quarta-feira, 8 de junho de 2016

Chororô, lágrimas de despedida

                                                                                 (crônica com 1.228 visualizações em 06/09/2022- 20:00h - blogger)

Adeus para sempre nunca existiu na minha vida. Acostumado a constantes viagens de trabalho, o ir e o vir tornaram-se rotina. Nas despedidas sempre estava presente o fator “plano de viagem”, com data de retorno e logo a seguir a previsão de nova partida, para outro diferente lugar. Por isso as despedidas eram sempre mais suaves do ponto de vista emocional, embora chegasse a passar mais de 200 dias por ano fora de casa, em sucessivas viagens. Foi assim até mesmo quando me mudei para Brasília e deixei o torrão natal, nas Minas Gerais. Havia um plano para se ficar apenas dois ou três anos e em seguida retornar para a universidade, onde exercia as funções de professor e pró-reitor.  Porém isso não aconteceu e eis que já se passaram 40 anos.  À parte as primeiras despedidas chorosas, dos filhos pequenos, sempre engambelados com a promessa de uma lembrancinha de viagem, pode-se dizer que essas despedidas eram recheadas de certa alegria, ainda que tímida, pela certeza de que na volta ganhariam “novidades” compradas em outros lugares, especialmente dos EUA, de onde vinham as maiores surpresas de brinquedos inovadores, inexistentes no Brasil. Foi assim com o mini-projetor de filminhos clássicos de White Snow, Three Little Pigs e muitos outros com locução em inglês, o que até motivou as crianças no aprendizado daquele idioma. Em outra vez foi a sirene de carro de policia, própria para instalação na bicicleta e um jogo de radiocomunicação walk-talk. Uma perfeição e quando tocavam a sirene, todos se confundiam até mesmo os adultos daquele final dos anos 70 e início dos 80. Na escola, com os mini-projetores da Fisher Price, ou ainda na área de lazer do prédio, com as estridentes e idênticas sirenes de carro de polícia, o sucesso era certo, pois todas as crianças queriam experimentar as novidades, ainda inexistentes nas lojas nacionais. Assim, para as crianças, as constantes despedidas no aeroporto soavam mais como um papai-noel que iria buscar os presentes.

Embora quase não tivesse havido chororôs nas despedidas, o coração sempre apertava e a solidão nos longos voos internacionais, a demorada permanência fora de casa em ambientes totalmente desconhecidos faziam rolar, muitas vezes, lágrimas doídas e inevitáveis, como a contradizer a “falsa alegria” da viagem. Pensando bem, acho que as promessas de presentes novidadeiros foram apenas uma tática usada para enganar o coração, pois os registros do subconsciente da alma desmentem-nos a toda hora. Lembro-me de um longo chororô, ocorrido aos 12 anos de idade, quando da despedida do pai e da irmã que deixaram o menino no internato do Seminário, a 16 horas de distância, por trem maria-fumaça, passando por Ribeirão Vermelho, terra dos ancestrais, a caminho da capital mineira. Ainda hoje, a memória insiste em transformar o passado em presente e se recusa a apagar aquela marcante passagem de minha vida. Da mesma forma, procuro enganar a mente tentando desligar as lembranças de pessoas queridas, os parentes e amigos distantes, pois morando a quase 1.000 km de distância, ficamos alijados das visitas dominicais, almoços, aniversários e confraternizações. A distância impede a presença mais constante de parentes, amigos de infância ou de colégio. Brasília é a capital dos brasileiros, nova e eclética, sem tradições centenárias de laços familiares e do bem acolher, receber na cozinha, como se faz na terra dos mineiros. Aqui estão os brasileiros de todas as regiões, com os mais distintos costumes e sotaques. Familiares por aqui são raros, apenas os filhos. E nesse contexto, a partida em longa viagem do pai de família deve mesmo abalar os sentimentos de quem fica e também de quem parte. Os presentinhos só enganam as crianças, pois para elas não existem passado e nem futuro, é só o hoje, o agora. Por isso vivem a perguntar, meu pai vai chegar hoje? E quando eles próprios estão em viagem, logo nos primeiros minutos perguntam se já está chegando a casa da vovó, ou o destino combinado.

Mas, nesse campo do chororô da saudade a mente não trai. Ela sabe quando destampar a bica das lágrimas. Mas ela, a mente, também não me engana mais, pois aprendi que ela só deixa verter as lágrimas quando a experiência do passado foi marcante e assim permanece indelével na alma. Felizmente nossa mente tem capacidade de armazenar muito mais as boas experiências do que as ruins. Assim, quando for visitar algum lugar, especialmente os da infância, ou simplesmente deixar bater a saudade de alguém querido, saiba que não adianta querer enganar o coração. A mente já determinou previamente que as lágrimas vão rolar e assim deixe o chororô falar mais alto e mostrar que você é feliz! As lágrimas lavam a alma. Um filósofo disse que elas são o supremo sorriso. O certo é que elas são o transbordamento de emoções que, de tantas, nem cabem no coração. Representam palavras não ditas e que aquecem os corações cheios de amor. Por isso elas não doem e expressam uma esperança ou certeza.

          Ah..., o título da crônica é “Chororô, lágrimas de despedida”? Errei..! Deveria ser  “Chororô de chegada”, pois era quando eu desabava, comprovando que o melhor da viagem é a volta para casa, o porto seguro da alma, sobretudo quando, antes mesmo do desembaraço das bagagens, avistava ao longe as crianças alegres, de olhinhos arregalados, ansiosas a correr para o abraço. Foi assim no primeiro dia de chegada de minha família, quando fui busca-la no aeroporto de Brasília, a cidade que escolhemos para morar. E chegadas assim se repetem a cada reencontro no lar. É preciso viajar muito para saber o valor de sua casa, seu lar, refúgio da alma. Lágrimas para que te quero.... Não sei por que a imprensa e o cinema teimam em só mostrar os chororôs das despedidas. O adeus não existe para mim, pois quem tem uma família nunca estará só, ainda que esteja distante e em longas viagens.

