terça-feira, 31 de janeiro de 2023

A infância mais livre do mundo e o Café de Flore em Paris

 

 Menino das Lavras no badalado Café de Flore, em Paris, degustando o melhor café du Brésil 
com biscoitos croissant et Madeline


Minha infância foi vivida com a maior liberdade possível, de todo o mundo. Por isso sempre fui grato a meus pais pela infância que me proporcionaram. Uma infância sem medo, sem portas trancadas, sem grades e até mesmo sem muros. Infância de quem cresceu diante da imensidão de espaços vazios, verdes pastagens e coloridas do outono ao verão, matas córregos, lagoas e até um grande rio, o Rio Grande na segunda fazenda de invernada das vacas prenhes e bezerrada desmamada em regime de engorda para o abate. Espaços capazes de acolher o vazio da natureza com suas variadas fauna e flora. Lugares onde a vista se perde até encontrar o horizonte das montanhas. E que montanhas... , do Queixada, da Jacuba, do Grotão, da Fábrica Velha, das Três Barras, Jacuba à beira rio e mais..., principalmente, a mais majestosa de todas, a Serra da Bocaina, que emoldura a cidade natal, Lavras. Ah..., a belíssima Bocaina, cantada em versos pelo saudoso jornalista e poeta Hugo de Oliveira, o sonho de todo exilado, ainda mais quando o exílio dourado já dura quase meio século:

Há muito tempo afago esta esperança:

dar vida aos sonhos de voltar à terra,

de me perder nos alcantis da serra

e reviver meus tempos de criança;

voltar onde se exala um ar que amaina

a flama de tristeza do exilado...

 

Sim, ali, do azul das serras e dos verdes campos de minha terra, de onde lançava olhares desimpedidos, livres do concreto e da poluição, o menino sonhava voar, voar como os pássaros, principalmente como aquelas aves de rapina com seus velozes e certeiros voos de caça, ou simplesmente flanando ao sabor das correntes de ventos ascendentes. Até pareciam pairar no ar de tão suave e leve aqueles voos com asas de grande envergadura e pontas arrebitadas para cima, tal qual o winglet nas pontas das asas dos grandes aviões de hoje. Aliás, os engenheiros aeronáuticos só descobriram o valor das pontas das asas arrebitadas quase cem anos depois que Santos Dumont inventou o avião.

Mas, ainda assim, admirando aqueles lindos voos planados o  menino não se contentava apenas com os sonhos aeronautas. Caçar, nadar, pescar e cavalgar pelas seis fazendas de seu pai, Retiro dos Ipês (sede), Três Barras/Barro Preto, Cachoeira (próxima à Bebela), Jacuba/Rio Grande, Faria e Corguinho também nas Três Barras e a mais próxima, a apenas dois quilômetros. A mais distante, a invernada do Faria, ao lado da Estação de mesmo nome, se estendia ao longo da via férrea, que ainda hoje interliga Lavras à Três Corações, distava  umas três léguas, quase em linha reta, passando pela Fazenda Ribeirãozinho, do Sr. Quincas Guimarães. Em todas elas, onde meu pai tinha gado solteiro e plantações de café, milho e feijão, fazíamos visitas quinzenais ou mensais, geralmente nos finais de semana ou nas férias escolares, sempre a cavalo, em marchas que duravam até três horas para vencer a maior distância, na Estação do Faria. Essa distância era um pouco maior que a sempre preferida, entre a fazenda sede e a casa da cidade, uma grande chácara de 20 hectares situada no final rua Progresso (hoje Vila Cruzeiro do Sul), cujo traçado avançava somente até a esquina da rua Sabino Lustosa, antiga 15 de Novembro. Essa cavalgada era a melhor de todas, passava pelo espigão do Passa Vinte, onde hoje se situa o Bairro Serra Azul, em direção ao Queixada, cuja estrada de boiadeiro passava exatamente por sobre o atual trevo de Ribeirão Vermelho na BR 265. Dali descia-se à esquerda do espigão do Queixada até a Fazenda Dessimoni, atravessando o ribeirão Água Limpa, já na divisa da fazenda Retiro dos Ipês, nossa propriedade, sonhado e desejado paraíso. Eram 16 km, vencidos em exatas duas horas de cavalgada, com direito a guaraná gelado em geladeira movida à querosene, na venda (armazém) do Vico do Cristóvão, na região da serra do Queixada. Ah..., que aventura, prazer de criança, um simples guaraná gelado com biscoitos da marca Confiança, que soavam como um crepe royalle do Café de Flore em Paris, onde a nata da sociedade parisiense se reunia e escritores como Gustave Flaubert escrevia seus contos e romances.  

