terça-feira, 12 de julho de 2016

Um Seminário na década de 1950 Parte I - Uma viagem ao passado




Cap. I de: Um Seminário na década de 1950 
 (Veja Nota Explicativa ao final, com  a estrutura completa do livro e links dos capítulos já publicados neste blog)

https://contosdaslavras.blogspot.com/2016/07/um-seminario-na-decada-de-1950-parte-i.html


Tripulação, preparar para o pouso..., assim soou a voz suave do comandante em toda a cabine do avião.  O menino foi despertado de seu devaneio nas nuvens, literalmente. Um ligeiro tranco e o barulho característico do trem de pouso baixando, indicava a iminência do pouso. O moderno Boeing 737-800, de prefixo PR-GTQ, procedente de Brasília com mais de 100 passageiros a bordo, pousou suavemente na pista do Aeroporto de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte, naquela manhã ensolarada de seis de setembro de 2013. Enquanto taxiava pela pista o menino das Lavras contemplou as alterosas montanhas que tanto o marcaram na infância, como também no internato, na cidade de Itaúna rodeada de montanhas de ferro e siderúrgicas. Montanhas faziam parte de sua vida, mesmo mais tarde, morando na capital de Minas Gerais, onde também cercavam a cidade, notadamente a Serra do Curral. Ali, em Belo Horizonte, recém-formado na faculdade, trabalhou em seu primeiro emprego. Mineiro das montanhas, as linhas sinuosas do horizonte lhe eram muito familiares e queridas, pois sabia medi-las com os olhos, mais que as planuras do planalto central a despeito de ter passado neste, a maior parte de sua vida. Lembrou-se das palavras do filósofo e poeta Rubem Alves descrevendo a alma movida à saudade. Para o poeta a alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam. Perderam-se? Mas..., esses pedaços estavam bem ali mesmo, havia cinquenta e cinco anos... Era o que buscava, naquele momento, em meio aquelas montanhas de ferro e manganês. Despertado desses devaneios, pela voz da comissária de bordo que convidava os passageiros para o desembarque, deixou a aeronave, caminhou até o saguão, embarcando rapidamente no automóvel que o aguardava. Percorreu pouco mais de 100 km em direção ao oeste do estado da velha conhecida Minas “Geraes”, seu berço e inspiração de toda a vida. Tinha um encontro marcado com o passado de 55 anos..., rever o Seminário onde estudara, em Itaúna.

 

Rubem Alves tinha razão, a alma é mesmo movida à saudade, como também o escritor e poeta francês, Marcel Proust, que escreveu sua mais famosa obra, “Em busca do tempo do perdido”. Nesta, inebriado, revive toda a infância depois de mergulhar o bolinho “madeleine” numa xícara de chá, tal qual fazia nas manhãs de domingo na casa da tia do escritor, quando ainda era menino. Da mesma forma que a lembrança dos bolinhos de chuva levou Proust a relembrar sua infância, as montanhas cobertas de minérios de ferro e manganês, serviram de gatilho que despertou o pensamento do menino para as memórias escondidas nos escaninhos do inconsciente. Talvez por isso, pelo especial significado daquela viagem o voo foi bem diferente daquelas centenas de outros que fizera entre as duas capitais. Afinal, passou mais de quarenta anos em missões de trabalho naquela rota. O aeroporto, velho conhecido, até mesmo por causa de um sério desastre sofrido a bordo de outro Boeing, lhe parecera mais interessante, a estrada mais bonita, tudo enfim respirava alegria. Ressurgiu o espírito do menino ansioso a caminho do seminário.

 

