sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

O menino, a perda de entes queridos e a graça de Deus

 Feliz aquele que na adversidade encontra apoio,

 força e conforto espiritual oferecidos por almas

 amorosas, sem nada pedir em troca. Graça de Deus!



Sueli, 29/06/1943 -  29/09/1959


          As redes sociais criadas pelos empresários Elon Musk e Mark Zuckenberger, são a oitava maravilha do mundo na área da comunicação. Não há quem, de sã consciência conteste isto. No entanto, aqui no Brasil, esses dois empresários, detentores das redes sociais mais populares, têm sido  muito combatidos por governantes que não gostam de ver, em tempo real, suas trapalhadas divulgadas e condenadas pelos cidadão comuns. Hoje, felizmente, foi revogada uma das  mais controversas encrencas de exagerada intromissão na vida privada dos cidadãos, e na esteira das discussões, juízes afoitos ameaçando até mesmo a proibição de tais redes por aqui. Ora, nós, os cidadão comuns, seríamos privados do uso de tais redes de comunicação? Teríamos que voltar a escrever cartas manualmente, enviar pelo correio, de malotes pelas estradas e encravados na burocracia da lenta distribuição ao destinatário?  E as fotos coloridas? Teriam que ser também impressas – caríssimas e ainda pagar tarifas do lento correio monopolizado pelo governo? Ligações de voz voltariam a ser via  DDD, pela Embratel, também do governo e que cobrava preços exorbitantes a cada segundo registrado? Ora, ora, hoje assisti a dois eventos marcantes e de certa forma relacionados entre si. O primeiro foi a revogação do tumultuado decreto governamental que interferia nas operações via PIX, a forma  de pagamento direto, instantâneo, sem burocracia e cuja lambança governamental, indevida e protestada com veemência pelos cidadãos, foi capaz de reduzir em poucos dias em 30% as transações comerciais e entre pessoas. Mas, as redes sociais, adoradas pelas pessoas em geral, têm outras vantagens. É por meio delas que nos comunicamos com os familiares e amigos distantes geograficamente. Não basta a comunicação verbal ou escrita instantâneas, pois há as chamadas de vídeo e os links para participação em eventos. Posso participar de uma reunião no Rio de Janeiro e outra em Manaus com diferença mínima de tempo entre uma e outra,  ou reunir familiares em vídeo-chamadas coletivas, sem que haja necessidade de deslocamentos, cada qual em sua casa, nas mais distintas regiões do país ou no exterior.   

        Foi assim que hoje recebi um lindo vídeo, pela rede social da família de Lavras, gravado pela sobrinha Jane, na fazenda Retiro dos Ipês, da varanda da casa na  qual nasci, situada a 1.000 km de Brasília, onde vivo há 50 anos. O vídeo mostra quatro Siriemas passeando tranquilamente pelo lindo jardim frontal, com belíssima palmeira triangular (Dypsis decaryi) e uma majestosa  mussaenda totalmente florida na cor rosa. Não bastasse a beleza paisagística do local, ainda aparece como fundo musical uma trilha sonora, o tintilar ao vivo e estridente dos cantos de joão-de-barro e alguns canarinhos da terra, também chamados de “cabeça de fogo”. Linda e sonora sinfonia para o elegante desfile daquelas não menos elegantes “senhoras” em desfile para nosso deleite. Vi, revi e revi algumas vezes..., inacreditável a cena! Não por acaso disparou o gatilho do inconsciente. Um turbilhão de lembranças aflorou à mente do menino das Lavras. A primeira, evidente, o amor àquela fazenda onde nasceu, a infância ali vivida até os três anos, quando então se mudaram para  cidade e as estadas passaram a ser apenas nos finais de semana ou períodos de férias escolares. 

 
Um vídeo mostrando Siriemas desfilando calmamente pelo jardim frontal da casa da fazenda onde nasci,
 tendo como trilha sonora o tintilar dos canarinhos e joão de barro, foi o suficiente para disparar o 
gatilho das reminiscências da infância juventude.
Foto: Jane Lima -  jan. 2025

           
             A segunda lembrança, diante daquelas linda imagens, que calaram fundo o coração do menino, foi a visita que fiz ao primo e então vice-prefeito de Lavras, Edson Alves de Abreu, o Duti que reside na mesma casa de meu bisavô, na sede principal da Fazenda Três Barras, bem ali junto ao trevo da rodovia que liga a cidade de Nepomuceno à Fernão Dias, (BR 381). Era um dia de chuva fina, pegamos o Ford Ecosport, traçado 4x4 e vencemos a colina de estrada de terra molhada, escorregadia e 1.800 metros adiante chegamos à Fernão Dias. Dali, 500 metros à esquerda, sentido São Paulo, alcançamos o trevo de entroncamento da ligação de Nepomuceno. Neste, há uma entrada para a antiga e bonita sede da fazenda, carregada de lembranças da infância. 

