quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Um amigo em La Molina – Peru

 

 

 

            Era o dia três de setembro de 1988, embarquei no voo da antiga empresa aérea Cruzeiro do Sul, rumo a São Paulo, de onde prosseguiria para a cidade de Lima, capital do Peru, na costa do oceano Pacífico de águas mais frias que o nosso Atlântico. O widebody da Varig B-767, prefixo PP-VNP, novinho em folha voou 04:40hs de  Guarulhos até Lima. Tudo novo, o avião e o aeroporto de Guarulhos que fora inaugurado em 1985. Viagem tranquila, apenas ligeira turbulência ao cruzar a Cordilheira dos Andes, com seu cume coberto de neve, branquinha, reluzente. Linda paisagem, porém, de triste memória com a queda do avião uruguaio, que levava uma delegação de 45 atletas universitários para o Chile, em 1972, quando apenas 16 sobreviveram. Na sala de desembarque do aeroporto de Lima, chamado de Jorge Chaves, estava a nos esperar o nosso anfitrião, Reitor da Universidade Nacional Agrária La Molina.

            Agora, 36 anos depois, mais precisamente na noite de ontem, o amigo Antônio Carlos Albério, de Belém/PA, ex-reitor da Universidade Federal da Amazônia- UFRA e ex-presidente do Crea-PA nos chamou para lembrar nossa visita conjunta à La Molina/Peru, naquela data e acrescentou: o nosso anfitrião acaba de nos deixar, o ex-reitor e ex-Presidente do Peru, Alberto Fujimori. Participávamos de um encontro Latino-americano de Educação Agrícola Superior, que reunia todas as escolas de agronomia da América Latina, do México à Argentina. O amigo Albério representava as Escolas do Brasil, na qualidade de presidente da ABEAS- Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior. Convidado especial, representávamos o Ministério da Educação, como diretor de Ensino Agrícola Superior.

            Naquele ano de 1988 o reitor Alberto Fujimori nem imaginava ou tinha planos de ocupar a Presidência da República do Peru logo a seguir, menos de dois anos depois, em 1990. Nem ele, nem ninguém comentou algo a respeito naquele mês de setembro de 1988. Tudo que sabíamos era que se tratava de um competente educador, reitor e coordenador do Fórum das Universidades Peruanas. Na política, dois anos depois, foi um candidato extemporâneo, de fora do círculo político-partidário.  Pois bem, foi o azarão de 1990 e se elegeu, derrotando ninguém menos que o famoso escritor Vargas Llosa. Coincidentemente o mesmo ocorreu aqui no Brasil, surgiu “o salvador da pátria, caçador de marajás, Collor de Melo”, também eleito no mesmo ano de 1990. Aqui deu tudo errado e sabemos o que aconteceu na política. No Peru, Fujimori foi  uma figura controversa na política, pois no início de seu mandato, fez uma gestão considerada positiva, com o controle da hiperinflação e redução dos índices de criminalidade e até capturou o líder do grupo terrorista Sendero Luminoso. Porém, dois anos depois de eleito, dissolveu o Congresso e passou a  interferir no Judiciário, mas teve que renunciar anos depois.

Política à parte, o reitor de então (1985/89), da Universidade Nacional Agrária de La Molina, tinha interesse em ampliar a cooperação universitária com o Brasil. Aqui esteve e o recebemos no MEC. Sabia dos laços educacionais que ligaram sua universidade à  criação do curso de Engenharia Agrícola no Brasil,  em 1973 na UFPel. O  Prof. Axel Durrogeany, de La Molina, esteve aqui em 1972, sob o patrocínio o IICA e da FAO,  assessorando a UFPel  na criação e implantação daquele curso, o primeiro no Brasil. Assim, quando nos convidou para a reunião latino-americana tinha o propósito de estender esses laços educacionais. O reitor Alberto Fujimori foi informado, quando aqui esteve, sobre a grande contribuição que sua universidade prestou ao Brasil na área da formação em Engenharia Agrícola. Testemunhamos isto e juntamente com o Prof. Jair Vieira, ex-reitor da UFLA, elaboramos o projeto desse curso, finalmente aprovado pelo MEC e implantado em Lavras no ano de 1975 e o modelo da Universidade de La Molina foi importante para nosso projeto em Lavras. Diante desses antecedentes, tratou-nos com toda a cortesia e distinção, dispensando-nos atenção integral durante uma semana naquele país. Além das visitas ao campus e a diversos departamentos acadêmicos, levou-nos a conhecer o Museu do Ouro e os principais monumentos históricos como a Plaza Mayor, onde se situam o Palácio do Governo e o comércio de artesanatos, rico em produtos típicos da região andina e outros locais. Interessante foi conhecer o Zoológico da cidade de Lima. Lá tivemos contato, pela primeira vez com a lhama, animal de carga e que produz lã, essencial no gelado frio andino. Me lembro ainda hoje de suas palavras de alerta “atención, no te acerques, te escupen...”  , não se aproxime, elas cospem em você. Poucos sabem, disso, que as lhamas se aproximam e lhe cospem, direto no rosto. Péssima surpresa! Tiramos foto, mas de longe daqueles bichos mal-educados... Mas, depois na feira de artesanatos compramos uma linda blusa de frio, de lã de lhama ou alpaca...

O prof. Alberto Fujimori nos brindou com especial gesto de acolhida, a mim e ao Prof. Albério, convidando-nos para um jantar, com toda sua família, na residência situada no elegante bairro de Myraflores, a janela para o Pacífico. Lá estavam a esposa e os quatro filhos, incluindo a primogênita, Keiko Fujimori que, mais tarde também ingressou na política, seguindo a carreira do pai que, dois anos depois de nossa visita,  governou o Peru até o ano de 2.000. Depois dessa visita, não mais nos encontramos, mas trocávamos mensagens de cunho profissional, até o encerramento de seu mandato de reitor, ocorrido em 1989.  Em 1990 entrou para a política, elegendo-se presidente do Peru e partir de então nunca mais nos falamos. Agora, o Prof. Albério nos informa de seu passamento e relembra-nos daquela viagem de uma semana no Peru e em especial da acolhida  que tivemos por toda sua família.

Boas lembranças. Descanse em paz!

 

Brasília,12/09/2024

 

Paulo das Lavras 


 
Alberto Fujimori – 1988 
Foto: El Comercio 


 
Bairro Myraflores – a janela para o Pacífico – Lima, Peru 
Foto - Royal caribbean 


Família Fujimori - ano 1988
Foto- El Comercio  


Conhecendo as Lhamas, em Lima/Peru. Bem distante, por conta da cusparada do animal
Foto do autor - 1988


Um agasalho típico dos Andes peruanos. Estampas e pinturas 
de artistas locais valorizam as lhamas, no transporte de carga e produção 
de lã e couro para agasalhos nas frias regiões montanhosas da cordilheira andina. 
As pinturas ao fundo retratam pequenos vilarejos peruanos e a utilização 
 das lhamas com meio de transporte de cargas. 
Foto do autor – 2019 


Visitando o Centro Histórico de Lima  e o Palácio de Governo 
Foto do autor 1988 




 
O amigo Antônio Carlos Albério, o primeiro à esquerda, em foto de 2012 
 na Câmara dos Deputados, Brasília, DF. Companheiro de trabalho, há 50 anos, 
em prol da Educação Agrícola Superior 
Foto do autor

 



 





 



 


sábado, 10 de agosto de 2024

Muito choro em Paris

 


Há vida além do trabalho...!


 
Foto: Reprodução/Globo 


Choro em Paris? Como assim, na Cidade Luz, que só irradia alegria? Até tu, Brutus? Perguntou-me, em tom de blague, um colega que gosta de provocar. Sim, também eu, por que não? Este menino, então jovem executivo internacional, também passou por crises de profunda angústia, estresse, choro e quase depressão, ali mesmo em Paris, sozinho, depois de longas semanas a fio com elevada carga de trabalho e responsabilidades. Abriu a janela do quarto de hotel, no centro de Paris, na esperança de respirar um ar puro e tomar fôlego, com seus batimentos cardíacos a quase mil por minuto. Tomou uma lufada de vento gelado de -5ºC. (sim, menos cinco graus) e caiu ao chão quase inconsciente. Era o  ano de 1986, mês de dezembro, inverno rigoroso.

