terça-feira, 26 de novembro de 2013

Um acidente aos cinco anos e caminhões que falam

                                                           


Não, o acidente não foi com esse belo caminhãozinho Chevrolet 48/49. Na verdade, quando essa foto foi publicada numa rede social, o menino das Lavras teve a memória despertada para dois deles. O da foto que pertenceu ao fazendeiro Toniquinho de Pádua e outro, de seu avô, Anízio Alves de Abreu, fazendeiro e vereador à Câmara Municipal. Seu caminhão, idêntico a esse modelo da foto, era muito comum na década de 1950. Importado dos Estados Unidos e fabricado pela montadora GM, era comercializado em Lavras pela Agência Chevrolet, de Ciro Arbex & Cia Ltda. Foi um sucesso entre os fazendeiros dos anos 1950/60. Serviam ao transporte de carga e passageiros. Sim, naquela época eram raríssimos os automóveis e a família, numerosa como era costume, se aboletava na carroceria, às vezes em meio às cargas diversas. Ração, cereais, galinhas, lenha, adubos, ferragens, tudo que se possa imaginar era acondicionado na parte traseira da carroceria. A parte mais à frente ficava reservada aos caroneiros que viajavam em pé, agarrados ao malhal, aquele travessão mais alto que aparece na foto.

Parece que a sina desses caminhõezinhos era mesmo servir de ponto de paquera das moças da família. Assim como esse da foto e já contado em outra crônica – “Um caminhão que fala e o fazedor de amigos”, o outro também era usado, nos finais de semana, para transportar time de futebol da roça.  São veículos que “falam”, pois fazem desfilar inúmeras histórias pelos escaninhos das lembranças. O avô, que jogou bola até os 70 anos de idade, era chamado de Coronel Anízio Gaspar desde os idos da criação dos partidos Rolinha e Gavião (PSD e UDN). Tinha um time de futebol na zona rural das Três Barras. Morava na cidade e como vereador era bem relacionado, sobretudo no meio esportivo. Era comum levar jogadores dos times da 1º divisão da cidade para reforço da equipe. Entre eles havia um garoto de 17 anos, assíduo frequentador da carroceria do caminhão do Sr Anízio Gaspar. Bom de bola, na linha de ataque, até chegou a integrar as equipes do Fabril e depois da Olímpica, os dois melhores times da cidade. Neste último foi campeão da Liga Esportiva de Lavras, em 1957, ao derrotar o Fabril Esporte Clube por 1x0, com gol de Danilo Pinto. Era convidado certo para as disputas dos campeonatos rurais. Esperto o garoto, na bola e na arte de conquistar as meninas. Logo ganhou a atenção de uma das netas do coronel, dono do time. Luiz Boneco, esse era o apelido do jogador de futebol, Luiz Antônio de Lima, filho do Sr. Júlio Oliveira, do Armazém do Julinho. O armazém de seu pai e a residência se localizavam na praça ao final da Rua Francisco Sales, hoje Praça do Trabalhador, portanto vizinho do dono do caminhão e do time da roça. Logo passou da condição de caroneiro e convidado para membro da família. Casou-se em 1959, com minha irmã, Carmem, constituiu uma grande família, cujos filhos e netos encontram-se espalhados por alguns estados desse imenso país. Mais tarde mudou-se para Goiânia, como gestor de linhas de transmissão das Centrais Elétricas de Furnas. Ali, o menino das Lavras sempre visitava a família do ex-jogador e caroneiro do caminhãozinho que “conta” essas histórias. Um bálsamo para quem vivia no exílio dourado de Brasília esses encontros de lavrenses e familiares. Voltou para a cidade natal e, ainda neste ano, depois de 54 anos de matrimônio, ele partiu para sempre, deixando um vazio de saudade. Nesse dia o Sr Anízio Gaspar, um de seus admiradores, não estava para as despedidas, pois já o aguardava na morada celestial. Mas a família sensibilizou-se com a presença do Presidente da Associação Olímpica de Lavras, Dr Henrique Pinto, que carinhosa e respeitosamente depositou a bandeira do glorioso time sobre o ataúde daquele que um dia defendera a equipe nas acirradas disputas do campeonato da cidade e ostentara a faixa de campeão a seu lado e também do irmão Danilo Pinto. Uma homenagem simples, mas que calou fundo nos doloridos corações da família. As alegrias e o amor pelo time da Olímpica não se restringiram ao campo esportivo, pois na hora da dor lá estava ela retribuindo o mesmo amor que sempre recebeu. Coisas de Lavras e sua gente unida como uma família.

Outro passageiro que marcou história foi um fazendeiro importante, o vizinho Sr Quincas Guimarães. Residia logo abaixo da casa do Sr Anízio e a primeira acima do Sr João Arbex, pai de Nilza, Joãozinho, Marta e Ciro, o agente Chevrolet da cidade. Todos velhos amigos. A viagem se destinava a um evento familiar na Fazenda Ribeirãozinho, propriedade do próprio Sr Quincas. Muito amigos, o dono do caminhão se ofereceu para levar a família Guimarães junto à nossa. Lotação completa. Lógico, todos acomodados na carroceria, pois automóveis eram raros naqueles idos de 1952/53. Havia muitas mulheres, Dona Dica, nossa avó, Dona Margarida, esposa do Sr. Quincas e muitas outras senhoras. As duas primeiras, mais velhas, tinham a primazia de viajar na boleia junto ao motorista. E o Sr Quincas? Como fazer para que ele subisse à carroceria com seu peso avantajado? Simples, baixou-se a tampa lateral da carroceria, colocou-se uma cadeira na calçada (passeio, dizia-se em Lavras) e com a ajuda de alguns o passageiro conseguiu alcançar a carroceria. O menino, com apenas uns sete anos de idade, olhava tudo com curiosidade e achou graça quando chegou o bonde e pôs a tocar a sineta para que desobstruíssem os trilhos. Não teve escolha. Interrompeu-se a operação de embarque, fechou-se a tampa lateral da carroceria para não resvalar na roda traseira, retirou-se a pesada cadeira de madeira e manobrou-se o caminhão. Aguardou-se o elétrico ir até a Rua Melo Viana e retornar em poucos minutos, pois descendo para a Estação levaria pelo menos uma hora para ali passar novamente. Na volta, já descendo a rua em direção à esquina com Chagas Dória, o motorneiro Cirilo acenou para o Sr Quincas e Sr Anízio que estavam na calçada. O cobrador, Gerson, de cara fechada não tirava os olhos da meninada para ver se eles iriam pegar carona no estribo, sem pagar, como gostavam de fazer. Caso o fizessem estava pronto para afugenta-los. Nada disso aconteceu, pois outra festa melhor os aguardava na fazenda do Sr Quincas.

