sábado, 31 de julho de 2021

A mentira e a calúnia nas redes sociais

 

 
As Redes Sociais na Internet 
Foto: internet

Um dos grandes pensadores do século XX e dos maiores influenciadores de sua época, o alemão Erich Fromm, contribuiu como poucos para o avanço da psicanálise, da psicologia da religião e da crítica social. Seus livros, A Arte de Amar (1956) e Ter ou Ser (1976) ficaram mundialmente conhecidos. Suas teses, algumas contrariando as de Freud, foram muito discutidas. Ele defendia um humanismo normativo, onde as pessoas têm enraizadas em sua existência não apenas necessidades básicas físicas, mas também necessidades básicas psíquicas. E a família, como se sabe é o primeiro estágio da formação do caráter da criança/adulto. Dali emanam as diretrizes para vida. Saber “administrar” os conflitos dentro de uma sociedade, na convivência entre conceitos antagônicos é a chave do sucesso pessoal, do equilíbrio emocional com pacífica convivência social. Mas nem sempre isso ocorre, famílias desestruturadas não são capazes de fornecer o mínimo necessário de amor e conhecimento no preparo da vida de seus filhos. Quando adultos, às vezes, são incapazes de conviver com os conflitos ou simples comparações com seus semelhantes bem sucedidos. Há pessoas que são incapazes de conviver com situações contrárias à sua natureza humana (condições sociais de sucesso, etc) e reagem de maneira negativa. Abandonam a razão e partem para o campo da imaginação doentia, com mentiras e calúnias sobre aqueles que acreditam ser superiores ou mais felizes que elas próprias.

Fromm se debruçou sobre essa temática, contrariando Freud em alguns pontos. Sobre as necessidades humanas, assim como é possível promover ou reprimir certas necessidades básicas, da mesma maneira é possível que algumas falhas sejam produzidas pela cultura. Neste caso, já a partir do berço, seguindo-se os costumes da sociedade em geral. Por outro lado, se a pessoa perde um pouco de sua riqueza interior e o sentimento real de felicidade, ela é compensada pela segurança do sentimento de pertinência ao restante da humanidade. Mas, Este sentimento de pertinência, segundo o autor, impede em nível decisivo o desenvolvimento da imperfeição em uma neurose. E hoje, a percepção desse sentimento de “pertinência” quase sempre é medida pelo número de “likes” em redes sociais. Por isso, as redes sociais têm se transformado em palco de shows bizarros, tamanha a insistência em “aparecer” a qualquer custo em busca do suposto reconhecimento de seus pares nas redes.

Nesse sentido, as teses do autor foram bastante claras. Há distúrbios de personalidade que fazem o ser humano viajar em realidades paralelas, levando outros em suas “viagens”. O espírito humano, quando empobrecido em suas funções, é impelido a desejar poder total sobre os outros e tem uma sede insaciável de fama e prestígio (hoje representados pela quantidade de likes nas redes sociais). Isso leva à perda do senso de dignidade própria e alheia, pois só lhe interessa o sucesso. Para tanto, a maneira mais fácil de conseguir o intento, nas redes sociais, tem sido por meio da mentira e da calunia. Espalhadas nas redes sociais são como penas ao vento e as vítimas nunca mais conseguirão eliminá-las totalmente. O filósofo italiano, Umberto Eco, pioneiro na análise da internet, afirmou que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Outro filósofo mais antigo, Sêneca, definiu que “a mentira é a pior das deformações do ser humano” e infelizmente, essas deformações têm sido mais constantes do que imaginamos hoje em dia, quando a internet deu voz e espaço a todos. Tanto é verdade que nos últimos anos foram aprovadas leis que visam à proteção do sigilo de dados e privacidade do cidadão nas redes sociais e bancos de dados eletrônicos.

Até então tínhamos visto apenas algumas queixas de amigos que foram vítimas de mentiras e calúnias nas redes sociais. Pelo menos duas amigas publicaram longos textos reclamando de perseguições e calunias. Em conversas com vítimas dessa natureza verificamos que a maior dor é a maldade, a indecência moral e a crueldade de pessoas querendo envolver inocentes, inventando mentiras fantasiosas. Nesses detratores reside toda a amargura, o seu fracasso econômico e social, frustrações amorosas que, de certa forma, tornam a vida do mentiroso, caluniador, insuportável para si próprio. Mas, ninguém espera que isso vá acontecer consigo próprio, se tornar vítima desses malucos da internet e quando acontece..., resta-nos a perplexidade e então, friamente analisar a situação, investigar a fundo, mapear a rede de maldosos, marcar, identificar os agentes e extirpa-los da nossa convivência. Faz mal à saúde mental das pessoas de bem o convívio com essa escória intelectual e moral. Pior mesmo é, após longo, demorado e doloroso trabalho, deparar-se com nomes de pessoas até então insuspeitas, não necessariamente integrantes de suas redes sociais, envolvidos em tramas que visem unicamente denegrir a imagem e a reputação alheia. Sêneca e Umberto Eco estão mais que certos em suas teses sobre o comportamento humano. Uma pena, pois, neste período de isolamento social as pessoas querem ver e ser vistas e esses canais se destinam exatamente à integração e interação social. Tivessem, essas pessoas, o saudável hábito da leitura certamente teriam conteúdo para falar, escrever e emitir opiniões abalizadas e sempre na busca do bem.

Uma pena que pessoas fracas, ociosas, sem estrutura emocional para enfrentar as próprias dificuldades, encontrem nas redes sociais seu caminho para descarregar as frustrações pessoais. Incapazes de conviver com situações contrárias à sua natureza humana, não aceitam o sucesso e a felicidade alheios e reagem de maneira negativa. Suas imaginações doentias, com mentiras e calúnias sobre outros, fazem-nas “diferentes”, sentindo-se vingadas em relação à sua própria incapacidade. Na verdade são apenas pessoas desprezíveis que não merecem estar ao seu lado, nem mesmo nas redes sociais. Merecem, sim, o descarte, bloqueio nas redes, que deveriam se destinar tão somente ao convívio sadio entre amigos, com alegria na alma. Não devemos permitir que esse nosso ambiente virtual seja utilizado apenas como meio de satisfazer as necessidades de egoístas, narcisistas. Nada melhor para a alegria da alma do que encontrar amigos verdadeiros nas redes sociais, ou mesmo nas ruas e deles ouvir referencias às amizades sadias e lembranças de boas ações praticadas em favor de terceiros, mesmo em distante passado. Foi assim em duas viagens que fiz à terra natal. Na primeira, ao lado do saudoso amigo Renato Libeck, encontrei Helô Costa que, surpreendentemente, agradeceu uma ação que havíamos feito muito tempo atrás, em favor de seu sobrinho, que sequer conhecíamos e agora é um profissional de sucesso na engenharia, em São Paulo. Outro encontro de gratidão, mais surpreendente ainda, e casualmente em um restaurante, também testemunhado por amigo comum, foi rever depois de mais de quarenta anos, o colega Prof. Geraldo Guedes e sua esposa Gracinha. Profissionais de sucesso relembraram os tempos de bolsista nos E.U.A., lá pelos longínquos anos de 1970/80, quando aprovamos sua bolsa de estudos para doutorado em Solos na Universidade da Flórida, em Gainesville. Naquela ocasião, sua esposa aproveitou a oportunidade e cursou mestrado em Línguas, tornando-se especialista no Inglês e mais tarde empresaria do ensino de idiomas em Lavras.  Como na parábola da cura dos dez leprosos, quando apenas um deles voltou para agradecer o milagre de sua cura (Lucas 17: 11-19), também aqui cabe a comparação. Se aqueles doentes de antigamente eram obrigados a gritar “impuro... impuro”, quando avistassem alguém, de modo a evitar-se a aproximação e contágio, a volta, ainda que de um único com gratidão, bem retrata a natureza humana. E aqui, com esses colegas que eventualmente beneficiei de alguma forma, não foi apenas um, mas vários colegas que mesmo tendo passado quase meio século sem nos encontrarmos, ao primeiro reencontro correram para o abraço de gratidão por um ato que praticamos e que, de tão simples e pelo longo tempo já decorrido, sequer nos lembrávamos.  Ainda que fosse um único amigo que retornasse e agradecesse a boa ação recebida, como aquele da parábola bíblica, já seria suficiente para fazer-nos esquecer das injustiças e tantas inverdades que às vezes nos perturbam.