Brasília, 08 de junho de 2016


Paulo das Lavras 



 
Um chororozinho despistado, por detrás da câmera, na melhor chegada de viagem
que assisti, do alto da sacada do aeroporto de Brasília, quando recepcionei a família
chegando para morar na capital, em 1975. Duas gêmeas com as respectivas babás e 
a mãe, à frente, com a menor no colo




Viajar, ainda que por muitos dias, com a promessa de
 trazer um presente diferente..., evitava o chororô das despedidas, tanto
 do pai quanto das filhas pequenas. E esse projetor com vários filmes
 infantis, realmente era surpreendente, pois não havia nada igual no país
naqueles difíceis tempos de importação. Há poucos dias, uma das filhas,
 remexendo caixas lacradas, na chácara, chegou até mim, com esse brinquedo
 que aparece na foto. Esse gesto, por si, demonstra as boas lembranças que ela cultiva
 de um presentinho recebido depois da viagem do pai. Os cartuchos de filmes estavam
intactos, as engrenagens e respectiva manivela que fazem girar o filme, também. Os netos, crianças de hoje, 35 anos depois, vibraram com a descoberta desses “dinossauros” diante das
 modernas parafernálias eletrônicas de touch screen dos tablets e smartphones.



 
A sirene de Polícia, instalada nas bicicletas, fez sucesso entre
 a meninada do prédio. A reposição de baterias era constante
  

 
Após minha chegada de viagem e ainda no estacionamento do aeroporto,
parece que alguém mais queria usar o sombrero


 
depois de quase 40 anos, assisto a uma chegada diferente, Sarah aos
cinco anos, em sua primeira Corrida Kids... é correr para o
abraço, com chororô na certa....


 
outra chegada diferente, depois de quase 40 anos..., o neto chega ao
final do ano, com troca de faixa. Pedro, de 6 anos... Um abraço e....

  

As lágrimas lavam a alma. São o supremo sorriso, transbordam as emoções que, de tantas, nem cabem no coração. Representam palavras não ditas e que aquecem os corações cheios de amor. Por isso elas não doem e expressam uma esperança ou certeza.
E crianças são especiais demais. Tantas vezes, ao chegar de viagem, sentei-me, de terno e gravata, no chão do aeroporto e derramei lágrimas ao receber o abraço dos filhos. Agora, veja a belíssima foto acima, a mãe voltando da guerra do Iraque e ouvir: Hi, mom.. I miss you... e então diga: quem não choraria? Pode ser que o chororô da despedida seja protagonizado pelos que ficam, mas na chegada em casa... Nunca tive vergonha de chorar, sentado no chão do salão de desembarque com três crianças agarradas no meu pescoço. Alma lavada...., coração explodindo!







domingo, 29 de maio de 2016

A Arte de Ser Professor


Hoje é Dia mundial do Professor - Entrevista/ CONFEA                           ( 1.340 acessos em 16/10/2022)

Embora se comemore no Brasil o Dia do Professor em 15 de outubro, você sabia que mundialmente esse profissional é homenageado em 5 de outubro? No Confea existem alguns professores; entre eles, estão Danilo Sili Broges, da GPP, Paulo Roberto da Silva, da GRI, e Otaviano Eugênio Batista, da GCI.

 
Prof. Paulo Roberto da Silva

         Desde os 24 anos, Paulo Roberto dá aula em nível superior. Ao todo, são 41 anos de dedicação em salas de aula. Segundo ele, cada dia é um aprendizado novo. “Ser professor é um prazer renovado, pois lidar com jovens requer uma alta dose de compreensão e entusiasmo pelos sonhos que cada um tem”. Ser professor para Paulo Roberto é ter responsabilidade ética não só de ensinar as técnicas, mas, sobretudo, de procurar formar um cidadão e profissional competente e consciente da sua profissão. “Ser professor de curso superior nas áreas do Sistema Confea/Crea é um privilégio, sobretudo quando se ensina ética e legislação profissional”, afirmou. Segundo ele, a carreira de professor sempre foi muito respeitada por todas as pessoas e em todas as épocas. Ele acredita que isso acontece pelo elevado grau de amor e dedicação dos mestres aos seus alunos.


                    Na entrevista acima, concedida em 2010, no Dia Internacional do Professor, por ser de cunho mais formal não pude dizer que, na verdade, me tornei professor desde os 16 anos, quando ministrava aulas particulares, remuneradas, de matemática para candidatos a exames de admissão ao ginásio. É isto mesmo. Na década de 1950 e início de 60, havia a exigência de se prestar exames de qualificação para ser admitido no curso ginasial, que corresponde hoje ao período da 6ª a 9ª série do ensino fundamental. Mais tarde, já no curso científico, 2º grau atual, aceitei o pedido do professor de matemática, Nelson Werlang, recém-chegado do Sul, jovem, querido e admirado por quase todas as garotas da cidade, para substituí-lo e dar uma aula para o 2º ano do curso de normalista do Colégio N.S de Lourdes, frequentado só por meninas. Assim era também, na década de 60, quando ainda havia colégio para meninos e outro só para as meninas. Entrar no colégio delas..., nem pensar..., a gente tinha medo até de ser “mutilado” pela Irmã Superiora, tal era o rigor do controle. Entre os rapazes a aposta máxima era quem conseguiria adentrar aquela sagrada e impenetrável fortaleza...


            Lá fui eu, todo faceiro, com a melhor roupa, sorriso largo e matéria na ponta da língua que ele, o Prof Nelson, havia me repassado ali mesmo, na arquibancada do campinho de futebol, onde nos encontrávamos. Rabiscou uma reta e a equação numa meia folha de caderno. Ainda me lembro que a matéria de geometria que seria ministrada versava sobre as propriedades da linha reta. Nela se marcavam os extremos A e B e mais um ponto “C” em qualquer local de sua extensão. Assim, arma-se a equação: CB/AC = AC/AB. Daí resultava que considerando a reta de valor igual a 1, e o segmento AC=X, o outro segmento CB será igual a 1-X.  Substituindo-se as letras pelos valores, resulta que 1-X/X = X/1, donde a equação se resume à expressão algébrica x² + X -1 = 0. Nada como o repetez, repetez toujour, pois quase 50 anos depois, numa de minhas visitas a Lavras, eis que encontro o Prof. Nelson, entrando numa lanchonete e antes que me avistasse, gritei bem alto: Der Lehrer Werlang...”. Alemão, era seu segundo idioma preferido e no qual foi educado na infância. Sorridente veio até a mesa, tomamos um café e relembramos aquela aula em que lhe substituí, no longínquo ano de 1963. Mente brilhante, mesmo aos 80 anos, foi logo dizendo que aquela equação dos segmentos da reta tinha o nome de “Divisão Áurea de um Segmento de Reta” e ali mesmo, sobre o guardanapo, rabiscamos e resolvemos um problema hipotético por ele formulado, com aquela equação. Doce recordação e ótimo exercício mental.  