A viagem até a fazenda Ribeirãozinho levou quase uma hora e a criançada adorou. Pela antiga estrada de terra, sinuosa e íngreme, que ligava Lavras a Nepomuceno, lá fomos nós levantando poeira, passando pelo posto fiscal do Passa Vinte. É, Lavras já teve sua vida medieval, pois em frente ao antigo Asilo havia uma barreira fiscal, com cancela e guardas, para autuar fazendeiros e viajantes sem a guia fiscal. Fazem-nos lembrar das cidades medievais europeias, principalmente Paris com seus inúmeros “portões” de defesa e coleta de impostos. Ainda hoje conserva os nomes como a Porte de Clinangcourt, onde há uma estação do metrô e o famoso mercado das pulgas, uma espécie de comercio semelhante ao da Rua 25 de Março em São Paulo. Prosseguindo a viagem ganhava-se a Rua do Capim, seguindo-se o Gato Preto, Queixada e Dessimoni, onde se atravessava a ponte de madeira sobre o ribeirão Água Limpa. Naquele tempo a água era limpa mesmo, pois até o Carnot de Pádua, fazendeiro e também jogador da Olímpica bebeu de sua água e não teve doença alguma. É verdade que foi forçado a isto quando sua caminhonete derrapou nas tábuas molhadas pela chuva e  tchimbum... caiu no ribeirão. Meu pai e camaradas da fazenda Ipê, de Francisco Dessimoni, o socorreram. Felizmente nada sofreu além de provar da água. Mas, continuemos a viagem. Passada a ponte, o caminhãozinho do Sr Anízio subiu o morro do Cruzeiro daquela fazenda e lá no alto da colina, a três quilômetros das Três Barras, rumou à esquerda por uma estrada secundária. Logo adiante, próximo ao ribeirão Maranhão, estava a fazenda do Sr Quincas.

 Ele adorava as crianças e durante todo o tempo foi nos contando histórias. Uma, especialmente, ficou gravada na memória dos meninos, pois além de bem rimada e engraçada, tinha uma palavra que as mães nos proibiam de falar. E, pela lógica, se um adulto falou e declamou... a criança também poderia fazer o mesmo. Com seu vozeirão de barítono recitou para a meninada que foi ao delírio:
Atirei o limão doce na janela do palácio
Deu no ouro, deu na prata
Deu na bunda da mulata...

 Ninguém conseguiu falar mais nada. Foram gargalhadas ecoando até o final da viagem. Nem mesmo as sisudas tias puderam conter o riso, pois não se esperava que aquilo pudesse partir de tão honorável senhor. Os meninos faziam questão de encara-las, como a dizer, então a senhora acha graça também, não é? Era a senha que precisávamos. A partir dali quando queríamos provocar as tias autoritárias recitávamos o poema do limão doce e ainda provocávamos: foi o Sr Quincas que nos ensinou. Acabava com qualquer sermão. Sr Quincas Guimarães deve ter feito muita festa quando chegou aos céus. Temperamento alegre e entretido com as histórias que contava naquela viagem cercado de crianças, não se deu conta de que esteve sentado no assoalho da carroceria com as pernas cruzadas sob os joelhos. Essa típica posição de meditação lhe provocou cãibras, mas foram logo dissipadas ao chegar à fazenda. Um grande amigo da família e ótimo contador de causos que sabia cativar as crianças.

 Esses caminhõezinhos de Lavras fizeram história. Falamos de dois deles. Há ainda um terceiro, fabricado em 1951, mais moderno, com para-choque cromado e que pertenceu a Pedro Correa Rezende. Mais valente, pois fazia longas viagens anuais de Lavras a Londrina, para onde se mudou em 1955. Eram mais de 1.000 km com toda a família na carroceria, onze filhos. Mas essa é outra história. Sobre aquele, focalizado nas histórias de hoje, o menino andou por muito tempo em sua carroceria e enfrentou situações mais diversas possíveis. Ajudou a transportar bezerros para o leilão da festa de São Sebastião ao lado da Igreja Mariz, passou por atoleiros, colocando e retirando correntes nas rodas traseiras e muitas outras situações. Mas e o acidente anunciado no título desta crônica? Bem, a foto despertou lembranças não só de bons eventos, mas também de um lamentável acidente acontecido com o menino. O retorno de sua primeira grande viagem foi no caminhãozinho de seu avô. Levou umas três horas para chegar à Lavras. Saiu da cidade de Varginha, naquele mês seco, de maio de 1950, tomou a estrada de terra para a vizinha Carmo da Cachoeira. Desta pegou o ramal em direção à serra da Bocaina, entroncando-se à estrada de Lavras para Três Corações, antiga rota para o sul de Minas em direção à São Paulo e Rio de Janeiro. O traçado dessa estrada intermunicipal era muito sinuoso, por entre serras e córregos, em leito mal encascalhado. Passou pelo Faria, Serrinha e chegou às proximidades da Estação Costa Pinto já em Lavras. Trechos muito acidentados, especialmente na garganta da Serra da Bocaina, mas, felizmente o valente caminhãozinho deixou só poeira para traz. Na boleia o avô dirigindo o próprio caminhão, o pai, a mãe e o menino com um enorme tampão sobre olho direito. Parecia não se incomodar com aquilo, nem mesmo com as lágrimas disfarçadas da mãe, que sabia de toda extensão e consequências do acidente que sofrera uma semana antes. Ali, em pé na ampla cabine, apoiado no painel, entre o pai e a mãe, se maravilhava com as paisagens nunca vistas, especialmente a travessia do Rio do Cervo em precária ponte de madeira. Belas fazendas e gado deitado na pista não faltavam. Admirava ainda as “enormes” serras na região do Faria e da Bocaina. Finalmente, depois da Serrinha e do Charquinho, cruzou a linha férrea da RMV e a poucos metros adiante avistou sua casa, única e destacada na grande chácara que ocupava todo o terreno onde hoje se situa o bairro Cruzeiro do Sul. Estava, finalmente, em casa onde tudo começou.

Não se pode dizer que não houve nenhum incidente naquela viagem. O menino quase provocou um incêndio no caminhão. Curioso e entretido com o interruptor do pisca alerta das setas laterais, que ficava em cima do painel, bem à sua frente. Ligava e desligava o dispositivo várias vezes seguidas só pelo prazer de girar a chave borboleta e ver a luz vermelha piscar na parte superior do interruptor. Isto provocou superaquecimento da fiação que começou a enfumaçar sob o capô. Uma parada rápida e logo se corrigiu a pane com o isolamento e consequente interrupção da corrente elétrica naquele circuito. Ninguém percebeu “a origem/causa” do malfeito. Melhor para o menino que, calado e comportadamente permaneceu pelo resto da viagem já bem próximo à chegada.

