Parte III de: Um Seminário na década de 1950 (Veja Nota Explicativa ao final, com a estrutura completa do livro e links de partes já publicadas)
444.557visualizações- Blog 04/02/2026
O menino que embarcou em Lavras, no ano de1958, numa Maria-fumaça como esta, com destino ao
longínquo Seminário de Itaúna, reviveu
sua história 60 anos depois, na mesma estação de Lavras, em uma locomotiva
Baldwin, ali estacionada como patrimônio da cidade. A viagem teve um longo percurso e mais
longo ainda, o tempo já decorrido desde então, mas, as memórias, marcantes na
vida do menino, não se esmaeceram com o tempo. Ao contrário, estão vivas,
vivíssimas e têm as cores dos arco-íris, bem coloridas quando afloram na alma e
alegram o coração.
Foto do autor –
Lavras, 2018
Foi uma longa
viagem, de dezesseis horas, no trem Maria-Fumaça cortando as montanhas, rios,
pastagens e jazidas minerais do centro-oeste de Minas, partindo de Lavras com
destino à cidade de Itaúna. Se a viagem foi longa, mais demorados ainda foram
os preparativos para a viagem do menino que partia para o distante Seminário.
Foram pelo menos dois meses, desde o dia em que o Pe José das Crianças esteve
com a família, combinou a data da viagem e entregou a lista do enxoval que
deveria ser providenciado. Todos se empenharam nos arranjos para a sonhada
viagem do menino. Durante todo aquele tempo predominavam, entre todos, a
alegria e o orgulho por se tratar da viagem do “futuro padre da
família”. Aliás, naqueles bons tempos toda família almejava ter pelo menos
uma das quatro profissões em casa: Médico, Engenheiro, Advogado ou Padre.
Certamente a profissão de padre era a mais importante para as famílias
católicas, pois cuidava do que há de mais caro, a religião e a fé em Deus. A
tradição portuguesa, de grande religiosidade, era um costume de meus pais,
ambos descendentes de imigrantes
portugueses que chegaram a Lavras a partir de 1750, conforme registros
genealógicos das famílias Salles/Pádua/ Costa e Abreu/Gaspar do ramo materno e
Pereira/Abreu do lado paterno. Todos seguiam os costumes portugueses, da
religiosidade da crença nos santos ao cultivo da terra, o gosto por certos
alimentos, a criação de animais e até mesmo de ovelhas para produção de
lã com tecelagem de lindas colchas de variegadas cores e mosaicos,
próprias para enfrentar o rigoroso frio das montanhas do sul de Minas.
Naqueles idos
da década de 1950 o comércio e a indústria em geral eram ainda muito
incipientes. Assim, a maioria dos vestuários era feita por costureiras da
própria família ou então contratadas por diária, em casa. Era comum se comprar
peça inteira de tecidos para a confecção de todas as roupas pessoais da família
e ainda as de cama e mesa. As peças inteiras de tecidos finos podiam ser
compradas na loja atacadista Dessimoni ou varejistas como as Casas
Pernambucanas e a Maracanã.
Havia uma marca de cretone muito especial, que
trazia um canário amarelo estampado na embalagem e era a preferida para as
roupas de cama. Para o enxoval do seminarista não foi diferente. Os tecidos
foram adquiridos nas principais lojas do ramo em Lavras. Além das já
mencionadas, havia ainda a Casa Vasco, Casas Cherem (Sr. Tufi
Cherem), Tecidos Paulo Massimo e Casa Luiz Cherem, onde comprávamos
os ternos de casemira inglesa. Sim, crianças usavam terno e gravata nos
idos da década de 1950 e era assim que nos trajávamos aos domingos para ir
à missa ou qualquer festa. As meninas sempre de vestidos rodados, sapatinhos de
verniz, fechados e meias brancas. E aqui abro um

Casa Maracanã, especialista em tecidos.
Foto: anos de 1950 - arquivos de Renato Libeck
parêntesis para dizer que essa loja,
a Casa Luiz, pertencia antes ao Sr Nicolau Cherém, pelo menos desde os anos de
1930, bem ali quase defronte à Distribuidora de energia dos bondes. Nessa casa
comercial, nos fundos de seu quintal, o Sr Nicolau fazia a gentileza a meu pai
e tios, que vinham à cavalo das fazendas, deixando os animais
“estacionados”, enquanto iam às compras. Cabe lembrar ainda, que esse
sírio-libanês, imigrante que chegou à cidade no início de século XX e muito
honrou à comunidade que sempre serviu, era o pai dos demais comerciantes,
lojistas já citados, Tufi e Luiz, também
era sogro de outro comerciante sírio-libanês, o Sr Antônio Curi. A loja
deste, a famosa Casa Curi, situada bem em frente ao jardim central da cidade,
era especializada em confecções, calçados e roupas para esportes. Aliás, o
vestuário para esportes foi um dos mais importantes requisitos para o menino
que foi, pessoalmente, à loja e ali escolheu as chuteiras, meias e camisas de
futebol (sempre do time preferido, o Flamengo), que fizeram muito sucesso entre
os meninos do internato. Não faltaram nem mesmo os Keds (alguém sabe o que é
isso? Nos anos 50 ainda não existia o tênis, apenas este, o keds).
