sábado, 22 de junho de 2013

As Manifestações de 20 de Junho


 


As Manifestações de 20 de junho

A história das manifestações populares no Brasil nunca registrou tamanha manifestação popular. Cerca de 1,4 milhão de pessoas em 12 capitais foram simultaneamente às ruas. A maioria de jovens estudantes secundaristas e universitários. Pena que uma minoria tenha ido às manifestações de rua apenas para tumultuar, agir com vandalismo, ferir pessoas e depredar o patrimônio público. Infelizmente Brasília presenciou isso ao final da manifestação. Participei da passeata como observador atento, integrado aos diversos grupos e atento à situação de possíveis perigos ou confrontos. Das 17:00h às 19:00h foi um período tranquilo, uma beleza, só alegria por estar ali no meio daquela corrente positiva. Viam-se muitos jovens, funcionários públicos e do comércio engravatados ou não, pais e mães com filhos pequenos, enfim o povo em geral empunhando apenas cartazes de papel confeccionados na hora, tendo o chão como mesa de apoio para a escrita das mensagens idealizadas ali mesmo. Conversei com jovens de caras pintadas, sugeri frases para os cartazes e fotografei-os. Falei com idosos e ainda fiz blague com um engenheiro de 72 anos perguntando-lhe o que ele e eu fazíamos ali no meio dos jovens. Falei com índios da etnia Kayapó que marchavam em ritmo de dança guerreira e entoavam canções de amor à terra, em seu próprio idioma e empunhando cartazes contra a PEC 215. Emocionei-me com o significado de seus cânticos, com cocares e corpos pintados de urucum e jenipapo.  Falei com policiais, de capacetes e coletes, porém sem armas letais e que formavam um cordão humano de isolamento do acesso ao Congresso. Tentei ultrapassar aquele cordão, de corpos colados uns aos outros, para ganhar a via lateral, totalmente livre para se retornar, pois ali era o final da caminhada. Impediram-me, porém com extrema gentileza, demonstrando-me que não poderiam autorizar a minha passagem, pois embora merecesse ganhar um caminho mais livre para retorno, todos invadiriam logo em seguida alegando os mesmos direitos. Mais que lógico. Agradeci, dei meia volta e retornei pelo meio da imensa multidão.

Ao deixar a linha final, no cordão de isolamento e a caminho da Estação Central do Metrô ouvi a primeira bomba, que na verdade seria um rojão atirado contra a polícia por baderneiros isolados no Congresso Nacional. Ainda bem que os manifestantes, pacíficos como eu e dezenas de milhares, já haviam deixado o local e então os baderneiros tomaram lugar. Tristes cenas vimos depois pelos noticiários. Uma pena, mas, apesar disso (e ponha pesar nisso), acreditamos que esses vândalos criminosos com seus rojões, pedradas e pauladas não anularam o brilho do civismo daquela grande manifestação, apenas mancharam.

 Que bom que esse movimento é apartidário, aliás, diz o adágio que povo unido não precisa de partido. Há um distanciamento muito grande da classe política e dirigentes públicos em relação às necessidades da população. O cientista político Rafael Cortez afirma que “existe um esgotamento das imagens dos partidos”. Os marqueteiros oficiais se esqueceram de avisa-los, em todos os níveis da administração pública, que não basta olhar apenas para os menos assistidos, concedendo-lhes bolsas de sobrevivência, justas é verdade, e outras benesses mais. Esqueceram-se da classe média, aquela que paga os impostos escorchantes, sequestrados no contracheque, nos bens de consumo e até nos alimentos e remédios e pior, no ajuste do IR sem descontar gastos integrais com saúde, educação e segurança que são obrigações do Estado, mas, por sua ineficiência contumaz, somos obrigados a gastar com penalização em dobro no bolso. Esta classe esquecida acordou... ganhou as ruas em movimento sem precedentes, legítimo.

As pedras e pauladas civilizadas que vi e até ajudei a criar algumas, na Esplanada dos Ministérios na tarde/noite de 20 de junho, foram outras bem mais apropriadas. Foram os cartazes, faixas e gritos com protestos de toda ordem. Foram “pedradas” devolvidas aos políticos. A causa é apartidária, simples e direta: um futuro melhor para o nosso país, nossos filhos e netos. Mais investimentos em Educação, Saúde, Segurança, Transporte Público, Reforma Politica (eleitoral, partidos, estrutura do executivo, fim de privilégios e mordomias, etc.), PEC 37 e outros, além, logicamente, da mais comum: menos corrupção.

E não venham se fazer de desentendidos dizendo que “não se tem com quem dialogar porque é um movimento sem líderes”.... . Líderes são aqueles que seguem a sua própria consciência. Chega, basta de hipocrisia! O mito do brasileiro pacífico não se aplica mais, somos apenas pacientes demais. Não nos prestamos à subserviência de pseudos lideres que ao empalmarem o poder viram as costas às reais necessidades dos cidadãos que os pagam e os sustentam com seus impostos. Foi-se o tempo do coronelismo embora hoje os políticos gostem de patrocinar inúmeras benesses sociais, algumas justas, diga-se, pois visam mitigar a miséria dos cidadãos carentes. Coitados desses miseráveis. Não vi nenhum deles na Esplanada, talvez com medo de serem fotografados e perderem as benesses. Se lhes fossem negados os direitos de votar em eleições certamente os políticos não se empenhariam tanto em aprovar bolsas e bolsas. Não se admirem se algum deles propuser a criação da Bolsa Ingresso para os jogos da Copa da FIFA. A propósito fui a um dos jogos no Estádio Nacional Mané Garrincha e também ali não vi entre os mais de 60 mil pagantes de ingressos de 160 a 300 reais, nenhum cidadão humilde assalariado. Apenas a classe média, jovens sarados, adultos malhados, bronzeados com roupas esportivas de grife. Mais uma vez, coitados dos pobres, pois a partir da entrada dos megaempresários no negócio futebol, parece que este deixou de ser um esporte das massas. Pelo menos tem sido assim no chamado padrão FIFA. Nas vaias de abertura do jogo da Copa das Confederações as TVs mostraram uma faixa que sintomaticamente dizia: “Quem paga ingresso é o que paga impostos”. Ao cuidarem, nesses últimos 10 anos, de políticas focadas apenas nos mais necessitados, e ainda com práticas nada salutares por parte de maus políticos, a classe média então esquecida acumulou todos esses ressentimentos que agora extravasaram. É justo que ganhem as ruas para protestar!

