terça-feira, 31 de maio de 2022

Preconceito etário ou choque de gerações?

             Nem preconceito, nem choque. Professor desde os dezesseis anos, aprendi a conviver com alunos de 15 a 70 anos. Sou da geração baby- boomer, aquela nascida entre 1945 e 64, ou seja a geração, do período do pós-guerra, quando a humanidade se deparou com grandes avanços tecnológicos, mudanças políticas e viu o homem ir a lua, presenciou o início das lutas pelos direitos humanos e a liberação da mulher (Twiggi de minissaia e outras ativistas como Betty Friedan que queimou o sutiã em praça pública). Foi a época da explosão demográfica do pós guerra, com todas as mudanças pelas quais o mundo passou, incluindo até mesmo o surgimento de novos estilos musicais como o Rock´n´roll, Twist. Ah... suspiram os mais velhos..., quem não viu, vibrou, dançou em festas abrilhantadas pela turma da Jovem Guarda? Wanderlea, Vanderley Cardoso, Carlos Gonzaga, Roberto Carlos e tantos outros em shows na cidade de Lavras? Para quem não sabe, Roberto Carlos, em início de carreira, no ano de 1962, apresentou-se num pequeno circo instalado na Praça Santo Antônio, ali na minha cidade natal, Lavras. Alegria geral da meninada adolescente empolgada com a Jovem Guarda do yeh, yeh, yeh .  Bem depois dessa turma do pós-guerra, cujos princípios focavam no intenso trabalho em busca da prosperidade e valorização da família com costumes tradicionais e elevada religiosidade, chegou a nova geração, a Geração X

Acostumei-me a trabalhar com os jovens e isto levou-me a absorver os  seus hábitos e jeito de encarar a realidade. Conectar-se à diversidade de assuntos dos jovens e perceber seus ideais e então orientá-los para a vida profissional, mais que o ensino das ciências, era um desafio ao qual me impus. Costumava dizer a eles, meus alunos, que o mais inteligente era aquele sabia fazer perguntas desafiadoras ou até mesmo inusitadas diante de um problema e não aqueles que tinham a resposta da múltipla escolha do certo, errado, não sei. Ora, se já havia resposta certa, alguém já havia se debruçado na questão e encontrado a solução. Se já existe resposta certa, para que, então, uma empresa iria querer um profissional medíocre que decora as respostas? Não, o mundo corporativo vai atrás de talentos e os talentosos não se contentam apenas com a decoreba do certo, errado, não sei. Os talentosos são curiosos, exploram o desconhecido em busca de soluções, inovadoras, para o problema da empresa que está inserida no mundo corporativo de grande e acirrada competitividade. Assim, sempre consegui acompanhar a agitação dos jovens e estar à frente e junto a eles. Nunca apliquei uma prova de múltipla escolha com o famigerado certo, errado, não sei. Sempre foram estudos de casos, com consulta à bibliografia, internet e outros meios, com resolução individual ou em grupos e ainda com orientação do professor. Trabalhoso? Sim, demais, ler, corrigir, ouvir explanações em grupos...! Mas, valia a pena, pois estávamos lidando com jovens ávidos pelo saber e ansiosos por ingressar no competitivo mercado de trabalho, hoje mais voltado para o empreendedorismo. Todo educador sabe que devemos formar profissionais de  nível superior para serem “empregados” e sim empreendedores. Antigamente, até os anos de 1970, os cursos de graduação primavam em formar “empregados”, principalmente para o serviço público. Era comum terminar a graduação e o recém formado já ter o emprego garantido no serviço público como no caso das ciências agrárias, na EMATER, M. da Agricultura, Secretarias estaduais e municipais de fomento e pesquisas agrícolas. Hoje, ao contrário, impera o agronegócio com avançadas tecnologias e estudos de mercados internos e externos, bem apropriados às gerações  Z e Alpha que lidam com a Agricultura 4. 0 e suas sofisticadas ferramentas de otimização integrada da produção e gestão agrícola em diferentes estágios, com a precisão de controles remotos, monitorados por satélites, drones, softwares e outros dispositivos, como também forma de se trabalhar e gerenciar tudo à distância, no conforto de seu home-office.  Assim, não há por que se falar em conflitos de gerações, sejam elas X , Y,Z ou Alpha. Na minha experiência de mais de 60 (sim, sessenta) anos de magistério posso afirmar que todo profissional, ou mesmo quem não se adaptar às novas exigências corporativas está fadado ao esquecimento ou a mediocridade. O que  viria primeiro, o esquecimento ou a mediocridade?  Não sei, penso que caminham juntos. Minha adaptação às diversas gerações aconteceu automaticamente, com o convívio diário em sala de aula e foi fantástica pois vivia e respirava o ar e as inquietações dos jovens que são ágeis, rápidos. A diferença era que, em sendo mais velho e experiente, sentia-me na obrigação de incentiva-los a desenvolver sua próprias capacidades intelectuais, sintonizando-os com os problemas atuais e buscar soluções criativas, empreendedoras como agentes ativos dessa mudança que está acontecendo a cada dia. 


terça-feira, 24 de maio de 2022

Oh... Carol, o show de Frei Albino Aresi em Lavras e a Santa

 