          Com esse doce e saudoso preambulo, passamos ao foco principal anunciado pelo título da crônica. Desde cedo o menino experimentou a dor do luto. Aos dez anos acompanhou a perda de seu bisavô, Fortunato Gaspar de Abreu, querido pelas crianças que gostavam de pegar e puxar sua longa barba branca e dele receber carinhos, sempre sentado em sua confortável cadeira à porta da copa da grande casa de sua fazenda, ali na zona rural das Três Barras, município de Lavras,  às margens da BR381- rodovia Fernão Dias, inaugurada cinco anos depois de sua morte. O féretro foi acompanhado por centenas de pessoas da região que, em veículos próprios ou coletivos, o levaram até a cidade. Minha mãe, sua neta, rodeada por toda a família, estava inconsolável. Ali nascera, naquela casa de fazenda, cercada de carinho do avô que ora partia para sempre.  O menino, vestido de calça e paletó de casimira, conforme mandava o costume daquele ano de 1955, aguardou juntamente com os demais irmãos na casa do avô, à rua Francisco Sales, 794, onde terminaria o velório. Foi a sua primeira experiência dolorosa, sobretudo por presenciar a dor, o pranto incontido da mãe, que fora recebida  como filha, na casa do avô Fortunato, onde nascera como a primeira netinha do patriarca e mais tarde ali frequentava, quase todos os finais de semana com seus filhos, incluindo  este menino. O primeiro luto foi bastante dolorido para o menino, pois seu bisavô, a quem todos chamavam carinhosamente de Padrinho Nato, deixou lembranças calorosas e muitas saudades, pois naquela grande fazenda éramos tratados com carinho e atenção por todos e não apenas pelo quase centenário velhinho de fartos e encanecidos cabelos e barba branca bem tratada. Seus olhos eram azuis, herdados de seus ancestrais que emigraram de Portugal em busca das riquezas e vida melhor, ali no arraial dos Campos de Santana das Lavras do Funil. Naquela fazenda havia de tudo para as crianças se divertirem, córregos, pomar com todas as frutas imagináveis, moinho de fubá com amplo rego d´água onde deslizávamos sobre tábuas e troncos de madeira imitando jangadas,  amplos terreiros para secagem de café, onde podíamos brincar e jogar futebol com os adultos, curral cheio de vacas leiteiras, carro de bois, ovelhas, cavalos de sela e ainda o melhor de tudo, a hora do lanche com mesa farta de quitandas típicas dos mineiros, saladas de frutas e doces. Verdadeira festa semanal, afora aquelas do calendário cultural de então, como Folia de Reis, São João,  e tantas outras, sempre precedidas de missa e leilão de prendas. Verdadeiro santuário de memórias. Doces reminiscências da infância a toda hora relembradas. Minhas passagens por ali nunca cessaram, pois fica bem à margem da Fernão Dias e era mais emocionante, ainda,  quando passava por cima, voando de Brasília para o Rio ou de São Paulo para BH, cujas rotas se cruzam exatamente nesse ponto geográfico. A bordo e no silêncio dos grandes aviões comerciais ou de jatinhos executivos da FAB, o menino contemplava toda aquela área onde passou a infância e não conseguia conter as lágrimas, com vontade louca de saltar de paraquedas e ali ficar ao lado dos pais, avós e bisavós, curtindo os doces tempos da infância. A dor da saudade dos entes queridos não acaba nunca e parece ser mais dolorida quando se está à distância e muito mais quando se está a bordo de um avião, contemplando os lugares, a casa, tudo enfim e não se pode tocar, sentir.