Doeu e ainda dói na alma do cidadão constatar e sofrer os efeitos da conhecida tese que o poder econômico subordina o político e que as políticas beneficiam a força de investidores que põem o capital para trabalhar. Simples assim a teoria comprovada na prática, “governantes privilegiam o capital, quem tem dinheiro para investir”, em detrimento das necessidades básicas do cidadão. Ainda agora, ilustrando essa tese, vimos três políticos, detentores dos mais elevados cargos da administração pública, o prefeito paulistano, o governador do estado e o vice-presidente da republica, também paulista, que se uniram embora pertençam a partidos antagônicos e voaram ligeiro para Paris em busca de apoio à candidatura para se sediar naquele estado a Expo Universal de 2020, um megaevento. Decretaram o aumento da tarifa de ônibus e, alheios a tudo, deixaram para trás o povo protestando e apanhando com truculência nas ruas. Os cidadãos protestavam justamente contra os gastos do megaevento, a Copa. Grandes eventos são fascinantes para os megalômanos, principalmente com o vislumbre de grandes obras. O Brasil está cheio de exemplos de estádios, pontes, ferrovias e túneis superfaturados que enriqueceram políticos inescrupulosos quase nunca condenados. Aliás, o desrespeito à Justiça é flagrante. Raramente são condenados e quando são zombam dela e da sociedade com o apoio dos colegas, maus políticos.

Líderes do movimento, onde estão? Ora, os políticos de hoje precisam melhorar suas assessorias. Marqueteiros que douraram a pílula no passado (e ainda hoje) para nos enganar eleitoralmente precisam se reciclar. Em época de redes sociais cada um é líder de si mesmo, de sua consciência amadurecida nas reflexões no aconchego do lar ou do escritório, rodeado (virtualmente) por dezenas, centenas, milhares de amigos e informações do mundo inteiro, a um clique, em segundos. Não aprenderam que a era digital está “deletando” os maus políticos?  Acabou... chega de enganação, o Brasil real é outro, dos trabalhadores, da classe média que de fato sustenta essa máquina infame que sequestra impostos e nos impõe a maior carga tributária do mundo. Arrecada-se uma fábula (710 bi, de janeiro a junho de 2013), gasta-se mal, com corrupção (50 bi), Copa da FIFA e construção de estádios superfaturados (33 bi), Olimpíada (26 bi). Somente o Estádio Nacional, de Brasília, está consumindo 1,7 bilhões de reais. E pasmem, foi alugado por 4 mil, sim, quatro mil reais. É justo usar o seu, o meu, o nosso imposto para dar de mão beijada aos empresários que faturaram 7 milhões de reais? Eu disse e confirmo: sete milhões de renda num único jogo e em contrapartida o governo do DF recebeu uma migalha pelo aluguel correspondente a apenas 10 ou 12 ingressos do jogo. Uma vergonha, revoltante, pois os empresários que nada investiram levaram os “restantes” R$ 6,996 milhões.

            Não se precisa da imprensa (nem sempre ao lado do povo, afinal são empresas que visam lucro e se omitem quando lhes convém) para ver e sentir isso e mais: desrespeito à Justiça, corrupção generalizada, baixos investimentos em educação, saúde, segurança, transporte público (até parece que nos transportes os políticos são parceiros das montadoras e do petróleo, onde o erário se apossa de mais de 50% em impostos, daí o descaso com o transporte público).  O Estado é jogador que não aceita perder. Ele modifica as regras do jogo, segundo o professor de filosofia e crítico da política realista que reprime e explora os cidadãos, Christian Lazzeri, da Universidade de Paris-Ouest. É hora de o Estado negociar e nesse caso leia-se: Os Três Poderes. E negociar nesse momento não significa achar os lideres do movimento e barganhar. Primeiro porque os lideres são você, eu e milhões de cidadãos contribuintes e dispostos a colaborar com as políticas justas e honestas em todos os setores da administração pública. É hora de ação em todos os níveis dos poderes da república. E não venham com a velha história de cortar investimentos em saúde, educação, segurança e outras áreas. Basta acabar com a ficção do Orçamento e executá-lo sem cortes ou remanejamentos de conveniência para supostos superávits, como também a diminuição de custeios e melhoria na eficiência da máquina burocrática. Cidadania passa pela atenção do Estado, pois, segundo o professor de filosofia e ética da Unicamp, Roberto Romano, “os monopólios do Estado (força física, norma jurídica e impostos) servem para potenciar políticos e magistrados em prejuízo dos cidadãos comuns, os leigos”. O Estado deve servir ao povo que o sustenta. Chega de país caro, corrupto, inseguro, ineficiente e com a Educação e Saúde em baixa.

