quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Lar, escrínio da vida..., assombrações e lobisomens

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(em construção... aguarde)


Lar, escrínio da vida..., assombrações e lobisomens

 

O melhor da viagem é a volta para casa, diz o adágio. Desde a origem da humanidade o lar sempre foi o lugar onde se busca o refúgio, o conforto físico e da alma. Viagens são ótimas para o descanso, mas, depois de alguns dias, sempre lidando com estranhos em aviões, taxis, hotéis, restaurantes e locais de lazer, entretenimento e cultura, a gente para e pensa..., quero voltar para a casa, quero desligar os sentidos em alerta para com ambientes estranhos. Quero paz, relaxar no meu bunker.  Ali, na sua casa, se escondem e repousam todas as memórias da vida, no cofre da alma, nos escaninhos da mente, no subconsciente de nossa memória, nosso baú de afetos. É no aconchego do lar que encontramos a paz a tranquilidade, o relaxamento da alma que se torna mais receptiva, mais amorosa e livre dos freios sociais a que normalmente nos impomos em sociedade. Quem não se lembra das noites mal iluminadas na fazenda, reunidos na cozinha do fogão a lenha que, além de aquecer o ambiente, soltava crepitantes fagulhas e labaredas que iluminavam o ambiente? Ali, à roda dos pais, tios, avós ou convidados (como se visitavam entre si, os vizinhos e parentes! Estes, às vezes vinham de locais um pouco mais distantes ficavam para o pouso, para alegria das crianças e iam-se no dia seguinte).

Doces lembranças à roda do fogão à lenha nas noites frias de inverno do sul de Minas. Ouviam-se histórias de fadas a assombrações e lobisomens, saboreando pipoca, broas de milho, pamonhas e biscoitos de polvilho (bolinhos de chuva, fritos, só no café da tarde) e uma boa caneca de leite quente. Estas, as histórias de assombrações e lobisomens tinham um papel educativo, preventivo e fundamental. Tais terrores, os pavores das crianças, habitavam justamente as matas, rios e lagoas. Mas por que somente naqueles locais? Simples, pois as crianças gozavam de inteira liberdade de ir e vir por todo o território da fazenda. Nada as impediam de explorar os ambientes. E aí morava o perigo, pois, num piscar de olhos as curiosas crianças poderiam embrenhar-se mata adentro, entrar nas lagoas e rios traiçoeiros. Perigo constante e a única maneira de detê-las era a invenção dos fantasmas, lobisomens e todo tipo de bicho-papão que, convenientemente, só habitavam aqueles perigosos lugares, especialmente à noite quando saíam em busca de comida.

Nesse clima de terror constante, nunca uma criança ousou pisar aqueles locais sozinha, principalmente à noite. E as noites de antigamente eram o momento de reunião da família, pois lá fora estava escuro e os “bichos” estavam à solta, enquanto que nas cidades as narrativas que aterrorizavam as crianças eram a do homem doido, o homem do saco que pegava e raptava os pequenos.  A esse confinamento, no lar, os antigos chamavam de escrínio da vida, o refúgio, a fortaleza, aonde a alma relaxa e ficamos protegidos dos “bichos” que rondam nossa vida. Segundo a psicologia, para as crianças a casa era inexpugnável, pois ali estavam seus guardiães, o pai e a mãe. E esse “conceito” nos acompanha a vida inteira.

