sábado, 13 de abril de 2013


O   vovô vai morrer?

(Série “Criança  tem cada uma”- Pedro Henrique)
 

Pedro Henrique é um netinho para lá de peralta. Ativo, arguto e perspicaz como ninguém de sua idade. Com pouco mais de um ano e mal sabendo falar já surpreendia a todos com suas traquinagens e depois com perguntas embaraçosas. A propósito de filhos, netos e o prazer que eles nos proporcionam, li numa crônica chamada “O preço de um filho” que o custo financeiro estaria estimado em algo no valor de 300 mil reais, ou 150 mil dólares, incluindo todos os cuidados desde o nascimento até a conclusão da faculdade. O cronista destacou que, embora os custos fossem altos, as recompensas superavam muito além do que se supunha imaginar. Listavam-se o sorriso da criança, a alegria das descobertas, as brincadeiras de esconde-esconde, os primeiros garranchos e várias outras. Realmente, posso afirmar pelo que me foi dado em recompensa em curto espaço de tempo, criança não tem preço. Tudo que se investe nela tem retorno imediato.

A primeira peça que Pedro Henrique pregou no vovô foi a estratégia para conseguir a caneta que ficava sempre no bolso da camisa. Gostava de “dee...enhar” rabiscando folhas retiradas da bandeja da impressora localizada no escritório. As folhas eram fáceis de conseguir, mas a caneta à vezes era dificultada. Assim, um dia ao chegar do trabalho e antes mesmo de colocar a pasta sobre a mesa, surge correndo o pirralhinho de um e meio aninhos e grita balbuciando: vovô... “dee..eenhá”...., vovô... “de..eenhá”...., e ato contínuo aponta para o bolso da camisa onde está a caneta. Nesse instante a mamãe intervém dizendo: não..., primeiro tome a benção do vovô, ao que ele responde rapidamente, Não!... e repete o pedido: vovô... de..eenhá...., vovô... de...eenhá... . O vovô entra no coro da mamãe e repete a ordem, mas o petiz demonstra sua contrariedade e corre para o sofá onde mergulha a cara e faz gestos de desgosto e frustração pelo cerceamento de sua vontade. Ele volta à presença do vovô e repete o pedido e todos os presentes, aí incluindo a vovó e a tia além dos protagonistas, fazem coro e repetem a ordem inicial numa última tentativa de educar o menino.

           Pedrinho, aparentemente, desiste afastando-se para os fundos da sala. Mas, em seguida dá meia volta, corre para o vovô e com a carinha mais angelical, implorativa, dengoso, diz: Vovô... colinho... , colinho, vovô... . O vovô saca logo a jogada... com certeza seria apenas um jogo de cena do pequaeno que já revelava toda sua inteligência e argúcia para ludibriar e vencer seus opositores. Sim, era isso mesmo. Imaginei que o estratagema seria que, ao ser içado ao colo, a caneta ficaria ao seu alcance. Pisquei para os demais e custei a conter o riso de tão inusitada situação para uma criança daquela idade. Incrível o seu desenvolvimento mental, pois ainda mal pronuncia as primeiras palavras. Mas, como resistir àquela situação?  Não restava alternativa senão esquecer as ordens anteriores e dar a vez ao comandante do momento que pulou para o colo e antes mesmo de se aboletar, rapidamente alcançou a almejada caneta no bolso da camisa. Todos caímos na gargalhada diante da esperteza e senso estratégico. Vitorioso, mostrou seu largo e angelical sorriso, conferiu o troféu e, pasmem... constatou que a caneta não serviria ao seu objetivo/meta - desenhar, porque a ponta estava recolhida. Mas, não se logrou e completou: Vovô... abre, abre..., dee..enhá, dee.. enhá.... . Que coisa mais linda o universo infantil, a sua inocência, o seu desenvolvimento físico e mental e sobretudo o amor que irradia e contagia a todos. É algo divino, maravilhoso... uma dádiva de Deus e que nós os adultos temos a responsabilidade total de conduzi-los.

A crônica sobre o custo de um filho está mesmo recheada de sabedoria. Nada importa, sejam os custos financeiros ou as noites mal dormidas. Nada, nada mesmo, se compara às recompensas que recebemos dessas criaturinhas, filhos, netos, sobrinhos ou simplesmente “crianças”. Que Deus continue as abençoando e nos recompense dessa maneira, a maior dádiva do mundo: receber o amor das crianças. Deve ser por isso que Deus nos despoja, depois de certo tempo, das ambições menores justamente para sobrar lugar e energia para nos dedicarmos a esses anjinhos que caíram do céu para alegrar e completar nossas vidas.

                                                  xxx
 

(crônica escrita em 12/05/2010, dia em que Pedro Henrique completava um ano e meio de vida. Vovô, corujando a bordo de um Airbus A-320, cruzando a linha do equador na rota Macapá/Belém/Brasília)

 

 Episódio 2 – Por favor, bicho....

            Era véspera de Natal de 2010. Pedro Henrique com dois anos de vida, falante como ele só, brincava no tapete da sala, próximo à árvore de Natal toda enfeitada e iluminada. De repente ele apanha alguma coisa estranha no chão e põe na boca. Logo a vó gritou: Pedro Henrique, o que foi que você pôs na boca? Cara desconfiada, boca fechada imóvel, olhava para a vó e nada dizia. Esta, mais do que depressa, disse: Isto que você pôs na boca é um bicho (inseto) e ele vai comer sua língua. O menino pensou, pensou, arregalou os olhos, assustado cuspiu fora o objeto e disse; “Bicho, por favor, não come a minha língua, não”.

 
Episódio 3 – O medo da castração...

 Com apenas três anos e meio, Pedro Henrique contou, na sala, a seguinte história:

“Vó, você sabe que o médico cortou a coxa da minha mãe e me tirou da barriga dela? Eu chorei muito porque fiquei com medo do médico se distrair e cortar o meu bibiu”.

