sábado, 31 de janeiro de 2026

Comprei um Jeep antigo..., um sonho, afeto pessoal

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O Jeep Pafuncio, na chácara, já pronto para uma trilha pelos cerrados de 
Brasília e Goiás


Fui a um supermercado em um vilarejo próximo à chácara em um final de semana e casualmente me deparei com um lindo Jeep Ford-Willys, antigo. Tinha a mesma cor bege daquele que usei em Belo Horizonte, onde trabalhava em projetos florestais. Era também igualzinho a aquele que um dia, ainda criança de 10 anos, imaginei que meu pai o compraria de um amigo fazendeiro que fora à nossa fazenda especialmente para vendê-lo, mas, não houve negócio. Bom mesmo foi o de BH, o Pafuncio,  que nele trabalhei um ano inteiro. Esse era seu esquisito, mas carinhoso nome. Em 2004, cerca de 36 anos depois que deixei o Pafuncio de BH, que tanto me transportou pelas montanhas de Minas, encontro outro igual. Foi amor à primeira vista e por coincidência, a placa era de origem mineira, de Juiz de Fora. Tudo a ver, a paixão aumentou ainda mais ainda. Mas, por que você quer comprar um jeep velho? Perguntavam-me e simplesmente respondia: porque quero, sempre quis! Você vai usá-lo para andar na cidade de Brasília ou ir e vir para a chácara? ... Não! Você vai reformá-lo e vender para ganhar um dinheiro? ... Não! Também, não...! Então para que quer comprá-lo? ... Para NADA! NADA! Entendeu...? Entendeu..? Assim eu reagia, já irritado com tamanha insistência e petulância dos amigos e membros da família. Minhas respostas curtas e incisivas, não satisfaziam as expectativas dos interrogantes que, quase sempre, não encontravam motivos plausíveis para a compra de um velho jeep, originário de um colecionador militar do Exército, de Juiz de Fora. E comprei, mesmo! Apenas para satisfazer  um sonho pessoal de afeto, de doces lembranças dos tempos de infância e juventude. Queria aquele lindo e antigo modelo Jeep Ford-Willys 4x4 na minha garagem. Não que precisasse dele para uso, não..., pois tinha uma grande e confortável SUV. Queria-o  apenas para deleite da alma. Lógico, depois tomei gosto e passei a usá-lo para trilhas nas montanhas (e Brasília tem montanhas?) e no lago que construí especialmente para mergulhos com o velho e bonito Jeep. Aliás, era o melhor dos passeios, tendo as crianças aboletadas na pequena carroceria, em plena alegria, mas, lógico, longe dos pais deles...., pois aquilo era coisa  que só os avós são capazes de fazer e sem direito a reclamações... rsrs

Tive que enfrentar, suportar e responder aos irritantes inquéritos de amigos e familiares. Ora, ora.., vou comprar porque quero! Vou colocar um acessório para reboque de carreta e um cambão bem à frente, para poder leva-lo à reboque em meu SUV.... Mas, por que você vai fazer isto? Acoplar uma carreta, também? Vai levar frutas da chácara para vender na feira? Nãããã...o ! Não me amolem mais, vou fazer isto porque quero..., vou colocar o reboque e sair por aí, pela chácara, sem nada, carga nenhuma na carreta, apenas porque quero me lembrar dos tempos de criança quando enchia de terra a carroceria dos caminhõezinhos que ganhávamos no natal! O cambão dianteiro é para engatar num SUV para eventuais visitas à cidade, para ali passear ou fazer reparos de manutenção. E mais, vou instalar um aparelho de radio-amador, faixa cidadão igual ao que tenho no SUV, vou andar por trilhas nas montanhas e pelo cerrado afora e falar com o mundo inteiro..., pelo meu rádio-amador (numa época em que ainda não havia telefone celular, nem internet e eu gostava de falar com amigos no Peru, Estados Unidos, França e Itália). Venci a oposição e os chatos que acham que os outros só podem fazer aquilo que eles pensam que é certo ou lhes convém. Confesso que fiquei  um pouco chateado com tantas perguntas indiscretas e descabidas para o meu alter ego, pueril mesmo. Graças a Deus que encontrei nos filósofos e melhor ainda, nos poetas que canto em versos e prosa todas as explicações necessárias para esse comportamento reverso de criança. Fiquei em paz comigo mesmo. Não era nenhum maluco, doido, como diziam, pois apenas seguia o figurino humano retratado pelos poetas e filósofos. Ufa... !

E mais ..., um dia, quando eu ficar muito velho e não mais puder dirigi-lo, ele estará lá, na garagem, como um troféu das minhas lembranças. Memórias vividas naquele veículo de tração nas quatro rodas e das pessoas que me acompanhavam, como os netinhos a bordo, com seus olhinhos arregalados e o jeep “afundando e derrapando” no lago cheio de jacarés”. Ou mais distantes ainda, a recordações das andanças pelas íngremes montanhas de Minas Gerais, na Serra do Caraça, Maquiné, Rola Moça, Pico do Itacolomi, Mariana, Ouro Preto, Serra do Cipó (eita ventania cortante por ali...) e tantas outras onde plantávamos eucaliptos, essências florestais nativas, além do  pinus e kiri, árvore exótica de origem asiática, cuja madeira se destinava a usos especiais. Plantei mais de dois milhões de árvores em reposição às florestas transformadas em carvão vegetal para as indústrias siderúrgicas da Mannesman, Aluminas, Cauê, Cominci e outras. Estas duas últimas localizadas nas encostas da cidade de Pedro Leopoldo, onde, ainda hoje, lá se encontram resquícios daquelas florestas por mim plantadas e as vejo da janela do avião quando em pousos pela cabeceira norte do aeroporto de Confins. A imaginação voa, e mesmo já passados mais de 50 anos, “vejo” o menino, jovem engenheiro agrônomo, em seu Jeep  Pafuncio, de cor bege, tal qual aquele visto no vilarejo próximo à Brasília e adquirido em seguida.  

Além do jeep, também afloram as lembranças da bela perua Rural Willys, apelidada de Raimunda, rodando pelas mesmas montanhas, comandando equipes de 20 a 30 trabalhadores plantando pequenas mudas das árvores que ainda hoje sobrevivem, apesar da frenética urbanização que tudo destrói. Aqueles plantios eram projetos especiais, aprovados pelo antigo IBDF, hoje IBAMA, com incentivos fiscais para as usinas  siderúrgicas. Do alto das montanhas e com fotos aerofotogramétricas especiais estendidas sobre seu capô, fazíamos a identificação de divisas das fazendas, seus córregos, estradas e outros acidentes geográficos, por meio do estereoscópio, aparelho portátil de duas lentes em forma de binóculo, mas concêntricas sobre duas fotos colocadas paralelamente e que nos propiciavam visão em terceira dimensão.

Não bastassem as escaladas no trabalho, havia ainda os passeios pela crista da  majestosa Serra do Curral que emoldura BH, descortinando maravilhosa vista da cidade e seus arredores. Passei alguns medos naquelas trilhas de montanhas acima, algumas abertas pelos nossos próprios tratores e com perigos sem fim, derrapagens no cascalho, ou no barro das chuvas tão comuns na época de plantio. Às vezes quebravam os  feixes de molas da suspensão em pontudas pedras chamadas “cangas”, de puro minério de ferro, natural daquele quadrilátero. Não à toa, a região é conhecida na Geografia como quadrilátero ferrífero, a riqueza das Minas Gerais, ferro, manganês, bauxita (alumínio) e outros valiosos minérios com jazidas infinitas, até mesmo o ouro, como na mina de Morro Velho em Nova Lima. São reminiscências que fazem parte de minha memória afetiva, habitam prazerosamente meu coração, minha alma  e o jeep Pafuncio, foi um dos principais protagonistas dessa parte da vida do jovem profissional da engenharia agronômica. Nossas jornadas eram árduas, mas, por outro lado, foram inúmeras as sensações de alegria, prazer em contemplar horizontes infinitos, lindos, maravilhosos que nos faziam cantar e gritar como um louco de alegria nas inúmeras paradas para pura contemplação. Descortinavam-se à nossa vista, precipícios, rios, vales e muitas outras sucessivas montanhas de rochas às vezes reluzentes, com a do Caraça, ou simplesmente azuis na complexidade da difusão caleidoscópica dos raios de luz em meio  à bruma seca do frio ou das chuvas fininhas que enregelavam os ouvidos e até a alma, no assobio das rajadas de  ventos. Rajadas às vezes muito fortes ali no topo das montanhas. E os peões quase sempre gritando em tom de brincadeira para o magrelo menino-engenheiro agrônomo: cuidado, coloque algumas pedras no bolso da japona,  para a ventania não te levar e rolar montanha abaixo...rsrs.

Ah..., que saudade daquelas travessias pelos leitos de riachos, às vezes nos surpreendendo  com locas, poços invisíveis , engolindo o jeep e então se perdia um dia inteiro de trabalho, até alguém voltar a pé, numa fazenda mais próxima, pedir emprestado um trator para rebocar o jeep emburacado no riacho, ou então uma junta de bois para retirar o veículo pesado demais e sem tração alguma , com o motor e escapamento submersos. Ao final, cansados, enxarcados e enlameados, e muita peleja para fazer o motor funcionar novamente, ainda tínhamos fôlego para um dedo de prosa e um cafezinho da garrafa térmica e agradecer a Deus por mais uma vitória e pedir as benção Dele para o aquelas boas almas que vieram nos socorrer. Vitória? Sim, conseguir sair do fundo do poço, literalmente e secar o cano de escapamento e principalmente o distribuidor, que alterna e conduz a centelha elétrica aos cilindros do motor em perfeita sequência e fazê-lo funcionar novamente, depois do chamado calço hidráulico era, de fato, uma grande vitória. 

 
Ouro Preto, frio de rachar... “Coloque pedras no bolso dessa japona, para que
 a ventania não o carregue e role montanha abaixo”, gritavam os peões para o magrelo jovem. 


Antes de chegar a Ouro Preto, de intenso e gelado frio, uma paradinha no aprazível vilarejo de Catas Altas, com uma só rua e com deliciosos vinhos artesanais e compotas de doces. Numa dessas portas, de casa de família, encostávamos os jeeps, Pafuncio e pelo menos dois outros, em comboio, da Companhia Siderúrgica Alumínio Minas Gerais- ALUMINAS, para a qual prestávamos serviços  e tomávamos um delicioso vinho licoroso, esquenta-peito. Na volta, ao final do dia ou à noitinha, ninguém queria ser o motorista do Pafuncio, pois a ele se proibia tomar vinho... Muitas pirambeiras até chegar a Ouro Preto e não podíamos abrir a guarda..., pois queríamos chegar vivos para o pouso na cidade, nossa base de apoio regional.

