Prometi que
contaria o caso do assalto à mão armada, sofrido em pleno deserto do Arizona,
nos Estados Unidos, perdendo o passaporte de serviço e os traveler`s checks
(não existia ainda o cartão de crédito internacional) que o bandido, armado com
um enorme Colt tirou dos bolsos internos de meu paletó e ainda simulou, cinicamente,
enforcar-me com minha própria gravata. Aqui está a narrativa desse ocorrido,
também num final de ano e por isso agora relembrado, 48 anos depois. Nunca pensei que aquele final de ano, de 1977,
após quase dois meses de trabalho nos Estados Unidos como era costume a cada
semestre, me fossem reservadas tantas surpresas antes do retorno ao Brasil. Era
comum visitar meia dúzia universidades em diferentes estados americanos, pois
tínhamos contrato com 32 delas, onde 250 professores brasileiros estavam matriculados
em cursos de doutorado e pós-doctor. Nosso escritório ficava na Michigan State
University, bem ao norte do país, na região dos Grandes Lagos, na cidade
universitária (East-Lansing) geminada à capital do estado, Lansing. Planejamos
um longa viagem, em verdadeiro cross-country tour para, ao final conectar-se
ao voo de retorno ao Brasil, à partir de Miami no sul do país. Saímos de Lansing, acompanhado de duas
assistentes, Mrs June Mills, do nosso escritório em Michigan e a Srª Lacy, do
MEC. Voamos para Detroit e dali para Chicago, do outro lado do grande lago de
Michigan (os outros lagos são o Superior,
Huron, Erie e Ontário, sendo que o de Michigan é o único inteiramente dentro
dos EUA) . No aeroporto de O´Hare, em
Chicago, o segundo maior dos Estados Unidos, trocamos de avião, embarcando num
DC-10/30, com destino à San Francisco, na
California, na costa do Pacífico. Decolagem às 12:00h, para um voo de 04:00
horas de duração e chegada às 12:00hs no destino. Nesse estado visitaríamos
duas universidades, U.C. Berkeley e U.C Davis. Voaríamos quatro horas e
chegaríamos ao meio-dia, em San
Francisco. Ao meio-dia, sim, na mesma hora de saída, pois o voo é em sentido
leste-oeste, a favor do fuso horário e atravessando quatro diferentes fusos de uma hora cada. Em
compensação, o voo de volta, que saísse ao meio-dia de São Francisco, teria
chegado às 20:00hs e voado as mesmas quatro horas.
Mas, não
chegamos ao destino naquele malfadado voo, pois em meio caminho aconteceu um
incêndio à bordo, iniciado por explosão do forno elétrico, na galley, onde se
aquecia o almoço a ser servido. Um mergulho repentino, guinada acentuada à esquerda
e o comandante alternou para Las Vegas. Conseguiu-se aterrissar, em poucos
minutos, com o fogo controlado, porém, com muita fumaça no interior da aeronave
e, pior, uma vítima, comissária de bordo que fora gravemente ferida no rosto.
Mas esta é outra história, pois passamos o dia em hotel de luxo, às expensas da
companhia aérea, com cassino e tudo... Viva Las Vegas, como cantava Elvis
Presley, falecido menos de quatro meses antes, ali no Tennessee, deixando o
país atônito e ainda em luto, mesmo já decorridos alguns meses. Atraso de um dia nos compromissos na
Califórnia e demais planejados com antecedência, exigindo ação imediata de
nossa assistente Mrs. June Mills, tanto na reprogramação dos voos subsequentes,
como nos encontros com autoridades universitárias e bolsistas brasileiros. E
ainda nem existiam internet e telefone celular.
Deixamos Las Vegas
no dia seguinte e rumamos, finalmente para San Francisco. Encerrada as visitas nas
duas Universidades da California – Berkeley e Davis, voamos para Tucson,
capital do Arizona,. Saímos de Sacramento, capital do estado da California,
passando por Denver, no Colorado, Albuquerque/Novo México e Phoenix/Az para,
finalmente, chegar à Tucson . Compromissos cumpridos, embarcamos no voo que nos
levaria ao Texas, Geórgia e finalmente à Flórida, uma semana depois e de onde
partiríamos no Boeingão 707 da saudosa e especial companhia aérea brasileira, Varig, da qual todos
elogiavam os finíssimos e apreciados serviços de bordo. Não faltavam em seus
voos internacionais o caviar e bons vinhos. Mas, foi ali, em Tucson, no
desértico estado do Arizona que, antes de embarcar de volta, nos levaram para a
lendária cidade de Old Tucson , onde aconteceu o “assalto”.