Que atire a primeira pedra aquele que nunca foi atingido por esse tipo de ação. Não deixe que pessoas maldosas usem as redes sociais para essa abominável prática. Delete, bloqueie, e conforme o nível de agressão denuncie com base nas leis de proteção ao internauta. Por aqui, numa pausa de pouco mais de um mês, prosseguimos mapeando os maliciosos, e os há em profusão. Há todo tipo de invasor, o hacker que invade seu perfil (fiquei impossibilitado de postar ou editar posts de meu próprio perfil, ainda que por que por poucas horas), outros que são apenas visitantes que não são amigos, mas amigos de seus amigos, pessoas com perfis falsos que solicitam amizade (geralmente um ex-amigo já bloqueado ou estelionatários). Enfim, os maldosos se valem de inúmeras formas para buscar, espionar ou mesmo adulterar suas postagens. Não é difícil desbaratar esses maldosos, camuflados de “amigos” dentro e fora das redes virtuais. Aliás, a mentira e calunia iniciadas nas redes virtuais têm capacidade excepcional de se espalhar entre pessoas da comunidade que sequer participam dessas redes sociais. Valem-se de amigos e parentes, com acesso a seu perfil, onde buscam informações. Assim, nem sempre o bloqueio único e exclusivo desses falsos amigos funciona. Mas, por outro lado, é fácil também deslindar essa rede paralela de amigos dos amigos e mesmo não sendo eles integrantes de suas redes sociais. Em um caso particular, alguns internautas de distantes cidades e dos quais nunca se ouvira falar, foram até as redes sociais da vítima para “buscar” informações. Com sobrenomes estrangeiros e de cidades distantes, em outros estados do país, a presença deles chamou a atenção da vítima. Os  investigadores logo descobriram que se tratavam de parentes  de uma das principais disseminadoras de fakes que já estava bloqueada havia tempo. Eles estavam, todos, em visita à casa da matriarca  no Dia das Mães. São ardilosas e perigosas essas pessoas desestruturadas emocionalmente.

Mapeados, identificadas a fontes disseminadoras das “fakes”, pode-se também bloqueá-los e isto é fácil, pois mesmo não sendo seus amigos nas redes sociais, eles vêm constantemente visitar seu perfil. Uma das redes sociais até informa quem visitou seu perfil. Ora se for pessoa amiga daquela disseminadora das “fakes” e que já esteja bloqueada na sua rede..., é óbvio que o visitante é um laranja daquela. Bloqueio nele também, assim recomendam os anti-hackers. Aliás, esta é uma nova profissão já em uso pelas policias de crimes digitais, especialmente em Brasília, capital das “fakes” políticas, principalmente às vésperas de ano eleitoral.

 

 Cuide bem de suas redes sociais, não permitindo que pessoas indesejadas contaminem o prazer de interagir com seus verdadeiros amigos. Denuncie se for caso de crime previsto em lei, pois o filósofo Umberto Eco está mais que certo ao afirmar que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”.  E salvas para os verdadeiros amigos.

 

Brasília, 31 de julho de 2021

 

 Paulo das Lavras  


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Um amigo que se vai

 
Com o amigo Claret Matioli na Casa Rosada- Lavras 
Foto do autor – março 2013


 

Muitos afirmam que escrever sobre o passado é saudosismo, especialmente os mais jovens. E até costumam dizer...”ah, isso foi antes de eu nascer”, como se o mundo tivesse começado quando nasceram. Como professor universitário e com muitos anos à frente dos alunos, sentia vontade de escrever sobre o passado de modo a mostrar-lhes como eram as coisas “antes de eles terem nascido”. Bem verdade que às vezes nos deixamos levar pela nostalgia, aquela dorzinha, a saudade daquilo que se perdeu, como a infância e a juventude. Belos tempos, sonhos dourados para o futuro, o vigor, os hormônios em flor... Mas, nunca me deixo trair e achar que “aquele tempo” era melhor do que esse. Já disse e escrevi várias vezes, cultuar o passado não significa querer o seu retorno. Não seria capaz de atender aos surtos saudosistas e desejar que o tempo retornasse e que se voltassem às épocas dos arados de aiveca, dos carros de bois, dos cavalos como meio de transporte e a iluminação à lamparina, a pena e o tinteiro com o mata-borrão para escrever cartas a serem levadas por mensageiros ou, ainda, passear no duro e desconfortável Jeep Willys. Não há nada mesmo, com certeza, que eu desejasse hoje como era antigamente. A tecnologia e a modernidade aí estão para nos proporcionar maior conforto e bem estar. Melhor viajar num jato de seis ou 400 lugares, jantando em Nova York ou Paris e tomar o café da manhã no Rio de Janeiro, e fiz isso algumas vezes. Ou então, em vez de cavalo ou carro de boi, rodar num SUV importado, com ar condicionado, mídia e GPS, usar o celular ou a internet para se comunicar com o mundo inteiro por áudio, mensagem ou vídeo, ao vivo, instantaneamente. Muito melhor e mais confortável que esperar o mensageiro a pé, a cavalo ou de trem e barco, ou andar léguas para se encontrar o interlocutor.

Sim, gosto de escrever sobre o passado, falar de mestres que nos marcaram para sempre, pessoas especiais, enfim, gente que faz diferença. É sim coisa da idade, mas também porque é importante que os jovens de hoje conheçam um pouco do passado, pois se constitui em verdadeiro aprendizado que valoriza o progresso de hoje e nos impulsiona para o amanhã. Portanto, devemos ter os olhos sempre voltados para o futuro, mantendo-se no coração os sentimentos ligados ao passado. Mas, tirei uma folga da escrita, deixei de frequentar as redes sociais por algum tempo. Muita banalidade, superficialidade e transformação em vitrine quase que exclusiva para exibicionismos narcisistas, quando não de intrigas. “Dormi” por um tempo sem ali transitar, mas hoje, o chamado de um amigo trouxe-me a um passado de saudades. Saudades de amigos, distantes, e em especial de um deles que partiu para sempre. Foi no distante ano de 1974, quando professor da velha e centenária Escola Superior de Agricultura de Lavras – ESAL, que hoje é a Universidade Federal de Lavras- UFLA, conheci o jovem José Claret Matioli, aluno do último ano do curso de Agronomia. Líder estudantil, apaixonado por instrumentos musicais (dom herdado de seu pai, músico e regente de um conjunto musical), Claret se destacava entre os colegas. Comunicativo, com muita empatia conquistava a amizade de todos. Assim foi ele nos tempos de estudante e mais tarde o reencontrei à frente de uma organização cultural em Lavras, criando uma Escola de Musica para meninos carentes.

Assim era José Claret Matioli, amigo, abnegado e desprendido, sempre a pensar no próximo. Enquanto eu dormia, afastado dos noticiários das redes sociais, ele partiu silenciosamente, disse-me outro amigo. Não sou nostálgico, apenas tenho saudade dos amigos com os quais convivi e admiro. Este, Claret, ficará na memória da saudade. Grande perda.  Que Deus o tenha!

Brasília, 30 de junho de 2021

Paulo das Lavras

 

 

 

 

domingo, 27 de junho de 2021

História e Romance, minhas leituras

 
Conhecer a História é desvendar os segredos do mundo..., o seu mundo e nele viver melhor. 
Foto: do autor

          Outro dia, um amigo ao ver minha modesta biblioteca, perguntou por que minhas leituras se restringiam quase que exclusivamente às áreas de História e Literatura (romances) e não de Engenharia ou Agronomia, áreas nas quais atuei profissionalmente.  Ora.., respondi-lhe, a História é a mãe de toda a nossa experiência, a evolução social e tecnológica. Por meio dela somos capazes de entender o esforço, a vida e o progresso da humanidade através dos tempos. Não à toa, qualquer professor que se preze começa sua primeira aula com a história daquele ramo de conhecimento que ele, o professor, se propõe a ensinar a seus alunos. Sempre enfatizei esse lado na minha carreira docente. História da Engenharia, da Arquitetura e da Agronomia foram temas de livros que escrevi, focando as origens da formação superior nessas áreas, aqui e em países onde atuei em várias universidades. Também me embrenhei na produção livros e crônicas sobre a história e genealogia da família. Nestas, abordamos ainda nuances românticas contextualizadas a cada tempo, durante mais de 300 anos de sua história desde a imigração de terras lusas para se radicarem no território das “minas gerais de ouro”, nos primórdios do século XVIII.

