Havia
ainda outro padre que sempre exprimia alegria junto às crianças, o Padre José
Wetzels. Era só alegria e nos contava casos de suas viagens em busca de novas
vocações, além de também jogar futebol com a meninada. Vestia uma bermuda preta
até os joelhos, enquanto o padre Francisco nunca tirava sua batina branca,
talvez para não expor suas sequelas físicas. Mas, havia uma vantagem no goleiro
de batina..., pois nunca tomava uma bola ou um gol no meio das pernas, considerada
a maior vergonha de qualquer goleiro, pois a batina funcionava como cortina
intransponível. Esses eram os padres holandeses que mais de destacavam. Havia
apenas um sacerdote brasileiro, ali no Seminário, o amazonense Padre Cauper,
que tocava violão e cantava as músicas folclóricas, como aquela do “Mestre Domingos, o que é que você quer? Eu
não vim fazer barulho..., eu só vim “tumar” o seu café....”. Aonde quer que
ele chegasse formava-se logo a rodinha e causos e violão com cantorias nunca
faltavam.
.
Na
cozinha a Dona Fia comandava uma equipe com mais duas ajudantes. Os padres
usavam pequenas motocicletas holandesas como meio de transporte para as idas ao
centro da cidade ou visitar bairros onde celebravam missas. Havia pelo menos
duas delas. Seriam correspondentes a uma Mobilete de 125 cc de cilindrada.
Tinham um cuidado especial ao dirigi-las, pois contavam que um colega morreu,
na Holanda, ao prender acidentalmente o cordão da batina na corrente motora.
Portanto, sempre davam um jeito de enrolar um pouco a batina e principalmente
as pontas do enorme do cordão que mesmo passando pela cintura ainda quase
chegava aos pés.
A rotina
durante o ano letivo
O dia dos
meninos seminaristas era rigorosamente controlado pelo relógio e o apito dos
padres Adriano e Luiz. Às vezes também o padre Francisco atuava nessa função. Sempre
com o breviário nas mãos, lendo a palavra de Deus, eles caminhavam por entre as
fileiras das carteiras da sala de estudos ou onde quer que estivéssemos
reunidos. Impunham disciplina draconiana, mas, aqui cabe um parêntesis sobre a
disciplina. Era respeitosa e ao contrário de relatos de outros colegas
seminaristas, de épocas diferentes, nunca vi ou presenciei reprimendas publicas
ou mesmo os famosos castigos humilhantes de se ficar de pé na frente da turma,
tanto em sala de aula como nos demais ambientes. Nada disso aconteceu naquele ano. Bastava um
olhar de qualquer que fosse o supervisor e já era o bastante para o menino
entender e cessar sua estripulia.
A jornada começava cedo com o despertar às 05:45
horas. Num leve bater de palmas todos acordavam e o Padre Adriano nos saudava
em Latim: Benedicamus Dominum e
respondíamos: Deo gratias e saíamos
apressados, de chinelos e toalha de rosto no pescoço e escova de dente à mão já
com a pasta dental, o dentifrício como dizíamos. Tínhamos 15 minutos para nos
aprontar, descer as escadas em fila e ir direto para a capela. O Padre Adriano
nem tirava os olhos do breviário e nós, os meninos nos púnhamos a correr para o
banheiro e logo pegar a fila dos lavatórios para escovar os dentes e voltar
correndo, tirar o pijama, dobrá-lo, vestir roupa do dia, arrumar a cama e
deixar tudo em ordem. Ainda bem que éramos meninos imberbes e não tínhamos que
fazer a barba, pois se assim fosse, os 10 minutos não seriam suficientes. Cinco
minutos antes das seis horas o apito tocava e entrávamos em fila para descer as
escadas em direção à capela. Às 06h00min horas em ponto começava a missa.
