sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Quilombo do Mesquita e o doce de Marmelo artesanal



              Menino da roça das Lavras do Funil, depois engenheiro agrônomo e professor de agronomia e engenharia ambiental, nascido e criado em meio à natureza, não podia mesmo tolerar mais que cinco anos de “esgravatura” na capital federal sem que houvesse um refrigério para o corpo e a alma. Gravata de segunda a sexta feira e às vezes, também aos sábados e domingos em almoços e jantares de serviço. Era mesmo um sufoco, mesmo em ambientes aclimatados com ar condicionado no MEC ou no frio cortante de zero grau, de Michigan no norte dos E.U.A, na região dos Grandes Lagos, onde trabalhava certa parte do ano. Não demorou muito e o menino passou a procurar uma chácara para lazer. Colocar os pés no chão, sentir o cheiro da terra molhada pela chuva que nos alimenta e faz brotar o verde, era mesmo imprescindível, para quem nela fora criado e estudou-a a fundo. Porém a busca foi desanimadora e demorou anos. Áreas de cerrado inóspito sem água corrente e muito próximas às cidades. Mas, no primeiro dia útil de janeiro de 1981, visitei um novo empreendimento. Ao descer um altiplano em direção a uma bonita várzea, passei por três grandes fazendas com extensas áreas de criações de gado de leite e de bois de corte da raça nelore que, com suas pelagens brancas, se destacavam nas verdes pastagens de capim braquiária. Cruzei o ribeirão Santana, anunciado na placa rodoviária, seguindo a linha de energia elétrica e logo adiante uma escola rural. Logo na entrada da fazenda avistava-se ao longe, inacreditavelmente, uma cordilheira de pequenas serras, coisa rara no Planalto Central, como a recordar as montanhas das Minas Gerais. Gostei do cenário. Senti-me em casa, longe das planuras e com montanhas na linha do horizonte, ainda que pequenas. Ainda assim podiam servir ao desejo de escala-la para ver o que haveria do outro lado..., tal qual o menino das Lavras sonhava diante da imponente Serra da Bocaina que emoldura a sua cidade natal no distante sul de Minas. E não é que depois fui explora-la, de ponta a ponta, numa cavalgada coletiva? 

              A alegria foi maior quando adentrei a sede da antiga Fazenda Barreiros, que fora subdividida em chácaras. A centenária casa sede, com fogão a lenha, água corrente na pia da cozinha, aquecimento de água no fogão a lenha, com serpentinas e boiler originais da França, como pude identificar pelo nome do fabricante. Cheguei à porta da cozinha e nem acreditei no que vi, uma extensa plantação de marmelos, como nunca antes havia visto. Era mês de janeiro já quase próximo à colheita e os frutos reluziam seu amarelo marmorizado. Corri e apanhei um belo fruto e o degustei apreciando, num primeiro momento, o aroma que me transportou à infância no casarão da chácara na minha cidade natal. Era como se ali estivesse aos seis, ou oito anos, passando a mão naquele fruto lisinho, com algumas penugens facilmente removíveis. Poucos metros adiante estava o curral e a seu lado um canal de água para o gado, que se distribuía por todos os piquetes de pastos seguintes até atingir outra nascente e escoar várzea abaixo até o ribeirão, de onde, seis quilômetros acima, fora desviada sua água pelo canal construído por escravos. Tratei de logo escolher a minha chácara próxima à sede antiga e dali retirar a energia elétrica, aproveitar o abundante canal de água e ainda usufruir da proximidade da antiga casa de caseiro, onde morava o velho “Carioca”, originário do Quilombo do Mesquita e empregado da antiga fazenda então subdividida. Herdara uma chácara e tinha suas plantações de milho, arroz e feijão. Dele ganhei deliciosas mangas, apanhadas com um bambu, de frondosas e imensas mangueiras. Contar com vizinhos afeitos à lida da roça era tudo que eu queria..., nada de cidade grande. Pessoas simples, humildes, tais quais os das fazendas de meu pai nas Lavras do Funil. 