 
Belíssimo cenário de Catas Altas, uma parada no casarão do meio, 
com direito a “esquentar os peitos”  com vinho artesanal. Néctar dos deuses, 
depois de uma refrega na chuva e lama. E assim criar ânimo para vencer os 65 km 
de estreita e perigosa estrada de terra nas montanhas até Ouro Preto 
Foto- internet 


Para completar a tortura do motorista, ao qual negávamos e o proibia de tomar qualquer bebida alcoólica,  levávamos outra garrafa de rosé e íamos degustando-o até chegar à fria e gelada Ouro Preto, onde os lençóis do hotel pareciam estar molhados de neve na hora de se deitar..., um gelo terrível, de tiritar os dentes e a alma! Nessa hora, dava para entender por que os europeus detestam tomar banho. Duro demais despir-se naquele frio gelado. Mas, a recompensa vinha logo, no aconchego da cama limpinha cheirosa e cheia de cobertores de lã e com a alegria por termos vencido, apesar do cansaço físico, mais um dia na natureza quase inóspita. Hoje, posso dizer com absoluta segurança: Saudade é o amor que ficou daquelas montanhas e das aventura quase que diárias do jovem engenheiro agrônomo, com mapas, bússolas, clinômetros, estereoscópio de bolso e fotografias aéreas para identificação de divisas das fazendas, com coordenadas geográficas, feitas pelos aviões da  USAF (Força Aérea Americana - Aerial Squadron Team) que tão bem havia conhecido, ao vivo em Lavras. USAF? Sim e me lembrava das conversas com o piloto norte-americano, do avião bimotor Beechecraft,  equipado com sensores especiais para aerofotogrametria, fazendo o sensoriamento remoto do território mineiro, como parte do   Projeto de Mapeamento Cartográfico do Brasil, executado pelo Serviço Geográfico do Exército Brasileiro. Lavras era uma das bases aéreas, com seu campo de aviação de pista encascalhada. O piloto norte-americano não falava uma única palavra em português e gostava de ver-me esforçar praticando o idioma inglês. Doava-me gasolina azul para a moto-Vespa, naquele período de voo, em 1966, apenas dois anos antes do uso que fiz daquelas mesmas fotos para fins profissionais, as quais foram feitas por ele, em seu avião especial e que tanto me fascinava. Pelo menos uma vez eu o levei de volta ao hotel, de carona na garupa da moto-vespa, pois se adiantara muito e o taxi que o buscaria ainda demoraria bastante. Por conta disso, meu trabalho naquelas montanhas geladas de Ouro Preto  e em várias outras do estado de Minas, tinha um sabor especial para quem conhecia a história e o valor daquelas fotos aéreas, suas origens, o modo como foram feitas, capturadas de avião e que, então, estavam ali em meu próprio auxílio, como novidade técnica indispensável ao nosso trabalho.

 

Embora por algumas vezes as montanhas e campinas mineiras se apresentassem hostis, até mesmo com a presença de animais silvestres, cobras venenosas, onças e o famoso lobo Guará que habita as florestas da Serra do Caraça, nunca tivemos nenhum acidente grave, de jeep ou a pé. Apenas aqueles atoleiros e pneus furados. Um dos  pneus, novinho, foi cortado por pedra pontiaguda, no encascalhado que pavimentava a estrada de Lagoa Santa à Serra do Cipó. O corte foi grande e o inutilizou, mas, por sorte não estourou e foi se esvaziando devagarinho, a tempo de parar o jeep sem perigo. Deus na sua Sabedoria e Bondade, só deixou gravadas nos escaninhos da alma as boas lembranças. E as lembranças do Jeep Willys bege são recorrentes e quase sempre de paz na alma, alegria, ali nas alturas das serras mineiras e seus riachos, muitos transpostos a vau, no seu leito de cascalho e água chegando ao estribo e nunca sem antes checar a profundidade com uma vara, como se estivéssemos fazendo uma batimetria para cálculo do volume de água. Tempos depois, sempre que sobrevoava aquelas regiões em voos comerciais, em modernos jatos e confortavelmente assentado, ficava a contemplar as maravilhas que Deus colocou ao nosso dispor. Impossível não nos lembrarmos daqueles duros dias de trabalho no campo, usando o companheiro de tração 4x4 e chegando ao topo das montanhas alterosas da nossa  querida Minas Gerais. Ainda assim, após tantas dificuldades e perigos, não havia como não apreciar, admirar e se extasiar  com as belezas que se descortinavam à frente, respirando aquele ar puro e leve com a brisa e cheiro das matas. O cansaço, depois de longo e extenuante dia de trabalho, era compensado ao chegar em casa, em BH ou mesmo nos frequentes pernoites em Ouro Preto. Nossa alma se enchia de paz, com alegria no coração, mente leve, flutuando, depois de muito meditar e ficar encantado ali no alto das montanhas e até nos parecia que aqueles lugares elevados e silenciosos, nos aproximavam de Deus.  Medos? Sim, às vezes, mas, até neles sentíamos o sabor da vitória por enfrentá-los e vencer, sempre agradecidos a Deus. Talvez por isso mesmo sempre quis ter aquele Jeep na minha garagem. Foram tempos marcantes e suas memórias são carregadas de sentimento. Pura reminiscência, amor que exala da alma. Ainda bem que, depois de minhas duras e irônicas respostas aos impertinentes inquiridores, ninguém mais ousou perguntar-me sobre as razões para comprar um velho Jeep Willys..., para ficar na garagem!

      Mas e o medo, quem nunca o teve? A bem da verdade, é preciso dizer que tive uma experiência apavorante ao escalar uma montanha. Certa vez, num domingo pela manhã, resolvi convidar minha noiva e as cunhadas para conhecerem o alto da Serra do Curral, ali mesmo em BH, a também conhecida por  serra da Embratel, pois naquele ponto mais alto ficavam as torres de telefonia – micro-ondas e antenas repetidoras de sinais de TV, Aqui abro um parêntesis, naquele ano de 1968 sequer existiam a telefonia celular e internet. Toda a comunicação à longa distância era transmitida por tropodifusão, com antenas repetidoras a cada 30 ou no máximo 40 km, devido a curvatura da terra. Quanto mais alta a montanha, mais distante alcançava a difusão dos sinais de microondas.  Aquela escalada `na Serra do Curral estava fadada a acontecer, pois todos os dias a contemplava e me lembrava da primeira vez que escalei seu topo, à pé.  Foi no ano de 1963, cinco anos antes, quando hospedado no Convento dos Dominicanos, no final da Rua do Ouro, no bairro da Serra, participamos de uma caminhada até a cidade de Nova Lima. Éramos uns vinte jovens, participantes de um encontro da CJC- Comunidade de Jovens Cristãos. O menino representava a paróquia de Lavras e o Colégio Aparecida, onde o coordenador e grande incentivador desse movimento de jovens, era o Pe. Miguel Moretti, de saudosa lembrança e muito querido na cidade. Foi uma escalada, a pé, memorável e em menos de uma hora atingimos o alto da Serra, ainda com o frescor do ar matinal e com esplêndida vista de BH. Atrás, florestas e mais florestas, com a principal delas , a Mata do Jambreiro com suas nascentes de águas geladas que se avolumavam até a cidade de Nova Lima. Foi fascinante vencer aqueles obstáculos da natureza e prometi a mim mesmo que um dia voltaria naquele alto da serra. Chegou o dia e desta vez a escalada seria de carro de tração nas quatro rodas. O jeep Pafuncio estava todo empoeirado, pois havia rodado a semana inteira supervisionando os projetos florestais e então decidi usar a “Raimunda”,  linda Rural Willys, ano 1966, 4x4, verde e branca, um luxo, que pertencia à empresa onde trabalhava e tinha livre acesso para uso! Mas, talvez empolgado pela emoção, esqueci-me que era um carro mais pesado (1.500 kg) e que, obrigatoriamente, tinha que se usar a tração nas quatro rodas desde o pé da montanha, pois a subida era muito íngreme e perigosa. Bem ao meio da subida, rampa fortíssima, cascalho solto, pirambeira à esquerda e justo na parte mais íngreme,  a perua não aguentou romper a forte rampa de subida, pois estava em tração simples. Rateou, arfou, bufou, acelerei fundo, mesmo na primeira marcha e ainda assim foi à falência, pé na embreagem para não deixar o motor morrer e veio o pior. Quem disse que o freio mecânico conseguiu segurar o pesado veículo, cuja dianteira quase que apontava  para o céu, de tão inclinada era a estreita estrada encascalhada? Os freios antigos eram de sapatas com lonas de amianto, pois não existia ainda o freio a disco. Resultou que, vindo de marcha a ré e o menino se apavorou com a beira do precipício  e a solução foi jogar a traseira no barranco à direita. Santo barranco..., estancado o movimento de ré e derrapante morro abaixo, o menino respirou fundo até passar o susto, o pavor, diante de tamanho precipício de mais de 400 metros de altura. Ligou novamente o motor da Raimunda, engatou a tração dianteira e a reduzida (para maior segurança, pois os pneus, felizmente eram originais e apropriados para este tipo de tração, daí seu nome de Rural Willys). Pois bem, ao chegarmos ao cume da montanha, nem tive mais graça em apreciar o cenário maravilhoso, com vistas para a linda cidade de BH. Sinceramente, ali o horizonte era belo, muito mais belo que aquele proclamado pelo Papa João Paulo II ao celebrar uma missa no alto da avenida Afonso Pena e dali exclamou: “Que belo horizonte!”. Mas o susto daquela perigosa barbeiragem ao volante apagou nosso entusiasmo. Nunca mais voltei ali. Só o fato de relembrar o real perigo enfrentado já me fazia perder o fôlego e ainda hoje dá calafrios, ao relembrar o grande pavor que ali havia enfrentado. Se estivesse no jeep, o Pafuncio, mais leve e ágil, talvez não tivesse passado por tal perigo. Aquela tenebrosa lembrança do quase desastre com a pesada “Raimunda” me fez gostar ainda mais do ágil jeepinho bege. Talvez venha daí a vontade, muito tempo depois, 36 anos, de efetivamente comprar um veículo igualzinho ao Pafuncio, até mesmo na cor. Foi amor à primeira vista. Por tudo isso, valeu a compra e ter aturado as piadas inquiridoras dos amigos, “para quê, você quer um jeep?”. 

 

 
Bem no meio dessa super-inclinada rampa, da Serra do Curral,  a Raimunda (foto abaixo) empacou, 
apagou e veio de ré, morro baixo. Rapidamente  joguei a traseira direita no barranco....
 Salvamo-nos todos, mas o menino, motorista, perdeu o fôlego, suou frio após o susto real.

 

 
Toda vez que via uma perua igual a essa da foto, ou de longe avistava a Serra do Curral, 
com aquela enorme e íngreme subida,  que dá acesso ao topo com suas antenas de 
telecomunicações, dava-me  um frio na barriga,  respiração alterada e 
o cérebro projetava as imagens apavorantes daquele evento traumatizante. 
Fotos- internet


Serra do Curral? Torres de telecomunicações da Embratel? Nunca mais... e os locais mais altos que ali voltei a frequentar foram pontos bem abaixo do topo da montanha, como  o Belvedere e o alto do Palácio das Mangabeiras, de onde também se tem ótima vista da cidade e ainda se passa pela Rua do Amendoim.  Rua famosa por supostamente os carros rodarem morro acima, desligados e em ponto morto e para completar, dizia-se que isto só funcionava à noite, quando os casais de namorados por lá ficavam. Pura ilusão de ótica, fui lá conferir, levando uma clinômetro, pequeno aparelho que usávamos para medir declividades para o traçado de curvas de níveis e construção dos terraços para contenção de enxurradas nas lavouras. Havia sim, um pequeno trecho quase nivelado, mas que dava a impressão de aclive, pois ao final se confundia com a verdadeira subida. Pura ilusão de ótica. O que se pensava que era subida, era na verdade descida, ainda que em pequeno declive, medido e conferido...