Passada a alegria do reencontro com os familiares, abateu-se um sentimento de tristeza com a notícia de que o menino havia perdido a visão de um dos olhos naquele acidente que motivara a imediata viagem à vizinha cidade. Mas, afinal que acidente foi esse? Com o caminhão do avô? Não! A noitinha de outono acabara de chegar. As crianças, especialmente as irmãs mais velhas, se divertiam com brincadeiras de leitura de poesias de Olavo Bilac, Guilherme de Almeida, Coelho Neto e demais clássicos repassados pelo Colégio de Lourdes. O menino, de cinco anos, recortava figuras da revista O Cruzeiro, presença constante nas casas de família dos anos 50. Deixou os recortes das figuras, firmou as duas pontas da tesoura, aberta, sobre a enorme mesa de madeira, colocou-a na vertical, pegou os cabos, um cada mão e disse para si: agora vou cortar a tábua da mesa. Ao colocar força, pressionando-a de cima para baixo, para que ambas as pontas penetrassem na madeira e a cortasse..., aconteceu o pior. A tesoura resvalou e uma das pontas atingiu o olho direito, pois o menino havia se debruçado ficando seus olhos no mesmo nível do deslocamento acidental. O choro súbito e estridente chamou logo a atenção da mãe que o levou à casa do avô, ao lado, onde se encontrava, casualmente, o experiente farmacêutico José Pedro de Castro, amigo da família e pai do ex-prefeito Silvio de Castro e de Cícero de Castro, casado com uma tia, irmã de minha mãe. O farmacêutico pediu que elevassem o menino à altura do lustre da sala, cuja iluminação era muito fraca, pois a energia elétrica era bastante precária e contava apenas com a pequena usina hidrelétrica do Cervo, insuficiente para a demanda (a nova iluminação de Lavras só foi inaugurada por JK ,em novembro de 1955, com a energia da recém-construída hidrelétrica de Itutinga). Diante da gravidade da situação recomendou algum medicamento e imediato encaminhamento à cidade de Varginha onde havia um renomado especialista, o Dr Oswaldo Valladão. Aliviada a dor com algum medicamento, partimos naquela mesma noite, no dito caminhãozinho. Alojados em hotel da Av. Rio Branco, na praça central da cidade, caminhamos até o consultório médico que ficava logo atrás da praça, na rua Pres. Antônio Carlos.

O médico, Dr Valladão, nos chamou não sem antes de atender a um homem que chegara chorando com terrível dor de cabeça. O menino achara esquisito, pois nunca vira um homem chorar desesperadamente e perguntou à mãe por aquilo. Finalmente o médico examinou o menino e mandou proceder alguns exames oftalmológicos em diversos aparelhos óticos de luzes coloridas, do roxo ao amarelo citrino. Depois de uns três a cinco dias viria o diagnóstico. Enquanto isso o menino se deleitava com a nova cidade. Uma bela praça ajardinada a la anglais, como dizem os franceses, com marcações geométricas e árvores, geralmente uma espécie de fícus, recortadas e modeladas em forma de esferas, cubos, cilindros e outras formas. Ver o jardineiro podar aquelas árvores e o bonito gramado despertava grande interesse por ser uma novidade. Apreciar os garotos em seus patinetes descendo a calçada da praça em disparada era o que mais gostava, sobretudo quando eles trombavam uns nos outros e caiam. Gostou tanto que até arrancou uma promessa do pai, que ganharia igual quando chegasse a Lavras e melhorasse com os curativos da vista. 

Anos mais tarde, por volta de 1970, o menino-engenheiro voltou à aprazível cidade de Varginha, passeou pela praça, modificada é verdade, tomou um suco de laranja no local onde funcionara o velho hotel em que se hospedara. Contemplou a praça, fechou os olhos (aliás, bastava fechar um só, pois a visão do olho direito estava perdida desde quando lá esteve pela primeira vez) e passeou pelos escaninhos da mente revivendo aqueles momentos de criança ali vividos. A vida é bela. Pensou. O bonito e diferente jardim em estilo inglês nem existia mais. Mas, ainda assim, estava ali bem presente na sua mente, gravado de forma indelével, inocente e feliz. Para o menino nada de grave teria acontecido consigo. Só veio a compreender a gravidade do acidente, três anos depois, já na escola quando foi obrigado a usar óculos. Sofreu apenas um leve bullying por parte de um ou dois coleguinhas que o chamavam de “quatro olhos”. Depois, bem mais tarde, não pôde tirar brevê de piloto esportivo de pequenas aeronaves por ter visão monocular. E só! O menino de cinco anos estava certo. Esteve ali apenas para se deleitar com a novidade, com a beleza daquele jardim cheio de crianças com seus patinetes e que ao voltar para a casa ganharia igual. Além disso, a viagem no caminhão do avô foi o máximo. Só para ele. Nem as lágrimas da mãe fizeram-no desconfiar que havia perdido algo importante. Mesmo assim a vida é bela, concluiu, 20 anos depois.


Brasília, 26 de novembro de 2013


Paulo das Lavras

Anízio Gaspar, o avô que jogou futebol até os 70 anos

O jovem Luiz Boneco, no Fabril em 1954

Luiz, o 3º da esquerda, agachado. Campeão da Liga 
    Esportiva de Lavras, pela Olímpica, em 1957


 
Antonio Carnot de Pádua, no centro, agachado, também era jogador da mesma Olímpica. Na década de 1950 sua caminhonete derrapou na ponte de madeira e mergulhou no ribeirão Agua Limpa. O menino assistiu o acidente e o pai se apressou em entrar na água para socorrer o amigo Carnot, que nada sofreu além do susto

 




                                                                                           Sr Quincas Guimarães, amigo da família
                                                                           e passageiro ilustre



                                                                                           


E o bonde parou... e enquanto esperava a saída do caminhão alguém fotografou, de dentro dele 
a Rua Francisco  Sales mostrando a janela da casa do Sr Quincas e logo abaixo a casa de João  
Arbex. Na esquina, o sobrado dos Estabelecimentos Záckia e residência de Jofre Avayou no  
         segundo andar.
                    Foto: acervo Renato Libeck


       O Menino das Lavras pouco antes do acidente        

                       Os pais do menino das Lavras , com o irmão mais novo colo                       






















  

                                        


















domingo, 24 de novembro de 2013

Um caminhão que fala e o fazedor de amigos




 