 
 Café de Flore/Paris – foto 1de Ygor Coelho. Na foto 2, do autor, o Menino das Lavras no badalado Café de Flore, degustando o melhor café du Brésil com biscoitos croissant et Madeline, posando com o charme do cachimbo a imitar os famosos escritores. . Assim, com um laptop à mão, o menino pôde, em doce reminiscência relembrar a simplicidade de sua infância no Armazém do “Cristóvo”, na serra do Queixada, com o guaranazinho e o biscoito Confiança.... Infância feliz! 






Quem não se lembra dos Biscoitos Confiança, vendidos na cidade nos anos de 1950 e 60? Havia um fornecedor em Lavras, Sr. Arnaldo Corradini, que, com seu furgão Chevrolet ano 51, abastecia  os comerciantes da cidade e região. Residia na Rua Umbela, hoje Azarias Ribeiro. Para abastecer os bares da situados na Praça do Trabalhadores e o tradicional Armazém do Julinho, estacionava seu furgão em frente à casa de meu avô, Anízio Abreu (Rua Francisco Sales - 794/812), também conhecido por Anízio  Gaspar. Ali, a meninada ficava a espiar a abertura da porta do furgão lotado de doces, balas, biscoitos, chocolate Falchi, jujubas e todo tipo de guloseima.... Vontade louca de se esconder ali dentro do veículo e se fartar.... Desafios aos coleguinhas não faltavam, mas sequer se atreviam a chegar perto do Sr. Arnaldo Corradini, amigo de nosso avô e que parecia adivinhar as traquinagens dos meninos de olhos arregalados. 

 Esse era o furgão de entrega aos comerciantes. Meninada de olho grande e pensando
 em se esconder no seu interior e fartarem-se com as guloseimas. 
Foto: internet


Tempos bons, de meninos livres, que podiam brincar na rua e nas chácaras. Aprendi, assim, que a liberdade na infância é fundamental para a formação com visão de largos horizontes, quer na planura dos campos das fazendas ou do alto das montanhas alvenses.  Deve ser por isso que me encantei, algum tempo depois com os espaços abertos de Brasília e aqui me instalei, onde os horizontes também se perdem de vista, dando-nos aquela sensação de liberdade, tal qual desfrutada na infância. E já se vão 48 anos longe daqueles lugares sagrados da infância e a todo momento vêm à lembrança os sonetos de outro poeta, Casimiro de Abreu, em seu poema Meus Oito Anos:

Oh! que saudades que tenho, da aurora da minha vida,

 da  minha infância querida que os anos não trazem mais!

 Como são belos os dias de despontar da existência!

 Respira a alma inocência. Livre filho das montanhas,

 eu ia bem satisfeito, da camisa aberto o peito,

 pés descalços, braços nus...”.