Passou-se o ano de 1968, deixei BH, a capital dos mineiros, voltei para minha cidade natal, onde fui ser professor de engenharia rural, construções e saneamento ambiental na Universidade Federal de Lavras. Ali, também andei de jeep e rural Willys. Sete anos depois fui transferido para Brasília, para atuar no Ministério da Educação. Aqui, sob o regime da “esgravatura”, com terno e gravata de 12 a 15 horas ao dia e constantes viagens a todos os estados do país e exterior, em mais de vinte países, notadamente Estados Unidos e França onde permanecia por semanas a cada semestre, o menino pediu arrego. Não aguentou a escravidão diária da gravata, em salas com ar condicionado.  Acostumado que foi ao trabalho direto na natureza, queria um lugar especial, uma chácara para lazer, com pés no chão, botina, plantações, jardins, passarinhos e animais domésticos, cães, cavalos e galinhas caipiras. Assim fez, adquiriu uma chácara e nela construiu casa, lagos e caprichado paisagismo,  tudo que lembrava a vida rural da infância e juventude e até mesmo os lindos canteiros de flores da cidade de BH, dos quais cuidou durante um ano inteiro, quando lá trabalhou numa empresa de paisagismo e planejamento agroflorestal. Não à toa trouxe de sua terra natal mudas de várias plantas ornamentais, cana-índica de cores variadas,  ipês, cipó rosa, acácia rosa (trazida da principal alameda do campus histórico da ESAL/UFLA), jatobá, espirradeira, primavera, quaresmeira roxa, buganvília,, espatódea e a pata-de-vaca (Bauhínea), espécie arbórea de médio porte que plantei e cuidei no enorme estacionamento/praça da CEMIG em Sete Lagoas-MG, no sopé de uma montanha. Também trouxe mudas de pêssego, maçã, pera, ameixa e outras fruteiras, além de mudas de café, produzidas na ESAL/UFLA, das variedades  Catuaí, Mundo Novo e o lindo Bourbon amarelo, docinho com sabor de infância e lembranças das aulas do saudoso paraninfo de formatura na Agronomia, Prof. Paulo de Souza, também chefe da Estação Experimental de Lavras, especializada em pesquisas do café.  




 

O sufoco da cidade grande, Brasília, e a pesada carga de trabalho, levavam-me a um destino certo para os finais de semana, a nova chácara onde construí meu paraíso da infância e juventude. O poeta Mário Quintana nos ensinou que "a gente continua morando na velha casa em que nasceu”. Assim, trouxe da cidade natal um carro de boi original, doado por um sobrinho e ainda, o arado de aiveca, relíquia da família e que pertencera ao nosso pai. Veio também um moinho e torrador de café (plantei 11.000 pés de café, em experimento pioneiro em Brasília, juntamente com outro colega lavrense , Eng. Agr. Paulo Menicucci Castanheira). Em São João Del Rey (Prados) fui buscar uma roda de fiar, carda e outros apetrechos próprios da fiação de lã e algodão, iguais aos que minha mãe utilizava na fazenda para produção de fios coloridos destinados à fabricação de colchas de lã, ótimas para enfrentar o rigoroso frio do sul de Minas. Juntei tudo e aqui chegou em transporte fretado, a mil quilômetros de distância e os instalei na chácara.


  .. e a velha casa onde nasceu o menino tinha carro de boi, arado de aiveca e roda de fiar que pertenciam aos pais e agora trazidos para a chácara em Brasília. O poeta Mário Quintana sabia  ler a alma de todos nós...


          ... a roda de fiar, usada por nossa mãe, costume dos ancestrais portugueses para fiação de lã e algodão, para confecção de colchas que nos abrigavam no frio cortante do sul de Minas. Os jardins também representam a velha casa, cercada de canteiros de jasmim, begônias, rosas , dálias, copos de leite (lírios) e tantas outras flores do gosto da família. Tudo isso acariciava, tocava profundamente a nossa alma, saudosa da casa em que nascemos e que nunca a abandonamos. Ah..., os poetas sabem cantar a alma... 


Ainda seguindo os conselhos dos mestres da saudade, como outro grande escritor, Marcel Proust, romancista e memorialista francês que escreveu a maravilhosa obra “Em busca do tempo perdido”, o menino fez pista de aeromodelismo, em lembrança à prática nos finais de semana em sua terra natal, no campo de futebol do Colégio Aparecia, defronte à sede do Tiro de Guerra. Ar, Terra e Água, os três elementos da Natureza sempre presentes na vida do menino e, por isso, também não podiam faltar na chácara os lagos para pesca e trilhas anfíbias com o jeep. Importante, também, um cavalo mangalarga marchador, para cavalgadas nos arredores e um aeromodelo para pilotagem no aeroclube local.  

 Por terra, a cavalgada num Mangalarga Marchador, ou no Jeep 4x4. No ar, me aventurava nos pequenos aviões.

 O Aeroclube também era meu lugar, mas e no mar? 
Não, nunca entro num barco e muito menos em alto mar. Um afogamento quase fatal num grande reservatório, aos dois anos de idade, deixou marcas no menino, ainda hoje traumáticas. Na água apenas no raso lago, próprio para trilha anfíbia no jeep.

 

Nas montanhas ou ainda na água rasa, com o Jeep é mais seguro

que um barco no mar.

 

Na terra, no solo, todas as atividades de produção artesanal de frutas, hortaliças, café e  principalmente o caprichado paisagismo, gosto adquirido em BH, quando cuidava dos jardins da cidade e do gramado do Mineirão. Também construímos, para deleite dos netinhos e seus amiguinhos, um moinho movido por força hidráulica, na verdade uma roda d´água que funcionava o tempo todo, girando pela força da pequena queda da bica d´água, instalada no rego que abastecia a chácara. 

 Café, cujas mudas, da espécie Arábica, nas variedades Catuaí e Rubi (de cor amarela) foram adquiridas de colega engenheiro agrônomo, de Lavras, aqui residente, produziam excelente bebida e com razoável produção. Saudade pouca é bobagem e tudo foi importado, trazido da terra natal.

O caju, trazido (a muda) direto
 de Recife,  no colo, na cabine do avião.  

                                                      Pés de peras em franca 
produção (frutas assinaladas em azul), trazidos  do sul de Minas e plantados bem próximos a um frondoso ipê roxo que cuidou de forrar o chão, formando um belo tapete.  Havia ainda , figo, mangas diversas, marmelo, goiaba, acerola e muitas outras fruteiras. Paraíso para as crianças, e para os velhos que, tal qual cantado pelos poetas, eram as próprias crianças com prazer em dobro na saudosa alma dos tempos de menino nas fazendas.

 

Mas, faltava algo, mesmo com os lindos jardins de flores, com requintado paisagismo que explora os espaços gramados, árvores floríferas e frutíferas que atraem pássaros e outros animais como até mesmo o lobo-guará que ia se deliciar com as bananas no pé, ou os tucanos e araras a comerem castanhas,  lagos e benfeitorias inteiramente integrados ao ambiente. 

Paisagismo na chácara também fazia parte das velhas casas onde vivemos – Lavras e BH, 

especialmente os ipês amarelos que formam verdadeiros tapetes dourados no chão seco do Planalto Central. 


Faltava algo além do paisagismo, benfeitorias e dos animais como os pássaros, cavalos, cães e outros bichos naquele paraíso. Estava incompleto e para ser fiel a Proust e Mário Quintana, e então dei cabo a uma constante saudade, reminiscência que aflorava a toda hora. Surgiu a ideia de se comprar um Jeep. Era o que faltava para fechar o conjunto da velha casa onde moramos e a carregamos  para o resto da vida. Afinal, já havia construído três lagos artificiais, faltava apenas de tamanho maior e que serviria de pista anfíbia  para “mergulhos” a bordo do jeep, à semelhança daquela experiência profissional de atravessar córregos a vau na região de Ouro Preto, ou seja, enfrentando o leito do riacho e seus buracos na correnteza. E foi assim que depois de alguns anos da dura “esgravatura” que, às vezes, nos obrigava a compromissos sociais à noite ou em fins de semana, além de prolongadas estadas no exterior, decidi, definitivamente, comprar o “prometido” Jeep Willys 4x4. Casualmente fui a um pequeno arraial, próximo à chácara, em um mercadinho e avistei, estacionado, um lindo Jeep bege, igualzinho ao Pafuncio que eu tanto gostava de dirigir em BH e em toda a Minas Gerais. Estava sem a capota e por isso suas linhas graciosas e por demais conhecidas pelo menino, se destacavam e me interessaram muito. Me aproximei, examinei-o e decidi esperar pelo dono. Não demorou e ele apareceu, um jovem estudante da UnB. Quer vender, perguntei de supetão. Uéh, quanto você está disposto a pagar? Não sei, diga quanto quer. Ele pediu o equivalente a cinco mil e quinhentos dólares. Ofereci quinhentos a menos, cinco mil dólares  à vista. Negócio fechado. E nem me importei mais com as impertinentes perguntas do porquê e para quê um jeep. Marcamos encontro para o dia seguinte na casa do vendedor, na 308 Sul, quadra modelo de Brasília, onde eu havia morado por um ano e meio logo que cheguei de mudança, vindo de Lavras. Lindo lugar, com a Igrejinha de Fátima, referência mundial da arquitetura de Oscar Niemeyer. Examinei a documentação, seguimos para o Detran e fizemos a transferência do veículo e dali nos dirigimos a uma agência bancária, onde procedemos a respectiva transferência do pagamento, direto para a conta do vendedor. 

 
Recebendo em casa o “presentinho”, alegria de criança 
 como aquela no esperado dia de natal... 

As aventuras com o Pafuncio

Era o ano de 2004, mês de janeiro, chuvoso, bom para testar o presentinho que o menino acabara de dar a si próprio. Jeep Ford-Willys, motor original Hurricane, importado, ano de fabricação 1976, cor bege, igualzinho ao Pafuncio original, de BH e foi logo assim batizado aquele irmão idêntico e apenas dez anos mais novo. Feliz da vida levei-o para a casa e no final de semana foi para a chácara. Que prazer dirigir e relembrar os tempos nas montanhas das Minas Gerais. Ao colocá-lo na garagem, relembrei-me de Mário Quintana: "a gente continua morando na velha casa em que nasceu". Pura  verdade, o ninho onde fomos criados com amor fala mais alto, e está sempre presente em nossas mentes. Ali estava mais uma peça que compõe essa casa imaginária da infância e da juventude.

 
   Já na chácara, com o novo presente, mimo para alma, alegria de menino pronto para a primeira trilha off-road, já equipado com galão de 20 litros de combustível adicional e o luxo dos luxos em um off-road de então: o radio-transmissor e sua enorme antena que balançava as fitas verde-amarelas e  bandeirolas, quando em desfiles de 7 de Setembro.

O SUV/Blazer, de apoio, sempre acompanha o passeio, com suprimentos, cabos de aço para reboque, pneus especiais sobressalentes e ferramentas para reparos de emergência e possíveis desencalhes, vai que...  