A foto desse histórico e bonito caminhãozinho foi publicada recentemente nas redes sociais. O menino das Lavras logo o identificou e saudosas lembranças desfilaram em sua memória. Além desse, que lhe “contou” doces recordações, havia outro igual em que costumava andar bastante. Foi um modelo muito comum na década de 1950, com capacidade para quatro a cinco toneladas de carga. Importado da montadora GM e comercializado em Lavras pela Agência Chevrolet, de Ciro Arbex & Cia Ltda. Pertenceu a um importante fazendeiro, o Sr Toniquinho de Pádua que, para nossa tristeza, nos deixou ainda cedo. Esteve guardado por trinta e três anos na fazenda, depois de rodar por mais de 20 anos unicamente nas mãos daquele renomado fazendeiro. Tinha um ciúme danado que se revertia em cuidados especiais como só deixar as revisões a cargo da agencia autorizada. E mais, ali havia, ainda, o mecânico João Foguete, mestre na arte dos motores Chevrolet e somente a ele confiava a revisão de seu mimado caminhão. As peças tinham que ser as originais, importadas. Nunca o emprestava, a ninguém. Precisou? Sem problemas, ele mesmo ia pessoalmente atender ao amigo. Verdadeira joia preciosa, cuidada com esmero. Só foi vendido, ainda assim para um colecionador, depois que a matriarca da família também foi ao encontro do Sr. Toniquinho. Ela, que amava a fazenda e a memória do esposo que partira bem antes, tinha especial carinho por aquele veiculo que fora parte importante na vida da família. Com ele foi construída boa parte da fazenda e as crianças cresceram andando nele, quase que diariamente da cidade para a fazenda e vice versa ou em passeios às fazendas vizinhas e tudo que demandasse qualquer deslocamento. Aliás, não foi só o belo caminhãozinho que recebeu tratamento especial, carinhoso. Tudo foi conservado por ela na ausência daquele se dedicou inteiramente à família e à construção daquele patrimônio para que eles, esposa, filhos e suas gerações  desfrutassem. Tudo restaurado, conservado de acordo com o original, de doces recordações. A fazenda, sua bela sede com pinturas de paisagens bucólicas nas paredes da varanda, o silo aéreo, grande novidade à época, os currais, galpões e arredores. Este autor a conheceu muito bem na companhia de um dos filhos do casal, o inesquecível colega de turma do curso de agronomia, Thadeu de Pádua. Por ironia do destino, logo no início deste ano, quando o já tínhamos programado uma visita nostálgica àquela bela fazenda, que se vislumbra da ponte sobre o Rio Grande, ele, o amigo, decidiu partir subitamente. Deixou-nos, a todos desconsolados, doloridos com sua brusca viagem, não naquele caminhãozinho, mas em carruagens celestiais, escoltadas por anjos, ao encontro de seus pais na Glória do Senhor.

A frustação do menino, por não ter podido realizar a visita em companhia do amigo, tem sido minorada com a publicação de fotos da bela fazenda, dos familiares e agora desse caminhãozinho. Este despertou-lhe a escrita destas memórias, que são uma forma de terapia, dizem os especialistas. E haja história para contar. Esse caminhão me falou das estradas rurais, íngremes e barrentas, levando e trazendo cargas mistas. Cargas propriamente ditas e necessárias à fazenda ou produtos desta para a cidade e...., pasmem, em meio à carga, uma meia dúzia de passageiros, a filharada e contumazes caroneiros aboletados na carroceria do faceiro Chevrolet. Linhas de ônibus? Nem pensar, pois as poucas existentes passavam longe da fazenda Naqueles duros tempos dos anos 1950/60 havia pouquíssimos carros motorizados na cidade. Automóveis, sedãs como eram chamados, eram mais raros ainda. Portanto, os caminhões ¾, como esse da foto e as caminhonetes imperavam. Eram muito práticos e ideais para os serviços da fazenda, atividade principal do município. Passageiros na carroceria do caminhão? Sim era muito comum, pois o transporte público em jardineiras (antigos ônibus sobre chassi de caminhão, próprias para as estradas de terra) ainda era muito limitado. Havia certo risco para os passageiros na carroceria, mas nem tanto, pois a velocidade média era apenas 20 a 25 km/h nas estradas de terra, embora seus velocímetros marcassem até 120 m.p.h., aproximadamente 190 km/h.

Aquele pesado veículo se prestava também ao papel de autoescola familiar.  Os jovens, rapazes e moças, treinavam a direção com o pai que, prazerosamente, os ensinava a dirigir, pois autoescolas ainda nem existiam. Não era fácil o aprendizado naquele caminhão de volante enorme, duríssimo, pesado, cambio seco, ou seja, para se trocar a marcha era necessário debrear, puxar a alavanca do câmbio somente até o ponto morto (neutro), soltar a embreagem, dar uma aceleradinha e em seguida debrear novamente. Só então se podia levar a alavanca até à posição da marcha desejada. Coitado do caminhão, passou pelas mãos aprendizes de todos os filhos. Uma das filhas, depois de alguns treinos, parecia ir bem nas lições práticas de direção até que um dia, ao tentar reduzir a marcha barbeirou feio naquele “cambio seco”. Apavorou-se com o barulhão das engrenagens rangendo, arranhando como uma navalha mal afiada. O nervosismo e desespero da aprendiz aumentaram diante do risco de iminente acidente. Não bastasse isso e já quase em pânico, com o coração saindo pela boca, o pai gargalhava como era seu costume em qualquer que fosse a situação, mesmo nas mais adversas. Quanto mais força a mocinha apavorada imprimia mais o barulho aumentava. Adrenalina nas alturas, pavor estampado na face, decidiu colocar toda a sua força naquele traiçoeiro pedaço de ferro com uma bola preta de ebonite na ponta (ainda não existia plástico nos automóveis) . O resultado foi desastroso. Subitamente a alavanca de marchas, não resistindo, escapou inteirinha na sua mão direita. Com os olhos arregalados, largou o volante, em pânico, mão esquerda na cabeça e descabelando agitava freneticamente a alavanca, mostrando-a ao o pai, como a perguntar... o que eu faço, agora? O doce e tranquilo pai não parava de rir daquela inusitada situação e a cara de pavor da filha. Na verdade estava quase desmaiando de tanta gargalhar. Felizmente a moça obedeceu ao comando do pai que gritou, ainda meio sem fôlego: pisa na embreagem e no freio, depressa! Não fiquei sabendo se a moça conseguiu, depois, a carteira de motorista, ou se restou algum trauma...