Interessante que sempre fui devagar, lento, para me levantar pela manhã, mas
ali não havia lugar para isso e nem era por causa de suposto medo ou receio do
Padre Adriano. Embora fosse enérgico, firme nas suas palavras, nunca destratou a
nenhum de nós, meninos às vezes travessos. Suas palmas para acordar a meninada
eram suaves e cadenciadas e a maneira como nos saudava no despertar para um
novo dia soava, em Latim, mais alegre ainda. Mesmo hoje, mais de 60 anos
depois, tenho gravado no subconsciente o som daquelas palmas e sua saudação,
como também as suas feições de olhos azuis, queixo fino, cabelos bem loiros cortados
em estilo militar, batina branca com cordão preto, duplo, amarrado na cintura e
com pontas trabalhadas alcançando abaixo dos joelhos. Falava o português sem o
mínimo sotaque e quando o discurso era longo costumava espumar um pouco no
canto da boca. Nunca o vimos falar em seu idioma nativo, o holandês, nem mesmo
com seu irmão de sangue, o padre Luiz. Além de diretor geral do Seminário, era
nosso professor de Latim, com aquelas complicadas declinações, mas que tínhamos
que dominar plenamente pois, naquele tempo essa era a língua oficial da Igreja
em todos seus atos litúrgicos. Para tanto deveríamos dominar e falar
fluentemente aquele idioma, já considerado língua morta..., menos para a Igreja
Católica Apostólica Romana. Ainda hoje me lembro das letras em latim de alguns
hinos sacros e rituais canônicos. Isto porque tendo sido coroinha até a metade
dos anos 60, toda a liturgia das missas e demais atos litúrgicos eram celebrados
em Latim. As missas em português só foram iniciadas algum tempo depois.
Terminada
a missa, passávamos para o refeitório ao lado. Café com leite, pão com manteiga
e quase sempre queijo chedar norte-americano doado pela USAID. Às 07:00hs em
ponto já estávamos em sala de aula. Seguia-se o almoço às 11:30 horas e logo
depois havia o recreio na Sala de Jogos. Os estudos começavam às 13:00hs,
seguindo-se o futebol às 16:00 horas e banho antes do jantar que era servido às
18:15 horas. Às 19:00h era rezado o terço, na capela, transmitido pela rádio da
cidade. Antes do terço e tendo terminado o jantar, sempre havia uns 15 minutos
de lazer, sob as mangueiras defronte à escadaria principal do prédio. Após o
terço subíamos para a Sala de Estudos e às 21:45 hs nos recolhíamos ao dormitóro.

Essa era
a rotina diária com rigorosa disciplina. Durante os estudos, por exemplo, nada
era permitido nem mesmo pedir algo emprestado ao colega ou se levantar da
carteira. Ir ao banheiro nesse horário, só com a permissão do padre regente que,
na maior parte do tempo permanecia sentado à mesa sobre um tablado de frente
para todos. A ausência dele naquela mesa significava que estava transitando nos
fundos e ninguém se atrevia a olhar para trás. Se o fizesse era sinal de que
estava preocupado com o fiscal e o cruzar de olhos já era o bastante para
intimidar o descuidado estudante seminarista. Para se levantar da carteira de
estudos, a única exceção era quando havia necessidade de se abastecer a caneta.
Explico! Naquele tempo usava-se somente a caneta tinteiro. Não existiam as chamadas
esferográficas. Havia um cômodo no final da Sala de Estudos com uma pia de bancada
de concreto bem grande. Sobre esta havia um tabuleiro, raso, cheio de areia,
onde ficavam vários tinteiros (vidros com tampa de rosca) com a famosa tinta
azul real lavável da marca Parker. Ali abastecíamos nossas canetas tinteiros. A
minha era da marca COMPACTOR, bem macia de se escrever e não borrava. Por
isso era a mais usada pelos estudantes. Era só encher a caneta,
bastando bombear seu pequeno reservatório de fina, maleável e resistente
borracha. Caso houvesse algum respingo, a areia o absorvia e o ambiente ficava
sempre limpo. Nos cadernos, caso houvesse algum respingo descuidados, havia o mata-borrão,
sempre disponível como brinde das livrarias e papelarias. Certa vez a caneta
caiu e estragou a pena. Padre Luiz levou-a em uma de suas idas a Belo Horizonte
e voltou novinha. Itaúna, cidade pequena
de uns 15.000 habitantes, não dispunha desses serviços de reposição ou reparos
de canetas.