Agora sim, já tinha um brinquedinho que, em breve poderia compartilhar com as crianças. Revisão completa, instalação de freio a disco, direção semi-hidráulica, daquelas usadas em Chevrolet Opala, aquisição de pneus exageradamente lameiros, típicos off-road, usados pelos aficionados por trilhas em terrenos íngremes ou desertos arenosos, e ainda o principal acessório, o snorkel, tubo elevado, com filtro de aspiração de ar para o carburador. Esse equipamento é indispensável para travessias de cursos d´água com o jeep semi-submerso. Essa seria a principal aventura e para tanto, construí um novo lago, bem grande e com estrada submersa encascalhada no fundo para evitar atolamento total. O menino-criança (como dizia Rubem Alves... os velhos se tornam crianças...) estava mais que empolgado, pois seria uma aventura e tanto e tinha certeza de que,  tanto as crianças, como os adultos, iriam adorar “navegar” com o jeep sem capota, sacolejando e espalhando água e lama por todos os lados, com “rodovia” submersa que o próprio jeep, recém-comprado, ajudou a construir. Uma pista com mais de 100 metros de comprimento, construída com todas as técnicas da engenharia hidráulica e rodoviária, aprendida na pós-graduação numa das mais conceituadas escolas do país, a Escola de Engenharia de São Carlos/USP.

 O vertedouro da barragem foi construído em estrutura de concreto armado, e podia-se controlar o nível da água no lago, de acordo com a intensidade da emoção desejada: água cobrindo apenas as rodas do veículo ou mais elevada, até a cintura do motorista. Esta era a mais emocionante pois chegávamos a flutuar nos bancos e batia o medo do desconhecido, com água para todos os lados. Mas, na construção da pista submersa, já havíamos previsto tais “sustos de brusca submersão”, pois a construímos com pequenos trechos em forma de tobogã, com altos e baixos, justamente com esse objetivo,  causar sustos. E estes poderiam ser de maior ou menor monta, bastando controlar o nível da comporta de água no vertedouro. Em qualquer dessas situações o desempenho do motor não mudava muito, pois o snorkel, mais alto que  o para-brisa, evitava o famoso calço hidráulico que é a entrada de água nas partes do motor. Vir em velocidade com o jeep e mergulhar na lagoa já era, por si, uma sensação indescritível. Agora, some-se a isto o susto do mergulho do jeep com água acima da cintura... Haja fôlego e domínio do pânico. Gritos de todos os jeitos eram ouvidos e os adultos sempre foram mais escandalosos, pois seus gritos de pavor podiam ser ouvidos a quilômetros, ocasionando até congestionamento na via paralela, de acesso às demais chácaras. Todos queriam ver aquele “acidente” do jeep que “caiu” na lagoa cheio de gente gritando apavorados. O impacto inicial do jeep com a água era mesmo de se assustar, voava água para todos os lados e lama por cima dos passageiros do compartimento traseiro do veículo anfíbio... 

         O jeep na lida, ajudando a construir o vertedouro regulável da barragem


A rua de acesso às chácaras vizinhas, foto abaixo era paralela à margem do lago, numa extensão de mais de 200 metros. O pânico e a gritaria dos passageiros novatos, naquela trilha anfíbia, eram notados pelos motoristas que passavam pela rua. Paravam para oferecer “socorro” às vítimas do suposto “acidente” aquático”. Verdadeira aventura à la Indiana Jones e depois do susto, a alegria das crianças..., incluindo aquela de cabelos grisalhos... 


O lago, construído especialmente para a trilha aquática, é abastecido por nascente situada a apenas 100 metros acima e com grande volume de água.


 Na foto abaixo, vista privilegiada do lago, a partir da rua vizinha, especialmente em dia de trilha aquática, com gritarias e água subindo por cima do jeep e das crianças na carroceria.  Ao fundo a floresta que plantei em 2002, já adulta em 2017. Paraíso construído, reproduzindo a casa, o local em que nascemos e passamos a infância cheia de experiências e aventuras coloridas. 


Pista encascalhada, submersa, com mais de 100 metros de comprimento pelo lado direito do lago, cheia de altos e baixos, que o próprio jeep Pafuncio ajudou a construir e depois ali passava em velocidade, como numa montanha russa com redemoinhos de água para deleite das crianças. 

É preciso ter a sensibilidade de Quintana, Rubem Alves e Marcel Proust para entender por que os velhos se tornam crianças e recriam seus paraísos perdidos.


Trilhas pelas estradas da zona rural eram frequentes, como também no arraial onde o jeep foi visto pela primeira vez que o encontrei, flertei e comprei. A enorme antena de rádio amador, instalada no para-choque traseiro tremulava com bandeirola e fitas verde-amarelas. O rádio era um luxo, pois se podia falar até mesmo na cidade de Brasília,  pois havia interconexão à rede telefônica nacional, via Estação-Radio- Base da LABRE- Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão. Era só apertar o PPT ("Push-to-Talk"), anunciar PX-9 Alfa ...92 e solicitar conexão com telefone número tal, tal. Um achado, a salvação para a zona rural desprovida de qualquer outro meio de comunicação, pois a telefonia celular somente foi instalada em Brasília no ano de 1990 e um pouco mais tarde na zona rural (1994), com  o caríssimo “tijolão Motorola PT-550, que custava o equivalente a R$ 15 mil ou cerca de 12 mil dólares. Pouco depois surgiu o concorrente Nokia. Por isso, o rádio faixa-cidadão instalado no jeep, antes da chegada e popularização da telefonia celular e conectado à rede fixa de telefonia nacional e internacional,  fazia grande sucesso onde quer que se chegasse com o Pafuncio. Falávamos frequentemente no Peru, EUA, França e Itália. Os amigos ficavam fascinados, ouvindo nosso diálogo com o mundo inteiro em outros idiomas e a alegria contagiante dos interlocutores estrangeiros, e mais ainda, quando, a pedido, fazíamos ligações para seus parentes na cidade. Coisa inédita nos sertões do Brasil Central, ou seja, falar, à partir da zona rural com seus parentes e amigos na distante cidade, via radio-telefone, ali mesmo no jeep, no meio do mato.

Mas, as diversões com o jeep incrementado não paravam por aí. Cavalos-de-pau eram executados ali na ampla área do campo de futebol contíguo à lagoa. Nesta, preguei uma grande peça nas crianças, novatas n o rally. Entramos na lagoa em baixa velocidade e aos gritos de advertência: Cuidado, crianças, segurem firmes, água à vista. Voou água para todos os lados após o impacto inicial e, bem no meio do lago, desliguei a tração dianteira e acelerei. As rodas traseiras patinavam e jogavam água e lama por sobre as cabeças das crianças, já com olhos arregalados. Não tem jeito, crianças, o jeep atolou e não sai mais daqui! Vovô, nós vamos descer para empurrá-lo... . Vocês estão loucos? E o jacaré que mora aqui na lagoa? Vai devorá-los... Instalou-se o pavor na criançada. Meio arrependido pelo exagero,  em segundos engatei novamente a tração dianteira e o jeep saiu de mansinho... Foi assunto por muito tempo e elas foram recomendas pelos pais a não mais andar de jeep com o avô, para lá de doido. A mãe de uma das crianças, Renata, de espírito aventureiro, a ponto de ser levada para alto mar em seu caiaque, aos dez anos de idade e ser resgatada por um aparato considerável do Corpo de Bombeiros de Guarapari, e não contente, alguns anos depois, saltou de parapente, da Pedra da Gávea, aterrissando na praia de São Conrado, contou para sua filha,  uma das vítimas  da aventura do jeep na lagoa, que, certa vez em Lavras e com menos de oito anos de idade,  eu a levara para passear a cavalo, na fazenda do avô. Região muito montanhosa e na subida de uma forte ladeira, o arreio virou e a jogou ao chão. Sorte que caiu do lado de cima do ladeirão, sobre o capim macio e o cavalo, muito manso, parou imediatamente e serviu de anteparo. Mas, se tivesse caído para o lado contrário, teria rolado pirambeira abaixo até cair dentro do grande reservatório de água, a barragem sobre a qual havíamos acabado de passar. Puro descuido deste avô ao arrear o cavalo, não apertou a barrigueira o suficiente e por isso..., completou a mãe da vítima, eu que sou filha dele já sei dos perigos...,  finalizando o sermão à filhinha e sobrinhos... “parece doido, não o acompanhem mais nessas aventuras” ( como se ela também não fosse aventureira de mar e parapente... rsrs). Doido coisa nenhuma, e relembrei-me, mais uma vez, do poeta, Rubem Alves , que disse que os velhos se tornam crianças, que  só veem a alegria nas coisas e atos do momento. Descuidam de tudo o mais, bem ao estilo do vovô que se tornou criança junto aos netos. 

Pafuncio foi bem equipado, até mesmo para trilhas aquáticas. Snorkel, saindo do carburador e elevado acima do para-brisa, garantindo a entrada de ar puro, sem água quando em atividade anfíbia. Barra de tração para reboque dianteiro, para retirada de eventuais atoleiros ou simplesmente ser rebocado pelo SUV, para um passeio ou manutenções mecânicas na cidade em oficina especializada off-road.

A antena de radio-amador com bandeirola verde-amarela e galão militar, para gasolina adicional, são essenciais  em qualquer trilha, seja nas montanhas, nas planuras do cerrado do Planalto Central ou em atoleiros naturais ou construídos especialmente para  diversão. Um hobby, mas antes de tudo, um mimo para a saudosa alma  de quem passou boa parte da vida com a presença de um Jeep Willys como este. 


Pafuncio, gasto ou investimento?

O Jeep Pafuncio tem servido para minhas reflexões sobre os valores da vida. Esse “retiro”, na calmaria e beleza da natureza, também se faz necessário devido à agitação da vida em grandes cidades, sobretudo na capital federal onde as relações, inclusive de trabalho, perpassam pela vertente política. É uma verdadeira selva de pedra e com todas as demais mazelas próprias como trânsito caótico e crescente violência que nos deixam estressados e até neuróticos. Nele e ali na calmaria da chácara, me reencontro como “pessoa” em minhas reflexões, pois, também o  trabalho demasiadamente intelectual e desenvolvido com elevado padrão de ética, exigindo profunda e completa imersão nas questões, nos leva à exaustão. E essa exaustão é mais acentuada quando nos comunicamos em outros idiomas, especialmente quando estávamos em missões no exterior. Não bastasse a exaustão mental, a intensa demanda profissional como professor e conferencista em estratégias para a formação em Engenharia e Agronomia, nos empurrava, quase sempre, para o isolamento do convívio social, devido ao tempo consumido nessas atividade. Assim, diante do esgotamento mental, ainda que breve, só mesmo o “paraíso” de Quintana e Proust, reforçado pelas teses de Rubem Alves, para recarregar nossas baterias. Mas, nem pensem que sou saudosista extremado, são apenas “surtos” de saudade, pois não sou daqueles que desejam que o tempo retorne e que se volte à época dos arados de aiveca (conheci tratores ultra-modernos nos EUA, onde trabalhei, dotados, já em 1977 de GPS, TV e ar condicionado na cabine). Não desejo a volta dos carros de bois, dos cavalos como meios de transporte ou a iluminação à lamparina, a pena e o tinteiro com o mata-borrão para escrever cartas a serem levadas por mensageiros ou, ainda, no transporte e viagens usar exclusivamente o duro e desconfortável Jeep Willys. Não há nada mesmo, com certeza, que eu desejasse hoje como era antigamente. A tecnologia e a modernidade aí estão para nos proporcionar maior conforto e bem-estar. Melhor viajar num jato de 4 ou 400 lugares, jantando em Nova York ou Paris e tomar o café da manhã no Rio de Janeiro, como já o fiz várias vezes em viagens de trabalho e é superlegal. Ou então rodar num SUV importado, com ar condicionado, mídia e GPS, usar o celular ou a internet para se comunicar com o mundo inteiro por áudio, mensagem ou vídeo, ao vivo, instantaneamente. Muito melhor e mais confortável que esperar o mensageiro a pé, a cavalo ou de trem e barco, ou andar léguas para se encontrar o interlocutor ou destinatário. Mas, nem por isso devemos desprezar o passado. Devemos olhá-lo com respeito e admiração, pois se constitui em verdadeiro aprendizado que valoriza o progresso de hoje e nos impulsiona para o amanhã.  Ah..., e tem mais, a saudade é apenas “um buraco dolorido na alma”, a presença de uma ausência. A gente sabe que alguma coisa está faltando. Saudade é o amor que fica. Meu Jeep voltará para a casa onde nasci, pois tudo tem seu tempo. Levarei de volta as relíquias para a origem. O arado de aiveca, que aqui está e pertenceu a meu pai, também voltará, e este já tem destino: o Museu Rural de Lavras, criado pelo saudoso colega, museólogo Ângelo Delphim.

