sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Novembro da negritude – começou a igualdade


Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor
de sua pele, por sua origem ou ainda por sua
religião. Para odiar, as pessoas precisam
 aprender  e, se podem aprender a odiar,
 elas podem ser ensinadas a amar.

            Novembro chegou... e com ele as reminiscências de uma das questões mais tristes da história da humanidade e principalmente em nosso país, a escravidão. Mas, uma luz no fim do túnel se acendeu, pois em recente pesquisa, divulgada em maio do corrente ano, realizada pela Andifes- Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, indicou que 51,2% (cinquenta e um vírgula dois por cento) dos estudantes matriculados em universidades públicas são negros. Não é tudo o que desejávamos, pois no mercado de trabalho ainda são minoria, mas, já é um grande ganho, um passo gigantesco no sentido de alcançarmos a igualdade racial. Tudo começa com a educação, com a qualificação da mão de obra. Dias melhores virão!

Mas, por que só em novembro se abrem as discussões se o negro enfrenta problemas de discriminação todos os dias? Por que então falar agora em “não discriminar”, discriminando-se, criando-se um dia especial, o Dia da Consciência Negra? Simples, pois, é verdade que todos os dias devem ser considerados igualmente respeitosos ao negro, mas, não é assim na prática. Ainda hoje há muito desrespeito, racismo mesmo, para ser simples e direto com as palavras. A data, portanto, é simbólica e serve de alerta à sociedade.

Foi em 1970 que um grupo de quilombolas gaúcho decidiu eleger o mês de novembro como o mês da Consciência Negra. O patrono escolhido foi Zumbi, líder do Quilombola dos Palmares, que se tornou o símbolo da luta de resistência contra a escravidão. Tombou em 20 de novembro de 1695, no campo de batalha contra as tropas coloniais, na Serra da Barriga, Alagoas.

A História do Brasil retrata escravidão como pacífica, com o negro, escravo, conformado, pacífico e que hoje desfrutamos de uma democracia racial. Não foi e tampouco é assim! Houve e ainda há conflitos raciais. A escravidão por si própria já é cruel. Quem, de sã consciência, admite perder a sua própria liberdade? No final dos anos de 1970, vivi o medo dominante em certas regiões dos EUA. Na região de Detroit, onde trabalhei isso era constante. Mais recentemente, nos anos 90, no limiar do século XXI, assisti, ao vivo, in locco, numa colônia de um pais europeu, uma manifestação de negros nativos, clamando pela independência da colônia, bem ali fronteiriço ao Brasil. Aproveitaram a presença dos estrangeiros, numa recepção nos salões da prefeitura, quando do encerramento de um grande evento internacional.  Senti-me com a alma dolorida ao ouvir os protestos, ainda que em outro idioma. Eram negros clamando pela sua própria liberdade do jugo europeu.

Pois bem, os escravos negros que aportavam no Brasil, em navios negreiros, eram capturados à força e vendidos como mercadoria. Aqui chegaram desde os meados do século XVI, ou seja, logo após o descobrimento do Brasil. Vinham das colônias portuguesas da África, inicialmente para as lavouras de cana de açúcar no nordeste e mais tarde, já no século XVII, destinavam-se principalmente para a mineração de ouro em Minas e lavouras de café do vale do Paraíba e sul de Minas. Não foi pacífica a escravidão no Brasil, pois logo, ainda no século XVII, eclodiu a revolta dos Palmares na região nordeste produtora de cana de açúcar. Não foi diferente em Minas Gerais, onde se concentrava boa parte da população escrava em suas minas de ouro. Inúmeras foram as rebeliões nos Quilombos da região, como o de Campo Grande, com suas mais de 27 vilas, maior até mesmo que o dos Palmares (Trombucas e Calunga foram dois quilombos que integravam as vilas do Campo Grande, situado a em Nepomuceno. O Quilombo do Rei Ambrósio, foi o maior deles, situado em Cristais-MG, durou 20 anos e foi atacado pelas tropas do governo em 1746,), havendo inclusive participação de Lavras, na luta contra esses quilombolas a seu redor, até mesmo próximo à Ibituruna, conforme relatos do capitão Francisco Bueno da Fonseca, um dos fundadores da cidade de Lavras. Os comandantes das tropas eram, em sua maioria de Lavras, pois ali era ponto estratégico para a logística daquela guerra contra os negros. Ao final, Bartolomeu Bueno do Prado, um dos grandes vitoriosos, apresentou 3.900 pares de orelhas dos negros abatidos nos campos de batalha, segundo informa o historiador Nemeth-Torres (Németh-Torres, Geovani, 1986 – História Geral de Lavras, Volume I- Lavras, MG. 2018. 296p).

Os negros nunca tiveram a atenção e devido respeito, mesmo depois da abolição da escravatura, em 1888. Aliás, o desrespeito prevaleceu mesmo durante o ato de elaboração da Lei Áurea. Era intenção da Princesa Isabel, destinar em lei, um pedaço de terra para cada família de escravo liberto. Seria o seu meio, imediato, de subsistência, ao ser liberto ou expulso das fazendas, como de fato aconteceu. Alguns poucos conseguiram a benevolência dos antigos patrões e ali permaneceram a troco de comida e uma troca de roupa de algodão grosseiro. Mas, a grande maioria correu para a cidade e então deu-se inicio a formação das favelas nas periferias das cidades. Em todas elas, em todos os municípios a miséria dos negros era vista nas favelas. Não importava o tamanho da cidade, Minha própria cidade natal, Lavras, tinha em cada uma das estradas de saída para as fazendas, um a fieira de miseráveis casinhas de adobe ou pau a pique. Visitei muitas delas, em 1967, em trabalhos de pesquisa estudantil, de sociologia rural do curso de agronomia. Foi assim nos casebres das saídas para ponte do Funil, da Rua do Capim próximo à igreja de N.S Aparecida, da ruela à esquerda do túnel em direção ao antigo Batalhão de Infantaria (hoje Rua Donato Bauth), a viela na saída para a Ponte Alta, enfim em todas as direções onde havia uma estrada que ligasse a cidade à zona rural, lá estavam as fileiras de casebres, onde se abrigavam os antigos escravos libertos e seus descendentes diretos. Ali permaneciam ainda nas décadas de 1950 e 60, paupérrimos, sem teto digno e passando privações de toda a ordem, da comida à saúde e a falta de escolaridade. Triste cena, triste sina a dos ex-escravos e seus descendentes diretos, na minha terra por onde andei e percorri as vielas, em situações não diferentes em todo o Brasil.