Consequências das manifestações?  A redução da tarifa de ônibus foi apenas o estopim da explosão cidadã. E esta se deve mais à intervenção do ex-presidente da república, imbatível no faro das ruas, do que a vontade do prefeito paulistano. Este não conseguiu disfarçar o mau humor e constrangimento por ter de engolir suas declarações anteriores em contrário, embora as organizações sociais tenham batalhado contra o aumento. Ainda esperneou dizendo que haverá um rombo de 600 milhões e que terá de fazer cortes em investimentos (enxugar a máquina administrativa, não? Eis aí a sanha, a fúria arrecadatória, sempre!...). As consequências mais tangíveis das manifestações foram as ações do próprio Executivo que no auge da crise voou para São Paulo levando staff politico que lá se juntou ao ex-presidente da república, o presidente do partido situacionista e também outro integrante, o marqueteiro oficial. Embora esse gesto tenha sido mais eleitoreiro do que social, mostrou que o grito das ruas foi e será ouvido, conforme já declarado pelo Planalto. Dia seguinte foi a vez de reunir-se, o dia todo, como staff técnico e cancelamento de viagens no país e exterior. Melhor assim e talvez a mais importante ação: um pronunciamento oficial à nação. Bingo!... Com sensatas colocações, relembrando seu passado de lutas na juventude para garantir a democracia, a presidenta elogiou a atitude dos jovens, maioria nas passeatas e condenou os atos isolados de vandalismo. Disse ter entendido o recado das ruas e que está atenta, ouvindo a população. Prometeu mais diálogo com as entidades representativas dos movimentos sociais e, sobretudo, com os dirigentes dos demais poderes e estabelecer um pacto com governadores e prefeitos para a melhoria dos serviços públicos. Ótimo para o país e como cidadãos ordeiros devemos, em primeiro lugar, respeito à nossa Presidenta e nela acreditar com esperança que as coisas melhorem. Reconhecer os problemas é, sem dúvida, o primeiro passo para a resolução dos mesmos e nisto ela, a Presidenta, foi muito positiva. Aguardemos, portanto, com mais confiança sabendo agora que o país está sendo observado com bastante interesse pela comunidade internacional. Foram sintomáticas as declarações anteriores ao pronunciamento da Presidenta, tanto por parte da FIFA exigindo segurança para as seleções de futebol e turistas durante as Copas das Confederações e do Mundo, como do Departamento de Estado dos EUA que recomendou a seus cidadãos que evitem a proximidade das passeatas nas ruas brasileiras. Na mesma linha alguns bispos brasileiros manifestaram preocupação com a visita do Papa para a Jornada Mundial da Juventude, a realizar-se no Rio de Janeiro no próximo mês. Tudo isso sem contar que a mídia mundial destacou em manchetes essa nova situação social no Brasil enfatizando as consequências sobre os eventos internacionais que aqui se realizam ou realizarão. Cenário e timming são dos melhores possíveis para acreditarmos nas recentes promessas de nossa presidenta.

No âmbito do legislativo, alvo maior das manifestações de rua, a reação não foi a mesma. Parece acuado e timidamente anunciou apenas o adiamento da votação da combatida PEC 37 que retira poderes de investigação de crimes por parte do Ministério Público. Já é um começo. É hora para reflexão e mudança de comportamentos perante a sociedade que os elegeram. O recado das ruas foi claro, límpido, sonoro e justo! Merece resposta à altura.

Muito ainda está por vir, mas, pode-se afirmar com segurança que nos últimos 10 anos, foi a maioria mais pobre e carente do eleitorado que decidiu as eleições em todos os níveis, mas, agora, a classe média recuperou a sua participação e novas vitórias virão em torno de temas relevantes para a vida dos cidadãos. Por outro lado, a exemplo do que ocorreu com o movimento “Fora, Collor” que ensejou o surgimento de novas lideranças como os atuais senadores Lindbergh Farias e Randolfe Rodrigues, esse novo movimento também produzirá novos lideres. Esperar para ver. Tomara que os novos líderes não se contaminem com o imoral toma lá, dá cá, prática tão em voga entre legislativo e executivo.

Mas, e os perigos dessa megamanifestação em todo o país? Primeiramente a questão dos oportunistas. Em todos os sentidos, político, econômico e social. Quer um exemplo? Os vândalos de ontem e sempre. Vi mascarados com olhares suspeitos e temi ser confundido com seus antagonistas. Portavam mochilas que aparentavam certo peso. Nelas, certamente, estavam escondidos as marretas e martelos, bolas de gude, bombas (de São João, cuja festa está próxima), rojões, sinalizadores explosivos, coquetéis molotov e, pasmem... pólvora usada nas fogueiras conforme visto nos noticiários. Cabe agora à polícia investigar e nos dar respostas: quais os líderes? Quais os motivos? A quem servem? Quem os financiou? O Secretário de Segurança Pública do DF está empenhado nisso. São questões que precisam ser esclarecidas ao cidadão de bem, sob pena de pairarem suspeitas às semelhança do que ocorreu com aquele carro bomba que explodiu em grande show artístico no Riocentro. Péssimas lembranças, mas que precisam ser lembradas e delas tirar lições. Com a palavra as autoridades. Já se disse que o preço da democracia é a eterna vigilância. Vigiemos! E com responsabilidade social, pois incendiar não resolve.