Afinal, comprei um Jeep..., um sonho, um afeto pessoal, como intitulado nesta crônica. Tem sido ou foi um bálsamo para alma, às vezes cansada ou simplesmente estressada. Às favas os questionamentos descabidos do porquê comprar um jeep. Desfrutei desse mimo, afeto merecido para descanso com as lembranças da infância e da juventude que surgem como ferroadas implacáveis, com doloridas reminiscências que somente são aplacadas com as lambidas no doce da vida. E há, porventura, melhor “doce” do que reviver as coisas doces da vida? E na data de hoje, seguindo o figurino da finitude, decidi doar a um sobrinho esse brinquedinho que será bem cuidado, ali na fazenda onde nasci. Melhor lugar não haverá para essa relíquia, mimo de tantas e tão doces recordações. Por ironia do destino, ali na fazenda da família, ficará abrigado no galpão das antigas tulhas de armazenamento e beneficiamento de café, construído exatamente sobre o local, onde um dia o Sr Duti, fazendeiro de Nepomuceno, cidade vizinha, levou e estacionou um reluzente e novinho jeep dessa mesma cor, bege, para vender a meu pai. Me lembro, como se ainda fosse hoje, da frustração do menino de dez anos, diante da não realização do negócio. O Sr Duti impôs uma condição, só faria o negócio se recebesse seis juntas de bois de carro, um preço muito elevado para a época, naquele ano de 1955.  Mas, o negócio não se realizou nem tanto pelo preço, mas pelo fato de que meu pai não poderia dispor de seus bois, verdadeiros motores de cargas e tração de arado para o preparo do solo, numa época em praticamente inexistiam tratores para substituí-los nos trabalhos da fazenda. Ali estará o meu Pafuncio e quando eu lá for, o verei sobre o solo onde um dia o garoto sonhou em dirigir e nele passear pelos campos. Tenho certeza de que será bem cuidado e estará à minha espera para uma escalada à Serra da Bocaina. Assim, a despedida que dele farei, quando o despachar para a terra natal, certamente não será uma despedida final e sim um até breve, enquanto não chegarem minhas cinzas que serão depositadas ao pé do ipê amarelo, ao lado da janela do quarto ende nasci, naquela mesma e saudosa fazenda, onde estará o jeep.

A vida é assim, devemos nos tornar crianças, especialmente na finitude, com a certeza de que a vivemos com amor e alegria. Graças a Deus. Amém!

 

Brasília, 11 de janeiro de 2025

 

Paulo das Lavras




"a gente continua morando na velha casa em que nasceu”. disse o poeta Mário Quintana. 
Não à toa,  também trouxe de Lavras um carro de boi que pertenceu à família.


Um trato depois da trilha em barro ou nos campos do cerrado e morrotes...



 

A fascinação pelos jeeps é uma constante. Aqui, no Museu da 2ª Guerra Mundial, no local de desembarque das Tropas Aliadas, nas praias da Normandia- França.

 


... e bota paixão... Aqui, num desfile militar de 7 de Setembro em Brasília. 

Tomei de assalto (sentimental e de afeto), do filho de um ex-pracinha, o jeep e

 o capacete de guerra. Pura emoção ao relembrar nossos Pracinhas na guerra, na Itália.



No QG do Exército em |Brasília. Dia do Soldado, com capacete da 2ª Guerra Mundial

e os recrutas uniformizados à caráter e o velho jeep de guerra.

 



 













 

 




 

 


 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Final de ano com assalto no deserto do Arizona-EUA

 

443.800 visualizações-blog 20/01/2026
 
 
Roubaram-me” o passaporte de serviço e traveler´s checks
 no deserto de Old Tucson, no Arizona 
Foto do autor– dezembro 1977


 

Prometi que contaria o caso do assalto à mão armada, sofrido em pleno deserto do Arizona, nos Estados Unidos, perdendo o passaporte de serviço e os traveler`s checks (não existia ainda o cartão de crédito internacional) que o bandido, armado com um enorme Colt tirou dos bolsos internos de meu paletó e ainda simulou, cinicamente, enforcar-me com minha própria gravata. Aqui está a narrativa desse ocorrido, também num final de ano e por isso agora relembrado, 48 anos depois.  Nunca pensei que aquele final de ano, de 1977, após quase dois meses de trabalho nos Estados Unidos como era costume a cada semestre, me fossem reservadas tantas surpresas antes do retorno ao Brasil. Era comum visitar meia dúzia universidades em diferentes estados americanos, pois tínhamos contrato com 32 delas, onde 250 professores brasileiros estavam matriculados em cursos de doutorado e pós-doctor. Nosso escritório ficava na Michigan State University, bem ao norte do país, na região dos Grandes Lagos, na cidade universitária (East-Lansing) geminada à capital do estado, Lansing. Planejamos um longa viagem, em verdadeiro cross-country tour para, ao final conectar-se ao voo de retorno ao Brasil, à partir de Miami no sul do país.  Saímos de Lansing, acompanhado de duas assistentes, Mrs June Mills, do nosso escritório em Michigan e a Srª Lacy, do MEC. Voamos para Detroit e dali para Chicago, do outro lado do grande lago de Michigan (os outros lagos são  o Superior, Huron, Erie e Ontário, sendo que o de Michigan é o único inteiramente dentro dos EUA) . No  aeroporto de O´Hare, em Chicago, o segundo maior dos Estados Unidos, trocamos de avião, embarcando num DC-10/30, com  destino à San Francisco, na California, na costa do Pacífico. Decolagem às 12:00h, para um voo de 04:00 horas de duração e chegada às 12:00hs no destino. Nesse estado visitaríamos duas universidades, U.C. Berkeley e U.C Davis. Voaríamos quatro horas e chegaríamos ao meio-dia,  em San Francisco. Ao meio-dia, sim, na mesma hora de saída, pois o voo é em sentido leste-oeste, a favor do fuso horário e atravessando  quatro diferentes fusos de uma hora cada. Em compensação, o voo de volta, que saísse ao meio-dia de São Francisco, teria chegado às 20:00hs e voado as mesmas quatro horas.

Mas, não chegamos ao destino naquele malfadado voo, pois em meio caminho aconteceu um incêndio à bordo, iniciado por explosão do forno elétrico, na galley, onde se aquecia o almoço a ser servido. Um mergulho repentino, guinada acentuada à esquerda e o comandante alternou para Las Vegas. Conseguiu-se aterrissar, em poucos minutos, com o fogo controlado, porém, com muita fumaça no interior da aeronave e, pior, uma vítima, comissária de bordo que fora gravemente ferida no rosto. Mas esta é outra história, pois passamos o dia em hotel de luxo, às expensas da companhia aérea, com cassino e tudo... Viva Las Vegas, como cantava Elvis Presley, falecido menos de quatro meses antes, ali no Tennessee, deixando o país atônito e ainda em luto, mesmo já decorridos alguns meses.  Atraso de um dia nos compromissos na Califórnia e demais planejados com antecedência, exigindo ação imediata de nossa assistente Mrs. June Mills, tanto na reprogramação dos voos subsequentes, como nos encontros com autoridades universitárias e bolsistas brasileiros. E ainda nem existiam internet e telefone celular.

Deixamos Las Vegas no dia seguinte e rumamos, finalmente para San Francisco. Encerrada as visitas nas duas Universidades da California – Berkeley e Davis, voamos para Tucson, capital do Arizona,. Saímos de Sacramento, capital do estado da California, passando por Denver, no Colorado, Albuquerque/Novo México e Phoenix/Az para, finalmente, chegar à Tucson . Compromissos cumpridos, embarcamos no voo que nos levaria ao Texas, Geórgia e finalmente à Flórida, uma semana depois e de onde partiríamos no Boeingão 707 da saudosa e especial  companhia aérea brasileira, Varig, da qual todos elogiavam os finíssimos e apreciados serviços de bordo. Não faltavam em seus voos internacionais o caviar e bons vinhos. Mas, foi ali, em Tucson, no desértico estado do Arizona que, antes de embarcar de volta, nos levaram para a lendária cidade de Old Tucson , onde aconteceu o “assalto”.

Com certeza, aquele foi um final de ano diferente, o mais tumultuado de minha vida, cheio de surpresas, algumas boas e duas outras nada agradáveis, apavorantes mesmo. Eram duas temporadas anuais de trabalhos nos Estados Unidos e ambas incluíam longas e demoradas viagens de visitas às universidades e órgãos do governo americano, em Washington-DC, especialmente o Departamento de Estado e a USAID, financiadores do projeto de Educação Agrícola Superior, que administrávamos em dupla execução, no Brasil e nos Estados Unidos, onde nossos professores, em número de 250,  cursavam programas de PhD. Tais viagens internas naquele país eram cuidadosamente planejadas, especialmente esta, da costa oeste e centro sul daquele gigante país, onde planejamos visitar sete universidades. Ademais, o cronograma era apertado, pois  me recusava a passar o inverno em Michigan, onde a neve costumava atingir um metro de altura na porta de casa. Viva o mês de dezembro de Brasília, com temperaturas de 30º C.  Mas, prosseguindo nas viagens  pelas terras do Tio Sam, naquele final de ano tivemos, duas situações de perigo real e risco de vida com aeronaves. A primeira, com pane hidráulica logo após decolagem de Washington-DC, obrigando a pouso forçado em Reston/Dulles na Virgínia  e outra tão grave como a primeira e acontecida apenas dez dias após a primeira, desta vez com incêndio a bordo em plena rota de Chicago a San Francisco/Cal. Podemos dizer que as surpreendentes sensações experimentadas em Old Tucson, superaram os sobressaltos e o risco real dos acidentes aéreos.  O espetáculo em Old Tucson superou todos os perrengues que sofremos em voos na terra do Tio Sam. Foi maravilhosa, surpreendente e emocionante a  encenação, ao vivo, do “assalto à mão armada” e à moda antiga do farwest, a diligência puxada por enormes cavalos, o bandido assaltante do banco da Wells Fargo, caindo baleado da varanda do 2º andar do sobrado de madeira, o índio Navajo estilizado, tudo em pleno deserto do Arizona, com aqueles típicos cactus espinhentos que aparecem nos filmes de farwest, daquela linda cidadezinha-cenário dos filmes de Hollywood. 