 
 Serra da Bocaina em Lavras (foto 1). O menino sobrevoando-a em um AeroBoero, como a matar as saudades da infância, quando invejava as aves de rapina que dela vinham em voos planados até  sua casa na cidade. Planar sobre ela e depois vetorando a proa rumo norte, em direção à cidade, foi por demais emocionante, como se o menino tivesse transformado seu sonho pueril em realidade.     Foto 2- vetorando cabeceira 023. Serra da Bocaina ao fundo. 
Fotos do autor  


O menino das Lavras não se cansava de cavalgar por entre rios e montanhas. Doce infância, doce juventude, vividas na Terra dos Ipês e das Escolas e o belo jardim para o footing dos fins de semana, onde desfilavam lindas meninas. Ah..., mas como pôde o poeta Hugo de Oliveira, tirar as minhas palavras que fazem doer a alma? Não, não é bem assim, poetas são românticos sabem trabalhar as palavras para, mais que ninguém, expressar com mestria a alegria da alma:

“Àquela terra se eu voltar um dia,

Mais velho, embora, assim, menos rapaz,

Terei corpóreo o sonho que queria:

De Lavras ter o amor de suas manhãs,

Viver seus dias e morrer em paz,

Sob canções de ipês e flamboyantes”.

                                                                                                     (Hugo de Oliveira)

 

            E se assim não for, que as cinzas do menino repousem sob os ipês amarelos da janela onde nasceu, na Fazenda Retiro dos Ipês. Lindo pedaço de terra, cercado pelos ribeirões Água Limpa e Maranhão e toda enfeitado de ipês, berço santo da infância e da juventude, que lhe proporcionou serenidade e toda a alegria da vida de quem, literalmente, percorreu meio mundo, conheceu gente e trabalhou no melhores centros mundiais de tecnologia educacional e pesquisas. Mas, sempre grato à terra que lhe deu tudo, da vida à formação profissional, alargando seus horizontes. Doce infância, doce juventude na terra onde nasci.

 

 Brasília, 31 de janeiro de 2023

 Paulo das Lavras


 ... e se não puder voltar à terra natal, que as cinzas, então, um dia, repousem à sombra 
do ipê amarelo, à janela deste quarto onde nasci. 
Foto do autor—Fazenda Sítio Retiro dos Ipês- Lavras


 
Estação do Faria, inaugurada em 1928, distando 25km de Lavras na rota para Três Corações. 
 A seu lado havia igreja, escola, venda e casas de família. A fazenda alugada por meu pai ficava a poucos 
metros à direita, com pastagens de invernada para gado solteiro (vacas prenhes e garrotes)

Foto: internet

 


 



 






 



 





domingo, 18 de dezembro de 2022

18 de Dezembro de 1967 - 55 anos de Formatura

 

 
O velho e icônico portão  da Esal/Ufla em 1965. 
Foto – Coleção Renato Libeck 


Celebrar este dia 18 de dezembro é voltar ao passado. Um passado de gloriosa juventude, entusiasmo de sadia convivência com os colegas de turma, professores e colaboradores da velha ESAL/UFLA. Exatos 55 anos se passaram desde aquele dia de glória, dia da formatura tão almejada, sonhada pelos jovens e entusiastas rapazes e uma única moça. Bons tempos de estudante, pois tínhamos uma vida inteira pela frente. Tudo era possível e dependia apenas de nossa vontade para onde ir, onde trabalhar e o que produzir no vasto campo da Agronomia. Como não pude comparecer à celebração realizada na ESAL/UFLA em setembro passado e abraçar os colegas, resolvi publicar algumas fotods relembrando o passado dessa inesquecível turma de 1967.

 

A solenidade da formatura aconteceu no dia 18 de dezembro de 1967, no salão Lane-Morton, do Instituto Gammon. O paraninfo foi o saudoso professor Paulo de Souza.  Dia seguinte houve o baile de gala no Clube de Lavras. O tempo voa...  Doces recordações! 55 anos são passados, muitos colegas já se foram e nos deixaram saudosos, mas, a grande maioria aí está junto à família, filhos e netos, gozando merecida aposentadoria.

 

Celebro o dia de hoje com o carinho de sempre dedicado aos colegas e para tanto reuni alguma fotos relembrando momentos da vida acadêmica e dos encontros quinquenais na velha Esal/Ufla, onde muito aprendemos no campo do ciência e na arte do conviver, do coleguismo, consolidando amizades e vínculos que perduram até os dias de hoje..