Foi assim com o menino, medroso das matas, rios e lagoas. Neles só entrava acompanhado de adultos. Não raras vezes a noite o surpreendia nas humildes casas dos camaradas (empregado rurais, residente na fazenda). Voltar para a casa, vencer os 100 ou 200 metros de distância, no escuro? Ah, nem pensar em atravessar a pequena matinha e o córrego que passava pela mangueira de criação de suínos. Ali estavam os dois maiores terrores das crianças das fazendas. A mata e cursos d´água onde havia além de cobras, lontras, jacarés, escondiam os lobisomens e outros fantasmas à espera de incautas crianças. Caiu a noite e não havia outra alternativa a não ser as costas do camarada  Vitor Coelho. Ao chegar à matinha que, obrigatoriamente, tinha que ser atravessada, agarrávamos às suas costas com tal intensidade que até parecia um  filhote de mico atarracado à mãe, pulando de galho em galho naquele veloz balé na copa das árvores e que tanto admirávamos, pois, para nós, as crianças, pareciam um único bicho com duas ou mais cabeças. Colocávamos toda a força que um menino de seis anos poderia ter, apertando os braços ao redor do pescoço do “Vito” a ponto de quase sufocá-lo. Isto provocava-lhe reclamações que soavam mais ameaçadoras (como eram cruéis os adultos na educação das crianças do anos de 1950): se você continuar me enforcando vou te largar aqui na mata.... Paradoxalmente, apertávamos ainda mais o pescoço do pobre Vito, rapaz de uns 20 anos que nas horas de folga era o nosso companheiro, juntamente com seu irmão Tião Coelho, nas brincadeiras infantis, cavalgadas, natação nos ribeirões e lagoas e, principalmente, na fabricação de brinquedos próprios como balanços (gangorras) em árvores e até mesmo a construção mini-rodas d’água que movimentavam moinhos criados por nós mesmos, movimentados por polias e correias de embira de bananeira. Quanta criatividade, pura e simples engenhosidade.

 

Pois bem, todo esse preâmbulo foi apenas para se situar uma questão hoje enfrentada em todo o país, a quarentena social imposta pela pandemia do coronavírus. Assim como a escuridão de antigamente proporcionava momentos de reunião no aconchego do lar, hoje, o apagão das cidades provocado pelo coronavírus está exercendo o mesmo papel: fazer-nos voltar para o escrínio da vida, a casa, o lar, refúgio, fortaleza para a nossa alma.  Que essa quarentena em casa nos sirva para a reflexão sobre a corrida e egoísta vida que temos levado. Que aquela escuridão das noites de antigamente, que nos levava a nos reunir em torno dos mais velhos em busca das histórias e do saber, tenha hoje o mesmo papel, a mesma função social, pois o coronavírus ao levar-nos para o isolamento, recolhidos em casa, pode funcional como um farol, servindo de luz para o nosso aprimoramento.

 

Brasília, 22 de março de 2020

Paulo das Lavras.


 
Minha roda d´água que, na infância, chamávamos de moinho, construída  na chácara, 
como a relembrar a infância na fazenda



domingo, 28 de janeiro de 2024

Lavoisier, Salgado e o menino de corte de cabelo da moda

 

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Foi por volta do ano de 1774 que o cientista químico, francês, Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), com apenas 30 anos de idade, descobriu uma das mais famosas e naturais leis da Química: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. E todos nós que estudamos química, desde o primeiro ano do curso de 2º grau, nunca mais nos esquecemos disso. A decomposição de uma matéria tem a mesma quantidade de massa do produto original, ou seja, ainda que a matéria se decomponha em dois ou mais produtos, a soma de suas massas será sempre igual ao peso da massa  inicial. É a chamada Lei da Conservação da Natureza. Vai daí que se criou o ditado popular que diz; “Na vida nada se cria, tudo se copia...”, em clara alusão à preguiça mental de se criar algo novo, seja um invento, ou mesmo uma atualização ou modernização de qualquer coisa. É a nossa lei da inércia, do menor esforço possível (e é natural isto), pois estamos sempre a preferir a repetição das coisas do passado. Foi assim nesta semana. Descobri, casualmente, algo interessante no mundo da moda.