Não vamos aqui desfiar estatísticas sobre a fome, desemprego, criminalidade e mortes, em números muito maiores no segmento da raça negra em nosso país (75.6% das vítimas de homicídio em 2017). São por demais conhecidas. Queremos sim buscar corrigir as injustiças atávicas e para isso, enfatizamos as palavras do grande líder sul-africano, Nelson Mandela e aqui colocadas em epígrafe logo após o título desta crônica.  Precisamos ensinar nossa pátria a amar aqueles que um dia foram prejudicados pelo maior erro da humanidade, a escravidão. Precisamos batalhar para mudar o olhar da sociedade sobre a questão do preconceito racial em relação aos negros. Tenho orgulho de ter trabalhado e contribuído, aqui no Ministério da Educação, para a aprovação das cotas raciais em universidades, pois nossa dívida social para com os negros é impagável e tudo que fizermos para mitigar os efeitos dessa injustiça social ainda será pouco. Bem vinda Lei das Cotas (Lei 12.711/12). Graças a ela, temos hoje um empate técnico entre o percentual de população e de estudantes universitário nas universidades públicas. Aí está o primeiro grande passo para a igualdade e equidade racial, com imparcialidade e justiça, pois afinal todos nós, independentemente de raça, cor, religião ou outro critério social, ajudamos a construir a nossa Nação.

Que nesse mês de Novembro, quando se comemora a Consciência Negra, tenhamos de fato consciência da nossa responsabilidade social e possamos contribuir para educação de nosso povo, com amor e não o ódio, como bem nos ensinou o Sr. Mandela. Que em breve, possamos falar dos negros iniciando-se pelos seus grandes feitos, suas contribuições em todos os ramos da ciência e da tecnologia em prol de nosso povo e não tenhamos que deles falar iniciando-se pela escravatura e seus efeitos maléficos sobre a humanidade. Tenho certeza que em breve teremos muitos expoentes, negros, em todos os campos do saber. Longe se vai o meu tempo de estudante. Entramos 250 meninos na primeira série do ginásio (atual Ensino Fundamental, anos finais), com apenas uns dez coleguinhas negros. Destes, apenas dois chegaram ao 3º científico (atual Ensino Médio). Ambos não puderam pagar cursinhos pré-vestibulares e até tiveram que interromper os estudos para trabalhar e ajudar no sustento da família. Só ingressaram na universidade dois e cinco anos depois. Um deles foi meu aluno no último ano do curso de Agronomia. Longe se vai, também, meu tempo de menino convivendo com idosos filhos de ex-escravos e os netinhos nossos companheiros de brincadeiras, cavalgadas, caçadas e natação nos córregos e ribeirões das fazendas. Nenhum desses amiguinhos conseguiu concluir sequer o curso primário. Há alguns anos visitei um deles, numa humilde casa na periferia da cidade, sobrevivendo com pequena aposentadoria do antigo Funrural. Doeu a alma, doeu o coração com tanta injustiça social, até mesmo cravada em leis e regulamentos que proibiam atividades ou a participação de negros na sociedade. No futebol (lembram-se do apelido de um time carioca? Pó-de-arroz, porque passavam esse pó nos jogadores mulatos para encobrir a negritude e parecer que eram da raça branca..., pode isso?), ou então nas artes, como a proibição, até os anos de 1930, de qualquer referencia cultural como o samba e a capoeira. Bem vinda a lei das Cotas Raciais nas universidades publicas. E pensar que ainda há quem proteste contra essa mais que justa reparação. Será que também protestaram contra a lei que proibia sambas e capoeiras ou ainda a presença de jogadores negros no futebol?

Dias melhores virão, pois a Educação é a principal ferramenta para combater a discriminação entre nossos irmãos que, tanto quanto nossos pais trabalharam para a construção de nossa Nação. Afinal, quase 70% dos brasileiros são miscigenados.

Brasília, 01 de novembro de 2019

Paulo das Lavras





 
Neste mês da Consciência Negra, homenageio, com alegria, um dos colegas engenheiros, negro com muito orgulho,
ali, no mais alto foro de representação dessa classe profissional, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, onde atuei por 12 anos.











sábado, 12 de outubro de 2019

A Vida dá Muitas Voltas – Infância Feliz, “pagando os franguinhos”


Infância feliz! “Guardo as memórias que me trazem riso,
 as pessoas que tocaram a minha alma e
 que, de alguma forma, me mudaram para melhor.
 Guardo também a infância toda tingida de giz.
Tinha jeito de arco-íris a minha”.