Agora, quase quatro décadas depois, ali na sala de TV de sua casa, confortavelmente fazendo a sesta e assistindo aos Jogos Olímpicos de Paris, o menino se deparou com o repórter apontando ao vivo para  a imagem da foto que abre a crônica, dizendo: “Bia de Souza acaba de ganhar a primeira medalha de ouro do Brasil, nas Olimpíadas de Paris 2024. ... Ela fez o Brasil inteiro chorar”!  E fez mesmo!  Atleta machucado ou simplesmente derrotado dói em todas as torcidas. A contrário, a vitória e a medalha conquistada alegram a alma e aumentam os vínculos com a Pátria. Pura emoção e para aumentá-la, seguiu-se o Hino Nacional cantado por Bia, aos prantos. Cena emocionante que  tocou fundo nossa alma e não houve quem não desabasse em pranto. A foto mostra Bia de Souza  chorando de alegria pela conquista da medalha de ouro nas Olimpíadas de Paris 2024.  Orgulho por representar o Brasil. Chorou copiosamente ao som e ao cantar o Hino Nacional. Mais, ainda, quando o repórter lhe mostrou a família ao vivo, no celular. Pura emoção, alma pura, sentimento puro, dívida paga a quem tanto lhe incentivara no esporte, sua querida e saudosa avó. Ali, diante da TV, estava um desses chorões. Menino choroso, desse quando foi interno, muito longe de casa, penando diariamente o gosto da saudade, a falta dos entes queridos durante um ano inteiro. Sabia como ninguém o porquê daquele choro incontrolável da atleta Bia, longe de casa, dos entes queridos. Lembrou-se até das inúmeras vezes que pedia aos motoristas para passarem em frente às embaixadas brasileiras em Washington, Paris ou outras capitais estrangeiras para, simplesmente, contemplar aquele idolatrado pavilhão verde-amarelo, não sem ali também deixar escapar lágrimas de saudade e amor à distante Pátria. Ah..., que banzo danado, doía no peito, entalado, disfarçando as lágrimas diante do motorista estranho que nada havia entendido sobre aquele estranho pedido.

 A atleta campeã, Bia, cumpriu as palavras do repórter que, certamente também estava tomado pela vontade de chorar, quando disse que ela fez o Brasil inteiro chorar! Pura verdade, acertou em cheio, pois aqui o menino estava muito orgulhoso e choroso, pela conquista daquela guerreira que, afetuosamente dedicou sua vitória à avó ausente, recentemente falecida e que tanto a incentivara. Pura emoção,  que tomou de surpresa a todos os brasileiros, diante das lágrimas da vencedora que sentiu no peito o amor à Pátria e aos entes queridos, distantes, mas ali presentes em sua memória. Quanta alegria pela missão cumprida, vitória suada, inédita ... Ah..., mas, mas havia um porém...,  para que me serve essa vitória? Onde estão os entes queridos os amigos, o braço afetuoso..., a Pátria? Ah... saudade danada. Aliás nem é saudade, é o puro amor que fica e esta é a definição mais acertada que já li sobre essa vilã, a saudade que sempre nos ataca... Traiçoeira, quase sempre seus ataques nos pegam sozinhos, vulneráveis e nesses casos, não é demérito algum derramar lágrimas que lavam a alma. Foi assim que um dia também caí ao chão, literalmente, desabei em Paris.

Sorte da Bia, pois ali estava um repórter, conterrâneo a falar-lhe em português, seu idioma natal, pois quando se está muito longe de casa, até o fato de não se falar seu próprio idioma, contribui para a angústia e depressão. É incrível e pouca gente sabe disso, o idioma nativo soa doce ao coração, quase maternal, e é nele, no idioma nativo,  que mesmo estando em outro país, ainda que por muito tempo, a gente se expressa em xingamentos (impropérios silenciosos, lógico... rsrs), exclamações e nos sonhos oníricos, eles todos brotam no idioma nativo.  E o repórter lhe falava palavras de incentivo, elogiando sua vitória. Mas, bastou mostrar-lhe a imagem, ao vivo, de seus familiares, falando em vídeo chamada, para que ela desabasse em choro compulsivo, num misto de alegria e sentimento de falta dos abraços daqueles que mais conheciam seu amor, garra e respeito. Aqueles que lhe apoiaram a vida inteira. Foi quando, em lagrimas, disse “mãe, essa vitória foi pela vó”. Esta foi quem mais lhe incentivou e a apoiou até a poucos meses atrás, quando então partiu para a Glória do Senhor. A vó partiu para sempre, mas estava ali, em Paris, no pódio da vitória, com medalha de ouro, em gratidão na alma, no coração de Bia. Haja coração!  O repórter estava certo..., ela fez o Brasil inteiro chorar e aposto que ao encerrar a entrevista e fora do ar, lógico, ele também foi chorar de emoção.

Mais choro em Paris

É verdade, houve muito choro em Paris, na alegria e na tristeza. Um ou dois dias antes assistimos cena idêntica. A atleta Mayara chorou sua derrota que surpreendeu a todos. Da mesma forma que sua colega Bia, teve a sorte de encontrar um repórter já conhecido e que fizera várias entrevistas com ela. Conhecia sua trajetória de luta no esporte e por isso dirigiu-lhe palavras de incentivo e conforto para a alma dolorida. A atleta desabou em gratidão às palavras certas, na hora certa e no seu idioma, que lhe soava doce, familiar, querido. Desabafou que  as cobranças são muitas, não só do público, mas principalmente de si própria. Queremos sempre a vitória e o senso de responsabilidade é muito grande, exigimos o máximo de nós mesmos. "A cobrança interna é muito grande", completou Mayara e mais: - “Eu não queria chorar. Posso te dar um abraço?”, perguntou Mayra enquanto ouvia sobre a importância da sua trajetória para o judô brasileiro.

 
 Que cena mais linda! Só mesmo quem já chorou sob ataque de banzo, 
sob  estresse profundo e bem longe de casa, sabe enxergar a 
beleza desse gesto em que se pede um abraço. E ganhou-o. Alma aliviada! 
Foto: Reprodução TV Globo


O choro e lições de Tokio

Mas, não se chora apenas em Paris, a Cidade Luz. Tokio, em 2021, foi palco de outro famoso choro, da estrela mundial Simone Biles, campeã norte-americana em diversas modalidades na Olimpíada do Rio-2016. Alegou que a  pressão psicológica, com cobranças de desempenho, é muito grande, principalmente em meio à pandemia do coronavirus (julho de 2021). Acrescentou, ainda, que todos tinham a expectativa de vê-la brilhar, mas, tomou a decisão de abandonar os jogos, pois não estava se sentindo mentalmente bem e não queria prejudicar seus colegas ginastas, seu time, seu país. Havia e sempre haverá muita pressão externa e interna sobre os atletas, e esta, traduzida pela responsabilidade e ética. Nota 10 para a atleta que soube valorizar mais a Vida do que as expectativas do público. 

 Simone Biles, atleta norte-americana, campeã em várias modalidade em olímpiadas, especialmente em  2016 no Rio de Janeiro, não estrava bem emocionalmente nas Olimpiadas 2020 de Tokio, que foi disputada em julho de 2021. Pediu para sair, abandonando as competições, alegando estafa mental e que “há vida além da ginástica! 
Foto: Reuters


    O exemplo de Simone Biles é muito oportuno, até mesmo para explicar o tombo do menino após a lufada de ar gelado à janela do hotel em Paris, pois o que aconteceu com a atleta foi verdadeira estafa mental,  grave e poderia tê-la  levado a um acidente grave ou fatal. Já passei por problemas oriundos dessa loucura.  O estresse a que somos submetidos nos leva a superar limites e, às vezes, a não superá-los. Em entrevistas, logo após sua desistência de disputar as competições finais de 2021, a atleta Biles disse que “ Durante meu salto na final, eu não tinha nenhuma ideia de como caí em pé e se olharem as fotos e meus olhos, podem ver como estou confusa sobre onde estou no ar”.  E prosseguiu: Temos que proteger nossas mentes e corpos, não é apenas ir lá, competir e fazer o que o mundo quer que façamos. Nós não somos apenas atletas, no fim do dia nós somos pessoas, e às vezes temos que dar um passo atrás e eu deixei a competição, pois precisamos também nos  concentrar no bem-estar, há vida além da ginástica.  Não foi por causa de uma lesão física, mas sim por causa de minha saúde mental”. Ela confessou que era pesado demais suportar a carga de ser apontada como a maior estrela dos Jogos Olímpicos.