 Há ainda um adágio que diz, “quem não conhece o passado está fadado a repetir os mesmos erros”. Assim, conhecer o passado é fundamental e, ademais, existe aquela curiosidade inata desde os tempos de menino no colégio. Por que pensavam, os antigos, que a terra era plana e o sol girava em torno da terra? Por que carregávamos a sina de um suposto pecado original e deveríamos pedir a intermediários, os santos, a nossa salvação de uma culpa que nem sabíamos existir? Ora, eram dúvidas demais e nem sempre a ciência tinha respostas convincentes, daí a necessidade de se conhecer a fundo a história. Estudar, conhecer o passado, as origens daquelas ideias, engenhos ou fatos, era fundamental e a tudo isso dá-se o nome de História. Portanto, para se conhecer algo em maior profundidade é preciso conhecer a História. Não há sequer há um livro de História, ou simples relatos de pesquisas, de fatos passados, nos quais não nos surpreendemos com detalhes antes desconhecidos. Mergulhar na História de um fato ou evento é a mais maravilhosa e intrigante viagem que nosso pensamento pode experimentar. Daí a minha paixão pela História. Ela nos prepara para a vida, pois nos leva a conhecer a lógica dos acontecimentos. Nada acontece por acaso em nossas vidas. O nosso “Hoje” é produto daquilo que fizemos ontem, ou deixamos de fazer no passado. Simples assim..., seremos amanhã, nosso futuro, aquilo para o qual nos preparamos hoje. Nada, mas nada mesmo, acontece por acaso em sua vida pessoal. Portanto, valorizemos a História.

Em relação ao gosto pela História até é fácil entender e aceitar, mas e o Romance? Como justificar essa predileção dentre tantas outras áreas de interesse humano? Nossa formação humanística passa também pelos clássicos da literatura, de romances, dos contatos com os semelhantes. Nossa vida é regida pelas relações sociais e se quisermos ter sucesso, até mesmo na vida profissional, precisamos conhecer a natureza humana e valorizar as relações interpessoais. Talvez estas, as relações sociais, sejam mais importantes que a formação técnica que cada um tenha. Na vida o primeiro contato é sempre social, daí aquele ditado: “a primeira impressão é a que fica”, quando se inicia um relacionamento entre pessoas. A importância de se ler romances reside exatamente no conceito das relações interpessoais, pois são nelas que vemos, experimentamos sentimentos, compreendemos e aprendemos sobre contato com os semelhantes. Num romance você passa a conhecer e adota os conflitos da trama, escolhe um lado e se “envolve”, até mesmo torcendo por um final feliz. 

 
E os Romances...? Ah..., suas leituras aguçam nossos sentimentos, ensinam a entender os conflitos humanos.
Foto: do autor

Ao final, arrematei para o curioso amigo sobre minhas preferencias de leitura: Leia, leia muito sobre História e Romances, pois na primeira você adquire experiência e na segunda, o romance, você aguça a sensibilidade, aprendendo sobre os conflitos humanos em qualquer relação seja ela de negócios ou amorosa. Aliás, esta última revela a essência da alma humana.  Interessante foi notar que um desses amigos olhou com mais interesse os títulos dos livros na prateleira e indagou se eu emprestaria alguns deles. Prontamente respondi-lhe: Sim, mediante uma caução de R$1.000,00 em dinheiro ou cheque (quando este ainda era usado...). Surpreso, encarou-me e expliquei-lhe: De tanto ler, aprendi que nessa história de se emprestar livros sempre há dois bobos. O primeiro é quem empresta e o segundo é quem devolve o livro.

Leia, leia muito sobre História e Romances. A vida agradece!

 

Brasília, 27 de junho de 2021

Paulo das Lavras


 Qualquer profissional precisa conhecer a história de sua área de atuação. Aqui, os primórdios da Educação Agrícola Superior nos E.U. A e na França, onde atuamos por algum tempo em convênios de governos
Foto: do autor








 

domingo, 23 de maio de 2021

Sabedoria e amor de mãe

 

 

Um abraço a todas as Mães, guerreiras, semeadoras da vida e do amor! Sábias por natureza, tal qual a mãe de Thomas Alva Edison, inventou da lâmpada elétrica e muitos outros produtos que ainda hoje usamos.

Por que escolhi a mãe do inventor Thomas Edson como símbolo de homenagem às mães? Simples! Ela representa o que o uma mãe é capaz de fazer para seu filho.  Elas, as mães, são sábias por natureza ou intuição, quando se trata de defender e educar os filhos. Por isso são eternas em nossos corações, não importa se estão aqui ou se já partiram. Sempre presentes!

 Aquele menino, Thomas Edson, chegou em casa com um bilhete do professor de sua escola, em envelope lacrado. O conteúdo era terrível, mas a mãe, com os olhos lacrimejando, sabiamente “leu” outra coisa para seu filho:

 "Seu filho é um gênio. Esta escola é muito pequena para ele e não tem suficiente professores ao seu nível para treiná-lo. Por favor, ensine-o você mesmo!!"

 Após o falecimento de sua mãe, viu um papel dobrado no canto de uma gaveta. Era a antiga carta que o professor havia mandado à sua mãe, porém, o conteúdo era outro e dizia:

 

"Seu filho é confuso e tem problemas mentais. Não vamos deixá-lo vir mais à escola!!"

         Thomas Edison chorou durante horas e então escreveu em seu diário: "Thomas Edison era uma criança confusa, mas graças a uma mãe heroína e dedicada, tornou-se o gênio do século."

 Mães são assim, capazes de tudo em nome do amor aos filhos. Não é preciso dizer mais nada! Saúde para todas elas! E para aqueles cujas mães já partiram, desejo que suas memórias da doce mãe lhe confortem a alma e lhes tragam alegrias presentes e eternas.

 

Brasília, 09 de maio de 2021

Paulo das Lavras

 


23 de Maio de 2021 - a Revolta Paulista, 89 anos.

 


Os paulistas sempre foram lideres e nunca gostaram de interferências do governo central em sua política local. O histórico de suas atuações confirma isto. No final do século XVII iniciaram suas incursões pelos Sertões das Gerais e logo a seguir, já no início do século XVII, intensificaram-se as chamadas Entradas e Bandeiras. Foi assim em Minas Gerais no esplendor do ciclo do ouro. Nesse contexto foi fundada a minha cidade natal, Lavras-MG, em 1720, há exatos 301 anos, quando ali chegaram os bandeirantes paulistas e se instalaram às margens do funil, estreita garganta do Rio Grande. O espírito Bandeirante, de destemido desbravador, foi usado nos cartazes de propaganda para a convocação dos paulistanos para a luta contra o poder central, ditatorial, segundo se interpretava nos idos de 1932. Getúlio Vargas era o Presidente da República e tornou-se, sim, um ditador quando três anos depois de aprovada a Constituição, rasgou-a e criou o chamado Estado Novo. Os paulistas estavam certos em seus temores de 1932. Mas, voltando 110 anos na história, foi ali em São Paulo, coincidentemente, que D. Pedro I deu o famoso Grito do Ipiranga - Independência ou Morte! Mais tarde o estado de São Paulo passou a liderar a revolução industrial brasileira. Lastreado na riqueza de sua agricultura cafeeira, localizada inicialmente no vale do Paraíba, foi fácil tornar-se a maior potência industrial do país.

Assim, influentes na politica nacional, os paulistas nunca aceitaram ficar à margem da história de nosso país. Os eventos acontecidos em 23 de Maio de 1932, na chamada Revolução Constitucionalista, não foram por acaso. Revoltaram-se naquele ano de 1932 e convocaram o povo, especialmente os jovens a se alistaram nas frentes de batalha. Na propaganda de guerra a figura do Bandeirante Paulista foi escolhida para representar o sentimento paulista, conforme mostram os cartazes de convocação à luta. A birra contra Getúlio era tanta que, até hoje, não existe em São Paulo uma avenida sequer com o nome de Getúlio Vargas. Existem sim, na cidade de São Paulo as Avenidas 23 de Maio e 9 de Julho, datas em que, na primeira, morreram os quatro estudantes fuzilados pelas forças militares do governo central e marcou o início do movimento revolucionário. A data de 9 de Julho foi quando, de fato, deflagrou-se a chamada Revolução Constitucionalista de 1932 que visava depor Getúlio Vargas. Este venceu os revoltosos, instalou o Estado Novo, mas foi finalmente deposto em 1945. A Revolução de 1932, verdadeira guerra civil, matou milhares de cidadãos brasileiros.