Casa Luiz, 1ª à direita, ternos de casemira inglesa
Foto: anos de 1950 - arquivos de
Renato Libeck
A cidade de Lavras
era pródiga em lojas do ramo de confecções e calçados, pois dentre tantas que
gozavam da preferência da família do menino, havia ainda a Casa Rafe Haddad e
Casa Alberto Murad. Eram as principais lojas da cidade e apresentavam bons
sortimentos e sempre atualizados. Um grande lançamento de calçados masculinos,
ocorrido no ano anterior, foi a marca Vulcabrás, cuja propaganda afirmava que o
solado de borracha vulcanizada não acabava nunca, macio, antiderrapante e
impermeável. Durava o ano inteiro, mesmo com os meninos chutando pedras pelo
caminho. Bem engraxado brilhava como nenhum outro, um luxo! Assim propagandeou
o Sr Antônio Curi. Gostei, pois era a ultima “novidade” e escolhi um par, de
cor preta. No Seminário só o usava aos domingos, dia de missa e com uniforme de
gala dos seminaristas, calça branca, cinto preto e camisa social de manga
comprida e também branca, chique no último, como se dizia à época. E quando,
então, era escalado como coroinha para ajudar a missa solene de domingo, aí,
sim, o sapato era exibido e reconhecido pelo solado inteiramente de borracha
ranhurada (tratorada, se diz hoje), algo incomum nos tempos em que
se usava reparar os calçados com meia sola e salto Amazonas. Aquele belo
solado, todo cheio de sulcos antiderrapantes, ficava inteiramente exposto pelo
menino ajoelhado, de costas para a nave da capela onde os outros setenta
seminaristas assistiam ao culto. Além de ser bonito, moderno e cobiçado, servia
de alerta para os demais..., podia-se correr mais velozmente e ganhar qualquer
pique-pega, contra os demais que usavam sapatos de solados de couro curtido,
cilindrado, liso e escorregadio. No cascalho ou no piso de cimento que tivesse
alguns grãozinhos de areia..., o tombo na corrida era certo para quem não tinha
o “must” daqueles tempos, o Vulcabrás. Alheio às tendências e exaltação da moda
que aliás, eram até muito comedidas à época, o menino somente via e sentia
essas qualidades competitivas nas corridas. Pequenas coisas, mas num internato,
onde a concorrência era grande, fazia diferença e dava mais confiança à criança
de apenas 12 anos, sozinha, longe de casa, daqueles que sempre defendiam os
menores.
O famoso sapato Vulcabrás -Foto: Internet
Além dos tecidos e
acessórios para a confecção do vestuário, havia ainda que comprar os chamados
aviamentos como linhas de variadas cores, botões e fechos
diversos. Também nisso a cidade era bem servida com o Bazar Tip-Top.
As melhores galochas (alguém sabe o que é isso?) eram encontradas na Casa
Alberto e também na Casa Curi. Por outro lado, havia também as costureiras para
todo tipo de roupa, incluindo as íntimas, tanto masculina como feminina. Sim,
naquele tempo as costureiras faziam roupas íntimas para toda a família, as
famosas cuecas samba canção e também peças femininas como as combinações,
camisolas e outras. A confecção de camisas era comum em casa. Mãe e
uma das irmãs, Mariinha, a mais velha, dominavam a arte do corte e costura tão
valorizada quanto à arte culinária para as chamadas “meninas prendadas”. Saber
e dominar essas artes eram pré-requisitos indispensáveis para as moçoilas,
verdadeiros passaportes para um bom casamento, diziam as ciosas mães à época,
pensando no futuro das filhas. Bem, assim nossa casa se transformou em
verdadeiro ateliê de costura, contando até mesmo com uma costureira
profissional especialmente contratada para a confecção de calças e blazers do
uniforme do futuro seminarista. Dúzias de peças foram confeccionadas e lembro-me,
especialmente, de uma linda camisa xadrez, de cores bem suaves e harmonizadas
com listras vermelho goiaba, verde musgo, azul e branco. Foi sugerida por Dona
Margarida, ex-professora do menino, mãe de outro seminarista, também em Itaúna
havia um ano, Miguel Cesar Pedrotti Massimo. Era esposa do proprietário da loja
Tecidos Paulo Massimo e ali foi comprada boa parte dos tecidos para confecção
de camisas, pijamas e outras peças. Aquela camisa xadrez era linda, a preferida
do menino e aparece em quase todas as fotos de então.
O menino, terceiro em pé na
escadaria à esquerda da primeira foto e
de costas, na segunda foto (primeiro da esquerda, com braço levantado),
comemora o 5º golo da Seleção Brasileira na Copa da Suécia. Campeão mundial de
Futebol - 1958. Mês de frio, alguns trajavam uniforme comum, calça e blazer de
brim caqui. O primeiro, de frente, à direita da primeira foto é seu coleguinha
Miguel Massimo Foto: junho de
1958 - arquivos do Colégio Sant´Ana - Itaúna
Ainda no rol
das lembranças do enxoval, ganhei, com grata surpresa, 60 anos depois, uma das
colchas de lã confeccionadas por minha mãe. Foi presente de minhas irmãs, uma
delas, Mariinha, a costureira de então que confeccionou todas as camisas, pijamas
e tudo mais e a outra, Dilma, foi quem me acompanhou na viagem para o
Seminário. Guardaram-na especialmente para mim, ali no quarto da
fazenda onde nasci e por muito tempo, pois somente agora, recebi o presente.
Que belo e sentimental presente, de valor afetivo incalculável, pois ainda
conserva a etiqueta bordada com minhas iniciais de identificação, tal qual
requerido pelas normas do internato do Seminário. Aquelas colchas de lã tinham
o cheirinho da família e o menino ficava a se lembrar, nas frias noites do
internato, de todo o processo de produção artesanal, cuja maior parte se
passava em casa com sua participação e de toda a família. Assim, aquelas colchas de lã, com cheirinho e gosto de casa, aqueciam mais a alma do que o corpo
Tudo pronto,
enxoval completo e conferido pela lista de encargos deixada pelo missionário
holandês, roupas experimentadas inúmeras vezes, lavadas, passadas à ferro de
brasa pela Nenzica, fiel empregada que nos acompanhava desde os tempos de
criança, quando nos mudamos da fazenda para a cidade em busca de escolas para
as irmãs mais velhas (1948). Tudo dobrado e acondicionado com carinho no enorme
baú e na mala de mão. .