Esse caminhãozinho tem histórias. E ao vê-lo, na foto, contou-me outras. Sua carroceria vivia repleta de jovens. Carregou sonhos e mais sonhos de uma juventude sadia, ordeira que se reunia para diversão em atividades nas fazendas e na cidade. Havia uma turma de rapazes muito espertos. De olho nas belas meninas sempre arranjavam um jeito de pegar carona naquele caminhão. Sabiam a hora certinha que o pai das garotas terminava os afazeres da ordenha do rebanho e voltava para a cidade. Era hora de bater ponto na sede da fazenda para pegar carona e, lógico ao lado das moças que sempre acompanhavam os pais nos fins de semana. Chegavam de mansinho, cumprimentavam os pais, ganhavam lanche oferecido por Dona Olga que, com seu carinho maternal se compadecia daqueles meninos que passaram o dia pescando nas lagoas da fazenda. Coisas de mãe que sempre acha que o filho precisa se alimentar mais e agasalhar-se. Na verdade os guapos rapazes, e eu os conhecia, certamente estavam ali por outros motivos que julgavam secretos, mas que não passavam despercebidos até porque as moças ficavam radiantes com a “inesperada” visita. E eram em turma de três a meia dúzia a cada vez.

Havia também outros grupos de jovens, os jogadores de futebol, do time chamado “Fábrica Velha”. Esse nome era alusivo à Fabrica de Tecidos União que ali existiu até o ano de 1925, na localidade de Dr Jorge, às margens do Rio Grande. O caminhãozinho era o meio de transporte de boa parte dos jogadores. Sr Toniquinho tinha prazer em ajuntar o time arregimentando os jogadores na própria fazenda e na vizinhança, do Sr Américo Alexandre e Sr Zé Maria, tios das moças. Os campeonatos rurais aconteciam nas Três Barras, Criminoso, Boa Vista e até mesmo nas cidades de Perdões e Carmo da Cachoeira, onde este menino até chegou a acompanhar uma comitiva em outro caminhão igual, o de seu avô. Mas, aquela turma da suposta pescaria também se infiltrava no meio dos jogadores para assistir aos jogos. Alguns até eram bons de bola e conseguiam ser escalados no time. Esses gostavam de se exibir, pois ali na pequena plateia estavam aquelas lindas meninas, donas do caminhão, ou melhor filhas do dono, o que dá na mesma. E nas viagens elas faziam questão de ir na carroceria. Na boleia, só os pais. Dona Olga, a zelosa mãe, não tirava o olho do espelho retrovisor para ver o que se passava na carroceria. Ela própria, que antes chegara a queixar-se de ligeiro torcicolo, mandara instalar o retrovisor interno, na cabina do caminhão, pois mesmo os carros novos não tinham esse acessório. Proporcionou maior conforto, mas logo ele afrouxou, de tanto que era ajustado para pegar todos os ângulos da moçada lá atrás na carroceria. Coisas de mãe, que deixava transparecer grande preocupação com as suas prendas, ali em meio a tantos jovens, guapos rapazes. Chegava exausta ao destino, quase sempre depois de uma hora inteira de viagem em estradas sacolejantes e sempre movimentando ora o corpo, ora o retrovisor.

Diante da notória preocupação da zelosa mãe, o sempre alegre e amoroso pai das garotas dava gargalhadas ao volante. Caçoava a aflição da mãe dizendo-lhe: que nada, não se preocupe minha querida, eles estão apenas se divertindo e lá estão, também, os dois irmãos delas. Mas, certamente, ele também disputava umas olhadinhas pelo bendito retrovisor que a companheira mandara instalar. Talvez a frouxidão precoce daquele acessório tenha sido mesmo antecipada em razão dessa disputa de vira para lá, vira para cá a toda instante. É verdade que nessa luta a mãe sempre vencia. Também como não se lembrar dos lindos versos da poetisa que canta e decanta a essência do amor e os mistérios das mães?
“ É certo que as mães têm um mistério
 Que as fazem nessa Terra tão presentes!
 Mesmo depois de transcender o etéreo
 Para habitar o Céu e as nossas mentes...  

 São elas que ensinam, sempre a sério,
 A cumprir os deveres prontamente.
 São elas que nos legam o critério
 Da escolha. E o fazem brandamente....

  É a Mãe que à noite ao nosso lado
 Mitiga a nossa dor, o medo ancora,
 Faz-nos dormir e ao leito nos conduz...

  Mas em outro momento tão chorado
 Somos nós que a ajudamos em sua hora
 De adormecer nos braços de Jesus...
 
 Autora: ÂNGELA FARIA DE PAULA LIMA

        Alheia a toda essa atenção dos pais a moçada se divertia na carroceria do sacolejante Chevrolet 48/49. Não sei dizer que desfecho tiveram tantas caronas naquele caminhãozinho, mas duas coisas posso garantir. Pescaria era desculpa esfarrapada. O mais importante, com certeza, era a companhia das belas meninas. O caminhão de meu avô também serviu para a mesma situação, com rapazes e moças em passeios pelas fazendas e campos de futebol. Na verdade os rapazes desta história, meus contemporâneos, só iam msmo esperar o final da tarde. Quando muito, nadavam nas lagoas da fazenda e alguns mais dispostos e corajosos chegavam a atravessar a nado o imenso Rio Grande naquela curva logo abaixo da ponte da rodovia. Corajosos, aqueles meninos na travessia do rio, como também na frequente arte de pegar caronas sempre que farejavam as companhias desejadas.

Esse caminhãozinho me contou mais.... Alguns anos mais tarde Sr Toniquinho pegava a netinha primogênita e a levava até a venda das Três Barras, a uns quatro quilômetros pela Fernão Dias. Esse armazém, que era conhecido por “Venda do Sr Júlio”, foi o embrião dos Supermercados Rex. Sr Júlio Sales iniciou seu comércio ali na zona rural das Três Barras, nas terras de seu sogro, João Pereira da Silva, o meu tio Nhô. Este menino frequentava a “venda” quando passava as férias na fazenda do pai, logo ao lado. Funcionou ali até os anos 60. Antes, em 1954, Sr Júlio abriu o Armazém Rex no antigo Mercado Municipal e depois na Franciso Sales. Finalmente, em 1969/70 inaugurou o Super Rex na Travessa Guadalupe, quando já havia fechado a “venda” das Três Barras. Mas, voltando à viagem à “venda”, tive acesso pelas redes sociais a uma postagem emocionada daquela netinha, hoje adulta, relatando a alegria que tinha ao ser levada pelo avô, prometendo-lhe comprar sanduiche de pão com salame, guaraná da marca 507, fabricado em Varginha e alguns docinhos de abóbora, banana ou batata doce em tabletes. Ela preferia as balinhas de abacaxi-puxa, aquelas que arrancavam dentes. Era a festa para a menininha que se encantava com o avô e ainda hoje sente sua falta e se emociona diante das fotos dele e desse caminhão. Coisas do Sr Toniquinho, pai e avô mais amoroso, alegre, sem igual.