Quando essa angústia, verdadeiro pânico, se instala é difícil de desaparecer e o corpo não mais acompanha o cérebro, sobretudo quando este está confuso. Aliás, penso que seja o contrário, o corpo até sabe fazer os movimentos repetidos por muitas vezes durante os treinos, mas o cérebro confuso, não é capaz de acompanhar e podem acontecer acidentes perigosos ou até mesmo fatais. Foi por isso que ela se sentiu desnorteada, quando girou no ar e nem viu como caiu ao final do salto. Sua heroica decisão de abandonar a competição, seguida de declarações sobre a realidade psicológica dos atletas e ainda as repercussões na mídia, causaram mudanças nos parâmetros de avaliação da ginástica nos Estados Unidos que, então, passou a melhor observar as reações e o comportamento mental dos atletas.

Paris estressante? 

      Paris é estressante? Ora, não só essa  cidade-luz, mas qualquer outra onde você fique alguns dias, sozinho, especialmente no exterior, como Washington e San Francisco nos EUA onde também passei por momentos difíceis, estafantes. Por que o estresse, a angústia e quase estados depressivos ocorrem mais frequentemente no exterior? A grande distância de casa é fator preponderante, com a ausência de entes queridos,  lugares e comida totalmente diferentes, os costumes dos habitantes totalmente desconhecidos, idioma, tudo enfim é novidade e por isso exige mais atenção , conduzindo a possível esgotamento mental, dependendo da intensidade das exigências, sobretudo em assuntos profissionais que requerem decisões que impliquem compromissos de governo, o qual você represente.  Este foi o meu caso, jovem executivo internacional. Assim, Paris foi também muito estressante para o menino que caiu, literalmente, desabou ao abrir a janela, recebendo um golpe fulminante de ar gelado do rigoroso inverno parisiense. Havia passado por longas semanas com puxado ciclo de visitas às instituições de ensino e pesquisas agrícolas para identificar possíveis parceiros para as universidades brasileiras. Proferiu e assistiu palestras em francês, ora em inglês e espanhol em algumas ocasiões. É sabido que o cérebro quando se comunica em outro idioma exige atenção redobrada, tanto em compreensão/tradução quanto em velocidade de raciocínio. Não é simples lidar com isso. Imagine, você pensa em português e traduz para o inglês e se expressa, ou você pensa direto em inglês? Não, isto não é possível nos primeiros meses de contato com o idioma estrangeiro. E quando você se depara com vocábulos técnicos daquele idioma nunca vistos? Não entendeu o que foi falado? O que fazer, interrompe-se o palestrante ou deixa-o prosseguir... ? Mas, aí vem outro dilema, e se houver uma pergunta ou necessidade de sua resposta a  algo exatamente sobre aquela “coisa” incompreendida”?  Assim, o fator idioma já se constitui, por si, elemento causador de grande estresse e ansiedade. Para minimizar, ainda que muito pouco, quando o estrangeiro interlocutor era de outra nacionalidade que  não  francesa, visitante de outro país, eu pedia para falar em inglês e não em francês. Dupla vantagem para mim, pois além de eliminar a dificuldade de entender o capenga francês, carregado de sotaque alemão, indiano ou espanhol (Paris sempre foi cosmopolita), obrigava o interlocutor a falar em inglês, que não era seu idioma nativo, exigindo-lhe, naturalmente, mais esforço e lentidão nas palavras. Empate nas relações coloquiais! De qualquer forma tínhamos que dar plena atenção às palavras, pois na hora de se responder aos interlocutores, o não ou o sim, tínhamos que ser claros e evidentes, sem se enganar, pois não se podia dizer sim, quando na verdade teria que responder um não. Assim, os dias em Paris ou mesmo em Nancy, Montpellier, Dijon, Angers e Estrasburgo foram mais estressantes que relaxantes. Sobrecarga total de atividades profissionais e constantes corridas para aeroportos e estações de trem e metrô (e como se viaja de trem e metrô na França). A bem da verdade não posso deixar de dizer que em Estrasburgo houve uma parada relaxante a caminho da Alemanha, naquele histórico Expresso Oriente. Mas, até mesmo no trem, o cansaço mental era evidente, como pode-se ver nas fotos, pois trabalhou-se o dia todo e a viagem foi noturna.


No Expresso Oriente, de  Paris até Carlshue, na Alemanha, passando por Estrasburgo. Expressão de cansaço, seguindo-se momento de descontração em jantar, antes de se prosseguir para a Alemanha, com visitas a Hidelberg na mais antiga universidade do mundo e Rothenburg ob der Tauber, cidade medieval, cercada por muralhas.

 Também visitamos e percorremos o circuito de Hokenheim, onde Emerson Fitipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Sena e Rubens Barrichello  venceram corridas de Fórmula 1, bem no meio da Floresta Negra, grande e inesperada surpresa (aquela Floresta que povoou nossas mentes infantis, com os contos dos irmãos Grimm). 

          Foto, 1- à esquerda o diretor da ESAL/UFLA, Juventino de Souza. À direita o autor (então bigodudo) e sua                          assistente na França. O diretor da Faculdade de Agronomia da UFRGS, Aino Jaques, aparece de costas. Participantes das visitas técnicas 

      Foto 2 –restaurante em Estrasburgo, com nosso partner do Governo Francês, Daniel Reitzer (ao centro) - (julho de 1988) 


Saúde mental

Interessante notar que além do estresse profissional, mesmo que houvesse muitas novidades e locais atraentes, a ausência dos entes queridos e do ambiente habitual sempre provocava a inevitável e dolorida saudade. Rubem Alves, escritor, poeta, filósofo e professor questionador da arte de educar, nos ensina que “é a saudade que torna encantadas as pessoas”, pois a saudade faz crescer o desejo e quando o desejo cresce, preparam-se os abraços. Foi por meio da leitura de suas obras que pude compreender que as frequentes viagens, de mais de duzentos dias ao ano, provocavam aquela saudade quase que doentia e que nunca havia parado para pensar que essa saudade era exclusivamente fruto da constante ausência da família, amigos e lugares habituais. Não compreendia, ainda, que aquela saudade era o encanto do amor. Mas, aquela danada da saudade era mesmo terrível a ponto de nocautear o menino em duas ocasiões de longas e demoradas viagens, levando-o a crises de ansiedade e angústias que beiraram a depressão nas distantes terras dos E.U.A e da França, quando lá estava em missões de trabalho. Descobri, agora, bem mais tarde, que eu era mesmo um adulto que tinha crianças morando dentro de mim e tinha medo da solidão dos finais de semana, encerrados em hotéis, sem ninguém para conversar e muito menos em seu idioma pátrio. Nunca relaxava a alma. Ademais, depois de dias de intensa rotina, com 100% de atenção,  o cérebro parecia liquefeito, sem a mínima vontade de saír do hotel, sequer para almoço ou jantar. Campo fértil para a depressão, pois tudo ficou em casa, levava apenas os sonhos profissionais. Agora, ainda vem a atleta a nos relembrar aquelas angústias e afirmar que  “há vida além do trabalho”! Bela lição que deveríamos ter aprendido antes. Não teria deixado, por semanas,  a família, sobretudo os filhos, crianças de sete a 12 anos, de férias em hotéis ou casas alugadas, frequentemente nas praias de Guarapari, Búzios, Ubatuba e as vezes no nordeste ou Santa Catarina, anos e anos seguidos na mesma rotina. Férias? Para que férias? Deixava-os lá, depois de ficar um ou dois dias apenas, voltando imediatamente ao trabalho em Brasília. Ah... férias são apenas para eles, a família. Quando quiser e puder eu tiro férias..., mas o tempo passou.  O trabalho sempre foi prioridade jamais quebrada, cuja norma não leva em conta a necessidade de descanso anual para o equilíbrio da saúde mental.

Mas, há vida além do trabalho..., ensinou-nos a atleta Biles. Porém, esse não era o costume. Nossa cultura era diferente! Fomos educados e diplomados apenas para o trabalho. Que pena, um workaholic, cego para a vida, candidato ao estresse, ao colapso mental. Faltou estudar as teses de Rubem Alves ou ouvir os conselhos da atleta Biles, ou quem sabe daquele técnico que, recentemente, abraçou afetuosamente e disse palavras de conforto e incentivo à atleta brasileira em Paris. Pois é, enquanto eu voava sozinho mundo afora, a família criava raízes. E lá distante, nas minhas demoradas andanças pelo mundo, me transformava em Pássaro Encantado, como nas metáforas de Rubem Alves. Chegava em casa carregado de presentes, diferentes, atraentes, trazidos de longe, como as penas reluzentes do pássaro encantado e ainda aguentava as piadas de amigos e vizinhos: os presentes, em quantidade, são proporcionais ao peso da consciência e a saudade por tanto tempo longe de casa...