O “assalto” encomendado pela assistente June Mills, sem que eu soubesse, foi presenciado pelo U.S. Marshal, ao vivo em carne e osso, o delegado federal americano, cargo acima do Sheriff. O delegado Federal, tomou a arma do bandido e devolveu-me o passaporte e os traveler´s checks, dizendo em tom de blague: “welcome, brazilian guy...”. Inesquecível, pois o menino pôde “voltar” ao passado e reviver emoções antes experimentadas apenas nas telas do Cine Teatro Municipal  de sua terra natal. Sim, foi emocionante e logo a seguir embarcamos no avião rumo à Dallas, no Texas e de lá, para Atlanta, no estado da Geórgia, onde, um pouco mais adiante, na pequena e aprazível cidade de Athens, os estudantes brasileiros e dirigentes da Universidade nos aguardavam. O voo durou 01:45 horas, e não bastasse estar nos céus, a alma flutuou, leve, em puro deleite, sonhando longe, no distante Brasil, pátria amada, berço do menino,  Lavras, onde bebeu e se impregnou do saber e da cultura. O tempo de voo parecia que havia durado apenas alguns segundos quando despertou com o aviso da comissária; “Ladies and gentlemen, keep your seatbelt attached..., we´ll land in few minutes...  Doces reminiscências da infância e juventude e agora, ali, no deserto do Arizona, o menino pôde reviver parte desse legado. Obrigado Lavras, pois, como bem disse o poeta Caio Fernando de Abreu, eu também “carrego comigo uma caixa mágica onde eu guardo meus tesouros mais bonitos. Tudo aquilo que eu aprendi com a vida, tudo aquilo que eu ganhei com o tempo e que vento nenhum leva. Guardo as memórias que me trazem riso, as pessoas que tocaram a minha alma e que, de alguma forma, me mudaram para melhor. Guardo também a infância toda tingida de giz. Tinha jeito de arco-íris a minha. O pouco é muito para mim. O simples é tudo que cabe nos meus dias. Eu vivo de muitas saudades. E quem se arrebenta de tanto existir, vive para esbanjar sorrisos e flashes de eternidade”.

A saudade e a solidão, são apenas companheiras de viagem. E elas sempre foram minhas companheiras por mais de 3.500 horas a bordo de aviões. Naquele dia, ali em Tucson-Arizona, prossegui viagem e do fundo da alma, agradeci à Lavras, Terra dos Ipês e das Escolas, onde se respira um ar de Educação e Cultura. Respirei muito ali e por isso resisto e existo com alma nutrida, agradecida a tudo e a todos. O Saber e a Cultura nos alimentam eternamente!

Para finalizar e melhor apreciar e entender os fatos mencionados, leia a crônica original, escrita em 2020, com detalhes da cultura em Lavras e dos eventos passados na terra do Tio Sam, berço dos missionários norte-americanos que plantaram, na minha cidade natal, a hoje Universidade Federal de Lavras, eterno legado.

 Clique no link a seguir e veja as ilustrações e detalhes:

 

https://contosdaslavras.blogspot.com/2020/12/a-arte-em-lavras-rto-e-e-o-mais.html

 

Brasília, 01 de janeiro de 2026 (Feliz Ano Novo!)

Paulo das Lavras


domingo, 28 de dezembro de 2025

Dezembrite - 2025

 
Uma pausa para a reflexão de final de ano. Gratidão à vida! 
Foto: internet


Nunca havia pensado que a criação do calendário do ano civil, com 365 dias, distribuídos em 12 meses, pudesse representar muito mais que o ciclo orbital completo da Terra em torno do Sol. O calendário anual tem lá suas razões. De um lado a física do Universo e por outro, a nossa resiliência. Precisamos de uma pausa em nossas atividades para recarregar as baterias neurais de nosso organismo.  Vá lá que essa conta dos dias físicos do calendário anual não é bem exata, havendo uma fração de 0,25 dias/ano, que acumulada em quatro anos, aumenta um dia ao ano. Mas, isto está previsto e há correção a cada quatro anos. É  o chamado ano bissexto, de 366 dias, quando o mês de fevereiro passa a ter 29 dias. Foi uma tarefa e tanto para o Papa Gregório XIII, em 1582, quando reajustou o calendário até então existente, criando este atual que ainda utilizamos.  Não bastasse a divisão em meses, há ainda as quatro estações do ano, a primavera com suas flores, o verão com tempo de calor e chuvas, o outono das quedas das folhas e colheitas de cereais e por último o inverno, que se caracteriza pelo frio, quando as plantas hibernam e se preparam para a florada, repetindo-se o ciclo. Esses períodos climáticos do ano são devidos à inclinação  do eixo da Terra e seu movimento ao redor do Sol, ora mais perto e com exposição direta do sol, perpendicular, ou então mais inclinada e mais distante, razão pela qual o clima fica mais frio.

Mas, tudo isto é ciência e já conhecemos desde os  tempos iniciais da escola. É o ciclo anual da natureza e que rege nossa vida, com o tempo de plantar e tempo de colher os alimentos, inseridos no ciclo da água, com a evaporação, condensação e precipitação, reabastecendo os mananciais que nos fornecem o precioso líquido, essencial para nossa vida, das plantas e dos animais. Natureza perfeita! Mas, tudo isto está circunscrito ao plano da Natureza da Terra e do Universo. Há, no entanto outro fator, a natureza humana, que se insere e vive neste ambiente do universo. Há quem diga que em dezembro, o último mês do calendário, encerra-se também um ciclo na vida humana. É tempo de festas e celebrações, mas também de se fazer um balanço do ano que se encerrou e quase sempre cheio de melancolia que se transforma em tristeza. Muitos olham para trás e agradecem o sucesso alcançado, outros porém, lamentam o fracasso de suas metas não atingidas e mesmo diante de alguns sucessos, sempre haverá projetos não realizados, causando, na maioria das vezes, frustração e desânimo diante de uma sociedade que só “vende” alegria, felicidade e dinheiro. É a chamada dezembrite, o cansaço, traduzido em desânimo da alma, quando confrontada ao suposto “sucesso” vendido pela massiva propaganda comercial. Alguém, já viu na TV ou mesmo nas redes sociais, alguma propaganda pessimista, de fracasso? Até mesmo para o condenável cigarro, havia propaganda associando-o “ao sucesso... com Hollyw...!” , mostrando a imagem de um jovem sarado, musculoso, surfando em águas azuis de paraísos turísticos. Pois bem, esse clima de sucesso se acentua no final do ano, pois a sociedade exige felicidade constante. E é aí que entra a tal da “dezembrite”, que intitula esta crônica.

Não à toa, as propagandas de Natal se iniciam no mês de outubro, dois meses antes, de modo a ir preparando a mente e o bolso para a gastança da “suposta felicidade” de final de ano. Natal já deixou de se ser festa cristã, pois foi sequestrado pela ganância comercial. A “felicidade” propagandeada deve ser mesmo apenas para os comerciantes e veículos de comunicação. Basta ler as manchetes... “comerciantes esperam aumento de x% nas vendas, ou ainda, “o 13º injetará bilhões no comércio”, ou seja, tudo gira em torno dos negócios, do faturamento, do lucro alheio, que vem embalado na enganosa venda de !felicidade”. Natal e Ano Novo representam, hoje, apenas negócios. Acabou aquela devoção da natalidade celebrada pelos cristãos. Apenas festas e faturamento com a falsa propaganda da felicidade e de sucesso (desde que você compre o produto anunciado, logicamente...). Ora aí está a fonte da tristeza, da frustração do cidadão comum, pressionado pela propaganda comercial sente-se frustrado por não fazer parte dessa “gente feliz”, com carro zero Km, viagens internacionais, maravilhosos e caríssimos presentes natalinos. Some-se a isto o balanço negativo, com contas a pagar, a promoção profissional que não veio, a ameaça de perda do emprego, o filho problema, a saúde de familiares, o luto, as perdas pessoais, o amor que se foi, a solidão enfim, e eis que a tristeza se instala, fica calado, mudo, quase em deprê, por sentir-se “fora” desse mundo alegre e festivo de final de ano. Esta é a chamada dezembrite. Tudo isto acontece em nome de um suposto sucesso..., e assim chega-se à exaustão no final do ano, quando todos procuram fechar um ciclo e planejam o próximo. Daí o costume de se desejar “um próspero Ano Novo”, pois a mente persegue, sempre, o sucesso. A propaganda sabe explorar isto muito bem. Não deveria ser assim, por que não focar o oposto? Contar as conquistas conseguidas no decorrer do ano, a começar pelo trabalho que não lhe falta, a saúde, a família e a alegria de um lar.

É preciso respeitar-nos...,sim, a nós próprios! Qualquer pausa que fazemos, qualquer descanso que nos propomos, já os consideramos como tempo perdido. Não é assim, ao contrário, é uma forma de respeito aos nossos limites físicos e da própria alma. Talvez por isso, cheguemos ao final do ano estressados e pessimistas, esquecendo-nos das vitórias que conseguimos. Nesse clima pessimista, as festas de fim de ano perdem o brilho e muitos ficam a lamentar, até mesmo lutos passados que, durante as festas tradicionais de natal e ano novo, tonam-se saudades  doloridas e por isso, se recolhem no silêncio. Essas perdas não se restringem ao passamento de entes queridos, acabam se estendendo às separações, doenças de familiares, o emprego que não veio e outras tantas razões que passam a dominar a alma já sofrida.

Estas, com certeza, são as razões pelas quais cunhou-se a nova expressão “dezembrite”. Cabe a nós, no entanto, escolher a forma de encarar este final de ciclo anual. É estafante? Sim, porém, precisamos nos conscientizar que as férias, a pausa individual, são importantes. Neste ano adotei o conhecido recesso-de-fim-de-ano,  paralisando completamente as atividades profissionais, de 20 de dezembro a quatro de janeiro do ano novo. Nada de palestras, reuniões, telefonemas, mensagens ou outros compromissos profissionais. Recesso total, com 14 dias de descanso, nem mesmo dirigir carro pelas ruas da movimentada cidade grande. Compras de natal?  Ah... viva o Uber, sem sobressaltos ou assaltos de flanelinhas e de estacionamentos com exorbitantes cobranças de estacionamentos nos shoppings. A vida em cidade grande exige postura mais realista e prática. O descanso é fundamental e faz um bem imensurável para a mente, a começar pelo tempo que se pode dedicar às leituras dos livros que já estavam na fila de espera. Bálsamo para alma, pois descansados e sem correrias, até os planos futuros soam melhores, mais leves.

Boas Festas, aproveite os feriados de final de ano, reserve alguns dias de recesso. São ótimos para fazermos um balanço do que se foi, corrigir rumos e estabelecer metas com otimismo e alegria. Ah, não se esqueça que em 2026 haverá eleições e ainda há tempo suficiente para se pensar numa boa escolha. Que tal banir aqueles que cortaram milhões de reais do orçamento das universidades e os transferiram para os bilhões reservados para si próprios, em emendas secretas. Mas, em todas essas reflexões, próprias para essa ocasião de encerramento do ciclo anual da vida, nunca se esqueça de agradecer a Deus pelo maior presente que Dele recebemos: a Vida. Basta esta para  nos sentirmos felizes, sempre!

Amém!