Sr Toniquinho e Dona Olga usaram esse caminhão para espalhar o amor. O amor aos filhos, o amor aos vizinhos, aos conhecidos, aos camaradas (empregados) da fazenda e a todos que precisavam de uma carona ao longo da empoeirada ou barrenta estrada. Nem era preciso acenar. Certa vez, voltando da fazenda para a cidade, ele parou no ponto da fazenda Retiro, nas Três Barras e ofereceu para nos levar, a mim e meu pai que o chamava de Tuniquinho de Pauda (assim mesmo, com inversão de letras, mas sempre pronunciado com muito respeito). A atenção, o carinho, o sorriso permanente daquele homem, pai, avô e amigo, eram os mesmos para quem quer que fosse. Indistintamente. Ele tinha prazer em todos os seus gestos. Dava-se ao luxo de passar em frente a um banco comercial, onde trabalhava uma de suas filhas, só para acenar, dar um ligeiro toque na busina e esbanjar um largo sorriso para ela como a dizer: oi, estou aqui, passei só para te ver, filha! Assim era o dono desse caminhão comprado em 1949, há exatos 64 anos e ainda hoje conservado. Jóias, o primeiro dono e o caminhão que me contou tudo ao revê-lo na foto. Inspirou-me  a escrever duas crônicas. A segunda se refere à minha primeira viagem em outro caminhão, igualzinho a esse. Mas essa é outra história. Hoje a homenagem é para esse exemplar pai de família que só sabia semear o amor e deixou um abençoado legado. Um legado que inclui até um caminhão que fala. E que só fala de amor, tal qual aqui escrevi. Que seus filhos e todos familiares colham os frutos desse amor.

Brasília, 24 de novembro de 2013

Paulo das Lavras
A família Pádua  
                           A família e o caminhão sobre a ponte ao lado da fazenda
                                                              
                                   Sr Toniquinho de Pádua, sempre sorridente
                                                                      
Sede da Fazenda Bela Vista, no alto da colina.
Grandes lagoas na entrada da ponte da BR381
 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Terapia pela escrita... Vamos nessa?


Li um artigo interessante sobre a terapia psicológica por meio da escrita, sejam poesias, contos, crônicas ou outras.  Foi lembrado o exemplo de Carlos Drummond de Andrade que, em entrevista, citou o inicio de sua carreira na literatura com poesias produzidas por impulso. Nelas ele constatou, depois de certo tempo, que ali estavam inseridos aspectos sombrios que povoavam sua mente. Seus escritos eram, segundo o próprio Drummond, uma forma de clarear esses pensamentos conflitantes, exercendo um papel muito salutar, tonificante para a sua alma. A literatura tinha, portanto, efeito terapêutico para ele, aliviando a carga de problemas que carregava. Assim, expressava-se na poesia, ainda que na linguagem simbólica, aquilo que era inconsciente e que de certa forma o incomodava, sejam as injustiças, as belezas ou simples passagens de vida em família e nunca antes devidamente explicadas ou exploradas convenientemente. E ele se sentia aliviado ou até mesmo gratificado por ali colocar aqueles “problemas”, expelindo-os de forma construtiva. A literatura era seu “divã”, concluiu Drummond.

É interessante a constatação de que, até mesmo nos contos de ficção, sempre há um pouco de autobiografia. Aqueles que gostam de escrever, ainda que por puro lazer e muitos de nós somos assim, sabem muito bem disso (crônicas que escrevo só as libero para os amigos mais chegados, pois as leem com o os olhos do coração e adicionam críticas sinceras, pois o que me move é o desejo de crescer e co,mpartilhar as coisas boas da vida). Qualquer produção literária, não importa o gênero, sempre traz um pouco da vida do autor. As crônicas, então, são terríveis nesse sentido. Nelas o autor escancara os seus pensamentos e sentimentos, expondo-se totalmente. E na verdade o cronista segue, quase sempre, o figurino descrito por Drummond.  Busca explicar, à luz de sua vivência e conflitos internos, agora escudados em maior experiência e respaldados em conhecimentos mais amplos, os fenômenos e acontecimentos do cotidiano. Pela crônica adquirimos coragem de abordar as queixas ou ideias que antes não pudemos ou tivemos coragem de fazê-las diretamente aos protagonistas de outrora. E agora, às vezes, me pergunto por que esse impulso de escrever sobre o cotidiano ou reminiscências da infância e juventude? Por que se sente bem em sair pelas ruas e conversar com garis, catadores de lixo reciclável (e até fotografar-se com eles), vigilantes, policiais em serviço, motoristas profissionais, garçons, donos de estabelecimentos comerciais, babás e até crianças que ainda mal sabem se expressar? São pessoas que exercem atividades totalmente distintas daquelas para as quais fui treinado e me dediquei toda a vida. Hoje, depois de tanto tempo, parece que acordei para a vida, a vida como ela é, como dizia Nelson Rodrigues e não apenas aquele mundo profissional, cercado pelos top minds, formal, requintado e que lhe cercou por todo o tempo, no país e no exterior. Formalidade demais! Assim, hoje, ao procurar entender o outro, o próximo que está a seu lado e seu modo de vida, ou simplesmente descrever uma experiência própria, comparando-a com a atualidade e assim tirar lições que possam valer para si mesmo e todos que delas tomem conhecimento é simplesmente “viver”. E assim, pela escrita, prolongamos o prazer da vida.


Por consequência a tese de Drummond se aplica a todos nós que gostamos de escrever, ainda que de forma amadorística, ou seja, descobrimos ou simplesmente usamos a literatura ou a escrita, como terapia da alma e ao mesmo tempo levamos, por meio dela, mensagens construtivas para os amigos. E quando dizemos "escrita" incluímos as artes da pintura, da música e da fotografia, pois as fotos tem duas faces, a que é mostrada e a invisível, aquela que está por detrás da câmera, o pensar, a mensagem que o fotógrafo deseja repassar com a imagem por ele capturada.  O pensador Rubem Alves soube expressar isso de forma mais poética ao escrever: 
"Assim são as imagens poéticas: elas tem o poder de ir lá no fundo da alma, onde moram os esquecimentos e quando um desses esquecimentos acorda a gente sente uma estremeação no corpo. Essa é a missão da poesia: recuperar os pedaços perdidos de nós”.


 Drummond e Alves estão certos. A escrita tem efeito terapêutico. Me estremeço diante de uma bela imagem como essa que abre a crônica, uma mulher, guerreira na luta pela sobrevivência Quer terapia melhor do que “descascar” um tema e dele tirar conclusões positivas ou simples desfechos que alegram os corações?