          Frei Albino Aresi, fazia enorme sucesso desde os anos de 1960 até a sua morte em 1988. Pertencia à Ordem dos Franciscanos Menores. Era formado em Filosofia, Teologia e Psicanálise, com especialização em Psicologia Educacional, Hipnologia, Neurologia e Parapsicologia e foi a Lavras para um show de hipnose. Recentemente um amigo dos tempos de colégio enviou-me pelas redes sociais um link do Youtube, que se encontra ao final desta crônica, com a famosíssima musica de rock´n´roll que foi cantada à exaustão nos anos de 1960. Perguntava-me, o amigo, se me lembrava do show de Frei Albino Aresi e de minha tosca performance cantando aquela música em inglês. Pronto..., ao ouvi-la depois de mais de sessenta anos destravou o gatilho do subconsciente e a memória cintilante despejou as imagens da época.  O Salão Paroquial, anexo à igreja matriz, ficou lotado. Eu estava lá e fui escolhido, juntamente com outros meninos das primeiras fileiras, como cobaias para a sessão demonstrativa de hipnose do frei Aresi. Subimos ao palco e o hipnotizador fez miséria com os meninos. Mandou-nos tirar a camisa e tomar banho simulado de chuveiro, escovar dentes e pentear o cabelo diante de um espelho ilusório (naqueles tempos as mães não deixavam os meninos saírem de casa sem lenço e pente no bolso de trás da calça).  Em determinado momento encarou-me a uns dois palmos de distância. Seus olhos azuis brilhavam e embaralhavam a minha mente. Fez um gesto com as mãos como se me puxasse apenas pelo vácuo. Tombei para frente caindo duro como um poste e ele amparou-me antes que fosse ao chão. "Ressuscitou-me” e em seguida fez-nos, a todos os meninos que estavam no palco, ver N.S. Aparecida iluminada à porta de entrada do salão. Pura ilusão que, aliás, não vi.

Frei Aresi percebeu minha resistência em confirmar a suposta visão da santa e então dirigiu-se a mim, fixou-me com seu forte olhar e com gestos fez-me flutuar para cima e para baixo. Senti, estonteado, o subir e descer com a leve pressão de suas mãos sobre minha cabeça. Ainda que fosse pequena a elevação, de fato a senti e fiquei desestabilizado por instantes. Convencido que tinha vencido a resistência do menino, transformou-me no cantor mais pop da ocasião, o norte-americano Neil Sedaka e ordenou que eu cantasse seu sucesso do momento: “Oh Carol”. Esta música era o maior hit da história do rock em todo o mundo. Ocupava os primeiros
lugares na Radio Cultura de Lavras e do país. TV era ainda muito rara e por isso nem sabíamos como era o tal cantor Neil Sedaka. Éramos todos louquinhos pelo rock´n´roll, especialmente os de Elvis Presley, Paul Anka, The Platters e outros. Fui aplaudido pela "performance", cantando a musica inteira, em inglês e no dia seguinte, no colégio, todo mundo queria saber como era ser hipnotizado pelo famoso Frei Albino Aresi. Até mesmo o padre Elói Dorvalino Kock, professor de português, se interessou e deixou o assunto correr em sala de aula. E lá se vão 62 anos.

Pura nostalgia, e como era difícil entender o inglês naqueles tempos sem internet, youtube e tantas facilidades de hoje. Devido a essas dificuldades, havia uma frase que nunca entendi corretamente na letra da música, até que um dia, 15 anos depois, hospedado num hotel no Rio de Janeiro, o sistema de som ambiente do restaurante tocou a famosa Oh Carol, no original. Cutuquei o gringo, de Wooster/Ohio, que me acompanhava e disse-lhe em inglês: preste atenção neste trecho e soletre a frase para mim.   E ele repetiu o trecho da letra: “ no matter what to do... “. Quero ver você escutar a musica pelo link abaixo e tentar entender a pronuncia daquele trecho... Difícil mesmo!

“… I will always want you for my sweet heart

No matter what you do

Oh! Carol

I'm so in love with you

 

 Brasília, 24 de maio de 2022

Paulo das Lavras  

https://www.letras.mus.br/neil-sedaka/75790/#radio:neil-sedaka


 
 Frei Albino Aresi, psicólogo famoso desde os anos de 1960


 Jerry Haltermann, da Ohio State University, que nos assessorava no Ministério da Educação (o segundo,  da direita para a esquerda, a meu lado, o primeiro), captou a pronúncia enrolada de Neil Sedaka. No chão, ao centro a enorme pedra bruta de ágata que ganhou em Cuiabá.

Foto do autor: 1975, na Universidade Federal do Mato Grosso

 





sábado, 30 de abril de 2022

Medo da saudade..., a fome da alma

Nesses últimos anos tenho tido um pouco de medo da saudade, especialmente agora em época de pandemia, pois confinados pela quarentena não podemos viajar para matar a saudade. Quando a saudade bate à porta a alma se recolhe e roda o filme na memória. A saudade, diz o poeta e filósofo Rubem Alves, é “um buraco dolorido na alma, a presença de uma ausência. A gente sabe que alguma coisa está faltando. Um pedaço nos foi arrancado. Tudo fica ruim. A saudade fica como uma aura que nos rodeia. Por onde quer que a gente vá, ela vai também. Tudo nos faz lembrar a pessoa querida, nossas coisas e o passado. Tudo que é bonito fica triste, pois o bonito sem a pessoa amada é sempre triste. Aí, então, a gente aprende o que significa amar: esse desejo pelo reencontro que trará a alegria de volta. A saudade se parece muito com a fome. A fome também é um vazio. O corpo sabe que alguma coisa está faltando. A fome é saudade do corpo. A saudade é a fome da alma”.