  
A vida dá muitas voltas, diz a primeira frase do título acima e é de uma profundidade imensa. Ela abre a crônica do Dr Howard Kelly, que recebi de minha filha. Uma linda história. Respondi a ela lembrando um fato semelhante que acontecera comigo. Ainda hoje, passados muitos anos eu relembro o ocorrido, contando-o aos meus filhos e enfatizando o prazer, a alegria de se ter a oportunidade de se corrigir um erro cometido, ou simplesmente retribuir um mimo, uma graça recebida de outrem. O Dr Howard Kelly, protagonista da crônica em questão, não cometera nenhum ato que merecesse reparo, mas, guarda muita semelhança com aquilo que se passou com este menino travesso, que gozava de plena liberdade em sua chácara a 300 metros de uma das principais ruas da cidade. Ao contrário do menino travesso, o Dr Kelly ganhou um copo de leite, quando ainda menino e faminto, foi bater à porta de uma senhora para lhe vender algo. Veja sua história:

         “... O maior erro do ser humano é tentar tirar da cabeça aquilo que não sai do coração...". Assim começa a crônica, descrevendo a vida de um rapaz pobre chamado Howard Kelly que vendia mercadorias de porta em porta para pagar seus estudos. Um dia, viu que só lhe restava uma simples moeda de dez centavos e tinha fome. Decidiu que pediria comida na próxima casa.  Porém, seus nervos o traíram quando uma encantadora mulher jovem lhe abriu a porta. Em vez de comida, pediu um copo de água. Ela pensou que o jovem parecia faminto e assim lhe deu um grande copo de leite. 
        Ele bebeu devagar e depois lhe perguntou: Quanto  lhe devo? 
        - Não me deves nada - respondeu ela. E continuou - Minha mãe sempre nos ensinou a nunca aceitar pagamento por uma oferta caridosa. 
        Ele disse: - Pois te agradeço de todo coração. 
        Quando Howard Kelly saiu daquela casa, não só se sentiu mais forte fisicamente, mas também sua fé em Deus e nos homens ficou mais forte.  Ele já estava resignado a se render e deixar tudo. 

        Anos depois, aquela mulher ficou gravemente doente. Os médicos locais estavam confusos. Finalmente a enviaram à cidade grande, onde chamaram um  especialista para estudar sua rara enfermidade.  Chamaram o Dr. Howard Kelly. Quando escutou o nome  do povoado de onde ela viera, uma estranha luz encheu  seus olhos.  Imediatamente, vestido com a sua bata de doutor, foi ver a paciente. Reconheceu imediatamente aquela mulher.   Determinou-se a fazer o melhor para salvar aquela vida. Passou a dedicar atenção especial aquela paciente.   Depois de uma demorada luta pela vida da enferma, ganhou a batalha.

        O Dr. Kelly pediu a administração do hospital que lhe enviasse a fatura total dos gastos para aprová-la.  Ele a conferiu e depois escreveu algo e mandou entrega-la no quarto da paciente. Ela tinha medo de abri-la, porque sabia que levaria o resto da sua vida para pagar todos os gastos. Mas finalmente quando abriu a fatura algo lhe chamou a atenção, pois estava escrito o seguinte:

  Totalmente pago há muitos anos com um copo de leite  (assinado). Dr.Howard Kelly. 

        Lágrimas de alegria correram de seus olhos e seu  coração feliz rezou assim: Graças meu Deus porque teu amor se manifestou nas mãos e nos corações humanos. 
        "Na vida nada acontece por acaso."

Com esse adágio o cronista encerrou a história vivida pelo Dr Kelly. E é verdade, concordo inteiramente que nada acontece por acaso em nossas vidas.  Eu próprio tive uma experiência  em tudo semelhante à relatada acima. Morava numa grande chácara com mais de 20 hectares  (mais de 20 campos de futebol ou 200.000 m²), com enorme casarão de seis quartos, casa de empregado, plantações diversas, um grande pomar, córrego, mata nativa, vacas, cavalos, etc., etc., situada praticamente dentro da cidade e hoje se transformou em Vila Cruzeiro do Sul. Era muito freqüentada pelos amigos de infância que ali se sentiam no paraíso, pois, desfrutavam de tudo, futebol, cavalgadas, touradas (com bezerros, lógico) adestramentos de animais, pescaria, natação, caçadas nas matinhas e melhor de tudo, da fartura das frutas do variado pomar que tinha pêssegos, marmelos, cana de açúcar, bananas de diversas variedades, ameixas, goiabas, laranjas, jabuticabas e muitas outras, de modo que se podia saboreá-las em todas as estações do ano. Um paraíso para crianças de dez anos que querem liberdade para inventar suas próprias brincadeiras.

 Certa vez, esses amiguinhos, incluindo também meu irmão mais novo (ele também se lembra do ocorrido e não economiza gargalhadas quando rememoramos o caso), inventaram de praticar estilingadas em todos os pintinhos de uma galinha que ciscava por perto. A galinha não era nossa e também não sabíamos a quem pertencia e, por isso, concordei e ainda participei da matança, embora não tenha acertado nenhuma estilingada. Além de ruim de bola (era dono da bola e do campo de futebol) era também péssimo no estilingue, talvez pela deficiência visual, pois havia perdido a visão direita em acidente aos cinco anos de idade. Mas, foi uma diversão e tanto e parecíamos um bando de malvados, avalio hoje, pois a cada alvo abatido em plena correria e vôos desesperados das vítimas, comemorávamos a vitória daquela “tropa” de elite que, ao final, abatera todos os inimigos – os indefesos pintinhos - que eram em número superior a 10 ou 12.

    Mais tarde, naquele mesmo dia,  uma pobre viúva andou procurando os pintinhos, já que a galinha chegara à casa sozinha, sem eles. Minha mãe, que era muito caridosa (sempre tinha um velhinho ou criança amadrinhados para ajudar ou criar), foi procura-los no nosso enorme quintal. E, nada! Os malfeitores, muito ladinos, já haviam dado sumiço nos pintainhos mortos a estilingadas. Não me lembro exatamente se os enterramos ou jogamos na matinha que existia ao lado do curral, onde a galinha estava ciscando os restos de ração caídos no chão e alimentando a sua prole.

