sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Dia do Aviador - 23 de outubro

 
 
O primeiro voo do Gripen E no Brasil.
Foto: Sgt. Johnson Barros / Agência Força Aérea
        

  No Dia do Aviador vem-me à memória o sonho de Ícaro do menino que queria voar, mas foi impedido por uma deficiência ocular, causada por acidente doméstico aos cinco anos de idade.  Mas, nem por isso deixou de ser frequentador de aeroportos e campos de aviação, aeromodelismo e similares. Acresça-se a isto o fato de meu pai ter nascido exatamente no dia 23 de outubro de 1906, data histórica na qual Santos Dumont fez o primeiro voo com o mais pesado que o ar, o 14-BIS. No centenário da invenção do Avião, em 2006, meu pai foi homenageado pela Força Aérea Brasileira. Celebrou seus 100 anos de vida em pleno gozo de saúde e concedeu entrevistas ao Cecomsaer e à EPTV- Sul de Minas. Mas, medroso, recusou-se a voar até Brasília, onde participaria das cerimônias do centenário da aviação, pois achou muito “perigoso” voar.... Mesmo assim recebeu homenagens da FAB e do astronauta Marcos Pontes, pelos seus 100 anos de vida, coincidentes com o centenário da invenção do avião, pelo brasileiro que vivia na França.

         Antes, em plena quarta feira (21/10), às 09:00 horas da manhã, rugiram estrondos de jatos da Força Aérea Brasileira sobrevoando várias vezes o centro da cidade de Brasília. Pensei tratar-se de uma demonstração de força, que durou mais de uma hora, por conta de algum problema político, coisa muito comum aqui na capital e alhures. Exemplos não faltavam, foi assim com o então vice Presidente Aureliano Chaves que, nos idos de 14 de agosto de 1980, havia se desentendido com um ministro influente no governo e foi se refugiar, descansar em sua fazenda em Três Pontas. O desafeto resolveu mostrar-lhe força, como a amedronta-lo, com dois jatos de caça F5 da FAB que realizaram vários e estrondosos voos por sobre a fazenda do desafiador vice- presidente. Mas, quem se deu mal foi um dos pilotos. Acabou o combustível de um dos aviões e teve que fazer pouso forçado na rodovia, atropelando levemente a capota do fusca do agricultor José Spinelli, que acabara de sair de uma estrada de terra e entrara na rodovia. Recebeu um safanão do trem de pouso e se assustou muito com o bafo (sic) muito forte da turbina do caça que continuou cambaleando à sua frente, mas completou o pouso em segurança. Assim, a primeira ideia que me veio à mente foi imaginar que o senador de 31 mil na traseira da cueca  tivesse causado algum aborrecimento maior (a Policia Federal havia flagrado um Senador da República com R$31.000,00 na cueca, dias antes, desencadeando uma crise politica), talvez uma crise corruptiva ali na Praça dos Três Poderes e então acionaram aquele barulhão de jatos em suposto ataque sobre o Congresso, STF ou Planalto..., tudo apenas para assustar e acalmar os ânimos, tal qual fizeram com o vice-presidente, 40 anos atrás. 

...e o caça F5 da FAB fez pouso forçado, com pane seca, numa rodovia na região de Três Pontas- MG 
 Foto de 14/08/1980: @NoDiadeHoje.Oficial, em 14/08/2020

Mas, felizmente não era nada disso. Era apenas o debut do caça sueco, o F-39E Gripen “FAB4100” que chegou a Brasília escoltado pelo F-5FM “FAB 4808”. O debutante estava apenas treinando para o show de hoje, Dia do Aviador. Ainda bem. Parabéns para o Aviador neste seu dia e sempre, como também a nossa gloriosa Força Aérea Brasileira- FAB com a qual já voei muito por esse Brasil afora. Ah..., mas como passageiro, lógico, porém às vezes com muito medo, especialmente do pouso cego com um piloto em treinamento e o checador ao lado, conferindo a habilidade do aprendiz (a cabine do piloto fica totalmente fechada por uma cortina preta e ele não vê nada lá fora, pista, o rumo a altitude..., completamente cego, guiando-se apenas pelos instrumentos do painel do avião à sua frente)...,  santo Deus..., nunca mais! Preferia o conforto e a segurança dos HS, Learjets, EMBs e outras aeronaves usadas pelo GTE da FAB.