O amigo Rogério Salgado, artista no campo da fotografia, dedicou-se a recuperar uma foto do menino com sua turma de internato no Seminário. Garoto de apenas 12 anos, ali estava fazendo pose com alguns coleguinhas, diante de aparelhos de ginástica ao lado do campinho de futebol. Provavelmente numa manhã de domingo, pois ainda trajava jaqueta de cor caqui acinzentada, uniforme usado para a missa de domingo na catedral de Sant´Ana, da cidade de Itaúna-MG, onde os pequenos seminaristas cantavam hinos sacros em coro de 70 vozes. O coral atraía grande número de frequentadores e após a missa era comum as  mães amorosas nos abordarem à saída e nos abraçar carinhosamente, elogiando nossa performance no lindo coral ensaiado durante a semana inteira. Muitos de nós, meninos que nunca havíamos saído de casa, ansiávamos por aquele abraço, único carinho ali muito distante da família. Pois bem, ao recuperar e colorizar a foto, o amigo fotógrafo mostrou as feições do garoto que parecia forçar um sorriso, mas que a tristeza, a melancolia da solidão, da saudade da família, não permitia, não destravava o semblante. Mas, ainda assim, além dessas evidências,  a foto mostrou nitidamente o estilo de corte de cabelo predominante naqueles idos de 1958, ou seja, exatos 66 (sessenta e seis) anos atrás. Surpresa maior aconteceu ao receber, dia seguinte à chegada da foto restaurada, a visita de familiares e entre eles o neto de 15 anos com um corte de cabelo semelhante a aquele de tanto tempo atrás. Todos comentaram a semelhança da moda “atual” entre os jovens, com aquele menino de 12 anos, com o corte de cabelo de 66 anos antes e ambos, neto e avô, ficamos muito felizes com as semelhanças e ainda orgulhoso retruquei a todos que  ninguém mais poderá me achar velho, demodê...

É por isso que digo, a Lei de Lavoisier, de 250 anos atrás, sempre funciona para tudo, até mesmo para a moda. Modelos vão e voltam. Só não sei onde surgiu esse “atual”  hair-style que meu neto tanto gosta e disse-me que  99% de seus amigos o adotaram. A foto restaurada pelo amigo Rogério Salgado fez sucesso. Obrigado! Me senti novamente um jovem de 12 anos, que estava em dia com a moda... O mesmo ..., só os seus cabelos mudaram, diriam na propaganda do shampoo... rsrs

 

Brasília, 28 de janeiro de 2024

Paulo das Lavras 

 

 Um corte de cabelo do ano de 1958 ...                                                     

 



        
... que se repete nos jovens em 2024


 Foto original de 1958 e o trabalho de recuperação/colorização



          
 


 

domingo, 31 de dezembro de 2023

Um túnel ferroviário em Lavras – ano de 1915.

 

 
O túnel ao fundo, inaugurado em 1915 e a Estação Costa Pinto construída e 
inaugurada em 1926 pela Rede Sul Mineira 
Foto: Coleção Renato Libeck



A rede Ferroviária Sul Mineira foi inaugurada em 19...

(post em construção...)

domingo, 24 de dezembro de 2023

Plantas em casa, mania de agrônomo em Festa de Natal?

 

Não! Definitivamente não é uma mania de agrônomos como se poderia imaginar e nem são as poinsétias vermelhas tão comuns na época de Natal... Seria mais adequado dizer que é um costume bem antigo e que nossas mães sempre cultuaram e dela herdamos esse saudável hábito de gostar das flores em casa.  Talvez pela origem rural, quando as cidades eram ainda pequenas vilas, ao redor das quais ficavam as propriedades rurais com todas as suas atividades agrícolas de plantio de cereais e o gado pastando nos verdes campos. É sabido que o verde, com grandes espaços livres e a beleza das cores das flores, tem efeito terapêutico sobre nossas mentes.  O homem não foi criado para viver confinado e nossa ancestralidade está ligada à lida no campo, a agricultura, caça e pesca..., a Natureza no seu mais puro conceito. A mudança desse saudável hábito para o meio urbano de hoje, concentrado em arranha-céus com minúsculos apartamentos, como gaiolas suspensas de onde não se pode dar um passo além da porta da sala, tem causado elevado nível de estresse mental nas pessoas. Ninguém gosta de viver enclausurado entre quatro paredes e ainda mais nas alturas, literalmente. Nesse sentido, a saudade da Natureza, dos espaços verdes, fez com que as pessoas trouxessem para dentro de suas casas as plantas e até mesmo pequenos animais de estimação.