Enquanto o motorista dirigia por entre montanhas o passageiro revia, com doce emoção, o filme em seu imaginário de todo aquele longínquo passado. Rever o passado e suas imagens é, como explicam os psicólogos, lembrar-se exatamente do local e eventos onde estivera muito tempo antes. É uma característica de nossa mente que “grava” com maior intensidade aquilo que foi marcante em nossa vida. É a chamada memória cintilante. Agora, potencializada com a emoção de rever, presencialmente, os espaços físicos daquela época, muitos ainda preservados no original. Enquanto apreciava a bucólica paisagem  pela estrada afora, cercada de  montanhas, pensava em seu passado. Como poderia evitar, se afinal de contas, era disso que se tratava aquela viagem, depois de muitos anos da primeira vez que ali chegou, menino de apenas 12 anos, para uma mudança radical em sua vida? Quase não conseguia conter a agitação, a mesma ou até maior que aquela de 55 anos atrás, quando pela primeira vez fez uma viagem de verdade, longa, para bem longe da família, de onde nunca tinha antes se afastado. Ah..., quanta emoção, como seria hoje a cidade, a estação do trem, o hotel e o principal alvo, o Seminário?  Assim, reavivado e antenado nos detalhes da paisagem, desembarcou na praça central da cidade de Itaúna. Respirou fundo e caminhou em direção ao adro da igreja. Adentrou a Igreja Matriz de Sant´Ana, cujo nome é o mesmo da matriz de sua cidade natal. A enorme matriz estava ali, do mesmo jeito, onde participara de tantas missas dominicais e festas religiosas dos dias santos, cantando no coral dos seminaristas. As cores vivas de seu interior, com pinturas e imagens sacras, pareceram-lhe mais lindas que aquelas guardadas na mente, mas esmaecidas pelo tempo. Rever ali o altar onde se celebravam as missas e logo à entrada o elevado mezanino, onde os meninos do coral se posicionavam para cantar, sob a regência do Padre Adriano ou do Padre Luiz, com os acordes do órgão e tendo ampla e privilegiada visão de toda a nave da igreja, foi uma sensação indizível, do fundo da alma, de arrepiar. Foi possível “ver e ouvir” aquele coral de seminaristas cantando o Kyrie-eleisson, ou o Pater Noster qui est in coelis... e tantos outros belíssimos hinos. Parecia mesmo ouvir a própria voz, peito cheio, dando vivas a Deus nos solenes Kyries de exaltação da alma a Deus e aos santos como no Salve Mater Misaericordiae. Se entrar e contemplar aquele belo cenário da matriz já lhe causara arrepios na alma, lembrar-se e “ouvir” o coral cantando o belíssimo hinário sacro, que ainda sabia de cor, em latim, fez com que o menino derramasse lágrimas de pura nostalgia naquele ambiente sagrado que, por mais de trinta anos não o frequentava, ainda que em outros locais. Demorei-me um pouco ali  e ainda “cantei”, em silêncio, algumas estrofes daqueles hinos dos quais ainda me lembrava. Enxuguei as lágrimas, agradeci a Deus.  O dia prometia..., pois logo no primeiro encontro com o passado as emoções se transbordavam.

 A praça e a igreja nada mudaram. Ali nas escadarias pude "sentir", como no passado, o abraço e o perfume da mulher mãe com os afagos carinhosos que algumas senhoras nos distribuíam, bem ali, após as missas, como se nossas mães fossem. Esses eram os únicos carinhos que o menino recebia, ali na distante terra. E quase sempre eram acompanhados de palavras de elogios, enaltecendo nosso desempenho no coral. Lembrei-me, particularmente, de um forte abraço que recebi, com votos de felicidades na missão de seminarista e, olhando para o rosto daquela bondosa senhora, vi as lágrimas escorrendo em sua face. Puro amor de mãe que ali projetava, talvez, a imagem de seu próprio filho, ausente que nunca pensara em ser seminarista, ou talvez a falta de um filho que não tivera, para desejar-lhe um futuro promissor de vida sacerdotal. Mas, Mas, agora, o interesse maior era chegar logo ao Seminário, distante uns 200 metros apenas, numa rua que se iniciava na praça da matriz. Não foi preciso consultar ninguém, nem mesmo o Google-maps ou GPS para chegar até lá. O mapa ainda estava vivo na memória, pois fizera o mesmo trajeto inúmeras vezes com seus colegas seminaristas. Todos os domingos havia a santa missa com os cânticos de nosso coral regido pelos padres holandeses, irmãos de sangue, Luiz e Adriano Turkenbourg. Em todos os ofícios sacros lá estávamos naquela imponente catedral, especialmente na Semana Santa. Quanta emoção reviver ali, in locco, a alegria do menino seminarista nos rituais de sua igreja.