Baú? Sim, também conhecido por “canastra”, semelhante aos baús que guardavam o enxoval das
noivas e foi necessário um bem grande para acondicionar o enxoval
completo, que incluía além das roupas pessoais, lençóis, fronhas, travesseiros,
colchas, toalhas de banho e de rosto, cobertores shorts de banho, calçados e
outros objetos, além do material esportivo que incluía chuteiras, tênis (keds)
meias, sungas, joelheiras, tornozeleiras esportivas e tudo
mais. Esta, aliás, era uma atividade muito comum naqueles anos de
1950, preparar o enxoval para o filho que iria para o internato, pois poucas
eram as cidades que ofereciam educação completa de nível médio. Lavras tinha os
melhores educandários da região, com grande número de alunos
internos no Gammon, Lourdes Aparecida e Kemper, além da própria Esal, hoje
Ufla. Portanto, era comum ver, na cidade o constante transporte desses baús com
os enxovais da garotada que chegava e saía dos internatos dos colégios. Foi
providenciado um baú, novo, com capacidade para 40 kg. Adquiriu-se, também uma mala
de viagem, especialmente para o menino. O Sr Gil
Leiteiro, vizinho e amigo da família e pai de Pedro Júlio de Souza, que já
estava há mais tempo no Seminário, encarregou-se de fazer uma bonita etiqueta
de couro curtido onde escreveu o nome do menino e o endereço do seminário. Tudo
grafado com tinta nanquim e letra impecável. Lembro-me que ele, muito alegre,
aproveitou o baú e nele colocou uns mimos para o filho que também estava no
seminário e ainda perguntou se havia gostado da vistosa etiqueta de couro
curtido, recortada na Selaria Guimarães, do Sr Oswaldo
Guimarães, ali mesmo, bem pertinho, na Rua Melo Viana. Afixou-a no
baú, que já estava todo preparado, com o enxoval cuidadosamente acondicionado e
ele mesmo, o Sr Gil Leiteiro, foi despacha-lo como carga desacompanhada, pela
ferrovia RMV- Rede Mineira de Viação. Dia seguinte à chegada ao Seminário lá
estava o baú. Pedro e Miguel foram supervisionar a arrumação das roupas no
armário de alvenaria, ao lado da cama do imenso dormitório coletivo. Era uma
“cama patente”, de molas, bem estreita e com minúsculo espaço entre elas.
O
baú, ou canastra para o enxoval do
seminarista. 40kg de carga despachado pela ferrovia. Dia seguinte já estava no
destino, o Seminário de Itaúna que se encarregou de retirá-lo no depósito de
carga da estação do trem da Rede Mineira de Viação – RMV.
A mala de viagem dos anos de 1950
era confeccionada em papelão encerado, resistente e protegida por cantoneiras.
Ficava sobre o pequeno armário de
alvenaria, de 1,20m de altura por 0,60m de largura, que delimitava o espaço
entre camas. Permaneciam fechadas, limpas e fiscalizadas periodicamente pelo
padre encarregado.
Foto: Internet
A
partida e a longa viagem
Finalmente, chegou
o dia da partida, naquele mês de fevereiro de 1958. Acabou a euforia do ateliê
de costura e demais preparativos. Tínhamos todos que encarar a hora do adeus.
Foi dura demais para a família, uma realidade que nunca tinha sido
experimentada antes. Morávamos na ampla casa da chácara, de mais de 20
hectares, situada no segundo e último quarteirão da Rua Progresso (início do
cruzamento com a Rua Sabino Lustosa, antiga 15 de Novembro) com belíssima vista
para a majestosa Serra as Bocaina. Havia um extenso pomar, horta, animais
domésticos, matinha nativa e nascente de fonte cristalina. Tudo isto situado a
200 metros da Rua Otacílio Negrão, principal artéria que ligava o quartel do
Batalhão ao centro da cidade e bem próximo à Estação Costa Pinto, de onde partiria o trem. Éramos sete irmãos, os pais e
mais duas empregadas agregadas à família desde muitos anos, antes mesmo de nos
mudamos para a cidade, o que, aliás, ocorrera dez anos antes. No dia da partida
todos estavam em casa além de tios e primos mais chegados. A plataforma da
Estação ferroviária de Costa Pinto parecia menor naquele dia. O campinho de
futebol, que era o pátio da Estação e onde o menino fazia as peladas com sua
bola de capotão (raras naqueles tempos), ficaria um bom tempo sem a algazarra
de todas as tardes, justamente naquele horário de partida do trem conhecido
apenas por Noturno.
O
trem a Maria Fumaça que fazia a linha de Cruzeiro-SP a Belo Horizonte partiadaquela cidade
Casa da chácara, onde morou o menino e a Estação Costa Pinto-
Lavras, na década de 1950. Ao fundo da estação o túnel. Foto: arquivos de Renato Libeck
de origem, diariamente às 10:00 horas e passava pela estação Costa Pinto por volta das 17:30 horas. Chegou no horário naquele dia 10 de fevereiro de 1958, uma
segunda feira. O bichão, era assim que os mineiros costumavam chamar o trem de ferro (a palavra
“trem” servia para nominar qualquer coisa, menos o próprio...), chegou rugindo,
esbaforindo fumaça preta pela chaminé e vapor branco da caldeira aquecida pela
fornalha abastecida com lenha. As toras de madeira, não muito grosas e que eram
atiradas diretamente na fornalha, ficavam acondicionadas no carro reboque,
preto, de metal e que integrava o conjunto da Baldwin Machine, a famosa
locomotiva importada da Filadélfia, estado da Pensilvânia/EUA. Muitos anos mais
tarde, em suas constantes viagens de executivo internacional da área
educacional na Michigan State University, o menino ao sobrevoar as cidades
industriais da Pensilvânia, Scranton, Pittsburgh e Filadélfia, nas rotas
Detroit/Washington e Detroit/Nova York, ficava a observar aqueles lugares cujos
nomes tantas vezes via e lia, com acentuada curiosidade, nas etiquetas dos
fabricantes de máquinas de uso na fazenda e principalmente daqueles “bichões”
que soltavam fogo e fumaça, as locomotivas Baldwin, ali fabricadas. Ao avistar aquelas cidades, berço
da indústria norte americana, um misto de satisfação e dolorida nostalgia
abatia sobre o menino. Satisfação por ali estar trabalhando, sem nunca ter
imaginado que um dia passaria pelos lugares que povoaram sua imaginação de
criança. Mas, a presença daqueles nomes de cidades gravados nas máquinas e na
sua memória, destravavam o gatilho das reminiscências da infância em doída
nostalgia da alma. Ali, na solidão, à bordo de um avião, as lembranças do fundo
de seu inconsciente faziam-no derramar lágrimas silenciosas de pura saudade da
pátria, do berço e dos felizes dias da infância na fazenda ao lado daquelas
máquinas, a Briggs & Stratton (motor estacionário que movimentava a enorme
ensiladeira Libck) e a Baldwin Machine, a famosa barulhenta e esbaforida
Maria-fumaça que passava próximo à sua casa na cidade e um dia o levou para o
Seminário em inesquecível viagem.