            Interessei-me pela plantação de marmelo da antiga fazenda. Pretendia comprar a sede, preservar o casarão de 200 anos, com serpentina francesa e recuperar a plantação de marmelo. Não foi possível, pois o empreendedor a reservara para seu próprio uso. Contou-me ele que os registros encontrados na fazenda indicavam que a produção de doce, a marmelada Santa Luzia, era toda exportada para a Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro. O transporte demandava até dois meses e era feito em jacás, no lombo de burros, até Uberlândia. Dali seguia de trem para o Rio de Janeiro. Algum tempo depois, já na década de 1940, a estrada de ferro da Rede Mineira de Viação- RMV chegou até Catalão, ligando-a a Angra dos Reis e encurtando mais de 200 km nas jornadas da tropa de burros cargueiros. Nunca imaginei que o doce ali produzido pudesse viajar tão longe, em demorada viagem. Deveria ser muito boa a qualidade do produto, pois na ocasião já existiam as plantações de marmelo em Delfim Moreira e Marmelópolis na Serra da Mantiqueira, no sul de Minas, bem mais próximo do Rio de Janeiro e com rodovias asfaltadas desde os anos de 1930, época do presidente Getúlio Vargas, assíduo frequentador das estâncias hidrominerais da região. 

            A sede da Fazenda Barreiros não durou mais que dois anos e tudo veio abaixo para atender à especulação imobiliária. Os dez hectares da sede foram retaliados e vendidos. No lugar da velha casa com portais e portas de madeira maciça foi erguida uma nova casa em estilo urbano. O pomar com marmeleiros, laranjas e outras fruteiras, deu lugar a um lago de pesque-pague. Desde então perdi contato com a história dos marmelos e as marmeladas de Santa Luzia, até que um dia, no final dos anos de 1990, encontrei num restaurante de estrada, entre Luziânia e Cristalina, a caixinha de Marmelada Santa Luzia. Presenteei amigos em Lavras com o estoque da deliciosa marmelada que ali mesmo saboreei. Fez sucesso! Entrei em contato com o produtor rural e marquei uma visita à Fazenda Pindaibal, a sete quilômetros de minha chácara, onde era produzido o doce artesanal embalado em caixinhas de madeira. Rever a plantação de marmelo despertou as reminiscências, não só pelas frutas como também por suas longas varas, vergadas sob o peso dos marmelos. Foram surpreendentes, também, as reações dos amigos nas redes sociais sobre as lembranças da vara de marmelo. Muitos pais faziam uso desse corretivo nas crianças arteiras. O menino foi um que experimentou o “santo remédio” de alguns vergões nas canelas nos idos da década de 1950. Outro mais antigo relembrou que as professoras dos anos de 1920/30 também faziam uso da vara de marmelo. Mas, de maneira geral, todos relembravam a vara sem nenhum trauma, pois os meninos eram mesmo mais que travessos, pois desfrutavam de plena liberdade de espaço, com enormes quintais e as ruas que sequer tinham veículos como hoje. Predominaram, no entanto, comentários mais que elogiosos ao doce de marmelo, sempre com a figura de familiares preparando-o nos grandes tachos ou mesmo na cozinha. Em Lavras, origem da maioria dos comentários, era comum haver pelo menos um pé de marmelo no quintal, numa clara demonstração de que tanto lá, como cá, nas cercanias de Brasília, os costumes dos portugueses e dos escravos das minerações de ouro deixaram marcas idênticas, como essa da marmelada.

Quilombo do Mesquita, tradição da marmelada artesanal   

O estado de Goiás foi explorado nos séculos XVII e XVIII pelos bandeirantes paulistas, tal qual aconteceu nas Minas Gerais. Vieram em busca do ouro e de pedras preciosas. Índios e negros foram seus escravos na extração desses minerais, principalmente o ouro. Formaram-se muitos povoados, hoje cidades, que ainda guardam os traços culturais da época colonial. Cristalina e Luziânia (fundada em 1746), próximas à Brasília, são exemplos bem característicos dessa colonização. Muitos escravos conseguiam fugir do jugo violento e do açoite dos feitores das minas de ouro e de plantações de mandioca, arroz, milho e feijão, culturas de subsistência da escravaria e dos familiares. Em fuga, formavam os “quilombos” em meio às matas, quase sempre às margens de córregos e pequenos rios da região. Ali permaneciam, longe dos senhores que também não se atreviam a ir busca-los. A mata era traiçoeira e emboscadas eram fatais. Assim nasceram os Quilombos do Mesquita e do Xavier, a 50 km de Brasília e menos de 20 de Luziânia, que até 1943 se chamava Santa Luzia. 