Valeu... 1,4 milhão de pessoas nas ruas, no país e no exterior.... Um peso, uma força incalculável, pois fizeram tremer as estruturas dos poderes e não somente a do Congresso Nacional que, literalmente, teve a estrutura física do prédio balançada quando os jovens ali subiram.

Brasília, 21 de junho de 2013

Paulo das Lavras 
 
 








 

           





Chegando na Estação Central do Metrô... alegria geral

                                          Crepúsculo com outras luzes avermelhadas
                                          Início da concentração.
                                           Patrulhas em solo... e
                                          no ar.
                                          mais segurança e tranquilidade para os participantes
                                          Nação indígena Kayapó
                                         Dança de guerreiros etnia Kayapó em plena Manifestação
                                           mais guerreiros em marcha pacífica
                                           e mais Kayapós
                                         Ainda a dança, simbolizando disposição de morrer pela terra
                                         Chegando no limite do cordão de isolamento
O alvo maior da Manifestação. Calado até hoje...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O Facebook é antiestressante?



O Facebook é antiestressante?

 

Sim, é...! Pesquisas realizadas em universidades e centros de pesquisas da Geórgia-EUA, Cidade do Cabo e Milão comprovaram o que muitos já sabiam e têm praticado com frequência. Tomei conhecimento desses estudos em artigo publicado há poucos dias pela imprensa nacional, de onde fiz e sistematizei o seguinte resumo:

 
1-    Quando usado com moderação o Facebook pode fortalecer amizades iniciadas fora do ambiente virtual e elevar a autoestima. O excesso, entretanto, é prejudicial.

2-    A troca frequente de mensagens e compartilhamentos de informações entre amigos fortalecem as relações.

3-    Usado em pausas para lazer é relaxante, pois aproxima as pessoas que se sentem bem e com boa integração ao meio social. Em apenas três minutos de uso o Facebook provou ser um gatilho que ativa uma série de emoções positivas nas pessoas pesquisadas. Sensores mediram as reações de usuários, enquanto operavam o Facebook, registrando os sinais emitidos pelas pupilas, pele, respiração, ritmo cardíaco e ondas cerebrais. Foi comprovado um estado de excitação agradável como num relaxamento.

4-    O uso do Facebook causa emoções diferentes e isso é uma experiência positiva que leva as pessoas a querer repeti-la.

5-    Os antissociais, que não gostam de curtir ou comentar as postagens dos amigos nada aproveitam. Já aqueles que curtem ou comentam as postagens reforçam as relações agradáveis construídas fora da rede.

6-    Pessoas que gostam de si mesmas, de bem com a vida, tem tendência a ser positivas, provocando resposta melhor ainda dos outros.

7-    As curtidas e comentários equivalem a elogios ou atitudes manifestadas nas interações com amigos. As palavras de apoio fazem as pessoas se sentirem bem. Por isso é preciso cuidado no que se posta em seu perfil. Quando muitos curtem ou comentam as pessoas gostam, tornando-se um ciclo virtuoso.

8-    Pessoas que se incomodam com as boas noticias e o sucesso de outros, ou que estejam ou sejam insatisfeitas com a própria vida, não gostam dessas páginas que, certamente, lhe causam mais mau humor.

9-    Os mal humorados são frequentemente eliminados, bloqueados da lista de amigos. Isso comprova que a grande maioria está nas redes sociais por prazer e não gostam de atitudes negativas.

10- Não há felicidade virtual que não esteja fundamentada em uma vida igualmente positiva.

11- A autoestima se fortalece naqueles que cultivam fortes laços de amizade fora da rede. A exposição à coisas/comentários positivos postados na rede os faz sentir socialmente conectados de forma positiva a bons amigos.

12- Assim, concluem as pesquisas: É bem saudável e antiestressante usar o Facebook. Mas...., contudo, tenha cuidado. Pergunte a si mesmo se você usa a mídia social porque quer ou porque você precisa? Se sentir que esse uso é compulsivo, que não é divertido, então... , é um sinal claro de compulsão doentia, semelhante a quem se vicia em bisbilhotar a vida alheia.

 

Essas foram as principais conclusões encontradas pelos pesquisadores de diferentes países e independentes entre si. São bem interessantes e concordo com todas, conforme resumo acima. Mas, acrescento: Por mais relaxante e prazeroso que seja navegar nessa rede use-a com moderação (plagiando a antipropaganda de bebidas alcoólicas) e, sobretudo, selecione bem os assuntos serem postados ou comentados. Eles revelam mais sobre você do que a quem supostamente seriam endereçados.

Particularmente gosto muito da rede, pois é uma ferramenta que proporciona oportunidade sem igual para fazer novas amizades e o reatamento de contatos com amigos de infância, do colégio, faculdade, vizinhos ou simples conhecidos de longa data e com os quais nunca mais tivemos chance de encontrar. Muitos desses antigos nem usam a rede, mas seus familiares, mais jovens, sempre estão atentos e nos trazem mensagens relatando a alegria do contato. Prazer sem igual.

Em um ano de acesso regular à rede FB pude vivenciar e constatar a comprovação das conclusões acima enumeradas. Além de encontrar explicações comprovadas para os próprios sentimentos de prazer e satisfação ficou mais fácil entender e apoiar algumas manifestações de repúdio a alguns comportamentos hostis com consequente exclusão do “amigo”. Felizmente são raros esses comportamentos inadequados, predominando as boas notícias e comentários de estímulo reforçando as relações agradáveis construídas fora da rede ou nela própria.

 

Bom proveito, nesta rede de amigos.

