


 
Na arte ser Professor..., tem lá suas recompensas... Ser homenageado pela Universidade Federal de Lavras,
como o fundador dos cursos de Pós-Graduação da Universidade... foi uma grande honra. Solenidade dos
40 anos de fundação da PG. Reitor Scolforo (à direita), Coordenadoras Patrícia e Laene (à esquerda) - Ufla, 11/2015.



Antigo dormitório das meninas do Colégio de Lourdes
Foto: arquivo de Renato Libeck



Pos scriptum: O querido  e respeitado Professor Nelson Werlang falecu em 18/11/2018. Cerca de um ano antes o visitei em sua casa em BH. Foi um momento de muita descontração e alegria, conforme mostra a foto abaixo:





sábado, 21 de maio de 2016

Capelinha das Fazendas do Açude, Limeira e do Meio - Ribeirão Vermelho- MG

  (crônica com 3.306visualizações em 12/12/2023 -  blogger)
A capelinha das Fazendas do Açude, Limeira e do Meio, localizada a poucos metros da rodovia Ribeirão Vermelho/ Rodovia Fernão Dias, nas coordenadas: 21° 8' 49.73" S 45° 4' 47.79" W está em ruínas. Eu não a conhecia. Quando menino eu apenas a contemplava de longe, a 10km de distância, do outro lado do rio Grande, no município de Lavras, lá do alto da fazenda Retiro (zona rural das Tres Barras). Por relatos de meus ancestrais ribeirenses, das famílias Pereira da Silva e Salles, soube que eles a frequentavam no passado, antes da década de 1960.

Visitei-a na semana passada. Fiquei encantado com a sua arquitetura. É a mais bonita de todas as que visitei e fotografei (Três Barras, Cervo, Farias, Fábrica Velha, Criminoso e Boa Vista, todas essas no município de Lavras). Entretanto, abateu-me um profundo pesar por vê-la totalmente abandonada, em ruínas. Uma pena.

Sou professor aposentado da Universidade Federal de Lavras e do MEC. Resido em Brasília e estou escrevendo um livro sobre a genealogia da Família Salles, de Lavras, cujo patriarca Domingos Pereira de Salles (pai de minha vó) foi o proprietário da Fazenda do Meio, às margens do Rio Grande, no município de Ribeirão Vermelho. Outros parentes tinham glebas nas fazendas do Açude e da Limeira, também em Ribeirão Vermelho e ainda no Barreiro, na divisa Ribeirão Vermelho/Perdões. Essas fazendas circundam a capelinha em questão. Um dos capítulos do livro será, justamente, sobre a religiosidade e as capelas rurais, em torno das quais se desenvolviam intensas atividades sociais, incluindo-se o uso de algumas delas para escolas, casamentos, batizados e até mesmo sepultamentos, como foi o caso da Capela da Fábrica Velha.

Assim, gostaria de contar com a colaboração dos amigos para levantar alguns dados e relatos sobre essa bonita capelinha das fotos, incluindo:
1- Data de inauguração
2- Nome atribuído à capelinha (seria S. Sebastião?). Alguém teria dito que o local se chamaria Luna. Na verdade, há uma meia-lua e uma estrela em alto relevo na fachada.
3- Quem a construiu?
4- Proprietário do local, atualmente
5- Histórias e casos sobre a capelinha (eventos, etc)
6- Há chances de se restaurá-la? Embora esteja em ruínas, a estradinha de acesso tinha sido patrolada no dia anterior à minha visita, incluindo todo o arredor da capelinha. Será que há planos para recuperação da mesma? Tomara! Assim espero

Ficarei muito grato sobre qualquer informação, incluindo indicações de livros, artigos de jornais ou sites que falem dessa bela igrejinha, ou nomes de pessoas e respectivos contatos (e-mail, telefones) com as quais eu possa falar e colher informações para o resgate de sua história.
Imagino que pela sua beleza arquitetônica, deve ter representado muito para as populações rurais do século passado e com certeza haverá, ainda hoje, alguém que a frequentou e dela falará com muito gosto e amor.
           Obrigado

Brasília, 20 de maio de 2016

Paulo das Lavras  -      

 paulosilvadf@gmail.com  




 
Belíssima fachada da capelinha das fazendas do Açude, Limeira e do Meio - Ribeirão Vermelho-MG.