Dia seguinte ao pedido do mestre, dirigi-me ao Colégio e a primeira providência foi apresentar-me  à Madre Superiora (puxa que arrepio..., pois o folclore pinta essa figura como o terror do colégio e ali estava um rapaz, jovem, sabe-se lá com que intenções para cima daquelas garotas, pensava ela, certamente...). Dominando bem o assunto, o jovem estudante/professor demonstrava bastante autoconfiança. Em seguida, ainda um pouco apreensivo fui direto à sala de aula. À porta respirei fundo, cabeça erguida, autoconfiança em alta, adentrei com toda a pompa e circunstância que se exigia do professor naqueles idos de 1963. Mas eu disse autoconfiança em alta? Sim, mas... porém, todavia, entretanto, contudo não obstante e ainda assim....., surgiu um detalhezinho imprevisto pelo todo empertigado e neófito professorzinho substituto. Ali, naquela classe, estava ninguém menos que a própria namoradinha, paixão recém conquistada e de conhecimento de toda a classe (qual a mulher que resistiria a um segredo desses....?). O mundo veio abaixo, o rubor se espalhou pela face diante dos olhares e risos de surpresa de toda a turma de meninas (eram mais de 40 e só meninas) que sabiam e apoiavam o namoro da colega com aquele jovem e agora "importante" professor substituto que acabara de adentrar a classe.


            O jovem professor, atrapalhado no íntimo, não se fez de rogado. Cumprimentou a todas, sentou-se à mesa, num tablado elevado e iniciou a célebre chamada nominal de cada aluna, registrando no Diário de Classe as presenças e faltas. Risos contidos, feições traindo a emoção e certamente as coisas iriam se complicar quando fosse declinado o nome dela que, a essa altura, estava nas nuvens conforme confessara posteriormente. Mas, outra vez não se fez de rogado... pronunciou o nome, ironicamente e com ar de convencido, sorridente, disse: "essa eu conheço bem"... e... gargalhada geral. Foi uma catarse. Terminada a chamada e as brincadeiras que nos permitimos, o novo professor pôde então iniciar sua aula e cumprir o compromisso sem que houvesse qualquer perturbação no ambiente respeitoso que se instalou a seguir. Durante 50 minutos a aula transcorreu normalmente. Após a explanação sobre a teoria da “Divisão Áurea de um Segmento de Reta”, passaram-se aos exercícios para a fixação dos conteúdos.


            Esta foi a minha primeira aula formal e embora tensa no início, a considero como a melhor e mais divertida que ministrei ao longo desses quase 50 anos de magistério. Deve ser por isso que adquiri gosto pela carreira e, certamente, aquela primeira aula em uma classe formal muito contribuiu para isso. Além disso, no decorrer do 2º e 3º ano do curso científico, outro jovem professor, Roussaulière Mattos, lavrense, recém graduado pela PUC-RJ em Química e Física, convidou-me para ser monitor naquelas disciplinas. Aplicava provas mensais para outras turmas e ajudava na preparação de aulas práticas nos laboratórios do colégio, o que se traduziu em prestígio e respeito entre os colegas e maior desempenho nos estudos. Lembro-me que algumas experiências com motores elétricos eram descritas em compêndios em idioma inglês, o que dificultava ainda mais a produção de textos para acompanhamento dos alunos. Assim fui adquirindo gosto pela atividade de docência além de receber maior estímulo ao aprimoramento nos estudos. Toda essa experiência em sala de aula, iniciada ainda bem jovem, devo a esses dois eminentes educadores que incentivaram e confiaram-me a honrosa missão de seguir seus passos.


            Ao rememorar o dia do Mestre, volto o meu olhar para esse distante passado e, agora, no presente, ainda desfrutando do prazer da sala de aula, resta-me agradecer a Deus por tudo isso. Ter tido o privilégio de lidar com os alunos no ensino superior, ao longo de toda a minha vida profissional, foi uma benção, pois sempre mantive o espírito jovem, acreditando num brilhante futuro para todos eles.


Brasília, 05 de outubro de 2010/ novembro 2015

Paulo das Lavras 


 
                       Prof. Nelson Wilibaldo Werlang  –   Renomado professor de Matemática em                             
     Lavras-MG. Iniciou   a  carreira  em 1955  no  CNSA e  aposentou-se na UFLA                    
 (foto da década de 1960- Arquivos de Renato Libeck).                                
                                                  


 
Prof. Rousaulière Mattos, entregando diploma do 3º Científico a Paulo das Lavras, dezembro de 1963.
Roussaulière iniciou a carreira docente no CNSA, em 1962 e aposentou-se como professor da UFLA.
Coincidentemente, Nelson Werlang, Roussaulière e Paulo Roberto terminaram suas carreiras docentes na Ufla
Paulo inicou como docente universitário, na Ufla, em 1969, antes de seus dois queridos mestres do colégio. 


 
Na arte ser Professor..., tem lá suas recompensas... Ser homenageado pela Universidade Federal de Lavras,
como o fundador dos cursos de Pós-Graduação da Universidade... foi uma grande honra. Solenidade dos
40 anos de fundação da PG. Reitor Scolforo (à direita), Coordenadoras Patrícia e Laene (à esquerda) - Ufla, 11/2015.