O efeito terapêutico das plantas em casa é notório e tem despertado os especialistas para estudos e pesquisas nessa área. A ciência já demonstrou que elas promovem o bem-estar mental, baixando o estresse, reduzindo a depressão, recupera o foco da vida, melhora o desempenho cognitivo e o humor das pessoas, além de aumentar a autoestima e a sociabilidade. Não é pouco, e tudo isso, como dito, comprovado por pesquisas científicas. Os estudos realizados em todo o mundo demonstram esses efeitos das plantas em ambientes domésticos e até mesmo em quartos de hospitais. Os hormônios do estresse (cortisóis) se reduzem sensivelmente, diminuindo a fadiga, irritabilidade e pressão arterial, pois a presença das plantas aumenta os níveis da serotonina, o hormônio da alegria, do humor. Concluíram os cientistas que cuidar das plantas aumenta a concentração da mente naquele momento, trazendo sentimento de realização em vez de ficarmos remoendo as preocupações cotidianas.  É assim quando, por exemplo, regamos a planta ou colocamos algumas gotinhas de adubo, ou ainda a removemos uma folha seca ou simplesmente assistimos o despontar de um novo broto e por último, sentir o cheiro das plantinhas aromáticas e talvez o mais emocionante, o desabrochar das flores. Aprendemos até mesmo quantos dias dura uma determinada flor, de tanto que dela cuidamos. Isto sem contar a presença de pássaros como o beija-flor que vem enfeitar as janelas, onde costumamos colocar nossas plantas ornamentais. Há, é verdade, os pássaros predadores como os periquitos, maritacas e papagaios que tudo destroem por onde passam. Mas ainda assim nos alegramos e até recordamos da passagem bíblica que diz: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimentam”. Tudo é alegria, bálsamo para a alma.

 

Dizem os especialistas que uma única plantinha já faz grande diferença e é suficiente para “mexer” com a nossa mente, pois desperta-nos o interesse de dela cuidar. E então começa o ciclo virtuoso..., os cuidados geram desenvolvimento da plantinha, vemos e sentimos esse desenvolvimento, o cheiro, as cores das maravilhosas das flores, a presença de insetos e pássaros  e tudo isso cria uma sensação positiva do humor a cada interação e a cada lembrança que nos aflora, geralmente da infância alegre, feliz. Alguém me presenteou com um vasinho de alecrim perfumado. Está em destaque na jardineira de meu quarto. A cada manhã que abro a janela contemplo o seu esplendor, retiro uma pequena folha filamentosa, macero-a entre os dedo e sinto o seu aroma inebriante. Dispara o gatilho das sinapse neurológicas e as imagens da infância afloram, com as reminiscências de minha mãe na fazenda, com seu enorme forno à lenha, varrendo com vassoura de alecrim as brasas, amontoando-as no canto circular do forno e o cheiro que exalava do alecrim queimado pelas brasas se espalhava por todo o ambiente. Ao final, os biscoitos de polvilho e as pamonhas de milho, enroladas em folhas de bananeira, ficavam também impregnadas pelo aroma do alecrim. Ah... que saudade! A mente entra em doces recordações de puro amor e como dizem e comprovaram os cientistas, a serotonina se derrama generosamente e o dia começa com alegria e de início a retribuição à plantinha com a rega matinal para enfrentar o sol forte do planalto central. Deus é sábio. Criou o Homem para viver no paraíso... a Natureza!

Cuide de uma plantinha em sua casa, apartamento, escritório ou onde quer que seja. Leve uma também, de presente, quando for visitar um amigo, até mesmo num quarto de hospital, pois ali, seu efeito terapêutico sobre o paciente será maior do que o causado em você, pois ele a contemplará  24 horas e notará mais facilmente sua beleza e a grandiosidade da Natureza.

Ah..., em tempo, sou agrônomo, paisagista, mas não tenho produção e nem comercializo flores, apenas gosto de compartilhar com os amigos essas maravilhas da Natureza... e sempre recomendo: Sejamos gratos à Natureza, pois o Solo nos alimenta na vida e nos acolhe na morte e as flores enfeitam e alegram nossa alma. E literalmente as flores enfeitaram a minha vida inteira, por isso as cultivo com amor.

 Feliz Natal!