 Em outras épocas combatíamos a saudade com a promessa de qualquer dia ir ali para revisitar o local, a pessoa, o passado. Hoje, confinados, lamentamos não poder dar o troco na saudade que teima em nos provocar. É verdade que no passado tudo era diferente, tudo ainda estava por vir. A gente contava os anos pela frente, o futuro do que será, ou seria a vida da gente. Mas, a saudade e a solidão, são apenas companheiras de viagem e ela, a saudade, em vez de provocar medo pode se transformar em fonte de cura que faz a vida valer a pena. E esse tipo de saudade não passa nunca, pois sempre há algo ou alguém, dos quais estamos sentindo falta e constantemente passeiam pelos nossos pensamentos, registrados, gravados para sempre na memória cintilante. Embora seja reconfortadora para a alma, a saudade quase sempre dói e dói muito. Assim acontece frequentemente quando passo de avião a dez mil metros de altura sobre a cidade natal, na rota Brasília/Rio e a vejo aninhada entre a Serra da Bocaina e o Rio Grande. Acontece algo estranho. A alma mergulha em profundas reminiscências e aqueles quinze ou vinte minutos finais do voo, para a chegada ao aeroporto do Rio de Janeiro, passam num piscar de olhos, tal a intensidade da imersão da mente que destrava o subconsciente e faz rolar um longo filme das melhores e saudosas recordações da infância e juventude ali vividas. Interessante notar que quanto maior a distância no tempo e espaço – vivo a 1.000 km e há 47 anos distantes da terra natal – maior o sentimento de se reviver todo o passado que se descortina ali, na sua mente, destravado e desencadeado que foi com a visão real do local onde se viveu. Mas, esse dourado exílio em distantes terras dá ferroadas implacáveis, com doloridas reminiscências que somente são aplacadas com as lambidas no doce da vida. E há, por ventura, melhor “doce” do que rever a terra natal?

Parece que a saudade é viciada, tem especial apreço nas viagens, quando distante e só nos encontramos, ela dispara sua varinha mágica a nos ferir.  Quando nos encontramos em viagens, principalmente naquelas mais demoradas pelos longínquos países do mundo, as ferroadas da saudade são mais intensas e doloridas. Lembro-me que, certa vez, não consegui conter as lágrimas ao ouvir os apitos de um navio zarpando do porto de Nova York, com a bandeira brasileira tremulando ao vento. Pedi ao motorista que parasse o carro e sozinho fiquei ali a contemplar, extasiado, a cena como se fosse a oitava maravilha do mundo. Foi um verdadeiro ataque de banzo, nostalgia, que é a saudade dolorida da pátria. Compreensível, “rever em filme na mente” e imaginar ali, diante daquele símbolo nacional, a pátria amada, a família, os amigos, os lugares onde vivi em plena harmonia com a felicidade na alma. Por isso jamais me envergonharia daquelas lágrimas solitárias diante dos sonoros e tristes apitos do navio e principalmente o tremular do auriverde pendão que, diante do qual e por tantas vezes, nos perfilamos e cantamos o Hino Nacional. Infeliz quem vive sem saudade, ensina-nos o poeta Bastos Tigre em seu antológico poema:

Infeliz de quem vive sem saudade,
Do agridoce pungir alheio às penas,
Sem lembranças de amor e de amizade,
Hoje vivendo o dia de hoje, apenas.

Triste de ti, ancião, que te condenas
A mole insipidez da ancianidade
E não revives na memória as cenas
De prazer e de dor da mocidade!

Ter saudade é viver passadas vidas,
Percorrendo paragens preferidas,
Ouvindo vozes que se têm de cor.

Sonha-se… E em sonho, como por encanto,
A dor que nos doeu já não dói tanto,
Gozo que foi é gozo inda maior.

 A saudade é o tema preferido dos poetas. Caio Fernando de Abreu escreveu magistralmente que as suas saudades da infância eram todas tingidas de giz e lembravam as cores do arco-íris. A saudade guarda as memórias que trazem riso, as pessoas que tocaram a nossa alma e que, de alguma forma, nos mudaram para melhor. Clarice Lispector romantizou a saudade e creio ter sido a que mais completamente a descreveu. Tem saudade de tudo que marcou a vida. Quando vê retratos, quando sente cheiros, quando escuta uma voz, Tem a saudade dos amigos que nunca mais viu, de pessoas com quem não mais falou ou cruzou, das coisas que viveu e das que deixou passar sem curtir na totalidade.

Contrariando o título da crônica, posso afirmar que não tenho medo da saudade. Dizem que ela mata..., não sei, mas que dói, dói! Mas é uma dor gostosa. Ela é a herança dos que abriram o coração para amar. Ela é ao mesmo tempo que dor, sadia, um doce, cura a alma. Sentir saudades é sinal de que estamos vivos. Viva a saudade, boa, gostosa, que nos faz viver, reviver! E hoje se encerra o mês de abril. Lá vem Maio, o mês das flores no hemisfério norte, a alegria do despertar da vida nas flores que produzem as sementes que germinam a vida. Vida colorida como as cores do arco-íris que enfeitava nossa infância ainda viva na alma. Vida, como nos trazem a saudade e a alegria das flores que nos fazem eternamente meninos. A saudade nada mais é do que o amor que fica na nossa alma, ávida pela Vida. Viva a saudade gostosa, o amor pela Vida!

Brasília, 30 de abril de 2022

Paulo (menino) das Lavras 


  Crianças livres, felizes... , criatividade não falta. Infância colorida de aventuras. 