Antigo dormitório das meninas do Colégio de Lourdes
Foto: arquivo de Renato Libeck



Pos scriptum: O querido  e respeitado Professor Nelson Werlang falecu em 18/11/2018. Cerca de um ano antes o visitei em sua casa em BH. Foi um momento de muita descontração e alegria, conforme mostra a foto abaixo:





sábado, 21 de maio de 2016

Capelinha das Fazendas do Açude, Limeira e do Meio - Ribeirão Vermelho- MG

  (crônica com 3.306visualizações em 12/12/2023 -  blogger)
A capelinha das Fazendas do Açude, Limeira e do Meio, localizada a poucos metros da rodovia Ribeirão Vermelho/ Rodovia Fernão Dias, nas coordenadas: 21° 8' 49.73" S 45° 4' 47.79" W está em ruínas. Eu não a conhecia. Quando menino eu apenas a contemplava de longe, a 10km de distância, do outro lado do rio Grande, no município de Lavras, lá do alto da fazenda Retiro (zona rural das Tres Barras). Por relatos de meus ancestrais ribeirenses, das famílias Pereira da Silva e Salles, soube que eles a frequentavam no passado, antes da década de 1960.

Visitei-a na semana passada. Fiquei encantado com a sua arquitetura. É a mais bonita de todas as que visitei e fotografei (Três Barras, Cervo, Farias, Fábrica Velha, Criminoso e Boa Vista, todas essas no município de Lavras). Entretanto, abateu-me um profundo pesar por vê-la totalmente abandonada, em ruínas. Uma pena.

Sou professor aposentado da Universidade Federal de Lavras e do MEC. Resido em Brasília e estou escrevendo um livro sobre a genealogia da Família Salles, de Lavras, cujo patriarca Domingos Pereira de Salles (pai de minha vó) foi o proprietário da Fazenda do Meio, às margens do Rio Grande, no município de Ribeirão Vermelho. Outros parentes tinham glebas nas fazendas do Açude e da Limeira, também em Ribeirão Vermelho e ainda no Barreiro, na divisa Ribeirão Vermelho/Perdões. Essas fazendas circundam a capelinha em questão. Um dos capítulos do livro será, justamente, sobre a religiosidade e as capelas rurais, em torno das quais se desenvolviam intensas atividades sociais, incluindo-se o uso de algumas delas para escolas, casamentos, batizados e até mesmo sepultamentos, como foi o caso da Capela da Fábrica Velha.

Assim, gostaria de contar com a colaboração dos amigos para levantar alguns dados e relatos sobre essa bonita capelinha das fotos, incluindo:
1- Data de inauguração
2- Nome atribuído à capelinha (seria S. Sebastião?). Alguém teria dito que o local se chamaria Luna. Na verdade, há uma meia-lua e uma estrela em alto relevo na fachada.
3- Quem a construiu?
4- Proprietário do local, atualmente
5- Histórias e casos sobre a capelinha (eventos, etc)
6- Há chances de se restaurá-la? Embora esteja em ruínas, a estradinha de acesso tinha sido patrolada no dia anterior à minha visita, incluindo todo o arredor da capelinha. Será que há planos para recuperação da mesma? Tomara! Assim espero

Ficarei muito grato sobre qualquer informação, incluindo indicações de livros, artigos de jornais ou sites que falem dessa bela igrejinha, ou nomes de pessoas e respectivos contatos (e-mail, telefones) com as quais eu possa falar e colher informações para o resgate de sua história.
Imagino que pela sua beleza arquitetônica, deve ter representado muito para as populações rurais do século passado e com certeza haverá, ainda hoje, alguém que a frequentou e dela falará com muito gosto e amor.
           Obrigado

Brasília, 20 de maio de 2016

Paulo das Lavras  -      

 paulosilvadf@gmail.com  




 
Belíssima fachada da capelinha das fazendas do Açude, Limeira e do Meio - Ribeirão Vermelho-MG.

Foto tomada em 14/05/2016
Embora esteja em ruínas, a estradinha de acesso tinha sido patrolada no dia anterior, incluindo todo o arredor da capelinha. Será que há planos de recuperação da mesma? Tomara!

  




 
 Uma pena! Assim está o interior da capelinha

Detalhe da fachada. Símbolos semelhantes aos da Bandeira Nacional da Turquia.
Teria sido construída, a capelinha, por algum imigrante sírio-libanês, no início do século XX, quando se deu grande fluxo desses imigrantes para o sul de Minas?


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Luto... Brasília amanheceu triste

Luto... Brasília amanheceu triste. Seus canteiros de flores choram. Ozanan Coelho, o agrônomo que transformou, literalmente, a cidade num canteiro florido, partiu repentinamente. Foram 40 anos de trabalho, transformando a capital numa cidade-parque que encanta a todos os seus três milhões de habitantes e inúmeros visitantes. Sem igual no mundo inteiro! Deixou sua marca indelével em nossos corações, a beleza da cidade em flor, que tanto tenho cantado e exaltado em crônicas. Ozanan, pessoa simples e embora diretor-geral da Novacap, trabalhava com a porta aberta, como ele própria dizia. Entra quem quiser, recebo a todos igualmente e o máximo que pode levar é um não... , completava ele. Lembro-me dele desde o ano de 1980, quando solicitei-lhe, em seu gabinete e gentilmente concedeu um estágio para paisagista da UFLA. Também deixou lembranças como incentivador da criação de jardins em todas as casas, produzindo e fornecendo mudas  a preços acessíveis. Brasília é hoje exemplo de consciência ambiental, paisagística. Aqui, os jardins são os únicos patrimônios totalmente livres, sem nenhum cercamento ou policiamento e ainda assim plenamente respeitados. Nunca houve um único caso sequer de vandalismo contra as flores e jardins. Todos os admiram.


O poeta Rubem Alves aponta pelo menos uma razão para se gostar de jardins: “Um jardim é a face visível de Deus, é o seu rosto sorridente…”. E num jardim estou no paraíso, completa o autor. Plagiando a metáfora do poeta, podemos afirmar que, em Brasília, vivemos num paraíso, cercado de flores em seus milhares de canteiros e mais quatro milhões de árvores, a maioria floríferas exuberantes, além de outros tantos milhões de metros quadrados de gramados. As flores enfeitam a alma. Não é a toa que o altar das celebrações religiosas é enfeitado com flores, pois alegram mais ainda a alma e ajudam a nos aproximar de Deus. Da mesma forma enfeitamos a nossa casa, a mesa da festa, qualquer que seja. Até na morte enfeitamos a viagem para a última morada dos entes queridos, como que a alegrar-nos, sabendo que estamos retribuindo o amor que deles recebemos em vida.