Ali, na Rua Barão de Itapetininga com a Praça da República, naquele dia 23 de Maio de 1932, os manifestantes se reuniram para invadir a sede do Partido Popular Paulista, grupo político-militar de sustentação ao regime do governo getulista. Os militares se anteciparam à invasão e fuzilaram os manifestantes. Verdadeiro massacre e foi assim que morreram os jovens Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, os mártires do MMDC, movimento que deflagrou a revolução paulista, aliada à Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. O dia 23 de Maio é simbólico para os paulistas. O massacre militar contra os manifestantes, marcou o início da revolta de 1932.  E hoje, quando vejo nos noticiários as rixas entre o governador de São Paulo e o Senhor Presidente da República, cada qual provocando o outro à sua maneira, confesso que me vem à mente aqueles embates de 23 de maio de 1932. Tomara que acabe logo essa disputa individual por espaço político em véspera de ano eleitoral. Puro egoísmo, em pleno século XXI e ainda nos deparamos com disputas pessoais, ignorando os deveres da democracia, regime sob o qual foram eleitos os políticos para nos governarem. Será que vamos ter outra revolução?  Seremos convocados à armas, com em 1932 ? Acho improvável. Prefiro lembrar-me deste dia pela memória da expressa Avenida 23 Maio, por onde o carro partia em disparada, do centro da cidade para o aeroporto de Congonhas e dentro do carro exclamava: “missão cumprida”. Amo, São Paulo, não somente pelas raízes de meus ancestrais, das terras paulistas e que chegaram à Lavras em 1750, como também pelo sucesso profissional que ali obtive no âmbito do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, das Universidades (supervisão e avaliação) e mais tarde, na primeira década dos anos 2000, na gestão da Residência Médica com credenciamentos da rede hospitalar de treinamento nossos jovens médicos. Não há brasileiro que não tenha tido contato com São Paulo, seja pelas raízes atávicas, pela ciência e cultura ou ainda pelos produtos de sua avançada indústria.

Parabéns, São Paulo! Um abraço aos amigos paulistas, orgulhosos de seu passado.

 

Brasília, 23 de maio de 2021

Paulo das Lavras


 
O Bandeirante, símbolo da bravura destemida. A seu lado a mulher enfermeira e o jovem, recrutados para a luta armada contra o ditador Getúlio Vargas 
Foto: Wikimedia Commons


Em 23 de Maio de 1932, a população foi fuzilada  em praça da cidade de São Paulo, onde se manifestava. Houve muitos mortos.  Tomara que hoje, nessa guerrinha de egos entre políticos, a população não seja convocada às armas, como os paulistas o fizeram em 1932.
Foto: Wikimedia Commons

 



 

 



 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

A vida no Seminário - A rotina de um internato

Notas Preliminares

       Esta crônica se constitui no Capítulo 4.1 do livro “Um Seminário na Década de 1950”. A obra conta a história do menino que decidiu, por contra própria, seguir para o distante Seminário para se tornar sacerdote. Tudo girava em torno de sua vocação religiosa e a família tratou de apoia-lo. Entretanto, o menino de apenas 12 anos de idade não imaginava o quão dura seria a vida longe de casa. 

   O livro contém nove capítulos e ainda se encontra em fase de revisão. Alguns capítulos já foram publicados neste blog, cujos links estão indicados ao final desta crônica.

 


O primeiro dia no Seminário

            O Seminário N.S. de Fátima funcionou de 1954 a 1968 em um belíssimo prédio situado no centro de Itaúna-MG. Anexo a ele e ocupando a fachada da rua funcionava o Colégio Sant´Ana que também aceitava alunos externos, da cidade e região. Ocupava enorme área e distava apenas um quarteirão da igreja matriz, na principal praça da cidade. No Colégio estavam matriculados os 70 meninos seminaristas, internos, e outro tanto de alunos externos. O Colégio, que ainda hoje funciona, incorporou toda a infraestrutura do antigo seminário que fechou suas portas nos anos 60. A maioria dos seminaristas era de meninos de até 14 anos de idade. Eram procedentes em grande parte do próprio estado de Minas Gerais, mas havia alguns de São Paulo, outros da região nordeste e até mesmo do norte. Naquele tempo havia dois tipos de seminário para a formação de sacerdotes. O Seminário Menor, como o de Itaúna, recebia meninos dos 12 aos 17 anos para os estudos de segundo grau, ou ensino médio, os antigos ginásio e colegial. Já o Seminário Maior, de nível superior, incluía os estudos avançados de Filosofia e Teologia como formação final do clérigo.

 Chegamos ao Seminário no dia 11 de fevereiro de 1958, ano da Copa Mundial de Futebol, quando, aliás, o Brasil sagrou-se campeão pela primeira vez e trouxe a Taça Jules Rimet. As aulas do curso ginasial seriam iniciadas depois do carnaval, dali a uma semana. Os novatos chegavam bem antes do início das aulas de modo a se adaptarem à rotina interna do Seminário.  O nosso primeiro dia no seminário foi diferente, de muita emoção. Não bastasse a tensão da despedida do pai e da irmã, ali no grande portão de entrada, com a sensação mais dolorida e marcante que o menino experimentara em toda a sua vida, as emoções daquele dia se sucediam a cada momento seguinte.  Chegando logo após o almoço, fui conduzido à presença dos amiguinhos de Lavras, Pedro Júlio e Miguel Cesar. Outro seminarista, Clóvis Augusto Ribeiro, veterano e mais velho, natural da pequena cidade de Inimutaba, próxima à Curvelo, também estava ali e seria o meu tutor durante todo o ano, conforme a praxe naquele internato. Ensinar-me-ia as regras, horários e tudo mais que regia a vida no Seminário. Levaram minha mala de viagem para dormitório e ajudaram-me a organizar as roupas no pequeno armário de apenas 90 cm de largura por 1,10m de altura. Lá já estava a grande e pesada canastra, despachada dias antes pela ferrovia, com as roupas de cama e todo o enxoval cuidadosamente preparado pela família. Organizamos tudo nos devidos lugares, inclusive estendendo o lençol na cama, travesseiro enfronhado e colcha de piquê, branca, com desenhos geométricos. Todas as peças de roupa, inclusive as toalhas, tinham bordadas as iniciais do nome do menino e ainda mantinham o perfume de casa. Estava tudo em ordem no baú, roupas bem dobradinhas como a mãe e as irmãs as arrumaram ali em casa, na minha presença e explicando sobre cada peça de roupa, como e quando usá-la.

Desfazer as malas e acondicionar as roupas no pequeno armário foi uma tarefa cheia de reminiscências. A cada peça de roupa ou objeto que pegava vinha à memória a presença de minha mãe e da irmã mais velha. Foram elas que tudo fizeram, desde a compra dos cortes dos tecidos, perguntando-me se gostava da cor ou da padronagem até à confecção da peça, em casa, tirando medidas e fazendo-me provar a toda hora. Nunca havia pensado antes que coisas tão simples assim pudessem causar tantas emoções de saudade e amor no coração. A distância e a ausência dos entes queridos faziam crescer a saudade a cada peça de roupa, a cada objeto retirado da mala ou da abarrotada canastra. Aquilo desencadeava no menino uma vontade louca de tudo deixar e sair correndo para a estação do trem e nele embarcar de volta com o pai e a irmã que partiriam às cinco horas daquela tarde. Mas, as presenças dos dois coleguinhas e do recém conhecido tutor, que ajudavam na preparação do dormitório, não permitiram que as lembranças prosseguissem e dessem vazão às lágrimas reprimidas. Estas só apertaram para valer à noite, quando apagadas as luzes e todos já recolhidos, o menino desabou em pranto silencioso no travesseiro que ainda tinha o doce cheiro de casa. Com o coração dilacerado pela falta da família em sua primeira noite fora de casa, sozinho ali com seus pensamentos o menino demorou a pegar no sono. Naquele primeiro dia passou boa parte da noite em prantos, numa sensação nunca antes experimentada. Longe da família pela primeira vez e com um longo ano pela frente em ambiente totalmente estranho e submetido à rigorosa rotina, à base do apito como numa ordem unida de militares no quartel. Definitivamente, foi bastante dura para o menino aquela primeira noite longe de casa.

Terminada a arrumação das roupas fomos conduzidos à Sala de Estudos. Ali se encontravam todos os seminaristas. Entramos pela porta lateral, ao final do dormitório e já de frente para os seminaristas, o diretor apresentou-nos como o novato que acabara de chegar do sul de Minas e pediu uma saudação de acolhida. Encerrada a apresentação com calorosa salva de palmas de boas vindas, um pouco constrangido e com o coração batendo forte, o menino já sentindo o peso da saudade custou a segurar o choro. Respirou fundo e encarando a plateia pensou: Aqui estou e esses são de agora em diante os meus coleguinhas e todos têm a mesma vocação que eu, de servir a Deus no sacerdócio. Que Ele esteja aqui comigo por todos os dias e me dê forças para vencer. Amém! Agradeci e cumprimentei a todos com um aceno e ato contínuo, dirigi-me à mesinha que nos fora reservada. Semelhante a uma carteira de sala de aula, a mesinha individual tinha o tampo dividido ao meio, com cada metade abrindo-se para cima e para os lados. Ali, guardávamos todos os livros, cadernos e demais pertences escolares numa espécie de caixote de uns vinte centímetros de profundidade.