Ansioso e já impregnado pelo espírito do menino seminarista, caminhou pela Rua Melo Viana, que se inicia na praça da matriz e conduz ao Seminário situado a um quarteirão apenas. Ao final deste, já na esquina da Rua José Gonçalves com seu declive moderado, avistou o imponente prédio do Colégio Sant´Ana, que compõe a fachada do Seminário propriamente dito. Novamente foi tomado por indescritível emoção. Parou, contemplou tudo e o filme daquele cenário de tanto tempo atrás não parava de rodar em sua mente. Faltou-lhe o fôlego e ofegante de tanta emoção, ficou ali estatelado, arrepiado com os sentidos à flor da pele diante daquele reencontro. Ali estava, extasiado, parado no exato lugar que o menino de 12 anos chorara copiosamente no primeiro dia, na chegada ao novo endereço que ele próprio escolhera. Bem ali, em meio à rua, defronte ao portão do Seminário, agarrado à mão do diretor, Pe. Adriano, quando o pai e a irmã se despediram e desceram a rua acenando-lhe um último adeus dolorido na alma. Dali eles voltariam em direção ao hotel e à estação do trem para a viagem de volta à casa. Foi a sensação mais dolorida e marcante que o coração do menino experimentara em toda a sua vida. Desesperado e aos prantos custou conter o ímpeto de largar a mão amiga e correr em disparada atrás do pai e da irmã, que acabavam de dobrar a esquina, como a dizer-lhes... não me deixem aqui, sozinho com desconhecidos e tão distante... Mas, como reclamar ou desistir de ficar? Demais para o garoto que nunca saíra de casa. Só lhe restara adentrar o grande portão, mitigar a dor da separação e depois adaptar-se à nova vida de seminarista que tanto almejara. Deus haveria de consolar aquele coraçãozinho angustiado pela despedida e ainda por cima o impacto do ambiente totalmente desconhecido e tão distante como uma eternidade, reforçando a sensação de isolamento..., Era mesmo demais para o menino. Desde logo reconhecera o quanto é importante o amor dos pais e a união da família onde todos se sentem seguros e fortalecidos. Cortar bruscamente os laços familiares de um menino produz um grande impacto emocional, mas, com certeza reforça e molda um caráter mais forte e maleável às adversidades.

 Após rodar esse filme e entender a dor da separação pela primeira vez, tendo que suportá-la com galhardia, pois fora ele próprio que assim escolhera seu futuro, o menino das Lavras ali permaneceu parado, no meio fio, defronte ao majestoso prédio do antigo Seminário. Estático por alguns minutos e absorto em sua doce e emotiva recordação, contemplou a realidade  daquele instante. Mas, foi subitamente despertado ao ver à sua frente uma mãe e filha que atravessavam a rua de mãos dadas. Essa cena disparou novamente o gatilho do subconsciente, reforçando aquela lembrança de seu próprio pranto agarrando forte a mão confortadora de seu tutor. O menino puxou fundo a respiração, suspirou e lacrimejante como a 55 anos atrás, sacou o celular e fotografou mãe e filha, de mãos dadas, como se registrasse o resgate de sua própria história. Emoções a mil e um misto de alegria e lágrimas a contemplar aquela cena familiar carinhosa de um simples dar as mãos entre mãe e filha, como a recordar que ali, exatamente naquele local, um dia bem distante, também passara por isso. Ainda que não tivesse revisto mais nada, a viagem teria valido a pena por esse inesperado episódio. Que ótimo, faltava apenas adentrar o Colégio e o antigo Seminário que lá estavam com as mesmas belíssimas fachadas. Seria possível? Nada havia sido marcado com a direção do educandário.



Brasília, setembro de 2013

Paulo das Lavras 



O Seminário de Itaúna e o Colégio Santana, ao fundo, em 1958 


 
... e o Boeing de prefixo PR- GTQ pousou                    
 suavemente no aeroporto de Confins, em BH             


 
a majestosa Catedral de Itaúna, local onde os seminaristas
 cantavam nas missas de domingo


Uma mãe e filha, de mãos dadas, no mesmo local onde o             
             menino, do mesmo jeito, deixou o pai e a irmã para adentrar o Colégio  e                                     
  e Seminário pelo grande portão lateral                    
que aparece ao fundo, à esquerda da foto.



   55 anos se passaram, mostram com as mãos, o menino ex-seminarista e o atual diretor do Colégio, Prof. Marcinho, à direita


 
 O mesmo prédio do Seminário de 1958, agora, em 2013, sem as  árvores da fachada principal.