 

Meu abraço a todos os colegas e amigos que compartilharam momentos nessa longa caminhada.

 

 

Brasília, 18 de dezembro de 2022

 

Paulo das Lavras

 

 
Foto de 1958, no antigo auditório do predio Odilon Braga. Muitos foram nossos professores a partir de 1964: Paulo de Souza, José Otávio de Souza, Alcebíades Cartaxo, e Weber Almeida sentado à direita. Em pé, o terceiro da esquerda para a direita é Eduardo King Carr, seguindo-se Jaziel Rezende, Tancredo Weguelin Paranaguá, Marcelo Penido, (Clidenor Galvão??) e Edmir Sá Santos. 
Foto: arquivos Esal/Ufla


 
 Professores da Esal em 1964, ano de nosso vestibular e 1º ano do curso de Agronomia. Outros professores ingressaram à partir de 1965, dentre eles Jair Vieira (Hidráulica/irrigação , Luiz Carlos Gonçalves Costa (Laticínios), Guaraci Vieira (Economia Rural) e Carlos Hermeto (Construções Rurais)


Jornal   O Agrário - março 1964, noticiando o ingresso na Esal/Ufla da primeira turma da então federalizada Escola

 

 No canteiro central da Esal/Ufla  em 1965 – No alto, da esquerda para a direita: Francisco Godinho, José Maria de Oliveira, José Lessa, José Clodoveu, Thadeu de Pádua, João Virgílio, Andirana, Gilnei, Antônio Ernesto e Paulo Roberto. Sentados: Milton, Afonso, João Júlio, Antônio Carlos, Fernando Duque, Glauco e Gilvan. 
Foto: arquivos do autor 


 Excursão em Brasília- maio de 1966 – Palácio da Alvorada. 
Foto: arquivos do autor










 Turma de Agronomia - 1967 


 


 A velha Esal se transformou em Universidade. Uma das melhores do país, segundo avaliações do MEC






 Tradição dos formandos, colocar um banco no campus histórico da Esal


 
 Comemorando 45 anos de formatura - Afonso, João Marcos, Augusto, Fernando, Andirana, 
 Antônio Ernesto e Paulo Roberto. 
Agachados: Gilnei, Francisco Godinho, José M. Vilela e Arnaldo
Foto do autor 2012 


 


 Com a camisa comemorativa dos 50 anos de formatura. 
Lavras (2017)


 2017- Jubileu de Ouro da formatura / turma de 1967


 Vista panorâmica do Campus Histórico e parte do novo Campus da Ufla-2021 
Foto- Leonardo Renoir 

 O novo Campus - 2016


 Tive a honra de encontrar dois eminentes personagens na história da Esal/Ufla. Alysson Paolinelli, nosso então diretor e Eudes de Souza Leão. Este, evitou o fechamento da Esal em 1963 e Paolinelli a federalizou em 23/12/1963. Dez dias depois nossa turma prestou o 1º Vestibular da Esal já Federalizada. A Esal/Ufla deve enorme gratidão a esses beneméritos e sempre presta-lhes homenagens agraciando-os com títulos e honrarias. 
Foto do autor- reunião da Abeas em Recife – 2007 


 


 Como não pude rever os colegas na comemorações dos 55 anos, em setembro deste ano, em Lavras, convidei a todos para uma visita à Brasília. Aqui, se hospedarão neste bucólico e florido ambiente.  Manoel, Gilson, Augusto, Gilnei e outros já passaram por Brasília. Espero que todos possam vir com as respectivas famílias
Foto do autor 


 Aviso de antemão que, aqui na chácara, acontecem fenômenos agrícolas estranhos.... Inacreditável, meu irmão, Anízio, veio de Lavras para colher minha produção multivariada em um único pé de pera, aqui no cerrado do Planalto Central: um tomate vermelho; uma manga ubá; duas peras e duas maçãs vermelhas variedade fuji...., tudo junto e misturado na mesma fruteira. Produtos de clonagem...ou melhor, colagem ....rsrs 
Foto do autor