            Por duas vezes, em locais distintos. o “Pássaro Encantado”, viajante que voltava carregado de presentes desabou antes que levantasse voo de volta para casa. Foi derrubado por essa estranha força que nos causa estresse, angústia e medo, beirando à depressão que leva ao colapso mental, ainda que momentâneo. A primeira vez, nos Estados Unidos e outra justamente em Paris, como já mencionado. A queda ao chão, forrado por grosso e aveludado tapete no apartamento em hotel parisiense, foi num fim de semana, na manhã de domingo. Os fins de semana, sozinho, eram terríveis. O banzo atacava duro e inevitavelmente vinha aquela  pergunta inicial: o que estou fazendo aqui a 10.000 km, por tanto tempo e sozinho, longe de casa e dos entes queridos? Com esse gatilho disparado e durante dois dias inteiros encerrado no hotel (sábado e domingo)...., a conclusão mais evidente e imediata,  só servia para aumentar a angústia: sim, quem está em casa, sem viajar rotineiramente, cria raízes,  vínculos indeléveis com os filhos que poderiam ser levados e buscados na escola, ou  acompanhá-los no lazer ou até mesmo às visitas médicas que, durante algum tempo foi frequente, devido às crises de asma de uma das filhas. Para piorar a dor da saudade, algumas vezes, o simples comunicar que iria viajar já desencadeava crise asmática na pequenina de seus cinco ou seis anos de idade. Quando retornava... passava a crise. Essa mesma filhinha, ainda aos cinco anos, de tanto passar os sábados e domingos sem o pai, e ao ver suas amiguinhas saindo para passear com o pai, espontaneamente pediu: “mãe, vamos comprar um pai para nós no supermercado?” Ao chegar daquela demorada viagem de cinco semanas e ao saber disso fiquei profundamente chocado, consternado mesmo e valeu ao pássaro viajante um mês de gaiola. Mais uma vez a fábula do pássaro encantado provou ser verdadeira.

A queda em Paris, unhas do inconsciente

            Na Paris que nocauteou o menino estava totalmente diferente daquela de hoje, enfeitada para as Olimpíadas. Fazia um frio de rachar naquele domingo de dezembro de 1986. O menino acordou muito cedo com pesadelo e crise de verdadeiro torpor com taquicardia a mil,  suando, ofegante com a respiração entrecortada. Verdadeiro pânico, a 11 mil quilômetros de distância de casa, sozinho e... comment appeler quelqu´un?... Totalmente desorientado ao acordar, sufocado, sem saber em que cidade estava ou até mesmo o layout do quarto de dormir com as localizações de luzes, móveis e banheiro, fatores agravantes do estresse pós-trabalho em locais estranhos à sua rotina doméstica. Tudo contribuía, a agenda apertada, excesso de trabalho, ambiente estranho, comida diferente, idioma, costumes e por aí vai, num quadro perfeito com todas as pré-condições para a explosão do stress em forma de pesadelo e pânico. Não bastasse isto, restavam ainda o tempo nublado, gelado de menos cinco graus, que contribuía para agravar a situação, fator que aliás já foi comprovado pela ciência. Mas nem precisa de ciência para se lamentar a falta do clima quente e tudo verdejante de Brasília em comparação ao de Paris naquele aziago mês de dezembro, pois a produção da serotonina, o hormônio da alegria, é muito mais intensa por aqui. Assim dizia JK em suas memórias de exílio em Paris. Longe da pátria e sem ânimo nem mesmo para sair para almoçar, atacou o pânico no menino. Uma ansiedade sem igual com sentimentos de medo e solidão.

 Conheci, dessa forma e pela primeira vez, a depressão. Ali, na ironicamente chamada de Cidade Luz, a olhar pela janela aquele cenário sombrio, embaçado, de casario e prédios antigos Bateu o desespero no menino cujo pânico aumentava a cada instante e com os olhos marejados perguntava para si mesmo o que estava fazendo ali, por que teria que passar por aquilo? Assombrado, suplicou então a Deus, implorando para que aquele pesadelo ao vivo passasse logo e que a paz em seu espírito condoído voltasse à normalidade. Coração disparado, respiração curta e ofegante, suor, tontura, seria um ataque de coração? A boca seca, uma onda de calor pelo corpo, e num gesto desesperado abriu a janela do quarto, empoeirada de asfalto preto por fora. O dia já corria, beiravam às 11 horas da manhã e o frio cortante do inverno parisiense acoitou-lhe o rosto provocando um choque térmico que pareceu cotar-lhe de vez a respiração e a vida, provocando-lhe a perda momentânea da consciência. Desmaio iminente com a alma ferida, em verdadeiro desespero, pânico, agonia que se prolongara por mais de seis horas seguidas. Mas, num esforço físico extraordinário e derradeiro, já com os joelhos dobrados, sem forças e prestes a desabar de vez, lançou mão do telefone, ali na cabeceira da cama, bem à altura de seus olhos a menos de meio metro no grosso e macio carpete que revestia o piso. Não existia ainda a telefonia celular, onde bastaria um único toque na tecla programada e a ligação de emergência se completaria, mesmo à longa distância. Com muita dificuldade, vista turva e movimentos desarticulados, conseguiu ligar para a casa, juntando os lampejos de raciocínio que ainda afloravam e deu conta de discar o zero, outro zero,  o 5, outra vez 5, o 6 e o 1, completando-se os códigos do país e da cidade e depois os oitos dígitos do número de casa, cuja memória sabia de cor, pois tantas e tantas vezes o discara em busca de notícias da família, dali mesmo, daquele aparelho telefônico à cabeceira. Que alívio, do outro lado do Atlântico, ao primeiro toque, a voz da esposa que percebendo a situação recitou o Salmo 23:

“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará... Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo...”.

 

             Instantaneamente a respiração voltou ao normal, o coração se acalmou e a tranquilidade se  restabeleceu e dormi profundamente por mais de seis horas. Foi a maior lição de minha vida. O menino  compreendeu, por meio desse triste e sofrido episódio, que as unhas do inconsciente, ocultas como as dos felinos, podem aflorar repentinamente e nos levar ao colapso psicológico, ferir-nos gravemente e até provocar a morte. Percebeu que a loucura passou perto, ou em outras palavras, no jargão médico, foi um ataque de ansiedade ou de pânico, que é mais comum do que se imagina. É preciso equilibrar o trabalho com o aconchego da família e dos entes queridos, anotei em meu diário. E agora, revejo os acontecimentos em Paris, daqueles choros de extremo estresse das atletas brasileiras e principalmente a lição de Simone Biles:  Há vida além da ginástica, (do trabalho). Aprendi mais esta lição, pois a primeira eu já sabia, por conta própria: o melhor da viagem é a volta para casa!

 

            Paris estressante? Não! Lógico que não, pois, os choros são o escapes da alma em qualquer ocasião e lugar. A Cidade Luz nos proporciona muitas alegrias. Bia Souza , Rebeca Andrade que o digam com suas medalhas de ouro. E as vezes nem precisamos ganhar medalha de ouro por algum feito. Tal qual Simone Biles superou as dificuldades e num gesto de grandiosidade da alma , prestou reverencia à Rebeca, campeã do pódio de ouro. Assim também devemos ser, gratos a Deus por tudo que nos concede nesta Vida. 


 A foto que rodou mundo, Rebeca Andrade , campeã   de ginástica olímpica sendo reverenciada por Simone Biles, à esquerda e Jordan Chiles, à direita – Paris 2024 
Foto- Gabriel Boys /AFP


Um bom dia para todos e que venham novas vitórias das equipes brasileiras nas Olimpíadas de Paris!

 

Brasília, 10 de agosto de 2024 

                                                Paulo das Lavras



 O pássaro encantado chegou com as penas reluzentes (presentes e mimos para as crianças). No aeroporto de Brasília, as filhas ao encontro do pássaro que
havia fugido da gaiola (março de 1982) e permaneceu longas semanas à trabalho no Panamá, Guatemala, Costa Rica e  México. Parece que o chapéu fez mais sucesso que as bonecas e outros mimos já no porta-malas, a julgar pela disputa de quem o usaria durante a foto... rsrs  
                 Rubem Alves tinha razão. A saudade prepara o abraço da chegada, a alegria do reencontro, 
até mesmo na disputa para posar com o “chapéu diferente do meu pai”. Momentos inesquecíveis, ver  a ansiedade das crianças do lado de fora da sala de desembarque, o abraço apertado, demorado, os olhinhos nas bagagens para decifrar os presentes, as penas bonitas, coloridas e reluzentes do pássaro encantado  que viajou e voltou, conforme descreve a metáfora de Rubem Alves). Intermináveis perguntas sobre a viagem..., enfim, o pássaro viajante retornou para o ninho e cumpriu-se o encanto.  