Dormitório dos “menores”, em 1958. Camas “patente”, bem estreitas. Armários de 1,0 metro de altura e sobre o qual se colocavam as malas. Padre Adriano, o diretor, à esquerda, fiscalizando os meninos. O primeiro seminarista à direita, sentado chama-se Adão, o terceiro, Eustáquio e o último, próximo à janela é Adílio Mansur. Trajavam o uniforme de gala para a missa solene de domingo pela manhã, na Igreja Matriz de Itaúna. 
Minha cama ficava do lado direito, umas três antes da primeira da foto. O corredor era mínimo,conforme se vê pela posição do primeiro menino, de pé, à direita, passando pelo estreito corredor formado pelas camas. 
No fundo havia uma portinha, próxima à última janela da direita e que servia para as visitas noturnas, de surpresa, do supervisor. Uma “guerra dos travesseiros”, única daquele ano, atingiu quase toda a ala da direita e foi flagrada pelo Padre Luiz. Castigo certo no dia seguinte.. 


 
Cerimônia do lavabo durante a missa na capela do Seminário,  com o menino das Lavras ajoelhado à direita, usando
a paramentação completa, a batina preta, sobrepeliz branca, de rendas e
escapulário preto sobre os ombros. Era a “glória” para os seminaristas


 
Em frente à barra de exercícios. O primeiro à direita, agachado é o menino das Lavras. Semblante triste.
Adão é o 1º em pé à esquerda. O terceiro, em pé, é Eustáquio, o Taquinho. Eram os melhores amigos,
companheiros de todas as brincadeiras naquele Seminário, em 1958. Três deles não estavam muito
alegres, inclusive o menino que sentia muita saudade de casa.


 
         Éramos 13 seminaristas que integravam a turma de 30 alunos, do 2º ano do ginásio,
do Colégio Santana, anexo ao Seminário. O menino é o terceiro da esquerda para a direita, da primeira fileira
 Também nesta foto, não conseguiu sorrir ao comando do fotógrafo.



 Alma rejuvenescida com as reminiscências de 55 anos atrás, bem defronte ao mesmo prédio, majestoso, que abrigava sua  humilde cama “patente”, de molas, no dormitório dos menores, próximo à 9ª janela, da esquerda para a direita, do 2º  pavimento.
Dali, contemplava o alvorecer do dia através daquela janela, simples basculante desprovida de cortina e que deixava irradiar os raios dourados de sol, convidando-o à meditação. Na solidão daquelas madrugadas, pensando nos valores da vida e na importância da família distante, indagava a si mesmo por que estava ali, qual a razão? Por que tanta saudade, que apertava o coração a ponto de sempre rolarem lágrimas? Essa era a sua “oração” diária, rogando a Deus forças para vencer os obstáculos. Cresceu em espírito, amadureceu com elevado senso de responsabilidade e princípios éticos que o acompanharam para sempre.




(*) Nota Explicativa: Esta crônica é parte do livro: “Um Seminário na década de 1950”.  A obra compreende os capítulos de I a IX Os capítulos já publicadas neste blog, estão com os links indicados abaixo, na estrutura editorial:

Título geral: Um Seminário na década de 1950

I-   Uma viagem ao passado – já publicada: http://contosdaslavras.blogspot.com.br/2016/07/um-seminario-na-decada-de-1950-parte-i.html

 

II- O despertar da vocação no menino -     

              http://contosdaslavras.blogspot.com/2021/03/o-despertar-da-vocacao-sacerdotal-um.html

 

III- a viagem para o distante Seminário - http://contosdaslavras.blogspot.com/2020/07/a-viagem-para-o-distante-seminario.html

IV- A vida no Seminário

4.1- a rotina de um internato

       http://contosdaslavras.blogspot.com/2021/04/a-vida-no-seminario-rotina-de-um.html

4.2- os seminaristas

4.3- os estudos do colégio 

4.4- A religiosidade               

4.5- o lazer e cultura

              4.6- Eventos marcantes

                      4.6.1 - Fundições e Tecelagem Itaunense 

                      4.6.2- Morro do Bonfim- a capela -   https://contosdaslavras.blogspot.com/2024/05/o-morro-do-bonfim.html