Tenho certeza que o mestre jardineiro, Ozanan Coelho, terá hoje o seu féretro enfeitado em alameda florida, pois em vida ele pavimentou muito bem o seu caminho. Estarei lá para levar ao amigo e respeitado profissional, o último tributo de gratidão. Enfeitou toda a cidade, por longo tempo. Que Deus o receba com flores, da alma, pois as flores do campo nós lhe oferecemos hoje, nessa despedida para a morada final. Ainda que essas flores  que levaremos tenham sido plantadas e cultivadas por ele, no campo ou ainda inspirando, diariamente, nossa alma que aprecia e reverencia a beleza dos jardins. Por isso lhe retribuímos com gratidão. Pena que hoje, ao pegar uma flor para levar à sua despedida, nos invade um sentimento de profundo pesar, pelo passamento daquele que viveu entre elas. Como Ruben Alves, ele também será eternamente conhecido e reconhecido como o homem que enfeitou Brasília, amava as flores!

Brasília, 9 de maio de 2016

Paulo das Lavras


 

 


A Congea tomentosa, em grande e exuberante volume, em minha
chácara. Inspirada nos jardins do Centro de Convenções Ulisses
 Guimarães, da década de 1990 







sábado, 30 de abril de 2016

A travessia do Rio Grande: deu com os burros n´água...

     (crônica com 3.855 visualizações em 12/07/2023 - blogger)

Samuel Gammon, fundador do Instituto Gammon, célula mater da Faculdade Gammon de Administração-FAGAM e da Universidade Federal de Lavras- UFLA, atravessou o Rio Grande, de balsa, várias vezes. A primeira foi em março de 1892, quando veio inspecionar a cidade de Lavras para onde desejava transferir o Colégio Internacional de Campinas. A cidade paulista estava sendo devastada pela febre amarela que ceifou muitas vidas entre 1889 e 1899, reduzindo sua população a apenas um terço. Chegou-se a registrar até cinquenta mortes num único dia. Vinte mil ali morreram, atacados pela maldita febre, incluindo dois dedicados companheiros do Reverendo Gammon, os missionários Dabney e Edward Lane. Este, seu grande amigo e incentivador a vir como missionário para o Brasil, quando ainda cursava o Union Theological Seminary, de Farmville-VA. Dr Lane faleceu vitimado pela febre, em Campinas, no dia 26 de março de 1892, e seu amigo Sam recebeu a noticia, via telegrama, no mesmo dia. Diante da dor da perda do amigo que lhe incentivara a vir para o Brasil e também à Lavras, o Rev. Gammon contemplando à sua frente a majestosa Serra da Bocaina que emoldura a cidade, lembrando-lhe a não menos majestosa cordilheira dos Alleghenies, onde passara a infância na fazenda cuidando dos animais desde cedo, tomou a célebre decisão que iria mudar o destino e a sorte de Lavras para sempre: “: “Eis aqui a Terra Prometida pelo Senhor, onde pregarei a sua palavra. Será aqui, nesta cidade, a nova sede do Colégio Internacional, que deixará Campinas o mais rápido possível”. Havia que se apressar a mudança do colégio, pois seria impossível mantê-lo sob ataque da devastadora peste da febre amarela. Embora o acesso à cidade de Lavras não contasse ainda com a ponte metálica sobre o Rio Grande e tampouco a ferrovia, a decisão do Rev. Gammon se baseou nos planos da companhia ferroviária de estender os trilhos até a cidade. Havia a balsa que fazia a travessia ligando-a ao distrito de Ribeirão Vermelho como único meio de transporte até então. Mas ele sabia que Lavras se tornaria importante centro regional e ali teve excelente acolhida pela comunidade. Certamente essas características, aliadas à semelhança do espinhaço da Bocaina com sua terra natal, em Rural Retreat, na Virgínia, foram fatores preponderantes na escolha da nova sede do Colégio Internacional. Lavras foi, sem dúvida, a “Terra Prometida” que ele sonhou aos pés das montanhas Alleghenies, pois até mesmo a serra da Bocaina estava ali, imponente, a lembrar-lhe os sonhos e ideais do jovem missionário. 


Mas, os rios sempre estão presentes no processo de exploração e ocupação de novos territórios. Se por um lado são fontes de água e alimentos de pronto uso, com seus pescados e caças nas matas ao seu redor, também representam obstáculos e dificuldades na sua transposição pelas populações ribeirinhas. Não foi diferente em Lavras com o Rio Grande, de largura de 100 metros ou mais em determinados trechos a partir de Ribeirão Vermelho. Esta cidade, que no passado foi distrito de Lavras, era o centro regional de operações da Cia Estrada de Ferro Oeste de Minas - EFOM. Sua estação ferroviária foi inaugurada em 14 de abril de 1888 e a grande ponte metálica sobre o rio, em novembro de 1892. A ligação ferroviária à Lavras demorou um pouco mais, pois foi inaugurada em solenidade especial com a chegada do trem de ferro somente em 14 de abril de 1894.  Foi notável a importância daquela estação ferroviária do Porto Alegre, assim conhecida a partir do ano de 1880, início da navegação do Rio Grande. Em 26 de novembro de 1889 passou a ser chamada de Estação de Ribeirão Vermelho. Ali era o ponto de entroncamento das bitolas estreita (0,76 m) e larga (1,00 m) da ferrovia entre Barra Mansa-RJ e Catalão-GO. Acrescente-se ainda, à importância da estação ferroviária, a existência do porto fluvial situado estrategicamente ao seu lado e inaugurado em 1880, antes mesmo da ferrovia (1888). A navegação do Rio Grande contava com o mais moderno tipo de embarcação, os barcos a vapor, iguais às do rio Mississipi nos EUA, aliás, lá fabricados e importados pelos diretores da Cia de Navegação, Francisco Alves de Azevedo, José Jorge da Silva Penna e o Capitão Evaristo Alves de Azevedo, avô do famoso escritor Rubem Alves e dono do mais belo sobrado que ficava situado na praça central de Lavras.