Mas, ali na Estação
Costa Pinto, no dia da partida para o Seminário, passada a tensão daquele
barulhão com vapores escapando da caldeira fervente, seguiu-se o corre-corre
para pegar os melhores lugares da primeira classe com suas poltronas estofadas.
Mais que ligeiro o menino subiu as escadas esquivando-se dos poucos e também
apressados passageiros que ali desembarcavam. Acondicionadas as malas no
bagageiro interno, descemos novamente para as despedidas finais com abraços
apertados e muitas lágrimas daqueles que ficavam. No trem, à janela, num dos
oito vagões de passageiros, o menino ouviu o apito final anunciando a partida e
acenou pela última vez para os familiares que ficaram em prantos. Com o ombro
para fora da janela e acenando ainda viu a mãe acenar-lhe e essa foi a última
lembrança que o menino guardou daquele dia, até que seu pai o
puxasse para dentro, diante do iminente perigo do estreito túnel que se
aproximava, a pouco mais de 200 metros após a estação. Passar naquele túnel,
curto, mas escuro e muito estreito, foi uma experiência assustadora para o
menino, pois a turbulência do choque do deslocamento de ar com concentração de
fumaça e fuligem negra e ainda o ensurdecedor barulho, reverberando pelas
paredes, faziam com o trem trepidasse parecendo, estar dentro de uma tempestade
de trovões. Passada aquela surpreendente sensação, o menino caiu na real e
chorou, pois até então não tinha se dado conta da iminente separação. O adeus à
família, mãe, irmãs, tios, primos e principalmente o irmão mais novo,
companheiro de peladas de futebol ali naquele campinho da estação. Quantas
vezes os dois meninos tiveram que recolher a bola e correr das ameaças de
grandões que teimavam em atrapalhar o jogo dos meninos e agora tudo ficaria
para trás. Todo esse turbilhão de emoções abalou o menino. Seu pai e
uma das irmãs, que o acompanhavam na viagem, ficaram mudos, compungidos, mas
logo trataram de consolar o menino, que antes estava alegre com a viagem, agora
se encontrava ali, triste e com lágrimas nos olhos. Nunca mais olhou um trem
sem que lhe viesse à mente aquela dolorosa despedida. Seus apitos noturnos,
ouvidos pela janela do dormitório coletivo do Seminário, sempre lhe despertavam
a triste lembrança da despedida e lágrimas silenciosas corriam na escuridão da
noite solitária, embora rodeado de coleguinhas. Da mesma forma, ainda hoje, os
longos e tristes apitos de navios que partem do porto os levam à profunda
nostalgia, relembrando a despedida do menino que partia para um longo e
demorado período, longe de tudo que conhecia e de todos que lhes eram caros. E
esses "surtos" nostálgicos se manifestavam em maior intensidade nos
portos do exterior, onde além dos apitos, via a bandeira brasileira tremular em
seus mastros. Marcas indeléveis na alma do menino, com lágrimas
incontidas, toda vez que a cena se repetia, principalmente em Nova York, por
onde sempre passava à serviço em longas temporadas. Ainda hoje, quando
assiste cenas semelhantes em filmes, o mesmo sentimento prevalece. Só
mesmo Freud para explicar o quão forte foi aquela ruptura afetiva na criança de
então.

Aquela era a
primeira vez que entrava naquele trem, do qual ouvia sempre os seus apitos de
aproximação ou partida da Estação Costa Pinto e o contemplava, diariamente, da
sacada de sua casa não muito distante dali. Às vezes deixava o jogo de futebol
no campinho de chão batido da própria Estação para se aproximar da plataforma e
espiar o movimento dos passageiros. Era, portanto, um velho conhecido aquele
bichão que cuspia
fogo e fumaça fuliginosa que até
"queimavam" os meninos, quando dele nos aproximávamos, em movimento
ofegante subindo a rampa para chegar à estação, naquele mais de um quilômetro
da linha férrea que fazia divisa com nossa chácara. Por ficarmos muito próximos
à ferrovia, o maquinista ainda dava fortes e estridentes apitos, como a nos
dizer "saiam da frente". Não raras vezes sentíamos uma descarga de
vapor quente, saída da caldeira, fazendo-nos instintivamente recuar dos
trilhos, ainda a tempo de ver a cara de bravo do maquinista. Era, sim, um
velho conhecido aquele trem, mas nunca tivera o privilégio de nele viajar. Por
isso a alegria e o elevado grau de excitação minimizaram o sentimento de
tristeza naquela despedida com apertados abraços e soluços de todos. A mãe e a
irmã mais velha, Mariinha, que participaram mais ativamente nos preparativos do
enxoval do menino, ficaram inconsoláveis, aos prantos, até pelo menos na manhã
do segundo dia, quando retornaram o pai e outra irmã que o acompanharam até o
Seminário. A notícia trazida por eles de que o local, as instalações e os
padres eram muito bons e até se encontraram como os outros dois amiguinhos,
vizinhos da cidade natal do menino, tranquilizaram a família. No trem, o menino
logo se interessou pelo trajeto da ferrovia e
a viagem mais parecia um passeio, repleto de novidades, até porque estava
acompanhado de seu pai e uma de suas irmãs, Dilma. Viajava também no mesmo
vagão o tio Cícero de Castro. Iria para Campos Altos cuidar de sua fazenda de
produção de café. Tudo conduzia e induzia o menino a pensar que estava num
passeio e não em viagem de ida para um longo período de internato longe dali e
de todos. Mal sabia ou imaginava o quão dolorida seria aquele exílio que ele
próprio escolhera em nome de uma vocação religiosa.