          Todos acharam muita graça, mas contivemos as gargalhadas e procuramos salvar a situação dizendo que ninguém pode cortar o bibiu de ninguém.  Na verdade a mãe depois explicou que ele tinha visto alguns dias antes o vídeo de seu parto, cesariana. Naturalmente a filmagem mostrava, de perfil, parte da coxa e o bebê sendo retirado com o cordão umbilical que foi cortado em seguida, deixando aparecer algum vestígio de sangue. Logo em seguida aparece a cena em que ele dá o primeiro choro e certamente ele confundiu cordão “bilical” com bibiu..., aí sim, longe dele caímos na gargalhada e ficamos admirados com o seu vocabulário, especialmente o uso coerente do verbo “distrair”. Criança tem cada uma...

 
Episódio 4 – Pelados no céu...

          Na noite de Natal de 2012 estávamos reunidos na sala e o noticiário da TV mostrava cenas do velório de Dona Canô, na Bahia. Após longa reportagem sobre sua vida, filhos famosos e a morte propriamente dita, o netinho Pedro Henrique, então com quatro anos de idade, pergunta:

“Mamãe, as pessoas quando morrem vão peladas para o céu”?

           A mãe, um tanto surpresa respondeu: “não sei, filho. Só sei que quando você veio do céu, você veio pelado”.

         Nada mais se disse e todos contiveram o riso..., além, lógico, da surpresa geral e o encantamento com as ideias do menino.

 

Episódio 5 – O vovô vai morrer agora, mamãe?....

 O menino das Lavras é apaixonado por aviões desde a infância. Frequentava o campo de aviação de sua cidade para ver os “enormes” DC-3 que ali pousavam depois de passarem por sobre sua casa a 2 km da cabeceira da pista. Praticava aeromodelismo na juventude e mais tarde os voos em ultraleves, apreciando também as aeronaves de suas quase três mil viagens. Ainda hoje, vovô sessentão, cultiva o gosto pelas máquinas voadoras. Foi assim que presenteou o netinho com um aeromodelo de helicóptero, pilotado por controle remoto. É a paixão de Pedro Henrique, de quatro anos de idade, que faz questão de colocar uma almofada retangular no centro da área de pilotagem, representando um heliporto, para ver a destreza do piloto em acertar a aterrisagem no ponto que ele determina. A cada erro desastrado na aterrisagem ou então sucesso, uma reação diferente, porém carregada de emoção. Outra alegria é colocar o helicóptero em sua palma da mão e com o braço esticado, assistir e sentir a decolagem com os motores e hélices rugindo a toda carga, elevando-se aos céus como um pássaro que alça voo apressadamente. É notável a reação de prazer e excitação na face e gestos do menino de cabelos esvoaçantes ao vento das pás girando em alta velocidade. É uma alegria que se repete a cada vez que vai à casa ou à chácara do vovô. Para isso há dois aeromodelos à sua disposição, um em sua casa e outro na do vovô coruja que faz questão de ainda praticar o esporte. Agora com prazer redobrado, pois há os aprendizes que adoram as manobras radicais e até os “acidentes” eventuais como aquele da perda de controle, levado por uma forte rajada de vento, ultrapassando os limites da chácara e caindo na propriedade vizinha, com difícil resgate do helicóptero sobre uma árvore que amorteceu sua queda e não o danificou. Adrenalina pura para as crianças...

 Na escola Pedro Henrique tem dois dias em que não há atividades integrais, sendo dispensado ao meio dia. Às vezes o vovô vai buscá-lo para passar a tarde na casa da vovó. Nesse dia o nível de adrenalina começa cedo, quando pergunta à mãe quem vai busca-lo no colégio. Ao saber que será o vovô a exultação é tamanha que começa a propalar aos quatro ventos a novidade. O primeiro a saber é o porteiro do prédio, depois o recepcionista da escola e nesta, desde a professora a todos os coleguinhas ele anuncia        “hoje o vovô vem me buscar...”.

 São dois episódios que servem para mostrar o quão é prazeroso lidar com as crianças. Elas têm um amor puro e quanto mais fazemos em prol delas mais elas se apegam a nós. Assim, após esse preâmbulo, ficará mais fácil entender e compreender o caso a seguir e que dá título a esse episódio.

 Levei Pedro Henrique e seus pais ao aeroporto para uma viagem de férias de uma semana em Natal-RN, logo nos primeiros dias de abril de 2013. Ainda brinquei que queria ir com ele, dentro da mala, no porão do avião. Ele achou que não seria uma boa ideia, pois não caberia ali, além do que me sufocaria e sugeriu que deveríamos ir para a Costa do Sauipe, na Bahia, depois que ele voltasse de Natal. Despedimo-nos e lá se foi ele, não sem antes ouvir a minha recomendação para visitar e fotografar a cabine do piloto do Airbus grandão. Como eu não estava me sentindo bem os deixei rapidamente no setor apropriado e retornei logo, sem fotografa-lo ou esperar o embarque. Pouco depois estava eu no hospital “curtindo” dores abdominais intensas nunca antes experimentadas. Tomografias, exames... e lá estava o diagnóstico: colecistite ou traduzindo, pedra na vesícula, com recomendação de cirurgia. Triste e apreensivo ali naquele túnel com os motores disparando barulho de metralhadora mapeando os órgãos, passava pela cabeça um filme tenebroso. O que seria essa dor aguda? Verei os netos e brincarei com eles ainda? Sim, com certeza, nada que uma cirurgia minimamente invasiva não possa resolver, mas... adeus picanha, vinhos e queijos especiais, gouda, vermeer e outras delicias holandesas...