   E hoje, no Dia do Aviador, a FAB em festa nos brindou com grande show da Esquadrilha da Fumaça, abrindo o espetáculo aéreo com o novíssimo F-39 Gripen NG, o único caça sueco entregue até agora, escoltado pelo veterano F5E. Seus estrondosos rugidos e silhueta semelhante ao Mirage III encheram de orgulho quem viu e “pilotou” a maquete do Gripen, montada na Esplanada dos Ministérios e ainda conversou com pilotos de caça treinados na Suécia. Verdadeiro show aéreo sobre a capital federal neste dia histórico de 114 anos da invenção do avião. 

Cap. Gustavo, jovem oficial treinado na fábrica da SAAB, na Suécia.   Esplanada dos Ministérios - jun 2015

Parabéns aos Aviadores, especialmente os de caça que defendem nosso território e alguns até lutaram nos campos de batalha da Itália, na Segunda Grande Guerra.  Um abraço especial para o Cmte Fabiano Soares, ex-presidente do Aeroclube de Lavras, com o qual voei muitas vezes e pude dar asas a meu sonho de Ícaro e também ao amigo Tenente Coronel Aviador Eduardo Almeida que por muito tempo foi o comandante da Esquadrilha de Mirage III (EDA – Esquadrão Jaguar) da Base Aérea de Anápolis. Nossos cumprimentos aos bravos pilotos, de hoje e de ontem (in memoriam), como os aviadores de guerra, Carlos B. França e Dinarco Reis que inauguram o pouso em Lavras, ainda que forçado, com o aeroplano de guerra Morane 130, K-224, em 1930, há exatos 90 anos, tornando-se assim o aviador pioneiro da aviação de guerra em Lavras.

 

Brasília, 23 de outubro de 2020

Paulo das Lavras


Voar é ter o poder de ser um pássaro...

Foto: Catarina Julia - 2014



Os Aviadores Carlos França (com o pé sobre a roda do avião) e Dinarco Reis, pioneiros da aviação de guerra em Lavras-MG, onde fizeram pouso forçado e depois construíram uma pista de pouso que serviu de Base Aérea de guerra por mais um mês.mais um mês. 
Foto: arquivos de Valério Julio e Renato Libeck 


As vezes o pássaro é belicoso, mas esse aí, sem combustível, pousou numa estrada, não sem antes “atacar um “inimigo” e depois atropelar um fusca.


 
Fusca atropelado no teto pelo Caça F5 da FAB  
Fotos de 14/08/1980: @NoDiadeHoje.Oficial, publicadas em 14/08/2020


 
Base Aérea de Anápolis, Caça Xavante e Mirage, com piloto de caça  Mirage (o mais alto na foto) que interceptou Boeing cubano invadindo espaço aéreo brasileiro - 1982 . Aparecem, ainda nesta  foto, dois Paulo Robertos,  lavrenses. O primeiro da esqerda é Paulo Roberto Menicucci Castanheira e o da direita, este escriba, Paulo Roberto da Silva


 
Este, Sr. Clovis, meu pai, nem era Aviador, mas nasceu no dia da invenção do avião e  com a FAB  
comemorou seu próprio centenário, recebendo homenagens. 
Foto: Cecomsaer – out 2006 


 
Dois aviadores, um da FAB, Esquadrilha da Fumaça e o  Cmte Fabiano Soares do Aeroclube de Lavras-MG Foto: arquivos de Renato Libeck


 Ten. Lemos, de Lavras, em dia de festa no aeroclube local - jun 2019. Homenagem também ao piloto lavrense, Maj Aviador Guilherne Santos Araújo, da FAB- GTE , piloto de jato EMB 145 
Foto: arquivos de Renato Libeck


 
Voando num Bandeirante até as minas de ferro e manganês de Carajás- 1981
Foi nesse voo que o piloto militar treinou seu "pouso cego"..., santo Deus, nunca
mais passarei por medo assim...rsrs


 
 Mirage III (foto 1), pilotado pelo e TC Aviador Eduardo Almeida, ex- Cmte Esquadrão Mirage-Anápolis ( à direita na foto 2), Em escolta do avião, na chegada a Brasília, dos Campeões da Seleção Brasileira de Futebol, em 2002 
Fotos: 1- Arquivos do Cmte Eduardo Almeida. 2- do autor dez 2018


 Um combatente da aviação do Exército, em 1944/45 na Itália, hoje com 103 anos de idade, Cel Nestor Silva. 
Nossos respeitos e admiração a esse aviador de guerra



E vamos voar...