O arraial de Santa Luzia chegou a ter, em 1763, no auge da exploração do ouro, algo como 16.529 habitantes, dos quais 12.900 eram escravos (78%). Portanto, não é de se estranhar o surgimento de alguns quilombos na região. Contam-se histórias muito engraçadas sobre o arraial. Uma delas é a história do rego das cabaças. Cerca de 2.000 escravos escavaram um imenso canal de dois metros de largura por 2,8m de profundidade, saindo do ribeirão Saia Velha (Gama-DF).  Atravessava 42 km de serras, várzeas, matas e muitas pedras até chegar ao destino, a mina de ouro do Cruzeiro, na parte alta da cidade de Santa Luzia. Estava assim garantido o garimpo. O canal levou mais de dois anos para ser concluído. Iniciado em 11 de abril de 1768, foi motivo de muita discussão. O major José Pereira Lisboa dizia em tom de gozação que “a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro, não em rego ou canal, mas em cabaças”.  O historiador Gelmires Reis conta que na manhã do dia 11 de setembro de 1770, bem cedo, foi inaugurado o canal e..., “quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e a água jorrou barulhenta pela Rua do Rosário abaixo” e nelas muitas cabaças rolando e a negrada batendo com porretes, quebrando-as e cantando: “água trouxe cabaça, cabaça não trouxe a água”. Ofendido, o major Lisboa saltou da cama e foi para a rua, armado, mas antes que agredisse os negros foi interceptado pelo juiz José Rodrigues Costa, que teve a peruca arrancada pelo raivoso falastrão. Condenado, saiu da cadeia dois anos depois. Por isso o canal ficou conhecido com Rego das Cabaças.

Melhor ainda é a história do Quilombo do Mesquita, criado há mais de 200 anos e que foi certificado pelo Governo Federal em 07/06/2006. Hoje abriga cerca de 300 famílias negras que mantém a tradição da vida rural e lembranças do regime escravocrata dos séculos XVII e XVIII. As terras pertenciam ao capitão português Paulo Mesquita, que as abandonou por causa do declínio da mineração do ouro. Deixou-as para três escravas alforriadas. A fazenda, que acabou se tornando um quilombo, produzia alimentos para a subsistência das famílias dos escravos fugidos e os excedentes da produção, especialmente a farinha de mandioca, eram vendidos na cidade. Nesse quilombo a plantação de marmelo e a produção artesanal da marmelada têm tradição de 200 anos. Alguns moradores dizem que as próprias ex- escravas, herdeiras da fazenda, iniciaram o cultivo do marmelo, cujas primeiras mudas vieram de Portugal. Muitos de seus costumes são originários do Congo, país africano que mais forneceu escravos ao Brasil. Recentemente uma missão de músicos africanos, do Mali, visitou o Quilombo do Mesquita e identificou muitas semelhanças nos costumes africanos como o uso da farinha como alimento básico, a mandioca com carne, biscoito de polvilho assado e até o covo, que é um balaio afunilado nas extremidades para a pesca de peixes. Hoje, uma das preocupações da comunidade é o tombamento de algumas casas antigas como herança do povo do Congo. Essa referência me fez lembrar o negro Lázaro Simão, camarada (empregado) da fazenda de meu pai e exímio fazedor de balaios e cestos de bambu. Certamente era um negro de origem congolesa, pois adorava a festa anual de Congada, muito comum em Lavras.