Os barcos a vapor percorriam uma rota de 208 km a partir de Ribeirão Vermelho, chegando até o porto de Capetinga, próximo a Capitólio. Transportavam mercadorias, viajantes e seus animais de carga que demandavam as duas cidades vizinhas, separadas por nove quilômetros, Lavras e Ribeirão Vermelho. E como chegar a Lavras, antes daquela grande ponte rodoferroviária de 1892? A travessia do rio era feita por meio de barcas, ou balsas, presas por cabos de uma margem à outra, tal qual ainda existia entre Lavras e Macaia até os anos 1980. O porto fluvial com seus vapores, únicos até então no país e o entroncamento ferroviário ligando os quatro cantos do país, foram motivos de atração para um grande número de imigrantes de toda parte, inclusive de outros países, como Portugal, Itália, Espanha e Líbano. Foram essas, algumas das razões que o Reverendo Sam Gammon declarou em seu relatório, justificando a escolha de Lavras para sediar o colégio. Naquele mês de março de 1892, ele e seu colega de viagem, o Reverendo Chamberlain, atravessaram o caudaloso rio em uma barca ancorada no antigo Porto Alegre. A mudança definitiva do Colégio de Campinas para Lavras chegou em novembro de 1892. Da Estação de Ribeirão Vermelho, os missionários rumaram a cavalo para Lavras e a mudança, composta de móveis, livros e demais utensílios, além dos bens domésticos, seguiu em carros de boi pelos 9 km de caminhos margeando o córrego conhecido por ribeirão vermelho.


Como se pode depreender, o tráfego era intenso e a barca de travessia, ou balsa como era conhecida, se constituía no único meio de transporte de cargas, viajantes e seus animais daquela região. Mais sorte tiveram os habitantes da região do Funil do Rio Grande, onde a ponte metálica, conhecida por Ponte do Funil, foi construída pelos ingleses em 1869, bem antes daquela da ferrovia, em Ribeirão Vermelho. Um pouco mais acima dessa ponte havia outra balsa que fazia a travessia de Lavras para Macaia, onde foi inaugurada outra ponte de concreto já nos anos de 1980.  Um pouco antes de sua desativação, atravessei o rio naquela precária balsa, presa por um cabo de aço a ambas as margens do rio. Chegava a ser amedrontadora a correnteza do caudaloso e largo rio, até atingir a margem oposta, no vilarejo de Macaia. As mercadorias e viajantes transitavam por entre as regiões de ambos os lados do volumoso rio que entrecorta as montanhas e delas recebe seus córregos tributários. Por esses córregos se desenvolviam as explorações do ouro de aluvião e quando se esgotaram essas fontes de riqueza surgiram as fazendas com suas atividades agropastoris. E muitos eram os pontos de travessia. Abaixo de Ribeirão Vermelho, do lado direito do rio, um pouco mais distante da margem estava o arraial de Bom Jesus dos Perdões que mantinha intenso intercâmbio com as fazendas de Lavras, do outro lado do rio. O ponto de travessia daquela região, mais abaixo do antigo Porto Alegre, se localizava nas proximidades da atual ponte da rodovia Fernão Dias, a BR 381. Ali existia outra barca, semelhante à do Porto Alegre e que atendia, pela margem esquerda a população de extensa região, abrangendo as fazendas Três Barras, Criminoso e adjacências, especialmente a da Fábrica de Tecidos, a Cia de Fiação e Tecidos União Lavrense, conhecida por Fábrica Velha. Pela margem direita atendia principalmente à fazenda Bela Vista, cujos proprietários, João de Pádua e filhos residiam em Lavras. Essa zona rural de Lavras e Perdões foi a mais desenvolvida da região. A fábrica de tecidos, inaugurada em 1890, construiu o Porto de Dr Jorge, na margem esquerda do rio, distando cerca de 12 km de Ribeirão Vermelho, onde se situava a ponte mais próxima. Portanto, era imprescindível que ali existisse um serviço de balsa para travessia do rio  Os fazendeiros mantiveram o serviço de travessia na barca até a inauguração da grande ponte da rodovia, em 1959. Interessante notar que todos os moradores da região, das fazendas Três Barras, Rio Grande, Barro Preto, Cervo, Jacuba, Criminoso, Boa Vista, Grotão, Fabrica Velha e adjacências, eram originários de Ribeirão Vermelho. Ali se concentravam os descendentes das famílias Salles e Pádua, primos de primeiro grau, descendentes de Antônio Pádua da Silva Leite (1769-1849), filho do patriarca Manoel da Costa Vale (1704-1783), que imigrou de Portugal para o Brasil em 1720 e chegou a Lavras em 1750 e ali se estabeleceu definitivamente. Sua imensa prole, originada dos dois irmãos  Pádua e Salles, ocupou e povoou  aquela extensa zona rural de Lavras, em ambas as margens do rio (12 x 06 km). Nesse território também tiveram lugar, nas fazendas Grotão e Três Barras, os Castro/Ramalho, Pereira da Silva e Gaspar de Abreu, todos  descendentes de imigrantes portugueses também desceram o rio Grande e  entrelaçaram suas famílias  a partir do início do século 20. Deve-se lembrar que até inicio daquele século, tanto os municípios de Ribeirão Vermelho como de Perdões pertenciam à  cidade de Lavras, mais antiga e desenvolvida.