    Ao lado de minha mãe e da dona dos pintinhos, “ajudei” a procurá-los, caladinho, desconfiado que só, com medo da surra certa se descoberta fosse a arte do menino custoso.... Procuramos no curral, na matinha, no paiol, no galinheiro, pomar e..., obviamente, nada encontramos...! Enquanto procurávamos, a pobre ex-dona contava que aqueles pintinhos se destinariam, no futuro, à venda dos frangos e as frangas  seriam reservadas para produção de ovos. Quanto mais ela falava mais eu me sentia culpado, com um remorso condoído de saber que aqueles pintinhos se tornariam sustento para seus filhos. Tive vontade de confessar para minha mãe, ali mesmo na presença da viúva, com a esperança de que, talvez,  ela a recompensasse em dinheiro ou com outros franguinhos. Mas, o medo, natural de crianças travessas, foi mais forte. A pisa certeira com a vara de marmelo era mais temida que o suposto assombração, que aparecia na mata nas sextas feiras da quaresma. Era aterrador e portanto, compreensível que tivesse faltado coragem para a confissão. Ficou  apenas o remorso de ver a tristeza daquela pobre mãe que estava cuidando de encontrar o que era seu e que, inexplicavelmente, desaparecera. Ficou apenas o mistério, pois galinha alguma abandonaria sua prole de mais de dez pintinhos e voltaria sozinha para a casa.

    Carreguei esse  pesado remorso em segredo, sem contar a ninguém, até que um dia, passados  mais de 10 anos, uma das filhas daquela viúva bateu à porta de nossa casa para pedir algum dinheiro emprestado para pagar o médico e os remédios necessários para a sua mãe. Ao chegar a casa após o trabalho tomei conhecimento do pedido e exultei de alegria. Pensei comigo mesmo, chegou a hora de retirar aquele pesadelo de minha consciência. Pedi à minha irmã que avisasse à viúva que eu iria providenciar o dinheiro no dia seguinte.

              Quando a garota voltou, na hora aprazada, para buscar o dinheiro, fiz questão de fitar bem o seu semblante humilde e até mesmo acanhado e dizer-lhe: Diga à sua mãe que o dinheiro não é emprestado, pois, estou pagando a ela aqueles 10 ou 12 pintinhos que há muito tempo desapareceram aqui no nosso quintal. Diga, ainda, que eu e os amiguinhos, todos nós muito travessos, havíamos dado cabo a todos eles, praticando a pontaria com estilingue. Peça-lhe também que me perdoe por não ter confessado isto a ninguém, nem mesmo à minha mãe que  falecera, prematuramente, pouco tempo depois do ocorrido. Diga-lhe, finalmente, que o valor daqueles pintinhos, que agora está sendo resgatado, está multiplicado por muitas vezes, mas, ainda assim acho que está aquém do peso do remorso que carreguei por todo esse tempo. Portanto, leve o dinheiro suficiente para pagar a consulta médica e os remédios necessários e que ela se restabeleça logo.

            Ao tomar conhecimento da história do  Dr Howard  Kelly,  veio-me à memória esse caso semelhante que se passou comigo. Para ele foi uma enorme satisfação ter tido a chance de retribuir, com valor financeiro infinitamente maior, um ato, um simples copo de leite recebido, que foi um gesto de amor daquela senhora, havia muito tempo. Para mim também foi uma chance de ouro poder corrigir a estripulia de garoto, que me pesava na consciência por longo tempo e, melhor ainda, ter podido retribuir na hora certa e com valor  muito acima do prejuízo material causado. O meu alívio foi multiplicado pela sensação de ter feito uma ação caridosa, no momento certo, socorrendo a quem muito necessitava.

 Acho mesmo, como disseram ao final daquela mensagem, que "na vida nada acontece por acaso". Deus faz com que as pessoas “apliquem” algum tipo de capital na hora certa, pode ser um copo de leite ou os franguinhos supostamente perdidos ou, quem sabe, apenas uma palavra de conforto a uma pessoa necessitada e, algum tempo depois, elas o recebem de volta, em dobro ou multiplicado muitas vezes. Sim, mas quando receberemos de volta a boa ação que viermos a praticar? Isso não importa. Pratique-a sempre! Basta lembrar o velho adágio: Os filhos colherão os frutos que seus pais plantarem, ou seja, mesmo que a recompensa não seja percebida por você, seus filhos estarão sempre colhendo o reconhecimento, a gratidão daqueles que conhecem ou conheceram as boas ações de seus pais. Mais, ainda, os próprios filhos reproduzirão aquele modo de vida que sempre vivenciaram..., o amor ao próximo, numa vida sadia e emocionalmente equilibrada, de bem consigo mesmo e com a vida ao redor. Mas, por que assim? O cronista que escreveu a história do Dr Howard também tem a resposta: “... O maior erro do ser humano é tentar tirar da cabeça aquilo que não sai do coração...”.

Ora, vejam a frase do poeta e pensador Caio Fernando de Abreu, acima destacada em epígrafe: Guardo as memórias que me trazem riso, as pessoas que tocaram a minha alma e que, de alguma forma, me mudaram para melhor. Guardo também a infância toda tingida de giz. Tinha jeito de arco-íris a minha”. E ainda acrescento: A vida foi justa comigo, pois o que é plantado no coração jamais sairá. Permanece ali para sempre. As fotos de minha a infância, que ilustram o texto, são em preto e branco, mas as lembranças são coloridas e plagiando o citado poeta, também têm as cores dos arco-íris, bem coloridas. Paguei os franguinhos com amor no coração, em dobro e grato a Deus por ter tido uma infância feliz e ter-me concedido à oportunidade de retribuir a alguém que necessitava de ajuda. Tudo na hora certa. Assim é a vida de quem tem a boa semente plantada no coração, ainda que às vezes erremos, mas sempre haverá a chance de se corrigir e este ato nos redime a alma.