Hoje o cultivo do marmelo está em extinção e poucos agricultores ainda o mantém. Além de pequenas plantações, apenas quatro fazendas ainda os produzem em larga escala na região de Luziânia. Mesmo nessas, a produção do doce de marmelo é artesanal. O doce de marmelo, conhecido por marmelada, tem origem portuguesa e é feito a partir da polpa dos frutos, cozida em açúcar em grandes tachos de cobre. Durante a festa foi produzido uma “tachada” de doce, com 10 kg de polpa e 15 kg de açúcar. Um dos produtores informou que a quantidade de açúcar pode variar um pouco. Sua receita é de 15 kg de polpa de marmelo para 20 kg de açúcar e 15 litros de água. Outro produtor, cuja marmelada é bastante procurada, usa 20 kg de polpa para 25 de açúcar e 20 litros de água. Leva-se mais ou menos uma hora de cozimento, sendo que primeiramente faz-se a calda durante vinte minutos, ou pouco mais, até engrossar e chegar-se ao ponto semelhante ao melado. Só então se despeja cuidadosamente a polpa sobre a calda em ebulição. Não se pode parar de mexer a massa e para isto usa-se uma colher de pau de longo cabo. Experimentei a arte de mexer a massa e pude sentir que não é nada confortável. O calor é demasiado, a fumaça da lenha crepitante incomoda e ainda há o vapor saído da massa escaldante deixando-nos banhados de suor. Isto sem falar dos espirros da massa quente que queima a pele. Há que se proteger bem. Mas, quem faz gosta do que faz. O Sr. Cesar Alves, que aparece numa das fotos ajudando-me a mexer a massa fumegante, disse que adora aquele ritual e tem prazer em servir o seu produto. Outro, Ricardo, da Fazenda Pindaibal, disse que está no ofício há 25 anos e gosta da arte. Perguntei por que tanto açúcar e um produtor da Marmelada Santa Luzia disse que, devido ao fato de não se usar conservantes e aditivos, o açúcar, além do sabor, tem também a função de conservar o doce por até seis meses. 

O capricho na produção artesanal da marmelada se estende até mesmo às embalagens. Curioso que, por um acordo celebrado na prefeitura da cidade, todas as marmeladas têm o mesmo nome: Marmelada Santa Luzia. São diferenciadas apenas pelo nome do produtor que vai logo em seguida, no rótulo. São embaladas em caixinhas de madeira de pinho que, segundo eles, conservam melhor o sabor da marmelada. Interessante notar que é o mesmo costume usado na zona rural de Lavras, onde também se faziam marmeladas e ainda hoje as famosas goiabadas lisa ou cascão. 

A Festa do Marmelo

            Neste ano de 2016 o Quilombo do Mesquita celebrou a sua 14ª Festa do Marmelo. Em 15 anos conseguiram, em regime de mutirão, erguer a Igreja de N. S da Abadia, a padroeira da comunidade. Neste ano a campanha é para aquisição dos bancos da enorme capela, capaz de abrigar quase mil fiéis. Foi muito interessante observar a organização do evento. No primeiro dia, sábado, houve a grande cavalgada com almoço oferecido numa fazenda do roteiro. Dia seguinte, o segundo domingo de janeiro, quando a colheita do marmelo está no auge, foi o ponto alto da festa. Iniciou logo cedo com a Corrida de Reis. Uma centena de corredores que chegavam exaustos da meia maratona. Nas estradas as patrulhas policiais paravam os motoristas e recomendavam cautela para com os corredores que compartilhavam a pista. Não pude deixar de notar uma figura exótica na hora da foto de um grupo de corredores que acabara de chegar..., o “Kalango Corredor Exótico Cabuloso”. Cinquenta e seis anos de idade, com seu 187º troféu em mãos. Figura realmente notável pelo seu estilo e principalmente pelo espírito competitivo nas corridas de rua. Afinal, já participou de quase duas centenas de corridas e daqui a apouco fará jus ao registro no Guinness Book. Mas antes do guinnesbook, posou para uma foto no facebook...