 
 Alegria do “Pássaro Encantado”, em viagem de férias (raridade), numa loja da Dior, em Paris, 
todo feliz, adquirindo penas reluzentes (mimo) para agradar na chegada em casa. 
Paris oferece alegrias  até mesmo para quem não viajou até lá. Ao contrário do que se poderia imaginar pelo título da crônica, Paris - Cidade Luz, irradia alegria e muita cultura! 
Foto do autor – Paris, dezembro 2013


 



sábado, 27 de julho de 2024

Uma viagem inesquecível

https://contosdaslavras.blogspot.com/2024/07/uma-viagem-inesquecivel.html 

 
O belíssimo e majestoso prédio do Seminário de Itaúna, onde o menino passou o ano de1958. 
Que coisa mais linda, a arquitetura e o paisagismo caprichados e por isso, além do 
significado especial, afetivo, merece ser compartilhada a experiência desse 
encontro, depois de 66 anos. Haja coração! 
Foto do autor - 2013  (clique na foto para ampliar) 


         Viagens de avião são confortáveis e rápidas quando se tem que vencer longas distâncias. Foram mil e quinhentas idas e voltas em quarenta anos de atividades profissionais, totalizando mais de duas mil e quatrocentas horas a bordo de aeronaves de todos os tipos e tamanhos, cruzando continentes e mares, como passageiro que desfrutava de conforto e tempo para leituras e reflexões. A cada uma dessas viagens pode-se acrescentar, em média,  hora e meia de espera em aeroportos, alcançando-se a expressiva marca de quatro mil horas de tempo de voo e permanência em aeroportos. Isto equivale a 500 dias de oito horas de trabalho, ou quase dois anos inteiros de minha vida laboral. Pelos registros de voos (tenho todos registrados em um diário, incluindo o prefixo da aeronave e modelo) verifiquei que alguns aeroportos, além de minha base, Brasília, destacam-se pela maior frequência, como o de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte. Foram mais de quatrocentos pousos e decolagens na terra das montanhas alterosas, capital dos mineiros, incluindo um pouso noturno acidentado sob tempestade de chuva e ventos, que ocasionou a quebra do Boeing e derramamento de combustível no gramado onde ficou parcialmente enterrado. Felizmente todos se salvaram e tive apenas leves ferimentos e sem que houvesse a temida explosão de toneladas de querosene de aviação espalhado, verdadeira piscina na qual quase me afoguei.  Mas, essa predominância de pousos e decolagens ali, naquele aeroporto, não podia ser diferente, pois ´Minas é minha terra natal, de onde sempre partia nos primeiros anos de minha vida profissional e para onde frequentemente me dirigia.

Quatrocentos pousos e decolagens não chegam a ser um exagero, pois, como diretor de ensino superior do Ministério da Educação - MEC, sempre visitava as instituições federais de ensino. Nosso estado de Minas é pródigo em número de instituições federais de ensino superior, detendo o maior número em todo o país. São onze universidades: UFMG, UFJF, UFU, UFLA, UFV, UFTM, UFSJ, UFOP, UNIFEI, UFAL e UFVJM. Se contarmos os novos campi vinculados a cada uma das 11 universidades mineiras, recentemente espalhados pelo interior do estado e ainda os Institutos Federais de Educação, o número ultrapassa a 50 instituições de ensino superior, um recorde nacional.

Além dessa maratona de visitas oficiais às instituições de ensino, somam-se as visitas particulares à terra natal, daí a constante presença no aeroporto de Confins. Assim, aquele destino, de cenários montanhosos, lugares queridos que despertam intensa nostalgia na alma, era lugar comum, criando uma rotina que, ao final, nem despertava curiosidade, a não ser o prazer de ali chegar e encontrar lugares e pessoas queridas. Tornou-se rotina, pegar o avião e fazer escala em BH, local de minha primeira atividade profissional, onde me casei e, por isso, por diversas vezes dava um pulinho rápido, estilo bate e volta, até o sul de Minas para visitar a querida cidade natal – Lavras.

Mas, em meio às milhares de viagens já efetuadas,  o que tornaria uma delas especial, inesquecível? Nem sempre é o fator lugar nunca visitado, desconhecido ou ainda deslumbrante. Viagem especial é aquela sonhada, desejada e planejada para conhecer ou revisitar um local marcante em seu passado e que. de certa forma, o tenha influenciado a ponto de despertar interesse durante boa parte da vida, principalmente aquela incontida vontade de retornar e rever o local.  E nesses locais incluem-se pessoas. Gente que também deixou marcas em sua vida. Quase nunca as viagens de trabalho proporcionam esse prazer, salvo honrosas exceções. Viagens que nos deixam a impressão de “inesquecíveis” são aquelas que envolvem sentimentos caros que enfeitam nossa alma. Esta viagem planejada é assim, especial, um encontro de colegas ex-seminaristas que passaram pelo internato em Itaúna-MG, no período de 1954 a 1970. Planejada há seis meses, quando foi criado um grupo de discussões nas redes sociais, tudo foi pensado com antecedência. Mais de setenta colegas foram localizados. A maioria no estado de Minas Gerais e alguns poucos no Rio de Janeiro e São Paulo, lógico Brasília também com apenas dois ex-seminaristas, o Senador Izalci Lucas e este escriba. A partir de então, as discussões se prolongaram, atingindo , às vezes uma centena de mensagens ao dia com inúmeras fotos antigas e atuais. Muitos lá permaneceram por apenas um ano letivo, cerca de dez meses, mas o suficiente para levarem consigo as mais caras recordações.

Assim, planejar a viagem para rever o lugar e encontrar os ex-colegas foi um grande prazer. Há seis meses acendeu neste menino o interesse em realizar tal viagem. Planejar, comprar a passagem aérea, reservar hotel e demais preparativos dispararam o gatilho do inconsciente, trazendo de volta as mais doces reminiscências da juventude  passadas ali no internato em Itaúna. E eis que chegou o dia.... Mas, esta é uma longa história e será contada depois. Garanto que aquela tese, de que não devemos nunca voltar ao lugar onde fomos felizes, porque o TEMPO não está mais lá, não se aplica ao presente caso. Sabe por quê? Estamos também levando o tal “Tempo”. São os nossos ex-colegas que carregam toda sua história de vida e isto é o tal “Tempo”. Aliás, a propósito, estamos na estação do inverno,  de tempo frio, mas com certeza nossos corações serão aquecidos pelo calor humano, pois afinal, esperamos 66 anos para esse Encontro. Promete e volto em breve para contar.

Brasília, 19 de julho de 2024

Paulo das Lavras 

domingo, 30 de junho de 2024

Minha terra natal e o exílio dourado

 413.456 visualizações neste blog até 30/06/2024

      
 
A cidade de Lavras emoldurada pela belíssima Serra da Bocaina

Foto: Alejandro - arquivos do IHG de Lavras 




             Exílio dourado? Sim, só mesmo usando essa expressão metafórica para entender as razões de estar residindo tanto tempo longe, bem longe da terra natal. Um jornalista de minha terra, Eduardo Cicarelli,  diretor do Jornal de Lavras, ao ler uma de minhas crônicas sobre o internato no Seminário de Itaúna-MG,  provocou-me:

“... você tem o dom de prender os leitores quando narra uma história, uma dádiva de Deus a poucos que lidam com a escrita. Mais uma vez fiquei embevecido no seu texto. Agora queria te fazer uma pergunta: você nasceu em Lavras, cidade emoldurada pela serra da Bocaina; teve parte da vida vivida em Itaúna, cidade também emoldurada pelas montanhas de ferro e manganês, e em Belo Horizonte, pela serra do Curral. Pergunto:

.... como é morar em Brasília, onde os olhos só alcançam a vastidão do cerrado? Não te faz falta as ondulações que sempre tiveram presentes na sua vida?”

 

Obrigado, amigo, pelas gentis palavras. Muito me alegram suas considerações. Comentários dos leitores são a mola mestra, os alentos que nos impulsionam e incentivam a sempre escrever e compartilhar. Além de jornalista tarimbado você é um arguto e perspicaz observador. Você foi direto ao ponto:  as montanhas de Lavras e de Minas Gerais. Isto me leva a crer que o amigo também é um apaixonado pelas montanhas das Lavras do Funil do Rio Grande, tão bem cantada por outro jornalista e escritor lavrense, Hugo de Oliveira, e que a título de lembrança, reproduzo seu poema de loas à nossa majestosa Serra da Bocaina. Eu as menciono, as montanhas mineiras, em quase todas minhas crônicas e poucos dos 400.000 leitores que já acessaram este blog de crônicas, contos e causos, notaram esse viés de apaixonado pelas montanhas. Para responder-lhe, preciso contar uma longa história, nova crônica, pois sua pergunta é mais que pertinente: Como viver longe das montanhas ?