 

Brasília, 13 de junho de 2013

 

Paulo das Lavras
 
 
 

terça-feira, 11 de junho de 2013

Existe solidão?

 
Crônica para o Dia dos Namorados - 2013

           Não existe solidão quando você tem um amor na vida. Se você tem uma família, um lar, não importa aonde quer que você esteja, pois não estará só. A bordo de um jato transcontinental ou num lugar a 10 mil quilômetros de distância? Não importa! Palavra de quem já percorreu meio mundo em jornadas de certa duração. Se fizer tudo direito se sentirá bem em qualquer lugar do mundo, em Nova York, Paris ou mesmo nos confins das aldeias indígenas nas nascentes do Rio Amazonas nas selvas do Peru e Equador, pois tem a certeza de que sempre poderá retornar para casa e ali encontrar os que lhe são queridos, seu refúgio, sua fortaleza.

Assim você poderá ir longe na vida, muito além do horizonte, batalhar, conquistar seu espaço, mesmo que em algum desses lugares o céu não brilhe tanto para você e pareça escuro. Mas, diz a sabedoria que às vezes a ausência de luz é necessária para que a valorizemos. É na escuridão, no vazio do pensamento, que residem as melhores reflexões que nos conduzem à valorização do amor, das amizades às pessoas, com a certeza de que nunca estamos sós. Embora distantes, sabemos que podemos voltar para a casa, a família, os amigos que nos esperam e acolhem, sempre. E sempre podemos voltar de onde quer que estejamos, para junto dos entes queridos que, embora ausentes fisicamente, estão permanentemente conosco em nossos corações. Não há solidão quando se tem família e amigos. E família começa no namoro. Feliz Dia dos Namorados para todos.

Brasília, 12 de junho de 2013

Paulo das Lavras
 
                                                     Namorados recém casados em lua de mel
 

 

 

 

 

 

sábado, 13 de abril de 2013


O   vovô vai morrer?

(Série “Criança  tem cada uma”- Pedro Henrique)
 

Pedro Henrique é um netinho para lá de peralta. Ativo, arguto e perspicaz como ninguém de sua idade. Com pouco mais de um ano e mal sabendo falar já surpreendia a todos com suas traquinagens e depois com perguntas embaraçosas. A propósito de filhos, netos e o prazer que eles nos proporcionam, li numa crônica chamada “O preço de um filho” que o custo financeiro estaria estimado em algo no valor de 300 mil reais, ou 150 mil dólares, incluindo todos os cuidados desde o nascimento até a conclusão da faculdade. O cronista destacou que, embora os custos fossem altos, as recompensas superavam muito além do que se supunha imaginar. Listavam-se o sorriso da criança, a alegria das descobertas, as brincadeiras de esconde-esconde, os primeiros garranchos e várias outras. Realmente, posso afirmar pelo que me foi dado em recompensa em curto espaço de tempo, criança não tem preço. Tudo que se investe nela tem retorno imediato.

A primeira peça que Pedro Henrique pregou no vovô foi a estratégia para conseguir a caneta que ficava sempre no bolso da camisa. Gostava de “dee...enhar” rabiscando folhas retiradas da bandeja da impressora localizada no escritório. As folhas eram fáceis de conseguir, mas a caneta à vezes era dificultada. Assim, um dia ao chegar do trabalho e antes mesmo de colocar a pasta sobre a mesa, surge correndo o pirralhinho de um e meio aninhos e grita balbuciando: vovô... “dee..eenhá”...., vovô... “de..eenhá”...., e ato contínuo aponta para o bolso da camisa onde está a caneta. Nesse instante a mamãe intervém dizendo: não..., primeiro tome a benção do vovô, ao que ele responde rapidamente, Não!... e repete o pedido: vovô... de..eenhá...., vovô... de...eenhá... . O vovô entra no coro da mamãe e repete a ordem, mas o petiz demonstra sua contrariedade e corre para o sofá onde mergulha a cara e faz gestos de desgosto e frustração pelo cerceamento de sua vontade. Ele volta à presença do vovô e repete o pedido e todos os presentes, aí incluindo a vovó e a tia além dos protagonistas, fazem coro e repetem a ordem inicial numa última tentativa de educar o menino.

           Pedrinho, aparentemente, desiste afastando-se para os fundos da sala. Mas, em seguida dá meia volta, corre para o vovô e com a carinha mais angelical, implorativa, dengoso, diz: Vovô... colinho... , colinho, vovô... . O vovô saca logo a jogada... com certeza seria apenas um jogo de cena do pequaeno que já revelava toda sua inteligência e argúcia para ludibriar e vencer seus opositores. Sim, era isso mesmo. Imaginei que o estratagema seria que, ao ser içado ao colo, a caneta ficaria ao seu alcance. Pisquei para os demais e custei a conter o riso de tão inusitada situação para uma criança daquela idade. Incrível o seu desenvolvimento mental, pois ainda mal pronuncia as primeiras palavras. Mas, como resistir àquela situação?  Não restava alternativa senão esquecer as ordens anteriores e dar a vez ao comandante do momento que pulou para o colo e antes mesmo de se aboletar, rapidamente alcançou a almejada caneta no bolso da camisa. Todos caímos na gargalhada diante da esperteza e senso estratégico. Vitorioso, mostrou seu largo e angelical sorriso, conferiu o troféu e, pasmem... constatou que a caneta não serviria ao seu objetivo/meta - desenhar, porque a ponta estava recolhida. Mas, não se logrou e completou: Vovô... abre, abre..., dee..enhá, dee.. enhá.... . Que coisa mais linda o universo infantil, a sua inocência, o seu desenvolvimento físico e mental e sobretudo o amor que irradia e contagia a todos. É algo divino, maravilhoso... uma dádiva de Deus e que nós os adultos temos a responsabilidade total de conduzi-los.