 

                         Brasília, 24 de dezembro de 2023

                                    Paulo das Lavras 


                Segurando o pé de Alecrim, folhas filamentosas com aroma 


 
Formando um bonsai. Uma goiabeira de um ano. Em oito anos produzirá 
 frutos aqui no vaso, em janela ensolarada


 
na jardineira da chácara, a visita de um freguês predador natural... rsrs


 
Vista maravilhosa, da janela da cozinha, uma paineira rosa


 O menino nasceu no quarto dessa janela rodeada de ipês 


 O menino nasceu na fazenda rodeada de ipês e foi estudar também cercado de ipês, em Lavras.


 
.. e passou a juventude sob as flores da centenária Tipuana em Lavras. 
 Foto: Robson Rodarte


 O menino vive em Brasília há 48 anos, verdadeira cidade-parque 
 com lindo e requintado paisagismo 
Foto: Correio Braziliense


 Aqui, até o nosso “tesouro” é guardado em local rodeado de ipês 
Foto do autor


Dá para acreditar que, com esse histórico floreado e florado desde o nascimento, passando por toda a vida, literalmente, o menino não seria apaixonado pelas flores e deixaria de comprar a tradicional poinsétia vermelha, de Natal?



















 


 

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Silêncio

 

Sonho que se sonha só,

 é só um sonho que se sonha só,

Mas sonho que se sonha junto é realidade.


                                                                              (Raul Seixas- “Prelúdio”)


 

O curto poema em epígrafe, escrito por um cantor popular, revela toda a essência de um sonho. Se sonhamos sós ou então em conjunto, compartilhando os desejos e planos para a vida, faz toda a diferença, E os sonhos planejados são ainda mais factíveis quando acontecem em parceria.  Já os sonhos oníricos quase sempre revelam situações ainda não resolvidas, armazenadas, escondidas nos escaninhos da alma e que afloram de vez em quando. Estes, por se tratar de eventos que fogem ao nosso controle quase sempre nos intrigam e neles a questão tempo e espaço se confunde, numa mistura de eventos distantes tanto no tempo como no espaço físico. Há quem diga que na alma não há espaço e tempo distintos medidos como comumente o fazemos. É possível medir as distâncias em metros ou em quilômetros, mas, no fundo do coração, tempo e distâncias são iguais. Estão distantes e próximos!  Veja que pérola de declaração. “Às vezes, recordo um episódio com uma pessoas específica em minha terra natal e, quando algo parecido acontece aqui, bem distante, sinto que vivo em toda parte”, disse Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, que vive em exílio dourado na cidade Eterna de Roma. Acrescento, ainda, que isto também acontece com as coisas materiais. Uma ponte em arco ou uma bela torre metálica avistada por aqui, me remetem a distantes lugares como Paris ou Nova York, relembrando-me aqueles passeios que um dia fiz por lá. Mas, sem dúvida as lembranças de pessoas queridas nos levam até elas, onde quer que estejam. Por isso se diz que não há tempo nem espaço nas lembranças em nossa alma.  O coração não se engana e não mente nunca com aquilo que amamos. O príncipe dos poetas, Guilherme de Almeida assim se expressou:

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!

 

Tempo e espaço são iguais no fundo do nosso coração..., e quer saber? São mesmo! E tem mais, com o passar do tempo as alegrias aumentam e isso nos faz esquecer que o tempo passou. Não me sinto velho, naquela acepção de cansado, triste, sem sonhos, apenas aguardando a finitude de meus dias. Nada disso. Nas vezes que penso na idade, ela me parece errada, falsa. Não pode ser..., penso,  eu com essa idade? Isso tudo? Dou uma boa gargalhada e, do fundo do coração, digo para mim mesmo..., não é possível..., sinto-me como uma criança que adora a vida, a alegria de viver e sempre compartilhando a vida com os amigos por meio de minhas crônicas! Só alegria? Até parece criança que só pensa no “hoje, o agora”. Mas não estou só, pois outro poeta e filósofo, que foi professor em minha cidade, Rubem Alves ( 1933- 2014), assim escreveu:

As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo.

 As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!

 

 

            E assim vou levando a vida onde vivo, enganando a saudade, sem pensar no tempo e no espaço que me separam da infância e juventude que são caros a todos. Ah..., ainda tem o tempo de professor universitário, ensinando aos jovens. Talvez daí decorra o fato de sempre pensar que somos iguais a eles, jovens, que têm que aprender uma profissão e pensar no futuro. Vício de professor. Para mim, tempo e distâncias são mesmo iguais e o coração não se engana, como dizem os poetas:

 

Tudo muda, tudo passa, neste mundo de ilusão; Vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão... e mais, as almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo.  As crianças sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!