 
 Outro piloto do Gripen – Pedro Henrique, seria um piloto futuramente?


 
 Não só o menino Pedro Henrique sonha em voar. O avô mantém no escritório, em casa,  um arsenal de guerra..., incluindo dois Gripen, jeep do Exército americano, helicópteros e outros aviões de caça. 


 
 ... e a Esquadrilha da Fumaça voou hoje, juntamente com o novíssimo Gripen – F39 


  
 F-39E Gripen, faz voo rasante sobre a Base Aéra de Brasília, após apresentação, hoje no Dia do Aviador. 
Foto- Ministério da Defesa




 F-39E Gripen, taxiando na Base Aérea de Brasília, após voo de apresentação. 
Foto- Ministério da Defesa

 

 















 
















 

 




  







segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Um certo “tarará-tarará, tan, tan-tan-tan” e o Sete de Setembro

 

Pela primeira vez em 75 anos deste menino o Sete de Setembro será diferente. Não haverá desfile cívico-militar pelas ruas das cidades. Desde criança, de três ou quatro anos de idade, sempre ouvia os distantes acordes do corneteiro anunciando a chegada do comandante militar e os ensaios de bandas e das fanfarras colegiais para os desfiles do Sete de Setembro. Esses ensaios eram frequentes a partir de uns quinze dias antes da data nacional. Nos tempos de colégio, a partir dos 12 anos, os desfiles do Dia da Pátria eram bastante esperados, a começar pelos ensaios dos desfiles. Eram realizados vários dias antes e representavam até mesmo a gostosa sensação de matar as aulas do último horário, chatas, todos os dias daquele período que antecedia a semana da Pátria. Mas essa não era a maior sensação. O gostoso mesmo era entrar no ritmo da bateria do tarol, surdos, bumbo, prato, lira, cornetas, tubas, bombardins e todos os demais instrumentos que compõem a banda marcial ou simplesmente fanfara, como dizíamos à época.

Ah..., os tarois, esses sim eram o ponto alto das fanfarras dos colégios em Lavras. Havia disputa entre os melhores instrumentistas dos dois principais colégios da cidade, o Aparecida (católico, de padres alemães) e o Gammon (presbiteriano, de missionários norte-americanos). Nunca se soube quem ganhava, pois cada qual a seu modo se declarava vencedor como a “melhor fanfarra” da cidade e o melhores tarolistas, aqueles dos estridentes e chamativos para a ação: tarará... tarará... tarará, seguindo-se o tan, tan-tan-tan... dos tambores que se posicionavam ao seu lado, em perfeita harmonia e cadências.  Para os meninos, os seus acordes de percussão, estridentes e vibrantes, eram um convite ao desfile com garbo no Dia da Pátria, especialmente diante do palanque das autoridades. Além do brilho das fanfarras, disputavam-se também os shows de lindas balizas que seus reluzentes e multicoloridos uniformes de cetim e lantejoulas, em perfeitas performances acrobáticas para delírio do público em geral e principalmente dos meninos que acompanhavam todo o desfile.

Com o passar do tempo e já com filhos grandinhos, passamos a frequentar os desfiles militares da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sempre com eles a tiracolo e com direito a ver as tropas e equipamentos bélicos das três Forças e de quebra o Presidente da República em seu Rolls Royce doado pela rainha da Inglaterra. Para as crianças, no entanto, era mais empolgante empoleirar nos gigantes tanques de guerra ou adentrar as cabines de aviões e helicópteros ali expostos justamente para atraí-los.

 Hoje, 7 de Setembro de 2020, faltando apenas dois anos para o bicentenário de nossa Independência, não teremos desfiles, mas o simbolismo e o significado dessa celebração, não serão esquecidos, pois afinal são 198 anos de Nação Livre e independente. Deu saudade do tarará-tarará, tan... tan-tan-tan em marcha pelos paralelepípedos da tricentenária cidade natal

Salve o 7 de Setembro!