                      4.6.3- Copa do Mundo de 1958

      4.6.4- A morte chega ao Seminário  - já publicada:   http://contosdaslavras.blogspot.com/2017/07/a-morte-chega-ao-seminario.html

V – A viagem de volta - O fim

VI- O reencontro – 55 anos depois

VII- O legado 

VIII- Anexos: Curiosidades de 1958

IX- Pos-Scriptum: 

-  http://contosdaslavras.blogspot.com/2015/06/reencontro-do-seminarista-foragido.html

-  http://contosdaslavras.blogspot.com/2018/06/29-de-junho-de-1958-sessenta-anos-da.html

http://contosdaslavras.blogspot.com/2019/03/o-algodao-as-ovelhas-de-producao-de-la.html

 - https://contosdaslavras.blogspot.com/2022/02/o-som-do-silencio-na-alma-haendel-e.html
















14 comentários:

  1. Meu nome é Luiz Gonzaga Pereira de Souza. Estudei no Seminário N. Sa. de Fátima, no período de 1961 a 1963. Tenho muita saudade de lá. Dos amigos, dos padres, das brincadeiras. Sou muito grato ao que aprendi no Seminário. Gostei demais de seu texto publicado no blog e me trouxe muitas recordações. Tenho publicado alguns textos no site Recanto das Letras. Sugiro que você leia alguns que fazem referência à minha estada em Itaúna. CARTA PARA A MAMÃE E O PAPAI - 1ª SEMANA NO SEMINÁRIO - Autor: LUIZ DE SOUZA. outro texto - REMINISCÊNCIAS DA JUVENTUDE.

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  2. Acrescento que estou acompanhando seu blog. Muito bom.

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  3. Fiquei muito emocionado com seu texto. Li, devagarinho, degustando cada pedacinho. Vc tem um jeito especial de escrever. Parabéns!

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  4. Prezado Luiz de Souza
    Somente hoje, depois de quase cinco meses, vi seus comentários. Não sei por que, mas o blog não notificou meu e-mail e por isso não o vi antes. Casualmente, hoje ao reler a crônica, deparei-me com seus comentários. Obrigado pelos elogios, a gentileza de comentar e também por indicar suas crônicas. Fiquei muito contente em saber que você também passou pelo Seminário de Itaúna e mais alegre, ainda, ao ler suas duas crônicas referentes ao tempo que lá esteve. Que preciosidade a sua primeira carta aos pais. Lamentavelmente eu não guardei nenhuma e sinto essa falta.
    Eu fiquei apenas um ano (1958) e você três (60/63), por pouco não fomos contemporâneos. Também viajei no tempo e no espaço com as suas narrativas. Pude “visualizar” os ambientes, as mangueiras, o campo de futebol sem grama, os padres Adriano e Luiz Turkenbourg (eram irmãos de sangue), Francisco (mutilado de guerra e ainda assim jogava no gol, no time dos novatos), José e Geraldo (era o mais novo dos holandeses) e o padre Cáuper, moreninho, baixinho e o único brasileiro (eu pensava que fosse baiano e você disse que ele era amazonense, Você deve estar certo pois eu nunca o perguntei).
    Você disse que tem saudades e muito aprendeu ali. Eu também! Disciplina rigorosa, educação aprimorada, inclusive nas artes plásticas, pintura e musical sacra. Me lembro que confeccionei em madeira um moinho holandês e o tenho ainda hoje no meu escritório. Isso sem falar das belíssimas coleções de selos do mundo inteiro que cada um de nós tínhamos. O grande salão de recreio com piano, onde me deleitava em ouvir os veteranos tocarem-no. Ainda hoje me lembro dos acordes de “O Largo” de Hendel. Boas e tantas lembranças, e que aparecerão nos demais capítulos a serem publicados. Vou ver se os termino logo.