E os sonhos fazem parte da Vida..., Sempre! E hoje, nesta data, vou me tornar criança no show de Paul McCartney. É dia de recordar daquela cartinha, em inglês, que recebi de uma amiga da Dinamarca, de apenas  16 anos, em abril de  abril de1963. Na cartinha, com desenho feito por ela, à bico de pena, mostrava uns caras cabeludos com guitarras e outros instrumentos, com a legenda “The Beatles”, aqueles quatro meninos que saíram de Liverpool e foram tentar a sorte em Hannover na Alemanha, onde ela, a garotinha dinamarquesa, fora assistir seus shows. Voltou ensandecida com o estilo dos garotos de Liverpool. Eu morria de inveja dela que, a toda hora atravessava o canal da Mancha e ia assistir a seus shows, já com o sucesso estrondoso daquele conjunto de rock na Europa. Aqui no Brasil o sucesso deles só começou alguns anos depois e em 1968, minhas noites solitárias em BH, eram embaladas ao som das rádio Atalaia de BH e a famosa Rádio Mundial do Rio de Janeiro, em meu não menos icônico radinho de pilha e fone de ouvidos, da marca Mitsubishi. Só tocavam músicas dos Beatles, Hey Jude, Obladi, obla da, Imagine, Yesterday do vocalista destaque da banda e tantas outras. 

 

Ah... Rubem Alves explicou... os velhos se tornam crianças... e, literalmente me tornei assim em 2014 quando fiquei mais de seis horas no show de Sir Paul McCartney, no Estádio Nacional de Brasília...

E hoje tem... já “estou” criança de novo!

 

Brasília, 30 de novembro de 2023

      Paulo das Lavras


 
Paul McCartney na noite de ontem, 29/11/2023. Brindou a cidade, de última hora, com um show privado para 500 pessoas neste famoso clube de Brasília, relembrando seus tempos do Cavern Club em Liverpool, sua cidade natal. Virou menino saudoso e até pintou o nome de sua cidade na camiseta vermelha e eu, ao ler aquele nome de Liverpool, lembrei-me da cartinha dinamarquesa e também me tornei criança no tempo e espaço, “mirando” aquele desenho de bico de pena, com os cabeludos e suas guitarras, onde se lia: The Beatles- Liverpool. Para ele também, Paul McCartney, aqui no Clube do Choro, tempo e distâncias eram iguais. Ambos “estávamos” em Liverpool e não sabíamos... Puras crianças, como disseram os poetas e filósofos. 
Foto: internet, de 30/11/2023 



 ... e hoje, repetirá o show, cujo nome é bastante simbólico: Got back, voltei!
Foto: internet


 
Nesse show, de 2014, em Brasília, o Menino (literalmente) das Lavras estava 
bem ali, no gargarejo. Valeu a pena! 


Sir McCartney passeando pelo parque da cidade de Brasília- 2014 


 Tickets in hands - 2014… Two "boys" very happy. They were there,
close to the stage...  just to remember the 60´s. So..is the lifetime. 





 ... Vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão, pois tudo muda, 
 tudo passa  neste mundo de ilusão. 
Só tú coração, não mudas porque és puro, és bom,

 








 



 



domingo, 15 de outubro de 2023

Dia do Professor – lembranças daqueles que nos moldaram

 

 

O Professor é o berço de todas as profissões, frase lapidada por um educador e que reflete com profundidade o papel que eles representam em nossas vidas. Desde o primeiro dia de aula, já durante a  alfabetização, estabelece-se um vínculo de confiança entre o aluno e seu professor. Na adolescência eles nos inspiraram e plantaram a semente da busca do saber, o amor à ciência, ao conhecimento que nos liberta dos tabus e nos tornam livres. O Professor é um agente transformador e hoje, mesmo decorridos mais de 70 anos depois do primeiro dia em sala de aula, somos capazes de nos lembrar da alegria do aprender a ler e do sorriso da professora ao ver nossos progressos. O gosto pela leitura e as ciências foram sendo incentivados e, ao final, chegamos a um nível desenvolvimento suficiente para a escolha da profissão e sempre com os professores nos orientando. Era, e ainda hoje é notável a dedicação dos mestres, pura devoção em prol de seus alunos. Foram e são agentes de transformação na  vida de seus alunos, todos nós, sem exceção.

