terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Odeio o frio... Um Rendez-vous em Paris

       

Nunca gostei do frio, até mesmo por questões de saúde, com ligeira deficiência respiratória. No colégio vivia brigando com a matéria de Física por pura implicância na definição aprendida com o saudoso professor Russaulière Mattos que, por meio do livro de L.P.M. Maia, da PUC-RJ, nos ensinou que a Física é subdividida em quatro campos do saber, a Mecânica, Estática, Cinemática e o Calor. Até aí tudo bem, mas dizer para os meninos que o Calor é o quente e o frio..., ah, isto já era demais, pois para eles o calor era calor e frio era frio, coisas opostas. Mas, falemos um pouco do frio, daqueles abaixo de zero grau em países do hemisfério norte e seus desconfortos, sobretudo para quem vive em clima tropical com sol 365 dias/ano. Pesquisas da Universidade do Alabama, nos EUA confirmaram que os moradores de cidades com pouca exposição de luz solar são mais propensos a desenvolver distúrbios de humor. Isto porque também já está comprovado que a incidência de luz e calor solar estimula a produção de serotonina, o hormônio neurotransmissor que controla o apetite, dá energia e desencadeia o bom humor e o bem estar mental. Assim, fica fácil deduzir por que, quando o dia está nublado e fechado por muito tempo, o chamamos de aziago, ou seja, tenebroso, infeliz.  Ninguém que vive em clima tropical, luminoso e radiante, gosta de um dia nublado, feio, para se dizer o mínimo. Incomoda muito e se perdurar, certamente levará à depressão, ao que os especialistas chamam de transtorno afetivo sazonal. Assim, o tempo frio, nublado ou de longos períodos de chuva, deixa a maioria das pessoas mais introspectivas, tristes ou deprimidas. Nos meses frios há maior tendência em se adoecer, pois nosso sistema imunológico fica enfraquecido. Acresça-se a isto, o fato de que no inverno as pessoas passam mais tempo em locais fechados, facilitando a proliferação de micróbios.  Já o calor e o sol deixam as pessoas mais eufóricas, voltadas às relações interpessoais e melhor ainda, pesquisas da Universidade do Michigan revelaram que sair ao ar livre, em um dia agradável de primavera ou verão, pode estar ligado a um aumento no pensamento criativo. Viva, pois, o verão nas praias brasileiras, onde todos estão alegres e receptivos e segundo a pesquisa americana, mais “criativos”, ainda que seja para a paquera, diriam alguns. De minha parte, não foi a toa, portanto, que passei por momentos depressivos, em alguns finais de semana, encerrado em hotéis de cidades de clima extremamente frio, como em Michigan, nos EUA e Paris, na França, onde trabalhei em períodos alternados por alguns anos. Passar o dia todo encerrado num escritório e à noite em quarto de hotel, com portas e janelas hermeticamente fechadas, com calefação, ressecando a pele e as mucosas, não é nada agradável.

  Pior mesmo era olhar pela janela e ver aquele cenário gelado, de frio cortante, às vezes com neve, árvores secas em hibernação, pessoas nas ruas, pouquíssimas e totalmente agasalhadas com pesadas vestimentas que só deixavam os olhos de fora. Definitivamente, aquele não era um cenário convidativo à alegria e ao contato humano para conversas amistosas, descontraídas, como se faz por aqui o ano inteiro. E eu olhava pela janela lacrada aquele cenário desolador e me lembrava do professor de física dos tempos de colégio “calor pode ser frio ou quente...” Ah..., que piada, frio é frio e calor é calor e eu prefiro chamar de calor o nosso clima brasileiro, ensolarado e não essa paisagem spleen, como reclamou JK em seu exílio na mesma cidade de Paris, onde só saía ocasionalmente, agasalhado até as orelhas e com chapéu de feltro.

 Odeio o frio, repetia o menino ali diante da janela lacrada do hotel, pois a ansiedade real é quase um estado de depressão e frequentemente atacava em viagens longas e demoradas, geralmente em locais muito distantes e desconhecidos, principalmente em outros países. E esses estados de ansiedade, beirando a depressão, aconteceram duas vezes nos Estados Unidos e outra na França. Neste país, numa manhã fria, nublada, confinado em um quarto de hotel em Paris, sozinho, a mais de 10.000 km de distância da família e amigos, sem ânimo nem mesmo para sair para o café ou almoçar, atacou o pânico. Uma ansiedade sem igual com sentimentos de medo e de solidão em ambiente desconhecido e imaginariamente hostil, até mesmo pela paisagem urbana, da mais que milenar Cidade Luz, assim chamada (que ironia..., embora essa alusão se referisse à vida noturna parisiense), com seus prédios antigos, encardidos em profundo contraste com a luminosa, espaçosa e verdejante capital de nosso país, onde morava o menino.  Conheci assim, ainda que momentaneamente e pela primeira vez a depressão, ali, na ironicamente chamada de Cidade Luz, a olhar pela janela aquele cenário sombrio, embaçado, de casario e prédios. Deve ter sido por isso que JK em seu exílio, de 1964 a 67, ali em Paris, assim escreveu:

 “Não há primavera nesta terra. As árvores estão verdes e as flores coloridas, mas o sol, que é propriedade comum dos homens, se esconde sempre atrás de nuvens carrancudas e hostis. Isso reflete na alma da gente e só convida a pensamentos que trazem o tom das nuvens, cor de spleen”.

  Naquela distante manhã de domingo bateu o desespero no menino das Lavras, aos 40 anos, quando em pânico, relembrou as palavras de JK e se pôs a perguntar onde estariam as palmeiras em que cantam os sabiás, as aves que gorjeiam nas copas das exuberantes árvores? Ah... JK e o poeta Gonçalves Dias foram sábios, vividos, e com amor incontido à Pátria, aos amigos, à família. A angústia, a dor da saudade dos entes queridos, verdadeiro banzo, provocaram lágrimas num pranto incontido no menino que suplicou, implorando a Deus para que aquele pesadelo ao vivo passasse logo e que a paz para o espírito condoído voltasse à normalidade.

Ah..., mas dessa vez, em sua visita à Cidade Luz, o menino não esperou que o céu spleen lhe provocasse outro piripaque saudoso como aquele de quase trinta anos atrás.  Agora, na fria tarde de domingo, vestiu um pesado sobretudo, pulôver, cachecol e luvas, um look parfait..., comme il fault, tomou o metrô no centro da cidade e foi visitar, de surpresa, um amigo e ex-colega de trabalho que, como doutorando na Sorbonne, residia na Maison du Brésil, reduto estudantil dos brasileiros.  Ao chegar, já no escuro da noite do inverno europeu, notei à saída do metrô, já na rua, um grupo de pessoas conversando em francês. Diminui o passo, apurei os ouvidos, pois pretendia me informar sobre o local exato da Maison du Brésil. Mesmo estando todos encapotados, com luvas, cachecois enrolados em volta do pescoço e alguns até cobrindo o nariz, pude perceber e reconhecer pela voz e perfil do amigo que iria visitar. Decidi passar-lhe um trote, pois o mesmo nem imaginava que eu estivesse naquela cidade e muito menos ali para uma visita a ele e sua esposa. “Bonjour monsieur, pourriez vouz, s´íl vouz plaît, m´indiquer où est la Maison du Brésil?" . Com o rosto parcialmente encoberto e ainda no escuro da noite, com rua mal iluminada, não fui identificado pelo interlocutor, o próprio amigo a ser visitado. Educadamente indicou-me o local solicitado, apontando-o logo ali, a menos de 100 metros. Perguntei-lhe, ainda em francês, se morava lá e diante da resposta positiva, emendei a pergunta final: Conaissez-vous a M. Capdeville? Guy Capdeville, citoyen bresilienne, étudiant de doctoract a Sorbonne? Arrancou o cachecol que cobria parte de seu rosto, esboçou um largo sorriso de surpresa e retrucou: ooh..., moi même! Je suis Capdeville. Também arranquei o cachecol naquele frio cortante, soltei uma sonora gargalhada, que já custava segurar e exclamei: et moi, monsieur, je suis votre ami..., carregando a pronúncia do francês que tem mania de fechar o final dos nomes com acento circunflexo, sempre chamando a mim de “Paulô Robertô ou então Monsieur Da Silváhhh ”. Abraçamo-nos efusivamente, pedimos licença aos demais e caminhamos para seu apartamento, onde se encontrava sua esposa. Naquela noite o vinho trazido pelo visitante foi mais saboroso, aquecendo nossa alma ao lado do casal amigo que havia tantos anos não nos encontrávamos. Afinal o rigoroso inverno com seu desconfortável e detestável frio serviu de cenário para esse episódio que nos deu muita alegria, aos brasileiros longe de casa, falando das coisas boas da terra e sua gente. Ninguém duvide, brasileiros saudosos quando encontram um patrício em terras estrangeiras logo se tornam chegados, mesmo sendo desconhecidos e o assunto só é mesmo a pátria-mãe. Santo remédio para o banzo e melhor ainda quando acontecia numa visita para almoço, a anfitriã abria sua despensa, ia para a cozinha e na companhia de todos fazia uma deliciosa feijoada. Isto era mais frequente nos EUA, nos estados sulinos, Texas, Arizona e outros, onde os brasileiros ali residentes – estudantes de doutorado - sempre adquiriam o feijão preto de comerciantes mexicanos ali radicados.