    Parabéns pelas suas crônicas. Li uma meia dúzia delas, de temas variados. Aliás, como você descobriu essa minha primeira crônica sobre o seminário?
    Vou repassar-lhe meus contatos para que possamos nos comunicar sobre futuras publicações, minhas e suas. Já publiquei uma segunda onde narro um triste episódio da morte de um coleguinha lá no Seminário. em:
    http://contosdaslavras.blogspot.com/2017/07/a-morte-chega-ao-seminario.html


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    1. Bom dia, Paulo! Somente hoje vi a mensagem que você me enviou. Fiquei feliz. Demorei também a vê-la. Sobre a sua pergunta, digo-lhe que, navegando pela internet, buscando informações sobre o seminário, encontrei seu blog. Foi muito bom. Nossa passagem por Itaúna nos trouxe experiências positivas que nos marcou para sempre. Grande abraço. Continuemos a nos 'falar'.

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    2. Pois é, Luiz Gonzaga. Acabei encontrando outro colega de 1958, José Aleixo Garcia. Está também no FB.

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  5. Paulo, aqui é o Adão , envie-me seu whatsapp para 031-992292332 - Ipatinga-MG para colocarmos em dia nosso tempo de seminaristas em 1958. Tenho algumas fotos da época que posso enviar-lhe. Saudades

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    1. Eita, o Adão, meu colega nas fotos de 1958. Que alegria o reencontrar 64 anos depois. Vou já lhe contatar

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  6. É Paulo, você tem o dom de prender os leitores quando narra uma história, uma dádiva de Deus a poucos que lidam com a escrita. Mais uma vez fiquei embevecido no seu texto. Agora queria te fazer uma pergunta: você nasceu em Lavras, cidade emoldurada pela serra da Bocaina; teve parte da vida vivida em Itaúna, cidade também emoldurada pelas montanhas de ferro e manganês, e em Belo Horizonte, pela serra do Curral. Pergunto: como é morar em Brasília, onde os olhos só alcançam a vastidão do cerrado? Não te faz falta as ondulações que sempre tiveram presentes na sua vida?

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    1. Meu prezado amigo, jornalista, das Lavras do Funil, Eduardo Cicarelli. Obrigado pela especial deferência e pela pergunta que me dá a oportunidade de contar um pouquinho sobre esse “choque topográfico” e que , de fato, influencia nossa alma. Embora já o tenha respondido pelas redes sociais, repito aqui as minhas impressões sobre o viver nas montanhas e bruscamente mudar-se para as planuras do Planalto Central.

      Completei neste ano de 2025, exatos 50 (cinquenta) anos morando em Brasília. Quase o dobro do tempo em que vivi em Lavras a terra natal cheia de montanhas. Um choque emocional, topográfico, orográfico... rsrs. A vida inteira contemplando as lindas montanhas, desde o café da manhã, através da janela da enorme cozinha da fazenda, de onde mirava o alto da Serra do Queixada, com incontrolável curiosidade e me punha a imaginar (menino, criança, ainda) o que haveria lá no alto? Bichos, pedras, grandes árvores? E do outro lado, haveria rios, fazendas, cidades? Curiosidade infantil, alimentada diariamente, impulsionando sonhos e imaginação sem fim.

      Na cidade, morando na grande chácara de mais de 20 Ha, à rua Progresso, onde hoje se situa o a Vila Cruzeiro do Sul, era prazeroso chegar à varanda, logo cedo no café da manhã e contemplar a majestosa Serra da Bocaina, azul resplandecente em forma de moldura da nossa Lavras. Um privilégio que, de imediato, nos levava à contemplação e admiração por tamanha dádiva da natureza, que incluíam os voos planados das aves de rapina que de lá vinham em busca de presas, aves desavisadas, geralmente rolinhas e pintinhos desgarrados das mães, rodeavam nossa casa. Não bastasse isso tudo, passei um ano interno no Seminário de Itaúna, cercada de montanhas de ferro e manganês e que até em seu próprio nome a pedra preta no idioma tupi-guarani.. Montanhas sempre foram meu horizonte e sempre fui tomado pela vontade incontrolável de escalá-las e ver o outro lado do mundo.