À
entrada do cômodo das tintas, havia na parede um enorme mapa do estado de Minas
Gerais. Ir ali e não procurar e contemplar o nome e a localização da cidade de
Lavras, quase no pé do mapa de quase dois metros de altura, era como se não
tivesse passado por lá. Ver o nome da cidade natal já era um bálsamo para
aquele isolamento em local tão distante e que pelas dimensões do mapa mais
distante parecia. Nele estava nitidamente traçada a sinuosa ferrovia que a
interligava a Itaúna. Eram mais de 500 km e a rodovia Fernão Dias sequer
existia no mapa daquele ano de 1958, embora já estivesse em construção e
efetivamente inaugurada dali a ano e meio.
Ao
amanhecer, todos os dias, o menino seminarista contemplava o sol nascente que
começava a projetar os primeiros raios de luz pela janela do dormitório no
segundo andar do imponente prédio principal. Logo em seguida o Padre Adriano
nos despertava. Era hora de saltar da cama, pegar a toalha de rosto, a escova
de dente, calçar os chinelos e caminhar em fila para os dez ou doze lavatórios coletivos
no hall logo à saída dos dormitórios. Camas arrumadas e uniformes bem trajados
lá íamos, em fila, descendo as escadas para o primeiro andar onde se localizavam
a capela e o refeitório, lado a lado. Nas missas gostávamos de atuar como
coroinha, ajudando o celebrante. Nas missas de domingo, um pouco mais tarde e
quase sempre na igreja matriz da cidade, os coroinhas atuavam em duplas. Após a
missa seguia-se o café da manhã. Às sete horas já estávamos em sala de aula, no
prédio anexo onde funcionava o Colégio Sant´Ana que também recebia alunos
externos. Nossa classe do segundo ano ginasial era mista, quase meio a meio
entre seminaristas e alunos externos. Terminadas as aulas do período da manhã seguíamos
para o almoço que era servido às 11:30h e do refeitório seguíamos direto para o
salão de recreio.

O salão de
recreio do Seminário era bem amplo e havia muitos jogos. Na foto o jogo de
Banco Imobiliário, em 1958.
Foto: arquivo do
Colégio Sant´Ana – Itaúna- MG
O refeitório era bem amplo e continha quatro
fileiras de três mesas cada. Tinham pesados pés de concreto pré-moldado, tampo
de granito e acomodavam seis lugares. Havia o chefe da mesa, geralmente um
seminarista mais antigo, os chamados “maiores”, com 16 ou 17 anos de idade. Era
o encarregado da disciplina durante as refeições. Qualquer deslize no
comportamento dos meninos o chefe intervinha e depois reportava diretamente aos
padres responsáveis pela disciplina geral. Estes, os diretores e demais membros
do seminário e que não passavam de uns oito clérigos, ocupavam a mesa da
cabeceira que ficava em posição perpendicular às demais fileiras. O chefe
determinava, em forma de rodízio, quem deveria ir ao balcão da cozinha pegar as
tigelas e travessas de comidas que, se necessário, eram reabastecidas. Esse
balcão possuía uma pequena janela em arco, com base de granito, que servia de
apoio, onde também eram depositados os pratos e talheres que eram recolhidos
para as lavagens em enormes pias. Naquele tempo não havia ainda o sistema de self-service,
daí o abastecimento em travessas para cada mesa. Ao final das refeições, os
meninos escalados em rodízios diários recolhiam os pratos, travessas e talheres
levando-os até o balcão da cozinha. Todos gostavam muito da cozinheira, Dona
Fia, mulata bem forte como convém à maioria das cozinheiras, nos dedicava
carinhosa atenção. Ficava alegre e estampava largo sorriso quando voltávamos
com as travessas para reabastecer a mesa, como que a dizer... os meninos
gostaram da comidinha que fiz. O cardápio
não variava muito e nunca faltavam carne cozida e salada como complementos.