A crônica sobre o custo de um filho está mesmo recheada de sabedoria. Nada importa, sejam os custos financeiros ou as noites mal dormidas. Nada, nada mesmo, se compara às recompensas que recebemos dessas criaturinhas, filhos, netos, sobrinhos ou simplesmente “crianças”. Que Deus continue as abençoando e nos recompense dessa maneira, a maior dádiva do mundo: receber o amor das crianças. Deve ser por isso que Deus nos despoja, depois de certo tempo, das ambições menores justamente para sobrar lugar e energia para nos dedicarmos a esses anjinhos que caíram do céu para alegrar e completar nossas vidas.

                                                  xxx
 

(crônica escrita em 12/05/2010, dia em que Pedro Henrique completava um ano e meio de vida. Vovô, corujando a bordo de um Airbus A-320, cruzando a linha do equador na rota Macapá/Belém/Brasília)

 

 Episódio 2 – Por favor, bicho....

            Era véspera de Natal de 2010. Pedro Henrique com dois anos de vida, falante como ele só, brincava no tapete da sala, próximo à árvore de Natal toda enfeitada e iluminada. De repente ele apanha alguma coisa estranha no chão e põe na boca. Logo a vó gritou: Pedro Henrique, o que foi que você pôs na boca? Cara desconfiada, boca fechada imóvel, olhava para a vó e nada dizia. Esta, mais do que depressa, disse: Isto que você pôs na boca é um bicho (inseto) e ele vai comer sua língua. O menino pensou, pensou, arregalou os olhos, assustado cuspiu fora o objeto e disse; “Bicho, por favor, não come a minha língua, não”.

 
Episódio 3 – O medo da castração...

 Com apenas três anos e meio, Pedro Henrique contou, na sala, a seguinte história:

“Vó, você sabe que o médico cortou a coxa da minha mãe e me tirou da barriga dela? Eu chorei muito porque fiquei com medo do médico se distrair e cortar o meu bibiu”.

          Todos acharam muita graça, mas contivemos as gargalhadas e procuramos salvar a situação dizendo que ninguém pode cortar o bibiu de ninguém.  Na verdade a mãe depois explicou que ele tinha visto alguns dias antes o vídeo de seu parto, cesariana. Naturalmente a filmagem mostrava, de perfil, parte da coxa e o bebê sendo retirado com o cordão umbilical que foi cortado em seguida, deixando aparecer algum vestígio de sangue. Logo em seguida aparece a cena em que ele dá o primeiro choro e certamente ele confundiu cordão “bilical” com bibiu..., aí sim, longe dele caímos na gargalhada e ficamos admirados com o seu vocabulário, especialmente o uso coerente do verbo “distrair”. Criança tem cada uma...

 
Episódio 4 – Pelados no céu...

          Na noite de Natal de 2012 estávamos reunidos na sala e o noticiário da TV mostrava cenas do velório de Dona Canô, na Bahia. Após longa reportagem sobre sua vida, filhos famosos e a morte propriamente dita, o netinho Pedro Henrique, então com quatro anos de idade, pergunta:

“Mamãe, as pessoas quando morrem vão peladas para o céu”?

           A mãe, um tanto surpresa respondeu: “não sei, filho. Só sei que quando você veio do céu, você veio pelado”.

         Nada mais se disse e todos contiveram o riso..., além, lógico, da surpresa geral e o encantamento com as ideias do menino.

 

Episódio 5 – O vovô vai morrer agora, mamãe?....

 O menino das Lavras é apaixonado por aviões desde a infância. Frequentava o campo de aviação de sua cidade para ver os “enormes” DC-3 que ali pousavam depois de passarem por sobre sua casa a 2 km da cabeceira da pista. Praticava aeromodelismo na juventude e mais tarde os voos em ultraleves, apreciando também as aeronaves de suas quase três mil viagens. Ainda hoje, vovô sessentão, cultiva o gosto pelas máquinas voadoras. Foi assim que presenteou o netinho com um aeromodelo de helicóptero, pilotado por controle remoto. É a paixão de Pedro Henrique, de quatro anos de idade, que faz questão de colocar uma almofada retangular no centro da área de pilotagem, representando um heliporto, para ver a destreza do piloto em acertar a aterrisagem no ponto que ele determina. A cada erro desastrado na aterrisagem ou então sucesso, uma reação diferente, porém carregada de emoção. Outra alegria é colocar o helicóptero em sua palma da mão e com o braço esticado, assistir e sentir a decolagem com os motores e hélices rugindo a toda carga, elevando-se aos céus como um pássaro que alça voo apressadamente. É notável a reação de prazer e excitação na face e gestos do menino de cabelos esvoaçantes ao vento das pás girando em alta velocidade. É uma alegria que se repete a cada vez que vai à casa ou à chácara do vovô. Para isso há dois aeromodelos à sua disposição, um em sua casa e outro na do vovô coruja que faz questão de ainda praticar o esporte. Agora com prazer redobrado, pois há os aprendizes que adoram as manobras radicais e até os “acidentes” eventuais como aquele da perda de controle, levado por uma forte rajada de vento, ultrapassando os limites da chácara e caindo na propriedade vizinha, com difícil resgate do helicóptero sobre uma árvore que amorteceu sua queda e não o danificou. Adrenalina pura para as crianças...