            Esse foi o meu “rendez-vous”, planejado para acontecer em Paris, na Maison du Brésil. Certamente que os amigos brasileiros, contemporâneos, ao lerem o título desta crônica imaginaram maliciosamente outro lugar, nada recomendável..., o tal “rendez vous” dos anos 60, como eram chamados os cabarés, lá em Minas. Assim, eram conhecidas como “rendez-vous” a casa da Zezé, em BH ou o Capixaba em Lavras. Não erraram de todo, os maldosos amigos, pois rendez-vous quer dizer simplesmente isso: encontro. Não foi um “encontro” como aqueles dos anos 60, mas uma visita social, uma reunião de amigos na França, berço daquela expressão que os brasileiros deram outra conotação. Mas, longe daquela conotação mineira, o rendez-vous de Paris, sob frio intenso, que odeio, por conta de deficiência respiratória, foi divertido, perfeito para matar a saudade e com agradável conversa, acompanhada de um bom bourgogne para aquecer o frio, o frio gelado, definição que usava para contrariar o saudoso prof. Russaulière Mattos que, em sua definição, chamava tudo de “Calor”, fosse quente ou frio... Ademais, a Maison du Brésil , além de abrigar inúmeros estudantes, é um centro de difusão da cultura brasileira na França. Não deixa, portanto, de ser um local de encontro muito aprazível, e interessante até mesmo para se conhecer a obra arquitetônica de Le Corbusier e Lúcio Costa, encravada na Cité Internationale Universitaire de Paris. Vale a pena! E nem percebi que estava frio naquela noite.

 

Brasília, 30 de maio de 2018

Paulo das Lavras


Esse não era o local do meu rendez-vous. Aqui era, sim, um local de rendez-vous, mas, exclusivo de Napoleão Bonaparte. Era o Castelo de sua amante Josephine, nas proximidades do bairro de Rueil- Malmaison, onde havia me hospedado. Frio cortante de zero grau, com árvores desfolhadas. Uma belíssima decoração interna do palácio, que tinha os degraus das escadarias muito baixos, por encomenda de Napoleão, por causa da pequena estatura de sua amada. Aliás, ele próprio também era bem baixinho


 
A visita, para o rendez-vous na Maison du Brésil, foi precedida de uma caminhada pela Champs Élysées, sob intenso frio de cortar o fôlego.


 

Permiti-me uma paradinha no Café de Flore, ao lado de uma livraria  onde escolhi um livro para o amigo de longa data... Mesmo na calçada externa, na rua e ainda que com frio de zero grau, os aquecedores instalados no alto da parede (com brilho amarelado), mantinham o ambiente aquecido (um bálsamo para quem não gosta do frio), Ah... , eu não fumo, o cachimbo eu tomei emprestado de um amigo francês, apenas para encenar, tal qual os escritores faziam ali, naquelas  mesinhas na calçada.

 



 
famoso rendez-vous em Paris..., o chique e badalado pelos escritores, Cafe de Flore


Além do livro, também um vinho para celebrar o encontro com o amigo


 
O saudoso amigo de longa data, Guy Capdeville, professor da UFViçosa e colega  no Ministério da Educação, em Brasília. Cursava doutorado na Sorbonne e depois foi reitor da Universidade Católica de Brasília.  Deixou-nos prematuramente. Saudades desse grande intelectual  que tanto trabalhou pela educação em nosso país. 
Foto: arquivos da família Capdeville


 
Maison du Brésil-Paris, casa do estudante brasileiro. O projeto leva assinatura de dois grandes arquitetos, Le Corbusier (francês) e o brasileiro Lucio Costa, que também projetou a nossa capital, Brasília. Sim, aqui foi o local do meu “rendez-vous”, em meio a centenas de estudantes brasileiros nas universidades francesas. Um ótimo local para se falar em português e relembrar a pátria amada e espantar o banzo mais frequente em tempos
 de confinamento sazonal do rigoroso inverno europeu. 
Foto: Maison du Brésil













 

sábado, 21 de novembro de 2020

Distância

 