No período da tarde, aqueles que tinham aulas
seguiam para as respectivas classes e os demais para o grande salão de estudos.
No final da tarde havia futebol e recreio geral e logo depois seguia-se o
jantar. O futebol era o esporte preferido da meninada. Havia dois campinhos,
ambos de terra batida, sem gramado e tampouco redes. Mas, mesmo assim, era o
esporte mais disputado. Após o jantar, o terço e os estudos da noite,
encerrava-se o dia. Na manhã seguinte repetia-se o ritual diário. No sábado era
dia de se preparar a roupa suja em um saco, identificado com enormes letras
pintadas a pincel. Coube ao menino a letra I que era a inicial do nome da
lavadeira. Entregavam-se as roupas devidamente listadas em rol próprio e ao
mesmo tempo recebiam-se as da semana anterior, lavadas, passadas, dobradas e
acondicionadas no mesmo saco que levara as roupas usadas na semana anterior.
A capela do
Seminário onde assistíamos à missa, às 06:00h da manhã e rezávamos o terço à 19:00h.
Foto: 1958 - arquivo
do Colégio Sant´Ana – Itaúna- MG
Domingo
era um dia especial, pois íamos para a missa solene da Igreja Matriz da cidade.
Para um dia especial, um traje especial e então vestíamos o uniforme de gala,
calça e camisa brancas, cinto e sapatos pretos. Ir à cidade, uma única vez na
semana, ainda que para cumprir uma obrigação, era como se fosse um passeio
especial. As famílias da cidade gostavam de ver e ouvir os seminaristas cantando
durante a missa. Afinal formávamos um coral de 70 vozes e a repercussão na nave
da grande igreja matriz produzia um efeito especial que ressonava por todo o
ambiente. À saída, as mães vinham conversar com os meninos seminaristas e
carinhosamente nos abraçavam, como se filhos fôssemos. Momentos inesquecíveis,
pois víamos naquelas senhoras a figura de nossa própria mãe a nos abraçar e
abençoar, rogando as graças de Deus. Por isso, o domingo era um mesmo um dia
muito especial, pois além de ver o movimento e as pessoas da cidade, recebíamos
o carinho e a admiração daquelas amorosas senhoras. Na volta da missa íamos
direto para o futebol, antes do almoço. Nesse dia havia jogos também à tarde
com todos os meninos se revezando a cada meio tempo de jogo. O almoço também
era especial, mais variado. Passávamos menos tempo na sala de estudos,
geralmente para atividades de lazer, cuidando da coleção de selos e
principalmente para escrever cartas para a família. As cartas eram infalíveis.
Todas as semanas as escrevíamos e serviam como consolo, uma fuga da dolorida
saudade que perpassava a alma. Mas, havia um detalhe constrangedor. As cartas
eram deixadas com os envelopes abertos sobre a mesa do supervisor de plantão.
Era proibido lacra-las, pois havia censura e inspeção sobre o que os meninos
contavam para suas famílias. E a prova cabal disso foi que, certa vez copiei um
modelo de carta para os pais e a transcrevi com ligeiras adaptações. Ora, como
o tal modelo constava do livro de Português, minha carta foi motivo de sermão
público por parte do Padre Adriano. Sem citar diretamente meu nome disse que cartas
para os pais deveriam atender aquilo que eles queriam ou gostariam de saber e
não, como alguém aqui fez, copiar um modelo do livro. Desfilou uma série de
exemplos a serem contados aos pais, falando de rotinas, estudos, lazer e outros.
O coleguinha Pedro, que se assentava a meu lado na sala de estudos, olhou-me e
fez cara de gozação, pois eu havia lhe mostrado antes o tal modelo de carta.