E Salve o dia de hoje, o Dia da Criança!

Brasília, setembro de 2002/ outubro de 2019

Paulo das Lavras  


O menino, em 1948, quando deixou a fazenda aos três anos de idade e mudou-se para a cidade. 
A escola já esperava as irmãs mais velhas. Ali foi morar numa enorme chácara, verdadeira fazendinha,
 seu paraíso, onde recebia os amiguinhos e faziam muitas travessuras.


A casa da chácara, na cidade de Lavras, emoldurada pela belíssima Serra da Bocaina e pelos
 ipês amarelos. O menino deixou a fazenda, mas apenas mudou de endereço,
pois ali também era uma fazendinha. Doce infância em meio à natureza e vários
 amiguinhos que  ali frequentavam e também desfrutavam das delicias daquele paraíso.




 
Na primeira comunhão, aos dez anos. Nos anos da década de 1950 os meninos usavam
 terno completo, com gravata e sapato de verniz, impecáveis, para toda e qualquer
solenidade, até mesmo para as missas de domingo. Adorávamos usar
calça comprida,  imitando os adultos, pois durante a semana inteira
predominavam as calças curtas.



 
Vinte anos depois, os filhos também adoravam os fins de semana na chácara,
onde  inventavam os próprios brinquedos.


As crianças de hoje são mais conscientes no trato com os animais e a natureza em geral


Mesmo mais grandinhos, ainda brincam com os franguinhos, mas com cuidado,

devolvendo-os ao seu ambiente


Brincar com os netos é reviver a felicidade, a alegria da infância.
Tirar os sapatos, sentar no chão é como se nos tornássemos crianças novamente.
O poeta e filósofo Rubem Alves tem razão, pois “os velhos se tornam
crianças e sabem que a vida é alegria”









sábado, 28 de setembro de 2019

Honras militares e a Igreja do Rosário em Lavras


Um cronista sempre observa detalhes do dia a dia em busca de algo que possa lhe inspirar um conto, uma história interessante que mereça ser compartilhada com seus amigos. Não é diferente com o Menino das Lavras. Há dois dias um amigo postou nas redes sociais a foto de uma praça em ângulo de visada s mostrando, em segundo plano, a principal praça de minha cidade natal. A praça lateral,  que leva o nome de um parente, João Oscar de Pádua, mostra também a lateral da imponente Igreja do Rosário, a primeira da cidade, inaugurada em 1754, há 265 anos. Impressionou-me aquele belo cenário, também emoldurado pelas quase centenárias palmeiras imperiais que circundam o Colégio Carlota Kemper, mais ao fundo. Amanheci dia seguinte, com um sonho diferente dos usuais, uma arquibancada um pouco perigosa, na outra lateral daquela antiga igreja, junto ao não menos belo, o Sobrado do Capitão Evaristo Alves, avô do nosso inesquecível e admirado filósofo, escritor e poeta Rubem Alves. Despertado, não consegui entender o contexto. Somente hoje, ainda em estado hipnagógico, acordei com o barulhão de um helicóptero militar em voo rasante e veloz a cem metros de minha janela. Foi então que compreendi o sonho da manhã de dois dias antes. A foto postada pela amiga nas redes sociais havia disparado o gatilho do subconsciente que, em sonhos liberou as imagens da infância e da adolescência gravadas para sempre na memória cintilante, como definem os cientistas da neurologia. Pois bem, a arquibancada perigosa existiu. Foi um palanque ali armado e que despencou com as autoridades, fato presenciado pelo menino. O avião militar de hoje, com seu brusco e inesperado barulhão de duas turbinas a jato fez me lembrar dos perigos que corri nas mesmas arquibancadas da Igreja do Rosário e outra na Esplanada dos Ministérios, aqui em Brasília.

Nunca fui militar, nem tive parentes ascendentes nessa carreira profissional. Mas, desde menino convivi com militares. Homens probos, pais de família exemplares, caráter e patriotismo a toda prova. Foram assim, os sargentos Alcino, Vila Boas, Bahia e Francisco de Assis, italiano de olhos azuis e maestro da banda militar, além dos tenentes Arruda e Agnelo. Todos vizinhos moradores da mesma rua. Saíam cedo de suas casas, impecavelmente uniformizados, portando pastas recheadas de documentos e só voltavam ao final da tarde. Sempre nos cumprimentavam com carinho e muitas das crianças se colocavam em posição de sentido e prestavam-lhes continência, naquele gesto de cumprimento próprio dos militares. Seus filhos eram os nossos amiguinhos de jogar finca, peladas de futebol no campinho da Estação Costa Pinto, cavalgadas, caçadas e natação no córrego da imensa chácara onde morávamos. Amizades que se consolidaram e ainda hoje nos unem. Gostávamos, também, de ouvir à distância, todas as manhãs, o toque do corneteiro que anunciava a chegada do comandante geral à sede do 8º Batalhão de Infantaria, a pouco mais de um quilômetro. Também empolgava os meninos o rufar dos tambores e acordes da banda de musica que desfilava pelo quartel ou mesmo nas ruas da cidade, em preparação para os desfiles de 7 de Setembro. Não raras vezes acorríamos à rua e muitas crianças saíam marchando atrás de pelotão. Éramos tratados com carinho pelo militares e à chegada do portão do quartel, não raras vezes convidados a adentrar ou ali mesmo, no portão e às vezes, recebíamos um mimo, geralmente balinhas, trazidas do armazém de subsistência que vendia alimentos a preço de custo para as famílias da tropa militar.