Hoje, 15 de Outubro, é o dia de comemoração, de celebração aos Professores. Não há como não se recordar de alguns deles que além de detentores de esmerado e avançado conhecimento, nos marcaram de forma particular, exercendo forte influência na moldagem de nosso caráter, nossa vida. Nos educaram com arte, paciência, dedicação e amor acima de tudo e quando lhe perguntávamos o que seriam, caso não fossem professores, a resposta era uma só: PROFESSOR ! Nunca se arrependiam, embora nem sempre tivessem o reconhecimento e valorização profissional que mereciam. Sentem-se gratificados quando veem o sucesso profissional de seus ex-alunos. E essa era a única recompensa que esperavam e que também reflete seu próprio sucesso como educador.

Orgulho de ser Professor. Salve o Professor neste seu dia especial, hoje e sempre!

 

Brasília, 15 de outubro de 2023

Paulo das Lavras 


 
Prof. Canísio Lunkes, meu professor no colégio e fundador do UNILAVRAS 
Foto: arquivos UNILAVRAS


 Nelson Werlang, meu professor de matemática 
Foto: Coleção Renato Libeck 


Russauliere Mattos, meu professor de Física e Química e paraninfo no Colégio 
Foto do autor




 Paulo de Souza, meu professor e paraninfo na Agronomia. 
Foto: Coleção Renato Libeck 


 Alysson Paollineli e Alfredo Sheid Lopes. 
Meus professores e expoentes da Universidade Federal de Lavras. 
Foto do autor 


 Segui o exemplo dos mestres também me tornei professor em universidade, 
 mas, o “virus” de professor se estendeu  à doce tarefa de educar os netos 


 



 


 Diploma de honra ao mérito pelos 40 anos dos cursos de Pós-graduação, 
 criados quando ocupamos o cargo de Pró-reitor na UFLA. Recebido das mãos do reitor Scolforo
Foto: arquivos da UFLA




  Colégio N.S. de Lourdes- Lavras, onde ministrei, como monitor, aos 17 anos de idade, 
a primeira aula de Matemática, seguindo os passos dos mestres inspiradores. 
Foto: Coleção Renato Libeck


 








 







quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Dia da Criança... e o adulto-criança

 

 
9                                 11                                         3 

 Não importa que tivésemos 3, 9 ou 11anos. Ainda éramos crianças... E depois, adulto de 25 anos, na flor da idade e mais tarde na adultice dos 70 ou mais... ainda somos e permanecemos eternas crianças. E neste 12 de Outubro celebra-se o Dia da Criança, quando se comemora a infância, que é a etapa mais importante do desenvolvimento físico e intelectual da criança. Elas são livres, almas puras que tentam voar, não ficar de canto, amarradas ou limitadas a espaços e ações cerceadas, completa o escritor e filósofo.

 Rubem Alves, como ninguém, assim definiu a alma de criança:

As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria! 

 
25                          70

      As redes sociais estão cheias de mensagens otimistas dos amigos cinquentões ou setentões e todos celebram a infância, ou melhor o tempo feliz de sua própria infância com doces recordações. Quer alegria maior que  recordar os tempos da infância? Nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo, aqueles que têm belezas dentro de si e essas belezas nasceram e prosperaram na infância.

 

            Criança feliz..., adulto feliz e se o adulto tem prazer em recordar e contar as alegrias da infância, com certeza ele foi uma criança feliz! E o menino parece que gostava de gravata desde os 9 anos e a usou durante toda a vida profissional e sempre a cantar a infância guardada nos escaninhos da alma

            Vivam as crianças! Bençãos de Deus em nossas vidas. Saúde para aqueles que, já na adultice,  tomam chá de criança e vivem alegres como elas.

 

Brasília, 12 de outubro de 2023     

 Paulo das Lavras