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  7. Cont... resposta a Eduardo Cicarelli
    Imagine, prezado Eduardo, tudo isto até os 22 anos, quando concluí a faculdade de Agronomia, em Lavras e em seguida fui trabalhar. Aonde? Em BH, ao pé da Serra do Curral, não menos majestosa que a nossa Serra da Bocaina. Não bastasse essa moldura da capital dos mineiros, embrenhei-me pelas montanhas de Nova Lima, Brumadinho, Ouro Preto, Mariana, Caraça, Serra do Cipó, também históricas e nelas trabalhei diariamente durante temporadas, em projetos de reflorestamentos para as empresas siderúrgicas Mannesman, Aluminas e tantas outras. Meu destino era as montanhas e por isso eu amava escalá-las, em jeeps, rural-Willys, trator e até em lombo de burro, acompanhando tropas com jacás cheios de mudas de eucaliptos, às vezes o único meio de se atingir o topo daquelas elevadas montanhas. Chegar ao topo delas era a máxima glória. Sensação de conquista, alegria indescritível, até porque, em cada uma delas, a cada dia de escalada eu me sentia a criança à mesa do café da manhã, sonhando em um dia ali chegar... e cheguei, muitas vezes. Felicidade na alma!

    Ao chegar ao cume das montanhas, montávamos o estereoscópio (aparelho ótico usado para ver imagens em 3D - estéreo, criando uma sensação de profundidade ao apresentar duas fotos ligeiramente diferentes, pareadas (estereoscopia), e nos púnhamos a estudar, identificar os acidentes geográficos naturais, vales, montanhas, nascentes, matas ciliares e outros detalhes mostrados pelas aerofotos, que tomávamos emprestadas do Serviço Geográfico do Exército Brasileiro, que as recebera recentemente do U.S. Geological Service/U.S.Army, sob contrato do governo federal. Uma atividade que eu adorava, contemplar a vastidão, dali do alto da montanha e ainda desenhar as minúcias de seus acidentes geográficos naturais, desenhando, criando um mapa específico para fins de reflorestamento e inventário florestal e hídrico de uma fazenda. O menino sonhara alto desde criança e mais, ao repassar as fotointerpretações para a desenhista profissional de arquitetura e paisagismo, na sede da empresa, acabou por conquistá-la e levá-la ao altar, ali mesmo em BH.

    À parte a questão profissional, eram notáveis o silêncio, a grandiosidade e a beleza dos espaços da natureza, muitas vezes floridos e coloridos de diferentes tons, vistos do alto das montanhas. Tudo aquilo nos extasiava e nos levava às reminiscências da infância, nas montanhas da terra natal que guardavam aquela pergunta nunca respondida: O que haveria lá no alto e no outro lado da montanha? Ali estavam todas as respostas, visualmente e pelas fotos aéreas, de precisão quase milimétrica. E ainda me vinha à mente, com aquelas fotos à mão, a lembrança de que “ Lavras serviu de base aérea” para a obtenção daquelas fotografias que ora me serviam de instrumento de trabalho. Era nítida a figura daquele avião Beechcraft da USAF, todo equipado e que fazia os voos entre 11:00 e 14:00 horas, com o sol à pino e sem nuvens, requisitos para a perfeição daquelas fotos aéreas que, agora se prestavam ao meu trabalho. Naquele ano de 1965/66 adentrei o Beechcraft King Air da USAF, ali no campo de aviação de Lavras, com sua antiga pista encascalhada. Conversava em inglês com o piloto norte-americano que sequer falava português. Ganhava combustível, a gasolina azul, puríssima e de alta octanagem, para minha moto-vespa, cujo tanque comportava apenas 8 ou 10 litros de combustível. Pelo menos uma vez dei-lhe carona de volta para o Hotel Central (depois transformado em Vitória Palace Hotel). Tempos bons!

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  8. continuação resp a Eduardo Cicarelli

    Pois estas foram as minhas maravilhosas experiências com as montanhas alterosas das Gerais, sem contar a escalada que, juntamente com o nosso amigo comum e ex-presidente do Aeroclube de Lavras, o Cmte. Fabiano Tadeu Maia Soares, fizemos à Serra da Bocaina. Ainda hoje tenho, sobre minha escrivaninha, uma amostra de rocha xisto betuminoso, lustrosa e aveludada que ali coletei e a usei na coleção de rochas exigidas pelo saudoso e eminente Prof. Alfredo Scheid Lopes, da disciplina de Geologia e Solos. Estudantes, futuros profissionais da Agronomia, tinham que conhecer, distinguir e classificar as rochas, pois são as matrizes dos solos que alimentam as plantas e por consequência a todos os animais , incluindo o próprio homem. Agora imagine, chegar às planuras do Planalto Central, sem uma única montanha... e aqui já ter vivido por tanto tempo. Não é fácil. Se ninguém jamais esquece Minas Gerais, imagine as suas montanhas... Não há como esquecê-las, são inesquecíveis, seja pela beleza de sua contemplação à distância ou melhor ainda, escalando-as. E eu escalei muitas, por força de ofício na maioria das vezes. Quase sempre me pego sonhando com escaladas na Bocaina ou na Serra do Curral, na qual, em turma, fizemos a escalada até o topo e a atravessamos, seguindo em caminhada pela Mata do Jambreiro e a Mina de Morro Velho, até chegar à cidade de Nova Lima. Voltamos de ônibus para BH, porque ninguém é de ferro e o percurso durou desde cedinho até as 16:00 horas, chegando exaustos, estropeados, ensopados de chuva na mata gelada... Mas, tudo era festa para os jovens de 20 anos.