Nessa sequência das doces reminiscências da infância, o desfile de 7 de Setembro era o ponto máximo. Todas as escolas do ensino fundamental e do segundo grau desfilavam diante da tribuna de honra, na praça central da cidade. Mas o ponto alto era o desfile militar, o Tiro de Guerra 0264 e a Policia Militar. Não havia criança que não se postasse ali no cordão de isolamento, bem em frente ao desfile e ao passar o ultimo soldado, alguns corriam a desfilar logo atrás. Assim o menino cresceu em meio a um ambiente respeitoso e de admiração aos militares. Cultuou esse costume levando os próprios filhos aos desfiles militares do dia da pátria. E parece que o espírito patriótico influenciou, também, uma das filhas que se integrou às Forças Armadas, na carreira temporária da primeira turma de oficiais femininas.

  Aqui, na capital da república, os desfiles militares eram mais constantes, pois, acostumada a receber dignitários estrangeiros, sempre oferecia recepções com honras militares, pompa e circunstância, em frente ao Palácio do Planalto. Salva de 21 tiros de canhão, subida da rampa palaciana, Dragões da Independência em saudação com suas lanças, em meio à subida do Presidente da República acompanhado de outro Chefe de Estado estrangeiro. Belíssimas e memoráveis cerimônias que empolgam não somente as crianças, mas também a todo cidadão, orgulhoso de sua Pátria.

As solenidades de troca da Bandeira Nacional, na Praça dos Três Poderes, acontecem a cada primeiro domingo do mês. A solenidade é revezada pelas três Forças, Exército, Marinha e Aeronáutica. É um dos eventos cívico-militares mais bonitos. Começa pelo ato chamado de incorporação da Bandeira, onde um batalhão homenageia a bandeira, seguindo todo um ritual, iniciando-se pela execução da Canção dos Expedicionários, seguida pelo Hino da Bandeira, enquanto os soldados em trajes de gala entregam a bandeira nacional a outro oficial que a transporta solenemente. Linda cerimônia, que às vezes conta com a presença do Presidente da República.

 No campo cultural os militares oferecem verdadeiros espetáculos ao público em geral, quase sempre na semana dedicada ao soldado, no mês de agosto ou mesmo na Semana da Pátria. Descobri isso de uma forma um tanto inusitada, pois quase caí da arquibancada, na Esplanada dos Ministérios, quando, à noite, assistia a um concerto da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Executava-se a ópera “Abertura de1812” de Tchaikovsky quando, totalmente inebriado pelos acordes da belíssima Marselhesa, hino da França, e o repicar dos sinos de Moscou que cantavam a vitória dos russos sobre as tropas de Napoleão, eis que pipoca um estrondo ensurdecedor por debaixo das arquibancadas. Eram os canhões do Regimento de Cavalaria de Guarda que, em sintonia com a ópera, disparavam os canhões, verdadeiros, que compunham a sinfonia. Se estava flutuando com os embalos da sinfonia de sinos da vitória, literalmente voei com o potente estrondo do primeiro tiro de canhão a menos de 30 metros, atrás das arquibancadas. Nunca tinha assistido a uma performance com tiros ao vivo. Surpresa mais que emocionante, ali a imaginar as tropas napoleônicas abatidas pelo inverno siberiano e os sinos de todas as catedrais moscovitas a repicar incessantemente. Tempos depois, tive o privilégio de tocar com as mãos, num museu na França, aqueles mesmos canhões recuperados nas neves da Sibéria.

Nosso subconsciente não falha, registra tudo e os fatos mais marcantes ficam para sempre na chamada memória cintilante. Sob qualquer estímulo externo as imagens brotam, ainda que em sonhos oníricos e à cores para nos deleitar a alma saudosa, bem assim:
"Eu carrego comigo uma caixa mágica onde eu guardo meus tesouros mais bonitos. Tudo aquilo que eu aprendi com a vida, tudo aquilo que eu ganhei com o tempo e que vento nenhum leva. Guardo as memórias que me trazem riso, as pessoas que tocaram a minha alma e que, de alguma forma, me mudaram para melhor. Guardo também a infância toda tingida de giz. Tinha jeito de arco-íris a minha. O pouco é muito para mim. O simples é tudo que cabe nos meus dias. Eu vivo de muitas saudades. E quem se arrebenta de tanto existir, vive para esbanjar sorrisos e flashes de eternidade". Foi assim que se expressou o pensador Caio Fernando de Abreu.

 Pura verdade! Guardo também a infância toda tingida de giz. Tinha jeito de arco-íris a minha, nos jardins da cidade. Militares? Igrejas? Expedicionários da FEB na Itália? Ah..., só tenho doces recordações deles e da infância colorida na Terra dos Ipês e das Escolas. Obrigado, Lavras! Obrigado a seus filhos que, mesmo distantes por mais de quatro décadas, ainda permanecem vivos a ponto de me despertarem, em sucessivas manhãs, com sonhos coloridos de doces reminiscências, especialmente de nossos bravos Expedicionários que lutaram na Itália.