Foto do autor – 1981 


 
A minha infância foi colorida, tinha as cores do arco-íris, disse o poeta. Tão colorida como o trator dos anos de 1920, que o netinho adorou... Pura saudade, doce da alma. 
Foto do autor – 2013 (trator Fordson- Museu, UFLA)


 A infância do menino (primeiro à esquerda, jogo de espirobol) que passou um ano 
no internato, num Seminário da distante cidade de Itaúna-MG  
Foto do autor – 1958- Itaúna/MG

 



 
A cidade de Lavras, quando vista de cima, a 10 mil metros de altura, despertava as melhores reminiscências da doce infância e juventude ali vividas. 
Foto: coleção Renato Libeck


 

 
Flores (congea tomentosa) que alegram a vida e produzem as sementes que germinam a vida. 
Foto do autor – chácara, Brasília 2005 


 
Vida colorida, aqui e no Canadá com sua feira exposição de flores no mês de maio, 
 em plena primavera no hemisfério norte. As flores são bálsamo para a alma, sobretudo quando atacava a saudade da Pátria, naqueles longos períodos de ausência em missões de trabalho. Ali estou, de mãos nos bolsos, a contemplara essa beleza no hemisfério norte
Foto do autor – Otawa, 1986


 
Flores que alimentam a alma e produzem frutos que alimentam o corpo 
Foto do autor- 1978, produção de café em Luminárias-MG

 











 


 

quinta-feira, 31 de março de 2022

As lavadeiras do córrego Mata-cabrito

Naquela noite procurei o Tatá Carroceiro para contratá-lo para algumas viagens entre a igreja do Rosário e o córrego Mata-cabrito. Perguntou-me se era carga muito pesada, talvez para colocar mais um burro de tração, além dos três que sempre puxavam a carroça bem grande. Não, informei que seriam apenas umas três ou quatro bacias de roupa de uma pobre lavadeira que já morava ali desde os anos de 1945. Iria receber visitas que viriam de bem longe e queria tudo limpinho. Além disso, pegava roupa de duas madames chiques para lavar, todas as semanas. Disse-lhe, ainda, que ela já estava cansadinha e não aguentava mais carregar tanto peso pelo morro que, aliás, está desbarrancando com a chuvarada de verão e levando até casas e carroças. Assim, era preferível contar com transporte seguro até a fonte, onde se reuniam em grupo de umas dez, com três vezes mais o número de crianças, filhos, netos, sobrinhos que não tendo onde ficar acompanhavam as mães e tias. Quase sempre levavam umas varadas nas canelas, pois teimavam em sujar a água logo acima com seus mergulhos e pedras atiradas a todo instante. Crianças adoram jogar pedras na água de córregos e lagoas para admirarem as ondas de círculos concêntricos que chegavam até a outra margem. Vergões nas canelas e bumbuns não faltavam em meio à gritaria que mais parecia um acampamento de ciganos com fogões de pedra, à lenha, improvisados para “quentá a comida”.

Tratei o preço para levar logo cedo aquela carga, às seis horas, pois a senhora gostava de pegar o melhor lugar para colocar sua bacia, próximo a uma pedra que servia de batedouro e a água nem era tão funda, não precisando molhar os fundilhos o dia inteiro e pegar algum “difruço”. Era muito querida e todos a chamavam de mãe-do-mundo, tal o carinho com que ela tratava a todos. O contrato incluiria também buscar tudo de volta, no final da tarde, lá pelas cinco horas, no por do sol. Ela, a pobre lavadeira, tinha que ficar lá o dia inteiro a pão e água. No entanto, quase sempre chegava um pedaço de carne de segunda que o marido de uma delas, o magarefe do matadouro municipal que ficava logo acima, mandava para reforçar a fraca boia, requentada no fogão improvisado. A fritura daquela carne emanava um cheiro especial que aguçava os apetites de todos indistintamente. A pobre senhora era obrigada a ficar ali no córrego o dia todo, pois não podia se afastar das roupas quarando no pasto e depois de enxaguadas eram penduradas na cerca de arame farpado para secar. Tinha que vigiar o dia inteiro, pois as malas de roupas das patroas abastadas tinham roupas finas e cobiçadas. Além disso, o gado das chácaras vizinhas vinha lamber o sabão preto e mascar as roupas. Não poupavam nem a suas próprias humildes roupas de cama e banho feitas com muito sacrifício, alvejando sacos de açúcar, que eram os melhores. Esses tecidos alvejados se prestavam até mesmo para as cuecas samba canção e outras. Quando não, as camisas de americano cru e calças de sarja dos homens da casa e, principalmente as roupas de baixo das mulheres. Uma vergonha, pois ali no córrego, no meio do mato, era muito perigoso e havia moleques e marmanjos ladrões.

 

Ao ouvir que eram apenas malas de roupa para lavar no córrego, Tatá arregalou os olhos miúdos, sorriu mostrando o único dente inferior (o incisivo) que ainda tinha e disse que faria o serviço por apenas 10 cruzeiros, mas que não se importava em receber o pagamento em sabão preto, feito de soda cáustica da marca Caveira (havia uma caveira e duas tíbias cruzadas, estampadas na lata) e puro sebo de vaca que ele mesmo recolhia nos três açougues existentes na cidade e vendia às vovós que faziam esse sabão. Negócio fechado e foi, então, que ele perguntou o nome e o endereço da dona das roupas a serem levadas e buscadas no “corgo” Mata-cabrito, descendo o ladeirão de trás da igreja.  Surpreso, ao ouvir o nome e endereço da senhora lavadeira, deu um pulo para trás e “quiabou”, dizendo que não poderia mais fazer o serviço. Explicou que tinha muito medo, porque naquela rua ela passava com a carroça, gritando prurúuuu-tá.. tá..., prurúuuuh..tá..tá em voz de comando para os burrões e mulas que puxavam a carroça  à caminho do matadouro, justamente para pegar o sebo de vaca e, logo apareciam três meninas e se aboletavam na carroça, sem se importarem com o forte cheiro de sebo, semelhante à carniça de vários dias. Tudo era divertido para aquelas três meninas, até que um dia a mãe de uma delas, não se lembra se era da Lenina, Duriena ou Caninena, saiu correndo atrás e gritou a plenos pulmões, parecendo uma doninha de tudo: pare esta carroça, já! Retirou a menininha de cima da carroça e quase o matou de medo, tamanha era a ameaça, caso aquilo se repetisse. E ele nunca mais gritou prurúuuuh-tá-tá, por ali, passava em silêncio, pois só se lembra de que a mãe era muito enérgica.