    As memórias das montanhas e das florestas sempre estiveram gravadas em nosso subconsciente. Foi assim, a mais de 200km/h pelas pistas do circuito de Fórmula-1, de Hockenheim, na Alemanha, onde nossos campeões do automobilismo obtiveram muitas vitórias. Ficava aberto ao público para este tipo de passeio, com ingresso pago. Ao passar acelerado pelo interior da Floresta Negra (sim este circuito corta a famosa floresta) e ao avistar a placa “Swarzwald”, minha mente pulou 12.000km de distância e reviveu aquele medo infantil das florestas do alto das montanhas de Lavras. Medo? Sim, medo inconsciente, pois os adultos de antanho nos “aterrorizavam”, descrevendo bichos monstruosos e homens doidos que habitariam as matas vizinhas à casa da fazenda, e “pegavam” as crianças. Histórias aterrorizantes, baseadas, talvez, nos contos dos irmãos Grimm. Hoje até entendemos a psicologia educacional da época, pois crianças livres, poderiam se aventurar a entrar numa matinha qualquer, ou escalar a montanha, portanto..., ali era lugar proibido, “cheio de bichos, monstros terríveis e homens doidos que roubavam crianças e as colocavam num saco de aniagem às costas... ”. santo deus, tenha piedade... e agora, surpreendentemente ali estava bem no meio da pavorosa Floresta Negra, fonte de todo o terror das criancinhas dos anos 50 e 60.

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  9. continuação resposta a Eduardo Cicarelli
    E agora, o prezado amigo pergunta-me: “como é morar em Brasília, onde os olhos só alcançam a vastidão do cerrado? Não te faz falta as ondulações que sempre tiveram presentes na sua vida?”... Sim, faz muita falta, vivo a sonhar com as montanhas e sei medi-las, pelas suas ondulações, com mais acerto do que as planuras do planalto central, embora eu aqui já tenha vivido o dobro do tempo que passei nas Minas Gerais, sobretudo em Lavras. De raízes atávicas, ligado à terra, perambulei pelo Distrito Federal por seis anos à procura de uma chácara. Pois acredite, depois de muito procurar, encontrei uma sob medida, num pequeno vale cercado por ribeirão e montanhas que, embora de pouca altura (100 a 150 metros, dão-me a sensação de estar em casa sob os céus das alterosas mineiras. Penso que foi isto que apaziguou um pouco a minha alma inquieta sempre a buscar as alturas. Também o aeromodelismo, com voos panorâmicos de ultraleves, aqui pelos cerrados e até mesmo a beleza extraordinária da cidade de Brasília, com seu traçado sui generis e lindos monumentos, contribuíram para mitigar a falta das serras das bocainas, das carrancas, do curral, itacolomi, rola-moça, itambé e tantas outras. Gosto muito de Brasília, mas amo de paixão as montanhas das Minas Gerais. A cada vez que o avião toca o solo de Confins ou da Pampulha, sinto-me como aquela criança de outrora que, todos os dias, contemplava as montanhas e sonhava em conquistá-las. Em parte consegui , naquele ano em que trabalhei em BH e aqui no DF, nos fins de semana sempre fazia cavalgadas pelas pequenas serras pelas bandas da chácara.
    Um abraço para o amigo jornalista Eduardo Cicarelli. Desculpe o textão, mas é emoção demais. Obrigado por me provocar com doces reminiscências de nossa terra natal.




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