Brasília, 28 de setembro de 2019

Paulo das Lavras





Praça João Oscar de Pádua – Lavras MG, em reforma pela SELT. 
Igreja do Rosário, tombada pelo Patrimônio Histórico de MG, inaugurada em 1754. 
Em frente, o Jardim e ao fundo, as quase centenárias palmeiras imperiais que circundam 
o antigo Colégio Carlota Kemper, outro patrimônio da cidade
Foto: família Padua

Sobrado do Capitão Evaristo Alves, imponência, ao lado da Igreja do Rosário, à direita.
Entre os dois prédios armava-se o palanque politico que um dia desabou.
Foto: arquivos de Renato Libeck


Fachada a da Igreja do Rosário- Lavras 2015
Foto do autor


Com o sobrinho, um capitão-Mirim da PM. Desfile de 7 de Setembro-Lavras.
Revivendo o passado, marchando atrás dos militares em desfiles. 
Foto do autor 2012


Salva de 21 tiros, saudando a chegada de Chefes de Estados Estrangeiros
Foto: Ascom- Presidência da República


Troar assustador dos canhões – Solenidade no QG do Exército- Brasilia
Foto - QGEx

         Com o  Pracinha da FEB, Ten. Nestor Silva , em solenidade no QG do Exército.
 Foto do autor - Brasília 2019


Em Desfile de 7 de Setembro, num jipe caracterizado da 2ª Guerra Mundial
Foto do autor - Brasília 2018





Os canhões de Napoleão, Praça des Invalides- Paris. Gelados, a menos
de zero grau, como a relembrar a derrota no inverno russo de 1812. Não
há como não imaginar e “ouvir”, ali mesmo, a célebre ópera de 1812,
de Tchaikovsky, com a marcha da Marselhesa e
depois os acordes das marchas russas comemorando a derrota do
Imperador Napoleão, diante do tal “general inverno”, mais rigoroso que
aquele gelado dia de dezembro de 2013 na capital francesa.
Paris, 13/12/2013. Foto do autor

Minha oficial do Exército, no QG/SMU-Brasília, com muito orgulho
Foto do autor - 2003



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

9/11 – Nine eleven – 11 de Setembro e as lembranças do Tio Sam




Maio de 1978, plena primavera em Nova York, na Staten Island,

com as belas  torres gêmeas do World Trade Center ao fundo.

Neste dia de hoje, 11 de Setembro, as redes sociais e a mídia em geral relembram o atentado contra as torres gêmeas de Nova York. As recordações dos lugares onde moramos ou trabalhamos, ainda que por certo tempo, ficam registradas em nossa memória, sobretudo as boas lembranças. As pesquisas mostram que experiências fortes criam os traços da memória positiva, a qual aflora sempre que é estimulada. Assim foi com o Menino, criado nas Lavras do Funil e nas fazendas à beira do Rio Grande, de onde traz doces recordações de seus bucólicos cenários, como a cidade propriamente dita, a belíssima Serra da Bocaina e o próprio rio com lagoas às margens apinhadas de curimbatãs e dourados que proporcionavam fartas pescarias. Sua terra, cantada em prosa e verso domina como tema de crônicas. Também dos ambientes de trabalho desfilam  cidades como BH, Ouro Preto e dezenas de outras, daqueles rincões, incluindo Brumadinho de triste memória de recente desastre com barragem de rejeitos de minérios. Também a cidade São Carlos, onde cursamos pós graduação em engenharia e ainda a capital São Paulo, além de vários outros bonitos lugares paulistas. Não esacapam, ainda, as capitais de todos estados brasileiros, algumas visitadas dezenas de vezes. Nossa missão era instalar, fiscalizar e avaliar cursos superiores e faculdades. Inúmeras foram, também, as cidades visitadas no exterior, em missões oficiais de governo, em todos os paises das Américas do Sul  e do Norte, além de grande parte do Caribe e América Central. Eram semanas a fio de viagens aéreas e terrestres, em visitas a universidades e centros de pesquisas agrícolas, onde estavam nossos professores de ciencias agrárias fazendo treianamento em cursos de mestrado e doutorado em sua maioria.  Na Europa nos concentramos na França e na A|mérica do Norte nos E.U.A.

O jovem executivo, youppie, percorria todos os lugares com extremado interesse, de modo a identificar potencialidades nas instituições visitadas e engajá-las em programas de cooperação com as universidades brasileiras, ou simplesmente para avaliar o desempenho dos professores brasileiros nelas matriculados em cursos de PhD. Também era objetivo das visitas supervisionar os planos e a execução de pesquisas de interesse nacional, ainda que realizadas fora do país.

Mas, esse não é o foco da conversa de hoje e sim o trauma  do atentado que destruiu o World Trade Center de Nova York. Como dito na bertura da crônica, nossa mente armazena as lembraças que nos marcaram e, naquela manhã de terça feira, 11 de setembro de 2001, estávamos em nosso gabinete, no MEC em Brasília, quando a secretária adentrou a sala, ligou a TV e anunciou a tragédia do ataque a uma das torres gêmeas, por um grande avião civil, de passageiros. Poucos minutos depois assistimos, ao vivo o segundo ataque, com outro avião de passageiros, também um Boeing e desta vez contra a segunda torre de concreto, vidro e aço. Veio tudo abaixo, um monte de escombros fumegantes, enegrecendo os céus de Manhattan. Inacreditável! E hoje, com os noticiários do 18º aniversário do atentado que fez milhares de vítimas fatais e incalculáveis prejuizos finaceiros, destravou-se e disparou automaticamente o “drive” do cérebro do menino, relembrando o medo sofrido naquele mesmo prédio a bordo de um grande helicóptero.