        A admiração à linhas sinuosas das montanhas e suas imponentes alturas é um caso de puro e inato amor! De fato, nasci entre montanhas ornamentadas pelos ipês amarelos . Acresça-se a isto as inúmeras escolas ali existentes, com esmerada formação, que nos fazem lembrar do lema de Lavras: Terra dos ipês e das escolas. Assim, desde criança, na fazenda, tomava café da manhã e demais refeições à mesa em frente às janelas da copa/cozinha, que tinham como cenários aquelas duas montanhas, que você bem as conhece, pelo lado oposto à fazenda, pois você e todos os lavrenses sempre passam a seus pés (ambas na  rodovia 265 - Lavras/ trevo da Fernão Dias), a serra do Late-cachorro/Queixada, na curva fechada da caixa d`água (antigo sítio do Prof Paulo de Souza) e a da Cachoeira da Bebela, próxima à passagem da ponte sobre o ribeirão Água Limpa. 

O quarto da casa da fazenda onde nasci, em Lavras. 
Ao fundo a Serra do Queixada, onde passa, do outro lado, a rodovia que liga 
Lavras ao trevo da Fernão Dias.
Foto do autor - 2014 

          Daquela mesa da copa/cozinha, o menino ficava a admirá-las e a indagar a si mesmo em sua fantasiosa imaginação infantil, o que haveria lá no alto daquelas montanhas? Estariam cheias de bichos ferozes, onças, lobos, cobras e tudo mais que os adultos “sabiam” existir para amedrontar os pequenos mestres arteiros e mantê-los ao redor da casa, sem grandes aventuras em locais mais distantes? Ah... e aquelas árvores que avistamos ao longe, seriam grandes, frondosas? E as rochas, seríamos capazes de  rolá-las serra abaixo, sem problema? E até onde elas chegariam cá embaixo? Chegariam ao ribeirão Água Limpa e barrariam suas águas, formando uma linda represa com um lago cheio de peixes, marrecos e paturis? E do outro lado daquela serra, o que se avistaria? E assim desenvolveu-se no menino aquela curiosidade constante. inata. Primeiramente, o desejo de escalá-las para saber de tudo aquilo, até mesmo empurrar uma grande pedra e ver o estrago e a barulhada morro abaixo. Interessante que certa vez em missão de trabalho no IICA, na Costa Rica, fui visitar, em um final de semana, ciceroneado por professores da Universidad de San Jose, um vulcão em plena atividade, o Arenal. Ao passar perto, ainda na rodovia, a uns dois km de distância e em área segura, vimos aquela avalanche de rochas incandescentes rolando morro abaixo, verdadeiro rio de fogo. À noite, já no hotel turístico, com vista privilegiada para o vulcão, o show pirotécnico foi maravilhoso e dormimos embalados pelo som das rochas batendo umas nas  outras em direção ao vale com aquele lindo rastro de fogo que iluminava a noite. Aquela avalanche barulhenta nos lembrava as rajadas de metralhadoras tão comuns nos filmes de guerra. Impressionante e amedrontador, não fosse a segura distância do hotel em relação ao vulcão. Duas lembranças vieram-me à mente, e de onde? Justamente da  escalada à Serra da Bocaina, onde por descuido (talvez inexperiência, mesmo), o amigo Fabiano Soares, futuro diretor do Aero Clube de Lavras, se adiantou na escalada e em certo momento fez escorregar algumas pedras que, por pouco não me atingiram, justamente ali no ponto mais íngreme da montanha, a garganta onde as duas metades da serra se encontram. Outra lembrança foram as das queimadas na mesma serra, quando os fazendeiros usavam colocar fogo para queimar as secas pastagens, para que brotassem mais rapidamente logo às primeiras chuvas da primavera. O fogo começava ao sopé da grande serra, na chamada Serrinha e dali subia, em extensa linha dourada, se alastrando, por toda à noite, até o cume da montanha, num espetáculo pirotécnico maravilhoso, não fosse triste e evitável para preservação da fauna e flora. Da varanda de minha casa ficávamos a observar aquela linha de fogo por toda a extensão da serra. Lindo show para as crianças, mas lamentável quando se pensa na destruição da fauna e de toda a vegetação. Hoje, verdadeiro crime ambiental, sujeito às penas da lei.

Quando trabalhava nos EUA, acostumei-me às planícies da região do Corn Belt (cinturão do milho) a oeste do Michigan e todo o estado de Illinois e fiquei surpreso quando pude ver as serras dos montes Alleghenies, na cordilheira dos Apalaches, no estado da Virgínia, com suas serras muito semelhantes às da Bocaina em Lavras. Ali viveu Samuel Rhea Gammon, fundador do educandário (1892) que tem seu nome, ainda hoje. Deste colégio, o Instituto Gammon, surgiu a Universidade Federal de Lavras. Poucos sabem que a Serra da Bocaina foi uma das inspirações que levaram o Reverendo Gammon a escolher Lavras para sediar o Instituto Gammon. Em tudo se assemelhava às montanhas que ele apreciava diariamente na infância, ali na Virginia. Montanhas existem em toda parte do mundo (menos em Brasília...). Ainda no exterior, visitei e escalei algumas montanhas no Equador, Guatemala, Peru e México. Neste último as ruinas da cidade sagrada de Theotiuacan estão situadas no topo de uma montanha não muito distante da capital mexicana. No Equador conheci a estação da Nasa num dos cumes mais altos, justamente na linha do equador. Na Guatemala visitei plantações de café, em elevadas montanhas, tais quais os cafezais das fazendas de minha família em Lavras. No Peru e México escalei as montanhas de sítios Incas, com cultivos de lavouras irrigadas, as terras dos Astecas e Maias com suas pirâmides no alto das montanhas. Em todas essas visitas verifiquei semelhanças que evocavam as montanhas de Minas Gerais. Uma coisa é certa, as montanhas estavam definitivamente gravadas na minha memória afetiva. Suas presenças estavam em tudo e em todos os lugares, até mesmo nos relatos de nossos pais, sobre os inatingíveis maciços de rochas e matas,  como na “história” de  que toda a água que abastecia a cidade de Lavras, naqueles anos de 1950, vinha do Poço Bonito, situado na Serra da Bocaina. Como pode brotar água das rochas do alto da montanha se “não vemos” rios ou ribeirões escorrendo por suas encostas? Curiosidades, verdadeiros enigmas para as crianças, nem sempre compreendidas pelos adultos. As reminiscências sobre as montanhas estavam constantemente em nossa memória, até mesmo no estrangeiro, em distantes terras, as montanhas locais nos provocavam o banzo da cidade natal. Não pude rolar pedras do alto da serra da Cachoeira ou da Late-cachorro, mas, como descrito acima, mas, passei uma noite inteira ouvindo as trombadas da rochas vulcânicas incandescentes rolando pela Serra do Arenal, lá pela América Central, no país da Costa Rica. 

 Prosseguindo, ainda em Lavras,  o menino mudou-se para a cidade e sua casa, numa enorme chácara ao final da rua Progresso (que terminava na rua Sabino Lustosa e dali para frente começavam os 20 hectares da chácara), com vista privilegiada para a maravilhosa moldura de Lavras, a Serra da Bocaina. Da varanda da casa contemplava os voos das aves de rapina que vinham de lá, planando e rodeavam a matinha e as pastagens da chácara (hoje Vila Cruzeiro do Sul) em busca de presa. Ah..., não poderia me esquecer de mencionar que sempre que vou a Lavras, faço voos rasantes próximos à essa maravilha chamada de Serra da Bocaina, além do que, lá pelos 20 anos eu e Fabiano Maia Soares (ex-presidente do Aero Clube e Recauchutadora Paulo Guida) decidimos escalara Serra da Bocaina. Temeroso de encontrar as “feras” imaginadas na infância , à mesa do café da manhã, tratei de colocar na mochila um revólver para nossa defesa..., pois quem sabe poderias surgir uma onça ou mesmo uma cobra cascavel. Naquele tempo, ainda nos anos 60, não havia restrição ao uso de armas e todos os garotos criados em fazendas tinham o hábito de caçar e eram, experientes no uso de armas. Aliás, esse costume era atávico e remonta ao ano de 1726, quando um parente desbravador, caçador de ouro em Lavras/Carrancas e S.J.D.Rey, escreveu carta ao recém-empossado governador da província de Minas Gerais, que estava difícil sair em expedições á busca de ouro, pois havia ajuntamentos de escravos negros e índios fugitivos (quilombos) atacando-os e por isso, solicitavam o envio de armas  para uso dos garimpeiros. Os registros históricos de Minas Gerais citam esse fato. Praticamente todos andavam armados, os fazendeiros principalmente, disseram-nos os cientistas,  SPIX e Martius  que passaram  por Lavras em 1818 e registraram em seu livro: Viagem pelo Brasil (cujos três tomos foram editados em 1823, 1828 e 1831, respectivamente, e cuja edição brasileira, promovida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IHGB, data de 1938). Outro cientista, Saint Hilaire (1822), também esteve em Lavras e descreve esses fatos e ainda menciona que as mulheres das casas dos fazendeiros eram muito curiosas e ficavam a bisbilhotá-lo por detrás da porta. Saint Adolphe, outro cientista também passou por Lavras e descreveu, em 1845, sobre os costumes de sua gente e os produtos da cidade, alguns exportados para o Rio de Janeiro. 