As duas cidades,
Lavras e Itaúna ficavam muito distantes, mais de 500 km pela tortuosa ferrovia,
mas tudo era novidade para o menino que, obviamente, ainda não caíra
na realidade do que o esperava. Passar sob o túnel enfumaçado logo após a partida,
a vista da cidade por um ângulo diferente, por trás, no antigo leito da
ferrovia que ligava a estação Costa Pinto à Estação de Lavras. Hoje esse antigo
leito da ferrovia foi transformado em avenida, a Perimetral, onde se situa a
Prefeitura Municipal e o parte do Bairro Centenário. A vista da cidade por
aquele ângulo era totalmente nova, diferente, com a imponente torre da Igreja Matriz, as belas
e altas palmeiras imperiais da Praça Augusto Silva e do Colégio Kemper, tudo
muito diferente, embalado pela velocidade, o barulho característico da
maria-fumaça. Seguiam-se o Seminário Dehonista e o portão da velha ESAL que
naquele exato ano de 1958 completaria seu cinquentenário de fundação. O menino
que queria se tornar padre nem imaginava que seis anos depois ali estaria
matriculado no curso de agronomia. Nunca pensou que, em vez de ser pastor de
almas seria um semeador de sementes e cuidador de rebanhos, mas não rebanhos de
almas e sim na pecuária, pois veio a se tornar um engenheiro agrônomo que
produzia alimentos e professor que cuidava de ensinar essa arte aos estudantes
– a agronomia. Nunca, jamais, naquele dia, imaginou o menino, que alguns anos
depois, passaria milhares de vezes sob aquele portão da cinquentenária Escola
Superior de Agricultura de Lavras - Esal.
Na sequência, o
trem foi esbaforindo fumaça e apitos morro abaixo, tendo à esquerda o estádio
do Gammon, depois o campo de futebol da Associação Atlética Ferroviária e a
primeira parada na Estação
de Lavras. Um último olhar para a extensa rua da
estação, que prosseguia até o alto da cidade e o trem apitou, partindo em
direção a Ribeirão Vermelho. A maior sensação foi passar sobre a histórica
ponte metálica do Rio Grande que estava muito cheio e os pilares e arcos que a
sustentavam pareciam quase submergir nas corredeiras do rio. Ainda foi possível
apreciar aquele bonito e belo cenário daquela longa tarde/noite de verão,
embora o menino se assustasse com o barulhão de ferro muito pesado rodando
sobre os trilhos de ferro, suspensos e quase tocando as águas do
caudaloso rio. Em Perdões já era noite quando ali chegamos. O pai e
a irmã do menino já estavam pensativos, mas ele continuava aceso, excitado com
as novidades que desfilavam pelo caminho. Acompanhado pela irmã, deixou o vagão
da primeira classe e visitou o vagão restaurante onde serviriam o jantar
dali a pouco. Uma longa noite os esperava e o trem seguia contornado morros e
rios passando em mais de duas dezenas de estações. À noite, quando o trem fazia
uma curva mais fechada, era possível ver as chispas de fogo saindo da chaminé da Maria Fumaça, ouvir o vapor
sibilante e os apitos de advertência nos cruzamentos de estradas e chegada às
cidades.

Entre um cochilo e
outro o trem ia parando quase que de meia em meia hora. O traçado da Rede
Mineira de Viação-RMV seguia para o oeste, em direção ao triangulo mineiro, paradoxalmente
em rumo oposto à cidade de Itaúna. Assim, o percurso passava pela cidade de
Formiga, atingia a estação de Garças de Minas, hoje Iguatama, onde muitos
passageiros faziam a baldeação para Campos Altos e demais cidades do triângulo
mineiro. O tio Cícero se despediu de todos e ali desembarcou para fazer a
conexão ou baldeação como se dizia à época. Era 01:00 hora da madrugada, do dia
11 de fevereiro de 1958, como mostrava o relógio da estação. A partir dali, então, a
ferrovia guinava para a direita, em rumo oposto, para o leste, alcançando
Divinópolis e depois a cidade de Itaúna. O percurso
Lavras-Itaúna somava 513 km de distancia, com exatas 16 horas de duração de
viagem à bordo da mesma Maria-Fumaça com seu característico barulho. Pelas
estradas de hoje e inexistentes à época, faz-se a viagem com duas horas de
duração, pela rodovia Fernão Dias, inaugurada dois anos depois daquela primeira
viagem de trem.

E o trem
maria-fumaça prosseguia noite adentro com seu barulhão dizendo no imaginário
das crianças: “vim-da-barra-tô-cansado..., vim-da-barra-tô-cansado”...,
ou então como escreveu o poeta Manuel Bandeira: “café com pão, café com pão,
café com pão...” e nós plagiávamos o poeta acrescentando: café com pão,
manteiga não... café com pão manteiga não... Além das chispas de fogo que
iluminavam a noite escura em verdadeiro espetáculo pirotécnico, lembrando as
noites de São João, o bichão esbaforia e sibilava vapor pelas laterais quando
encontrava uma subida mais forte. Produzia, ainda, um matraquear característico
das rodas dos vagões sobre os trilhos da estrada de ferro. Era um infindável e
ritmado tralalaco - traco..., noite inteira e que acabava por se transformar em
canção de ninar e que induzia ao sono do menino já emocionalmente cansado, com
o pensamento em casa, nos familiares que ficaram para trás.
A noite terminara e o dia amanhecia com os
primeiros albores da aurora. Já se podia distinguir as silhuetas das montanhas
que começavam a se delinear no horizonte. O menino irrequieto colocava a cabeça
pela janela e sentia o frescor da neblina, ou cerração como costumávamos dizer
nas manhãs chuvosas de verão ou nos rigorosos invernos do sul de Minas, quando
nem mesmo os aviões da Nacional conseguiam pousar em Lavras naquelas friorentas
e úmidas manhãs. A partir das seis horas era servido o café da manhã e lá já
estávamos, no vagão restaurante, saboreando um quentinho e gostoso café com
leite e acompanhamento. Não gostava do pão. Era duro, cascudo e mais se parecia
com um pão do dia anterior. Preferia os queijos, biscoitos e frutas.