Com certeza, aquele foi um final de ano diferente, o mais tumultuado de minha vida, cheio de surpresas, algumas boas e duas outras nada agradáveis, apavorantes mesmo. Eram duas temporadas anuais de trabalhos nos Estados Unidos e ambas incluíam longas e demoradas viagens de visitas às universidades e órgãos do governo americano, em Washington-DC, especialmente o Departamento de Estado e a USAID, financiadores do projeto de Educação Agrícola Superior, que administrávamos em dupla execução, no Brasil e nos Estados Unidos, onde nossos professores, em número de 250, cursavam programas de PhD. Tais viagens internas naquele país eram cuidadosamente planejadas, especialmente esta, da costa oeste e centro sul daquele gigante país, onde planejamos visitar sete universidades. Ademais, o cronograma era apertado, pois me recusava a passar o inverno em Michigan, onde a neve costumava atingir um metro de altura na porta de casa. Viva o mês de dezembro de Brasília, com temperaturas de 30º C. Mas, prosseguindo nas viagens pelas terras do Tio Sam, naquele final de ano tivemos, duas situações de perigo real e risco de vida com aeronaves. A primeira, com pane hidráulica logo após decolagem de Washington-DC, obrigando a pouso forçado em Reston/Dulles na Virgínia e outra tão grave como a primeira e acontecida apenas dez dias após a primeira, desta vez com incêndio a bordo em plena rota de Chicago a San Francisco/Cal. Podemos dizer que as surpreendentes sensações experimentadas em Old Tucson, superaram os sobressaltos e o risco real dos acidentes aéreos. O espetáculo em Old Tucson superou todos os perrengues que sofremos em voos na terra do Tio Sam. Foi maravilhosa, surpreendente e emocionante a encenação, ao vivo, do “assalto à mão armada” e à moda antiga do farwest, a diligência puxada por enormes cavalos, o bandido assaltante do banco da Wells Fargo, caindo baleado da varanda do 2º andar do sobrado de madeira, o índio Navajo estilizado, tudo em pleno deserto do Arizona, com aqueles típicos cactus espinhentos que aparecem nos filmes de farwest, daquela linda cidadezinha-cenário dos filmes de Hollywood.
O “assalto” encomendado pela assistente June Mills, sem que eu soubesse, foi presenciado pelo U.S. Marshal, ao vivo em carne e osso, o delegado federal americano, cargo acima do Sheriff. O delegado Federal, tomou a arma do bandido e devolveu-me o passaporte e os traveler´s checks, dizendo em tom de blague: “welcome, brazilian guy...”. Inesquecível, pois o menino pôde “voltar” ao passado e reviver emoções antes experimentadas apenas nas telas do Cine Teatro Municipal de sua terra natal. Sim, foi emocionante e logo a seguir embarcamos no avião rumo à Dallas, no Texas e de lá, para Atlanta, no estado da Geórgia, onde, um pouco mais adiante, na pequena e aprazível cidade de Athens, os estudantes brasileiros e dirigentes da Universidade nos aguardavam. O voo durou 01:45 horas, e não bastasse estar nos céus, a alma flutuou, leve, em puro deleite, sonhando longe, no distante Brasil, pátria amada, berço do menino, Lavras, onde bebeu e se impregnou do saber e da cultura. O tempo de voo parecia que havia durado apenas alguns segundos quando despertou com o aviso da comissária; “Ladies and gentlemen, keep your seatbelt attached..., we´ll land in few minutes... Doces reminiscências da infância e juventude e agora, ali, no deserto do Arizona, o menino pôde reviver parte desse legado. Obrigado Lavras, pois, como bem disse o poeta Caio Fernando de Abreu, eu também “carrego comigo uma caixa mágica onde eu guardo meus tesouros mais bonitos. Tudo aquilo que eu aprendi com a vida, tudo aquilo que eu ganhei com o tempo e que vento nenhum leva. Guardo as memórias que me trazem riso, as pessoas que tocaram a minha alma e que, de alguma forma, me mudaram para melhor. Guardo também a infância toda tingida de giz. Tinha jeito de arco-íris a minha. O pouco é muito para mim. O simples é tudo que cabe nos meus dias. Eu vivo de muitas saudades. E quem se arrebenta de tanto existir, vive para esbanjar sorrisos e flashes de eternidade”.
A saudade e a solidão, são apenas companheiras de
viagem. E elas sempre foram minhas companheiras por mais de 3.500 horas a bordo
de aviões. Naquele dia, ali em Tucson-Arizona, prossegui viagem e do fundo da
alma, agradeci à Lavras, Terra dos Ipês e das Escolas, onde se respira um ar de
Educação e Cultura. Respirei muito ali e por isso resisto e existo com alma
nutrida, agradecida a tudo e a todos. O Saber e a Cultura nos alimentam
eternamente!
Para finalizar
e melhor apreciar e entender os fatos mencionados, leia a crônica original, escrita
em 2020, com detalhes da cultura em Lavras e dos eventos passados na terra do
Tio Sam, berço dos missionários norte-americanos que plantaram, na minha cidade
natal, a hoje Universidade Federal de Lavras, eterno legado.
Clique no link a seguir e veja as ilustrações
e detalhes:
https://contosdaslavras.blogspot.com/2020/12/a-arte-em-lavras-rto-e-e-o-mais.html
Brasília, 01
de janeiro de 2026 (Feliz Ano Novo!)
Paulo das
Lavras

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