         Disse o poeta que a distância e o luto, até virar só saudade e lembrança boa, são dores extremas. E é verdade, pois desde os 12 anos experimentei a dura realidade da distância no internato de um Seminário. Um ano longe de casa, dos pais, familiares, amigos e das coisas mais comuns da terra natal, exatamente aquilo que está entranhado no subconsciente e que lhe dá estabilidade emocional. Por isso sua ausência dói! Aquela primeira grande distância física ocasionou dor extrema e perturbou o menino nos primeiros dias, semanas e meses. E quando se transformou em saudade, a contagem regressiva do tempo passou a ser motivo de maior saudade, ansiedade até chegar a hora de voltar.  A distância durou só um ano, mas foi suficiente para marcar a alma do menino solitário ali no internato.  Quando adulto e já na vida profissional, passei a morar longe da terra natal e ainda assim, viajava duzentos dias por ano em todo o país e no exterior, onde desempenhava missões de governo. De novo a solidão por semanas a fio, nas viagens com distanciamento dos entes queridos, às vezes em locais tão longes que a volta para casa demandava dias, mesmo de avião, com inúmeras conexões e escalas internacionais. Antigamente para se chegar à Guatemala ou Costa Rica, por exemplo, era necessário se deslocar para a América do Norte (Miami) e de lá fazer conexão para voltar para o sul, na América Central, como se estivesse voltando para o Brasil.

 Mas, a dor extrema da distância, quando demorada, vai se esmaecendo e se transforma em saudade. Saudade dos bons momentos do convívio com os entes queridos, amigos e até mesmo as paisagens e feições típicas do lugar onde se viveu por tanto tempo. Nem mesmo os sons e os cheiros da terra natal, como cantado em “Green Grass of Home”, são esquecidos.  Ao contrário estão sempre presentes, até nos sonhos oníricos. Escutar aquela canção de Tom Jones, após algumas semanas sozinho ali nos Estados Unidos onde trabalhava periodicamente, era como embarcar num sonho dos verdes campos da sacrossanta terra natal e ao acordar só restava o profundo sentimento de saudade, nostalgia a dor da distância que dilacera o coração.  Ah..., distância, a distância, esse é  o problema...!

E os sonhos saudosos rolavam sem fim. As ruas, lojas, a escola, o bonde, tudo é relembrado e remasterizado em sonhos coloridos. Ah, que delicia os sonhos oníricos com os riachos, as fazendas, as peladas de futebol no campinho da Estação Costa Pinto, os sinos das igrejas matriz e do Rosário e da capela do Batalhão, o jardim da cidade com o footing das mais belas moças em flor, os colégios e suas fanfarras com taróis estridentes e lindas balizas saltitantes em acrobacias..., tudo, enfim! Na distância a saudade aperta e as reminiscências do subconsciente afloram deixando nossa alma em desalinho. Num fechar de olhos, tudo se torna presente, mergulho nas águas dos riachos, como fazia quando criança ou mesmo no lago do jardim, tal qual ali fui atirado algumas vezes pelos veteranos da Esal/Ufla. Faço isso quase todos os dias de minha vida, pois essa distância já se tornou em doce saudade, de olhos abertos ou fechados, lúcido ou em pleno sonho onírico.

Assim, a distância sempre presente em minha vida, mostrou-me que a dor extrema, alardeada pelos poetas, logo se transforma em saudade, a lembrança boa. Saudade doce que acalma nossa alma e nos alimenta com os valores do amor. O Amor à terra em que nascemos, aos entes queridos e amigos que conosco partilharam e continuam ao nosso lado nessa jornada. Esse é  o maior tesouro de nossas vidas!

 

Brasília, 21 de novembro de 2020

 

Paulo das Lavras


               Jardimde Lavras-MG com sua belíssima Tipuana. Local do footing dos jovens nos finais de semana                                       Foto: Robson Rodarte

 



domingo, 1 de novembro de 2020

Reflexões sobre a morte e vida

 


 

“Já tive medo de morrer. Não tenho mais. Tenho tristeza. A vida é muito boa. Mas a Morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira.” — Rubem Alves

 

... e acrescento, feliz daquele que cuidou da vida de seus entes queridos preparando-os para a partida. Somente assim a alma será recompensada com  a alegria do amor dedicado aqueles que sempre  nos amaram. Viva sua vida de forma que o medo da morte  nunca possa entrar em seu coração. 