Por volta das nove da manhã o trem, que parecia ofegante embora os passageiros
estivessem ansiosos para a chegada, passou pela última estação, Santanense e
finalmente chegou às 09:30 horas na Estação de Itaúna, o
destino final daquela longa viagem de mais de mais de dezesseis
horas. Um périplo que ficou para sempre marcado na memória do menino, aquele
constante tralalaco das rodas do trem sobre os trilhos de ferro, o traçado da
ferrovia serpenteando rios, montanhas e pequenas matas ciliares margeando os
córregos e nascentes e cruzando 17 cidades com paradas de vinte minutos e
outras 38 pequenas estações de carga e descarga (nessas “paradas” de cargueiros
os trens de passageiros não paravam).
Estação de Itaúna em estilo
totalmente diferenciado daqueles do sul de Minas. Nesta foto de 2013 o menino ficou admirado com a beleza e estilo
do prédio que, atualmente abriga um museu municipal - Foto do autor
A viagem era uma verdadeira
epopeia noturna, barulhenta, soturna, com pouquíssima e fraca iluminação nas
cidades que, na década de 1950, tinham apenas iluminação própria de baixa
potência e pouca amplitude, cuja energia era gerada em pequenas usinas
hidrelétricas, como em Lavras, abastecida pela sua minúscula Usina do Cervo
e também pela geração própria da Fábrica Velha (Cia Fabril Mineira,
mas, esta possuía energia elétrica apenas para a sua indústria
de tecelagem). A distância entre Itaúna e Lavras diminuiu de 500
para cerca de 200 km. Bem, mas nenhuma das duas mudou de lugar..., como diria
Odorico Paraguaçu, ambas permanecem no mesmo local. Apenas os meios de
transporte e as vias mudaram. Com a moderna rodovia Fernão Dias e a
interligação desta com as respectivas cidades, faz-se o trajeto em apenas duas
horas, de automóvel.
A
chegada ao Seminário e a dura realidade
sem a família
Desembarcamos em
Itaúna e o menino curioso observava, o tempo todo, a cidade que iria
acolhê-lo. Seguimos de taxi para o Grande Hotel, bem próximo à estação
ferroviária e localizado no centro da cidade, em rua movimentada com casas
comerciais. O hotel, um pouco antigo, se parecia com o da cidade de Varginha
onde se hospedara oito anos antes para tratar de um grave acidente que lesou e
cegou para sempre o olho direito do menino. As chaves do hotel eram presas a
uma esfera de madeira, do tamanho de uma laranja. Curioso, o menino indagou ao
pai a razão daquela bola de madeira atrelada à chave do apartamento. Calmamente
explicou que aquela volumosa bola era para que ninguém a esquecesse no bolso e
viajasse, deixando assim o hotel sem a chave. Ao se ausentar do
hotel a chave teria que ser depositada no lugar adequado na
recepção, onde havia no balcão um buraco redondo, semelhante a uma caçapa de
mesa de bilhar, tarefa que o menino adorava fazer. Este tipo de
“cabo” para a chave parece estranho, muito estranho, para quem hoje está
acostumado a cartões magnéticos ou senhas eletrônicas, digitais ou biométricas,
para abrir a porta em hotéis. Pois bem, descansados, após o banho e almoço,
dirigimo-nos para o Seminário, onde fomos recebidos pelo diretor geral, Padre Adriano
Turckenburg. A acolhida foi calorosa, com direito a conhecer todas as
instalações do seminário, de modo a deixar o menino e os pais mais tranquilos.

Dura, muito dura
mesmo, foi a despedida do pai e da irmã, que voltaram para casa no mesmo dia,
depois de breve permanência nas dependências do seminário. Aquele enorme portão
lateral, que aparece nas fotos, ficou na memória do menino para sempre. Foi por
ali que seu pai e a irmã saíram e dele se despediram, de volta para a casa. Bem
no meio da deserta rua, defronte
ao portão, agarrado à mão do diretor, o menino
“desabou” quando eles dobraram a esquina e lhe acenaram um último adeus,
dolorido na alma. Sua vontade era largar a mão amiga e correr atrás do pai e da
irmã e com eles voltar para a casa. Só Deus haveria de consolar aquele
coraçãozinho angustiado pela despedida e o impacto do ambiente totalmente
desconhecido e distante de sua casa. Cortar bruscamente os laços familiares do
menino produziu um grande impacto emocional, mas, com certeza reforçou e
moldou-lhe um caráter mais forte e maleável às adversidades da vida. Naquele
resto de tarde os padres procuraram consolar o menino, levando-o para o salão
de jogos, pois as aulas não tinham ainda começado e os seminaristas
aproveitavam os últimos dias de
férias antes do inicio do ano letivo. Sempre acompanhado pelo veterano
destacado para dar-lhe assistência, o franzino menino Pedro Júlio de Souza,
justamente o filho do Sr Gil Leiteiro, vizinho e amigo da família, que ajudou
no despacho da bagagem, o baú abarrotado de roupas. Mesmo com tantas novidades
e mais de 80 meninos ali presentes, a primeira noite no Seminário foi terrível.
O menino não conseguia conciliar o sono, apesar do cansaço. Apagadas as luzes
do dormitório, alguns minutos após o diretor geral, Pe. Adriano, o mesmo que
havia nos recebido no início da tarde, aproximou-se da cabeceira da cama,
perguntou se estava muito frio, ajeitou as pontas do virol e do cobertor,
enfiando-as um pouquinho sob o colchão de modo que não caíssem ao chão durante
a noite e mantivessem o menino abrigado. Assim é melhor, o cobertor não cai
durante o sono, completou o padre. O menino engoliu o choro, ainda que
silencioso e sem ser notado e até achou interessante manter as pontas laterais
do virol e cobertor presas, com folga, sob o colchão, de modo que não
escorregassem e caíssem no chão. A cama patente, de mola e que
às vezes rangia e ainda formava um colo no meio dos seus míseros 70 cm de
largura, como se fosse um rego escavado.