 Amedrontado e preocupado com as ameaças, transpirando em bicas no forte calor do outono, o menino acordou e percebeu que felizmente era apenas um sonho, ainda em estado de alucinação hipnagógica, com cheiros de sabão preto, burros suados e ainda zunindo em seu ouvido os gritos de pruruuuuh... tatá, os tirantes esticados, tensionados ao extremo e a burrada patinando na íngreme subida da rua, logo à saída do córrego, tirando fogo com suas ferraduras no cascalho. Coração a mil, ofegante diante daquelas fortes imagens e a figura terna da lavadeira, mãe-do-mundo a cuidar de sua rotina. Porém, desperto compreendeu que o sonho fora uma visão masterizada, colorida, sonoramente modificada e de difícil diferenciação entre o ilusório e o real, graças à presença de imagens impactantes que provocaram espanto a ponto de interromper o sono e tirar-me da cama. Foi então que o gatilho do subconsciente destravou completamente a memória cintilante de histórias reais, verdadeiras, acontecidas há mais de 60 anos nas quebradas das Lavras do Funil.

 

Brasília, 31 de março de 2022

Paulo das Lavras. 


 
Em 2012 encontrei essa carroça em pleno centro de Brasília, em área  de nobres condomínios. Não resisti, parei o carro e abordei a condutora, uma humilde senhora, catadora de lixo reciclável. Lembrei-me da carroça do Tatá, em Lavras, e aquela humilde senhora, com seu olhar desconfiado, mas com semblante triste, sofrida,  lembrou-me também as lavadeiras do córrego Mata-cabrito, em especial daquela bondosa mãe-do-mundo. Talvez por isso e consternado, ofereci-lhe ajuda para adquirir comida para ela e para o cavalo que me pareceu mais triste, ainda. 
Tudo combinando com o remasterizado sonho do menino, mais de 60 anos  depois dos  eventos em Lavras. 
Foto do autor – Brasília, 2012

 

 
A Rua da Chacrinha 
Foto: Coleção Renato Libeck





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

O som do Silêncio na alma, Haendel e Garfunkel

 

 Pianista Brigitte Bouthinon – Concerto Embaixada da França- Teatro Nacional- Brasília 2019 
Foto do autor


Não, o título da crônica não está errado! Todos sabemos que a linda música “O som do Silêncio” é de Simon e Garfunkel. Nada a ver com o grande compositor Georg Friedrich Händel ou Haendel (1685-1759). Mas, recentemente fui despertado por um amigo que publicou nas redes sociais uma belíssima história de como teria sido criada a composição musical de “The Sound of Silence”.  Fez grande sucesso nos Estados Unidos, principalmente porque foi usada como trilha sonora do não menos famoso filme de Hollywood, The Graduate (1967), que aqui no Brasil ficou conhecido por “A Primeira Noite de Homem”, com Dustin Hoffman, Anne Bancroft e Katharine Ross. Naquela década de 1970, dez anos depois de seu lançamento, trabalhei em temporadas naquele país e convivi com o sucesso da música tocada diariamente nas rádios. A música aborda temas sensíveis como a melancolia, a insensatez das pessoas que não ouvem nem enxergam o óbvio, o cego que não vê, mas convive com a escuridão no silêncio da alma. A lembrança dessa música fez-me despertar, tocando no fundo da minha mente e mais que depressa, após acordar daquele choque nostálgico, me flagrei buscando-a no aplicativo de streaming, na internet. Uma, duas, três vezes repetidas e a letra foi totalmente reassimilada, recuperada inteiramente de cor e salteada após aquele destravamento e liberação do subconsciente da alma. Viajei longe, distante, muito distante e em lugares muito diferentes tanto no espaço geográfico quanto no tempo. Estava em Washignton-DC, distante 4.000km de Berkeley/Ca com seu lindo campus da Universidade da Califórnia, onde estive à trabalho e fiz questão de visitar o prédio principal que aparece nas cenas do filme A Primeira Noite de um Homem. Para lá "viajei" na imaginação e depois para o Brasil, onde tive alguns traumas na infância.

Pura reflexão, pura emoção, ao revirar os escaninhos escondidos no porão da alma e se deleitar, pois a música causa-nos prazer, alegrando-nos e promovendo felicidade e saúde. Ali, naquele distante país, em longas temporadas, sozinho, longe de casa e de todos, por vezes as garras e unhas do subconsciente, ocultas como as dos felinos, afloravam repentinamente, levando-nos a um quase colapso psicológico, parecendo até mesmo que a loucura estaria passando bem perto de nós. Em outras palavras, no jargão médico, um ataque de ansiedade ou de pânico, que é mais comum do que se imagina, pois quase sempre nos dedicamos somente ao trabalho e descuidamos do lazer que ameniza as durezas da vida. Não foi diferente desta vez, ali naquele luxuoso Hilton Hotel, na Connecticutt Avenue, onde o presidente Ronald Reagan havia sofrido um atentado à bala, apenas seis anos antes,  quando saía pela sua principal porta de entrada. Ao adentrar aquele recinto lembrei-me do trágico atentado, com o presidente baleado, sangrando e já à porta do centro cirúrgico, rindo para sua esposa, disse: “Querida... esqueci de me abaixar”.  Estava, ainda, bem presente em minha mente, a figura do tresloucado autor dos disparos, John Hinckley Jr, um jovem que sofria de graves transtornos mentais e acreditava que assassinar o presidente chamaria a atenção de sua musa, a atriz Jodie Foster, pela qual era loucamente apaixonado em seus delírios.