         Hoje, Dia de Finados, é um momento propício para a reflexão sobre a morte e vida. Não gosto, como a maioria das pessoas, de pensar e tampouco falar sobre a morte. Medo? Não! Prefiro a alegria da vida. O que é a vida? Assim perguntou Rubem Alves em sua obra “Sobre a morte e o morrer” e prossegue com mais perguntas intrigantes: “Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver. A vida é tão boa! Não quero ir embora”.  Ninguém quer ir embora, deixar a vida. Para quem já foi salvo em quatro ocasiões de iminentes fatalidades até que faz sentido. Poucos se livraram da morte iminente por tantas vezes como eu. A primeira por gravíssima pleurite, com apenas dois anos de idade, submetido a grande cirurgia e longo período de convalescência, incluindo um dreno nas costas, que obrigou o menino a ficar quase que 24 horas/dia no colo durante nove meses. Milagre, diziam os pais e demais familiares. A segunda visita da morte foi quando se afogou, aos quatro anos e a mãe conseguiu ressuscitar o quase desfalecido menino resgatado do fundo do enorme tanque reservatório de água. Bem mais tarde, já trabalhando na capital mineira, foi vítima de gravíssima doença pulmonar, tendo o médico recomendado que levassem o rapaz de 23 anos de volta para Lavras..., para morrer! Muito tempo depois, aos 44 anos, sofreu acidente aéreo quando o avião ao aterrissar despencou de certa altura, a 300 km/hora e despedaçou-se com a metade na pista e metade no aterro. Conseguiu, mais uma vez, se salvar “nadando” em meio a toneladas de combustível espalhado ao redor. Dessa vez sentiu, em pânico, o roçar da foice daquela repugnante figura da senhora vestida de preto. Portanto, estou ganhando de 4 x 0 da dona Morte, desde os 44 e agora já aos setenta e cinco anos de idade.

              Um jornalista escreveu uma bonita crônica sobre a morte e a chamou de “piada”, um exagero que surpreende, aparece do nada e seus amigos tem que limpar suas gavetas, seu guarda roupa... tudo, tudo mesmo. Um outro amigo comentou e acrescentou algumas passagens bíblicas, escritas pelo apóstolo Paulo, afirmando que feliz aquele que sabe para onde vai depois que morrer, para a vida eterna e que morrer é lucro e viver é Cristo. Verdadeiro convite à reflexão! Morte e vida, parceiras do nosso dia a dia. Mas, não sei se só é feliz aquele que sabe para onde vai depois da morte. Não concordo com os dizeres do apóstolo Paulo, pois a morte não é lucro. Estou mais com o cronista que disse que a morte é um chiste. Ela nos engana e atraiçoa quando estamos no melhor da vida, cheio de gás, com mil e um planos. Às vezes tomamos o café da manhã e nem almoçamos. Ela chega e nos leva sem mais nem menos, causando um trauma irreparável na família, nos amigos e entes queridos. Ninguém merece isso, a morte prematura. Acho que deveria, sim, haver um limite de tempo para a vida, por exemplo, de 85 a 100 anos. Nesse caso poderíamos viver planejadamente, realizando tudo até certo tempo e depois nos preparar para a despedida, deixando tudo organizado e todos já esperando o desenlace sem grandes traumas. Bem, mas, isto só para as pessoas de bem, pois os maldosos certamente usariam o cronograma para aprontar das suas. Esse é o argumento que muitos religiosos usam para nos convencer que a hipótese é absurda – conhecer antecipadamente o dia da morte. E é mesmo.

             Utopias à parte, o poeta está certo. Que coisa mais sem graça ser colhido no meio da festa (a vida, a convivência com a família e amigos), interromper tudo sem aviso prévio e depois os amigos vão esvaziar suas gavetas, seu guarda roupas, seus livros, seus mimos, como que apagando todas as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Que coisa cruel, não para você que se foi, mas para aqueles que ficaram e choram a sua lembrança. Só quem já perdeu abruptamente entes queridos sabe avaliar essa dor irremediável. Para aqueles que já ultrapassaram a faixa da morte prematura é mais fácil. Não tenho medo da morte. Ela é consequência natural. Tudo que vive, certamente um dia fenecerá e isto é inexorável. Tampouco acredito que haja vida após a mesma. Penso que a vida é uma dádiva de Deus e que devemos vivê-la de tal modo que ela, por si só, se torne uma jornada feliz, alegre, em paz consigo próprio e com todos que o cercam ou, em outras palavras, com amor. E isto é o céu! Somente assim, com amor e paz, podemos vencer essa caminhada de 80, 100 ou que sejam apenas 20 anos ou ainda menos, com a certeza que praticamos o bem, cumprimos nossa missão. A qualquer hora que ela, a morte, vier nos buscar nos encontrará felizes e sem nenhuma dívida (falta) para com os amigos e aqueles com os quais convivemos. Tenho certeza que assim procedendo será mais fácil para aqueles que ficam. Assimilar a partida final não é fácil e morrendo “feliz” os amigos terão o conforto de que você praticou o bem e que suas faltas involuntárias nem contam diante do saldo positivo que deixou para todos.