             Três anos depois da partida do querido bisavô, em 24/03/1958, o menino passou por outro grande e terrível trauma, a morte por afogamento de seu coleguinha de internato no distante Seminário de Itaúna. Fui o último a deixar o vestiário após o banho de piscina e notei que restavam as roupas com as iniciais JVS, de José Valter dos Santos, o baianinho. Não tendo sido encontrado em nenhum local do clube, só restava a fatalidade. Depois de muitos mergulhos de alguns adultos, o corpo foi encontrado na parte mais funda da piscina, cujas águas, um pouco turvas, não permitiam visualizar o fundo. Após o resgate e embora todas as técnicas de ressuscitação tivessem sido aplicadas, o Baianinho estava morto, pois ficara demasiado tempo no fundo da piscina sem que ninguém notasse sua falta. Ali, ao lado, só restava-me chorar em desespero, inclusive com a terrível lembrança da própria “quase morte” num grande reservatório de água, mas que, por graça da pronta ação de minha mãe, que conseguiu resgatar-me do fundo e aplicou imediata técnica de salvamento de respiração e massagem cardíaca, fez-me ressuscitar, expelindo água pela boca, nariz e todos os poros da pele. Me lembrava perfeitamente dessa operação de meu próprio salvamento e o desespero da mãe com o menino de 3 anos no colo. Agora, estava ali, diante de situação idêntica. O velório de Baianinho, à noite toda, foi um dos grandes sofrimentos do menino no distante Seminário, longe dos entes queridos, seus familiares.
No ano seguinte, já de volta para casa, faleceu Sueli, com apenas 16 anos de idade, a  mais nova das cinco irmãs. Duro golpe, totalmente inesperado para o menino de 14 anos, embora ela fosse portadora de reumatismo infeccioso e passasse mal com crises cardíacas, durante todos os períodos de inverno. Nunca imaginávamos que aquela doença, nem tão grave assim, pudesse levá-la à morte. Porém, numa tarde, cinco minutos após receber medicação endovenosa, sofreu choque anafilático e veio a óbito instantâneo. Inacreditável, ali desfalecida, ainda na cama, em casa, onde recebera os cuidados de enfermeiro. Aquela linda jovem, de olhos  claros e bonitos cabelos cor de mel, ali estava, inerte. Como podia ser aquilo? Dor lancinante para todos os demais seis irmãos e a mãe ali ao redor. Deus cuidou de consolar os corações de toda a família que, de repente se viu sem a presença daquela amada e linda menina. Mais quatro anos se passaram e o pior aconteceu, a partida de nossa mãe, com apenas  49 anos de idade. Naquela tarde de abril de 1963, voltava do colégio, por volta das 17 horas e passei na casa de meu avô, onde ela se encontrava convalescendo de forte crise de hipertensão. O médico da família, Dr. Silvio Menicucci, lá esteve no final da manhã. Disse a meu avô, seu amigo na política municipal, que ela não passaria daquele dia, tendo em vista o elevado grau de dilatação do coração.  Cauteloso, o avô não disse isto a ninguém. Sequer imaginávamos que o desfecho estava próximo. Após a vista naquela tarde fui para nossa casa a cinco quarteirões de distância. Às 22 horas fomos acordos com a infausta notícia de que nossa mãe acabara de falecer. Pânico geral nos seis filhos. Nosso pai foi imediatamente buscado na fazenda. Se o choques das perdas do bisavô, do Baianinho e da irmã de apenas 16 anos, foram doloridos e intensos demais, receber a notícia da perda da mãe foi algo imensurável. Vencer aquela pequena distância, a bordo do carro do tio que fora nos buscar, pareceu uma eternidade. Chegar ao quarto e vê-la ainda nos braços da irmã mais velha que a acompanhava, foi a coisa mais terrível que aconteceu em toda a vida do menino. Seu corpo, embora ainda quente, mas inerte, não respondia ao abraço desesperado dos filhos. Dor lancinante no coração. A mãe que lhe dera a luz, lhe salvara a vida no afogamento, lhe acariciava e confortava quando aos cinco anos de idade perdera totalmente a visão de um dos olhos em acidente doméstico, a mesma mãe que lhe carregara no colo por quase dez meses em convalescência de cirurgia de pleurite aos dois anos, a mãe que acompanhava seus bons desempenhos nos estudos e torcia para que passasse no vestibular de Agronomia dali a pouco mais de seis meses... Não..., era demais para o menino, não podia ser verdade que aquela doce criatura de apenas 49 anos nos deixava e não mais estaria entre nós para colher os frutos de seu amor, traduzidos em sucessos para os filhos... 

               A ausência prematura da mãe deixou um imenso vazio em nossos corações e mal havíamos sido curados da dor do passamento prematuro de uma imã. Juntos, os seis irmãos, enfrentamos as adversidade da ausência da mães e fortalecemos nossos laços. A irmã mais velha assumiu a direção da casa e com a ajuda de tios e tias e ainda nosso pai que passou a vir da fazenda mais vezes que o usual de antes, apenas nas quartas e sábados, pudemos continuar dali para a frente. O menino recebeu bênção especial, pois estudando que estava para o vestibular, encontrou almas caridosas na família do Sr. Clélio de Lima Santa Cecília, a esposa dona Elisa e filhos que o acolheram, diariamente, todas as tardes para estudos juntamente com o colega de colégio, Fernando Costa Santa Cecília. Deus foi magnânimo e misericordioso com menino, pois conseguiu sublimar a dor da perda da mãe, concentrando-se nos estudos e lograr êxito no vestibular, classificando-se em primeiro lugar na Esal/Ufla federalizada apenas dez dias antes. Fernando também se classificou nos primeiros lugares do mesmo vestibular e nos formamos juntos. No dia da  formatura minha mãe não estava, mas tive certeza de que aquele abraço apertado, amoroso, de dona Elisa Santa Cecília tinha um recado e o perfume de minha mãe que se encontrava, havia quatro anos, na Glória do Senhor. E ela, Dona Elisa, ainda me lembrou, com lágrimas nos olhos; “Eu não disse, quando você chegou à minha casa, que Deus é misericordioso e que tudo iria dar certo? Deu certo, você e Fernando estão se formando hoje e terão um futuro brilhante e uma vida muito feliz!”.  Vocês merecem, completou dona Elisa, levando-nos às lágrimas. Feliz aquele que na adversidade encontra apoio, força e conforto espiritual oferecidos por almas amorosas, sem nada pedir em troca. Graça de Deus!      