“Escalando/sobrevoando” a Serra da Bocaina, em Lavras, num Aero-Boero argentino. 
 Proa alinhada ao dorso de pedras da bela serra que emoldura a cidade, como a relembrar a escalada realizada aos 20 anos e ao chegar ao alto da montanha, sentir-se gratificado, como se estivesse mais próximo de Deus. Nesse avião, voando com pleno controle e estabilidade, lembrei-me dos voos do urubu que tanto me encantavam na infância e era dali, daquela serra que eles vinham, 
Foto do autor - 2014 

  Abrindo um parêntese, devo explicar melhor o antigo costume de se usar armas de fogo nas fazendas e que durou de 1720 até o final dos anos de 1960, permanecendo, portanto, por quase 250 anos. A existência de quilombos, com  ataques de ex-escravos ao longo das estradas,  aumentou de intensidade a partir do dia seguinte ao 13 de maio de 1888, data da Abolição da Escravidão. Todos os ex-escravos saíram pelas estradas, nelas se acamparam e os que chegaram até a cidade, se alojaram em barracos de pau e cobertura de sapé nas periferias. Lavras tinha seis ou sete entradas de estradas que ligavam as fazendas à sede do município. Em todas elas havia esses aglomerados de ex-escravos expulsos das fazendas. Visitei, em trabalho de pesquisa, da disciplina de Sociologia Rural, duas dessas ruelas em Lavras. Foi assim que se inciaram as favelas nas grandes cidades. Peço desculpas por me alongar, mas são explicações necessárias para se entender o contexto, no qual fazendeiros andavam armados, até o final dos anos 60 do século passado. Era para se defenderem dos ataques nas estradas, por quem passava fome em decorrência da expulsão da fazendas escravocratas. Por consequência, os fazendeiros ensinavam a seus filhos a arte de dominar o uso daquelas armas. Felizmente, nos anos 70, esse costume foi abolido e leis passaram a proibir e controlar o uso de armas de fogo. Sobre isso escrevi longa crônica que integrará meu livro, em fase de conclusão, sobre a escravidão nas fazendas de Lavras, cujo link é indicado ao final.

             Ainda sobre as montanhas de Lavras, os sonhos do menino eram muitos, sem limites. Tinha uma vontade louca de voar por sobre as montanhas. Invejava os voos planados e mergulhos dos gaviões carcarás e urubus (estes têm o voo mais bonito, planam silenciosamente e mergulham em voo com alta velocidade). O escritor e médico lavrense Paulo Rodarte de Abreu, escreveu um livro intitulado: O voo do Urubu. Tive a honra de participar da festa de lançamento desse livro no belo e histórico Hotel Vitória. Por outro lado, eu ficava intrigado pela maneira que elas, aquelas aves de grande envergadura de asas, conseguiam dobrar ambas as pontas para cima. Somente na década de 70 vim a saber que a EMBRAER foi a primeira indústria aeronáutica a copiar aquele recurso usado pelas aves de rapina, as pontas das asas arrebitadas. Isto aumenta a sustentabilidade do voo, a eficiência e a velocidade, economizando combustível dos aviões. Copiaram a técnica aerodinâmica usada pelos urubus e batizaram aquela pontinha da asa, apontada para cima, de “winglet”. Hoje todas os fabricantes de grandes jatos e jatinhos as usam. Veja a ponta das asas dos modernos aviões. Curioso, perguntei a um amigo, piloto de caça e ex-comandante da Esquadrilha de Mirage, por que a indústria aeronáutica demorou 70 anos, depois da invenção do avião, para imitar o voo do urubu e demais aves de rapina que precisam de velocidades máximas e as aumentam torcendo a ponta asa para cima quando voam em mergulho. Boa pergunta, respondeu-me ele!

            Voltando à paixão pelas montanhas, saí de Lavras e fui estudar em Itaúna, também cercada por montanhas de ferro e manganês. Por outro lado, o percurso de Lavras a BH é serpenteado entre montanhas, montanhas e mais montanhas. Trabalhei em BH por um ano, cercado pela Serra do Curral, bem a seus pés, no Bairro São Lucas. Subi aquela serra, em excursão a pé, passando pela mata do Jambreiro. Chegando a Nova Lima, voltamos de ônibus pois ninguém é de ferro... rsrs. Aliás, a montanha era de ferro e ainda resta um pouco dela se as mineradoras ainda não as implodiram totalmente e venderam os minérios para a China e Japão. Por força de ofício, fiz reflorestamentos nas demais serras em torno de BH, Mariana, Ouro Preto, Caraça, Serra do Cipó/Serro e tantas outras. Na serra do Cipó quase que era necessário encher os bolsos com pedras para que o vento não nos carregasse e nos fizesse rolar montanha abaixo. Aliás, nas proximidades do viaduto da Mutuca, na divisa de  BH com Brumadinho (saída da BR 040, de BH rumo ao Rio) havia uma  que se chamava Serra do Rola-Moça. Não vi moça nenhuma rolar por lá, mas as mulas, com as cargas de mudas de eucalipto, as vezes escorregavam e perdia-se a carga nos jacás.

Serra do Curral- BH, muita semelhança com a serra de Lavras. 
Foto- Prefeitura de BH

             Pois bem, com todo esse histórico de montanhas, desde menino pequeno, não gostava de trocar as serras pelas praias. Férias e temporadas, quase sempre em regiões serranas da Mantiqueira com ou sem águas termais. As centenas de voos, nas rotas BSB/Rio e BH/SP, que passam, ambas, exatamente sobre Lavras, eram escaneadas pelo meu GPS mental, a cada minuto. Todas as cidades rios e principalmente as montanhas eram identificadas. Em 50 minutos de voo era só olhar pela janela da direita e lá estavam: Santo Antônio do Amparo, cuja torre da Igreja Matriz é mais alta que qualquer montanha. À direta Perdões e o Rio Grande, Ribeirão vermelho, à esquerda Bonsucesso e ali, bem embaixo... Lavras com a Serra da Bocaina, mais adiante Itumirim, Luminárias mais à direita com suas lindas serras, etc, etc, e o devaneio tomava conta de minha mente. Nesse momento, já olhando para trás , pela pequena janela do avião a uns  9 ou 10 mil metros de altura (o procedimento de lenta descida do avião para o Rio de Janeiro começava em S.J.D. Rey e era possível sentir a desaceleração da aeronave), batia um banzo danado e a vontade era de abrir a porta e saltar de paraquedas e cair bem ali naquela larga avenida da UFLA que eu e o Prof. Juventino Júlio de Souza demarcamos quando ainda éramos estudantes na velha ESAL/UFLA. Eita..., saudade danada! E aqui, meu caro Eduardo Cicarelli, cabe perfeitamente a sua pergunta, que é mais do que pertinente:

 ... “como é morar em Brasília, onde os olhos só alcançam a vastidão do cerrado? Não te faz falta as ondulações que sempre tiveram presentes na sua vida?”. 