 

Brasília, 28 de dezembro de 2025

Paulo das Lavras.


 Um Natal de anos passados: “dois velhinhos” bem alegres. 
Assim deve ser a vida. Amém! 
Foto do autor

 



 

domingo, 30 de novembro de 2025

A matemática e minha resiliência


Blog: 440.036 visualizações até 30/11/2025


 
Livro de matemática dos anos 60, PUC-PR. 
Tijolaço e raridade em Minas Gerais 
Foto: internet


Muitos amigos perguntam se tenho alguma explicação para estar no mercado de trabalho profissional e universitário por tanto tempo. Estou há 65 anos ensinando, pois desde os 15 comecei a ministrar aulas particulares de matemática para candidatos  ao Exame de Admissão. Sim, nos anos 60, o aluno ao terminar o curso primário (Fundamental I, assim chamado, hoje) e desejasse continuar os estudos no nível seguinte, o antigo Ginásio e hoje chamado de Fundamental II, teria que se submeter a uma espécie de exame vestibular, chamado de Exame de Admissão ao Ginásio. Era muito puxado esse exame, compreendendo provas de Português, Matemática, Geografia e História. Havia dois diferentes cursos de Admissão, o primeiro, com um ano de duração, destinava-se aos alunos de baixo desempenho nas notas do curso primário. O segundo, era compacto e ministrado nos meses de férias, de janeiro e fevereiro. Além disso, era comum os pais pagarem professores particulares, durante o último ano do curso primário, para reforço e preparação do aluno, que contava com apenas 10 ou 11 anos de idade e sem muito domínio de toda a matéria aprendida nos quatro anos do curso fundamental. Os exames ocorriam nos meses de dezembro e fins de fevereiro, de modo que em 1º de março, o aluno já poderia ingressar no curso ginasial.

Não era comum, naquela época, seguir a carreira de estudante, até porque não havia, nas pequenas cidades, o ensino público gratuito. Todos os colégios existentes eram particulares, pagos. Em Lavras havia quatro, o famoso Instituto Gammon, de missionários presbiterianos, norte americanos, fundado no longínquo ano de 1893, recebia apenas rapazes e sua filial,  o Colégio Carlota Kemper, era destinado somente às moças, separação rígida, respeitada até os anos de  1960 do século passado.  Em 1900, a Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade, de  Caeté-MG, tratou de fundar em Lavras o Colégio N.S. de Lourdes, católico, que deveria concorrer com os presbiterianos. Este era exclusivamente para moças e somente  42 anos mais tarde surgiu o quarto educandário, o Colégio N.S. Aparecida (1942-85), de padres católicos e destinado a receber exclusivamente os rapazes. A sociedade lavrense se uniu e reuniu cidadãos dispostos colaborar nesse empreendimento educacional. Meu avô foi um dos fundadores desse colégio, que acabou encerrando suas atividades em 1985 e cedeu suas instalações ao Centro Universitário UniLavras. Pois bem, devido às dificuldades de se pagar mensalidades aos colégios, a maioria dos jovens encerrava sua carreira de estudante ali mesmo no curso primário. Ingressavam, logo em seguida, aos 12 ou 14 anos, no mercado de trabalho sem nenhum grau educacional complementar. Por isso, mais tarde, já em condições de pagar o colégio, alguns poucos retornavam aos estudos. Mas, havia um porém..., o difícil exame de admissão ao ginásio. E foi nesse nicho que o menino de apenas 15 anos iniciou sua carreira de professor, para alunos candidatos ao ingresso no colégio, antigo ginásio. E a maioria dos candidatos era de adultos, entre 20 e 30 anos de idade, já no mercado de trabalho e que precisavam de um diploma de curso secundário para galgar promoções.

Matemática era a minha matéria preferida, ensinava álgebra com frações, equações de segundo grau, regra de Bhaskara e a geometria já em outros níveis e neste caso, prevaleciam os alunos-colegas de turma, que tinham dificuldades no desenvolvimento das matérias de nível superior. Na faculdade ainda se acresciam às aulas particulares aos colegas, o assessoramento na elaboração de trabalhos de conclusão de curso, especialmente em topografia, irrigação e drenagem. Livros e mais livros, compunham minha estante, com centenas de “problemas” para exercícios resolutivos, às vezes difíceis, mas, quando resolvidos, nunca mais eram esquecidos. Aliás, os livros, fossem de literatura, idiomas, matemática, física, química, biologia, engenharia, todos, eram rabiscados, grifados com tintas de diferentes cores, destacando-se os pontos chaves da matéria. Comentários eram escritos à mão ou colados às páginas em pequenas tiras, concordando ou discordando do enunciado. Nunca dei atenção à recomendação de professores do curso primário, que recomendavam cuidado especial em não rabiscar os livros, talvez porque eram livros pertencentes à escola, ou ainda se cultivava o hábito de se repassar os livros aos irmãos mais novos. Em todos os meus livros havia sempre as marcas e a certeza de que a matéria foi aprendida e absorvida. Nunca empresto meus livros. Se necessário, compro um igual e ofereço ao amigo que solicitou.  Me lembro, por exemplo,  que na prova oral do vestibular de Agronomia (sim, naquele tempo o vestibular de nível superior, incluía prova oral, aplicada no quadro negro, diante de uma banca de examinadores), consegui resolver um problema dificílimo, obtendo a nota dez em pleno exame vestibular, ao vivo e sob o olhar um tanto quanto admirado da banca examinadora, composta pelos professores Wilson Ferreira, Márcio de Castro Soares e Weber de Almeida. Nota máxima, sem pestanejar, mas contamos com um pouco de sorte, pois um professor havia me emprestado um Manual de Matemática do autor Bezerra, da PUC-PR, chamado de tijolão, tal era o seu volume de páginas e complexidade dos exercícios. Nele havia um problema semelhante que, dias antes me propusera a resolver.

Minha experiência, como professor de alunos aspirantes ao curso de segundo grau, valeu, pois a prática constante da matemática  e o gosto pelos estudos, aceitando os desafios de problemas/exercícios difíceis, moldam o raciocínio lógico que sempre busca soluções racionais. Nunca deixava um problema/exercício sem resolução. Se empacava..., dia seguinte lá estava com os professores do colégio, especialmente os queridos Nelson Wilibaldo Werlang, Valdir Azevedo, ambos de Matemática, Russaulière Mattos, de Física e Química,  Canísio Ignácio Lunkes, de Geografia. Inglês e Francês e ainda Pe. Elói Dorvalino Kock, de Português, mestres excepcionais, que sempre nos dedicavam atenção especial e por que não dizer, nos inspiraram na carreira do magistério. Também aí, no aprendizado a resiliência do menino estava sempre presente. Nunca desistia de encontrar a solução do problema/exercício.

Mas, este foi apenas o começo, pois ao longo de minha trajetória, enfrentei desafios de toda natureza, pois sofremos críticas de colegas professores, por adotarmos métodos inovadores na formação do aluno, além de lidar com a  dificuldade natural dos estudantes quase sempre mal-informados, sem orientação alguma no campo da metodologia do aprendizado, da busca do conhecimento e do saber. Tudo isso exigia e ainda exige, muita força interior, paciência e capacidade de adaptação. Por isso, sempre respondo à pergunta dos amigos, a qual inicia e abre esta crônica:  

... simplesmente, tenho uma enorme energia. Desde menino tive mente agitada, desinquieta, curiosa, observadora ao extremo, hiper focada, inquiridora, e não se contentava nunca em ficar sem a resposta certa. Continuo, ainda hoje, do mesmo jeito, formulando perguntas e isto me leva a manter-me no mercado de trabalho.

Esta situação acontecia em tudo, não apenas nas matérias e disciplinas colegiais e da faculdade. O menino queria explicação de tudo, de coisas inusitadas, como por que as aves de rapina curvam as pontas e somente as pontas das asas, ao darem um voo em mergulho, ao tempo em que arrebitam a cauda. Por que isso? Estabilidade  no voo? Manter a direção certa sobre o alvo no chão ou no ar? Velocidade, ou ligeireza com dizíamos, as crianças? Caramba, essa pergunta martelou-me a mente boa parte da vida, por exatos 60 anos e toda vez que via uma ave em voo de ataque, vinham-me à mente aquelas perguntas formuladas aos oito ou dez anos de idade. Nenhum colega piloto de ultraleve, ou de grandes jatos e nem mesmos oficiais engenheiros aeronáuticos me explicavam. A resposta só encontrei, muitos anos depois, quando a EMBRAER, lançou, em 2014, o avião a jato EMB- 175, dotado de winglets, aquela ponta da asa, arrebitada para cima, tal qual fazem as aves de rapina. E qual a função dessa ponta terminal da asa virada para cima, quase em 90º?  Ensaios em túneis de ventos demonstraram que servem para diminuir a força de arrasto do ar, economizando combustível, aumentando a velocidade e propiciando maior estabilidade e correção no voo. E pensar que aves de rapina já faziam isto desde que o mundo é mundo e que o menino observava isto já em 1954 e os engenheiros aeronáuticos só descobriram isto em 2014, sessenta anos depois? Foi preciso, ainda, esperar 108 anos depois  da descoberta do avião para se chegar a esse resultado, que hoje é usado em todos os modernos aviões a jato. Maravilha que a mente inquieta, agitado do menino martelou e hibernou por seis décadas e cujo resultado se escondia nas leis naturais da Cinemática e Dinâmica, da Física.

Ah..., retrucavam os amigos, “energia’? Todos têm, crianças nascem e crescem assim, cheias de energia,  mas à medida que envelhecemos vamos perdendo energia, diminui a vontade de se movimentar, nos acomodamos, diziam-me. Não satisfeitos emendavam,  e como explicar esse seu “entusiasmo”, ainda hoje, aos 80?  Na verdade não foi isto que aconteceu, pois ainda me sinto aos 30, ou 40 e tenho fortes motivos, vejam os três principais. O primeiro é inato. Nasci assim, fui criado assim. Logo aos dois anos de idade passei, literalmente, nove meses no colo de familiares, convalescendo de delicada cirurgia torácica. Vinte quatro horas ao dia sob cuidado pela família e agregados. Isto fez toda a diferença em meu comportamento, segundo os especialistas. A grande vantagem foi que naquela idade é que se desenvolvem os neurônios da criança. Fui estimulado ao extremo, pois tinham que me manter distraído para ignorar o incômodo de enorme sonda, um dreno nas costas que sequer podia ser tocado. Assim, desenvolvi o senso da curiosidade, do aprendizado, pois tudo que perguntava, obtinha pronta resposta do adulto cuidador. E mais, eram respostas amorosas, carinhosas, dirigidas ao menino frágil que teve a vida por um fio e ali estava a convalescer obra e graça da misericórdia de Deus. As respostas eram,  quase sempre, seguidas de histórias e contos que ilustravam a situação, provocando a imaginação do garoto. Me lembro de meu pai com sua canção de ninar (ainda sei a letra e ele a confirmou pouco antes de nos deixar, aos 101 anos de idade), passeando, à noitinha entre a sala e o quarto, com o menino de bruços no seu ombro e agarrado ao pescoço, ouvindo o doce zoar de sua canção, seguindo-se leves embalos que colocavam o menino junto aos anjos do amor embarcando-o no sono profundo. A confirmação de meu pai, aos 101 anos, dessa maravilhosa prova de amor, foi a sensação mais sublime que tive e pude , então, reconhecer o quanto o amor e dedicação dos pais, da família e agregados, fazem diferença na vida e desenvolvimento intelectual da criança.