 Na escola Pedro Henrique tem dois dias em que não há atividades integrais, sendo dispensado ao meio dia. Às vezes o vovô vai buscá-lo para passar a tarde na casa da vovó. Nesse dia o nível de adrenalina começa cedo, quando pergunta à mãe quem vai busca-lo no colégio. Ao saber que será o vovô a exultação é tamanha que começa a propalar aos quatro ventos a novidade. O primeiro a saber é o porteiro do prédio, depois o recepcionista da escola e nesta, desde a professora a todos os coleguinhas ele anuncia        “hoje o vovô vem me buscar...”.

 São dois episódios que servem para mostrar o quão é prazeroso lidar com as crianças. Elas têm um amor puro e quanto mais fazemos em prol delas mais elas se apegam a nós. Assim, após esse preâmbulo, ficará mais fácil entender e compreender o caso a seguir e que dá título a esse episódio.

 Levei Pedro Henrique e seus pais ao aeroporto para uma viagem de férias de uma semana em Natal-RN, logo nos primeiros dias de abril de 2013. Ainda brinquei que queria ir com ele, dentro da mala, no porão do avião. Ele achou que não seria uma boa ideia, pois não caberia ali, além do que me sufocaria e sugeriu que deveríamos ir para a Costa do Sauipe, na Bahia, depois que ele voltasse de Natal. Despedimo-nos e lá se foi ele, não sem antes ouvir a minha recomendação para visitar e fotografar a cabine do piloto do Airbus grandão. Como eu não estava me sentindo bem os deixei rapidamente no setor apropriado e retornei logo, sem fotografa-lo ou esperar o embarque. Pouco depois estava eu no hospital “curtindo” dores abdominais intensas nunca antes experimentadas. Tomografias, exames... e lá estava o diagnóstico: colecistite ou traduzindo, pedra na vesícula, com recomendação de cirurgia. Triste e apreensivo ali naquele túnel com os motores disparando barulho de metralhadora mapeando os órgãos, passava pela cabeça um filme tenebroso. O que seria essa dor aguda? Verei os netos e brincarei com eles ainda? Sim, com certeza, nada que uma cirurgia minimamente invasiva não possa resolver, mas... adeus picanha, vinhos e queijos especiais, gouda, vermeer e outras delicias holandesas...

Pois bem, a noticia da suposta gravidade do caso chegou ao conhecimento de Pedro Henrique na distante cidade de Natal. À noite recebi um telefonema. Mal atendi a ligação ouvi: deixa “eu” falar com o vovô, mamãe. Ato contínuo disparou: “vovô, você está muito mal?”. Tranquilizei-o, mas ainda assim emendou: E o buraco nas suas costas sarou? Isto em alusão à enorme cicatriz decorrente de cirurgia a que fui submetido aos dois anos de idade e que levou pedaços de duas costelas. No seu imaginário o meu “mal” seria decorrente disso. Expliquei a ele que o buraco já sarou há muito tempo. Mas ele já (se) fechou? Perguntou ele. Expliquei que ele não fecharia mais do que aquilo que ele já tinha visto antes. Tranquilizou-se. Depois sua mãe contou-me que durante todo o dia ele se preocupara e perguntou-lhe:

“O vovô vai morrer agora, mamãe?... e quem vai pilotar helicóptero comigo?... e quem vai me buscar quando não tiver dia integral na escolinha?...”.

  Amor de criança é infinitamente maior do que aquele que lhe dedicamos. A crônica de autor desconhecido está inteiramente certa. As recompensas que elas nos proporcionam ultrapassam muito além do esperado. Para mim isto não tem preço, pois Deus é sábio, colocou essas maravilhas em nossas mãos para nossa felicidade. Sempre! Nossa responsabilidade fica maior ainda depois de uma declaração dessa. Resta-me busca-lo no aeroporto, em seu retorno neste domingo.

 
Brasília, 14 de abril de 2013

Paulo das Lavras


 
                                              Bicho, por favor, não come a minha língua, não!

                                         Vovô, fiquei com medo do médico se distrair e cortar o bibiu

                                            Mamãe, a gente vai pelado para o céu quando morre?

                                                      Apaixonado por aviões

sábado, 6 de abril de 2013

Longínquo e inesquecível Sete de Setembro em um Colégio de Lavras
 
Pe. Raimundo desfilando com os meninos em 7 de Setembro de 1957


 

O menino das Lavras adorava os desfiles do Dia da Pátria. Acostumado desde cedo a ouvir os acordes do Hino Nacional e os toques protocolares dos militares do 8º Batalhão de Infantaria, alimentava o sonho de um dia também desfilar. Nos ensaios da tropa, com banda militar, a desfilar pelas ruas vizinhas, lá estava com sua turma a marchar logo atrás dos garbosos soldados. Não perdia os desfiles solenes de Sete de Setembro admirando os militares e os meninos dos dois únicos colégios existentes na cidade – o Gammon e o Aparecida, impecavelmente uniformizados com calça (comprida...!) azul marinho e camisetas brancas. A empolgação era grande ao ver a ordem unida da tropa do Tiro de Guerra 0264, unidade do Exército na cidade. O tintilar dos fuzis nas manobras dos atiradores e o barulho característico das coronhas batendo, simultaneamente no paralelepípedo ao comando de “descansar arma” fazia o menino vibrar com o estrondo metálico que ressonava longe.