        Assim foi meu pai. Partiu aos 101, sim, cento e um anos de vida. Viveu feliz, cercado de amigos e familiares e sempre a fazer piadas bem humoradas sobre a vida, mesmo aos 100 anos. Longa vida, talvez para compensar a falta de minha mãe que partiu prematuramente aos 49 anos de idade. Pois bem, a dor pela sua morte foi compensada pela sensação que ele viveu feliz, desfrutou a vida e soube leva-la com muita dignidade perante todos que ali estavam e que vieram dar o seu adeus. Parecia sorrir e isso me fez lembrar uma frase que as meninas do colégio gostavam de recitar para os rapazes:

 "Quando tu nascestes só tu choravas e todos sorriam, portanto viva de maneira tal que quando morreres só tu sorria e todos chorem".

 Essa frase, colecionada na juventude, marcou-me para sempre. Viver com alegria, distribuindo sorriso e amor ao próximo. Assim deve ser a vida e por isso não se deve temer a morte inexorável. Seja feliz! O maior legado que se pode deixar aos  familiares e amigos é a certeza de que você partiu em estado de graça, feliz, tendo gozado a vida no sentido mais puro, em comunhão e harmonia com aqueles que  ficaram, embora chorem a perda. Mas, você terá partido sorrindo, confirmando o velho adágio.    

Definitivamente, não precisamos temer a morte. Ela é sorrateira, chega sem avisar, mas, para tanto basta que vivamos com alegria e paz no coração. Seus entes queridos saberão que você viveu bem, partiu em paz consigo próprio e todos. Essa é a grande benção de Deus e  isto já é o Céu, dizem alguns. A vida inclui a morte. Esta chega quando é tempo e há tempo para tudo, diz a sabedoria. Quero me preparar para a hora (in)certa. Que chegue mansa, pois acho que já paguei a minha cota de acidentes graves e doenças que requereram delicadas intervenções cirúrgicas. Mansa e sem muitas dores, e cercado pelos entes queridos. UTI? Nunca! Presenciei muitos amigos nessa situação. Longe de mim os tubos de respiração artificial, desfibriladores e toda a parafernália das unidades de tratamento intensivo. Há tempo para tudo, inclusive para ela, a morte, que deve ser encarada como missão cumprida. Rubem Alves definiu isso muito bem quando disse que “permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia”. Finalmente, quero que o meu tempo acabe antes que eu saiba. Vida é a senha da felicidade. É curta, por isso ame-a, pois quando você fica mais velho, tem uma urgência tão grande de viver, que não quer desperdiçar seu tempo com bobagem. Quando jovens estivemos, todos,  muito voltados para a carreira, sucesso, para ganhar dinheiro, mas quando chegamos à velhice, valorizamos mais os afetos, o que não pudemos ter enquanto estávamos trabalhando. A morte é a única certeza que temos e cada um deveria, portanto, treinar a morte durante a vida, assim estaria mais tranquilo quando chegar a sua hora.

 E hoje, Dia de Finados, rememoremos, pois, nossos entes queridos que já se foram, lembrando-nos das alegrias que eles nos proporcionaram em vida e com a certeza de que também lhes retribuímos o carinho e o amor deles recebidos, especialmente com a atenção nos preparativos para a sua partida. Feliz aquele que cuidou de seus entes queridos. A saudade é dolorida, mas a recompensa do amor é maior.