Pois bem, a noticia da suposta gravidade do caso chegou ao conhecimento de Pedro Henrique na distante cidade de Natal. À noite recebi um telefonema. Mal atendi a ligação ouvi: deixa “eu” falar com o vovô, mamãe. Ato contínuo disparou: “vovô, você está muito mal?”. Tranquilizei-o, mas ainda assim emendou: E o buraco nas suas costas sarou? Isto em alusão à enorme cicatriz decorrente de cirurgia a que fui submetido aos dois anos de idade e que levou pedaços de duas costelas. No seu imaginário o meu “mal” seria decorrente disso. Expliquei a ele que o buraco já sarou há muito tempo. Mas ele já (se) fechou? Perguntou ele. Expliquei que ele não fecharia mais do que aquilo que ele já tinha visto antes. Tranquilizou-se. Depois sua mãe contou-me que durante todo o dia ele se preocupara e perguntou-lhe:

“O vovô vai morrer agora, mamãe?... e quem vai pilotar helicóptero comigo?... e quem vai me buscar quando não tiver dia integral na escolinha?...”.

  Amor de criança é infinitamente maior do que aquele que lhe dedicamos. A crônica de autor desconhecido está inteiramente certa. As recompensas que elas nos proporcionam ultrapassam muito além do esperado. Para mim isto não tem preço, pois Deus é sábio, colocou essas maravilhas em nossas mãos para nossa felicidade. Sempre! Nossa responsabilidade fica maior ainda depois de uma declaração dessa. Resta-me busca-lo no aeroporto, em seu retorno neste domingo.

 
Brasília, 14 de abril de 2013

Paulo das Lavras


 
                                              Bicho, por favor, não come a minha língua, não!

                                         Vovô, fiquei com medo do médico se distrair e cortar o bibiu

                                            Mamãe, a gente vai pelado para o céu quando morre?

                                                      Apaixonado por aviões

sábado, 6 de abril de 2013

Longínquo e inesquecível Sete de Setembro em um Colégio de Lavras
 
Pe. Raimundo desfilando com os meninos em 7 de Setembro de 1957


 

O menino das Lavras adorava os desfiles do Dia da Pátria. Acostumado desde cedo a ouvir os acordes do Hino Nacional e os toques protocolares dos militares do 8º Batalhão de Infantaria, alimentava o sonho de um dia também desfilar. Nos ensaios da tropa, com banda militar, a desfilar pelas ruas vizinhas, lá estava com sua turma a marchar logo atrás dos garbosos soldados. Não perdia os desfiles solenes de Sete de Setembro admirando os militares e os meninos dos dois únicos colégios existentes na cidade – o Gammon e o Aparecida, impecavelmente uniformizados com calça (comprida...!) azul marinho e camisetas brancas. A empolgação era grande ao ver a ordem unida da tropa do Tiro de Guerra 0264, unidade do Exército na cidade. O tintilar dos fuzis nas manobras dos atiradores e o barulho característico das coronhas batendo, simultaneamente no paralelepípedo ao comando de “descansar arma” fazia o menino vibrar com o estrondo metálico que ressonava longe.

Seu sonho se realizou ao completar 12 anos. Concluiu o curso primário e matriculou-se no curso compacto, de férias, do Curso de Admissão ao Ginásio, do Colégio N.S. Aparecida. Em março de 1957 já estava cursando a primeira série de curso ginasial e em breve realizaria seu sonho de infância: desfilar com uniforme do colégio no Sete de Setembro. Para isso muito contribuiu um dos dirigentes e professor do colégio, o querido e admirado pela sua simpatia, Padre Raimundo Weilherman. Além de suas boas e atrativas aulas de religião em que nos ensinava as passagens bíblicas como ninguém, ele gostava de nos levar – os novatos - para ensaiar o desfile. Era uma alegria constante, sermos dispensados da última hora de aula para, capitaneados pela fanfarra e acompanhados por ele, ensaiar o desfile cívico. Incansável e sempre com um sorriso, lá estava ele a nos ensinar o compasso da marcha com seu refrão: esquerdo... direito... esquerdo...direito e também como corrigir o passo errado, dando uma rápida quicada no calcanhar de modo a quebrar o descompasso. Era ele que nos incentiva a “marchar bonito” para brilhar em primeiro lugar no desfile. Na verdade a concorrência entre os colégios era apenas uma forma de se incentivar um melhor desfile, sobretudo entre as fanfarras concorrentes. Sempre achávamos que a nossa fanfarra era a melhor, pois não cansávamos de ouvir elogios aos seus integrantes, com destaques para os tarolistas que se desempenhavam com muita habilidade.

Tempos memoráveis aqueles e graças ao trabalho de garimpagem iconográfica de um amigo historiador e profundo pesquisador da história de nossa terra e nossa gente, o Prof. Renato Libeck, o menino pôde encontrar e recuperar preciosas fotos. A primeira foi justamente a do primeiro desfile, em Sete de Setembro de 1957, onde aparece ao lado, logo atrás do saudoso instrutor e incentivador Pe. Raimundo. O uniforme era o de gala, calça azul marinho e blusa de malha, branca, com o nome do colégio. A segunda foto recuperada foi a do último desfile, em 1963, quando estava no 3º ano do Curso Científico que corresponde ao último ano do curso de 2º grau atual. Nessa foto o menino das Lavras aparece ao lado de um fusca que conduzia a imagem da santa que empresta o nome ao colégio e o traje, mais aprimorado incluía camisa social e gravata e não o usual uniforme, imprimindo mais imponência e garbo no desfile.