Mesmo diante do mais duro golpe, a perda prematura da mãe, Deus foi duplamente misericordioso, 
pois deu ao menino uma segunda mãe que o acolheu durante os estudos para o vestibular e
 ainda o presenteou com o primeiro lugar no vestibular de Agronomia. 
Foto: Coleção Renato Libeck 

             Não há nada mais dolorido que ver a partida prematura, seja de um ente familiar ou mesmo um amigo. Foi assim, também, com a menininha Beatriz Guimarães, prima de apenas seis anos de idade, vitimada por insidioso mal. Ali, naquela noite de agosto de 1966, ficamos ao lado de poucas pessoas, toda noite velando aquele anjinho que nos ensinou a meditar sobre os valores da vida. A perda desses e outros entes queridos ensinou ao menino a valorizar a vida e expressar o amor enquanto ainda há tempo. Foi assim com meu saudoso pai. Deus nos recompensou pelo curto tempo de vida de nossa mãe, concedendo ao Sr. Clovis,  a graça de viver até os 101 anos (sim, cento e um anos...) e assim pudemos retribuir-lhe todo amor, carinho e atenção que mereceu. Seu passamento foi muito sentido, mas não com o amargo dolorido que experimentamos com a falta dos entes queridos que partiram prematuramente.  Por conta de sua longevidade e o carinho recebido em vida, tivemos a  certeza de que cumprimos com o dever de filho, retribuindo-lhe amor e carinho. Minhas memórias escritas, em forma de crônicas são cheias de gratidão aos pais e aos entes queridos que nos cercaram em vida, cuidaram de nós e no apoiaram nessa longa jornada. Mantenho vivas as suas memórias, celebrando suas vidas e legados, com muito respeito, ternura e amor. Assim, hoje, dedico esta crônica à minha irmã, Maria José de Abreu e à Dona Elisa Santa Cecília – in memoriam, duas mães que Deus enviou para acolhimento e conforto da alma do menino.


Brasília, 31 de janeiro de 2025

Paulo das Lavras




 
Dona Liquinha, aos 34 anos, partiu prematuramente alguns anos depois 

 
Sr. Vico, aos 80, viveu até os 101 anos



Casa de Sr. Clélio e dona Elisa Santa Cecília. A janela à direita, no segundo 
andar, era a sala de estudos de Fernando e este menino.
Foto: coleção Renato Libeck


Mariinha, irmã mais velha, assumiu a casa na ausência da mãe.





















quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

... e 2025 chegou!



... e 2025 chegou! Um Novo Ano, um novo dia que brilha. Renovemos nossos desejos, nossos planos e metas. Cuidemos com amor das três maiores preciosidades que Deus nos concedeu:
nosso corpo (a saúde – a vida); nossa família e nossos amigos

Brasília, 01/01/2025 


    

 

domingo, 29 de dezembro de 2024

Um Papai Noel escritor-historiador

 

       Recebi pelo correio um pacote de Papai-Noel com vários livros, totalizando quase 2.500 páginas de leitura. Presentão para quem gosta de literatura memorialista. Embora o primeiro mensageiro tenha entregado o pesado pacote na casa de um familiar em Lavras, este cuidou de encaminhá-lo a meu endereço em Brasília. Chegou às vésperas do natal.  Mas, esse Papai-Noel generoso não teve como ficar no anonimato, pois suas impressões digitais, mais que isto, estavam gravadas nas páginas iniciais de cada livro: tem nome, foto e ligeira biografia.  Trata-se de um papai-noel especial, o Dr João Amílcar Salgado que, além de médico e historiador da Medicina no Brasil, também foi professor na UFMG e produziu ensaios sobre o ensino médico em nosso país. Pena que não o conheci antes, quando dirigi, no Ministério da Educação, por algum tempo,  os programas de Residência Médica, pois certamente o teria convidado a integrar a Comissão Nacional de Residência Médica- CNRM, atividade primordial na formação de médicos, pois normatiza, credencia e financia bolsas de estudos para os médicos residentes. 

     Não bastasse seu campo profissional, o Dr. Amílcar adentrou e com competência a área da genealogia e por meio dela enriqueceu e continua a enriquecer a história, a memória de sua terra natal, a Vila de Nepomuceno e região, que abrange Lavras, berço da família Salles, ramo do qual ambos, primos, fazemos parte. Já me deliciei com os causos do “Sargado” em sua farmácia na Vila onde os “coronéis”, incluindo um dos meus tios, faziam ponto para contar casos e causos escabrosos e passar medo nos meninos arteiros. Como fui um desse “arteiros”, me lembro bem das ‘ameaças” do canivete para fazer suposta e aterrorizante cirurgia nos meninos, verdadeira tortura mental aos pirralhos que tratavam de evitar aqueles adultos, mas nunca deixavam de fazer estripulias. 

      Terei leitura por um bom tempo, ainda mais nos causos do riso dourado da Vila, pois gosto de ler, reler, assinalar com marca-texto e “viajar” no tempo e no espaço, pelos locais onde vivi e conheci, relembrando pessoas que nos marcaram. Deixo aqui o meu abraço de agradecimento pelo carinho da amizade desse notável professor da UFMG, de reconhecida competência na Medicina e na sua história de nossa terra. Desejo a ele e toda família um Ano Novo cheio de realizações.

Brasília, 27 se dezembro de 2024

Paulo das Lavras


 
Papai-Noel sempre foi generoso. Nunca se esquece de ninguém. Desta vez, nas vestes de escritor memorialista e historiador, bateu à minha porta com um volumoso pacote. Cinco livros, sendo quatro de sua autoria, totalizando 1.902 páginas para leitura, além de outro, o Erário Mineral, de 532 páginas. Presente melhor não há para quem, como eu, gosta e se dedica à leitura e ainda arranha algumas linhas escritas no gênero da narrativa memorialista.