 



 













 












 



 

 


sábado, 19 de novembro de 2022

19 de Novembro - Dia da Bandeira

 

Foto: internet, postada por Bertolucci Jr  em 19/11/22 


Sim, hoje é o Dia da Bandeira - 19 de Novembro. Sempre tive uma em tamanho normal, daquelas que são hasteadas, tanto no escritório como em casa. Esta era estendida na janela no 7 de Setembro. A do escritório nos EUA, na Michigan State University, não me deixaram trazê-la de volta, mas em compensação me presentearam com uma linda Star Splangled Banner com todos os acessórios para hasteamento nas fachadas de casas, em 60º de inclinação (o americano tem mania de hastear sua bandeira nacional em todo lugar). Nunca vi povo igual para cultuar tanto a sua bandeira. Veja foto da Wall Street, bandeiras americanas de fora a fora.

 Da mesma forma na França, deixei a Verde Amarela no Ministère de l´Éducacion Nationale e ganhei uma Bleu Blanc Rouge. Quando recebia, em casa, colegas de trabalho daqueles dois países fazia questão de hastear as duas, a nossa e a dele, no deck da piscina ao lado da churrasqueira.

 Mais tarde apareceu outra, pois ganhei em BH, aquela querida e inconfundível branquinha, com um triangulo vermelho ao centro, com o Libertas Quae Sera Tamem. Os gringos sempre agradeciam e tomavam aquele gesto como uma homenagem especial. Alguns que aqui estavam por mais tempo (às vezes passavam dois anos como consultores no MEC) se emocionavam às lágrimas.

 Aprendi a amar e respeitar o Pavilhão Nacional desde os tempos de grupo escolar, aos 7 anos de idade. É sempre emocionante assistir ao seu hasteamento, cantando o Hino Nacional. Sempre gostei e por isso me emocionava muito, quando servia por temporadas no exterior, ver uma bandeira brasileira tremulando no mastro da embaixada brasileira ou num  navio deixando porto de Nova York ou Marseille, ou mesmo no alto do leme dos aviões da Varig nos aeroportos estrangeiros.... Ah, a emoção desaba em meio às lembranças da Pátria distante. Não à toa as duas primeiras estrofes que sabemos de cor, dizem:

Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.


Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Para que serve mesmo a bandeira? Ela é o símbolo da Nação, nos proporciona o sentimento de pertencimento à Pátria, nosso solo, berço onde nascemos e construímos nossa vida. Representa o amor, o afeto que se encerra em nosso peito e sempre nos lembra a Pátria-mãe. É puro amor à Pátria!

            Salve a nossa Bandeira Nacional!

 

Brasília, 19 de Novembro de 2022

Paulo das Lavras

 

 
Uruguaias trajando verde amarelo, mas sem esquecer a bandeira de seu país. 
Foto do autor: 2014- Brasília-DF

 


 Acabei segurando a bandeira com o uruguaio, ao lado de franceses. 
Solidariedade brasileira ao amor deles pela pátria distante. 
Foto do autor: 2014- Brasília-DF


 Portando a bandeira do Colégio Sant´Anna, em Itaúna, onde estudei, 55 anos atrás, em 1958. 
Foto do autor: 2013 




 Bandeira num escritório do Departamento de Estado 
Foto do autor: 1989- Washington-DC 


 Cerimônia de Troca da Bandeira – Brasília-DF, todo último domingo de cada mês. 
 Frequentei inúmeras vezes, quase sempre com os filhos ainda crianças.