Nessas reminiscências que passam pela tropa do Tiro de Guerra e pelo colégio, destaca-se um professor muito característico e querido pelos alunos, o Padre Luiz Tings. Com forte sotaque alemão, tinha certa dificuldade em dominar o nosso idioma e os meninos se aproveitavam disso para provoca-lo. Mas ele não se incomodava com isso e até achava graça quando era imitado. Porém, havia uma situação que o deixava extremamente irritado. Era quando, na primeira aula, às sete horas em ponto iniciava a chamada de presença dos alunos. Os alunos que frequentavam o serviço obrigatório militar, o Tiro de Guerra-TG, só chegavam meia hora depois, com autorização e portanto sem que lhes fossem registradas as faltas naquele primeiro horário. Quando algum deles, obviamente, não respondia à chamada, a turma inteira respondia em altos brados e batendo o pé com força no assoalho de tábua: “Tiro...Tiro”. O Pe Luiz olhava sério para turma e quando pensava que a disciplina havia sido imposta... surgia outro nome de alguém que estava no TG e a resposta e bate-pés, coletivamente, ecoavam novamente... Então o Pe Luiz, extremamente nervoso, com a face vermelha, arregalando os pequenos olhos azuis, gritava várias vezes “oh... vôs tem paciência..., vôs tem paciência”. Silencio total, mas era só ele baixar as vistas sobre a lista de chamada e os risos contidos escapavam furtivamente. Não raras vezes ele flagrava alguns rindo e eram expulsos da sala. Nesse dia ninguém mais se atrevia a gritar o refrão dos ausentes.

O sonho do menino, embalado pelos acordes das fanfarras militares e dos colégios, se realizou como desejado e repetiu-se por muitos anos. Porém, o que mais o  marcou foram as lições dos mestres que não se cansavam na contínua tarefa de moldar o caráter daqueles pequenos, transformando-os em verdadeiros cidadãos com amor à pátria, às ciências e às letras. A eles, os metres, devemos o que somos. Ainda hoje recordamos com  nostalgia aquelas lições de civismo e as repassamos aos filhos e netos. Levar os netos nessas solenidades comemorativas e de reverência à Pátria é um prazer redobrado. É como se revivêssemos aquelas lições ministradas com amor e carinho pelos nossos mestres. E o mais interessante, surpreendente mesmo, é que parece que o tempo não passou... ao olhar aquela antiga foto e hoje ao assistir a um desfile cívico ou show da Esquadrilha da Fumaça sente hoje, 56 anos depois, a mesma emoção, prazer e alegria do menino de 12 anos, o mesmo menino, aquele último da fila na foto do longínquo Sete de Setembro de 1957.

Brasília. 05 de abril de 2013

Paulo das Lavras
Sete de Setembro de 1963 - O menino, 2º da primeira fila
 
Fanfarra colegial e os taroleiros

                                         
                                                    Colégio Aparecida a esquerda  - década de 1950
                                      
Brasão do Colégio

                                                                                                              
Hasteamento da Bandeira - 7 Setembro 2012

                                                                                 
Banda Militar - 8º Batalhão,2012. A inspiração na infância

                                      
Tropa do Tiro de Guerra - 2012

                                    
O "sonho" dos meninos. Desfile de 7 de Setembro 2012
 
 
 
 
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Coelhinho e seus Ovos de Pácoa


O Coelhinho e seus Ovos de Páscoa

Há mais de 50 anos presenciei uma bronca sem igual de um pai em uma criança que afirmara que o “coelho bota ovo”. Aquilo me chocou muito, pois o pequeno de apenas uns seis ou sete anos acabara de chegar da escola aonde comemorara as festividades da páscoa com troca de ovos de chocolate e pinturas no rostinho. Tentei contornar e salvar a criança, mas não surtiu efeito diante daquele pai, um fazendeiro-conhecedor dos bichos e animais da natureza e por isso não admitia “tão grave erro” de seu filho. O pobre garoto deve ter aprendido a lição, mas, certamente carregou aquela amarga e humilhante experiência por muito tempo. Na verdade, uma expressão de extrema ignorância por parte de quem a praticara e que ainda hoje não a esqueci. Crianças não podem ser tratadas assim. Merecem todo o respeito, carinho e amor em sua sagrada inocência. Somos os responsáveis por essas dádivas que Deus colocou em nossas mãos.

A propósito disso, da associação do coelhinho com os ovos de páscoa, seria bom que os pais e as escolas deixassem bem claro para as crianças a origem dessa tradição e fazê-los entender que o coelhinho apenas traz os ovinhos de chocolate. Além disso, claro, explicar todo o significado da páscoa e a associação desse símbolo, o ovo-fertilidade, com a ressurreição, o renascer da vida, segundo a crença cristã.

 O ovo é tido como símbolo da fertilidade, o renascimento da vida e era costume presenteá-los no início da primavera (21 de março, no hemisfério norte e 21 de setembro no sul) como votos de boas safras. Celebrava-se o fim do inverno e o início de uma estação em que toda a natureza florescia. Os agricultores enterravam ovos nas terras de cultivo, pois acreditavam que com isso conseguiriam uma boa colheita.

Esse costume de presentear com ovos na chegada da primavera foi incorporado às festividades da páscoa cristã que é comemorada na primeira lua cheia após a chegada da primavera (entre 21 de março e 21 de abril, no hemisfério norte). Essa introdução aconteceu pelo Concilio de Niceia, em 325 D.C. e tinha a intenção de aumentar o número de fiéis. A partir de então começaram a pintar os ovos com as imagens de Cristo. Nessa época os ovos eram apenas cozidos ou recheados com guloseimas para alegria da gurizada que, em muitos países tinham que procura-los escondidos no quintal. No período medieval a elite costumava comemorar a Páscoa presenteando com ovos feitos de ouro e pedras preciosas. Hoje apenas o chocolate predomina em todos os ovos de páscoa.

A introdução do coelhinho nessa história dos ovos da páscoa tem a versão mais aceita de que enquanto uns meninos procuravam o “ninho dos ovos de páscoa”, saiu correndo um coelho que por ali estava. Daí eles acreditaram que foi o coelhinho que trouxe e ali deixou escondidos os ovos da páscoa. Se observarmos bem as cantigas dizem exatamente isso... pedem que o coelhinho traga os ovos da páscoa. Mas...., é preciso esclarecer mais as nossas crianças.