À frente da grande sala de estudos ficava a mesa do regente/tutor sobre um tablado elevado. Ainda à frente, à esquerda e ao lado da porta de entrada exclusiva ao dormitório dos meninos, ficava porta do escritório/dormitório do padre Adriano, diretor geral do Seminário. Sua cama era tipo um beliche dobrável sob a estante de livros. Quando recolhida, dobrada para cima e encostada no fundo da estante, ficava encoberta por uma cortina de correr. Assim, quem lá entrasse não notaria sua cama retrátil sob a estante de livros. Dali, de seu quarto/escritório, o diretor tinha controle total sobre a sala de estudos e do dormitório dos meninos menores. O dormitório dos maiores ficava simetricamente oposto ao primeiro e entre eles o hall das escadarias e as instalações sanitárias. Estas tinham seis boxes de chuveiro e igual número de instalações sanitárias. Os lavatórios, em maior quantidade, eram dispostos logo à entrada, revestidos de azulejos e eram comuns a todos os seminaristas, maiores e menores.

Naquela primeira quinzena de fevereiro ainda era período de férias e não havia deveres escolares e nem lições a estudar, portanto o tempo na Sala de Estudos era livre. Muitos cuidavam de coleções de selos, outros liam livros diversos e havia musica ambiente, clássica ou sacra. Logo em seguida foram todos liberados para o futebol e por ser o primeiro dia do novato, apenas assistimos aos revezamentos de times nos dois campos de futebol.  Terminado o tempo, subimos para o banho. Surpresa..., banho frio de cortar a respiração e o tempo era cronometrado. Três minutos e o apito soava. Tínhamos que sair em 30 segundos após o estrilar do apito, que soava como no futebol.

Certa vez atrasei-me no chuveiro, ainda todo ensaboado e tentando retirar manchas de tinta dos trabalhos manuais, não foi possível atender ao apito com a ordem de saída. Afinal, o tempo muito curto, três minutos apenas, para se ensaboar e enxaguar o corpo. Fizesse assim em casa, nesse curto tempo, certamente a mãe iria inspecionar se o banho foi bem tomado. Ainda ensaboado fechei o registro do chuveiro, fiquei quietinho, esperando a nova turma da fila entrar. Não adiantou, pois chegaram seis meninos, numero exato de boxes com chuveiro. Sobrou um pelo lado de fora e ele sabia que, quem quer que ali estivesse trancado, deveria dar-lhe o lugar. Bateu, bateu, gritou discretamente..., não restou alternativa senão enrolar-me na toalha, ainda que ensaboado e sair. Voltei para o final da fila, não sem antes ser abordado pelo padre regente da disciplina. De longe, quase no final da fila, ele levantou os olhos do breviário que lia (todos eles liam o breviário enquanto nos supervisionavam, em qualquer lugar. O breviário era um livro com os ofícios e orações diárias de um sacerdote) e acompanhou-me com olhar até passar por ele, quando me inquiriu. Por ser novato fui perdoado, mas aprendi a lição e percebi que o rigor dos holandeses era maior que dos padres alemães do colégio em Lavras de onde viera. Fazia-nos lembrar do rigor do sargento do Exército, comandante do Tiro de Guerra, terror das mães que viam seus filhos se atirarem nos brejos, riachos e montanhas pedregosas a um simples apito ou grito de ordem do militar. Sair ensaboado do chuveiro foi o primeiro “mico” que o menino pagou no internato. Porém, o ambiente era muito respeitoso e ninguém se aproveitava das falhas ou faltas dos colegas. Havia muita disciplina e respeito entre todos os meninos.

A primeira noite no internato

Encerrado o banho, todos já vestidos, descemos em fila para o refeitório. Às 18 horas era servido o jantar. Conduziram-me a uma mesa para seis meninos. O chefe da mesa ficava ao centro, tendo um menino a cada lado e os outros três em frente. Clóvis era o chefe e ao mesmo tempo meu tutor. Fazia-se breve oração, assentávamos e o chefe determinava a dois dos membros da mesa que fossem ao balcão da cozinha buscar as travessas com as iguarias. Encerrado o jantar outros dois levavam os pratos e talheres usados até à cozinha. Seguia-se breve recreio, ali mesmo do lado de fora do prédio, sob as mangueiras e às 19:00 horas iniciava-se a reza do terço, na capela ao lado do refeitório. Essa oração era transmitida pela Rádio de Itaúna, por um link físico, fios que interligavam o Seminário à estação da rádio emissora local. Ao final do terço cantávamos um hino sacro, acompanhado pelo órgão, tocado pelo Padre Luiz Turkenburg.  Após o terço subíamos para a sala de estudos, onde permanecíamos até as 21:45h e em seguida para o dormitório. Antes de nos dirigirmos para o dormitório fazíamos ligeira oração, ajoelhados sobre as cadeiras das escrivaninhas agradecendo pelo final da jornada. Dalí seguimos então para o dormitório e após escovar os dentes arrumamos a cama, o travesseiro, virol e colcha de lã, tarefa que o menino nunca fizera antes em casa, pois a mãe sempre o fazia e era só chegar a deitar-se. Nunca precisou fazer a cama para dormir, pois havia, ainda, permanentemente agregada em casa, a figura da empregada da família sempre à disposição, conforme costume da época. Agora, ali estava a fazer aquela simples tarefa, pensando no carinho, o aconchego de casa com todos os familiares ao redor. Foi preciso faltar isso, tendo o próprio menino que cuidar de si pela primeira vez para, então, lembrar-se do quanto era importante e amoroso aquele simples ato de arrumar a cama para se deitar. Feito isso, ajoelhado no chão de tacos de ipê e curvado sobre a pequena cama patente, fazia a última oração individual, pedindo as bênçãos de Deus para si e para os familiares que se encontravam distantes.

 Aquela primeira noite foi dolorida demais para o menino, pois as emoções estiveram à flor da pele durante todo o dia. Um turbilhão passava pela sua cabeça, a dor da despedida do pai e da irmã, a arrumação das roupas no armário e da cama, a apresentação aos coleguinhas, a rotina diária com extremo rigor de horários, o banho gelado que o menino nunca se acostumou, as atitudes comedidas e o quase  silêncio total em todos os ambientes que não fossem o local de recreio... Enfim, tudo era novidade e as emoções se acumularam. Terminada aquela ligeira prece, ajoelhado no chão, o menino se recolheu cobrindo-se e desabou em silencioso choro provocado por tantas emoções e até mesmo pelo cheirinho perfumado das roupas de cama e do próprio pijama. Tudo evocava lembranças de casa, dos entes queridos que com ele também vivenciaram o sonho de ir para o Seminário. Mal se deitara e as lágrimas corriam intensas no travesseiro e talvez já prevendo essa situação, aproximou-se o Pe. Adriano. Abaixou-se, perguntou se estava tudo bem e num gesto de atenção especial, enfiou as bordas do cobertor e lençol sob o colchão, de ambos os lados da cama... “assim é melhor, não cairão durante a noite”, disse ele. Entretanto, o sono custou a chegar, mas, gostei da colcha de lã e virol enfiados, com certa folga, sob o colchão e desde então passei a fazer isso e de fato nunca mais caíram ao chão durante o sono.

Assim encerrou-se aquele primeiro dia no Seminário. Tudo era novidade e o menino a tudo observava com atenção e interesse. Estava feliz porque a partir de então iniciava-se a realização do sonho de ser padre. Mas, contudo, na hora em que se apagaram as luzes e já sob as cobertas e mesmo tendo sido maravilhosamente recebido, com tantas atenções a ele dispensadas e ainda a certeza de que ali era o lugar certo para cumprir a vocação de um dia ser padre, celebrar missa, fazer sermão, ensinar em escolas..., o menino de 12 anos, que nunca saíra de casa... desabou, pois nunca imaginara o quão duro era estar ali, sozinho, como naquele primeiro dia longe de casa, dos entes queridos. Durante todo o tempo em que ali esteve e em todas as noites,  sempre pedia a Deus que lhe desse graça e força para vencer e realizar a sua vocação.