 

Brasília, 07 de Setembro de 2020

Paulo das Lavras

 

 
Quatro tarolistas e um ao tambor. Fanfara do Colégio Aparecida,  em desfile de 7 de Setembro dos anos de 1960 
Foto: arquivos de Renato Libeck


  
Minha turma em desfile, acompanhando o tarará, tan, tan, tan da fanfara, em 1957 
Foto: arquivos de Renato Libeck


A mesma turma em 1963, último ano do colégio. Na primeira fileira, à esquerda, Adelino Moreira de Carvalho e logo atrás o Menino das Lavras. Dirigindo seu próprio carro, o Promotor de Justiça, Dr Ernane Franco da Rosa
Foto: coleção do autor, cedida ao acervo de Renato Libeck 


 
Em pé à direita, Júlio Cesar Romeiro, quartanista  de agronomia da Esal, em desfile de 7 de Setembro de 1966.  Ele nos deixou para sempre, na semana passada. Um pedaço de nós que se vai. R.I.P. 
Foto: arquivos de Renato Libeck


 
A banda do Batalhão de Polícia Militar de Lavras que tanto  atraía a atenção do menino desde tenra idade. 
Foto do autor - 7 de Setembro de 2012


 
Em 2017 o menino assistiu ao desfile de 7 de Setembro do palanque oficial,   como convidado especial do Prefeito José Cherem e seu vice, Duti (tomando água) 
Foto: arquivos de Renato Libeck 


  
Em Brasília, todos os desfiles do Dia da Pátria têm shows da FAB. Começam a ensaiar cedo, logo à 08:00h e nos despertam com seus barulhos em esquadrilha. Hoje o céu está mudo... 
Foto: internet


 
Mirage III da Base Aérea de Anápolis, num 7 de setembro - anos 1980. Quando não eram os Mirages, eram os F5-E da Base Aérea de  Santa Cruz-RJ. Seus jatos sibilantes com ensurdecedores rasantes sobre a Esplanada dos Ministérios eram uma das partes mais aguardadas das celebrações do 7 de Setembro. Certa vez, a onda de som deixada por dois deles, quebrou todas as vidraças do STJ, bem ali em frene ao Palácio do Planalto.

Foto: Secomsaer



Um ipê amarelo saudando o 7 se Setembro de 2014. Não me contive, estacionei o carro e fui procurar o melhor ângulo para uma foto. Se o 7 de Setembro não tivesse acontecido, como hoje, devido à quarentena do coronavirus, teria valido apenas pelo belíssimoa cenário. Neste ano a florada se antecipou em uma semana.

Foto do autor – edifício da PGR- Brasília DF



 
No cenário da 2ª Grande Guerra Mundial – semana da Pátria – QGEx – 2014 
Foto do autor 


Os quatro filhos, às vésperas de um 7 e Setembro, em 1986. 
Foto do autor


 
No Dia da Pátria no QGEx, em 2002..., com uma das filhas que havia ingressado como Oficial do Exército Brasileiro. 
Foto do autor


 
Em 2014 somente o netinho, Pedro Henrique, acompanhou o vovô. Mas, logo fez amiguinhos no palanque da festa cívica. 
Foto do autor


e aplaudiu o rufar dos tarois e tambores da Guarda Presidencial. .. tarará, tarará.. tan, tan tan, tan                            Foto do autor




































 





domingo, 30 de agosto de 2020

Chácara e amor aos animais – alegrias e tristezas

Não fui capaz de passar, ou melhor, suportar esse fim de semana em minha chácara, embora com muito sol e sem o frio que ainda assolava a região há uns dez dias ou pouco mais.  À chegada, no entanto, até me encantei e corri a apreciar e fotografar as belezas das flores dos ipês amarelos, das acácias rosas, ambos com suas enormes árvores de mais de vinte metros de altura. Também as bugainvilles explodiam em cores, as orquídeas nos troncos de árvores à sombra nos encantavam pelo seu deslumbramento em cores multivariegadas. Mais adiante, à beira do lago o cipó rosa enfeitava a cerca viva margeando o lago, numa linha florida de trinta metros de extensão, lembrando as enormes caudas coloridas de pipas , ou papagaios como se dizia na minha terra natal, nosso brinquedo favorito nos meses de ventanias de julho até meados de agosto. Esta linda flor, o cipó rosa, foi presente de um casal amigo, de Lavras, distante quase 1.000 km, que a produziu especialmente para me presentear.  Pois bem, a beleza paisagística era tanta e o deslumbramento tal, que, simplesmente, saltei do carro, deixando a cargo do caseiro a tarefa de descarrega-lo das poucas tralhas que sempre levamos para a chácara nos finais de semana. Corri a fotografar as belezas e ainda pude assistir ao duelo de dois tucanos de bico amarelo contra vários bem-te-vis em defesa de seus ninhos com filhotes.