 









 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Meu conto de Natal - 2024

 Chegou o Natal... e é incrível observar como nós, os adultos, também nos transformamos em crianças. Relembramos aquela Criança que um dia fomos, sonhando o tempo todo com a chegada do Papai-Noel carregado de presentes e com a certeza de que não faltaria presente para nenhuma criança. Todos receberiam o mimo de Natal. 

Haja expectativa, mas, hoje, para nós, a expectativa é maior, ao contemplar a alegria inata das crianças, os olhinhos brilhando em busca do Papai Noel ali no shopping ao entregar-lhe um cartinha contendo seus pedidos e, no dia de Natal, correr para a árvore enfeitada em busca do seu sonhado presente. Não esperam nem a ceia familiar da meia noite, tamanha a curiosidade, ansiedade para receber o pacote e ver com seus próprios olhinhos o que haveria dentro de tantas embalagens enfeitadas. 

Será que o Papai-Noel atendeu meu pedido, indagam a todo momento. Ah..., hoje, para vovôs corujas..., não tem dinheiro que pague contemplar esse cenário de pura alegria, puro amor infantil. E foi assim que rebuscando meus arquivos encontrei uma crônica que escrevi, para o Dia dos Pais, há alguns anos e que bem retrata esse sentimento, o amor das crianças, muito bem retratado na metáfora do conto “O Pássaro Encantado”. O autor, Rubem Alves, muito bem nos definiu, a nós os adultos, especialmente os avós: Adultos que tem crianças morando dentro de si e têm medo da solidão”! 

“As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!” (Rubem Alves)

E neste Natal de 2024, quero, por meio da crônica a seguir, que retrata o amor das crianças, levar o meu abraço a todos os amigos e leitores de minhas crônicas e contos. Natal é época maravilhosa em que celebramos o nascimento do Menino Jesus. Tenho muitas crianças morando em mim e agora é hora de festejar, abraçar, dar e receber presentes, como gostam as crianças. Que as crianças, que também moram dentro de você, extravasem a alegria, o Amor. 

Saúde...! Boas Festas e um Ano de 2025 cheio de realizações. 

Veja a crônica:  (copie o link e cole-o no seu navegador)

  https://contosdaslavras.blogspot.com/2018/08/a-saudade-que-encanta-as-pessoas-e-o.html



domingo, 10 de novembro de 2024

O sono de uma criança..., as fadas e um anjo que eleva e enleva nossa alma

         


        Pela primeira vez Pedro Henrique, de cinco anos, dormiu sozinho com o vovô. Ele numa cama e eu em outra, no mesmo quarto, lado a lado, distante do quarto onde dormiam a vovó e a priminha Sarah. Só o fato de ser a primeira vez já nos deixou a ambos antenados na curiosidade do “como viria a ser”. Sempre antes de dormir, ele na cama de casal com a vovó, era praxe pedir para que eu fosse contar uma historinha depois que já tivesse feito sua prece. Assim, cumprimos o ritual das poucas vezes em que costumava dormir na casa dos avós. Terminada a oração comecei a contar uma história baseada numa visita que fiz à Base de Lançamentos de Foguetes, em Kourou, na Guiana Francesa. Mal acabara de iniciar e descrever a sala de controles do lançamento e o enorme tamanho do foguete já fumegando, pronto para disparar, mas ainda atrelado à torre de lançamento, ele interrompeu-me: ihhh..., não..., vovô..., essa é da NASA,  eu já conheço. É semelhante, mas não é da NASA, é da França, de sua base lançamentos aqui na fronteira com o Brasil. Ah..., é a mesma coisa, eu já vi lançamento de foguetes e espaçonaves... Interrompida a história tive que inventar outra, pois certamente já vira, na TV, o “filme” das espaçonaves. Mas, o que mais me fez feliz naquela noite foi ver aquela criaturinha ir apagando-se aos poucos, piscares miúdos, como a sorrir zombeteiramente e por fim o sono dos justos.

        Nada é mais gratificante do que ver o filho ou neto, que acaba sendo filho em dobro, com dupla dose de amor, cair no sono, adormecer, entregando-se como a dizer com aquele rostinho angelical: está tudo bem, estou feliz, vovô cuidará de mim contra os fantasmas. Estou protegido contra todos e tudo. Tudo aquilo que alimenta sua alma infantil de doçura que acredita em fantasmas, tartarugas ninjas poderosas e fadas madrinhas do dentinho de leite. Não há felicidade maior do que estar ali ao lado daquele rostinho suave, pele brilhante, olhos fechados, tranquilos. Semblante feliz a ressonar suavemente. Tudo é paz. E ali ficamos a contemplar aquela cena, enlevados, com a alma flutuando e desejando que aquilo não terminasse nunca. Que fosse eterna a noite, tal o estado de felicidade por estar e ter sido o escolhido como guardião para aquele anjinho que se entrega em doce sono. Aquele mesmo contestador... ah... vovô conta outra história... essa eu já sei... e de repente, vencido pelo sono, silencia adormecido. Ah, quanta graça, quantas bênçãos de Deus por merecermos estar ali, fazendo parte daquele sonho.