 Brasília,  02 de novembro de 2020

 Paulo das Lavras   



 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Dia do Aviador - 23 de outubro

 
 
O primeiro voo do Gripen E no Brasil.
Foto: Sgt. Johnson Barros / Agência Força Aérea
        

  No Dia do Aviador vem-me à memória o sonho de Ícaro do menino que queria voar, mas foi impedido por uma deficiência ocular, causada por acidente doméstico aos cinco anos de idade.  Mas, nem por isso deixou de ser frequentador de aeroportos e campos de aviação, aeromodelismo e similares. Acresça-se a isto o fato de meu pai ter nascido exatamente no dia 23 de outubro de 1906, data histórica na qual Santos Dumont fez o primeiro voo com o mais pesado que o ar, o 14-BIS. No centenário da invenção do Avião, em 2006, meu pai foi homenageado pela Força Aérea Brasileira. Celebrou seus 100 anos de vida em pleno gozo de saúde e concedeu entrevistas ao Cecomsaer e à EPTV- Sul de Minas. Mas, medroso, recusou-se a voar até Brasília, onde participaria das cerimônias do centenário da aviação, pois achou muito “perigoso” voar.... Mesmo assim recebeu homenagens da FAB e do astronauta Marcos Pontes, pelos seus 100 anos de vida, coincidentes com o centenário da invenção do avião, pelo brasileiro que vivia na França.

         Antes, em plena quarta feira (21/10), às 09:00 horas da manhã, rugiram estrondos de jatos da Força Aérea Brasileira sobrevoando várias vezes o centro da cidade de Brasília. Pensei tratar-se de uma demonstração de força, que durou mais de uma hora, por conta de algum problema político, coisa muito comum aqui na capital e alhures. Exemplos não faltavam, foi assim com o então vice Presidente Aureliano Chaves que, nos idos de 14 de agosto de 1980, havia se desentendido com um ministro influente no governo e foi se refugiar, descansar em sua fazenda em Três Pontas. O desafeto resolveu mostrar-lhe força, como a amedronta-lo, com dois jatos de caça F5 da FAB que realizaram vários e estrondosos voos por sobre a fazenda do desafiador vice- presidente. Mas, quem se deu mal foi um dos pilotos. Acabou o combustível de um dos aviões e teve que fazer pouso forçado na rodovia, atropelando levemente a capota do fusca do agricultor José Spinelli, que acabara de sair de uma estrada de terra e entrara na rodovia. Recebeu um safanão do trem de pouso e se assustou muito com o bafo (sic) muito forte da turbina do caça que continuou cambaleando à sua frente, mas completou o pouso em segurança. Assim, a primeira ideia que me veio à mente foi imaginar que o senador de 31 mil na traseira da cueca  tivesse causado algum aborrecimento maior (a Policia Federal havia flagrado um Senador da República com R$31.000,00 na cueca, dias antes, desencadeando uma crise politica), talvez uma crise corruptiva ali na Praça dos Três Poderes e então acionaram aquele barulhão de jatos em suposto ataque sobre o Congresso, STF ou Planalto..., tudo apenas para assustar e acalmar os ânimos, tal qual fizeram com o vice-presidente, 40 anos atrás. 

...e o caça F5 da FAB fez pouso forçado, com pane seca, numa rodovia na região de Três Pontas- MG 
 Foto de 14/08/1980: @NoDiadeHoje.Oficial, em 14/08/2020

Mas, felizmente não era nada disso. Era apenas o debut do caça sueco, o F-39E Gripen “FAB4100” que chegou a Brasília escoltado pelo F-5FM “FAB 4808”. O debutante estava apenas treinando para o show de hoje, Dia do Aviador. Ainda bem. Parabéns para o Aviador neste seu dia e sempre, como também a nossa gloriosa Força Aérea Brasileira- FAB com a qual já voei muito por esse Brasil afora. Ah..., mas como passageiro, lógico, porém às vezes com muito medo, especialmente do pouso cego com um piloto em treinamento e o checador ao lado, conferindo a habilidade do aprendiz (a cabine do piloto fica totalmente fechada por uma cortina preta e ele não vê nada lá fora, pista, o rumo a altitude..., completamente cego, guiando-se apenas pelos instrumentos do painel do avião à sua frente)...,  santo Deus..., nunca mais! Preferia o conforto e a segurança dos HS, Learjets, EMBs e outras aeronaves usadas pelo GTE da FAB.

   E hoje, no Dia do Aviador, a FAB em festa nos brindou com grande show da Esquadrilha da Fumaça, abrindo o espetáculo aéreo com o novíssimo F-39 Gripen NG, o único caça sueco entregue até agora, escoltado pelo veterano F5E. Seus estrondosos rugidos e silhueta semelhante ao Mirage III encheram de orgulho quem viu e “pilotou” a maquete do Gripen, montada na Esplanada dos Ministérios e ainda conversou com pilotos de caça treinados na Suécia. Verdadeiro show aéreo sobre a capital federal neste dia histórico de 114 anos da invenção do avião. 