Nessa barca que, nos anos de 1930 a 1960, ficou conhecida por “Barca do Inácio” aconteceu uma história muito interessante. O fazendeiro das Três Barras, Clóvis Pereira da Silva, o Vico (1906-2007), casado com uma Salles, contava que seu irmão mais velho, João Pereira da Silva (1898-1987), sogro de Júlio Salles (1914-1998), o fundador do Supermercado Rex em Lavras, foi a Perdões visitar José Antônio Salles, seu consogro, o pai de seu genro Júlio Salles. A viagem foi realizada em seu vistoso burro de sela, de nome Diamante, castanho claro, de fina pelagem e marcha trotada, ideal para longos percursos. Na volta, ao chegar à margem direita do rio, avistou a barca ancorada do outro lado. Nela estava o Inácio, tirando uma soneca em pleno meio dia de sol a pino. Nhô, esse era o apelido de João, gritou, gritou, esgoelou e ficou rouco de tanto chamar pelo barqueiro Inácio. Nada de atender aos chamados ao vivo. O sono estava profundo, embalado pelas suaves marolas do caudaloso rio. Lá pelas tantas o barqueiro acordou e o Nhô pôs-se a berrar novamente, gritando a plenos pulmões. Dessa vez Inácio ouviu, ou viu o potencial passageiro, montado em seu vistoso animal de grande porte. Desamarrou a barcaça e tocou para a outra margem para buscar o passageiro e sua montaria. Dinheiro à vista..., mas, antes mesmo de atingir a margem, o já impaciente e irritado, Nhô, chamou o barqueiro de dorminhoco e outros qualificativos em razão da demora de quase duas horas de espera sob sol escaldante. Inácio não gostou. Bocejando e depois de ter feito grande esforço para acertar a proa da barca e vencer os 100 metros de largura do rio de águas profundas e forte correnteza, revidou com outros impropérios. Enfezado, atracou a barca, embicou-a na rampa de qualquer jeito e o Nhô esporeou sua montaria, burro bem esperto que partiu trotando rampa abaixo em direção à barca. Esta era protegida por cercas de taboas nas laterais e porteirinhas nas extremidades, por onde entravam ou saíam os passageiros e seus animais. Ora, o barqueiro Inácio, ainda meio sonolento, ao entrar na barca esqueceu-se de trancar a porteira da extremidade. Era o que faltava para a tragédia no momento do embarque. Ao esporear o animal, o burro desembestou rampa abaixo, entrou a meio galope na barca. Nhô arregalou os olhos, soltou outro impropério contra o barqueiro, também assustado ao ver o iminente desastre. Não deu tempo para mais nada e lá se foi o burro com seu cavaleiro passando direto pela porteirinha aberta e.... tchibum... nas profundezas do rio. Inácio, paralisado pelo torpor ainda gritou:

“ Nossa Senhora dos Navegantes... Socorro! Salva esse homem turrão e seu burrão, não deixe eles morrerem, não, pelo amor de Deus”.

Inácio, o velho e conhecido barqueiro, devoto de N.S. dos Navegantes, como manda a tradição portuguesa, assim contava a meu pai, o Vico, seu velho freguês naquelas travessias, que só se lembrava que a última coisa que viu, quando o Nhô e seu burro foram tragados pelas águas turvas do rio, foi o chapéu de palha que logo ficou boiando e levado pela correnteza. De repente, alguns metros mais adiante, apareceu a cabeça do burro e, em fração de segundos, a careca do Nhô, golfando água e se equilibrando nos arreios. Os dois sacos de compras especiais, ajojados na garupa do burro, por cima da albardana (sim, “ajojados”, assim dizia meu pai. Albardana era uma espécie de mochila de lona, com várias presilhas de couro afiveladas na parte traseira do arreio, ficando sobre a garupa do cavalo. Servia para guardar a pesada e impermeável capa de chuva da marca Ideal), se desprenderam do arreio, boiavam na correnteza, tingindo a água de branco. Tragédia..., mas, Nhô atracou-se no pescoço do animal e sequer caiu do cavalo, ou melhor do burro, que se revelou exímio nadador e conseguiu chegar à outra margem, ainda que quase um quilômetro rio abaixo, por causa da correnteza. Inácio esqueceu-se logo da tragédia, soltou as amarras da barca e tocou para o outro lado. Chegaram juntos, o barqueiro e o pretenso passageiro que caíra na água e se salvara. Porém, o mais surpreendente, acredite se quiser, foi que Inácio, o barqueiro, cobrou o frete de Nhô, um mil reis, alegando que fizera a viagem solicitada aos gritos pelo passageiro. Nhô esbravejou, respondeu que não pagaria, pois atravessou o rio a nado com seu valente burro, por culpa do barqueiro que deixara a cancela aberta e mais, que ele, Inácio, lhe pagasse os 20 quilos de farinha de trigo e de polvilho que a sua mãe encomendara e foram perdidos na correnteza do rio. Meu pai, o Vico, não soube explicar quem pagou a quem. Muito provavelmente ninguém pagou a ninguém. O certo é que o tio Nhô jurou nunca mais passar naquela barca e só voltou a Perdões muitos anos depois, em 1959, a bordo de lustroso e reluzente caminhãozinho Chevrolet-51, de seu genro, Júlio Salles. Mas, dessa vez, passou por sobre a nova ponte do Rio Grande, da recém-concluída rodovia Fernão Dias. 

 Contava meu pai, o Vico, irmão da vítima, que ao passar pela ponte, depois de longo tempo evitar o caminho por conta do acontecido, maravilhou-se com a beleza e a grande extensão da ponte e a vista, longa, das curvas do rio. Olhou para esquerda, onde ainda se encontrava a barca do Inácio e disse: “Ôh, Júlio.., hoje eu nem vou comprar farinha de trigo e “porvio” (polvilho..., era assim que se falava na roça) em Perdões..... Mas, se comprasse o porvio eu as jogaria, daqui de cima da ponte, bem na cabeça do desaforado Inácio...”. Soltou uma sonora gargalhada e assim se reconciliou com o passado de dez anos atrás, quando o barqueiro descuidado e desaforado, deixou-o cair nas águas profundas do rio e, para piorar ainda mais, quis cobrar-lhe o frete. Adeus burrico, adeus barca, viva a modernidade do caminhão do genro na enorme ponte de concreto, lisinha, bonita e com belíssima vista do rio e suas curvas. Júlio Salles teve um incontrolável ataque de riso, pois nunca ouvira de seu sogro uma única palavra sobre o desastre que virara piada em toda a região e muito menos a suposta "vingança" de jogar um saco de "porvio" na cabeça do barqueiro. As gargalhadas foram tantas que foi preciso parar o caminhão em plena ponte, quase deserta. Deitou e rolou de tanto gargalhar da inusitada história que tinha tudo para ser trágica. Não foi, mas guardava resquícios dez anos depois. Virou-se para o Nhô, que também achava graça, e disse: “Graças a Deus que o senhor se salvou. Mas, desculpe-me, meu sogro, o senhor, deu mesmo com os burros n´água...”. Burros? Sim a sua montaria, o burrão Diamante que o salvou e o outro..., o insensato que conduzia a barca.... Ficamos sem saber o que aconteceu em seguida, pois nunca ninguém teve coragem de perguntar ao primo Júlio Salles qual foi a reação do tio Nhô, seu sogro. A única certeza é que, antes, ambos riram muito, mas, também nem se comprou “porvio” naquele dia, lá pelas bandas de Perdões. Só sei que, hoje, passados muitos anos, um dos filhos de Júlio Salles, contou-me que o próprio pai também gostava de contar e gargalhar da história. Mas também não contou aos filhos sobre a possível reação diante da  piada “dos burros n´água”. Certamente não gostou, pois ninguém da família jamais ousou perguntar ao Nhô como foi que ele “deu com os burros n´água...” .