Esse foi o segundo de três “micos” que paguei perante os colegas naquele ano
que lá permaneci.
Como visto,
a rotina diária no Seminário era extremamente rígida, controlada minuto a
minuto. Não havia tempo para atividades isoladas ou momentos de intimidade,
pois todas as áreas e ambientes eram coletivos, bem diferentes do ambiente
familiar com quarto exclusivo. Nunca ficávamos a sós, sempre havia alguém por
perto, seja um padre, professor, ou mesmo o colega tutor, monitorando cada
passo, cada gesto desde o despertar até o encerrar do dia. Durante a noite lá
estava o padre diretor, bem ao lado, cujo quarto era contíguo ao dormitório dos
menores e se comunicava por uma pequena porta. Foi por ela que, numa noite
qualquer, o Padre Luiz nos flagrou em plena guerra de travesseiros, meia hora
após o toque de recolher. Tudo começou com uma sonora gargalhada lá nos fundos,
na última cama, perpassando por cada um dos meninos que acompanhavam o coro da
bagunça. Um não gostava, resmungava... e pronto, estava iniciada a guerra dos
travesseiros que voavam como bólidos por sobre nossas cabeças. E tomem travesseiradas
para lá e para cá, até que a portinhola se abriu bruscamente e o facho de luz
de uma lanterna varreu as duas fileiras de camas. Correria geral, todos pularam
em sua cama, mas os travesseiros atirados ficaram pelo caminho como prova cabal
com as impressões digitais de cada infrator. Castigo rigoroso no dia
seguinte... e lá estava o menino das Lavras, flagrado em meio à inocente
bagunça. Não havia como negar e de nada adiantou correr no escuro, pular na
cama e cobrir a cabeça como se estivesse em sono profundo. O padre supervisor
fez questão de pegar um travesseiro a mais de 10 metros de distância e com a
lanterna focou nas iniciais gravadas na fronha: PRS..... Puxou o cobertor,
entregou-me o travesseiro, iluminando meu rosto com a lanterna e disse baixinho,
porém firme: amanhã conversaremos... Custei a dormir naquela noite... Ainda
hoje, quando brinco com meu netinho de oito anos, com travesseiradas vigorosas
de ambos os lados, me pego em doce recordação daquela noite no internato e que
gerou castigo no dia seguinte. Dou gargalhadas de contentamento por estar ali
como a vingar o castigo recebido no Seminário e ao mesmo tempo proporcionar
tanta alegria ao pequeno. Durante uma dessas constantes guerras de travesseiro,
a toda hora e com olhinhos arregalados, o netinho perguntava: “Vovô..., e se a
vovó ou uma das tias chegarem aqui, elas vão brigar conosco, porque bagunçamos
o quarto...”. Não se preocupe, retirei os quadros ornamentais da parede e melhor
de tudo..., tranquei a porta de entrada... e tome travesseirada, defenda-se ...
rsrs. Tão pouco..., para tanta felicidade
da criança que vê no vovô seu cumplice na infração às regras da casa das rigorosas
guardiãs da ordem, do asseio e da disciplina que proíbe essa inocente guerra de
travesseiros. Mal sabia ele que ali não estava vovô adulto e sim a velha
criança que um dia fora flagrada na mesma guerra de travesseiros em meio a uns
vinte coleguinhas do internato. Naquele dia não havia tranca na porta e fomos
flagrados e castigados, hoje, não, estamos a salvo com a porta trancada. Doce
vingança, mais de meio século depois daquela malsucedida noite das
travesseiradas no internato.