O dia seguinte e o staff do Seminário

Em período de férias a rotina e as atividades eram mais leves. O Seminário N.S. de Fátima, esse era o nome do seminário de Itaúna, contava com vários religiosos holandeses e dentre eles se destacavam os padres Adriano Turkenburg (Adrianus Petrus Turkenburg – 1920/Amsterdam - 2006- Sete Lagoas MG) diretor geral e Luiz Turkenburg, irmãos de sangue; José Wetzels (1925- Bocholtz/Maastricht, Holanda – 2012- Itaúna MG), chamado carinhosamente de padre José das Crianças; padre Francisco; padre Geraldo, bem jovem e recém-chegado da Holanda e outros além do Irmão João, também holandês e que fazia todos os serviços de manutenção hidráulica, elétrica, carpintaria e ainda exercia o ofício de pedreiro e pintor de paredes. Era o engenheiro das instalações prediais e mestre de obras. Havia apenas um único brasileiro, o padre Manoel de Lima Cauper. Todos exerciam alguma função. Padre Francisco, por exemplo, era o tesoureiro. Além das mensalidades e finanças, cuidava também do controle do dinheiro que os pais deixavam depositado para despesas eventuais. Gostávamos de todos eles, pois sempre nos tratavam com carinho e respeito. Lógico que o padre diretor era temido por conta da severa disciplina que impunha a todos, mas nunca destratou ou ofendeu nenhum menino. Sempre nos tratava com autoridade respeitosa. O padre Luiz era dos mais queridos, pelas aulas de inglês que o menino gostava e também como regente do coral, além de ser ótimo no piano e no órgão/ harmônio. Estava sempre a nos brindar com belíssimas performances nos horários de recreio. Também o padre Francisco era bastante querido, pois mesmo com sequelas físicas sofridas na Segunda Grande Guerra e sempre mancando da perna direita, que parecia ser bem mais curta. Foi vítima de uma tragédia acontecida na sua cidade natal, na Holanda. Contou-nos, aos novatos, curiosos como toda criança, sobre as deformações de seu rosto, perna e todo o corpo. Encontrou um objeto estranho em uma praça, sob um vão da calçada. Tinha o formato de uma pera, com bico e um pino atravessado. O garoto pôs-se a soprá-lo, pois não sabia tratar-se de uma granada. Puxou o pino e o artefato explodiu em seu rosto. Uma tragédia, embora ele minimizasse a narrativa de modo a não impressionar em demasia os meninos que a essa altura já estavam de olhos arregalados e outros até chorando. Submeteu-se a várias cirurgias corretivas com implante de pele na face, nas mãos e outras partes do corpo. Estilhaços da granada causaram-lhe também grande estrago na perna direita. Milagrosamente nada sofreu nos olhos. Era fácil entender por que ele minimizava os efeitos da explosão em seu corpo, pois, muitos dos garotos consternados com a tragédia faziam perguntas com lágrimas nos olhos. Também por isso, certamente, era dos mais queridos do Seminário, além de ser extremamente alegre e animado nas brincadeiras com os meninos, especialmente no futebol. Gostava de jogar como goleiro, pois tinha dificuldade para correr, devido à deficiência física de sua perna. Sempre tinha um sorriso para os meninos, embora sua face ligeiramente deformada também tivesse profundas cicatrizes provocadas pela explosão da granada. 



 

 Havia ainda outro padre que sempre exprimia alegria junto às crianças, o Padre José Wetzels. Era só alegria e nos contava casos de suas viagens em busca de novas vocações, além de também jogar futebol com a meninada. Vestia uma bermuda preta até os joelhos, enquanto o padre Francisco nunca tirava sua batina branca, talvez para não expor suas sequelas físicas. Mas, havia uma vantagem no goleiro de batina..., pois nunca tomava uma bola ou um gol no meio das pernas, considerada a maior vergonha de qualquer goleiro, pois a batina funcionava como cortina intransponível. Esses eram os padres holandeses que mais de destacavam. Havia apenas um sacerdote brasileiro, ali no Seminário, o amazonense Padre Cauper, que tocava violão e cantava as músicas folclóricas, como aquela do “Mestre Domingos, o que é que você quer? Eu não vim fazer barulho..., eu só vim “tumar” o seu café....”. Aonde quer que ele chegasse formava-se logo a rodinha e causos e violão com cantorias nunca faltavam.

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      Na cozinha a Dona Fia comandava uma equipe com mais duas ajudantes. Os padres usavam pequenas motocicletas holandesas como meio de transporte para as idas ao centro da cidade ou visitar bairros onde celebravam missas. Havia pelo menos duas delas. Seriam correspondentes a uma Mobilete de 125 cc de cilindrada. Tinham um cuidado especial ao dirigi-las, pois contavam que um colega morreu, na Holanda, ao prender acidentalmente o cordão da batina na corrente motora. Portanto, sempre davam um jeito de enrolar um pouco a batina e principalmente as pontas do enorme do cordão que mesmo passando pela cintura ainda quase chegava aos pés.


A rotina durante o ano letivo

O dia dos meninos seminaristas era rigorosamente controlado pelo relógio e o apito dos padres Adriano e Luiz. Às vezes também o padre Francisco atuava nessa função. Sempre com o breviário nas mãos, lendo a palavra de Deus, eles caminhavam por entre as fileiras das carteiras da sala de estudos ou onde quer que estivéssemos reunidos. Impunham disciplina draconiana, mas, aqui cabe um parêntesis sobre a disciplina. Era respeitosa e ao contrário de relatos de outros colegas seminaristas, de épocas diferentes, nunca vi ou presenciei reprimendas publicas ou mesmo os famosos castigos humilhantes de se ficar de pé na frente da turma, tanto em sala de aula como nos demais ambientes.  Nada disso aconteceu naquele ano. Bastava um olhar de qualquer que fosse o supervisor e já era o bastante para o menino entender e cessar sua estripulia. 

 A jornada começava cedo com o despertar às 05:45 horas. Num leve bater de palmas todos acordavam e o Padre Adriano nos saudava em Latim: Benedicamus Dominum e respondíamos: Deo gratias e saíamos apressados, de chinelos e toalha de rosto no pescoço e escova de dente à mão já com a pasta dental, o dentifrício como dizíamos. Tínhamos 15 minutos para nos aprontar, descer as escadas em fila e ir direto para a capela. O Padre Adriano nem tirava os olhos do breviário e nós, os meninos nos púnhamos a correr para o banheiro e logo pegar a fila dos lavatórios para escovar os dentes e voltar correndo, tirar o pijama, dobrá-lo, vestir roupa do dia, arrumar a cama e deixar tudo em ordem. Ainda bem que éramos meninos imberbes e não tínhamos que fazer a barba, pois se assim fosse, os 10 minutos não seriam suficientes. Cinco minutos antes das seis horas o apito tocava e entrávamos em fila para descer as escadas em direção à capela. Às 06h00min horas em ponto começava a missa. Interessante que sempre fui devagar, lento, para me levantar pela manhã, mas ali não havia lugar para isso e nem era por causa de suposto medo ou receio do Padre Adriano. Embora fosse enérgico, firme nas suas palavras, nunca destratou a nenhum de nós, meninos às vezes travessos. Suas palmas para acordar a meninada eram suaves e cadenciadas e a maneira como nos saudava no despertar para um novo dia soava, em Latim, mais alegre ainda. Mesmo hoje, mais de 60 anos depois, tenho gravado no subconsciente o som daquelas palmas e sua saudação, como também as suas feições de olhos azuis, queixo fino, cabelos bem loiros cortados em estilo militar, batina branca com cordão preto, duplo, amarrado na cintura e com pontas trabalhadas alcançando abaixo dos joelhos. Falava o português sem o mínimo sotaque e quando o discurso era longo costumava espumar um pouco no canto da boca. Nunca o vimos falar em seu idioma nativo, o holandês, nem mesmo com seu irmão de sangue, o padre Luiz. Além de diretor geral do Seminário, era nosso professor de Latim, com aquelas complicadas declinações, mas que tínhamos que dominar plenamente pois, naquele tempo essa era a língua oficial da Igreja em todos seus atos litúrgicos. Para tanto deveríamos dominar e falar fluentemente aquele idioma, já considerado língua morta..., menos para a Igreja Católica Apostólica Romana. Ainda hoje me lembro das letras em latim de alguns hinos sacros e rituais canônicos. Isto porque tendo sido coroinha até a metade dos anos 60, toda a liturgia das missas e demais atos litúrgicos eram celebrados em Latim. As missas em português só foram iniciadas algum tempo depois.