Meu primeiro contato com aquelas gigantescas torres foi impressionante.  Trabalhava na Michigan State University, na região dos grande lagos  e numa das viagens de cheagada do Brasil a Nova York, usei o serviço de ponte aérea, de traslado do aeroporto internacional JFK para o  de  La Guardia, de voos domésticos. Dali, embarcaria para Lansing, a capital de Michigan, ao lado da qual ficava  a universidade e o nosso escritório, suportando ainda duas escalas, Cleveland e Detroit. O voo de traslado de aeroporto foi a bordo de um barulhento e grande helicóptero Sykorsky S 69, o qual nos fazia lembrar daquelas aeronaves de guerra, de transporte de tropas, pois levava 20 passageiros. Impressionou-nos o pouso de escala do helicóptero em Manhattan, no heliporto do WTC, onde desceria a maior parte dos executivos internacionais chegados ao aeroporto Kennedy.  Quase entrei em pânico quando olhei para frente e vi aquele monstruoso edifício se aproximando do nosso helicóptero com certa velocidade. Este, em voo horizontal, a uns 200 pés de altura, se aproximava perigosamente das grandes torres, imaginava o menino. Antes que o pânico se instalasse, a aeronave reduziu a quase zero a velocidade e baixou verticalmente até o local de pouso, a apenas 50 metros da entrada do edifício. Impressionante a imagem visualizada subitamente, distraído que estava com o belo cenário ao redor, dando de cara com aquela enorme massa frontal, sem visão de largura e altura do prédio. Simplesmente um paredão, pois o campo visual das pequenas janelas do helicóptero era limitado. Sensação horrível, pois parecia que a trombada, o choque e explosão seriam iminentes. A decolagem, cinco minutos após, foi mais interessante, sobrevoando o Rio Hudson e rapidamente pousando em Newark/N. Jersey e depois em La Guardia, com belíssima vista da cidade e do rio Hudson que, aliás, foi cenário de outro desastre, em 2009, quando um jato de passageiros fez um pouso de emergência. Tempos depois, num final de semana, como que para apagar a péssima lembrança daquele pouso assustador, fui até o topo das torres gêmeas apreciar a magnífica vista da cidade, visitando em seguida, também a estátua da Liberdade.

Assim, as marcas no subconsciente, daqueles belíssimos cenários da cidade de Nova York, ficaram gravadas para sempre, incluindo o susto da suposta colisão a bordo do helicóptero. Por isso, o choque do menino, naquela manhã de 11 de setembro de 2001, foi paralisante. Ver uma das torres já em chamas e de repente, ao vivo, o segundo avião colidindo frontalmente com a outra torre, disparou a pior sensação de pavor que se pode ter. De imediato o subconsciente, provocado pela nova imagem, trouxe à mente a cena apavorante da suposta colisão do helicóptero no qual se encontrava a bordo, 24 anos antes. Agora estavam ali, ambos os enormes prédios, ao vivo e a cores, na TV, sendo consumidos pelas chamas decorrentes da explosão de toneladas de combustível das aeronaves atiradas contra suas estruturas. Cheguei em casa, busquei as fotos daqueles anos dourados em que o menino por lá trabalhava, com o garbo de um verdadeiro Yuppie. Triste, naquele dia, não voltou ao trabalho, tamanho o choque emocional, tanto pelas recordações ali materializadas em fotos pessoais, e mimos de decoração no escritório doméstico, bem como das lembranças do grande susto que ali passara.  Inúmeros foram os mortos naquela tragédia do 11 de setembro de 2001 e os meios de comunicação aí estão a nos exibir, desde ontem, aquelas terríveis cenas.

Sou grato a Deus, pois num espaço de apenas um ano, saí ileso de dois acidentes aéreos nos EUA, um incêndio a bordo e quase num mergulho pousou a tempo em Las Vegas, desviando-se da rota Chicago/S. Francisco. Outro, logo na decolagem de Washington-DC com pane hidráulica nos comandos, despejou o combustível no oceano e conseguiu aterrissar em Dulles, próximo ao QG da CIA, na Virgínia, com sua pista de mais de 4.000 metros, espuma anti-fogo e tela de aço na cabeceira para segurar o grande jato B727-200. Sorte dupla para quem percorreu aquele país de costa a costa e de norte a sul, em visitas a mais de 20 universidades. Um terceiro e mais grave acidente aéreo aconteceu em Belo Horizonte, quando um Boeing despencou ao aterrissar em Confins, partindo-se em pedaços, derramando todo o combustível sem que tivesse havido explosão, tão comum em acidentes com aviões. Também nesse acidente, o menino saiu quase ileso, com apenas um ferimento leve.

 Assim é a vida, com fé, determinação e perseverança conseguimos cumprir nossa missão. Resta-nos, como já dito, agradecer a Deus e pedir conforto aos familiares daqueles que não tiveram a mesma sorte, especialmente daquelas quase três mil vidas que sucumbiram no desastre de 11 de Setembro de 2001.

Brasília, 11 de setembro de 2019

Paulo das Lavras




Chegando a Staten Island- Estátua  da Liberdade


Newark-NJ traslado entre aeroportos -1977                  



14 de Nov 1977 – o Boeing 727-200, U.A, decolando do National Airport Washington DC

Pane hidraulica, retorno para Dulles International Airport/V.A, com espuma na pista e tela de aço no final.



 
S. Francisco / Cal –  Universidades de Berkeley e Davis


                                    Georgia  State University –     Brasileiros em cursos de  PhD -  nov 1977                                                       
 
                                                 



Universidade da Flórida/Gainesville - 1977. À direita Profª
Bete Cheng/ ESAL-UFLA

University of Wisconsin- Madison

                                         Mnifestação de estudante Iranianos contra o Xá Rheza Pahlev
                               em frente  a nosso escritório na MSU - East Lansing - MI   maio 1978                                          
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Biblioteca do Congresso Nacional - 1977


                                              No prédio do escritório do MSU-MEC/Brazil                                  
                                                           East Lansing-Mi – mai 78      

Chegando à Staten Island- Estátua da Liberdade



WTC em chamas - 11 de Setembro de 2001 

outro jato, minutos após, atingindo a Torre 2 



                                          15 /01/ 2009 – um jato fez pouso de emergência no Rio Hudson