A primeira tarefa a executar, ali à
chegada, foi arrumar as roupas no armário de alvenaria rente à cabeceira e que
dividia o espaço entre camas. Ainda que tivesse a “assessoria” do veterano
Pedro e também a presença de outro lavrense, Miguel, ambos já conhecidos e
vizinhos na cidade natal, o menino esteve muito triste na chegada e nos
primeiros dias subsequentes. Sua doída nostalgia só
começou a diminuir com a chegada das aulas e as pesadas lições de Latim, Canto
Orfeônico e Música, nas quais não teve formação escolar e assim teve que tomar
aulas de reforço, principalmente de música, com leituras de partituras, que
nunca havia aprendido. Agora, para um seminarista, era imprescindível seu
completo domínio para interpretação de musica sacra e cânticos gregorianos.
Tomou gosto por esse tipo de interpretação musical e assim, espaireceu um pouco
a nostalgia de casa, logo nos primeiros dias de internato. As atividades
recreativas com jogos de dama, xadrez, ping-pong (tênis de mesa) e ainda os
esportes como a grande novidade do espirobol, times de futebol bem organizados
e com treinadores especializados (padres holandeses) também muito contribuíram
para “desviar” o banzo e entreter os meninos, especialmente quem trouxe
uniformes novinhos comprados na Casa Curi, de Lavras. Da mesma forma as
atividades religiosas e culturais como a participação no coral de setenta
vozes, interpretando belíssimos cânticos gregorianos e musica sacras dos
clássicos de Wagner, Bach, Haendel e outros, contribuíram para fixar a atenção
e o interesse do menino que aos poucos foi se integrando à rotina do Seminário
que, aliás, será tratada em outro capítulo.
A
colcha de lã - uma história à parte
Ganhar, depois de
60 anos do evento, a mesma colcha de lã usada no Seminário e que permaneceu
guardada no mesmo móvel que pertenceu à sua mãe e no mesmo quarto da fazenda
onde o menino seminarista nasceu..., ah, foi emocionante demais. Valor afetivo
incalculável, pois o menino sempre ajudara a mãe a preparar a lã para a sua
confecção na tecelagem. E essa participação tinha início desde o
pastoreio das ovelhas no campo, juntamente com os camaradas da fazenda,
tangendo-as para o curral da casa da Samanda, a avó paterna, portuguesa de
origem, olhos azuis, penetrantes, meiga com os netinhos. Ajuntado o rebanho no
imenso curral, era hora de apartar as ovelhas para o procedimento da tosquia,
serviço delicado de modo a não ferir os animais com a tesoura e sempre supervisionado
por nossa mãe. Às vezes ela própria o fazia e engambelava os irrequietos
meninos deixando-os ficar afagando a cabeça e as enormes orelhas das dóceis
ovelhas que, ao terminar a tosquia, levantavam-se meio desequilibradas como se
estivessem pesando alguns quilos a menos na pele, pois efetivamente estavam menos
volumosas. Às vezes preferíamos pegar um carneirinho no colo, pequenino, macio
como uma bolinha de lã, ali ao lado da ovelha-mãe que estava sendo tosquiada. Ver os
cordeirinhos, novinhos, mamarem com sofreguidão nas tetas cheias das
mães-ovelhas era ainda mais interessante e encantador para as crianças.
Mas, o
processo de preparação da lã seguia com a lavagem, secagem estendida no
gramado, desfiação, passagem pela carda, tornando-a
uma pluma levíssima que seguia direto para as mãos de nossa mãe, a única
especialista em proceder a fiação na roda de fiar, também chamada de
roca, tocada a pedal. Estando a bobina já cheia, os fios eram
enrolados em forma de meadas e daí seguiam para o processo de tingimento com
fervura em enormes tachas de cobre. Muitas vezes as tintas eram artesanais
preparadas com ervas do campo que nós, os meninos e os camaradas da fazenda,
colhíamos especialmente para esse fim, ou então com as famosas tinturas Guarany
compradas na loja do Jorge
Záckia, na esquina das ruas Francisco Sales e
Chagas Dória. Tingidas e secas, as meadas eram colocadas nas dobradeiras e dali
passavam à fase seguinte, a transformação em novelos multicoloridos.
Encerrava-se assim o processo artesanal doméstico de preparação dos fios de lã
e só então os novelos eram entregues aos teares, lá pelas bandas da Faisqueira,
no caminho da vizinha cidade de Itumirim. Somente nessa última fase, de entrega
às tecelãs, os meninos não tinham acesso. Nunca pudemos acompanhar os camaradas
naquela “viagem” à cavalo e nem imaginávamos como seria um tear, que tecia as
nossas colchas, de cujo processo de produção participávamos inteiramente até a
entrega das linhas já tingidas que iam direto para o tear.

Ah..., aquelas
colchas de lã que a mãe acondicionara no baú do menino, fizeram mais que
aquece-lo nas geladas noites de inverno no Seminário de Itaúna. Eram lembranças
que confortavam o coração do menino, pois elas tinham o “cheiro” de família, da
saudosa mãe, da casa da vó, dos galopes a cavalo nos pastos para ajuntar e
tanger o rebanho, os carneirinhos branquinhos, sedosos e macios no colo, a roda
de fiar que, na ausência dos adultos a fazíamos girar a 1.000 km/h e às vezes
até ferindo a própria mão, sem que adulto nenhum visse e passasse um sermão com
castigo e tudo. Ah..., até mesmo as lembranças da alegria da mãe ao empacotar
os novelos de lã, de várias cores, ensacá-los e entregar ao camarada que seguia
para a tecelagem. Essa tarefa final era o maior prazer, o ponto culminante de
toda aquela trabalheira que envolvia a todos e vários outros empregados da
fazenda. Uma tradição milenar, desde os tempos bíblicos e que o menino conhecia
muito bem cada fase do processo de produção daquela colcha, quentinha, ali na
solidão e frio gelado do internato. E assim, o menino de 12 anos se desmanchava
em lágrimas, de saudade de tudo e de todos e em pouco tempo passou a se
perguntar, por que isso? Por que estou aqui a sofrer, tão longe do lar? Quão
valiosa é a liberdade de se desfrutar do aconchego de sua casa, do lar, da
família. Era uma alegria que só conhece quem possui o mundo. E ali, em casa,
tínhamos o mundo, pois tudo era nosso e antes nem se apercebia disso. Era o
nosso reinado! Mas, tudo que é feito com amor dura para sempre e aquelas colchas
simbolizavam esse amor e união da família. Certamente essa colcha, hoje
guardada como lembrança, mesmo depois de mais de sessenta anos daquelas noites
frias no distante Seminário, ainda deve ter resquícios do DNA das lágrimas
derramadas nas solitárias e longas noites do internato. Hoje, aquela colcha tem cheiro de
infância feliz, em casa ou até mesmo no internato,
onde aprendeu às duras penas valorizar o berço, a formação recebida dos pais e
também dos mestres. Assim, como muito bem se expressou o poeta Caio Fernando de
Abreu:
“Guardo as memórias
que me trazem riso, as pessoas que tocaram a minha alma e que, de alguma forma,
me mudaram para melhor. Guardo também a infância toda tingida de giz. Tinha
jeito de arco-íris a minha”.