A ciência está aí e a todo momento as pesquisas revelam essa grande verdade e muito provavelmente minha pergunta sobre a ponta  da asa encurvada e arrebitada nos velozes voos de urubus e gaviões,  na captura de presas, deve ter surgido nessa época. Psicólogos e outros especialistas afirmam que, nessa faixa etária, os estímulos à criança fazem toda a diferença, aumentado o QI, pois além de ampliar o estoque de neurônios, formam as sinapses, agrupando e sistematizando a  hierarquia  mental. Dizem que a matemática é boa para a cabeça. Sim, desenvolve o raciocínio lógico. Mas de que adianta elevar o raciocínio, aumentar os neurônicos, se não houver resiliência? Isto se aprende, se adquire com assistência na infância. O carinho, o amor e a atenção na primeira infância é fundamental. A criança adquire autoconfiança, pois sabe que tudo que perguntar terá resposta correta e estímulo e buscar soluções. Adultos conscientes sabem que não há pergunta burra e sim resposta idiota. A criança precisa ser estimulada a desenvolver a mente, treinar habilidades, encarar pequenos desafios (lúdicos), mostrando a elas as vantagens de se conquistar/descobrir algo. Sendo assim educada, a criança terá maiores chances de crescer com mais tranquilidade, na certeza de que tudo se resolve com amor e atenção, o que lhe dá autoconfiança,  otimismo (orientação positiva para o futuro) e aceitação positiva da mudança. Ela tem certeza de que não será criticada por qualquer que seja a pergunta que ele venha a fazer. E isto desinibe, ou melhor, desenvolve o senso de curiosidade e a persistência em busca das reposta para encontrar soluções criativas e não desistir dos meus objetivos. Ou..., simplesmente resiliência.

 Ah..., a matemática ajuda , sim, e muito! E hoje, nem mesmo ensino a matemática, mas ministro palestras neste Brasilzão inteiro, sobre Engenharia e Agronomia, nas universidades, conselhos profissionais, associações de classe, centros-acadêmicos, sempre destinadas aos profissionais e sobretudo aos jovens. Quer coisa melhor do que falar, incentivar jovens cheios de vida, prontos para enfrentar o mercado de trabalho? A vida é aquilo que dela fazemos. Vivo em meio aos jovens, sinto neles a vontade de vencer,  a energia pulsante. Só me resta entrar nessa ..., de 30 anos no máximo e incentivá-los..., que sejam inquiridores e resilientes, sempre!!

 

Brasília, 30/11/2025

Paulo  das Lavras


A busca incansável pela resolução de problemas/exercícios 
em qualquer livro de matemática, ajudou o menino a 
desenvolver a lógica e a resiliência. 


 Prof. Russaulière Mattos, meu primeiro tutor, que a mim confiou a 
monitoria  de sua disciplina – Física, no curso científico 


 
Diretores do UniLavras em visita ao MEC, instituição que ocupou as instalações do   
Colégio Aparecida,  onde estudei, e lá contei, também,  com a tutoria do saudoso Prof. 
 Canísio Lunkes, genitor da Reitora Marília Lunkes, que aparece na foto  


 Com o colega Prof Laughlin, na Michigan State University 


 Com colegas professores da Universidade de Montpellier- França








 





domingo, 19 de outubro de 2025

Dia do Professor

 

 
Foto:  cortesia IStock


Ser Professor é ser um educador. E o que é um educador? Educador é aquele que é um facilitador do aprendizado. É quem inspira o aluno a buscar o conhecimento. É quem forma o cidadão ético, preparado para o futuro. Você foi assim preparado? Você é um bom “professor”? O que lhe inspirou e foi determinante para a escolha da carreira de professor?

Nesta semana, mais precisamente no dia 15  de Outubro, celebramos o Dia do Professor. As redes sociais e os jornais nos inundaram com carinhosas mensagens.  Agradeci a todas, como sempre faço, pois é uma maneira de se conservar os vínculos com os ex-alunos e isto, a gratidão dos alunos, é o maior tesouro de um professor. É a grande recompensa da vida, o reconhecimento por algo de bom que você fez e que deixou marcas. Marcas de puro amor que mesmo depois de 50 anos ou mais, os ex-alunos ainda as lembram.

Conta-se uma linda história de um ex-aluno que reencontrou seu velho mestre muito tempo depois e perguntou-lhe: lembra-se de mim, professor? Não, respondeu o mestre. Pois eu me tornei professor e a minha inspiração foi a sua atitude em relação a mim, seu aluno. E o que foi que fiz de tão especial que até lhe serviu de exemplo para também seguir essa carreira? O senhor não se lembra? Eu sou aquele aluno que um dia, em sua sala de aula, roubou o relógio luxuoso de um colega. Não, não me lembro, repetiu o velho professor. Pois bem, o senhor, ao receber a reclamação, trancou a porta da sala e disse: Todo mundo de pé, de olhos fechados, mãos sobre a própria escrivaninha, vou revistar os bolsos de cada um. Não se mexam. O senhor terminou a revista, e anunciou que já tinha encontrado o relógio e o devolveu ao seu dono. O senhor não se lembra mesmo disso, professor? Ah..., me lembro do caso, mas não do aluno que roubou, porque eu também estava de olhos fechados... Pois então, professor, aquela sua atitude, incluindo o fato de que nunca comentou com ninguém e nem mesmo me repreendeu, salvou minha vida, minha reputação, pois caso contrário eu seria mais um marginal, estigmatizado pelos colegas e quiçá por todo o colégio. Foi um ato impensado de um menino deslumbrado com a coisa alheia. Sua atitude foi a maior lição que recebi e prometi a mim mesmo que seria um professor como o senhor, para formar cidadãos, encaminhá-los na vida. Aquele meu ato impensado, pueril,  poderia ter arruinado a minha vida para sempre.  O senhor a salvou. Nunca me esqueci disso.

Antes de ser professor, a gente é aluno. Aliás, aluno a gente é sempre. Não se passa um dia sequer que a gente não aprenda algo. Aquele jovem professor da história acima, se tornou um professor porque foi aluno e se inspirou nas qualidades morais daquele  sábio mestre que cuidava de formar cidadãos para a vida. Também eu tive bons professores nos quais me inspirei. Mas o que mais me motivou foi um péssimo professor. Sim, péssimo, sem empatia e maldoso. Menino de 12 anos, da primeira série ginasial, assistia uma aula de Ciências Naturais. Encantei-me com a figura colorida, de linda pintura ou foto de um cachorro em esqueleto. Sua figura, estampada em grande quadro mural dependurado no quadro negro, mostrava apenas o esqueleto, o crâneo, a coluna vertebral, as costelas e os membros dianteiros e traseiros. Parecia um cachorro vivo, tal a sua disposição na pintura. Perfeito. Só que, ao descrever o conjunto de ossos do esqueleto, o professor mencionou as partes e a “coluna vertebral” . Ponto final. Curioso que era, conhecedor dos cães e outros animais domésticos vertebrados da fazenda, perguntei inocentemente: professor, e o rabo? A cauda  (em linguagem mais adequada) faz parte da coluna vertebral ou tem outro nome na anatomia do animal? Esta era a dúvida do menino. Ou você é burro ou quer bagunçar a aula e neste caso vai para fora da sala. Assim respondeu o irado professor, caminhando ameaçadoramente para meu lado, assentado, sempre, na primeira fileira das carteiras da sala de aula. O professor, todo vermelho, raivoso e ainda com aquela varinha de apontar no quadro negro, balançando-a ameaçadoramente, continuou com seu discurso contra o aluno “atrevido”. Restou-me apenas abaixar a cabeça  sobre a carteira escolar e chorar, de vergonha, humilhado perante toda a classe. Nunca mais me esqueci daquele terrível e dramático episódio em sala de aula. Uma curiosidade sobre o saber, se a cauda do cão fazia ou não parte da coluna vertebral e se assim poderia ser identificada, transformou-se em pornografia, na cabeça de um professor, que muitos achavam que tinha problemas inconfessáveis e talvez por isso tivesse a necessidade de negar sua condição. Situação incompreensível  para um menino de então, de uma sociedade conservadora que jamais discutia tais questões com os filhos. Tabu, tanto em casa como na escola.

Mas, a marca indelével ficou e pouco mais tarde foi transformada em desejo de ser professor..., diferente daquele de mente doentia e que não tinha empatia alguma pelos alunos ou pela Educação que deveria buscar a formação moral e ética dos jovens. Prometi a mim mesmo que seria um professor diferente, que buscaria entender os anseios do aluno e ajudá-lo a aprender, compreender a lógica das coisas e a buscar o conhecimento para que se transformasse num cidadão preparado para a vida. Aprender a aprender, sempre, e com empatia e respeito, ganhando, conquistando a confiança do aluno. Aprendi também, na Filosofia, que não existe pergunta "burra" e sim resposta idiota. Com certeza, aquela resposta idiota e a humilhação recebida, moldaram minha vontade de um dia ser um professor, diferente, com didática e métodos adequados para o ensino-aprendizagem. Durante a minha vida de professor e ainda como palestrante, sempre  vem à mente aquela resposta idiota de um professor despreparado para o magistério. Por isso, quando diretor de Ensino, no MEC, sempre financiamos cursos de atualização pedagógica para docentes do ensino superior em todas as universidades brasileiras.

Assim fui, pratiquei a arte de ensinar desde os 15 anos, quando dava aulas particulares de matemática para um senhor de 30 anos, trabalhador da Rede Mineira de Viação e que queria prestar o exame de admissão (exame vestibular) para ser aceito nos colégios. Sim, até os colégios exigiam tal exame de proficiência. Durante o curso de 2º grau fui monitor de Química e de Fitopatologia e Topografia na faculdade. Meu primeiro contrato de professor surgiu um ano após a formatura: Construções e Meio Ambiente, na ESAL/UFLA. Mais tarde, ainda no Ministério da Educação, em Brasília, acumulei a função de professor de Legislação e Ética para Engenheiros numa faculdade particular. Ainda hoje, orgulhosamente, ministro palestras em universidades, conselhos profissionais da engenharia e agronomia e órgãos públicos e privados em todo o país. Quando se abraça a profissão com amor, nunca se deixa de ser um profissional ético, que  respeita os alunos. Melhor que tudo é encontrar um ex-aluno e dele receber um abraço, relembrando seus dias de aula e o sucesso que ele, o ex-aluno, alcançou. Esta é uma das maiores recompensas que um mestre pode receber!

Orgulho de ser Professor. Meu abraço a todos os professores.

 

Brasília,18 de outubro de 2025

 Paulo das Lavras.


Com o colega Prof Charles Laughlin, defronte meu escritório na Michigan State University -1978


 
Paraninfando no UNILAVRAS - 1987 


 Com professores de Montpellier- França  - 1987 


 
Encontro Pedagógico/Redesenho Curricular – UniFor-CE 
Com Prof. Lúcia/AlmeidaFilho/ Sandra -  2012


 
Com alunos no Museu de Artes e Ofícios - Paris- 2013


 Com professores da UFLA - 2015 , celebrando 40 anos da PG 


 
Recebendo diretores do UniLavras no MEC - 2016 


 Palestrando na UFLA- 50 anos Eng. Agrícola – 04/09/2025