Cap. Gustavo, jovem oficial treinado na fábrica da SAAB, na Suécia.   Esplanada dos Ministérios - jun 2015

Parabéns aos Aviadores, especialmente os de caça que defendem nosso território e alguns até lutaram nos campos de batalha da Itália, na Segunda Grande Guerra.  Um abraço especial para o Cmte Fabiano Soares, ex-presidente do Aeroclube de Lavras, com o qual voei muitas vezes e pude dar asas a meu sonho de Ícaro e também ao amigo Tenente Coronel Aviador Eduardo Almeida que por muito tempo foi o comandante da Esquadrilha de Mirage III (EDA – Esquadrão Jaguar) da Base Aérea de Anápolis. Nossos cumprimentos aos bravos pilotos, de hoje e de ontem (in memoriam), como os aviadores de guerra, Carlos B. França e Dinarco Reis que inauguram o pouso em Lavras, ainda que forçado, com o aeroplano de guerra Morane 130, K-224, em 1930, há exatos 90 anos, tornando-se assim o aviador pioneiro da aviação de guerra em Lavras.

 

Brasília, 23 de outubro de 2020

Paulo das Lavras


Voar é ter o poder de ser um pássaro...

Foto: Catarina Julia - 2014



Os Aviadores Carlos França (com o pé sobre a roda do avião) e Dinarco Reis, pioneiros da aviação de guerra em Lavras-MG, onde fizeram pouso forçado e depois construíram uma pista de pouso que serviu de Base Aérea de guerra por mais um mês.mais um mês. 
Foto: arquivos de Valério Julio e Renato Libeck 


As vezes o pássaro é belicoso, mas esse aí, sem combustível, pousou numa estrada, não sem antes “atacar um “inimigo” e depois atropelar um fusca.


 
Fusca atropelado no teto pelo Caça F5 da FAB  
Fotos de 14/08/1980: @NoDiadeHoje.Oficial, publicadas em 14/08/2020


 
Base Aérea de Anápolis, Caça Xavante e Mirage, com piloto de caça  Mirage (o mais alto na foto) que interceptou Boeing cubano invadindo espaço aéreo brasileiro - 1982 . Aparecem, ainda nesta  foto, dois Paulo Robertos,  lavrenses. O primeiro da esqerda é Paulo Roberto Menicucci Castanheira e o da direita, este escriba, Paulo Roberto da Silva


 
Este, Sr. Clovis, meu pai, nem era Aviador, mas nasceu no dia da invenção do avião e  com a FAB  
comemorou seu próprio centenário, recebendo homenagens. 
Foto: Cecomsaer – out 2006 


 
Dois aviadores, um da FAB, Esquadrilha da Fumaça e o  Cmte Fabiano Soares do Aeroclube de Lavras-MG Foto: arquivos de Renato Libeck


 Ten. Lemos, de Lavras, em dia de festa no aeroclube local - jun 2019. Homenagem também ao piloto lavrense, Maj Aviador Guilherne Santos Araújo, da FAB- GTE , piloto de jato EMB 145 
Foto: arquivos de Renato Libeck


 
Voando num Bandeirante até as minas de ferro e manganês de Carajás- 1981
Foi nesse voo que o piloto militar treinou seu "pouso cego"..., santo Deus, nunca
mais passarei por medo assim...rsrs


 
 Mirage III (foto 1), pilotado pelo e TC Aviador Eduardo Almeida, ex- Cmte Esquadrão Mirage-Anápolis ( à direita na foto 2), Em escolta do avião, na chegada a Brasília, dos Campeões da Seleção Brasileira de Futebol, em 2002 
Fotos: 1- Arquivos do Cmte Eduardo Almeida. 2- do autor dez 2018


 Um combatente da aviação do Exército, em 1944/45 na Itália, hoje com 103 anos de idade, Cel Nestor Silva. 
Nossos respeitos e admiração a esse aviador de guerra



E vamos voar...





 
 Outro piloto do Gripen – Pedro Henrique, seria um piloto futuramente?


 
 Não só o menino Pedro Henrique sonha em voar. O avô mantém no escritório, em casa,  um arsenal de guerra..., incluindo dois Gripen, jeep do Exército americano, helicópteros e outros aviões de caça. 


 
 ... e a Esquadrilha da Fumaça voou hoje, juntamente com o novíssimo Gripen – F39 


  
 F-39E Gripen, faz voo rasante sobre a Base Aéra de Brasília, após apresentação, hoje no Dia do Aviador. 
Foto- Ministério da Defesa




 F-39E Gripen, taxiando na Base Aérea de Brasília, após voo de apresentação. 
Foto- Ministério da Defesa