Foto tomada em 14/05/2016
Embora esteja em ruínas, a estradinha de acesso tinha sido patrolada no dia anterior, incluindo todo o arredor da capelinha. Será que há planos de recuperação da mesma? Tomara!

  




 
 Uma pena! Assim está o interior da capelinha

Detalhe da fachada. Símbolos semelhantes aos da Bandeira Nacional da Turquia.
Teria sido construída, a capelinha, por algum imigrante sírio-libanês, no início do século XX, quando se deu grande fluxo desses imigrantes para o sul de Minas?


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Luto... Brasília amanheceu triste

Luto... Brasília amanheceu triste. Seus canteiros de flores choram. Ozanan Coelho, o agrônomo que transformou, literalmente, a cidade num canteiro florido, partiu repentinamente. Foram 40 anos de trabalho, transformando a capital numa cidade-parque que encanta a todos os seus três milhões de habitantes e inúmeros visitantes. Sem igual no mundo inteiro! Deixou sua marca indelével em nossos corações, a beleza da cidade em flor, que tanto tenho cantado e exaltado em crônicas. Ozanan, pessoa simples e embora diretor-geral da Novacap, trabalhava com a porta aberta, como ele própria dizia. Entra quem quiser, recebo a todos igualmente e o máximo que pode levar é um não... , completava ele. Lembro-me dele desde o ano de 1980, quando solicitei-lhe, em seu gabinete e gentilmente concedeu um estágio para paisagista da UFLA. Também deixou lembranças como incentivador da criação de jardins em todas as casas, produzindo e fornecendo mudas  a preços acessíveis. Brasília é hoje exemplo de consciência ambiental, paisagística. Aqui, os jardins são os únicos patrimônios totalmente livres, sem nenhum cercamento ou policiamento e ainda assim plenamente respeitados. Nunca houve um único caso sequer de vandalismo contra as flores e jardins. Todos os admiram.


O poeta Rubem Alves aponta pelo menos uma razão para se gostar de jardins: “Um jardim é a face visível de Deus, é o seu rosto sorridente…”. E num jardim estou no paraíso, completa o autor. Plagiando a metáfora do poeta, podemos afirmar que, em Brasília, vivemos num paraíso, cercado de flores em seus milhares de canteiros e mais quatro milhões de árvores, a maioria floríferas exuberantes, além de outros tantos milhões de metros quadrados de gramados. As flores enfeitam a alma. Não é a toa que o altar das celebrações religiosas é enfeitado com flores, pois alegram mais ainda a alma e ajudam a nos aproximar de Deus. Da mesma forma enfeitamos a nossa casa, a mesa da festa, qualquer que seja. Até na morte enfeitamos a viagem para a última morada dos entes queridos, como que a alegrar-nos, sabendo que estamos retribuindo o amor que deles recebemos em vida.


Tenho certeza que o mestre jardineiro, Ozanan Coelho, terá hoje o seu féretro enfeitado em alameda florida, pois em vida ele pavimentou muito bem o seu caminho. Estarei lá para levar ao amigo e respeitado profissional, o último tributo de gratidão. Enfeitou toda a cidade, por longo tempo. Que Deus o receba com flores, da alma, pois as flores do campo nós lhe oferecemos hoje, nessa despedida para a morada final. Ainda que essas flores  que levaremos tenham sido plantadas e cultivadas por ele, no campo ou ainda inspirando, diariamente, nossa alma que aprecia e reverencia a beleza dos jardins. Por isso lhe retribuímos com gratidão. Pena que hoje, ao pegar uma flor para levar à sua despedida, nos invade um sentimento de profundo pesar, pelo passamento daquele que viveu entre elas. Como Ruben Alves, ele também será eternamente conhecido e reconhecido como o homem que enfeitou Brasília, amava as flores!

Brasília, 9 de maio de 2016

Paulo das Lavras


 

 


A Congea tomentosa, em grande e exuberante volume, em minha
chácara. Inspirada nos jardins do Centro de Convenções Ulisses
 Guimarães, da década de 1990