Brasília, 13 de novembro de 2013

Paulo das Lavras


Entendendo a vida de uma catadora de lixo. Na infância a carroça do Tatá, o freteiro da pequena 
cidade do interior, fazia sucesso entre as crianças que sempre queriam uma carona.
  Falar com essa mulher guerreira, que ganha o seus sustento com uma humilde
carroça transitando pela região central de Brasília, em busca de materiais recicláveis, 
foi como uma terapia para alma do menino  que estacionou o carro e correu para a prosa e a foto,
 não sem antes dar´lhe algum para o sustento do sofrido cavalo de tração.
Foto do autor -  Brasília 2012


Conversando e aprendendo sobre a vida de uma policial
do Batalhão de Polícia Montada. Diante dos elogios
 sobre a elegância do conjunto, sorriu para a foto. Ou melhor, gargalhou tanto 
que até  teve que se curvar para não cair do enorme cavalo
Foto do autor - Brasília, Esplanada dos Ministérios


Contando histórias e aprendendo com as crianças, enquanto aguardava-se o show
da Esquadrilha da Fumaça

Colhendo peras na chácara e ensinando o valor da natureza

Dando asas ao "sonho de Ícaro",  tão desejado desde  a infância..., voar, voar, subir, subir..



A vida toda cercada pela formalidade do trabalho. Chegando à Lavras
com o Ministro da Educação 
Foto: Ascom-Ufla, 1994




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ciganas e predições em BH


 

            Um amigo jornalista e escritor, Caio Marcio Olímpio, escreveu uma crônica muito interessante intitulada “Exu e o Fumante Desconfiado”. Conta o autor, de forma muito descontraida, que ao entrar numa loja de incensos, no centro de Belo Horizonte, a atendendente ruiva, de olhos verdes misteriosos, logo lhe alertou que estava fumando muito e poderia tirar-lhe o vício por meio de um “trabalho” de limpeza e poria cartas de baralho.

            Esse caso verídico, ocorrido recentemente, me fez lembrar outro acontecido há mais de 45 anos, ali mesmo em BH, na Av. Afonso Pena, bem próximo ao local relatado pelo amigo. Mas, vejamos essa nova história que, aliás, comentei com o autor pelas redes sociais. Adoro causos assim. Mas, por outro lado nem fiquei sabendo se o amigo decidiu mesmo deixar o fumo. Pessoalmente deixei-o há 32 anos e não foi fácil, com várias recaídas. Mas, com uma diferença, não precisei de nenhuma cigana ou bruxa para me alertar ou amedrontar. O próprio cirurgião que iria abrir o tórax se encarregou disso ao descrever, a meu pedido, como seria a tal lobectomia com retirada de uma sequela decorrente de outra cirurgia ocorrida aos dois anos de idade. Apavorado e com expressão de incredulidade e espanto a cada etapa descrita, o médico parecia se deleitar com o pânico do paciente. A cirurgia, dizia ele, se iniciava com um imenso corte entre as costelas desde a cartilagem do externo até a coluna vertebral contornando o tórax, o separador mecânco afastava as costelas deixando uma cavidade igual à boca de um tubarão e depois a conectava-se a respiração mecânica extracorpórea... O quê?... O que é isso Doutor..., é assim? Diante do pavor do paciente já de olhos arregalados e cabelo arrepiado, o doutor ofereceu a segunda opção, deixar de fumar o maço e meio de cigarros por dia. Empurrado pelo medo da pavorosa cirurgia o menino engenheiro abandonou o maldito vicio que envenenava os pulmões. Deu certo. Nunca mais teve pneumonias e dores no nervo intercostal pinçado ainda bebê aos dois anos. Desta vez as bruxas videntes de BH nem precisaram predizer o futuro do jovem engenheiro. A medicina foi certeira ao condenar o agente causal, dispensando-se a  intervenção cirurgica corretiva.

Mas, aproveitando a deixa das ciganas de BH..., bem ali na Av.Afonso Pena, na Prefeitura, em frente ao Parque, uma cigana abordou uma linda morena que trabalhava na própria Prefeitura Municipal, e lhe disse: “Você namora e está quase noiva de um médico, mas você vai se casar com um engenheiro”. Ela nem deu importância, pois gostava do médico e pensava que iria se casar com ele. Engenheiro? Ah nem conhecia nenhum jovem nessa profissão. Impossível. Três anos depois ela realmente se casou com um engenheiro. E eu estava lá no casamento, na bela e suntuosa Catedral de Lourdes, um pouco mais acima da Prefeitura, na Rua da Bahia, pois o engenheiro era eu próprio que a esperava no altar... kkkkkk. A troca de visitas a hospitais e clinicas de BH, ao lado do antigo noivo, por vistorias técnicas em obras de engenharia e paisagismos na capital acompanhando o novo namorado embora pareça uma guinada abissal e com chances de insucesso não intimidou a bela morena. Gostava de ver os lindos jardins bem adubados e conservados, o gramado do estádio Mineirão impecavelmente verde, viçoso, irrigado e adubado, pronto para os embates do Penta Campeão, Cruzeiro Esporte Clube, daquele longinquo ano de 1968. Que vivam as ciganas de BH. Essa pelo menos acertou em cheio e olhe que deu tão certo o casamento engenheiro/desenhista de projetos de engenharia e paisagismo que já dura 43 anos.

Ah, esqueci-me de dizer que só tomei conhecimento do episódio da cigana algum tempo depois de casado. Deve ter sido por isso que a moça tratou logo de acompanhar o marido engenheiro para as cidades de Lavras, São Carlos e Brasília. Tive chances reais e até desejava voltar a trabalhar em BH, mas ela não quis... vai que encontrasse a tal cigana e esta lhe cobrasse a predição ou rogasse uma praga... kkkk

 
Brasília, 24 de outubro de 2013

Paulo das Lavras
 
   Prefeitura de BH, ponto da cigana que 
                                                                     predisse o futuro da linda morena                                                 
 
 
Santa Casa de BH, palco das visitas da morena e  seu namorado, médico.
 
 Praças, bosques e jardins de BH, novos passeios da  morena
             com o  engenheiro responsável técnico por suas  manutenções.            
 