        Naquela noite não consegui dormir plenamente. A todo instante olhava para o lado e pousava a mão sobre seu bracinho descoberto e o recobria. Lá pelas tantas, às três da matina, ele sentou-se na cama e disse: vovô, quero ir ao banheiro. Respondi, vou com você. Lá, acendi a luz e antes de voltarmos para a cama disse-me: “Eu vi a fada-madrinha em frente ao espelho, mas ela não trouxe meu dentinho novo, deve ser porque ele caiu no esgoto e o ratinho ainda não o entregou a ela”. Não entendi muito bem, mas confirmei... sim, a fada madrinha do dentinho esteve aí em frente ao espelho do banheiro..., e acrescentei que amanhã ela levaria o dentinho. Voltamos para a cama e antes de continuar o sono, ainda perguntou: Você vai me levar para a escolinha? Bem cedo, antes das sete, já estava olhando para mim, clamando para levantar e cochichando pediu-me para falar baixo para não acordar a vovó e a priminha Sarah que dormiam no quarto ao lado. 

        Um pouco mais tarde relatei o “sonho” da fada madrinha e a vovó explicou que no dia anterior ele havia perdido um dentinho que estava prestes a cair naturalmente. Não conseguira segurá-lo, pois caíra no ralo do lavatório. Decepcionado, por não ter podido recuperá-lo e entregar à fada-madrinha, que lhe faria nascer outro, a mãe lhe dissera que havia um ratinho lá no lago, onde desemboca a rede de esgoto, esperando o dentinho para entrega-lo à fada-madrinha. Assim, na pureza de sua alma absorveu a fantasia do ratinho coadjuvante e em seu sonho na alta madrugada, ficou sem entender por que a fada-madrinha veio visitar lhe, bem ali em frente ao grande espelho e não lhe deu o novo dente. Essa, certamente, foi a sua “visão”, vislumbrando a fada ali no lavatório igual ao de sua casa, onde havia caído seu dentinho que desceu ralo abaixo. E com o dedinho na banguelinha dos dentes incisivos, perguntava: Por que, vovô, por que será que ela não trouxe o dentinho novo? Talvez, porque o ratinho ainda não tivesse entregado a ela o velho dentinho que caíra no lavatório. Vai demorar um pouquinho, mas ela o trará para você. 

        Que belo momento esse do ninho, do aconchego da cama quentinha, onde a criança tem plena segurança e confiança naqueles que a cercam. Que privilégio conviver com uma criança tranquila, que só tem amor em seu coraçãozinho. O poeta e filósofo Rubem Alves disse que “um homem que guarda memórias de ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma criança que guarda memórias de um ninho em sua alma tem de ser calma”! É verdade, além do que nos torna mais compreensivos e amorosos, pois somos “a segurança” deles, os pequenos. O nosso ninar, o abraço, o dar as mãos, o olhar, ou até mesmo a nossa palavra são os esteios seguros nos quais as crianças se apoiam.

        Ao chegarmos à escolinha pouco antes das sete horas, enquanto ele e eu conversávamos com a professora, chegou outro menininho que, quase choramingando,  abraçou o pai e diante do argumento " preciso ir", o filhinho perguntou: para onde você vai, pai? Papai vai trabalhar filhinho... E nesse ponto entra o Pedro Henrique e diz bem alto: "O meu vovô não trabalha, não, ele fica em casa".... Paguei o maior mico, pois todos acharam graça nas palavras do netinho, inclusive aquele que estava quase chorando. Coisas de crianças que disputam situações inusitadas. Mas, querem saber, mesmo? Jogo de mão dupla, pois, na verdade elas, as crianças, são os nossos esteios, pontos firmes de apoio e estímulo para a nossa alma, razão do nosso viver prolongando nossos dias aqui na terra. Anjos que elevam e enlevam nossa alma.

Amém!

Brasília, 25 de junho de 2014

Paulo das Lavras


 ...e a fada madrinha levou o dentinho... Vovô, por que ela apareceu
aqui, no espelho, nesta noite e não trouxe o dentinho novo?
Coisa de anjo que eleva e enleva nossa alma e
prolonga nossos dias aqui na terra
Foto do autor: o netinho em dia de festa na Escolinha aos cinco anos


 Aos seis, no judô e aos 15 no colégio e 
já independente no ir e vir.

 



 


sábado, 2 de novembro de 2024

02 de Novembro de 2024 – Dia de Finados

 

 Uma reflexão respeitosa diante do túmulo do soldado nº 125, Ray A. Lemmon, da 29ª 
Infantaria, Colorado. Tombou em 15 de junho de 1944 uma das batalhas que se sucederam 
ao  desembarque nas praia da Normandia.  Não há como não se emocionar diante do túmulo 
de um soldado que lutou e morreu para garantir a nossa liberdade. 
Foto do autor: Cemitério Americano da Normandia – França 


A celebração do dia de finados é bem antiga e foi unificada pela igreja católica, durante a Idade Márdia, há mais de mil anos. O dia 02 de novembro foi escolhido por ser o dia seguinte ao Dia de Todos os Santos. Por que dia de todos os santos ? Siplesmente porque os mártires morriam em grupos, especialmente no período da grande perseguição aos cristãos pelo império romano. Assim, essa foi a forma mais prática de se celebar a memória de todos eles. A escolha da data, de 1º de Novembro para o dia de todos os santos, foi para concorrer com as festas pagãs do Halloween. Um dos costumes dessa festa era levar flores  aos entes queridos nos cemitérios. Então, a igreja separou esses rituais e criou o dia especial, 02 de novembro, como sendo o Dia de Finados. Esse dia especial, celebtado no dia seguinte ao de todos os santos, é especialmente reservado para as homenagens aos entes queridos de cada família.