     Terminada a missa, passávamos para o refeitório ao lado. Café com leite, pão com manteiga e quase sempre queijo chedar norte-americano doado pela USAID. Às 07:00hs em ponto já estávamos em sala de aula. Seguia-se o almoço às 11:30 horas e logo depois havia o recreio na Sala de Jogos. Os estudos começavam às 13:00hs, seguindo-se o futebol às 16:00 horas e banho antes do jantar que era servido às 18:15 horas. Às 19:00h era rezado o terço, na capela, transmitido pela rádio da cidade. Antes do terço e tendo terminado o jantar, sempre havia uns 15 minutos de lazer, sob as mangueiras defronte à escadaria principal do prédio. Após o terço subíamos para a Sala de Estudos e às 21:45 hs nos recolhíamos ao dormitóro.
 

 Essa era a rotina diária com rigorosa disciplina. Durante os estudos, por exemplo, nada era permitido nem mesmo pedir algo emprestado ao colega ou se levantar da carteira. Ir ao banheiro nesse horário, só com a permissão do padre regente que, na maior parte do tempo permanecia sentado à mesa sobre um tablado de frente para todos. A ausência dele naquela mesa significava que estava transitando nos fundos e ninguém se atrevia a olhar para trás. Se o fizesse era sinal de que estava preocupado com o fiscal e o cruzar de olhos já era o bastante para intimidar o descuidado estudante seminarista. Para se levantar da carteira de estudos, a única exceção era quando havia necessidade de se abastecer a caneta. Explico! Naquele tempo usava-se somente a caneta tinteiro. Não existiam as chamadas esferográficas. Havia um cômodo no final da Sala de Estudos com uma pia de bancada de concreto bem grande. Sobre esta havia um tabuleiro, raso, cheio de areia, onde ficavam vários tinteiros (vidros com tampa de rosca) com a famosa tinta azul real lavável da marca Parker. Ali abastecíamos nossas canetas tinteiros. A minha era da marca COMPACTOR, bem macia de se escrever e não borrava. Por isso era a mais usada pelos estudantes. Era só encher a caneta, bastando bombear seu pequeno reservatório de fina, maleável e resistente borracha. Caso houvesse algum respingo, a areia o absorvia e o ambiente ficava sempre limpo. Nos cadernos, caso houvesse algum respingo descuidados, havia o mata-borrão, sempre disponível como brinde das livrarias e papelarias. Certa vez a caneta caiu e estragou a pena. Padre Luiz levou-a em uma de suas idas a Belo Horizonte e voltou novinha.  Itaúna, cidade pequena de uns 15.000 habitantes, não dispunha desses serviços de reposição ou reparos de canetas.  

 


À entrada do cômodo das tintas, havia na parede um enorme mapa do estado de Minas Gerais. Ir ali e não procurar e contemplar o nome e a localização da cidade de Lavras, quase no pé do mapa de quase dois metros de altura, era como se não tivesse passado por lá. Ver o nome da cidade natal já era um bálsamo para aquele isolamento em local tão distante e que pelas dimensões do mapa mais distante parecia. Nele estava nitidamente traçada a sinuosa ferrovia que a interligava a Itaúna. Eram mais de 500 km e a rodovia Fernão Dias sequer existia no mapa daquele ano de 1958, embora já estivesse em construção e efetivamente inaugurada dali a ano e meio.

Ao amanhecer, todos os dias, o menino seminarista contemplava o sol nascente que começava a projetar os primeiros raios de luz pela janela do dormitório no segundo andar do imponente prédio principal. Logo em seguida o Padre Adriano nos despertava. Era hora de saltar da cama, pegar a toalha de rosto, a escova de dente, calçar os chinelos e caminhar em fila para os dez ou doze lavatórios coletivos no hall logo à saída dos dormitórios. Camas arrumadas e uniformes bem trajados lá íamos, em fila, descendo as escadas para o primeiro andar onde se localizavam a capela e o refeitório, lado a lado. Nas missas gostávamos de atuar como coroinha, ajudando o celebrante. Nas missas de domingo, um pouco mais tarde e quase sempre na igreja matriz da cidade, os coroinhas atuavam em duplas. Após a missa seguia-se o café da manhã. Às sete horas já estávamos em sala de aula, no prédio anexo onde funcionava o Colégio Sant´Ana que também recebia alunos externos. Nossa classe do segundo ano ginasial era mista, quase meio a meio entre seminaristas e alunos externos. Terminadas as aulas do período da manhã seguíamos para o almoço que era servido às 11:30h e do refeitório seguíamos direto para o salão de recreio. 

 O salão de recreio do Seminário era bem amplo e havia muitos jogos. Na foto o jogo de Banco Imobiliário, em 1958. 
Foto: arquivo do Colégio Sant´Ana – Itaúna- MG

 

O refeitório era bem amplo e continha quatro fileiras de três mesas cada. Tinham pesados pés de concreto pré-moldado, tampo de granito e acomodavam seis lugares. Havia o chefe da mesa, geralmente um seminarista mais antigo, os chamados “maiores”, com 16 ou 17 anos de idade. Era o encarregado da disciplina durante as refeições. Qualquer deslize no comportamento dos meninos o chefe intervinha e depois reportava diretamente aos padres responsáveis pela disciplina geral. Estes, os diretores e demais membros do seminário e que não passavam de uns oito clérigos, ocupavam a mesa da cabeceira que ficava em posição perpendicular às demais fileiras. O chefe determinava, em forma de rodízio, quem deveria ir ao balcão da cozinha pegar as tigelas e travessas de comidas que, se necessário, eram reabastecidas. Esse balcão possuía uma pequena janela em arco, com base de granito, que servia de apoio, onde também eram depositados os pratos e talheres que eram recolhidos para as lavagens em enormes pias. Naquele tempo não havia ainda o sistema de self-service, daí o abastecimento em travessas para cada mesa. Ao final das refeições, os meninos escalados em rodízios diários recolhiam os pratos, travessas e talheres levando-os até o balcão da cozinha. Todos gostavam muito da cozinheira, Dona Fia, mulata bem forte como convém à maioria das cozinheiras, nos dedicava carinhosa atenção. Ficava alegre e estampava largo sorriso quando voltávamos com as travessas para reabastecer a mesa, como que a dizer... os meninos gostaram da comidinha que fiz.  O cardápio não variava muito e nunca faltavam carne cozida e salada como complementos.

No período da tarde, aqueles que tinham aulas seguiam para as respectivas classes e os demais para o grande salão de estudos. No final da tarde havia futebol e recreio geral e logo depois seguia-se o jantar. O futebol era o esporte preferido da meninada. Havia dois campinhos, ambos de terra batida, sem gramado e tampouco redes. Mas, mesmo assim, era o esporte mais disputado. Após o jantar, o terço e os estudos da noite, encerrava-se o dia. Na manhã seguinte repetia-se o ritual diário. No sábado era dia de se preparar a roupa suja em um saco, identificado com enormes letras pintadas a pincel. Coube ao menino a letra I que era a inicial do nome da lavadeira. Entregavam-se as roupas devidamente listadas em rol próprio e ao mesmo tempo recebiam-se as da semana anterior, lavadas, passadas, dobradas e acondicionadas no mesmo saco que levara as roupas usadas na semana anterior

 A capela do Seminário onde assistíamos à missa, às 06:00h da manhã e rezávamos o terço à 19:00h. 
Foto: 1958 - arquivo do Colégio Sant´Ana – Itaúna- MG 

       Domingo era um dia especial, pois íamos para a missa solene da Igreja Matriz da cidade. Para um dia especial, um traje especial e então vestíamos o uniforme de gala, calça e camisa brancas, cinto e sapatos pretos. Ir à cidade, uma única vez na semana, ainda que para cumprir uma obrigação, era como se fosse um passeio especial. As famílias da cidade gostavam de ver e ouvir os seminaristas cantando durante a missa. Afinal formávamos um coral de 70 vozes e a repercussão na nave da grande igreja matriz produzia um efeito especial que ressonava por todo o ambiente. À saída, as mães vinham conversar com os meninos seminaristas e carinhosamente nos abraçavam, como se filhos fôssemos. Momentos inesquecíveis, pois víamos naquelas senhoras a figura de nossa própria mãe a nos abraçar e abençoar, rogando as graças de Deus. Por isso, o domingo era um mesmo um dia muito especial, pois além de ver o movimento e as pessoas da cidade, recebíamos o carinho e a admiração daquelas amorosas senhoras. Na volta da missa íamos direto para o futebol, antes do almoço. Nesse dia havia jogos também à tarde com todos os meninos se revezando a cada meio tempo de jogo. O almoço também era especial, mais variado. Passávamos menos tempo na sala de estudos, geralmente para atividades de lazer, cuidando da coleção de selos e principalmente para escrever cartas para a família. As cartas eram infalíveis. Todas as semanas as escrevíamos e serviam como consolo, uma fuga da dolorida saudade que perpassava a alma. Mas, havia um detalhe constrangedor. As cartas eram deixadas com os envelopes abertos sobre a mesa do supervisor de plantão. Era proibido lacra-las, pois havia censura e inspeção sobre o que os meninos contavam para suas famílias. E a prova cabal disso foi que, certa vez copiei um modelo de carta para os pais e a transcrevi com ligeiras adaptações. Ora, como o tal modelo constava do livro de Português, minha carta foi motivo de sermão público por parte do Padre Adriano. Sem citar diretamente meu nome disse que cartas para os pais deveriam atender aquilo que eles queriam ou gostariam de saber e não, como alguém aqui fez, copiar um modelo do livro. Desfilou uma série de exemplos a serem contados aos pais, falando de rotinas, estudos, lazer e outros. O coleguinha Pedro, que se assentava a meu lado na sala de estudos, olhou-me e fez cara de gozação, pois eu havia lhe mostrado antes o tal modelo de carta. Esse foi o segundo de três “micos” que paguei perante os colegas naquele ano que lá permaneci. 