                                        Catedral de Lourdes, em BH, onde a morena casou-se
                                                          com o engenheiro. A cigana acertou a predição

                                      
      A cigana só não sabia que ambos adoravam flores e paisagismo. Casaram-se, viajaram para locais com
          os mais  belos jardins e... durante toda a vida plantaram muitas flores e ainda hoje vivem rodeados de
                                                                jardins multicoloridos.
                                         
 
 
 

sábado, 21 de setembro de 2013

Lobos, gansos e crianças. A arte de contar histórias


            Embora hoje seja o Dia da Árvore, 21 de Setembro, que prenuncia no hemisfério sul a chegada da Primavera, a estação das flores, não vamos falar sobre flores. Ou melhor, falaremos de “outras flores” mais belas ainda e que enfeitam nossas vidas, as crianças.  A Semana da Criança está próxima. Dia de presenteá-la.  Que tal um livro, um CD de histórias infantis? Contar, ouvir e ler histórias abre janelas e portas, descortina horizontes para novos mundos. Quem nunca prestou atenção nos olhinhos faiscantes de uma criança ao ouvir uma história contada pelos pais? Elas ficam na expectativa de saber o desfecho do enredo. São tomadas por uma incontida curiosidade para saber se o príncipe vai derrotar o vilão ou se a princesa será encontrada por ele. Elas são especiais e tem uma enorme capacidade de “entrar” na história e imaginar o cenário, decorrendo daí as mais surpreendentes indagações a respeito do desenrolar e desfecho do enredo. E assim são capazes, em suas fantasias, de viajarem e imaginar novos mundos. Por isso as histórias as fascinam tanto. Para as crianças a história tem ainda um valor educacional muito importante, pois além de despertar interesse e imaginação, provocam emoções nas mais diversas situações possíveis, da alegria à tristeza. E assim elas vão descobrindo o mundo real por meio de suas brincadeiras.

             Mas, em contrapartida é necessário que haja sensibilidade dos pais. É preciso ter ouvidos para escutar as freqüentes perguntas durante a história e ao mesmo tempo saber contornar situações e aproveitar a oportunidade para inserir um comentário incentivador à imaginação de modo a ampliar o mundo para elas. Contar histórias para crianças é uma arte. Sempre observo isso em relação aos netos. Ver e ouvir a mãe ou a avó pegar um livro e contar historinhas para eles é um deleite sem limites. Não tem tablet e nem filminho que os façam trocar as historinhas contadas ao vivo. Nem mesmo a euforia pela zoada dos aviões da Esquadrilha da Fumaça, em pleno show no aniversário de Brasília, foi capaz de desviar a atenção da historinha ilustrada que o vovô lia para eles, justamente sobre aqueles aviões e a Força Aérea Brasileira. Outro dia me emocionei quando uma amiga, que trabalha à noite, voltou mais cedo e encontrou a filhinha, de quatro anos, ouvindo, atenta, na cama antes de dormir, o pai a ler e contar-lhe uma historinha. Não se conteve, fotografou a cena e postou, numa rede social, toda contente com a bela surpresa até então desconhecida para ela. Mais contentes ficamos nós por compartilhar um ato tão carinhoso e que certamente torna a criança mais feliz e no futuro um adulto equilibrado, que sabe dar e receber amor na medida exata.

             Pensei que eu fosse de um tempo muito antigo quando, na escola, até encenávamos historinhas. A preferida era aquela dos caçadores com espingardas às costas, na verdade cabos de vassoura. Saíamos com garbo e valentia marchando ao redor da sala de aula, cantando estrofes à procura do lobo mau que assustava Chapeuzinho Vermelho na perigosa e temida floresta do imaginário do garoto de oito anos. Pensei que apenas a minha imaginação ainda se lembrava daqueles doces tempos infantis e que influenciaram até mesmo a vida de adulto que, certa vez, na Alemanha, fez questão de adentrar a Floresta Negra da Baviera só porque “a conhecera” na infância pelos contos dos irmãos Grimm. E aquela floresta, temida na infância, ao contrário do medo à época, lhe pareceu acolhedora e ainda mais bela justamente por evocar a memória de um passado tão feliz. Além disso, ali estava à bordo de uma reluzente e veloz Mercedes deslizando pelo circuito de Hockenheimring, a pista de corridas da Fómula1, onde nosso campeão Airton Sena brilhara tantas vezes. Nunca vi ou achei floresta mais bonita que aquela, pois a carga emocional, da infância às corridas automobilísticas, era mais que real naquele momento. Mas, voltando à questão do “tempo”, esse receio atual de parecer “antigo” é infundado. Vejo que a arte de contar história nunca se acabará.  É como o circo. Alguém é capaz de dizer que ele desaparecerá? Lógico que não, pois enquanto houver crianças existirá o circo. Da mesma forma contar e ouvir histórias, imaginar um mundo encantado, faz parte da vida do homem desde infância até o final de sua vida. Tive um amigo americano com o qual trabalhei, lá nos EUA, um grande cientista pesquisador da Georgia State University - Agricultural Experiment Station e que depois, para minha surpresa, tornou-se um escritor de contos infantis. Faleceu recentemente, vítima de insidioso mal. Após o repentino desenlace sua esposa publicou um de seus contos infantis e me presenteou com um exemplar. Sua bela historinha dos gansos migrantes integra a biblioteca mirim de nossos netinhos. Pedro Henrique, com apenas dois anos naquela ocasião, adorou as ilustrações e ouvir a tradução contada pela vovó. Ao flagrar tão linda cena, de olhinhos arregalados e atentos também eu, a exemplo da colega de trabalho já mencionada, não me contive e fotografei silenciosa e discretamente para não quebrar o encanto daquele doce e terno momento.

             Assim são as crianças e também nós, que temos o privilégio de conviver com elas, sempre seremos... eternas crianças. A vida nos retribui tudo de bom, pois o que tivemos e recebemos reverte mais tarde como bônus. Como não relembrar das gostosas histórias que o pai contava ao menino franzino de três anos, ou pouco menos, que passara nove meses no colo restabelecendo-se de delicada cirurgia torácica? Assombrações, lobisomens, lobos, onças ferozes, coelhos espertos na mata, sapo que entra na viola do urubu e vai de carona à festa no céu e ao ser flagrado na volta ainda engana a raivosa ave que, lograda, o atira na água e não na pedra? Ah... histórias contadas pelos pais nos tornam, sim, mais felizes, mais sensíveis, pelo menos o bastante para entender, valorizar e repetir isso às crianças de hoje. Ah... quisera eu, ser como Monteiro Lobato, o contador de histórias infantis e que desejava fazer um livro onde as crianças pudessem morar. Talvez devêssemos atualizar e dizer “fazer um site” para elas acessarem e... “curtir/comentar/compartilhar”. Seria um sucesso neste mundo digital de hoje, com certeza!

            Que elas, as crianças, sejam felizes não só nesse dia dedicado a elas, mas, sempre! Criança feliz, adulto feliz! Assim, construiremos um mundo melhor.

            Parabéns a elas e aos pais, tios, avós, professores e todos que cuidam para que elas sejam felizes.

 
Brasília, 21 de setembro de 2013

 
Paulo das Lavras 

Pedro Henrique, aos dois anos ouvindo a historinha
"O vovô e o Ganso", do amigo Charles Laughlin
 
 
 
                                   Sarah e Pedro Henrique, atentos à história da Força
                                         Aérea, durante show da Esquadrilha da Fumaça