Este dia não deixa de ser um momento propício para a reflexão sobre a morte e vida. Não gosto, como a maioria das pessoas, de pensar e tampouco falar sobre a morte. Medo? Não! Prefiro a alegria da vida. O que é a vida? Assim perguntou Rubem Alves em sua obra “Sobre a morte e o morrer” e prossegue com mais perguntas intrigantes como o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? A vida é tão boa! Não quero ir embora. Ninguém quer ir embora, deixar a vida. Que coisa mais sem graça ser colhido no meio da festa (a vida, a convivência com a família e amigos), interromper tudo sem aviso

prévio e depois os amigos vão esvaziar suas gavetas, seu guarda-roupas, seus livros, seus mimos, aquel baú de afetos que todos nós guardamos com cuidado e carinho,, como que apagando todas as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Que coisa cruel, não para quem se foi, mas para aqueles que ficaram e choram a sua lembrança. Só quem já perdeu abruptamente entes queridos sabe avaliar essa dor irremediável, de se esvaziar “as gavetas da vida” de quem acabou de partir e deixou um vácuo, uma dor terrível na alma de todos.

Penso que a vida é uma dádiva de Deus e que devemos vivê-la de tal modo que ela, por si só, se torne uma jornada feliz, alegre, em paz consigo próprio e com todos que o cercam ou, em outras palavras, com amor. E isto é o céu. A qualquer hora que ela, a morte, vier nos buscar nos encontrará felizes e sem nenhuma dívida (falta) para com os amigos e aqueles com os quais convivemos. Tenho certeza que assim procedendo será mais fácil para aqueles que ficam. Assimilar a partida final não é fácil e,  “morrendo feliz” os amigos terão o conforto de que aquele, que partiu para sempre, praticou o bem e que suas faltas involuntárias nem contam diante do saldo positivo que deixou para todos. O filósofo Rubem Alves disse: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir”.

E hoje, Dia de Finados, também é dia de se lembrar daqueles que um dia fizeram algo memorável para a humanidade, Aqueles que tombaram em batalhas, defendendo a liberdade ou lutando por algo importante para a hgumanidade, Assim, neste dia, relembro alguns destes grandes homens que embora, não os tivéssemos conhecido, deixaram respeitável legado a todos nós. Mas, não somente neste dia, tenho uma palavra aos amigos:

“Feliz daquele que cuidou da vida de alguém que se preparava para partir. Cuidar para que a finitude  seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Portanto, neste dia de lembrança dos nossos entes queridos que nos deixaram para sempre, nosso coração se conforta com a lembrança do carinho e cuidado que dedicamos a eles, nossos pais e demais entes queridos, nos dias que antecederam as suas partidas para a Glória de Deus, justamente quando mais precisaram de  nós”.

 

Espero que as suas memórias neste dia especial, em relação aos entes queridos, tenham servido de conforto ao seu coração ainda dolorido. Nesse sentido, reproduzo as palavras que hoje recebi de amigo dos tempos de seminarista aos 12 anos de idade:

 

Dia de Finados: lembremos com carinho daqueles que amamos, daqueles que partiram antes de nós. Sinta saudade, mas não tristeza, pois, apesar da ausência física, o amor permanece intacto. Recorde os momentos felizes, agradeça a maravilhosa oportunidade de ter convivido com pessoas tão especiais...

 

Amém! E que você tenha depositado uma flor no túmulo de seus entes queridos, em sinal de respeito e amor, pois as flores nos inspiram isso. Também uma oração de agradecimento a Deus, pela oportunidade de ter convivido com eles, conforta igualmente a alma, onde quer que você esteja, ou tenha estado neste dia de hoje. Amém!

 

Brasília, 02 de Novembro de 2024    


   Paulo das Lavras


 Achei interessante, ali no Cemitério aa Normandia,  a Estrela de David, simbolizando a crença judaica, entre as milhares de cruzes cristãs  de soldados tombados na II Guerra Mundial. 
Foto do autor




 Memorial dos soldados lavrenses tombados (foto 1) e dos que lutaram  na II Guerra Mundial (abaixo)
Fotos do autor

 


 Memorial dos soldados norte-americanos tombados em guerra. 
Cemitério Nacional de Arlington- Washington – DC 
Foto do autor - 1977


 Dan Gammon e filhas, trouxeram, em setembro de 2008, as cinzas de Joseph Gammon e de um tio, Richard Rhea Gammon, para se juntarem aos restos mortais de Samuel Gammon, seu avô, sepultado  em Lavras-MG, no ando de 1928. O maior benemérito da cidade, fundador do IPG e ESAl/UFLA. 
Dan Gammon said: We sprinkled a small amount of my father's and my uncle's ashes at the grave of their parents in Lavras in 2008. Joseph Moore Gammon and Richard Rhea Gammon. 
And I said: Concerning the ashes of others that you sprinkled at the Gammon´s grave in Lavras, it was a good decision. So, they are all together over there, and live forever in the heart of all  Lavras´people. 
Fotos – Dan Gammon