 




quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Lavras, Rua Santana e a exportação de terno xadrez para os EUA

 

 Única foto disponível do “famoso” paletó xadrez vinho, camisa com enorme colarinho listrado. O autor, voltando de um sorvete com as filhinhas, recém-chegadas em Brasília. Setembro de 1975. 
Foto- do autor


 

Lavras fabricava brinquedos na Metalúrgica Matarazzo que os exportava para todo o mundo, pelo menos até os anos 70. Eram lindos e me lembro de um trenzinho movido à pilha, reluzente e com a logomarca “METALMA”. Mas, poucos sabem que a cidade exportou paletó xadrez para os Estados Unidos e eu próprio cuidei da exportação. Lembrei-me do fato porque o amigo Bertolucci Geraldo Júnior, postou uma crônica relembrando uma das mais famosas e movimentadas ruas de Lavras, minha cidade natal. Hoje, outro amigo colorizou a antiga foto e nela se destacou com mais nitidez o letreiro da fachada da loja Império das Casimiras e Alfaiataria Rajá Ferreira. Hoje, outro amigo, Rogério Salgado, também apaixonado por história e perito na arte de restauração de fotos antigas, retocou a foto e  realçou a loja e  e seu letreiro no alto da fachada. Foi como se eu tivesse voltado no tempo, pois vi em meu imaginário o balcão de corte dos ternos, que ficava bem à entrada. Ali, o talentoso alfaiate passava todo o tempo com suas tesouras, fita métrica, esquadros e giz, cortando os modelos e ao mesmo tempo cumprimentando os passantes. Entrar ali era a festa. Ele se desdobrava em gentilezas e contava causos e causos de gente da cidade e até mesmo de Brasília, onde tinha muitos amigos. Era um prazer imensurável ali passar, ainda que por poucos minutos.

Quando me transferi para Brasília, em 1975, o alfaiate Rajá confeccionou, sob medida, seis ternos completos – paletó com colete para os mais clássicos, e na linha mais casual ternos com camisas incrementadas e gravatas bem modernas, dali mesmo, de sua loja. Tudo combinado, havia “ton sur ton” bem discretos, riscados largos e riscadinhos, xadrez ultra discreto em cor cinza claro, chamado de Príncipe de Galles e até mesmo um em estilo jaquetão, embora não apreciasse muito aquele paletozão. Outros ternos nem eram tão discretos, mas, gostei e aprovei todos. De modo geral, a elegância dos esmerados cortes em casimiras importadas, fazia sucesso aqui no MEC, onde 80% dos funcionários 

 
Foto da Rua Santana publicada na crônica de Bertolucci e colorizada pelo amigo Rogério Salgado.


 

 
O alfaiate Rajá Ferreira da Silva em seu balcão de corte dos tecidos, situado logo á entrada da loja.  Sempre alegre e receptivo aos amigos, mesmo ali durante o trabalho. Veja a quantidade de peças xadrezes na prateleira ao fundo. 

Foto: acervo de Schirley Nogueira Cavalcanti


eram mulheres. Acuidade modal assim..., só mesmo entre as experts, pois elogiavam todos os conjuntos, menos um.  Mas, não deixavam de olhá-lo com certo ar de graça, porém discreto. Extremamente educadas as secretárias e subordinadas ou mesmo as colegas dos outros andares do Ministério da Educação, nunca deixavam escapar nada que pudesse desagradar, apenas elogiavam.

Mas, mesmo assim, cheguei à conclusão de que havia algo de espalhafatoso com aquele terno de paletó xadrez branco e vinho, de tecido mais encorpado. A calça, boca de sino, era inteiramente da cor vinho, combinando com o  xadrez do paletó. A camisa branca, de algodão egípcio trabalhado, de colarinho extremamente exagerado no comprimento e largura, ostentava duas riscas de cor vinho, Até mesmo a gola, supergrande, tinha uma risca  na cor vinho.  (lembrava aqueles colarinhos exagerados do cantor de rock, Elvis Presley). A gravata de seda, para completar o conjunto, também era na cor vinho, inteiramente lisa e um pouco brilhante, sapato marrom e meia também na cor vinho... Ah que beleza extravagante... rsrs. Essa extravagante elegância era comum, nos anos 70, em todo o país. Era moda! Tenho algumas fotos antigas de festas e bailes no Clube de Lavras e até em formaturas, onde se viam ternos xadrezes em quantidade.