Seu sonho se realizou ao completar 12 anos. Concluiu o curso primário e matriculou-se no curso compacto, de férias, do Curso de Admissão ao Ginásio, do Colégio N.S. Aparecida. Em março de 1957 já estava cursando a primeira série de curso ginasial e em breve realizaria seu sonho de infância: desfilar com uniforme do colégio no Sete de Setembro. Para isso muito contribuiu um dos dirigentes e professor do colégio, o querido e admirado pela sua simpatia, Padre Raimundo Weilherman. Além de suas boas e atrativas aulas de religião em que nos ensinava as passagens bíblicas como ninguém, ele gostava de nos levar – os novatos - para ensaiar o desfile. Era uma alegria constante, sermos dispensados da última hora de aula para, capitaneados pela fanfarra e acompanhados por ele, ensaiar o desfile cívico. Incansável e sempre com um sorriso, lá estava ele a nos ensinar o compasso da marcha com seu refrão: esquerdo... direito... esquerdo...direito e também como corrigir o passo errado, dando uma rápida quicada no calcanhar de modo a quebrar o descompasso. Era ele que nos incentiva a “marchar bonito” para brilhar em primeiro lugar no desfile. Na verdade a concorrência entre os colégios era apenas uma forma de se incentivar um melhor desfile, sobretudo entre as fanfarras concorrentes. Sempre achávamos que a nossa fanfarra era a melhor, pois não cansávamos de ouvir elogios aos seus integrantes, com destaques para os tarolistas que se desempenhavam com muita habilidade.

Tempos memoráveis aqueles e graças ao trabalho de garimpagem iconográfica de um amigo historiador e profundo pesquisador da história de nossa terra e nossa gente, o Prof. Renato Libeck, o menino pôde encontrar e recuperar preciosas fotos. A primeira foi justamente a do primeiro desfile, em Sete de Setembro de 1957, onde aparece ao lado, logo atrás do saudoso instrutor e incentivador Pe. Raimundo. O uniforme era o de gala, calça azul marinho e blusa de malha, branca, com o nome do colégio. A segunda foto recuperada foi a do último desfile, em 1963, quando estava no 3º ano do Curso Científico que corresponde ao último ano do curso de 2º grau atual. Nessa foto o menino das Lavras aparece ao lado de um fusca que conduzia a imagem da santa que empresta o nome ao colégio e o traje, mais aprimorado incluía camisa social e gravata e não o usual uniforme, imprimindo mais imponência e garbo no desfile.

Nessas reminiscências que passam pela tropa do Tiro de Guerra e pelo colégio, destaca-se um professor muito característico e querido pelos alunos, o Padre Luiz Tings. Com forte sotaque alemão, tinha certa dificuldade em dominar o nosso idioma e os meninos se aproveitavam disso para provoca-lo. Mas ele não se incomodava com isso e até achava graça quando era imitado. Porém, havia uma situação que o deixava extremamente irritado. Era quando, na primeira aula, às sete horas em ponto iniciava a chamada de presença dos alunos. Os alunos que frequentavam o serviço obrigatório militar, o Tiro de Guerra-TG, só chegavam meia hora depois, com autorização e portanto sem que lhes fossem registradas as faltas naquele primeiro horário. Quando algum deles, obviamente, não respondia à chamada, a turma inteira respondia em altos brados e batendo o pé com força no assoalho de tábua: “Tiro...Tiro”. O Pe Luiz olhava sério para turma e quando pensava que a disciplina havia sido imposta... surgia outro nome de alguém que estava no TG e a resposta e bate-pés, coletivamente, ecoavam novamente... Então o Pe Luiz, extremamente nervoso, com a face vermelha, arregalando os pequenos olhos azuis, gritava várias vezes “oh... vôs tem paciência..., vôs tem paciência”. Silencio total, mas era só ele baixar as vistas sobre a lista de chamada e os risos contidos escapavam furtivamente. Não raras vezes ele flagrava alguns rindo e eram expulsos da sala. Nesse dia ninguém mais se atrevia a gritar o refrão dos ausentes.

O sonho do menino, embalado pelos acordes das fanfarras militares e dos colégios, se realizou como desejado e repetiu-se por muitos anos. Porém, o que mais o  marcou foram as lições dos mestres que não se cansavam na contínua tarefa de moldar o caráter daqueles pequenos, transformando-os em verdadeiros cidadãos com amor à pátria, às ciências e às letras. A eles, os metres, devemos o que somos. Ainda hoje recordamos com  nostalgia aquelas lições de civismo e as repassamos aos filhos e netos. Levar os netos nessas solenidades comemorativas e de reverência à Pátria é um prazer redobrado. É como se revivêssemos aquelas lições ministradas com amor e carinho pelos nossos mestres. E o mais interessante, surpreendente mesmo, é que parece que o tempo não passou... ao olhar aquela antiga foto e hoje ao assistir a um desfile cívico ou show da Esquadrilha da Fumaça sente hoje, 56 anos depois, a mesma emoção, prazer e alegria do menino de 12 anos, o mesmo menino, aquele último da fila na foto do longínquo Sete de Setembro de 1957.

Brasília. 05 de abril de 2013

Paulo das Lavras
Sete de Setembro de 1963 - O menino, 2º da primeira fila
 
Fanfarra colegial e os taroleiros

                                         
                                                    Colégio Aparecida a esquerda  - década de 1950
                                      
Brasão do Colégio

                                                                                                              
Hasteamento da Bandeira - 7 Setembro 2012

                                                                                 
Banda Militar - 8º Batalhão,2012. A inspiração na infância

                                      
Tropa do Tiro de Guerra - 2012

                                    
O "sonho" dos meninos. Desfile de 7 de Setembro 2012