 

Naquele périplo da “trupe” de cães que me acompanhava, alegre e quase sempre me derrubando, notei a falta do “amigo” mais velho. Acordei daquele transe encantador em meio a tanta beleza natural das flores em perfeita harmonia paisagística e dos cães de guarda que, como sempre, pulavam ao redor, brigando entre si na disputa de quem conseguiria lamber o rosto do “amigo/pai” que acabara de chegar. “Acordei” e me dei conta de que faltava o maior e mais antigo deles, Argus. Aliás, já no portão notei sua falta, o enorme e fiel cão da raça Fila, amarelo dourado. Era o “dono” do terreiro, com seu latido forte, era sempre o primeiro da calorosa “fila de recepção” do beija-mão, ou melhor, beija-rosto, lambidas e lambidas perigosas, pois sempre havia um outro a disputar e a empurrar e a morder o concorrente. Esse era o agitado ritual e muito barulhento, ali no portão de entrada da chácara. Dizia o caseiro que ele, Argus, de apuradíssima capacidade auditiva, era o primeiro a identificar o barulho, o som característico de meu carro, alguns minutos antes e então saía em disparada para o portão de entrada, acompanhado pelos outros cães. Pelo tempo, imagino que o carro ainda estaria a uns dois quilômetros de distância. E sempre admirava aquela sua capacidade de identificar sem erro a minha chegada. Mas, também, em tom de brincadeira, eu dizia ao caseiro que, então, se eu quisesse um dia flagrar o empregado dormindo eu teria que vir em outro carro desconhecido, já que os cães denunciam a minha chegada alguns minutos antes.

 

Ao adentrar o portão, o carro nunca podia se movimentar a mais que 5 km/h e necessitava de frequentes freadas bruscas de modo a evitar-se o atropelamento de algum deles que, tangido pelos outros em disputa da primazia de se aproximar da porta do motorista, era lançado contra o veículo. Lugar, aliás, sempre ocupado pelo mais velho de casa, o bonito Argus, imponente com seus 60 kg de peso.  Pois bem, encerrei o périplo em meio aos jardins, postei algumas fotos compartilhando a alegria com meus fiéis amigos nas redes sociais e fui à procura daquele que um dia fui buscar, ainda filhotinho, num famoso canil de reprodução, distante mais de 60 km da capital, na vizinha cidade de Luziânia-GO.  Ali peguei aquele filhotinho de pelo  aveludado, amarelo dourado, patas enormes e vigorosas que já indicavam que no futuro seria um animal de grande porte. Nascido nos primeiros dias de agosto de 2011,  foi a alegria das crianças quando chegou o filhotinho de cinquenta dias. Cresceu entre outros dois outros filhotes adotados para fazerem-lhe companhia. Logo, logo, Argus  se revelou o mais forte, mais valente e constante companheiro de minhas caminhadas pela chácara. Se atravessava o cercado e me dirigia para outras áreas, como galinheiro, pomar, horta, piquetes e baias dos cavalos,  estatelava-se na porteira e ali ficava imóvel aguardando meu retorno. Às vezes adentrava essas áreas, mas não perturbava, nem mesmo ao cavalo Ciclone que vinha receber de minhas mãos um agradinho, como uma cenoura ou banana que o manga-larga marchador adorava.  Ali, na área proibida aos cães, Argus se limitava a sentar-se e olhar e nunca avançou sobre o cavalo. Ao contrário, os vira-latas quando entravam naquela área cercada com tela, justamente para separa-los, infernizavam a vida do cavalo. Argus  se portava como um gentleman, sentava e esperava o dono se afastar do cavalo. Assim se portava também ao final das tarde em quando nos despedíamos. Não acompanhava o carro e nem ia até o portão. Ficava sentado à porta da sala, triste a contemplar a partida e  como a dizer... até a próxima semana.

 