Mas, voltando aos traumas do menino, ainda dos tempos de infância em seu distante país, e tendo já se recolhido ao descanso após um estafante dia de trabalho, ali, no silêncio de seu quarto daquele histórico hotel, ao ouvir aquela bela canção de Simon e Garfunkel, encontrei certo alívio na alma ao imaginar o drama nela contido, em sua belíssima letra. E como não poderia deixar de ser, o figurino técnico científico da psicologia funcionou direitinho: “quando estamos tristes, ou alegres...”. A letra fala da velha amiga, a escuridão! Talvez a escuridão do apagão da mente, da dor da saudade, da perda de alguém, da angústia cortante que embota o pensamento e nos deixa deprimidos, à beira de um colapso. Mas, ao mesmo tempo houve um “clarão”, uma visão que surgiu mansamente e que havia deixado sementes do bem enquanto eu dormia bem plantadas ali no meu cérebro..., no Som do Silêncio, ainda que eu caminhasse, só, pelo vale da sombra da morte como diz a Bíblia. Um sonho bem atormentado, quando ali estive por alguns dias, naquele luxuoso hotel na Dupont Circle, coração da capital americana, Washington-DC, no distante ano de 1978. O mesmo silêncio, a mesma angústia e a semente plantada no coração vinte anos antes, no internato do Seminário na distante Itaúna, quando da morte do coleguinha na piscina. Verdadeira perturbação que, afinal, cedeu lugar à música sacra. A letra de The Sound of Silence parecia que foi escrita de encomenda para aquela solidão, no silêncio da noite ali naquele hotel estrangeiro. E assim aquela linda e suave composição dos cantores americanos, verdadeiro hit, ali e no mundo inteiro, passou a fazer parte de minha memória cintilante, gravada para sempre no subconsciente. Assim, e por isso, fui despertado pelo colega, para o valor que a música representa para a alma. 

“Hello darkness, my old friend

I’ve come to talk with you again

Because a vision softly creeping

Left its seeds while I was sleeping

And the vision that was planted in my brain

Still remains

Within the Sound of Silence”

A segunda “viagem distante” que veio-me à mente, sobre os efeitos da música na alma, foi a experiência do menino no internato do Seminário de Itaúna-MG, no ano de 1958, quando com apenas 12 anos de idade presenciou a morte de um coleguinha, por afogamento na piscina. Por algum tempo ficou em profunda depressão, sozinho, longe de casa e com as “imagens” da morte de seu coleguinha que só foi descoberta já na hora de se ir embora. O menino tinha sido o último a sair do vestiário e ali restavam as roupas do coleguinha. Dois padres e mais dois adultos se trocaram rapidamente e se atiraram na profunda piscina, de água um pouco escura que não permitia visualizar o fundo. Fizeram uma corrente de mãos dadas e passaram a mergulhar a partir da local mais fundo. No terceiro ou quarto arrastão a partir da borda mais funda encontraram o corpo inerte do Baianinho, esse era seu apelido. Queria que aquilo não fosse verdade, que talvez fosse apenas um pesadelo daquele seu próprio afogamento, aos três anos de idade, em um grande reservatório de água, mas salvo pela mãe que mergulhou e me resgatou. Mas não era um pesadelo, era real. Retirado do fundo da piscina, o coleguinha, inerte, foi submetido às técnicas de ressuscitação, mas de nada adiantaram. Desespero total, sem chances de ressuscitação.  Um trauma para o menino, criança ainda e que a tudo presenciou, do resgate do corpo inerte à dor do velório por toda a madrugada até que na manhã seguinte chegassem os parentes para o traslado do corpo para a Bahia. Longe dos pais e sem nenhuma orientação psicológica, foi um tempo difícil para o menino seminarista. Recordo-me apenas que estava sozinho, deprimido, silencioso e cabisbaixo em ambiente estranho com mais de 70 meninos e com imensa saudade de casa e chorava todas as noites, no escuro e ainda assim com a cabeça encoberta para ninguém perceber, naquele imenso dormitório coletivo. Dor em dobro, pois a imagem de seu próprio afogamento, com a figura da mãe, desesperada a massageá-lo e respiração boca a boca salvando  sua vida, essas técnicas de salvamento não surtiram efeito ali com o coleguinha. Resultou em profunda mudança de comportamento, permanecendo quieto, calado até mesmo na sala de recreio, à exceção quando me aproximava do pianista para ouvir os clássicos e musicas sacras, ainda que fossem repetidos ensaios de aprendizes. Não sei quanto tempo durou esse profundo estado de choque, só me lembro que um dia, na sala de estudos, num domingo, no horário dos chamados “estudos livres”, quando organizávamos coleção de selos ou leitura de livros de literatura, ouvia atentamente “O Largo” de Haendel, executado por imponente orquestra sinfônica e de olhos fechados, mergulhado na minha dor da alma, aconteceu algo extraordinário que hoje chamo de meu turn point.  Foi naquele momento, ouvindo o Largo de Haendel, que o meu estado letárgico foi atingido com intenso tremor, sentindo-me melhor, muito melhor, aliviado de um peso que carregava. O menino chorou por longos minutos, copiosa e silenciosamente, ali mesmo na sala de estudos, em meio aos colegas, porém de olhos fechados e em verdadeiro transe da alma. Flutuei no espaço com a alma enlevada e na plateia imaginária daquele lindo concerto com a orquestra executando a belíssima composição de Haendel, que arrebatou minha alma, compreendi que havia algo mais além daquele estado traumático, de profunda angústia,  causado pela perda do amiguinho que morreu afogado e a ausência, a dor, também cortante, da falta dos familiares, pais, irmãs e em especial do irmão mais novo companheiro de escola, cavalgadas e futebol no campinho da Estação Costa Pinto. 