Como visto, a rotina diária no Seminário era extremamente rígida, controlada minuto a minuto. Não havia tempo para atividades isoladas ou momentos de intimidade, pois todas as áreas e ambientes eram coletivos, bem diferentes do ambiente familiar com quarto exclusivo. Nunca ficávamos a sós, sempre havia alguém por perto, seja um padre, professor, ou mesmo o colega tutor, monitorando cada passo, cada gesto desde o despertar até o encerrar do dia. Durante a noite lá estava o padre diretor, bem ao lado, cujo quarto era contíguo ao dormitório dos menores e se comunicava por uma pequena porta. Foi por ela que, numa noite qualquer, o Padre Luiz nos flagrou em plena guerra de travesseiros, meia hora após o toque de recolher. Tudo começou com uma sonora gargalhada lá nos fundos, na última cama, perpassando por cada um dos meninos que acompanhavam o coro da bagunça. Um não gostava, resmungava... e pronto, estava iniciada a guerra dos travesseiros que voavam como bólidos por sobre nossas cabeças. E tomem travesseiradas para lá e para cá, até que a portinhola se abriu bruscamente e o facho de luz de uma lanterna varreu as duas fileiras de camas. Correria geral, todos pularam em sua cama, mas os travesseiros atirados ficaram pelo caminho como prova cabal com as impressões digitais de cada infrator. Castigo rigoroso no dia seguinte... e lá estava o menino das Lavras, flagrado em meio à inocente bagunça. Não havia como negar e de nada adiantou correr no escuro, pular na cama e cobrir a cabeça como se estivesse em sono profundo. O padre supervisor fez questão de pegar um travesseiro a mais de 10 metros de distância e com a lanterna focou nas iniciais gravadas na fronha: PRS..... Puxou o cobertor, entregou-me o travesseiro, iluminando meu rosto com a lanterna e disse baixinho, porém firme: amanhã conversaremos... Custei a dormir naquela noite... Ainda hoje, quando brinco com meu netinho de oito anos, com travesseiradas vigorosas de ambos os lados, me pego em doce recordação daquela noite no internato e que gerou castigo no dia seguinte. Dou gargalhadas de contentamento por estar ali como a vingar o castigo recebido no Seminário e ao mesmo tempo proporcionar tanta alegria ao pequeno. Durante uma dessas constantes guerras de travesseiro, a toda hora e com olhinhos arregalados, o netinho perguntava: “Vovô..., e se a vovó ou uma das tias chegarem aqui, elas vão brigar conosco, porque bagunçamos o quarto...”. Não se preocupe, retirei os quadros ornamentais da parede e melhor de tudo..., tranquei a porta de entrada... e tome travesseirada, defenda-se ... rsrs.  Tão pouco..., para tanta felicidade da criança que vê no vovô seu cumplice na infração às regras da casa das rigorosas guardiãs da ordem, do asseio e da disciplina que proíbe essa inocente guerra de travesseiros. Mal sabia ele que ali não estava vovô adulto e sim a velha criança que um dia fora flagrada na mesma guerra de travesseiros em meio a uns vinte coleguinhas do internato. Naquele dia não havia tranca na porta e fomos flagrados e castigados, hoje, não, estamos a salvo com a porta trancada. Doce vingança, mais de meio século depois daquela malsucedida noite das travesseiradas no internato.

Assim era a rotina do internato no Seminário de Itaúna naquele ano de 1958. Rigorosa, minuto a minuto e sempre controlada pelos supervisores de disciplina. Mas, embora o menino a estranhasse nos primeiros dias, logo se adaptou às normas da casa. Hoje, distante no tempo, posso avalia-la como positiva, pois afinal, não se pode relaxar na disciplina quando se lida com turmas de quase uma centena de meninos, cheios de energia e prontos para desafiar a ordem. Obedecer às regras, ser educado, polido e respeitar a autoridade dos mais velhos ou dirigentes, são requisitos que integram a boa formação dos jovens. Acresça-se, ainda, ao rigor da disciplina ali exigida, a esmerada Educação social e religiosa e tem-se, portanto, todos os ingredientes para a formação dos jovens com ilibado caráter, controle das emoções, competências, habilidades e motivações em relação aos valores de vida. E por que agora, mais de sessenta anos depois, avaliar aquele rigor na disciplina como positivo? Simples, porque o relembro com saudade e a definição mais apropriada que vi para esse sentimento é: Saudade é o amor que fica. E ficou para sempre no meu coração a primorosa educação, a formação que ali recebi. A saudade e a dor da ausência da família foram os espinhos que todos encontramos na caminhada da vida e, embora constantes ali no internato, foram suplantados pelos benefícios recebidos. Amém e gratidão à memória dos padres holandeses, abnegados missionários que deixaram sua pátria. Verdadeiros educadores, de primeira linha e que dedicaram a vida inteira ao sacerdócio específico de formação de nossos jovens, ali entre as montanhas de ferro e manganês das Minas Gerais. O menino foi muito afortunado, pois recebeu a melhor educação possível, ministrada pelos padres holandeses do Seminário de Itaúna, dos padres alemães no Colégio Aparecida e dos missionários norte-americanos do Instituto Presbiteriano Gammon, em Lavras.

Brasília, 28 de abril de 2021

Paulo das Lavras

 

 

Notas:

 

1- A presente crônica é parte do livro: “Um Seminário na década de 1950”, composto de nove capítulos. Aqueles já publicadas neste blog têm os links indicados abaixo, conforme projeto editorial: 

  Título geral: Um Seminário na década de 1950

 Cap.I-   Uma viagem ao passado – http://contosdaslavras.blogspot.com.br/2016/07/um-     

seminario-na-decada-de-1950-parte-i.html

II- O despertar da vocaçãohttp://contosdaslavras.blogspot.com/2021/03/o-despertar-da-vocacao-sacerdotal-um.html

III- a viagem para o distante Seminário http://contosdaslavras.blogspot.com/2020/07/a-viagem-para-o-distante-seminario.html

IV- A vida no Seminário

   4.1- a rotina de um internato

   4.2- os seminaristas

   4.3- os estudos do colégio 

   4.4- A religiosidade               

   4.5- o lazer e cultura

  4.6- Eventos marcantes

         4.6.1 - Fundições e Tecelagem Itaunense 

         4.6.2- Morro do Bonfim- a capela

        4.6.3- Copa do Mundo de 1958

       4.6.4- A morte chega ao Seminário –  http://contosdaslavras.blogspot.com/2017/07/a-morte-chega-ao-seminario.html

V – A viagem de volta - O fim

            VI- O reencontro – 55 anos depois

VII- O legado 

VIII- Anexos: Curiosidades de 1958

IX- Pos-Scriptum:

                 1- Brasília: O reencontro do seminarista foragido na Basílica Metropolitana -              http://contosdaslavras.blogspot.com/2015/06/reencontro-do-seminarista-foragido.html

 

                2-  Copa de junho de 1958 – Sessenta anos da primeira Copa de Futebol 

         http://contosdaslavras.blogspot.com/2018/06/29-de-junho-de-1958-sessenta-anos-da.html

 

2- Os coleguinhas conterrâneos, Miguel e Pedro, também deixaram o Seminário, dois ou três anos depois. Matricularam-se no curso de Agronomia da UFLA e ali, em 1969, foram meus alunos. Surpreendente reencontro em sala de aula, quando o menino já era professor daquela universidade. Lamentavelmente ambos faleceram prematuramente, há pouco mais de seis anos, quando ainda estavam em pleno exercício da profissão.