 Uma formatura no UniLavras, com o paraninfo e diretor, Prof. Canísio Lunkes,
de terno xadrez e o formando de listrado..., moda dos anos 70. 
Foi motivo de comentários variados nas redes sociais, em 2015. 
Foto- coleção Renato Libeck 


Minhas suspeitas acabaram por se confirmar, pois não é que, certa vez, um gringo que trabalhava comigo, no MEC e recém-chegado dos Estados Unidos, nem português falava, ao ver-me trajado com aquele figurino xadrez, exclamou: Oooh..., very nice, you look like a Christmas tree..., ou seja:  uau, que elegância, você parece uma árvore de natal. Gargalhada geral dos assessores e secretárias que esperavam a minha chegada na sala de reunião. Pela intensidade da hilaridade da plateia deduzi que minhas suspeitas estavam certas. Era mesmo extravagante aquele terno de roupa, no mínimo bastante vistoso...rsrs. Refeito da surpresa e sempre com aquele lema na cabeça, de que a melhor defesa é o ataque, parti para cima do gringo ousado e gozador,  pois até então nenhuma brasileira ousou falar, criticar-me daquela maneira... rsrs. Por isso, não me fiz de rogado, respondi-lhe de pronto: yeah, mister..., it is like you do in U.S.A, tal qual vocês americanos, que usam até mesmo a calça xadrez com paletó de mesmo estilo. Aposto que muitos já viram  gringos trajando grossas calças ou paletós xadrezes de marrom, azul, amarelo abóbora, verde e vermelho, com todas essas cores juntas, embaralhando as vistas.

            O pior dessa história foi que, chegando em casa, contei-a à mesa e a reação foi de apoio à piada do ousado gringo. Nunca mais usei o espalhafatoso terno aqui no Brasil. Pensei numa vingança ao atrevido gringo e coloquei o terno na mala e o deixei no armário de meu escritório em Michigan, onde fazia questão de usá-lo e me igualar eles durante todas as temporadas anuais que lá passava por vários anos. Tornei-me  exportador de paletó xadrez, ainda que um único produzido na Rua Santana, em Lavras. Em 2015 uma longa discussão se travou nas redes sociais, sobre essa moda xadrez e listrados, tendo como fonte motivadora a foto acima ilustrada, do Prof. Canísio. Senti-me novamente vingado, pois a ex-colega de colégio, Maria Lucia Cunha Carneiro, foi a primeira a comentar a postagem de Renato Libeck, dizendo:Um de paletó listado, outro de xadrez, provavelmente, uma foto da década de 70”. Provocada por mim, que lamentava  o meu xadrezão de cor vinho , concordei que era moda naqueles anos , mas sempre fora motivo de piadas. Eram tantas as piadas que até cunharam, jocosamente, a expressão “boco-moco” (talvez a junção abreviada de bocó, bobo, com mocorongo, trapalhão), para  caracterizar aquele indivíduo, de propaganda na TV, que usava calça xadrez boca de sino, camisa colada ao corpo e com enorme gola, cabelo repartido ao meio e enormes costeletas e o indispensável bigode bem grande. As calças as vezes eram listradas, combinando com a camisa xadrez, em cores berrantes, chamativas em tons azul, abóbora, vermelho ou amarelo canário/ouro”, em cores caricatas de um personagem de propaganda comercial na TV, o Boco-moco.