Assim
era a rotina do internato no Seminário de Itaúna naquele ano de 1958. Rigorosa,
minuto a minuto e sempre controlada pelos supervisores de disciplina. Mas,
embora o menino a estranhasse nos primeiros dias, logo se adaptou às normas da
casa. Hoje, distante no tempo, posso avalia-la como positiva, pois afinal, não
se pode relaxar na disciplina quando se lida com turmas de quase uma centena de
meninos, cheios de energia e prontos para desafiar a ordem. Obedecer às regras,
ser educado, polido e respeitar a autoridade dos mais velhos ou dirigentes, são
requisitos que integram a boa formação dos jovens. Acresça-se, ainda, ao rigor
da disciplina ali exigida, a esmerada Educação social e religiosa e tem-se,
portanto, todos os ingredientes para a formação dos jovens com ilibado caráter,
controle das emoções, competências, habilidades
e motivações em relação aos valores de vida. E por que agora, mais de sessenta
anos depois, avaliar aquele rigor na disciplina como positivo? Simples, porque
o relembro com saudade e a definição mais apropriada que vi para esse sentimento
é: Saudade é o amor que fica. E
ficou para sempre no meu coração a primorosa educação, a formação que ali
recebi. A saudade e a dor da ausência da família foram os espinhos que todos
encontramos na caminhada da vida e, embora constantes ali no internato, foram
suplantados pelos benefícios recebidos. Amém e gratidão à memória dos padres
holandeses, abnegados missionários que deixaram sua pátria. Verdadeiros
educadores, de primeira linha e que dedicaram a vida inteira ao sacerdócio
específico de formação de nossos jovens, ali entre as montanhas de ferro e
manganês das Minas Gerais. O menino foi muito afortunado, pois recebeu a melhor
educação possível, ministrada pelos padres holandeses do Seminário de Itaúna,
dos padres alemães no Colégio Aparecida e dos missionários norte-americanos do
Instituto Presbiteriano Gammon, em Lavras.
Brasília, 28 de abril de 2021
Paulo das Lavras
Notas:
1- A presente crônica
é parte do livro: “Um Seminário na década de 1950”, composto
de nove capítulos. Aqueles já publicadas neste blog têm os links indicados
abaixo, conforme projeto editorial:
Título
geral: Um Seminário na década de 1950
Cap.I- Uma
viagem ao passado – http://contosdaslavras.blogspot.com.br/2016/07/um-
seminario-na-decada-de-1950-parte-i.html
II-
O despertar da vocação - http://contosdaslavras.blogspot.com/2021/03/o-despertar-da-vocacao-sacerdotal-um.html
III- a viagem para o distante Seminário - http://contosdaslavras.blogspot.com/2020/07/a-viagem-para-o-distante-seminario.html
IV- A vida no Seminário
4.1- a rotina
de um internato
4.2- os seminaristas
4.3- os estudos do colégio
4.4- A
religiosidade
4.5- o lazer e cultura
4.6-
Eventos marcantes
4.6.1
- Fundições e Tecelagem Itaunense
4.6.2-
Morro do Bonfim- a capela
4.6.3-
Copa do Mundo de 1958
4.6.4- A morte
chega ao Seminário – http://contosdaslavras.blogspot.com/2017/07/a-morte-chega-ao-seminario.html
V
– A viagem de volta - O fim
VI- O reencontro – 55 anos depois
VII-
O legado
VIII- Anexos: Curiosidades
de 1958
IX-
Pos-Scriptum:
1- Brasília: O reencontro do seminarista foragido na Basílica
Metropolitana -
http://contosdaslavras.blogspot.com/2015/06/reencontro-do-seminarista-foragido.html
2- Copa de junho de
1958 – Sessenta anos da primeira Copa de Futebol
http://contosdaslavras.blogspot.com/2018/06/29-de-junho-de-1958-sessenta-anos-da.html
2- Os coleguinhas conterrâneos, Miguel e Pedro, também deixaram
o Seminário, dois ou três anos depois. Matricularam-se no curso de Agronomia da
UFLA e ali, em 1969, foram meus alunos. Surpreendente reencontro em sala de
aula, quando o menino já era professor daquela universidade. Lamentavelmente
ambos faleceram prematuramente, há pouco mais de seis anos, quando ainda
estavam em pleno exercício da profissão.