Não sei o que outras pessoas pensam, mas estou convencido de que a proximidade com a natureza, com a beleza das flores, dos cursos de águas cristalinas que formam os lagos e nutrem as plantas e mata a sede do homem, as disputas entre os cães para “agradar” o dono ou até mesmo a luta momentânea dos bem-te-vis contra tucanos e em defesa de seus filhotes, nos torna mais amorosos, afetuosos, gratos a Deus. Tornamos-nos mais genuínos em meio a tanta sensibilidade e a beleza que é estar vivo. Estar vivo em tempos de pandemia já é por si uma dádiva e estar no meio dessa Natureza é ainda mais reconfortante. A ausência do animal de estimação, para sempre, pois tive que levar Argus para os cuidados de um médico veterinário, também se insere nesse contexto da natureza e nos torna mais sensíveis. Assim é a vida, com amor acima de tudo! Argus se foi para sempre, naquela tarde de sábado, 29 de agosto, exatos nove anos depois de sua chegada. O inimigo mortal, o câncer, o levou, mesmo depois de uma cirurgia  treze meses antes. Restou-lhe esse tempo de sobrevida, com todos os cuidados e amor que merecia.  Dei-lhe um último adeus, antes que o veterinário interviesse, um afago em sua pesada cabeça que tantas vezes me empurrava como a dizer..., estou aqui! Assim é a vida e a natureza é a mais bela fonte de bem estar para nossa alma. E se naquela manhã de ontem, sábado 29 de agosto, me senti inebriado, alegre, feliz em meio às flores e pássaros ali na chácara, a tarde não foi assim, pois perdi meu fiel guardião que me proporcionou alegrias por nove anos. Mas, assim é a vida e tenho muitas outras histórias verdadeiras sobre esses amigos que a natureza nos oferece. Uma delas, inclusive, foi publicada na lendária Revista Seleções do Readers Digest e aqui a indico, juntamente com a última foto, o link do blog onde se encontra disponível para leitura.

 

Os animais representam muito na vida do homem, são companheiros na Natureza. Cuidemos deles. Amar essas criaturas de Deus nos fazem mais felizes, equilibrados, em paz com a vida e assim, também, em harmonia com o Criador podemos amar muito mais nossos familiares e amigos!

Brasília, 30 de agosto de 2020

Paulo das Lavras 


   Argus, meu vigoroso e valente guardião em todos os lugares da chácara. Ninguém se aproximava. Não gostou nem de minha filha que se aproximou da rede de descanso do guerreiro e o fotografou. Ficou bravo e pôs-se a rosnar... A filha se assustou e reclamou. Respondi-lhe..., nada de reclamar, pois o cão está cumprindo sua obrigação de guardião do rei..., e aqui sou o único a reinar, lendo meu livro...rsrs.

Agora minha rede não vai mais balançar por sobre aquele fiel guardião.

Foto - nov 2013, Argus com apenas um ano de idade



  Filhotes de mesma idade, dois meses. Argus e dois outros sem raça definida, recebidos por adoção para lhes fazerem companhia. Criados juntos, ensinam-nos os adestradores, o cão se torna mais dócil, sociável. 

Foto- out.2011


 

 Com apenas seis meses de idade, Argus já dominava o território.

 



Argus, com oito meses e  ao lado de outro Fila tigrado mais velho.



Várias raças de cães passaram pela chácara, pastor alemão, vira latas (ótimos companheiros para os Fila), boxer, pointer e outros, mas, nenhum se comparara ao vigor e fidelidade da raça Fila Brasileiro. Onde você estiver ele está junto e ninguém se aproxima, pois ele intimida e afasta quem quer que se aproxime.




 Dois Filas Brasileiros, diferentes do Argus, tigrados e um pointer no meio deles.  

Foto: abril de 2007



 Pantera a primeira da raça Fila amarelo dourado a viver na chácara

Foto: 1983



 Um boxer na chácara, ainda filhote

Foto: 2003



 Bob, o primeiro cão da chácara- 1983. Um SRD, adotado após ter sido atropelado na rua e tratado por uma colega veterinária que o presenteou à minha filha que orgulhosamente o comandava, como visto na foto. Desde então nunca mais ficamos sem uns

 três ou quatro cães na chácara.

Foto: 1983


 

Em meio às flores do jardim, ainda assisti na manhã de ontem, a batalha de dois tucanos (no alto do pinheiro), quando em retirada sob ataques dos  bem-te-vis (um dos quais aparece em baixo à esquerda da foto, no último galho) que ferozmente defenderam seus filhotinhos no ninho. 



1-     O adeus final cortando coração de quem um dia o trouxe no

colo e agora afaga sua cabeça, num último gesto antes da intervenção do veterinário.

Foto: 29/08/2020



1-     Candu- o Super dotado, vira lata de raça predominantemente Pointer, o mais inteligente que já passou pela chácara e que rendeu uma bonita história, publicada na lendária

Revista Seleções do Readers Digest (edição de abril de 2012 pag 137). Veja também e se alegre com essa bela história no blog:

 

http://contosdaslavras.blogspot.com/2014/10/candu-o-adotado-superdotado.html