 Tentando reanimar-me em relação à depreciativa crítica sobre aquela moda, a amiga prosseguiu: Pois o xadrez era o luxo da década de 70 e os tons de vinho, inclusive em tecidos brilhantes eram também o que havia de chique! A moda dos anos 70 era mesmo exagerada, feita para chamar atenção. As bocas de sino, ou pata de elefante... Assim, mais de 30 anos depois, reconciliei-me com aquele espalhafatoso terno xadrez vinho, batizado pelo gringo como árvore de natal. Mas já era tarde, pois a moda caíra em desuso. Restou-me lembrar com carinho do alfaiate Rajá, falecido precocemente em 2010, que era antenado a seu tempo e queria que o menino se apresentasse bem trajado na capital em suas andanças pelos palácios e ministérios... Aliás, ele próprio gostava de trajar o xadrez, como mostra a foto abaixo, quando foi nos receber no avião da FAB em visita à Lavras, acompanhando o Ministro Paolinelli, para  a inauguração de uma Cooperativa Agrícola e visita à EsaL/Ufla, em 1976.  

 
Rajá Ferreira da Silva, o alfaiate,  primeiro à direita com seu paletó xadrez jogado ao ombro. Em linha reta, da frente para o fundo: Rajá, Alysson Paolinelli e este autor, trajando o jaquetão. 
À esquerda, de perfil, bigode e óculos, o saudoso prof. Evandro Menicucci, com o prof. Joel Cesar. 
A seu lado o Prof.  Juventino de Souza,  de camisa xadrez, junto ao Alysson. 
Foto: arquivos Museu Ufla 


            Sempre que visitava Lavras, era obrigatório passar naquele endereço da Rua Santana  e provocávamos o amigo Rajá Ferreira. Invariavelmente eu lhe perguntava, mesmo mais de 20 anos depois: “Rajá, você faz um terno xadrez para mim? Bem espalhafatoso, igual aquele primeiro que já se acabou por lá...  Quero usá-lo somente nos Estados Unidos, pois lá eles adoram calças e paletós xadrezes...” . Era a senha de saudação seguida de gostosas gargalhadas e longas prosas. Rajá gargalhava sem parar, pois conhecia muito bem a primeira história que havia lhe contado, anos antes, sobre a gozação do gringo... you look like a Christmas tree.... Bons tempos, daquele querido e estimado alfaiate. Amigos que se foram, saudade que fica, chama de amor e amizade que ora desperta de nosso subconsciente. Saudosa Rua Santana, nosso caminho diário, por tanto tempo, em direção à Esal/Ufla, Gammon e tantos outros lugares da cidade.

Obrigado, amigo Bertolucci, por trazer-nos, em sua página, tão queridas recordações de nossa terra e sua gente. Tens razão, aquela rua é cheia de lembranças. Muitos outros causos povoam a nossa memória, como aquela que comentei em sua crônica, quando contei que o Deli Leão ganhava a nossa preferência na compra de material escolar em sua papelaria e livraria, simplesmente porque nos oferecia um brinde: o mata-borrão. Todo estudante tinha pelo menos uma meia dúzia dessa peça, importantíssima para minimizar os desastres com nossas canetas tinteiros dos anos 50/60, quando ainda não existiam as esferográficas.

A cada dia que passa mais me convenço daquela lição de Olavo Bilac:  “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!  Criança, não verás nenhum país como este!” Pura verdade, falar de Rua Santana e outros logradouros e principalmente de pessoas da terra natal, depois de quase 50 anos de ausência, é como destravar o subconsciente que derrama toda a saudade que, nada mais é  do que o amor que fica.  E esse amor é tão latente que até criei um pseudônimo - Menino das Lavras.  bem coerente para o meu blog de saudosas crônicas: 

Brasília, 03 de novembro de 2022

Paulo das Lavras


Rajá em seu carrão, Simca Chambord, em frente sua loja na Rua Santana. 
Foto: acervo de Schirley Nogueira Cavalcanti
  


Foto mais antiga da Rua Santana, talvez de 1959 ou 60. Ainda aparece o casarão bem ao fundo. 
Seria, o casarão do ex-prefeito João Modesto? 
Foto: coleção Renato Libeck