domingo, 18 de maio de 2025

A vida é breve..., dizem!

 
A vida não é breve, não! Veja..., o médico obstetra que trouxe à luz a 
minha filha,  de amarelo, agora curte os netos, 30 anos depois


Não, não é, a vida nunca foi breve! Pelo menos para quem a viveu intensamente, e para mim, as lembranças estão gravadas na memória desde a tenra idade de dois anos. A vida tem o tempo certo, dividida em fases, a infância, puberdade e a adulta, a mais longa.  Se você teve infância feliz, certamente será um adulto feliz, dizem os especialistas e com os quais concordo. Por outro lado, é sabido que o nosso cérebro tem a capacidade de gravar, memorizar os momentos marcantes, bem ali no fundo dos escaninhos da alma. É lá que estão as minhas mais preciosas memórias... , de longo tempo. A vida não é breve...  Poucos têm o privilégio de relembrar as boas lembranças, principalmente aquelas dos primeiros anos de vida. Aconteceu um fato relevante na minha infância e que moldou minha  vida para sempre. Sim, muito criança ainda, convalescente de grande e delicada cirurgia torácica, fiquei com uma sonda torácica durante nove meses, os quais passei a maior parte do tempo no colo de familiares e agregados, tratado com muito carinho e amor. Me lembro que ao cair da noite, meu pai me colocava de bruços sobre seu ombro e tentava fazer com que eu dormisse. Contava casos de bichos da floresta e cantarolava uma cantiga de ninar que ainda hoje me lembro da letra: “o babão passou aqui, chegou na cidade pousou...” . Quando ele já estava quase chegando aos 100 anos sim, cem anos, perguntei-lhe se ainda se lembrava daquela cantiga de ninar e ele confirmou, na presença de outros familiares.

Ora, cheguei aos 80 e ao olhar para trás, nas dobras do tempo, tenho que concordar que a vida não é breve. Passaram-se dias e dias, muitos mesmo, e a vida foi intensa, desde aquele primeiro drible na morte aos dois anos, representada por aguda pleurite, “fatal” como disse o médico à minha mãe, como a prepará-la para um possível e previsível desenlace, incerto, temido pelo próprio cirurgião. Felizmente deu tudo certo e o efeito “colateral” mais surpreendente dessa passagem de minha vida foi que, durante aquele enorme tempo carregado no colo, recebi atenção redobrada e com isso desenvolvi habilidades acima da média das crianças. Foi justamente na fase de formação e desenvolvimento dos neurônios e de atiçada curiosidade da criança. Campo fértil para os estímulos da imaginação, gerando sonhos maravilhosos que mais tarde se tornaram realidade, pois tudo que  brotava das respostas a todos questionamentos pueris ou ainda das instigantes provocações dos adultos, se acumularam na memória do menino. Doces tempos que provocaram o desenvolvimento sadio, que deixava a criança com a sensação de que era muito amada e feliz. Hoje, depressão alguma é capaz de me derrubar, pois meu escape é galopar para dentro. Para dentro de mim, o meu interior a minha essência, a alma. Nela estão armazenadas as mais doces recordações.

Foi assim que venci a primeira batalha, seguindo-se outras seis, até que completasse os 35 anos de idade, incluindo três desastres aéreos em aviões de carreira, sendo os dois primeiros num curto espaço de apenas 15 dias, nos Estados Unidos, quando lá trabalhava. O outro acidente, anos depois, aconteceu em BH e foi mais grave. Venci a corrida contra aquela asquerosa Senhora, com cara de caveira, vestida de preto, carregando uma foice (alfange) às costas. Meu placar de vitórias está alto, 7x0. Hoje, quando olho para trás, vejo o quão tem sido longa a minha vida. E à  medida  que o tempo passa, vejo, sinto que tanto faz medi-lo pelo número de anos ou pelas realizações. Tive uma vida intensa, agitada, viajava 200 (duzentos) dias ao ano, percorrendo os quatro continentes em missões de trabalho. Não havia um único dia com repetição de atividades. Dias desafiadores, próprios para mentes inquietas. 

 Todos aqueles acontecimentos me empurram para um lado mais reflexivo, introvertido, faceta que hoje muitos classificam como espectro autista. Mas, nem tanto ao mar  ou à terra. Poderíamos dizer que tal comportamento encerra apenas traços de autismo que ao deixar de lado atividades sociais de reuniões, bailinhos , esportes , a sinuca (vício dos estudantes de minha época) bebidas e farras outras, concentrou-se na leitura e estudos colegiais, faculdade e idiomas estrangeiros. Aliás, o termo autista nem existia. Éramos taxados pelos colegas de Caxias ou cdf, mas sempre assediados em dias de provas escolares para lhe repassarmos a famosa “cola”. Em casa éramos classificados com adjetivos mais suaves: introvertido, concentrado ou na pior das hipóteses, “entupido” (pouco conversava, calado, só estudava ...). Mas, esse comportamento pessoal, por outro lado, contribuía para o crescimento da alma, aprimorou o gosto pela leitura, aguçou a curiosidade do aprendizado e do saber, criando no menino o hábito do hiperfoco, como decorrência da hiperatividade mental, felizmente diferente e melhor do que a hiperatividade física, que é a mais comum nos casos conhecidos por TDAH. O menino de mente inquieta..., muito mesmo, fervilhante demais, e ainda hoje, até chega a “doer” o cérebro, que se concentra em problemas ou temas pouco explorados e busca uma solução, com hiperconcentração que prejudica até mesmo o sono. Há períodos de profundo cansaço mental, verdadeira exaustão físico-mental que as vezes nos fazem cochilar mesmo diante de um interlocutor. Segundo os especialistas, mentes assim não descansam nem durante o sono. Muitas vezes acordava de madrugada com a solução, pronta, de determinado problema que chegava em forma de sonho onírico. Sempre deixava papel e lápis na cabeceira da cama e ao acordar daquele estado hipnagógico, com a mente ainda flutuando, como a rodar um filme colorido, nítido, anotava a resolução daquilo que me afligia, pois caso contrário não mais me lembraria. Hoje nem é preciso papel e caneta, pois o celular com aplicativos e  memórias gigantescas se prestam para tais anotações. Foi assim que surgiu o hábito de escrever, teses, textos diversos e vários assuntos e principalmente crônicas, as reminiscências da infância e juventude. Escrever crônicas é como imergir nos escaninhos da alma, reviver os episódios da vida. Vivida ou aprendida com outros e sempre recheadas de amor.

Finalmente, cabe lembrar que esse comportamento, moldado desde a infância, também desenvolveu no menino a resiliência, a capacidade da alma de lidar com as dificuldades da vida, sem entrar em depressões, tão comuns hoje em dia. Aos 12 anos decidi, por conta própria que queria ser padre e fui,  com a devida autorização dos pais, estudar num distante Seminário. Voltei um ano depois da clausura de 24 horas ao dia, sete dias na semana... Mas, hoje, passados os anos  e quase sempre, a morte de um colega, ou amigo de infância nos leva a essas reflexões sobre valores da vida. É breve?..., pergunto-me sempre. Recentemente perdi três colegas, todos na faixa dos 80/84 anos, lá se foram Agnelo, Ângelo e João Júlio e isto nos faz avaliar a nossa própria vida. O fato de ultrapassar a marca dos 80  já traz, por si só, a reflexão sobre esses valores. São indagações recorrentes sobre o que fiz e o que merece ser notado, ou então, o que ainda posso fazer? 

Antigamente dizia-se que uma pessoa para se sentir realizada tinha que ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Tenho filhos, netos maravilhosos (estes últimos são dádivas de Deus que prolongam nossos dias na terra), plantei mais de dois milhões de árvores nas serras do Cipó, Ouro Preto, Mariana, Caraça, do Curral/BH, Rola Moça, Lavras, Campo Belo, Três Marias e Brasília. Livros? Já escrevi  mais de uma dezena e  outro igual tanto em fase de conclusão, além uma centena de artigos técnicos. Mas, nem por isso acho que devo  me considerar uma pessoa plenamente realizada. Aliás, esqueceram de incluir uma outra atividade muito importante, senão a maior realização, ser professor. Repassar ensinamentos... É nesse campo que devemos refletir sobre uma das nossas maiores contribuições. Na solidão do preparo de uma aula ou ainda na tomada de decisão sobre o que falar e ensinar,  reside a essência da realização humana. Repassar o saber com amor é, verdadeiramente, a essência da vida.  Na solidão da aquisição e do repassar o saber, aprendemos a galopar para o nosso interior, para dentro de nós mesmos. E às vezes, esse mesmo cavalo no qual galopamos para o interior da alma, salta bruscamente para fora. É quando caminhando pela rua, ou em lojas e shoppings ou mais frequentemente em eventos técnicos, somos surpreendidos por ex-alunos: Professor, lembra-se de mim? Agora sou empresário, ou diretor na empresa tal..., obrigado pelo incentivo e ensinamentos...”. Nessa hora, aquele galopar para o interior da introspecção pessoal explode no peito e pula para fora na forma de um abraço afetuoso, de orgulho pela missão cumprida. Ali está o resultado! Vida que valeu a pena e devemos agradecer a Deus por isso.

Tudo tem seu tempo, tempo de plantar e tempo de colher, diz a sabedoria, Há pessoas que teimam em esticar o tempo, querem viver mais e mais. Outros, no entanto, aprofundam a vida, a sua existência. Sempre que parte um amigo, como aqueles mencionados, me ponho a refletir e galopo para dentro de mim mesmo. Este galope é uma estratégia para não cair em depressão, pois sempre chego à conclusão de que a vida pode ser curta (o tempo), mas pode ser intensa, cheia de realizações, significados  que serão lembrados por aqueles que ficam. Basta sermos como as crianças, que vivem com alegria e então semear sabedoria e amor aprendidos ao longo da vida. Esta é a maior das realizações, o melhor legado que podemos deixar. Viva intensamente e lembre-se: A vida não é breve, nunca foi! Pelo menos para quem a viveu intensamente.

Boa semana!

Brasília, 18 de maio de 2025   

  Paulo das Lavras.

 

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Enquanto eu voava só, você criou raízes

 

Vovô viajava muito, mas agora tem mais tempo para os netos. 
Lazer e companheirismo, criando raizes 


           Eu partia, deixava você. Você ficou em casa, levei apenas meus sonhos profissionais, meus projetos de trabalho na Educação Superior e constantes viagens às universidades de todo o Brasil e boa parte do mundo. Um workhaolic. Duzentos dias por ano fora de casa, Rio, BH, Brasília e São Paulo eram constantes, além de temporadas nos EUA, França, México, Canadá e tantos outros países. Os outros 165 dias encerrados nos gabinetes e salas de aula. Férias? Há quando puder..., porém, levava a família para uma praia em Guarapari, Caraguatatuba ou Búzios, Natal, Maceió e outras brazilzão afora. Lá os deixava por duas ou três semanas, mãe filhos e agregados, em confortáveis casas ou apartamentos de temporadas. Pegava o avião de volta à Brasília e se engolfava no turbilhão de afazeres e viagens às universidades brasileiras. De outras feitas, já com a família em casa, partia para longas e demoradas viagens internacionais, especialmente para Estados Unidos e França, onde permanecia por mais de mês a cada semestre.

Sim, duzentos dias ao ano fora de casa, asas que voaram mais de 3.500 vezes sim, três mil e quinhentas. Partia, deixava mãe e filhas, mas levava profunda saudade no coração e ao voltar, como na fábula do pássaro encantado, chegava carregado de penas reluzentes(presentes e mimos) como a expressar a alegria de estar de volta. Colegas de viagem ao verem-me “carregado” de mimos para a família diziam, em tom de blague: “é..., o peso da consciência está grande...”, ao que de pronto retrucava: “sim, é proporcional à saudade, a dor da ausência, o amor que fica em casa, o qual carrego no coração e sempre está presente, principalmente quando distante. Me lembro até mesmo a data, 1983, e o nome do colega, Hércio Ladeira, professor da Universidade de Viçosa, que me acompanhava em voo de Pelotas-RS para Porto Alegre e Brasília, por ocasião do Congresso Anual de Educação Agrícola Superior  e celebração do centenário de fundação da faculdade de Agronomia da UFPEL. Demos boas gargalhadas no avião por conta dessa piada ao ver-me carregando no colo, espremido na poltrona, uma enorme caixa de presente super frágil, uma especialidade daquela culta e histórica cidade gaúcha. Sempre que a comissária de bordo passava e olhava com pena para aquela grande caixa no colo, até impedindo-me de aceitar a bandeja de lanches, o prof. Hércio dizia-lhe: "Coitado..., não se preocupe, Srª aeromoça. Ele está com a consciência pesada e fez promessa de carregar essa carga para a família e se abster de comer qualquer lanche até chegar em casa e ser perdoado, em segredo. Essa caixa está muito pesada e  é proporcional ao peso da consciência...". Só me restava rir, mas tive, de fato, que recusar e agradecer o lanche oferecido.

      Eu parti em constantes viagens mundo afora, mas carreguei um enorme fardo, o da saudade, a falta dos entes queridos. Saudade que por duas vezes me derrubou, literalmente, fui ao chão, e paradoxalmente, fiquei sem chão, em profunda angústia e depressão, em San Franciso, na Califórnia e em Paris na França. Na primeira ainda tive tempo de me assentar no meio fio da rua e fui logo socorrido. Já em Paris, caí ao chão mesmo, semi-inconsciente, com a lufada de ar gelado  de inverno de temperatura abaixo de zero graus, quando abri a janela do quarto para respirar ar mais puro e já quase em pânico na solidão de uma manhã de domingo. 

          Cidade nublada, sem luz do sol, contrastando com sua fama de Cidade Luz, contestada até por JK que ali penou seu exílio político. Disse ele que “Isso (o tempo nublado e gelado de Paris, ao contrário da radiosa e verde Brasília) reflete na alma da gente e só convida a pensamentos que trazem o tom das nuvens, cor de spleen". Atacou-me o pânico,  ansiedade sem igual, beirando a depressão e que me levou a quase perda da consciência.  Fins de semana sozinho eram terríveis. O banzo atacava e inevitavelmente vinha a pergunta inicial: o que estou fazendo aqui a 10.000 km, tão distante de casa, dos entes queridos por tanto tempo e sozinho? Com esse gatilho disparado e durante dois dias a cada final de semana, encerrado num quarto de hotel.... Os transtornos psicológicos durante as viagens já foram objeto de estudos e teses universitárias em centros de pesquisas. Uma recente pesquisa entre 500 profissionais, realizada pelo instituto britânico Help Musicians, revelou alguns dos males que as frequentes viagens podem causar.  Cerca de 60% têm depressão quando estão longe de casa e 75% dos entrevistados declararam sofrer de ansiedade crônica quando estão em viagem. 84% disseram, ainda, ter tido dificuldades de convívio com outras pessoas, especialmente no exterior, com idiomas diferentes.

      No way..., e assim passei minha vida profissional inteira, viajando pelo mundo. Em compensação a esposa criou raízes, criou vínculos indeléveis com os filhos.  Levava e os buscava na escola diariamente, visitas aos médicos que, no início eram muito frequentes para debelar crises de asma nas filhas. Me lembro que algumas vezes, diante do simples anúncio de que o pai iria viajar, desencadeava-se crise asmática em uma das filhas gêmeas. Quando retornava... passava a crise. Aliás, a crise já aliviava um dia antes da chegada, pois ouvia os telefonemas do pai anunciando para o dia seguinte  hora de chegada no aeroporto. Era a senha da felicidade, sorrisinhos, expressão de alegria  e adeus asma. Incrível, porém era um fato que se repetia e ainda hoje as irmãs da menininha asmática se lembram desses acontecimentos frequentes. Quando soube disso pela primeira vez, fiquei chateado comigo mesmo e passei mais de um mês sem viajar, embora passasse mais de 200 dias ao ano fora de casa. Mais uma vez a fábula “A menina e o pássaro encantado” (Rubem Alves) provou ser verdadeira, onde não apenas a menina que ficava sem o pai durante suas viagens, chorava de saudades, mas, também o pai sentia saudades da filhinha de seis anos, que reclamava de suas longas e demoradas ausências. “Eu também terei saudades — dizia o pássaro (o autor da fábula). — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.”

          Mas, chegou a hora de parar com o trabalho, aposentadoria á vista,  mais tempo em casa. Tempo para reflexão, a falta do ambiente de trabalho, colegas, viagens..., um choque brutal. Hora de planejar outro estilo de vida. Leituras, produção de textos em crônicas e livros e, principalmente dedicação à família, aos netos que já em fase escolar, do maternal ao segundo grau, nos renovaram e revigoraram o gosto de vê-los a progredir nos estudos e, pela primeira vez, seria parte constante, presente de corpo de alma daquele maravilhoso processo educativo. No âmbito doméstico acompanhamos e participamos da rotina da casa e até nisto aprendemos a valorizar o trabalho de quem a vida inteira se dedicou a criar raízes, como diz o título dessa crônica. E o aprendizado principal não foi apenas das tarefas de governança da casa, administrar empregados, supermercados e provisão da despensa, manutenção de equipamentos, de roupas de cama e mesa, limpeza e conservação predial, locomoção dos filhos/netos, escola e seus compromissos... O aprendizado maior pode ser resumido numa pergunta que sempre  faço a mim mesmo: Como pôde uma única pessoa, a esposa, sozinha e sem a ajuda do marido que vivia a viajar ou metido 24 horas no trabalho fora de casa? Não me canso de contar isso aos amigos, como se fosse um ato de penitência. Mas, infelizmente, não poderei mais telefonar para o saudoso amigo Hércio Ladeira e contar-lhe que aquela caixa de presentes que deveria pesar bastante e que eu carregava no colo, no avião, em longa viagem de quase três horas, não pesava um milésimo do peso que  me deparei ao me estabelecer em casa. E ainda completaria..., como pôde a esposa suportar com galhardia tudo isso, sozinha? Tenho a resposta. Ela soube plantar amor, com tanta  dedicação, criando profundas raízes que sustentam a família e a mantêm unida. Mas, sequelas são inevitáveis e  embora o pássaro tenha sido “encantado” para os filhos, agora ele sente a falta que fez sua presença, restando a sensação de que perdeu oportunidades de criar raízes mais fortes com os filhos que lamentavam sua ausência na infância. No entanto, Rubem Alves, o filósofo e poeta, soube traduzir muito bem esse sentimento quando disse para a menina: 
“...o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar”.

          Sinto que hoje, passados mais de quatro décadas, o amor dos filhos é maior e permanece mais forte. Adultos e também pais, sabem melhor avaliar o valor dessas experiências da infância. Sabem que a saudade criou expectativas pelo pássaro encantado, que chegava com as penas douradas e imaginavam que ele voltou definitivamente para o ninho, sequer pensando que poderia haver novas viagens. Certa vez, ao chegar de longa e demorada viagem, correram para os apertados e chorosos abraços, depois de invadirem o portão que separa a área de recepção de bagagens e o hall público, no saguão do aeroporto. Mesmo agachado, à espera dos abraços e pensando que assim poderia diminuir o previsível impacto físico, fui derrubado ao chão, literalmente. Vieram correndo para o abraço e conferir as penas douradas do pássaro encantando. Foi um espetáculo à parte, com todos os demais passageiros contemplando aquela inusitada cena de um pai, de terno e gravata caído, esparramado no chão  e os filhinhos de  menos de dez anos em cima, na maior alegria, em gritaria e chororô. Tratei logo de, pelo menos, me assentar ali mesmo no chão, antes que alguém chamasse um socorrista. Foi uma cena comovente, pude perceber nos olhares daqueles que também desembarcavam. Não me senti envergonhado pela cena, ao contrário, sentia-me orgulhoso, recompensado na volta ao ninho e todos os passantes, que tinham de se desviar olhavam com ternura aquele monte de gente no chão. Para as crianças, ensinam-nos os psicólogos, não há futuro e nem passado, mas apenas o presente. Para elas valia apenas o fato de que o pai havia chegado, estava ali e ponto final, não importando as circunstâncias . A saudade doía no pai, mas o abraço e a alegria dos filhinhos superavam toda a falta, o sentimento de solidão e saudade em distantes terras. Ah.., os filósofos e poetas têm razão. O melhor da viagem é mesmo a volta para casa, o ninho de afetos da alma!

Brasília, 20 de outubro de 2013

Paulo das Lavras 


 
Compromisso comigo mesmo..., do primeiro dia de aula (aos dois anos) até o último, o levava e buscava na escolinha. E era tão prazeroso ver aqueles olhinhos brilhando  e assim que entrava no carro, já de volta para casa: “vovô, pára na banca para comprar figurinha?”  Nada se compara ao prazer de estar em casa e participar do desenvolvimento da criança.



Natal, rodeado de netos. Viagens, sozinho e distante? Ah..., nada melhor
que estar no ninho, rodeado de filhotes




 
Fim de semana em Londres, fugindo do frio de Paris, onde trabalhávamos
por longas  temporadas. Mês de dezembro..., melhor voltar para o ninho


Viagem de lazer, de volta à França depois de muitos
 anos. Paris, com os canhões de Napoleão


Hoje, mais que nunca, “o melhor da viagem é a volta para casa”,  curtir os netos, a família. 
Os filhos não pudemos curtir tanto quanto se desejava, pois viajávamos até duzentos dias por ano.
Agora, construir um reboque cheio de pedriscos, barulhento na calçada..., não tem dinheiro que 
 pague essa felicidade  da criança em ter algo diferente que ela própria ajudou a construir...
Deus é sábio, reserva-nos no final da vida todo o tempo, sem pressa, sem preocupação com compromissos,
 para recebermos essas bençãos, chamadas de netos e que prolongam nossos dias na terra. Amém!










sexta-feira, 18 de abril de 2025

Amigos que se vão – Ângelo Delphim

 
O site Historiaufla Lavras, postou: O Encontro de História, projeto da UFLA, se solidariza com a família do Ângelo  e reconhece o legado dele para Lavras. Ângelo até nos últimos dias antes da sua partida sempre recebeu e atendeu
  a todos informando sobre a história de Lavras. E tinha projeto para a cidade que queria realizar mesmo com a 
saúde debilitada e aposentado. 
Fonte: poStedosrn 5fe7uàh1: alt h0f51 iglada4f3t6fl30iibrl1587a13cs






... Em todo tempo ama o amigo e  na angústia se faz o irmão”.
Provérbios 17:17





      Feliz daquele que cuidou da vida de seus entes queridos preparando-os para a partida. Somente assim a alma será recompensada com  a alegria do amor dedicado aqueles que sempre  nos amaram. Viva sua vida de forma que o medo da morte nunca possa entrar em seu coração. Sim, esta é a maneira mais amorosa e digna para os momentos finais, seja de outrem ou  de nós próprios. Ler o amoroso texto que Carlos Delfim escreveu sobre seu querido irmão, Ângelo, foi muito emocionante. E daqui, à distância, sem poder dar um abraço  e compartilhar o pesar, a dor parece mais forte e o impacto soa mais dolorido na alma. Um pedaço de nós que se vai para sempre. Aqui, distante 1.000 km, me ponho a pensar para que servem os velhos amigos? Desde as primeiras linhas de seu texto já se notava que a crônica se referia a alguém muito especial e que partiu para sempre. Especial no  sentido de diferente, alguém de grande coração, amoroso que não conseguia ver alguém sofrer, sem que o protegesse.


    Prezado Carlos, não era só a você que Ângelo “protegia”, caso alguém descobrisse suas estripulias. Seu irmão tinha um enorme coração. Todos os lavrenses dizem isto. Estou fora de Lavras há 50 anos, mas nunca perdi os contatos  com os amigos, especialmente os colegas da UFLA.  Nos primeiros 30 anos de ausência minhas visitas eram quase que mensais, pois ainda mantinha negócios na cidade. Bastava assentar-se, ali na praça, o Jardim de Lavras, bem defronte à Igreja do Rosário e Banco do Brasil para encontrar-se com grande parte dos amigos, ou então ir aos campi da UFLA, o antigo e o novo. Ultimamente as visitas se restringiram a apenas duas vezes ao ano. Ângelo era um dos que sempre encontrava e sempre com o mesmo sorriso e finesse. Gostava de entrar naquele lindo casarão e eu reclamava da entrada de seu escritório na rua lateral, a Gastão Maia. Para compensar, me levava para a copa, onde Vera, sua irmã já tinha preparado café com fartas e deliciosas quitandas que não encontro por aqui, em Brasília.


    Você afirmou que ele “não media o tempo dispendido mostrando a quem visitava o museu que dirigia, prestando informações aos visitantes”. Não era somente isso. Muito mais. Amava o que fazia e presenciei isto inúmeras vezes, fosse com autoridades ou simples cidadãos. Certa vez nos encontramos próximo ao Museu, pois estava hospedado na Casa de Hóspede (antiga casa do diretor da Esal, ao lado do prédio Álvaro Botelho, sede do Museu) e comigo estavam os quatro filhos de idades entre 08 e 10 anos. Ele os conduziu a uma visita de mais de uma hora em todas as dependências do Museu, que ele cuidava com tanto carinho. Adoraram a inesperada visita. Maravilharam-se com as relíquias desde os tempos da escravidão e outras curiosidades. Hoje, 40  anos depois, mesmo não tendo mais o encontrado, se lembraram daquela atenciosa e interessante visita e ficaram muito entristecidos com sua partida.  Ângelo era assim, sabia cativar para sempre!


    Em 2013, promovi, com patrocínio da Ufla, o lançamento de um livro de Carlos Murilo, daqui de Brasília, ex-secretário de JK e muito amigo de Lavras. Evento bastante concorrido e o amigo Ângelo Delphim lá estava a nos prestigiar. Em 2017 ele havia passado por problemas de saúde e uma amiga, Maria José Valladão, organizou a meu pedido uma visita coletiva a ele. E lá fomos nós, quatro amigos tomar um café com ele, numa lanchonete logo acima de sua casa. Depois disso, ele passou a dar notícias de sua saúde nas redes sociais e pude sentir que ele, indiretamente, estava mandando recado aos amigos: gente, estou aqui... Assim, para  homenageá-lo e a outros velhos amigos que eu sempre visitava em BH e Lavras, escrevi, em fevereiro de 2018, uma crônica, onde eu perguntava “para que servem os velhos amigos?”. Lá estão, nessa crônica, Ângelo Delphim, Nelson Werlang, Juca e o filho Claret Mattioli, Luiz Teixeira da Silva e tantos outros, com fotos,  agradecimentos pela amizade e atenção, conforme pode ser visto nos links abaixo indicados.  


    Ano passado, em setembro de 2024, fui à Lavras receber uma homenagem nas comemorações da milésima tese de Mestrado, cujo curso inaugurei, quando ali fui Pró-reitor de Pós-Graduação e ao passar pela rua Santana, logo no seu início, pedi ao motorista para parar o carro. Desci, dispensei-o e bati à porta daquele belo casarão, residência de Ângelo e Vera, sem aviso prévio. Fui logo apelando diante do não reconhecimento deste desconhecido forasteiro: “Sou colega de universidade de Ângelo, vim de longe e gostaria de abraçá-lo”. Fui logo conduzido ao seu escritório, onde ele estava e aparentemente gozando de boa saúde. Estendemos a conversa por longo tempo, seguindo-se o café servido e acompanhado por sua irmã Vera. Cobrou-me a entrega de uma arado de aiveca que pertencera a meu pai e já prometido, desde o ano anterior, para o seu recém-criado Museu Rural. 


    Carlos e Vera..., não deu tempo de levar aquela peça até o Museu, fundado por Ângelo. Ele partiu antes e nos deixou, a todos comovidos. Era meu plano criar expectativas e chegar aí sem aviso, com minha SUV e a surpresa ali dentro bem à vista. Eu tinha certeza de que seria uma imensa alegria, pois contei a ele, numa postagem nas redes sociais, em 2023, o carinho e a história daquele lindo arado agrícola, que alimentou toda a família, pelas mãos de meu pai, aí nas fazendas em Lavras, nos idos de 1940 a 60. Não deu tempo de levá-lo e ver essa alegria inata, dele, embora o tenha visitado por três vezes depois disso, mas sempre por meio de viagens aéreas. Agora, vou abreviar a entrega, com amor redobrado pois, o  Ângelo Alberto de Moura Delphim foi muito mais do que nos foi contado em sua crônica. Vejam as inúmeras homenagens que recebeu em vida, da UFLA, IHGL. Gammon, Câmara Municipal, Rotary e tantas outras, merecidas. Acrescentei, neste texto e em outras crônicas , um pouquinho mais de histórias sobre sua vida, mas, de cada lavrense que encontrarem, vocês ouvirão muitos outros casos dele e sobre ele. Alma pura, coração doce que a todos alegrava. Para terminar, repito aqui, parte de seu texto: Ângelo, um anjo, deixa o mundo terreno, retornando às alturas celestiais. Que Deus o receba como um filho amado.
 

    Ângelo Delphim nos fez irmãos. Que o canteiro de flores que você preparou e semeou no quintal da casa dele, apenas um dia antes de sua partida para a Glória Deus, floresça e sempre que você ali voltar, possa admirar a beleza das flores e se lembrar com muito mais carinho do querido irmão, que também amava os jardins floridos. Foi seu presente a ele, desenhado por Deus. Seu jardineiro sabia disso, apenas não soube se expressar direito, mas também sentiu a despedida. Coisas de Deus. Ângelo partiu em paz no dia seguinte e o canteiro de flores florescerá em breve. Este é mais um conforto que Deus proporciona para a  nossa alma. Doravante nos restará a saudade, muita, mas muita mesmo,  principalmente a você e Vera que estarão mais em contato com a sua lembrança, a começar por esse novo canteiro de flores. E o que é a saudade, senão o amor que fica? Meu abraço de pesar  a todos os familiares, na certeza de que a memória desse grande e humilde homem ficará gravada para sempre em nossa terra natal. .

“... Em todo tempo ama o amigo e  na angústia se faz o irmão”,  diz o provérbio bíblico.
Amém!


Brasília, 18 de abril de 2025
      
 Paulo das Lavras



Muitas vezes bati à porta desse lindo casarão, residência e escritório de Ângelo Delphim.
 Longas conversas regadas a cafezinho e deliciosas quitandas
Foto: família Moura Delphim



O jovem Ângelo Delphim,  aos 26 anos
Foto: Rogério Salgado 




Em 2013, na Casa Rosada, no lançamento do livro sobre JK. Alegria, ladeado por
 dois velhos amigos que infelizmente nos deixaram, Ângelo e Claret Mattioli.
Foto do autor 



Em setembro de 2017, a amiga Maria José Valladão organizou, a nosso pedido, 
essa visita ao amigo Ângelo, para um café em lanchonete, ao lado e sua casa. 
Foto do autor











Um arado agrícola para o Museu Rural, criado por Ângelo Delphim. 
O Prof. da UFLA, Ricardo Sette, quando esteve em minha chácara, 
fez questão de ser fotografado  ao cabo daquela simples máquina 
que também foi utilizada por seus pais.
Ferramenta largamente utilizada em Lavras na primeira metade do século XX. 
Relíquia de minha família, será entregue, em breve, ao Museu Rural de Lavras.
Foto do autor 




P.S.  - Sugerimos acessar os links abaixo, de outras crônicas sobre Ângelo Delphim  (copie e cole),:

https://contosdaslavras.blogspot.com/2018/02/velhos-amigos-para-que-servem.html 

https://www.facebook.com/angeloalberto.demouradelphim/posts/2706081279542081 

 








 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Um aniversário em tempos de Covid

 


Estava na chácara, tranquilo, cumprindo a quarentena imposta pela pandemia do Covid-19  e não pretendia vir para a cidade. Um pouco triste por não poder receber os netinhos para o indispensável bolo com velinhas e guaraná, já estava até resignado. Logo após o almoço, no entanto, instado que fui, partimos para a cidade. Ao chegar em casa, fui  logo “obrigado” a levar para o porteiro algumas frutas trazidas da chácara. Foi apenas um pretexto para que eu me deslocasse até à portaria do prédio. 

Ali estava a grande surpresa que sequer desconfiei. Lá estavam, recém chegados e estacionados, três carros conhecidos e deles desceram três famílias, as de duas filhas e uma terceira de amigos comuns de todos nós. Cada qual com seu filho, três crianças, os dois netinhos de 12 e 11 anos e o amiguinho deles que também me chama de vovô. Alinharam-se, respeitadas as distancias mínimas de dois metros impostas pelas regras sanitárias contra o Covid-19 e entoaram o famoso “Parabéns para você...”

Mudo, ali estatelado, do alto das escadarias e a uns cinco metros de distância e  contendo as lágrimas de emoção, ouvi o tradicional “parabéns” . Em seguida a linda oração proferida por Pedro Henrique, pedindo as bênçãos de Deus sobre mim, concedendo-me saúde e que Ele acabasse, bem depressa,  com a quarentena do coronavírus, pois estava com muita saudade do vovô, de seu abraço, vir à sua casa e tudo mais.

Depois de três semanas de afastamento social, privando-nos do convívio diário com os netos, do abraço, das prosas, do sorvete e das constantes visitas às bancas de jornais, futebol de salão e de gramados, aulas de inglês, estudos de matemática, geografia e história..., não foi fácil  se segurar, me segurar ali, estático, contra o ímpeto de pular escadarias abaixo e abraçar, agradecer e compartilhar aquela alegria incontida com os meninos, seus pais e muito especialmente pela sincera oração do menino de 11 anos, pura, brotada do coração.

Agradeci a Deus, recolhi a tristeza momentânea e reforcei o pedido para que eu ainda possa abraça-los muito em breve. E ao final, também reconheci que tive de esperar 75 anos para ter um aniversário sem bolo com velinhas e com discurso de todos os presentes, adultos e crianças, de alto e bom som, em razão da distancia sanitária e show gratuito para os demais moradores que chegaram à janela.   Amém!


Brasília, 05 de abril de 2020

Paulo das Lavras





segunda-feira, 31 de março de 2025

Amigos em Washington?... melhor comprar um cachorro.

nº 2 da série: Minha vida nos EUA

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Não é fácil fazer amigos em Washington. Disse-me o diplomata do Deapartamento de Estado,
 ali na capital dos americanos. Deu-me um conselho bem esquisito, inusitado. Achei melhor visitar museus e 
prédios públicos como a Casa Branca, embora cercada a 300 metros com grades e telas.
Foto do autor - 1977



          Não, não se engane. Não deixei nenhum amigo na capital norte-americana. Apenas conhecidos, aqueles com os quais desempenhamos algum trabalho de comum interesse. Aprendi a prestar atenção nos cães de estimação desde os tempos de trabalho nos Estados Unidos. Lá, os cães são muito queridos e cultuados. Um alto funcionário do governo deu-me uma inusitada lição. Sorvíamos um whisky cowboy numa descontraída reunião social, patrocinada pelo Departamento de Estado, em Washington-DC, quando então perguntou- me: “Mr. Da Silva/Brazil" – este era o nome de identificação em grande crachá na lapela – “como é viver  numa capital (Brasília) fundada havia menos de 20 anos?”
     Respondi-lhe que a cidade de Brasília era excelente para o trabalho e até mesmo para caminhadas em seus parques que rodeam os prédios residenciais. Um paraíso paisagístico, sem igual no mundo. Nem mesmo ali em Washington, ou NovaYork, Londres e Paris. Mas, socialmente, deixava a desejar pela falta de raizes e as constantes revoadas nos finais de semana para a terra natal. Naquela época, anos de 1980, quase não existia vida social, pois todos os funcionários eram migrantes temporários que retornavam para sua cidade natal após cumprir a missão em determinado período de governo, geralmente de apenas quatro anos. Assim, não hávia como se criar vínculos permanentes. Os finais de semana eram vazios, pois quase toda a familia voava para os estados de origem. Ninguém aguentava mais que quinze dias isolado do convívio de seus antigos laços familiares, amigos de infância e juventude. Além disso, boa parte dos colegas de trabalho não trazia sua família e morava em hoteis, flats, muito comuns na cidade. 

         A capital brasileira era, de fato, muito nova e ainda não tinha raizes que prendessem os moradores, sempre considerados “forasteiros”. Qualquer conversa começava sempre com a célebre pergunta, de onde voce é, de qual estado da federação você veio? E essa falta de raizes nos custava bastante dinheiro com a ponte-aérea, reclamei para o interlocutor interessado na resposta. O funcionário americano retrucou: “Aqui é pior..., no friends, too, só há ambições e se você quizer ter um amigo aqui nesta capítal, compre um cachorro!”.  Não entendi bem, arregalei os olhos, engoli em seco e até achei muito engraçada a expressão à queima bucha: get (buy) a dog - compre um cachorro! Dei uma boa gargalhada, pois embora fleugmático e mesmo sorvendo um copo de uísque cowboy, o gringo estava com certeza ironizando a frieza e a indiferença social na capital dos norte-americanos. Respondi-lhe de imediato: No, Sir, thank you..., não vou comprar nenhum cachorro por aqui. Prefiro ir visitar museus e monumentos de sua bela capital...., sozinho, sem cachorro, mesmo! Já sabia que ali dificilmente se fazem amigos, há muitos visitantes, gente de outros estados e paises, políticos e executivos fazendo lobby em favor de seus projetos. Era mais fácil fazer amizades com estrangeiros que lá viviam. Fiquei a pensar, se o gringo de origem anglo-saxônica, de maneira geral, já não é tão efusivo como os brasileiros, ali na capital era pior a situação. Total indiferença para com as pessoas..., “no friends”, ecoavam as palavras do gringo balançando o gelo em seu copo de whisky..., apenas interesses comerciais. Ainda bem que a capital americana é dotada de inúmeros museus e monumentos de atração turística, pensei logo, e o visitante não precisa ficar encerrado, isolado nos hoteis em finais de semana.

         Hoje, mais que nunca, depois que vivenciamos casos como o do vira lata adotado e superdotado, Candu (link anexo), pudemos compreender melhor o conselho daquele morador da cidade de Washington. Tratei logo de vestir a carapuça e pensar em arranjar amigos verdadeiros na outra capital, Brasília. Se os humanos não oferecem ou não merecem confiança, principalmente nas capitais onde a população de políticos é considerável e é grande a mobilidade com vai e vêm constantes, os cães, ao contrário, não se cansam de dar provas de amor e fidelidade aos seus donos. Lá mesmo em Washington, há pouco tempo, o cão labrador, Sully, de Geoge Bush (pai) deu mostras inequívocas de puro amor e fidelidade. Quando o ex-presidente Bush faleceu, o labrador ficou postado com absoluta tristeza ao lado do caixão do antigo e querido dono. A foto do cãozinho ali a seu lado, num último adeus, rodou o mundo e nos comoveu a todos.  E naquele dia me lembrei das palavras do gringo do Departamente de Estado Americano, num salão de festas ali mesmo em Washington, onde George Bush exerceu a presidencia dos E.U.A. Suas palavras, “se quizer ter um amigo aqui..., compre um cachorro...”, reverberaram na minha mente. Ali estava o exemplo, bem aos meus olhos, na tela da TV, direto da Casa Branca, um cão da raça labrador num último adeus ao dono querido. Fiel amigo, talvez o único daquele mundo político do ex-presidente americano. Cena comovente. 

A comovente cena do labrador Sully, ao lado do caixão do amigo, o querido ex-presidente dos E.U.A. 
Essa foto foi publicada nas redes sociais e viralizou, incluindo a frase “Missão cumprida”, por aquele 
cão adestrado que ajudava o ex-presidente em seus últimos meses de vida. 
Foto: internet 2018 


              O amor aos cães pelos norte-americanos é tanto que até há, em Nova York o Museus dos Cachorros (AKC Museum of the Dog) que, em recente passado, apresentou a exposição “Cachorros Presidenciais”, mostrando a retrospectiva das diferentes raças de cães que já viveram na Casa Branca ao lado dos presidentes que ali se hospedaram. Interessante a narrativa das histórias dos cachorros e a influência que eles tiveram naquele país. O único inquilino que para lá não levou um cachorro foi o Sr Trump. Aqui no Brasil há um ditado que diz que quem não gosta de samba bom sujeito não é. Será que haveria correspondência desse ditado em relação aos animais? Portanto, a piada que o gringo contou-nos nem  pode ser classificada como tal, pois reflete a preferência, o amor que os americanos têm pelos cães, a começar pelos presidentes da nação. Também não é de se estranhar que nessas metrópoles haja exagerada quantidade desses bichinhos de estimação. Mas, não é somente por lá. Paris, por exemplo, bate todos os recordes de número de cães por habitante. Ali, o índice de natalidade dos humanos é dos menores do mundo, apenas 0,6% e por isso, na falta de crianças, os casais preferem ter a companhia de cachorros. Estão presentes, em grande número, nas ruas, parques e até em restaurantes. Nunca entedia, quando lá trabalhava, aquela enorme quantidade de cães puxados pelas madames ou até mesmo carregados no colo, nas ruas e em todos os lugares. Somente compreendi a situação quando tomei conhecimento das estatísticas sobre natalidade. Sem crianças e muitos cães de estimação, essa era a realidade parisiense durante as temporadas que lá passei a trabalho, por mais de cinco anos. Certa vez estava jantando, num respeitável e seleto restaurante especializado em ostras, situado no cruzamento da Boulevard Raspail com Montparnasse e cujos bancos estofados eram geminados, costas com costas, senti repentinamente e sem nenhum aviso prévio, um leve roçar na nuca, seguido de um molhado “lambeijo”. Assustado, mas já refeito do susto e considerando que já estava algumas semanas sozinho em Paris, imaginei que aquele lambeijo pudesse ser de alguma gata, no sentido figurado, e que aquela fosse alguma forma de aproximação, manifestação de interesse. Virei para trás e ainda pude sentir o hálito quente do cachorrinho da madame, a qual sequer se desculpou. Decepção geral, pois além de errar a espécie, nunca imaginara ser possível uma situação daquela. Coisas de capital, onde, segundo o diplomata americano, para se ter um amigo é preciso comprar um cachorro e no caso de Paris, mais ainda, um substituo das crianças quase inexistentes na capital francesa, onde é permitido coloca-lo na poltrona de restaurante e importunar estranhos. Haja cachorros!

          Bem, por aqui, em Brasília, também há muitos cachorros de estimação e todas as manhãs e tardes desfilam pelos parques de imensos gramados. Mas, não tem acesso a restaurantes. Também tenho os meus cães, mas preferi mante-los na chácara, com mais espaço e conforto para eles, que são nossos fiéis amigos, seja em Paris, Washington, Brasília, ou qualquer outro lugar. Depois dessas inusitadas experiências em Washignton e Paris, sinto-me como um americano ou francês quando chego à chácara nos finais de semana. Lá estão todos os quatro ou cinco câes a me esperarem. Disse-me o caseiro que eles identificam o barulho de meu carro a mais de um km de distância e saem em disparada rumo ao portão latindo, agitados. Ao chegar e ser recebido com tanta "festa", lembro-me daquelas experiências no exterior, “ser amado", querido, festejado, até penso que a capital onde moro tem o mesmo problema daqueles estrangeiros. Desço do carro, rapidamente, faço um afago nos dois enormes filas e nos vira-latas, os mais festeiros. Tento silenciar a estrondosa banda de recepção de latidos e uivos. Lógico que não deixo me darem lambeijos, coisa que não pude evitar na capital francesa... Gosto de cachorros..., mas recusei-me a comprar um em Washington-DC. Preferi ir, sozinho, visitar museus e monumentos da capital norte-americana.

Brasília, 12 de março de 2021

Paulo das Lavras




 O American Kennel Club Museum of the Dog, em Nova York, promoveu em 2020 
uma exposição Cachorros Presidenciais, tal a admiração pelos cães. 
Foto- AKC


Ali em Washington nem mesmo a minha gravata lembrando a bandeira americana e muito menos 
as gargalhadas foram capazes de provocar o humor do interlocutor que, embora ali morasse havia tempo,
 pensava que, na capital, era melhor comprar um cachorro para se chamar de amigo e  ser correspondido...
 Constatei que ele estava certo, pois nem as cores da bandeira americana na minha gravata serviram de incentivo ou empatia...
Foto do autor - 1988


Em Washington era mais fácil fazer amizades com estrangeiros, como esses filipinos, em visita 
ao Capitólio. Aquele mesmo icônico predio que um aloprado presidente incentivou a sua invasão
 em recente passado e que provavelmente também não gosta de cachorro, disse o AKC.
Foto do autor - 1988 


 
Lincoln Memorial, também boa opção de visita na capital americana
Foto do autor - 1977


 
Biblioteca do Congresso, esta sim, não pode deixar de ser visitada.
Foto do autor – 1977


O túmulo do ex-presidente John F. Kennedy, no Cemitério Nacional de Arlington. O líder que influenciou
 os jovens no início dos anos 60. “ Don´t ask what the United States can do for you, but what, you, 
united can do for the Unired States”, sua frase que nós, os apaixonados estudantes 
da língua inglesa, gostávamos de repetir.
Foto do autor- 1977


O melhor era mesmo deixar a capital Washington, e nem precisei comprar um cachorro. Voltei para Michigan. 
Nesta decolagem do Aeroporto Nacional, capturei a ponte e as  marinas do rio Potomac . 
Ao centro  o Departamentto de Estado e o Mall, com o Capitólio ao fundo. 
Assim, voamos de volta para a região dos Grandes Lagos, Michigan, 
onde tínhamos melhor acolhida em nosso escritório permanente.
Foto do autor –Aeroporto Nacional de Washington-DC, 1988


Nos anos 80/90 passei a trabalhar em temporadas em Paris e ali a presença dos cães 
de estimação é mais intensa que nos EUA. Dominam as ruas e os parques e até em....
Foto- internet



 
... em restaurantes, onde chegam a nos incomodar e  assustar. Tal qual nesta foto, levei um “lambeijo” igual a esse, em um respeitável e especializado restaurante localizado no coração de Paris
Foto- Aleksandarnakic


Abraço de derrubar ao chão ou um “lambeijo”..., só se for de seu cão, conhecido, manso e
 amigo. Pantera, a primeira cadela da raça Fila que ganhei. Por ironia, ganhei-a de um diplomata
 que retornou a seu país. Nessa época ainda não conhecia a paixão dos americanos por cães, 
o que só foi-me revelado alguns anos depois, ali em Washington. Mas...,
Foto do autor- 1983

O primeiro vira-lata a gente nunca esquece. Bob, atropelado na rua, recolhido por uma
 colega de trabalho e o adotamos. Era o xodó das crianças
Foto do autor - 1983

 
Também em Brasília há muitos cães de estimação com seus donos a desfilarem pelas ruas e 
parques.  Prefiro manter os meus na chácara com amplo espaço.
Foto do autor


Enfim, seja aqui ou nos EUA e na França, os cães (Argus e Tobi) são os melhores amigos.
 E nos esperam, pacientemente, enquanto vamos tomar água na cozinha e “guardam”
 a botina como se alguém fosse leva-la, surrupiá-la de seu dono. 
Foto do autor


Nem se aproxime... avisou o guardião, com um simples, mas intimidador rosnar.
Com amigos assim, fiéis, estamos protegidos..., descanso para que te quero..
Foto do autor


... mas, o amor aos cães é retribuído, ali na chácara. Até mesmo com capricho e decoração de 
sua casinha..., com flores (cana índica) e fruteiras (lichia, pera, caqui e macieira)
Foto do autor


Logo à porta do canil, os pés de Peras e os cães Fila podem colhê-las. Dizem que 
é feio o cão chupando manga. Mais elegante ele fica comendo peras, 
produzidas aqui no cerrado do Planalto Central...rsrs
Foto do autor





... em Brasília, como em Washington ou Paris onde trabalhei, os “amigos” duram enquanto duram a missão, 
o projeto, a tarefa ou interesse dos “recém-conhecidos”, como nessa foto, na Câmara dos Deputados, onde 
defendíamos a criação da profissão de Paisagista. Também por aqui, capital política de nosso país, 
de alto rodízio de pessoas, melhor seguir o conselho daquele gringo...
Foto do autor - Câmara dos Deputados - Brasília-DF - 2020



     Veja também, no link abaixo, uma história inacreditável de amor dos cães, acontecida e vivenciada na chácara com o vira-lata adotado, superdotado.

http://contosdaslavras.blogspot.com/2014/10/candu-o-adotado-superdotado.html  
(copie e cole)

(*)- Série Minha Vida nos Estados Unidos:  

Nº 1- Cross country tour nos Estados Unidos:       

                               https://contosdaslavras.blogspot.com/search?q=cross+country