A propósito minha netinha, de apenas cinco anos, ao sair da escola, ainda com o uniforme da aula de ballet e o rostinho pintado de coelhinha disse alegremente:

“Vovó, vovô... hoje eu vou dormir segurando uma cenoura...”.

Como eu não entendi, perguntei delicadamente o porquê e ela prontamente respondeu:    

           “O coelhinho da Páscoa vai chegar e comer a cenoura que eu vou dar para ele”.

Emocionei-me com tamanha inocência e amor daquele anjinho, bem ali na minha frente. Lembrei-me daquele menino que levara tremenda bronca de seu pai a 50 anos atrás. A emoção, agora, ali, diante de mim, foi imensurável. Chegamos em casa e então a fotografei. Vejam que fofa essa santa coelhinha... Uma dádiva de Deus.

Feliz Páscoa para todos

Brasília, 28 de março de 2012

Paulo das Lavras
 

 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

JK em Lavras


 

JK em Lavras
 

Corria o ano de 1954. O menino das Lavras do Funil, cidade de 25.000 habitantes, muitos de origem rural, sempre procurava um atalho para a escola. A pé ou cavalgando um tordilho voltava alegre da escola, ou mais precisamente, do Grupo Escolar Firmino Costa. Em dez ou quinze minutos fazia o percurso, passando pela trilha onde se localizaria mais tarde o prolongamento da Av. JK, chegando ao cruzamento com a Rua Otacílio Negrão nas imediações do túnel. Para chegar à sua casa, numa chácara situada a trezentos metros da Estação Costa Pinto, entrava pela estrada de ligação Lavras/Serrinha/Carmo da Cachoeira/Três Corações. Não havia ruas adjacentes à chácara de mais de 20 hectares, apenas a referida estrada que a cortava ao meio em suave curva de nível por quase 2 km de extensão. Os trilhos da Rede Mineira de Viação-RMV contornavam toda a divisa sudeste da propriedade no sentido Costa Pinto/Três Corações.

Aluno do 2º ano do curso primário tinha como professora a saudosa Dona Margarida Pedrotti Mássimo. Suas aulas começavam às sete da manhã e encerravam às onze. Seu irmão chegava logo em seguida para o turno da tarde que inciava às doze horas. Algumas vezes ele chegava a cavalo e o menino retornava no tordilho. Não era sempre que usavam o cavalo como meio de transporte, até porque a mãe começou a proibir quando soube do tombo do cavalo com o menino e tudo. Era mês de estiagem e o cavalo em marcha acelerada, rua abaixo, escorregou a pata dianteira na grama seca de uma rampa lateral. O pequeno cavaleiro, que montava em pelo, sem o arreio, foi atirado à frente, por cima do pescoço do animal que, desequilibrado, instintivamente o abaixou e... o cavaleiro mirim saiu voando por cima, pasta escolar espalhando livros, cadernos e o estojo de lápis. A rampa causadora do acidente nada mais era do que o entroncamento em diagonal da Rua Tomás Antônio Gonzaga com a Av. JK. Mães que conversavam no portão de uma das casas socorreram imediatamente o menino que nada sofrera, mas chorava muito e implorava para que segurassem seu cavalo que levantara ligeiro e ameaçava disparar rua afora. A falta do arreio com estribo facilitou o voo do menino, cujo tombo foi amortecido no pescoço do cavalo e pela grama seca. Talvez se estivesse usando estribo poderia ter sua perna esmagada sob o peso do animal ali estatelado. Algum tempo depois o menino descobriu, em visita à casa de seu querido e saudoso Professor Russaulière Mattos, que a anfitriã, sua querida mãe, fora uma das senhoras que o socorreram naquele acidente, bem ali ao lado, duas casas adiante.

Aquele era o caminho preferido, pois o acesso ao Firmino Costa, ou simplesmente FC, situado no centro da cidade, era feito em percurso bem mais longo, começando no túnel, na atual Rua Otacílio Negrão, depois a Melo Viana e a “Rua Direita”, chamada de Francisco Sales, com lojas comerciais em toda a extensão. O atalho, onde existia apenas a trilha de pedestre em meio à extensa pastagem, embora mais curto, tinha um obstáculo. Na parte mais baixa havia um córrego, cuja nascente se localizava num bananal em meio ao “buracão” existente atrás da rua direita, bem nos fundos da “Distribuidora”, a garage dos bondes. Esse ponto, o buracão, era o final da Rua Misseno de Pádua, bem ao lado da casa dos Lacerda Boari, logo depois da esquina com a Rua Álvaro Botelho. Só foi aterrado e a rua estendida até o encontro com a Otacílio Negrão algum tempo depois, por volta de 1957.

A fotografia aérea anexa mostra como era exatamente aquela região no ano de 1955, antes do prolongamento da Av. JK. Nela o menino viu, acompanhou e admirou diariamente a construção de uma rede elétrica de alta tensão, numa reta por sobre aquela trilha de pedestre e que mais tarde viria ser a continuidade da Avenida JK. Aquela rede elétrica foi construída pelo Governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitscheck de Oliveira e se destinava à transmissão de energia elétrica produzida pela recém inaugurada Usina Hidrelétrica de Itutinga. No ano seguinte, 1955, houve eleições para presidente da república e JK foi a Lavras em campanha política. A chegada da energia elétrica era o ponto forte de sua campanha. Porém alguns opositores duvidavam que isso pudesse se tornar realidade, embora a rede elétrica já estivesse quase concluída e a usina em funcionamento. Para esses não importava a baixa qualidade da antiga luzinha vagalume vinda da usina municipal do Cervo e a da Fabril Mineira gerada ali na Fábrica Velha (Dr Jorge). Ignoravam as vantagens da energia farta e constante. O menino via, ouvia e nada entendia sobre as discussões fanáticas entre o avô, o coronel Anísio Gaspar, vereador pelo PSD, partido de JK e outro parente, da UDN, que fazia oposição ferrenha. Só sabia que o avô tinha razão, pois viu e acompanhou a construção daquela rede de energia elétrica, bem ali no seu caminho/atalho para a escola. Além disso estava acostumado às visitas do líder maior do partido em Lavras, Dr Sílvio Menicucci e a quem o Governador e depois Presidente da República sempre prestigiava com visitas à cidade. Nessas visitas de campanha política, quase sempre era acompanhado pelo inseparável correligionário, amigo e deputado federal, Tancredo Neves e seu secretário particular, o ex-deputado Carlos Murilo Felício dos Santos.

Embora JK tenha feito várias visitas à Lavras quando governador e nas campanhas políticas, não são dessas viagens que queremos falar, mas de três outras muito importantes. A primeira foi por ocasião das comemorações do Centenário de Lavras, em 1968. Amigo do então Deputado Estadual Silvio Menicucci e recém chegado do exílio, JK fez questão de estar presente nas comemorações do centenário da cidade. Em traje de gala compareceu ao Baile do Século, assim chamado o grande evento de comemoração do centenário do município. Fez-se acompanhar pelos deputados Renato Azeredo e Carlos Murilo Felício dos Santos, secretário particular da Presidência da República (foto anexa). Foi a maior recepção que Lavras já viu. A casa do Dr Sílvio ficou pequena para tanta gente que queria ver e cumprimentar JK, o mesmo acontecendo nas dependências do Clube de Lavras onde o assédio foi constante e ele, JK, sempre sorridente. Infelizmente esta foi sua última visita à Lavras, pois no ano seguinte, 1969, foi impedido. Ele quis voltar à cidade mas foi dissuadido a não fazê-lo. Queria dar um abraço no amigo e correligionário que teve o mandato de deputado estadual covardemente cassado pelo AI-5. Uma semana antes da cassação Dr Silvio Menicucci foi recepcionar JK em Juiz de Fora. Lá, sede de uma unidade do Exército, o prefeito Itamar Franco fora proibido de conceder a palavra a JK e então o deputado Silvio Menicucci o conduziu à sede da Associação Médica de Juiz de Fora, onde havia mais de 5.000 pessoas que queriam cumprimentar e ouvir o ex-presidente chegado do exílio. Uma semana depois veio o decreto de cassação do Deputado Silvio Menicucci.

Dessa vez JK não pode ir pessoalmente à Lavras visitar o dileto amigo e a compungida comunidade lavrense, nela se inserindo o menino sonhador que já se tornara engenheiro e trabalhava em Belo Horizonte onde, orgulhosamente, acompanhava a brilhante atuação do deputado conterrâneo. Duro golpe, não só para os lavrenses, mas para toda Minas Gerais. O amor que JK nutria por Lavras e seus cidadãos não permitia que ele deixasse de nos visitar. Embora impedido de ali comparecer, chamou outro mineiro, querido de Lavras, de Minas e de toda a Nação, Tancredo Neves e entregou-lhe uma carta, carregada de sentimentos, para ser entregue em mãos do Dr Sílvio. Essa carta, de conteúdo memorável, o menino a copiou dos arquivos de um historiador, o conterrâneo Professor Renato Libeck e aqui a reproduz para que se tenha a exata noção da grandeza dessa penúltima“viagem/visita” que JK fez a Lavras (foto anexa).

Quis o destino que o menino das Lavras se transferisse para Brasília e aqui encontrasse JK por duas vezes. A primeira, no dia 3 de agosto de 1975, no saguão de desembarque do aeroporto da capital federal e que, hoje, merecidamente leva seu nome, Aeroporto Internacional Juscelino Kubitscheck de Oliveira. Ele caminhava apressado em direção ao veículo que o aguardava no setor de desembarque. Deu de cara com o menino engenheiro e o irmão que o acompanhava. Cumprimentou-nos atenciosamente e o menino só teve tempo de dizer-lhe: “Aí, Presidente, veio visitar sua filha querida... a cidade de Brasília? Obrigado, por nos dar essa maravilha de cidade”. Com um largo sorriso e acenando com a cabeça e a mão, agradeceu, embarcou e o carro desapareceu rapidamente naquela manhã de agosto, pois ele era proibido de visita-la e aparecer em qualquer ato público. Na segunda vez o encontro foi de tristeza e consternação e o menino não conseguiu segurar as lágrimas. Cerca de 20.000 pessoas desfilavam em frente à sua janela, às 8 horas da noite, conduzindo o féretro e cantando a sua paixão seresteira, o Peixe-Vivo, pela Avenida W3 Sul em direção à sua morada final, no Campo da Esperança. Pois bem, aquele JK, amigo de Lavras e que povoou a mente do menino desde a infância e que acompanhou a sua obra, a rede elétrica que abriu caminho e melhorou a sua trilha para a escola, iluminou e trouxe o progresso para a cidade natal, passou novamente, ali à sua frente pela última vez, naquele aziago mês de agosto de 1976.

Mas, falta ainda falar sobre a última viagem de JK a Lavras. Aliás, está por se realizar brevemente e tudo começou no dia 13 de junho de 2012 quando o menino das Lavras foi convidado para o lançamento de uma grande obra literária, histórica, o livro “Momentos decisivos: JK contra o golpismo”, de autoria do ex-deputado e ex-secretário particular de JK, Carlos Murilo Felício dos Santos. O evento se realizou no Memorial JK e o menino aproveitou para registrar em foto o imponente monumento, justamente na hora do crepúsculo de uma bela tarde, conferindo matizes multicores ao mármore e ao azul do céu. O contraste produziu um belo efeito sobre a estátua de bronze do estadista que parece dar um adeus à cidade que ele fundou e inaugurou apenas 15 anos antes de sua partida final.

A simpatia do autor do livro de memórias cativou o menino e foram relembradas suas visitas à Lavras na companhia de JK. Autógrafos concedidos, poses para fotos, incluindo a simpaticíssima Presidente do Memorial JK, Srª Anna Christina Kubitscheck Pereira, esposa de outro lavrense, Paulo Otávio Pereira, empresário da construção civil em Brasília. Ali mesmo, durante o coquetel, o menino se aventurou a convidar o Dr Carlos Murilo e a Presidente do Memorial JK para uma visita sentimental à terra dos Ipês e das Escolas, tão querida por JK e lá realizar o lançamento de seu livro que é uma ode àquele estadista, o mais patriota de todos e que dedicou toda a sua vida ao progresso da nação. De pronto o convite foi aceito com alegria e entusiasmo. Agora depende apenas de agenda de ambas as partes, convidado e anfitriões.

Lavras aguarda mais essa visita de JK, ainda que sob a forma de livro escrito e por alguém que o acompanhou a vida toda, inclusive nas viagens a Lavras. Receber o Dr Carlos Murilo e os familiares de JK, em Lavras, é o mesmo que tê-lo de alma presente, com profundo significado pelo amor que se encerra em nossos corações à sua memorável vida. O menino que no passado contemplava sua obra e campanhas em Lavras e que agora usufrui, diariamente, das belezas da cidade de Brasília que ele fundou, agradece por mais essa oportunidade que se descortina para recebermos JK em nossa terra natal que também ele tanto amou.

Brasília, 27 de fevereiro de 2013

Paulo das Lavras do Funil

 
 

                                                   O mapa do paraíso e seus atalhos para se chegar à escola, em 1954/55

 


 

                                         Muro azul do Grupo Escolar Firmino Costa, servia de “escada” para o menino
      montar em seu cavalo que, de vez em quando, o levaria de volta à casa após a aula

 

                                                         JK em 1955. Governador de MG, eleito Presidente

 


 

          JK no Baile do Século, em Lavras, 1968. Presentes também os Deputados Renato Azeredo e Carlos Murilo


 

                                                 Baile do Século- Lavras. Jk com Judy Macieira e Silvio Menicucci



Crepúsculo no Memorial onde descansa JK 
 

                                                    Presidenta do Memorial JK, Anna Christina   Kubitscheck Pereira


 
Autor do livro Carlos Murilo e Paulo Roberto
 

                                                       
 

 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Mulher

                         
 ... e assim elas nos criaram e nos fazem felizes. É  preciso amar a mulher com o amor devido,  seja ela mãe, irmã, esposa, companheira ou amiga... e sempre! 
Pintura - Ralph Duncan- Utah


                                         
O dia 8 de março foi escolhido para se celebrar o Dia Internacional da Mulher. Entendo que o dia da mulher deveria ser comemorado todos os dias. Mas, diante de tantos esquecimentos e injustiças para com o gênero, até que é conveniente haver uma data especial para essa comemoração, embora deva ser diariamente. O que seria de nós, os homens, sem ela? Para início de conversa basta dizer que nem gerado teríamos sido. Além disso, ela é a fortaleza do lar, ao contrário do que normalmente se pensa. Ela é agregadora, mantendo a família unida, cuidando de todos, gerindo a casa, a família enfim, nela se incluindo o homem. Este se vangloria de ser o provedor (e apenas isso), mas, hoje nem isso ele está conseguindo, pois as mulheres estão marcando presença no mercado de trabalho igualando-se a eles. Nas universidades já são 45% dos professores e 55% dos alunos. No mercado de trabalho já representam 49,2%, em Brasília. Só no Ministério da Educação representam mais de 70% dos funcionários. No trabalho, além de fazer igual ou melhor que os homens, seja em empresas ou em órgãos públicos, ela ainda dá conta ao mesmo tempo de administrar a casa, o lar, fazendo o papel de mãe, conselheira e conciliadora de conflitos. Além disso, desempenha quase que exclusivamente a árdua tarefa de educar os filhos e deles cuidar nos momentos difíceis. Aprendi isso no meu local de trabalho onde predominam as mulheres e são sempre elas que vão ao telefone para monitorar as atividades da casa, dos filhos e tudo mais que se relacione à família. Os homens "nem se ligam" nessa tarefa de procurar saber a “quantas” andam as coisas do dia a dia da casa. Tomara que isso mude e além de me penitenciar pela inexperiência passada, sempre estimulo os colegas- pais- a ligarem mais para os filhos, ainda que seja um simples telefonema no meio da tarde. Isto faz diferença, mas, infelizmente, ainda, somente as mulheres têm sensibilidade para perceber isso. São qualidades inatas que elas carregam. Instintivamente se dedicam mais aos outros e passam um bom tempo cuidando da família, dos amigos, dos desamparados. São capazes de enxergar o mundo e os relacionamentos de uma maneira muito distinta da dos homens. Até mesmo no campo das relações sexuais, diz-se que o homem faz sexo, a mulher faz amor.

Os homens precisam mesmo aprender muito sobre as qualidades da mulher. Eu mesmo levei algum tempo para perceber isso e valorizá-la por tudo que ela representa como mãe, irmã, esposa, companheira, filha, colega de trabalho ou simples amiga. Aprendi a amar todas, cada uma a seu modo próprio e pelo que representam para nós mesmos e para a sociedade como um todo. Nós somos aquilo que elas, as mulheres, nos fizeram, do nascimento à paternidade. Simples assim!

 Bem fez o poeta que canta as belezas e a sensibilidade da mulher e cunhou a frase:

“Cuida-te quando fazes chorar uma mulher, pois Deus conta as suas lágrimas”.

Nada mais preciso dizer. Um abraço especial para aquela que é a mais especial para nós... você, Mulher!

 Brasília, 8 de março de 2007.

Paulo das Lavras

P.S.  (08/02/2013) Passando pelo Rio de Janeiro, no dia 29 de julho de 2011, o menino das Lavras resolveu visitar a Biblioteca Nacional, onde havia uma exposição dedicada à mulher. Aproveitando o espírito de amor e respeito às mulheres, guerreiras, no lar e no trabalho fora de casa, o menino sentiu o quão grande tem sido a luta das mulheres e assim decidiu anexar o relato a seguir, que complementa de forma magistral e se estende a todas as mulheres:


Exposição Brasil Feminino- A Mulher na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

 Aproveitando o horário de almoço de um dia de trabalho no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, o menino engenheiro visitou a Biblioteca Nacional num bonito prédio em estilo neoclássico inaugurado em 1910. O prédio compõe juntamente com o Museu Nacional de Belas Artes e o Teatro Municipal um maravilhoso conjunto arquitetônico no centro da velha capital. Por sua beleza plástica o conjunto de prédios já se constitui em atrativo para a visitação. Desta vez uma mostra sobre o papel da mulher na sociedade, intitulada “Exposição Brasil Feminino - A Mulher na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro” despertou sobremaneira o interesse do menino em meio a tantas apologias em contrário.

             Foi muito emocionante ver, naquela exposição, a trajetória da mulher brasileira ao longo de nossa história, desde os tempos coloniais até o presente. Foram expostos 150 documentos raros, fotos, jornais, revistas e pinturas diversas incluindo as famosas telas de Debret onde as mulheres só aparecem como escravas, mercadorias à venda ou aluguel. Afinal ali estavam representados mais de 200 anos de lutas da mulher brasileira para ocupar seu merecido espaço na sociedade. Lutas retratadas desde a condição de mulher escrava até à da mais alta patente, de governante máxima da nação brasileira. Essa luta se confunde com a própria história nacional contra os preconceitos e a opressão machista reinante até há pouco tempo.

Mais interessante ainda, foi observar por meio dos documentos expostos a sequência cronológica do duro caminho de libertação da mulher brasileira, saindo da condição de escrava ou, se não, do único espaço que lhe era permitido, ou seja, a cozinha, o doméstico, até chegar ao espaço público, ocupado tradicionalmente pelos homens. A mostra foi dividida em cinco diferentes temas: a condição subalterna da mulher; a consciência política e luta dos direitos civis; a ação social e educação; o comportamento e, ainda, a atuação científica e cultural. Nesses cenários desfilavam figuras marcantes como Carlota Joaquina, Maria Leopoldina, Chiquinha Gonzaga, Carmen Miranda, Zuzu Angel, Zilda Arns, Maria da Penha (cuja lei de mesmo nome é o terror dos homens violentos contra a mulher), Benedita da Silva, Lygia Fagundes Telles, Fernanda Montenegro, Maria Esther Bueno, Marta jogadora de futebol feminino, as jogadoras da Seleção Feminina de Vôlei, as atrizes Bibi Ferreira, Tônia Carrero, Norma Bengel, a bela Marta Rocha, a roqueira Rita Lee, as ousadas Mães de Acari, terminando com a presidente da República, Dilma Rousseff. Uma bela sequência das duras lutas, vitórias e destaques da mulher brasileira. Foi preciso que o menino das Lavras do Funil adentrasse um espaço cultural como esse para, embasbacado, se lembrar de quão pequenas foram as palavras de sua crônica escrita quatro anos antes. Daí concluiu ser necessário complementá-las com esse relato.

  Além das figuras marcantes a Exposição exibiu o livro Ordenações e Leis do Reino de Portugal, de 1603, que descreve o rigor e a severidade no trato legal que as mulheres sofriam no século XVII. Verdadeiro horror, inimaginável o que se praticava contra a mulher naquela época. Outra pérola desconhecida e que causou muita surpresa ao menino foi o jornal “O sexo feminino” editado na cidade de Campanha-MG, no ano de 1873, que defendia mudanças em favor da igualdade de gênero. Quem diria isso, há mais de 140 anos as mulheres brasileiras já vinham publicando suas reivindicações no campo da igualdade de direitos, justo naqueles tempos de extremo machismo.

Foi gratificante visitar a mostra Brasil Feminino. Verdadeira imersão numa história fascinante. O menino saiu com a sensação de que o nosso país tem progredido muito na questão da igualdade e equidade do gênero, tornando-nos mais justos hoje em dia. As mulheres merecem mais que isso, pois afinal elas são mães e educadoras que nos conduziram à vida. Amor puro... e superiores aos homens em tudo, menos na força bruta, o que nada importa, pois isso pode até ser substituído por máquinas.

       O amor à mulher é completo, ou assim deveria ser para os homens. Mulher é para ser amada, admirada pelos seus dotes morais e grandeza interior, não importa a condição.  Pobre daquele que não tem (ou não teve) o amor da mulher mãe, irmã, esposa, filhas, netas e amigas. São elas que nos movem e hoje, mais ainda, inseridas no mercado de trabalho, já em escala considerável, temos mais essa categoria de mulheres, as colegas de trabalho. Têm a delicadeza das flores e só elas sabem humanizar esse ambiente onde passamos a maior parte do tempo de nossas vidas. Mulher é tudo na vida, as respeito e as venero. Uma benção dos ceus! Assim pensa o menino, de feliz infância passada nas Lavras do Funil e que, literalmente, sempre viveu cercado por elas.


 Brasília, 8 de fevereiro de 2013.

Paulo das Lavras



O Centro Cultural do Rio de Janeiro. Fotos de Paulo Roberto da Silva, em 21/07/2011
Museu Nacional de Belas Artes - Rio
Foto do autor - nov 2011

Teatro Municipal- Rio
Foto do autor - nov 2011


Hall principal do Museu Nacional de Belas Artes
Foto: Arquivos do Museu de Belas Artes


Biblioteca Nacional - Rio
Foto do autor - nov 2011