Nunca me esqueci daquele momento mágico, de silêncio interior quebrado por essa magistral composição clássica de Haendel. Interessante que naquele tempo nem havia ainda os John Williams de hoje, com suas maravilhosas trilhas sonoras pra o cinema, mas havia Bach, Beethoven, Wagner, Tchaikovsky e outros clássicos que enchiam o salão de estudos do seminário com a sonoridade de suas belíssimas composições e até mesmo nos salões de recreio. Mais que tudo, aquele som de musica enchia a nossa alma. Incrível o poder, a magia da música. Num dos salões havia um piano francês Pleyel e os colegas seminaristas que nele praticavam já sabiam... “lá vem o Paulo Roberto... deixe-me tocar logo aquela do Haendel, o Largo, senão ele não me larga...”.  Ainda hoje, paro tudo que estiver fazendo e ouço com atenção e emoção essa belíssima composição que preenchia o silêncio da minha alma, alma triste do menino que havia perdido um coleguinha e estava longe de casa. Ouvir Haendel era como um bálsamo para a alma. Ficava estatelado ali, ao lado do piano, às vezes olhos fechados, com os acordes me entorpecendo, devagarinho, fazendo-me flutuar e sentir um gaudio indescritível, com lágrimas correndo pelo rosto. De tanto ouvir quase todos os dias aqueles acordes eles ficaram gravados na minha memória cintilante e o simples fato de se lembrar de seu nome, como aqui, agora, nesses escritos, o corpo vibra, arrepio e sinto-me como se lá estivesse ao lado do pianista, meu tutor, Clóvis Augusto Ribeiro, o CAR, como o chamava, pelas iniciais de seu nome, bordadas nas peças de roupa e a quem fui grato por todo o tempo que estive ali no Seminário de Itaúna. Não se espante se por acaso me encontrar de olhos fechados, balançando a cabeça em ritmo pausado e solfejando as notas musicais de O Largo, como executado no link indicado ao final.

Santa música, elixir da alma, todos os dias executada na sala de estudos ou de recreio e hoje, já passado muito tempo e sentindo a enorme paixão que tenho por algumas composições clássicas, posso entender que, naquele dia, ali na solidão do internato do menino seminarista, aquela música de fato penetrou no meu subconsciente e atravessou a minha alma, revigorando-a de tal forma, envolvente e reconfortante, que nenhuma conversa, toque, abraço ou afago anterior tinha produzido. Foi um momento revelador e inesquecível. A música marcou-me para sempre, pois voltei a sentir e acordei novamente para a vida naquele instante de seu “toque” na alma, banindo a tristeza a angústia persistente. Foi como destravar o sentimento. A Música devolveu-me a Vida, de repente e sem saber do que estava se passando. Só me lembro de que a partir de então, ali na solidão do internato passei a me interessar pela música clássica e sacra, os cânticos gregorianos que ainda hoje sei cantar. Nunca me esqueci daqueles longos momentos de silêncio interior, quebrados por uma canção que acabei ouvindo-a todos os dias. Eu não tinha, ainda, consciência do efeito terapêutico da música. Mas era exatamente isso que ela passou a exercer sobre minha alma. Eu não sabia, mas sentia seus efeitos que ajudavam a curar a minha dor, a tristeza, a melancolia da alma abalada por dois eventos traumáticos, primeiro a separação brusca da família, sem nunca ter imaginado antes que poderia ser dolorida e depois a morte do coleguinha com todo o ritual do frustrado salvamento.

Aprendi também que nas cerimônias de luto os cânticos, as músicas sacras, também confortavam a alma e nos ensinavam a lidar com a Morte, uma das questões mais perturbadoras de nossa vida. Agora, decorrido tanto tempo, posso afirmar com absoluta certeza que aquelas experiências traumáticas do menino, com a morte do coleguinha à sua frente e poucos dias antes, o brusco rompimento da convivência familiar, foram superadas pela música com plena sublimação na alma. Assim, a música transformou a dor inconsciente em algo positivo que, aos poucos, foi ocupando o vazio da alma diante do prazer da harmonia dos sons. A Música cura e em tudo ela estava presente. Tanto assim que passei a me interessar mais pela musica sacra e me esforçava muito mais no coral dos meninos seminaristas. O coral cantava nas missas solenes de domingo, na igreja matriz da cidade. Aliás, a música influenciava a todos, pois, logo após as missas, mães caridosas corriam a nos abraçar e incentivar-nos carinhosamente como se nossas mães fossem. Era sem dúvida um conforto carinhoso e de inestimável valor para os meninos carentes do afeto familiar.

A música, confirmam os especialistas em terapia, é capaz de produzir efeitos extraordinários e não somente nos seres humanos, mas também em animais. Já vi reportagens sérias, na TV, dando conta de que a instalação de sistema de som nas salas de ordenha de vacas leiteiras, reproduzindo músicas clássicas suaves, faz aumentar a produção de leite. Parece surreal, mas não é, só não disseram se houve experiências com rock, samba de breque ou funk... rsrs. Certamente, com o requebrar das vacas em ritmo mais hot e acelerado, a produção leiteira diminuiria, imagino eu... No campo da psicologia é certo que a Música tem a rara capacidade de penetrar no ser humano, por mais atordoado que estiver pela dor, tristeza, desilusão ou desespero e nele romper as barreiras emocionais e produzir instantes de calmaria e paz na alma. Agora pense num filme. Imagine-o sem trilha sonora... Sem graça, sem emoção! A trilha sonora dá vida ao filme impõe o ritmo da ação, seja aventura ou cenas de amor. As trilhas sonoras de Indiana Jones e Jornada nas Estrelas nos impulsionam para a aventura, enquanto as de Romeu e Julieta e Summer Place nos convidam a amolecer o coração e enchê-lo de amor e ternura. A Música penetra na alma, sem pedir licença.