Brasília, 30 de abril de 2016

Paulo das Lavras



 
O imponente Rio Grande e a cidade de Ribeirão Vermelho. Atravessá-lo, antes
da existência da ponte ferroviária, era um desfio só vencido pelas barcas, presas por cabos
ligando as duas margens. A ponte foi inaugurada em fins de 1892.
Foto : arquivo de Renato Libeck

 
A majestosa serra da Bocaina que emoldura a cidade de Lavras, fez o Reverendo
Samuel Rhea Gammon relembrar sua terra natal, aos pés das montanhas Alleghenies,
na Virgínia- EUA.  Foto de Catarina Júlia
  

 
 O missionário Samuel Gammon(3º da esquerda para a direita, primeira fila) e seus
companheiros em Lavras, com John Wheelock, Benjamim Harris Hunnicutt,
Bernard Bartels e outros. 
Foto : ano de 1929 -arquivo de Renato Libeck



Passageira no porto de Ribeirão Vermelho aguardando embarque no Vapor Dr. Jorge. Meu
pai, Clovis Pereira da Silva, conhecido por Sr. Vico,  contador de “causos”, viajava nesse grande barco de passageiros
quando ia visitar os parentes em Ribeirão Vermelho.    
Foto : arquivo de Renato Libeck


 
Vapor Dr. Jorge ancorado no porto fluvial de Ribeirão Vermelho. A elegância dos
passageiros se destaca. O barco gastava um dia e meio para descer os 208 km até o porto de
Capetinga. Fazia escala no distrito da Fábrica de Tecidos – Fábrica Velha, no porto também
 chamado de Dr Jorge. Na subida do rio gastava três dias e meio de viagem.
Foto : arquivo de Renato Libeck


 
O sobrado do Capitão Evaristo Alves, um dos diretores e proprietário
 da Companhia de Navegação do Rio Grande
Foto : arquivo de Renato Libeck

 
A ponte do Funil, importante travessia do Rio Grande, 
inaugurada em 1869. 
Foto de  Anízio Rezende 

A velha balsa de Macaia/Ijaci, antigos distritos de Lavras, Funcionou
 até os anos 80, a poucos quilômetros  acima da ponte do Funil.
 Foto : arquivo de Renato Libeck

 
 A Fábrica de Tecidos União Lavrense, inaugurada em 1890. A seu lado
 funcionava o porto Dr Jorge, situado 12 km abaixo de Ribeirão Vermelho.
Foto : arquivo de Renato Libeck


 
Um caminhão Chevrolet 51 sobre a recém inaugurada ponte do Rio
Grande, na BR 381. Ano de 1959. Na foto, Toniquinho de Pádua e
família. Sua fazenda fazia duvisas com os demais herdeiros dos irmãos  Joao e Antonio de Pádua. O porto 
e a barca do Inácio, ficavam nas fazendas Bela Vista e Rio Grande, logo abaixo da nova  e bonita ponte.
Foto : arquivo de Renato Libeck


 
A BR 381 foi inaugurada em janeiro de 1959. Não havia quase nenhum
trânsito de automóveis. Havia um fotógrafo de plantão que explorava o
ponto de atração turística, a grande ponte sobre o Rio Grande. Na foto,
meu avô Anizio Alves de Abreu  e  filhas, com seu carrão Ford Mercury, cor vinho.
Foto de fevereiro de 1959.


 
Clovis Pereira da Silva, lúcido até os 101 anos de vida. Na foto em entrevista concedida ao Ministério da Aeronáutica, comemorando seu centenário de vida, em 2006, juntamente com a invenção do avião, em feliz coincidência que lhe granjeou a homenagem da FAB.
 Ele gargalhava ao relembrar o caso de seu irmão, João Pereira da Silva, o tio Nhô, que deu com os burros n´água. E ainda dizia: “sorte de meu irmão,  porque se estivesse montado num cavalo, e não em um burro forte e esperto, ambos teriam se afogado no caudaloso e profundo Rio Grande, pois um cavalo não teria força suficiente para atravessar a nado o largo rio com o cavaleiro montado e agarrado em seu pescoço...”

Foto - SECOMSAER





Um belo burrão bem arreado, exibido na internet, tal qual do tio Nhô
Sorte dele, pois, se fosse  um cavalo teria se afogado ao cair no caudaloso
 e profundo rio, contava seu irmão.


 
 Não é fácil se manter montado, quando o cavalo está submerso
 e se debatendo para se manter à tona. Já experimentei, na lagoa
da fazenda Jacuba, de meu pai, à margem esquerda do Rio Grande,
a quatro quilômetros de Ribeirão Vermelho


 
 Julio Salles, genro da vítima  “dos burros n´água”. Nascido em Ribeirão Vermelho, 
na Fazenda do Meio, casou-se nas Três Barras/Lavras e nessa cidade 
fundou , no ano de 1970, a rede de Supermercados Rex

Foto: acervo Família Julio Salles


 
Até os anos 60, Júlio Salles morava na fazenda Três Barras,
ao lado de seu sogro. Sua casa e o Armazém ao lado


 
Não havia quem não parasse na nova ponte para uma foto.
Verdadeira atração, que nem o próprio Nhô resistiu. Nessa foto,
 seu genro Júlio Salles, esposa e o filho Carlinho, voltando de
uma pescaria no reluzente caminhãozinho Chevrolet 51, o mesmo que levou
seu sogro para um passeio. Dali do alto avistou a barca do Inácio...rsrs

Foto: acervo Família Julio Salles



Tempos difíceis para as populações ribeirinhas quando São Pedro
decidia despejar muita água. A ponte metálica foi levada na década de 1990
 e logo em seguida reconstruída. Não encontrei registros sobre
o que acontecia, quando das enchentes nos tempos das barcas de
 travessia do rio.

Foto: arquivos de Renato Libeck