Veja bem, passei aqui os seis anos iniciais de minha estada à procura de uma chácara para lazer. Nada de encontrar alguma que agradasse. Terrenos áridos, vegetação rala e retorcida, sem mananciais (mineiro adora um corguinho e matinha... rsrs), nada me agradava  até o dia que fui a uma fazenda de 400 hectares que fora dividida em chácaras. Situada numa baixada de um grande ribeirão, mais volumoso que o nossos Água Limpa e Maranhão, verdes pastagens, gado nelore, branquinho, contrastando amo o verde da pastagem e o azul da serra ao fundo (serras no planalto?) e até uma plantação de marmelo, igual as que se viam em Lavras. A fazenda tinha, ainda, uma  magnífica sede em estilo goiano/mineiro (herdado dos colonizadores portugueses) e pasme, cercada de pequenas montanhas (em extensão e altura), mas suficientes para nos fazerem lembrar das Lavras do Funil do Rio Grande com suas lindas montanhas. Foi amor à primeira vista. Água abundante, energia elétrica e... montanhas à vista (uma das primeira coisas que fiz, foi comprar um cavalo mangalarga, tradicional marchador e o mais procurado pelos mineiro (as fazendas do Favacho e Passa Tempo/S.A. Amparo, eram criadoras fornecedoras desses cavalos aí na região de Lavras) e participar de numa cavalgada por toda aquelas montanhas, num raio de cinco ou seis km.  Trouxe de Lavras um carro de boi, transportado pelo Aguinaldo de Souza (imagine que aquele generoso amigo, presenteou-me com esse ato e nada cobrou, mesmo sob insistentes pedidos da conta), um arado de aiveca que pertenceu a meu pai até os anos 60, uma máquina de fiar lã e algodão (roca) , com todos os acessórios de preparo da lã e do algodão, um carneiro hidráulico que bombeava água nas fazendas de Lavras e outras tralhas. 

 Até mesmo nas planuras do Planalto Central, o menino encontrou 
um recanto em meio às serras e lá construiu uma chácara com todos os encantos 
e mimos da trazidos da terra natal.  Como ensinou o poeta Mário Quintana: 
"a gente continua morando na velha casa em que nasceu” 
Foto do autor –2004 

  Verifica-se, portanto, que cumpri aquele ditado, que o poeta  e filósofo Marcel Proust escreveu: "os verdadeiros paraísos são os que perdemos"  e nessa mesma linha, Mário Quintana nos ensina que:  "a gente continua morando na velha casa em que nasceu". Carregamos isso pelo resto da vida, a casa em que nascemos. Literalmente, “eu trouxe Lavras”  para cá e reconstruí a minha doce infância e juventude com esses mimos que têm lugar especial no meu coração. Aliás, não só de Lavras, trouxe de BH um Jeep Willys igualzinho ao que nele trabalhei nas serras  do quadrilátero ferrífero, subindo montanhas e plantado eucalipto. Construí a casa e trouxe as tralhas/mimos em reprodução literal à minha querida terra natal. E é por isso que sempre digo, moro nas planuras do Planalto Central pelo dobro do tempo que vivi na terrinha natal, mas,

ainda hoje, sei medir com os olhos as distancias das linhas sinuosas das montanhas mais que as planuras deste planalto central.

O coração não muda..., já dizia o príncipe dos poetas, Guilherme de Almeida em seu belíssimo e profundo poema:

“Tudo muda neste mundo de ilusão, vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão. Mas sempre, sem que te iludas, cantando num mesmo tom, só tu, coração, não mudas porque és puro e porque és bom!”

Por isso aqui vivo, há 50 anos, em dourado exílio, mas sempre com o coração puro, amarrado no carinho e amor que aí recebi e aprendi com a família,  professores e toda a comunidade, onde os adultos nos tratavam como se seus filhos fôssemos. Um dia minha cinzas repousarão sob o ipê amarelo da janela do quarto da fazenda onde nasci. Meu neto já foi encarregado dessa missão, mas ele diz em tom de gozação: Vovô, eu só vou passear de avião até BH, pois as cinza eu as jogarei antes de chegar ao aeroporto daqui... Vou deserdá-lo, respondi... rsrs, mas antes registrarei em cartório o meu desejo, do repouso das cinzas na terra natal, à qual tudo devo, o que sou, o que fui e os sucessos obtidos na vida.

Espero que o amigo jornalista tenha entendido o meu dourado exílio, onde sempre revivo as memórias de nossas montanhas que bem conheço e com o olhar sei medi-las melhor que as planuras deste planalto central. Um abraço!

 
O amigo, jornalista Eduardo Cicarelli, à direita, numa solenidade cívica na Praça de Lavras. A seu lado, o saudoso Hugo de Oliveira, também jornalista e autor do poema Serra da Bocaina. Eduardo Cicarelli é diretor do Jornal de Lavras e a ele dedico essa crônica, em resposta à sua pergunta sobre o amor às montanhas. 
Foto arquivos do IHGLavras



 Brasília, 30 de junho de 2024

Paulo das Lavras 


 

Ode à montanha, de autoria do jornalista e escritor Hugo de Oliveira

Foto: arquivos do IHGLavras



 A casa da chácara onde vivi até o término da faculdade. Vista privilegiada da

 Serra da Bocaina que emoldura a cidade de Lavras.

Foto: tela a óleo, acervo do autor



O menino, jovem engenheiro, formou-se em Lavras e partiu para BH , de onde se aventurava pelas montanhas de Ouro Preto, Mariana, Serra do Caraça e

 Catas Altas, plantando florestas de eucaliptos para as usinas siderúrgicas. 

Foto do autor – Ouro Preto - 1968 




O neto de Samuel Rhea Gammon-fundador do IG e UFLA) Dan Gammon e esposa Sandy, ciceroneados pelo autor, em visita à secretaria do colégio do Intituto Gammon,

que tem na parede de fundo um panorâmico poster da Serra da Bocaina.

Em 1892, o cenário dessa serra, semelhante à  dos montes Alleghenies da Virgínia/EUA, inspirou aquele missionário a escolher a cidade para sediar o Colégio Internacional,

 que se chamava Gynasio de Lavras, depois IG, teve como vinculada a Esal

que se transformou em UFLA. 

Foto do autor - 2019 



 
Montanhas sempre fascinaram o menino das Lavras. Aqui o fenomenal Vulcão Arenal, próximo a San José de Costa Rica.  Sua constante erupção de lava incandescente oferece um espetáculo pirotécnico, noturno, sem igual e chega a ser assustador. Produz um barulhão da rochas incandescentes rolando montanha abaixo. 
Mais parecia uma rajada de metralhador a perturbar o sono no hotel a uns 4 km de distância e com essa maravilhosa vista mostrada na foto. 
Foto: internet



 

Na Guatemala escalei uma montanha para conhecer a cultura indígena e suas plantações de café nas montanhas. Uma indígena descia o morro com um feixe de lenha na cabeça. Consentiu a foto, raridade, pois não gostam. São supersticiosos, acreditando que a fotografia rouba seu espírito, contou-me um professor de Ambato/Equador 

Foto do autor –1986 



 
Em Ouro Preto, recordando os tempos que reflorestava suas montanhas, passeou no trem turístico 
que liga essa cidade à também histórica Mariana. 
Foto  do autor - 2012 


 O sul de Minas é pródigo em montanhas. Veja a Montanha Sagrada, de São Lourenço-MG , 
local de saltos de parapente e paraglider!  Entre a praia e as montanha, para se passar 
férias, sempre escolhia a última e procurava conhecer o alto 
 dessas montanhas, com ou sem teleférico. 
Foto:  Internet – São Lourenço-MG


 ... e para aguentar o banzo no exílio dourado, até mesmo o arado de aiveca, que

 pertenceu a meu pai, nos anos 50, foi trazido de Lavras para Brasília. 



Vista geral das serras de minha chácara, um recanto especial e nostálgico

nas planuras do planalto central. Não foi fácil encontrar uma chácara com essa vista evocando a lembrança das montanhas. Pura reminiscência da terra natal

Foto do autor, 2024 



Saindo de BH rumo ao sul de Minas... por entre montanhas, alegria renovada e incontida, clicando a Serra de Itatiaiuçu/Igarapé, onde à direita situa-se a cidade de siderúrgica

 de Itaúna, também de gostosa memória.

Foto do autor, 2019  



Brasília, vista de cima, da janela de um avião. parece um avião!... 


... mas, é uma linda cidade-parque, com 200 mil pés de ipês. Na foto, florada dos ipês roxos









Anexos:

1-    1- A escravidão nos tempos da colônia: Os Salles, o trabalho escravo e ascensão social dos negros em Lavras :

https://contosdaslavras.blogspot.com/2022/01/a-escravidao-nos-tempos-da-colonia-os.html

 

2-    Marmelada do quilombo do Mesquita/Brasília-DF – semelhanças e vínculos portugueses do sul de Minas:

https://contosdaslavras.blogspot.com/2016/01/quilombo-do-mesquita-e-o-doce-de.html