Feliz daquele que pode alcançar a velhice… e reviver seus dias de glória e contar aos netos suas experiências recheadas de muito amor e com as falhas devidamente perdoadas e corrigidas. Não há prazer maior e, no campo da música, ao longo de toda a minha vida, sempre renovei energias, forças e motivações em determinados momentos com o auxílio da Música. Ao dormir, aciono determinada seleção de musicas com temporizador e a audição leva-nos ao completo relaxamento da alma. Há músicas clássicas e eruditas que parecem que foram criadas para o relaxamento da alma. Viajante contumaz como fui na vida profissional, com mais de 3.000 viagens e duzentos dias/ano fora de casa, em aeroportos, hotéis e aviões, não é de se espantar que a música tenha ocupado espaço especial na minha vida. Hoje compreendo por que ao voltar de longas temporadas de serviço nos EUA e França, trazia para casa pilhas de discos (LP... ou Album com dizem os americanos), fitas K-7 e por ultimo CDs. Era e ainda sou obcecado por essa maravilhosa arte dos sons melodiosos. Sempre me ajudou, acariciou minha alma nos momentos de alegria e de tristeza, sobretudo na solidão de longos voos intercontinentais e mais frequentemente nos fins de semana em hotéis, embora às vezes de luxo, mas totalmente vazios de sentimento e com a alma dolorida pela saudade que nada mais é do que o amor que fica. A presença da Música soa para mim como um amigo próximo, confidente, que não me questiona por que às vezes me fixo apenas na melodia, nos sons expressos nas partituras e, em outras, a atenção se volta para a letra, o conteúdo, o enredo.  Especialistas ensinam: quando se está alegre, a mente só pensa no ritmo, nos sons e suas sequencias. Se gostamos, aprendemos logo o ritmo. Quando estamos tristes, continuam os especialistas, focamos a atenção na letra, no conteúdo. Não raras vezes dizemos: Puxa vida, essa letra foi feita para mim, tal a semelhança com a própria situação pessoal.

 A Música é, portanto, muito mais que um conjunto de sons melodiosos, ritmos e vozes. Música é Vida, é alma em regozijo e até há um ditado popular: Quem canta, seus males espanta..., é verdade. Sou obcecado por ela, talvez pelos momentos de solidão em aeroportos, aviões e hotéis em longas temporadas no exterior. Está presente no meu dia a dia e, francamente, sempre a preferi em detrimento de estranhos que sempre estavam a meu redor. No carro enquanto dirijo, há CDs e pendrives, classificados por gênero e de fácil acesso ou mesmo com links ao telefone. Fiel companheira, a música traz alegria à alma. Nos concertos e recitais era comum, após o encerramento, avançar para o palco e cumprimentar o maestro, o tenor ou qualquer dos membros da orquestra. Foi assim com Ray Conniff no Ballroom da Academia de Tenis de Brasília, com a pianista francesa Brigitte Bouthinon-Dumas, no Teatro Nacional e tantos outros. Não bastava gritar “Bravo!” tinha que subir ao palco e, interessante, nunca fui barrado nem mesmo pelos atentos e fortes seguranças de Mikail Barishnikov. Mas, também..., como disse um maldoso e irônico amigo: quem iria suspeitar de um velhinho engravatado ou de smoking?  

Obrigado ao amigo Bertolucci que nos trouxe essa recordação, a qual nos levou novamente a refletir sobre o valor da música. A música nos ajuda a lidar com os sentimentos, curando-nos da ansiedade e até mesmo da dor da morte de um ente querido. Hoje, juntando os dois eventos, nos quais a música teve papel fundamental na cura de minha alma, posso afirmar com absoluta certeza: A música tem efeito terapêutico. A música cura e alimenta a alma.

 

Brasília, 28 de fevereiro de 2022

 Paulo das Lavras


 Foi nesse hotel, na Connecticut Avenue, na capital americana, que o menino “compreendeu” e absorveu o significado da beleza da letra e dos acordes da canção “The Sound of Silence”,  a qual juntamente com outra música, clássica (Largo, de Haendel), dos tempos de seminarista, serviram de bálsamo  para sua dolorida alma. 
 Também foi ali que o Presidente Ronald Reagan sofreu um atentado a bala e mesmo sangrando com gravidade, disse à sua esposa Nancy ao chegar ao hospital: “Querida... esqueci de me abaixar”.  
Foto: internet. Hilton Hotel - Washington-DC


 A letra dessa música fala da velha amiga, a escuridão! Talvez a escuridão do apagão da mente,
 da dor da saudade,  da perda de alguém, da angústia cortante que embota o pensamento e 
nos deixa deprimidos,  à beira de um colapso.
Mas, ao mesmo tempo houve um “clarão”, uma visão que surgiu mansamente e que havia deixado sementes do bem enquanto eu dormia bem plantadas ali no meu cérebro..., no Som do Silêncio


Videos de Haendel:

- Piano:   https://www.youtube.com/watch?v=SAg0a0RIqc4

- Orquestra Sinfônica:         

            https://www.youtube.com/watch?v=uMlxM69ZJFA

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 - Coral e Letra... O Largo  Santo, És Senhor -

                               https://www.google.com/search?q=largo+de+hendel+letra+Santo 



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