E ainda acrescento: o arco íris cantado
em linda metáfora pelo poeta, também está bem presente nas vivas cores das colchas que um dia ajudei a confeccionar e depois me aqueceram no
inverno naquele distante internato. Elas despertaram o amor em todas as
lembranças das memórias do menino. Hoje, mais de meio século depois,
continuam a aquecer a minha alma com as doces lembranças da infância.

No rol das
lembranças da infância tingida de giz, o menino guarda ainda, duas lembranças
afetivas dos tempos de Seminário. A primeira, um painel decorativo que enfeita seu
escritório em casa, com belíssima foto presenteada pelo fotógrafo profissional
e professor da Universidade Federal de Viçosa, Chico do Vale, representando a
locomotiva Baldwin, esbaforindo fumaceira pela chaminé. A outra, um Moinho holandês, da terra natal dos padres do Seminário, confeccionado
em madeira pelo próprio menino, nas horas recreativas do internato. Foram horas
e horas de trabalho manual, lixar a madeira de compensado, riscar o molde com
papel carbono azul, perfurar pequenos buracos nos desenhos das peças na madeira
e ali enfiar a fina lâmina da serra tico-tico em arco, apertar firmemente o
parafuso do arco (tarefa para a qual os adultos nos ajudavam, pois meninos não
tinham força suficiente para pressionar o arco de serra, de modo a deixar a
lâmina totalmente tensionada, como uma corda de violão afinado). Muitas vezes
tivemos que repetir o trabalho de confecção das peças danificadas durante seus
recortes. Mas, finalmente chegamos a ultima etapa do trabalho, após a montagem
do moinho, pelos encaixes, os acabamentos em verniz em duas demãos. Verdadeira
obra de arte que o menino fez para presentear sua querida e guerreira mãe.
Surpreendentemente ela, o avô e a irmã mais velha, Mariinha, que confeccionara
suas camisas, visitaram o menino depois de apenas dois meses ali no internato. Foi
a maior surpresa para o saudoso menino. Era o dia de seu aniversário. Presente
melhor não haveria! Levaram um estoque de queijos e goiabada, fresquinha,
fabricada em casa, pouco antes, com as últimas goiabas da safra. Muitos
coleguinhas se fartaram com tanto doce e queijos dos melhores laticínios de
Minas, os de Lavras.
Minha irmã contava
que naquele mês de abril de 1958 a rodovia Fernão Dias ainda estava em
construção e ficaram retidos, no luxuoso automóvel Ford Mercury, ali na serra
de Itaguara, pois tiveram que esperar o bombardeio das rochas daquela serra
para abrir espaço nas perigosas pirambeiras da região. Por isso, conta ela, a
viagem se atrasou e perderam o almoço com o menino. Mas, fui compensado, pois
naquele dia especial de aniversário e visita importante, fui liberado para
ficar no hotel com a família e ali o menino também pernoitou feliz da vida. Não
foi possível entregar o moinho holandês a ela naquele dia, pois ainda estava
iniciando os trabalhos com os moldes. Mas, quando o baú de roupas e pertences
foi “repatriado”, lá estava também o belo moinho holandês, bem empacotado,
protegido e intacto, tal qual o guardava no pequeno armário da cabeceira de sua
cama ali no dormitório coletivo do Seminário. Por isso, ainda hoje, a cada vez
que contemplo aquele lindo moinho holandês, doces reminiscências afloram em
minha mente. O maior legado que recebi dessa experiência num distante
internato, foi sem dúvida reconhecer e valorizar o amor à família, o berço de
sua formação.
A vida foi justa
comigo, aquele tempo no Seminário foram dias de perseverança e muita solidão,
mas tudo que é plantado no coração jamais se perderá. Permanece ali para
sempre. As fotos de minha infância, em casa ou no Seminário, que ilustram este
texto, são em preto e branco, e em algumas o menino até aparece com semblante
triste, de saudade, mas, as lembranças são coloridas e plagiando o poeta,
também têm as cores dos arco-íris, bem coloridas...., tais quais as colchas de
cores multivariegadas que guardo em casa, como recordação do amor em família
desde os tempos daquele menino de 12 anos que um dia pensou em ser pastor de
ovelhas do Senhor. Não foi, mas pastoreou as ovelhas de lã, de sua mãe e mais
tarde tornou-se agrônomo que em vez de alimentar almas alimenta o corpo. E a
alegria da alma se manifestou até mesmo na visita ao Seminário, 55 anos depois.
Neste dia, ao despedir-se do diretor do atual Colégio Sant´Ana, Prof. Marcinho, o menino não chorou como
naquele dia de sua chegada em fevereiro de 1958. Ao contrário, ambos
estavam muito alegres, o diretor por receber um
ex-aluno que demonstrou carinho pela instituição e o menino por ter recordado
os ensinamentos, o legado que dali ganhou e o carrega para sempre na alma.

Em
tudo dai Graças ao Senhor! Amém.
Brasília,
31 de julho de 2020
Paulo
das Lavras
P.S – Se o leitor tiver
interesse em conhecer um pouco mais sobre o algodão e a criação de carneiros para
produção de lã e fios, a arte milenar da tecelagem artesanal que foi levada
para Lavras, pelos colonizadores
portugueses que fundaram a cidade em 1720, acesse o link: