domingo, 19 de maio de 2024

Meus 80 anos - Ode à Vida

 

 



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Oitenta anos de idade? É muito. É tempo demais... No dia 05 de abril, completei setenta e nove anos e recebi uma profusão de cumprimentos e votos de vida longa. Que benção, os amigos na vida da gente!  Setenta e nove anos completos e entrei para a casa dos oitenta. Não é assim que se contam os séculos? Estamos no século 21. Então não seria o ano de 2100? Não! O século 20 terminou em 31/12/2000. O primeiro dia de janeiro de 2001 já faz parte do século 21. Por isso estamos vivendo este século assim identificado: Século 21 ! Pela mesma razão digo que estou vivendo os 80 anos de vida.

As pessoas se assustam com o tempo já decorrido. 80 anos? !!!  Eu não me assusto, apenas me encanto com tanto tempo de vida já passado. Tenho algo diferente dentro de mim. Não sei exatamente o quê. E não é aquele temor que as pessoas sentem, a proximidade da finitude. Não, não é isso. Sinto que meu corpo está envelhecendo, mas, paradoxalmente não me sinto assim por dentro. E nem é “a criança” que existe em nós, segundo os poetas e filósofos. É algo que tenho preservado e aceito com naturalidade esse passar do tempo que, para mim, nos torna mais sábios, ricos em generosidade para com os demais, dos jovens aos idosos. É o tempo do olhar para o passado com alegria. A alegria de ter vivido uma infância feliz, em meio à família, ter recebido primorosa educação e ter podido fazer aquilo que gostava ao longo de toda a vida. A alegria dos tempos de colégio, a juventude com os amores e as incontidas paixões pelas garotas mais lindas e eternas para sua vida de adolescente que acordava para a vida. A alegria do jovem profissional, nova família, pai pela primeira vez e avô com incontáveis alegrias.  E agora, só porque cheguei aos 80, aos olhos dos outros sou um velho. Será assim? Só porque os 80 chegaram tudo aquilo acabou?  Não, não acabou nada, eu sou eu, pois está tudo dentro de mim, de forma vivíssima a alegria presente com todos aqueles momentos da vida, com a idade e a alegria de todos aqueles que um dia fui, a criança, o jovem e o adulto e, por isso mesmo,  me sinto com a idade que quero. Essa história de que 80 anos é idade de velhos, é apenas o olhar dos outros. O meu olhar é diferente e garanto que o seu também, pois pare, pense quantos anos você tem... e verá que  a sua alma dirá: não parece..., acho e que tenho a metade disso. Para nós mesmos, somos eternos jovens E isto é bom, pois nos permite sermos o quisermos ser.

 

É, mas tem a morte... Ora, como bem disse outro poeta e filósofo, Rubem Alves, “quem é rico em sonhos não envelhece nunca. Pode até ser que morra de repente, mas morrerá em pleno voo”. E ninguém melhor que ele, para definir o medo da morte: “.... Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza”. Prossegue Rubem Alves, afirmando que concorda com  Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver. A vida é tão boa! Não quero ir embora... Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza”, conclui aquele autor.

 

 

 

E então, 80 anos..., quantos mais virão? Não importa. Para quem quase morreu aos dois anos, submetido a uma grande cirurgia, tendo passado nove meses no colo, literalmente, se recuperando e ainda escapou com vida de três acidentes aéreos, afogamento antes dos 2 anos  e agora, chegar até aqui..., foi o maior lucro que poderia se ter na vida. A vida humana não se define biológica e temporalmente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia, disse o mesmo filósofo já citado. Como na  "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços, imagino que a morte, naqueles braços... do amor, do aconchego, o morrer deixa de causar medo. Não tenho medo do passar do tempo, ou da morte como muitos temem, mas, Tenho tristeza. A vida é muito boa, repetimos.  Mário Quintana, nosso grande escritor disse: "Morrer, que me importa? O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...”. Nem eu tampouco...


            E por isso curto a vida a cada dia, a cada manhã ao abrir a janela e contemplar as árvores, flores e pássaros a cantar. Gosto de ir à chácara onde tudo isto acontece de forma mais pura e cristalina, pois até mesmo o meu cavalo, que ali vive há mais de duas décadas  e os quatro cães se agitam em puro ritual de saudação pela nossa presença. Por tudo isso dou Graças a Deus pela Vida. Um dia que se renova, pois já estou no lucro há muito tempo. Derrotei por 7  vezes aquela senhora da capa preta com foice às costas, à cata de vidas. Sim, sete vezes eu a driblei e a última vez, em acidente aéreo, foi há mais de 30 anos. E agora, ou melhor, desde então, e contrariando um pouco o que disse antes, eu até acho que a criança ainda mora em mim, pois elas, as crianças, sabem que a vida é só alegria e nem há em suas mentes puras, inocentes, o ontem e o amanhã, mas somente o hoje, o agora, a alegria! E é certo, também, que a alma dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria! O problema sempre foi procurar alguém para envelhecer juntos, quando o verdadeiro segredo está em achar alguém com quem possamos ser crianças para sempre! Voltei a ser criança no sentido alegre da vida e por isso gosto de escrever crônicas contando os casos dos tempos da infância e da juventude. Viver é ter histórias para contar. E tenho muitas ainda para contar... Cada dia que virá será um renovar de alegrias junto aos entes queridos, amigos e leitores e com os quais compartilho a alegria de viver.

Que Deus me mantenha assim até a finitude, com alegria e sobretudo riqueza em generosidade para com os demais, dos jovens aos idosos, como disse antes e especialmente com a mesma gratidão de sempre aos pais, mestres, amigos e familiares que nos fizeram assim como somos.

Obrigado aos amigos pelas inúmeras manifestações de carinho, especialmente aos nossos leitores. 

Amém!  

 

Brasília, 19 de maio de 2024

 

Paulo das Lavras.



 Uma trajetória de vida.... aos três anos  


 
aos 11 anos 


 aos 12, seminarista em Itaúna-MG  


aos 70 ainda na labuta diária  de  oito a dez horas de trabalho


Quero chegar aos 90 ou 100 (igual a meu pai que viveu até os 101 anos), 

com a mesma alegria e disposição, como nesta foto aos 72 



e a mesma garra e veemência, aos 78, como no podcast de março de 2024.



... e a tranquilidade, firmeza e não menos entusiasmo às véspera do aniversário

  de 79 anos, ...


... quando defendeu a preservação do paisagismo de Brasília,

na Assembleia Legislativa do DF, em 04/04/2024.

 


A Universidade de Pittsburg, na Pensilvânia, afirma que “caminhar é

 lembrar”  e proporciona melhoras neurológicas, diminuindo

 os riscos de dedenvolvimento  doenças como o Alzheimer. Como nesta foto de Pittsburg, nas minhas caminhadas de 5 km, renovo as energias e as conexões neurológicas. Que venham 10 ou mais anos!

Fontehttp://www.cuidardeidosos.com.br/caminhar-pode-ajudar-a-prevenir-demencia/

  



 

... caminhar, digitar... e escrever livros técnicos e crônicas,  paixão

que nunca se acaba no “menino”. Quem sonha nunca morrerá, pois ao tombar terá caído

durante o mais puro e doce sonho de realização..., de Vida, como bem disse o poeta e filósofo Rubem Alves: “quem é rico em sonhos não envelhece nunca. Pode até ser que morra de repente, mas morrerá em pleno voo”.

 


80?  Ora que venham mais anos e que Deus nos dê a alegria, saúde, sonhos  e entusiasmo como no vídeo abaixo, de 04/04/2024:

https://www.facebook.com/pauloroberto.dasilva.39/videos/392271227069021




 

 









 

  




 










sexta-feira, 19 de abril de 2024

Podemos escolher a morte que desejamos?

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“Já tive medo de morrer. Não tenho mais. Tenho tristeza. A vida é muito boa. Mas a Morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira.” — Rubem Alves

 

 

Poucos já sentiram de perto o bafo da morte. É assustador, apavorante. Por sete vezes, sim, sete vezes, escapei da foice, carregada às costas, daquela sinistra Senhora vestida de preto e cara de caveira. Essas histórias eu conto em livro de memórias. Mas, me lembro particularmente que, numa dessas vezes, quando o Boeing 737-300, novinho em folha, com apenas 200 horas de voo, caiu em desastrado pouso sob tempestade de chuva e vento, com enorme barulho, turbina se desprendendo, pedaços da asa ficando para trás, vinte mil litros de combustível se espalhando e encharcando a todos os mais de 100 passageiros, uma única imagem e preocupação veio-me à mente: a família, esposa e filhinhas pequenas. O que seria delas? Pedi a Deus que as  abençoasse e delas cuidasse. Felizmente todos se salvarem naquele acidente e poucos ficaram feridos, e dentre estes eu próprio. Desde então mudei meu desejo de como gostaria de morrer. Incrível, mas sempre imaginei que ela, aquela Senhora de preto, me colheria num desastre aéreo, pois eu viajava cerca de 200 (duzentos) dias por ano e o receio era real. Parecia até charmoso o obituário de um jovem executivo internacional dando conta de que morreu prematuramente num acidente aéreo. Mas, a dura realidade, ali, encharcado de querosene, numa grande poça de combustível e lama, ferido, sem forças para fugir de iminente explosão e incêndio, que felizmente não aconteceram, atacou o pânico até que alguém me socorresse,  colocando-me na ambulância do Corpo de Bombeiros do resgate, cuja ação foi imediata. Um trauma muito forte, o bastante para nunca mais imaginar ou romantizar  os momentos finais. Mas, nem sempre o destino obedece aos nossos desejos, pois, não é que, mesmo depois de ter mudado esse desejo, retirando o desastre aéreo de pauta, eles, os acidentes ainda voltaram por duas outras vezes? A segunda vez foi em Washington, com pouso forçado em Dulles Airport/VA, em total pane hidráulica de outro Boeing, um 727/200. Pista preparada com espuma anti-incêndio e tela de aço ao final da enorme pista de 4.000 metros e todos se salvaram, novamente nos braços dos bombeiros e paramédicos. O terceiro acidente aéreo foi num moderno Airbus, com incêndio à bordo na longa rota de Chicago a São Francisco/Cal. Antes que todos se intoxicassem ou se despressurizasse a cabine da aeronave, um desvio de rota e mergulho quase de ponta cabeça em direção ao aeroporto de Las Vegas, salvaram-se todos, com apenas um ferido e hospitalizado naquela famosa cidade dos cassinos onde passamos uma noite (de graça, mas sem graça depois de tamanho susto e consequentemente sem jogatina naquele paraíso dos jogos).

O filósofo Rubem Alves disse:  “A vida é muito boa. Mas a Morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira”. Mais que certo e eu aprendi a dialogar sobre esse tema, embora a maioria das pessoas fuja de tal assunto e não poucas têm pavor. Por isso, certamente, sofrem. Nas redes sociais sempre aparecem relatos de obituários, carregados de sentimentos de dolorido luto pela perda de entes queridos. E nesse sentido, escrevi para uma amiga que durante longo tempo cuidou do pai enfermo:

 “feliz daquele que cuidou da vida de seus entes queridos preparando-os para a partida. Somente assim a alma será recompensada com  a alegria do amor dedicado aqueles  que sempre  nos amaram. Viva sua vida de forma que o medo da morte  nunca possa entrar em seu coração”.

Cuidar dos entes queridos preparando-os para a partida, esse é o conselho. Sim, esta é a maneira mais amorosa e digna para os momentos finais, seja de outrem ou  de si próprio. Quando chegar a minha hora quero estar cercado dos entes queridos, em casa. Nada de UTIs cheias de aparelhos para prorrogar a vida por alguns momentos ou dias. UTIs são ambientes de vida vegetativa, fria, sem o calor do aconchego dos entes queridos com os quais e para os quais você viveu toda a vida. Já escolhi e espero que assim seja, com os momentos finais no leito de minha casa, ao lado dos entes queridos, tal qual aconteceu com meus pais. Este é o paraíso que espero e poder dizer: Obrigado Vida, pois vivi e convivi em paz, com alegria. Acho mesmo que assim deveria ser para todos. Viver em paz, partir em paz, com sentimento de missão cumprida. Não é uma escolha difícil de ser atendida. Assim espero e não gostaria que houvesse funerais em estilo convencional. Nada de velório, cemitérios..., tudo isso é tão triste, causando profunda dor aos entes queridos. Cinzas..., sim, é bíblico: “lembra-te que és pó e em pó te tornarás”.  De minha parte já deixei determinados a cremação e cinzas espalhadas pelos locais marcantes de minha vida e aos quais sou grato. Quando me formei em Agronomia, aprendi uma frase que me marcou profundamente: “Sejamos gratos ao solo, pois ele nos alimenta na vida e nos acolhe na morte”. Junte-se esta frase aos ditames bíblicos e certamente entenderemos o ritual das cinzas.  Tenho certeza de que a cerimônia das cinzas será mais reconfortante para os entes queridos. Terão certeza de que esse ato foi o último desejo de quem partiu de bem com a vida e agora devolve ao solo, que a todos alimenta em vida, as cinzas que lhe pertencem. Não é uma escolha difícil de ser atendida, assim creio, pois aqueles que passam por nós não vão sós e nem ficam sós. Deixam um pouco de si e levam um pouco de nós ... e assim, a morte se torna  a morada da saudade. E que essa saudade, que nada mais é do que o amor que fica, seja de alegrias e não de tristezas.

  Brasília, 17 de dezembro de 2022

 Paulo das Lavras  


 Spirit of American Youth Rising From the Waves” (Espírito da 
Juventude Americana, ressurgindo das ondas). Escultura simbolizando 
a partida do soldado tombado em combate na 2ª Guerra Mundial. Ressurgindo das ondas do mar, onde desembarcaram e tombaram.  Braços estendidos  e olhar para a Glória da chegada do Senhor. 
A estátua está voltada para o ocidente, mirando o caminho  de volta que eles, 
 os soldados, almejavam... sua casa, na distante América, do outro lado do Atlântico... 
 Comovente! 
Foto do autor- Monumento em honra ao Soldado tombado em combate - Normandia, França/dezembro de 2013 


 Morar sozinho no exterior nos induz a pensar sobre os valores da vida. Aqui, em visita ao Cemitério Americano da Normandia - França, onde estão enterrados cerca de dez mil soldados mortos na 2ª Guerra Mundial. Cemitérios são locais que nos trazem tristeza e induzem-nos à reflexão e por isso penso que o melhor local para o repouso dos entes queridos é em forma de cinzas espalhadas pelos lugares que eles amaram e foram felizes. Ao passar por ali, saberemos, com certeza que o nosso ente querido ali está e por algum tempo ali viveu e foi feliz, tão feliz que o escolheu para repousar para sempre. 
Foto do autor- Cemitério Americano da Normandia, França/dezembro de 2013 


 Espalhar as cinzas sob a sombra do ipê amarelo, no mesmo local onde foi enterrado o umbigo do menino, nascido neste quarto que aparece na foto,  parece ser uma boa opção de gratidão à terra amada que o alimentou em vida e, certamente, o acolherá na sua finitude. 
Foto: Dilma de Abreu - Fazenda Sítio Retiro dos Ipês/ Lavras

 





 



  


 




domingo, 10 de março de 2024

Mineiro compra bondes..., diziam os cariocas! Doidice?

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Viver é ter histórias para contar... e não é, nem nunca foi sinal de doidice. Tenho muitas história para contar e hoje é sobre BH, a capital dos mineiros. À uma linda crônica, sobre bondes e troleibus de BH, escrita por uma amiga, como a nos provocar a viajar continuadamente pela memória afetiva, respondo com outra crônica. Só  agora descobri por que essa amiga diz gostar de minhas crônicas... Simples, ela tem o vício de  gostar de escrever e muito bem, os causos da infância e juventude. Assim também sou e há até quem me chame de doido, vidrado no passado. Encantado, apaixonado diria eu, por aquele venturoso tempo e lugar de nossa vida. E por quê? Ora, simples assim... há algo melhor do que a infância e juventude bem vividas, cercadas de carinho e amor dos entes queridos, professores e amigos?  E os lugares? Ah, quanta coisa eles nos dizem! Os especialistas dizem que nossa mente é mestra em guardar os doces afetos de nossa vida. Até mesmo a demolição de um antigo casarão nos incomoda e olhe que ele nem nos pertencia, mas o simples passar por ele e admirá-lo todos os dias já nos criava o sentimento de “pertencimento”. Assim foram os bondes e os troleibus de BH, cidade que passei a frequentar desde os ano de 1963 e depois, cinco anos mais tarde, lá morei e trabalhei cuidando dos parques e jardins da bela capital dos mineiros, cercada de montanhas.

 

Doidos, os cronistas? Não no sentido estrito da palavra, lógico que não! Mas, talvez um “doido normal”. Mais adiante explico o que vem a ser o tal doido normal. Aliás, seria doidice, por exemplo, estar no meio de uma ação empolgante, pura e inesperada novidade, totalmente diferente de tudo e, portanto, supostamente interessantíssima e..., de repente, ouvir ou ver algo que dispara o gatilho do subconsciente, trazendo à tona as reminiscências da infância relacionadas ao tal evento atual? Foi o que aconteceu a bordo de uma BMW, a 200km/h no circuito de Hockenheim, na Alemanha.  Que aventura espetacular e já contei isto em crônica. O amigo ao volante, entusiasmado, ficou sem entender a cara de borocoxô deste menino que, em vez de se deliciar com o possante ronco da máquina, a velocidade e as curvas, onde Airton Sena sagrou-se campeão por várias vezes, ficou a contemplar, mudo, a Floresta Negra, por onde serpenteava o famoso circuito de corridas de Fórmula-1. Tampouco outro companheiro naquela empolgante aventura, o então Diretor da Esal/Ufla, prof. Juventino Julio de Souza sequer entendeu aquele torpor, mutismo do menino, com olhar fixo a comtemplar, pela janela do carro em altíssima velocidade, a tal floresta e não as curvas, o ronco da possante máquina e seu painel a mostrar o conta-giros e a velocidade estonteante. Também pudera, pois era ali, naquela temida floresta, que se passavam os contos infantis com feras aterrorizantes e bruxas malvadas. Surpreso com a Floresta Negra, o menino travou, pois o gatilho do subconsciente destravou as memórias da infância... e, agora, estava bem ali, perdido no meio da floresta.  Doidice, deixar de sentir o impulso do bólido, aquele carrão numa das mais famosas pistas de corrida do mundo, trocando tudo aquilo pelo simples devaneio infantil? Não, não se pode tachar isto de doidice. É normal para mentes fervilhantes, inquietas. Apenas isto, dizem os experts! Se for doidice deve ser daquela definida por Ariano Suassuna que disse:

 

“Tenho simpatia por gente doida. Como eu sou do ramo, identifico os doidos logo”.

 

E sabe que doidice é esta a qual ele se referia? O gosto pelas letras, as crônicas vivas. Até concordo que viver é ter histórias para contar e quando as primeiras histórias de nossa vida se encontram com outras do momento..., ah, então é o êxtase da vida e achar que isto é “doidice”...  Eu acho  que, em sendo assim,  nem me importo mais de ser chamado de doido... rsrs, pois é sabido que os cronistas falam com o coração, desnudam a alma. Doido normal!

 

Quer ver? Ao falar de bondes, troleibus e ruas calçadas com pontiagudos pés-de moleque, a amiga cronista de BH mexeu com meu subconsciente. Na hora, dispararam os gatilhos neurais mostrando-me a rua Padre Rolim, por onde eu passava diariamente a pé ou de carro, tropicando ou segurando o volante que tremia como vara verde ao vento, pois não existia direção hidráulica nos jipes e Rural-Wyllis. E mais, vieram à mente, com nitidez incrível, e não é doidice, não..., os postes de ferro no meio da rua, literalmente. Sim no exato meio da rua a dividir as duas mãos da via. Certo dia esbarrei o retrovisor lateral num deles... rsrs... e retirei rapidamente o cotovelo que estava apoiado na janela, embora se tivesse de ser atingido teria acontecido porque a reação foi tardia. Ler uma crônica gostosa de se ler, fluida e com coerência natural, onde a velocidade do pensamento  voa, interrompe a leitura e mergulha no deleite de suas próprias memórias para,  só então, retornar ao fio da leitura e prosseguir na descoberta de todo o enredo da trama, do texto propriamente dito, é por demais sublime. É pura saudade e a saudade o que é? Nada mais do que o amor que fica. É vida e vida é ter histórias para contar.

 

Não cheguei a alcançar os bondes em BH, mas sim os troleibus que me levavam ao alto do bairro da Serra, subindo infinitamente a Rua do Ouro até o Convento dos freis Dominicanos, onde passei uma semana em retiro espiritual, lá pelo ano de  1963,  menino ainda... E como gostava do baita troleibus amarelo abóbora, silencioso e ao final da linha o trocador descia, puxava a corda do braço metálico que corria em contato com o cabo aéreo energizado, e o ônibus grandão despencava de marcha à ré, morro abaixo e curvava na esquina que contornava o prédio do Convento Dominicano, virando sua frente para descer a rua, de volta ao centro, cujo ponto inicial era na avenida Afonso Pena bem perto da Prefeitura, defronte o Parque Municipal. Ah... e as reminiscências da rua do Ouro, subindo-a no troleibus até o Convento dos Dominicanos? Lembrei-me até mesmo da sede dos Dominicanos na Rua Cayubi, no bairro Jabaquara, em São Paulo, onde também me hospedara em retiros religiosos. Poucos anos depois, em 1969, agentes da repressão política executaram a tiros, em emboscada na rua,  o guerrilheiro Carlos Marighella, que fora se encontrar com religiosos dominicanos daquele convento. Mas , voltando a BH, daquele convento do alto do bairro da Serra, partimos num grupo para escalar a Serra do Curral e dobrá-la, pelas trilhas da mata do Jambreiro em direção à Nova Lima e sua mina de ouro Morro Velho. Mas esta é outra história... perdidos na mata sob chuva e molhados dos pés à cabeça.

 

Viajei de volta no tempo e espaço, ou melhor revisitei e passeei com a crônica da amiga de BH pelas ruas, bairros e praças da cidade. Pampulha, Floresta, o Coração Eucarístico rua Pernambuco, Cláudio Manoel... e muitas outras não citadas. De troleibus ou de jeep, o Pafúncio ou ainda na Rural Willys, apelidada de Raimunda, eu percorria todos aqueles espaços em jornadas diárias, cuidando ou não dos parques e jardins da nossa Belacap.  Seu bonitos jardins me encantavam com lindos canteiros de coloridos emerocalis, resedás, quaresmeiras roxas e tantas outras flores como a cana indica vermelha ou amarela, com enormes canteiros na praça Afonso Arinos, em frente ao Hotel D´El Rey, o mais chic e sofisticado de BH. Ah que saudade... (opps..., vou ficar calado, senão me chamam de doido vidrado no passado...  rsrs)

 

Iiihhh..., não dá para calar, não. Como deixar de também me lembrar e falar do Corpo de Bombeiros, citado pela amiga cronista? Me lembro do seu quartel central ali na rua Pi-hum-i, quase esquina com a Av. do Contorno e num instante, logo abaixo a Savassi, que tinha por perto a sorveteria do Sr Domingos que, nos domingos (sem trocadilho), formavam-se filas e filas de carros aguardando parar em frente e comprar o sorvete. E os bondes? História à parte.

 

Foi mencionado, ainda, na gostosa crônica belorizontina, a capina das ruas com o inconfundível barulho dos martelinhos. Vou acrescentar um detalhe. Sabe como eram chamados aqueles trabalhadores da capina dos matinhos entre as pedras do calçamento pé-de-moleque? Convivi com eles na minha atividade de paisagismo em toda a cidade de BH e na Prefeitura. Eram chamados de “ferrinhos” e era a mais baixa classificação dos funcionários municipais. Era a maior alegria entre eles quando alguém era promovido a gari, ou para outras atividades na sede da prefeitura. Eles entravam pela porta dos fundos, na rua Goiaz e não pela principal na Avenida Afonso Pena. Trabalhavam de sol a sol ou sob chuva, ajoelhados sobre pedras pontiagudas. Morria de dó, parecia tortura e muitas eram mulheres.

 

Mas, vamos lá, finalizemos com os bondes de BH. Eram azuis e segundo o texto,  serviam de deboche dos cariocas sobre nós, mineiros: “Mineiro compra bonde, diziam”. Mas, vou aqui dizer uma verdade. Minha cidade, Lavras, comprou bondes uma única vez. Vieram de Hamburg, na Alemanha, no ano de 1911. A inauguração dos serviços de bondes em Lavras, deu-se no dia 21/10/1911. Depois disso não compramos mais, pois ganhamos dois, de Belo Horizonte, bonitos, na cor azul. 

O bonde azul doado pela Prefeitura de BH à cidade de Lavras em 1963 
Foto: Donald Nevin – Coleção Renato Libeck 

O prefeito Jorge Carone fez doações à Lavras, daqueles tais azulzinhos e em 20/07/1963 foi reiniciado o serviço de bondes, que se encerrou definitivamente em  08/11/1967,  quarenta dias antes de minha formatura na ESAL.  A chegada dos dois bondes azuis foi festejada em praça pública e nas ruas, por onde desfilaram sobre carretas que os trouxeram de BH.


Durante 57 anos os bondes rodaram da Estação da EFOM até o início da Rua Otacílio Negrão. Na subida íngreme do Gammon, os moleques colocavam areia sobre os trilhos para verem as rodas de ferro patinarem. Voavam fagulhas sobre os trilhos e o bichão não saía do lugar. Marcha a ré e vassouras resolviam, sob impropérios por parte do motorneiro e do trocador. Nessa hora não se via um moleque por perto. Todos os arteiros estavam escondidos a olharem de longe...

 

     

 

 

 

Por falar em peripécias, este menino das Lavras levou um tombo espetacular ao tentar fugir do cobrador. Andar nos estribos e driblar o cobrador era o esporte preferido dos garotos de então. Ninguém os pegavam, e nessa desabalada fuga do cobrador, levei um tombo ao saltar com o bonde em movimento, bem ali, quase chegando à Igreja do Rosário, hoje Praça João Oscar de Pádua. Caí de costas no paralelepípedo e a as pessoas que estavam no antigo Banco de Crédito Real, bem em frente, acorreram em meu socorro. Não tive um sequer arranhão e o menino de uns 13 anos, levantou-se e ainda correu para pegar novamente o bonde que já estava na parada em frente ao Sobrado do Capitão Evaristo, hoje Banco do Brasil... 


 Andar nos estribos era o esporte preferido, mas, já em  1964, o menino escaldado do tombo acontecido neste exato local da foto, e já mais adulto e estudante da faculdade de Agronomia, preferiu não mais disputar e arriscar-se nos estribos. Nesta foto, aparece à janela da frente do bonde azul, chamado em Lavras de bonde do Carone. 
Foto: acervo Renato Libeck 


Bons tempos, aqueles do final dos anos 50 e início dos 60. Muita adrenalina.... fugir dos trocadores Gerson, Tarzan e do Cirilo, motorneiro que às vezes batia na gente com aquela corda de puxar o arco que encostava na rede elétrica aérea e recebia a energia que movimentava o bonde.  Sim, nos agarrávamos ao enorme farol que ficava na parte da frente do bonde , alvo fácil para uma sova de corda, ainda que leve, pois imagino que o Cirilo tinha medo de que os meninos caíssem e se machucassem, pois todos nós éramos conhecidos e eles, cobradores e motorneiros, conheciam nossos pais. Hoje, imagino que eles até achavam graça das peripécias dos meninos e nem tinham interesse em arrecadar mais alguns trocados que poderiam retirar dos meninos. Bastava eles olharem nossa cara e era como se ali estivesse escrito: “você não me pega e nem vou pagar a passagem”... rsrs

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Então..., restou claro que NÃO COMPRAMOS !...  Mineiros lavrenses não compramos bondes, ganhamos!  Mas, para os cariocas eu dei um baita troco. Sem essa de tirar sarro nos mineiros. Cansado de ser gozado por ir à praia e na primeira vez supostamente experimentar o gosto da água salgada (... foi verdade comigo, mas, nego para todo mundo...rsrs), eu dei o troco, com jogo bruto. Certa vez, no aeroporto do Galeão, novinho, recém-inaugurado no ano de 1977, encontrei na sala de espera, com voo atrasado em mais de duas horas, um grupo de mais de 30 caçadores/pescadores esportivos. Viajariam no mesmo voo até Brasília e daqui um ônibus especial estaria esperando-os para seguirem rumo ao Mato Grosso.

 

Mancomunado com uma dos membros do grupo de, combinamos pregar uma peça neles todos. Passei-me por “Fiscal do Ibama”, de terno e gravata, laptop na pasta, anunciei que a pesca deles estava cancelada, pois havia acontecido pela manhã um desastre ecológico na região e foi proibida a caça/pesca. Quem quisesse seguir viagem poderia, mas as tralhas de caça e pesca seriam retiradas do porão do avião e depositadas na delegacia do próprio aeroporto. Formou-se o caos. Mas, só para se ter ideia do pânico dos cariocas, alguns mais espertos, haviam embarcado as “amigas” acompanhantes  secretas num voo anterior, justamente para não haver problemas e despistar parentes que se aventurassem segui-los até o aeroporto... Bem espertos... e tudo isso me foi contado pelo comparsa que aliciei entre eles. Mas essa é outra história já contada e vou postar aqui o link, novamente.

 

Adorei o conto da amiga cronista das alterosas, e por ela, viajei muito contente pela nossa capital mineira, onde trabalhei o ano inteiro de 1968. Parabéns, continue escrevendo. A escrita é a melhor terapia. Costumo dizer que escrevo para mim mesmo e as vezes releio a mesma crônica zilhões de vezes... rsrs e sempre gosto e me divirto, pois são casos reais. Quero dizer, a gente escreve com o coração e ele não falha, disse o príncipe dos poetas Guilherme de Almeida. Além disso, a aqueles que acham que somos doidos, por escrever crônicas saudosas, costumo classificá-los de bobos. Não sabem que saudade é o amor que fica na gente! Continuemos, pois a escrever, a desnudar a alma em completa terapia. Sobre BH tenho ainda muitos casos engraçados a contar. Quanto ao espetacular trôco que dei aos cariocas, o link está indicado ao final.

 

Um abraço.

 

Brasília, 10 de março de 2024

 

Paulo das Lavras 



  
Antiga estação dos bondes, demolida em 1940. No local construiu-se a sede do Banco de Crédito Real. Ao fundo da foto aparece parte da Igreja do Rosário. O menino caiu do bonde nesse trecho, na esquina da Rua Getúlio Vargas. 
Foto: acervo Renato Libeck  


 Stanislaw Polonoiske - Técnico russo em eletricidade e mecânica. Veio da Alemanha 
para implantar a linha de bondes em Lavras - MG. Destaque para a moto FN - Belga. 
Foto: acervo Renato Libeck 


Vista da janela do bonde doado à Lavras pela Prefeitura de BH. Rua Francisco Sales,

em frente à janela do casarão  do Sr Quinca Guimarães.  Logo abaixo a casa do Sr João Arbex

e o sobrado dos  Estabelecimentos Záckia, na esquina com Rua Chagas Dória

Foto: Donald Nevim - Acervo  Renato Libeck 



 

O antigo bonde de Lavras, comprado em Hamburg na Alemanha 



 
Descarrilhado, morro abaixo..., às 6:45hs de um dia do ano de 1958. 
Foto: Coleção Museu de Lavras


A última viagem – nov 1967. À janela o motorneiro Cirilo.

 O prefeito Maurício Ornellas de Souza, temendo uma reação negativa e protestos estudantis, foi à Esal/Ufla explicar aos estudantes os motivos do encerramentos do serviço de bondes na cidade de Lavras. Um mês depois foi a minha formatura na faculdade. Saudades!

Foto: Acervo  Renato Libeck



 

Um antigo bonde em BH, esquina da Rua da Bahia com Timbiras .

Foto: internet



 

Troleibus de BH, estacionados na Praça da Estação, com o Hotel Itatiaia à direita.

Cor abóbora, inconfundível, grandões, mas silenciosos. Note que os braços metálicos, que corriam deslizando nos cabos aéreos de eletricidade, estão abaixados sobre o teto na parte traseira

Foto: Internet- Earl Clark



 

Adultos têm surtos de saudades dos tempos passados (mas não é doidice, não...rsrs), Não pude comprar um troleibus  cor de abóbora, como os de BH, tampouco um bonde (Deus me livre da gozação dos cariocas), mas comprei um Jeep antigo, igualzinho ao Pafúncio, com o qual rodava BH inteirinha, cuidando de parques e jardins, levando algum adubo ou mudas de plantas ornamentais. Hoje é usado com os netos, fazendo trilhas pelo cerrado do Planalto Central

 

P.S. Para quem se interessar, aí está o link da crônica, onde narro o troco que dei aos cariocas, gozadores dos mineiros, ameaçando-os de cancelar a pescaria e deixar as acompanhantes a “verem navios”, na espera em Brasília:

https://contosdaslavras.blogspot.com/2013/07/troco-aos-cariocas.html





 







 





 


 

 



quinta-feira, 7 de março de 2024

Mulher – por que defendê-la ?

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          Voei centenas de vezes na rota Brasília/Rio/Brasília e BHZ/SÃO/BHZ, a bordo de todo tipo de aeronave comercial, o Electra, Viscount, Samurai, One-Eleven, Boeing, Airbus, Caravelle, o primeiro jato comercial, francês, das linhas aéreas Varig e Cruzeiro e muitos outros aviões executivos da Força Aérea Brasileira – FAB como seus Lear-Jet e o mais disputado pelos ministros, aos quais acompanhava em viagens de serviço, o HS-125, jatinho executivo inglês, amplo e superconfortável. Além desses, muitas outras viagens foram feitas em aviões menores como o Bandeirante, Xingu e o Brasília, fabricados no Brasil pela Embraer, como também seus modernos jatos ERJ-145, 170 e 190.  Eram tantas as viagens que acabei memorizando a rota, cujas cidades e acidentes geográficos como as cadeias montanhosas, rios, matas, ferrovias e rodovias eram facilmente identificados pela janela do avião. Quando se abriam os portões de acesso à pista de embarque eu era o primeiro da fila (mineiro não perde o trem, dizem...) e corria a escolher um lugar privilegiado, à frente e com ampla visão, livre dos estorvos das turbinas ou das fuselagens das enormes asas. Era assim mesmo, pois não havia lugares marcados e nem as rampas telescópicas para o embarque diretamente à porta da aeronave.  Aboletado nos melhores lugares, desfrutávamos de ampla visão, identificando cada local no chão a 10 mil metros de altura e ainda cronometrando o tempo de voo para se chegar a cada ponto marcado. Assim, exatos 50 minutos após a decolagem de Brasília, lá estava a cidade natal de Lavras, com seu inconfundível cenário, de um lado o Rio Grande serpenteando entre montanhas e de outro a majestosa Serra da Bocaina, paredão que emoldura a cidade pelo lado sul, tal qual a Serra do Curral embeleza a capital dos mineiros. Aos 45 minutos de voo avaliava o local sobrevoado e já me fixava nas rodovias, montanhas e cidades vizinhas, como Santo Antônio do Amparo, pequenina, mas com enorme igreja matriz e torre bem alta. Em segundos era só olhar mais à frente e à direita lá estava a terra natal e nesta, à margem da rodovia Fernão Dias a fazenda onde nasci e passava todas as férias escolares desde então. Ali, no silêncio e na solidão, a bordo das aeronaves, e com aquele saudoso cenário à vista, o menino invariavelmente mergulhava no tempo e até desejava saltar de paraquedas para chegar ao doce recanto do lar onde nascera. Foi então que comecei a entender o valor da Mulher, refletindo sobre tudo que ela representa na vida de todos nós, a começar pela geração e cuidados com as crianças, e  assim o subconsciente se deleitava com as imagens da doce infância, bem ali, a 10 mil metros abaixo. Ah... por que não um paraquedas ali, na hora e realizar o sonho da busca ao tempo perdido?

Cheguei aonde cheguei, estudava muito, venci todas as etapas com distinção, ocupei honrosas funções de trabalho, bem-sucedido no Brasil inteiro e no exterior, principalmente nos Estados Unidos e França onde desempenhei longas missões de governo, mas, nunca, nunca mesmo, me esqueci de onde vim e o papel que as mulheres desempenharam na minha formação. E ali, de dentro do avião, nas alturas, a cada vez que sobrevoava minha querida cidade natal e as fazendas onde me criei, mergulhava nos escaninhos escondidos da alma e encontrava, sempre com imensa e terna gratidão, a figura de minha mãe, brava guerreira que lutou pelos filhos. Mulher de fibra. Costumo dizer aos amigos, como a lembrá-los: Homens..., somos aquilo que as mulheres nos fizeram! E é verdade, com destaque para a mulher-mãe, em primeiro lugar. Sou grato a Deus pelas mulheres que me fizeram ser o que sou, a mulher-mãe, as irmãs, tias, avós, professoras que cuidaram da criação, formação e educação e ainda, as outras que chegaram mais tarde, no trabalho, esposa, filhas e amigas do convívio social.

A todas elas, as mulheres, sem distinção, sempre dediquei atenção e respeito, tendo como inspiração o exemplo de berço, a saga, dedicação e amor de minha saudosa mãe, que muito cedo partiu para a glória do Senhor. Mas, não só por isso, também defendo e estimulo oportunidades para que elas, as mulheres, ocupem o lugar que merecem, ou seja, onde elas quiserem. Deixo aqui o meu conselho, neste momento em que assistimos à tanta violência contra as mulheres. Respeito e admiração a elas, sempre! Nunca é demais lembrar e repetir que nós, os homens, somos aquilo que as mulheres nos fizeram. Que neste 08 de Março em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, as lembremos com carinho e afeto e nem seja preciso repetir o 08 de março de 1917, quando as mulheres russas foram à praça pública, emparedando o Czar Nicolau II, reclamar o direito ao trabalho digno, embora a luta de hoje se foque mais contra o machismo e a violência. Defendamos sempre a Mulher e não apenas nesse dia dedicado a ela.

Viva o Dia Internacional da Mulher! Parabéns a todas, pelo muito que representam em nossas vidas. Precisam ser mais valorizadas e essa é a melhor maneira de se defende-las.

 

Brasília, 07 de março de 2024

                                                  Paulo das Lavras



 
Minha mãe, com o filho caçula, Anízio. Mulher guerreira, descendente de portugueses
 da região do Porto, que chagaram ao Brasil em 1720 e se estabeleceram em Lavras em 1750.

Foto: ano 1948, aos 34 anos de idade. 



 Um jatinho perdido entre as montanhas de Lavras e S.J.Del Rei, HS 125 FAB – VU-93 -  2117 . 
 Pouso abortado em São João del Rei, em 07/05/1988. Neste jatinho executivo o menino se transformou
 em co-piloto/navegador e rumou o avião  com a proa para a cidade de Lavras. Veja esta história completa em:

https://contosdaslavras.blogspot.com/2014/04/passeando-entre-montanhas.html 



 Lavras e a majestosa Serra da Bocaina que emoldura a cidade.

 Com essa maravilhosa vista, voando num jato, a 10 mil metros de altura, também

o pensamento voa. “Vá, pensamento, vá! Voa em asas douradas, pousa sobre as encostas e colinas

 onde os ares são tépidos e macios com a doce fragrância do solo natal... Reacende em

 nosso peito a memória, fale-nos do tempo que passou...”.

Contemplar e passear por entre as montanhas de Minas é como ressuscitar a nostalgia

decantada e cantada nos versos acima, nessa maravilhosa ópera,  Nabuco – Va Pensiero,

 escrita pelo gênio Giuseppe Verdi. 

Foto: Alejandro, 2012  




 Serra do Curral, em Belo Horizonte. Impressionante as semelhanças 
dos maciços que emolduram Lavras, S. J. Del Rei e Belo Horizonte. 
As montanhas são a marca registrada das Minas Gerais.
Foto: internet