 







 


 



quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Colegas de escola – saudades que se renovam

 

 João Júlio recebendo um presente, a foto do que mais amava..., a família 
Foto: arquivos da família Santos/Internet


        Nossos colegas de escola marcaram nossas vidas. Afinal, passamos longo tempo juntos, alguns desde os primeiros dias de escola primária. Não poderíamos esquecê-los nunca, tal o grau de proximidade e interesses comuns que nos uniram ao longo da vida e justamente no período em que estávamos buscando nossa própria identidade. Talvez isto, a consolidação da amizade, do vínculo fraterno, fosse mais importante que as horas em sala de aula ou juntos em horas e horas de estudos e elaboração de tarefas escolares. Por isso, alguns deles tanto nos marcaram, quer pela gentileza, simpatia, humildade, dedicação, inteligência e tantas outras qualidades e às vezes até mesmo as dificuldades naturais da vida de estudante, às voltas com matéria “chatas” ou de difícil assimilação e que estávamos sempre a nos ajudar mutuamente. Mas, chega-se à última formatura, na faculdade e nos separamos em definitivo, cada qual em seu novo rumo..., profissão, família , mergulhando em seus próprios sonhos, tornando-se independentes, em outro mundo social. Outro mundo social? Sim, outro ambiente, longe daqueles colegas que sempre o acompanhavam e ali estavam para o bem ou... para as eternas gozações próprias de amigos que têm camaradagem, companheirismo. Ah..., tempos bons, nos lembramos hoje, com muita saudade, 50 anos depois. Que saudade matadeira que faz derreter nossos corações. Quanta ternura na alma, relembrar os doces tempos e as figuras do colegas, sempre a sorrir e prontos para lhe “pegar” em algum escorregão, falha, que serviria de piada a semana inteira.

            Tempus fugit, diz o  clássico ditado... o tempo voa,  e de repente nos damos conta..., caramba, já são passados 57 anos de nossa formatura na faculdade! E onde estão os colegas? Nem éramos tantos..., apenas 30 formandos na turma de Agronomia/1967 da velha e hoje centenária ESAL/UFLA. A cada cinco anos nos reunimos e revivemos aqueles bons tempos. Famílias crescidas, com netos e bisnetos,  alegrias e bençãos que Deus nos envia para  prolongar nossos dias de glória na Terra. Encontro de irmãos que exala, transpira alegria, contentamento e gratidão por termos sido tão gratificados ao longo de nossa existência e em especial durante aquele tempo de convivência sadia com os colegas de escola, ali reunidos, a apresentar-nos suas famílias com a maior alegria e orgulho do mundo e ainda nos contando sobre seus sucessos profissionais. Que benção!

            Mas, infelizmente, ao longo desse quase sessenta anos que separam a nossa formatura e despedida escolar, temos também recebido duros golpes com o passamento de queridos colegas, aos quais sequer pudemos dar um último adeus. A distância, quase sempre, nos impede de chegar a tempo e temos que nos contentar com a solitária reflexão e dor do luto. Foi assim, justo no dia de meu aniversário, sem nenhum aviso prévio, apareceu na tela do celular uma mensagem com o obituário e convite para o velório do nosso doce, o mais gentil e prestativo colega de faculdade, aliás desde os tempos de colégio em Lavras: João Júlio dos Santos. Duro golpe, dor lancinante no coração... Lá se foi o mais doce dos colegas, aquele que estava sempre a sorrir e a nos levar a passear em sua linda, charmosa e histórica perua  Chevrolet ano 1929, conhecida por Tereza. Ah, meu caro João Júlio... , seu lago sorriso, como naqueles passeios, desfilando alegremente pelas ruas de Lavras na “nossa” Tereza , patrimônio carinhoso e zelado por todos nós, ficará eternamente em nossas memórias..., a sua alegria contagiante, finesse no trato e amor fraterno.

Que Deus nos conforte a todos, especialmente à sua querida família, ali  na cidade dos Perdões, vizinha a minha cidade natal.

 

Brasília, 06 de abril de 2024

 

Paulo das Lavras


 
Formatura do 3º ano Científico. Colégio N.S .Aparecida- Lavras, 1963 
Foto: do autor

 




Desfile de 7 de Setembro de 1963 (João Júlio à direita, último, 
próximo ao carro e Paulo Roberto, fila à esquerda, o segundo) 
Foto: do autor, cedida a Renato Libeck

 

  


 
Turma do 2º ano de Agronomia ESAL/UFLA – 1965. João Júlio é o terceiro assentado, 
 da esquerda para a direita. O primeiro da direita, em pé, é o autor, Paulo das Lavras 
Foto: do autor, 



 Modelo da perua Chevrolet -1929. A nossa “Tereza” 
Foto: internet




 João Júlio e Tuta (esposa) em evento social. 
Foto: arquivos da família Santos/Internet


 
Sem nenhum aviso prévio, apareceu na tela do celular 
 a mensagem acima. Duro golpe