Após a chegada dos corredores seguiu-se a missa, tão esperada pelos devotos de N. S. da Abadia. Os cânticos do coral amoleceram o coração do menino arredio às liturgias religiosas. Tocou-me profundamente a singeleza do momento do ofertório. Os fiéis levavam até o altar as oferendas, produtos exclusivos da terra que eles cultivam com amor e dedicação. Bandeja de marmelos, cestos com hortaliças, um palmito inteiro recém-colhido, pratos de doces artesanais e caixinhas de marmelada. Até mesmo uma vassoura artesanal, lindamente confeccionada com folhas de coqueiro e cabo de guatambu, estava presente no ofertório. Que Deus continue abençoando essas mãos prendadas que cultivam a terra e dela tiram o sustento para toda a família..., assim orei silenciosamente, em ato contrito, invocando as bênçãos para toda aquela gente honrada que ali estava cuidando do alimento da alma. Em certo momento me ausentei e lá fora, nas escadarias da igreja, encontrei dois meninos com semblantes tristes. Não se conheciam. Aproximei-os, lembrando-me das missas que também eu assistia na zona rural de Lavras, nas Três Barras, Dr Jorge-Fábrica Velha, Cajuru do Cervo e Faria. Como eles, também eu passava, à época, boa parte alheio à cerimônia, brincando e correndo como fazem as crianças nessas ocasiões. Tinham 12 e 11 anos de idade, a mesma que numa missa rural o menino havia respondido ao Padre Silvestre que queria ser padre e ano seguinte foi para o Seminário de Itaúna. Não ficou mais que um ano no seminário, pois a tristeza pela ausência de casa tomou conta do menino e não mais voltou ao distante internato. Assim, aquela aparente tristeza dos dois garotos, na escadaria da igreja, remeteu-me ao distante passado. Perguntei a mim mesmo o que seria deles? O que o futuro reservaria a aqueles tristes meninos? Estudavam? Estariam acompanhados no evento? Iriam almoçar ali? Antes que as lágrimas me traíssem os convidei para o almoço no galpão ao lado e fizemos uma foto ali mesmo, nas escadarias da igreja. Mas a emoção com meninos de 11 anos não foi só esta. Os coroinhas, que ajudavam na celebração da missa, trajavam batinas vermelhas e sobrepelizes brancas. As mesmas que o menino das Lavras usava na Paróquia de Santana e nas capelas da periferia, ajudando nas missas celebradas pelos padres Miguel Moretti, Luiz Tings, Carlos Zirke, Raimundo Weilherman, Henrique Boeing e outros. Também valeu uma foto, com a surpresa de que um dos coroinhas era uma menina, o que nunca havia visto antes.  

Após a missa houve o leilão típico dos costumes de pequenas comunidades. É a maneira mais comum de se arrecadar recursos para as obras da igreja. Muitos chegavam trazendo as prendas, geralmente produtos artesanais confeccionados por eles mesmos além de comidas, doces e animais. Aliás, os animais foram os primeiros a serem leiloados. Uma novilha foi arrematada por mais de seiscentos reais e o mais interessante foi que a mesma não estava lá, não havia telões mostrando-a em vídeo e sequer uma foto. Fiquei a imaginar como poderiam oferecer lances sem vê-la, tal qual acontece nos grandes leilões? Confiaram apenas na descrição que o leiloeiro fez do animal e principalmente no nome do doador. Confiança total. Coisa de pequenas comunidades onde todos se conhecem, respeitam-se mutuamente e a palavra tem valor. Grande lição! Mas, antes do leilão, em grande espaço coberto, apresentou-se a Orquestra do Povo com sanfoneiro, violas, violões, cavaquinhos e atabaques, com variado repertório de música caipira. Ao mesmo tempo foi servido o almoço a preços módicos. Enquanto isto a movimentação era intensa em frente ao grande tacho de cobre sobre fogão a lenha. Muitos queriam ver a produção do doce de marmelo, a saborosa Marmelada Santa Luzia. Curioso, fui dos primeiros a ajudar a atear o fogo na lenha e tomar os primeiros vapores ao mexer a massa. Ao final a marmelada foi distribuída gratuitamente como sobremesa. O Sr. Cesar Alves, do alto de seus calejados 80 anos de labuta na roça e fazendo tachas e tachas de marmelada, sorriu satisfeito. Sua alegria é ver o povo saborear e elogiar a sua deliciosa Marmelada Santa Luzia, ao vivo, ali mesmo na linha de produção de seu fogão a lenha com reluzente tacho de cobre batido, fumegando e exalando o cheiro adocicado e meio acre do marmelo. 

São 200 anos de tradição! Participar da Festa do Marmelo, no Quilombo do Mesquita, foi sem dúvida uma prazerosa imersão nos costumes e nas raízes de nossa gente que muito deve à cultura negra. É como voltar ao passado de nossos avós, de ascendência portuguesa, que viveram como protagonistas dessa história, no sul de Minas e que também é comum em outras partes de nosso imenso país. Proust tinha razão quando disse que "os verdadeiros paraísos são os que perdemos" e o poeta Mário Quintana ensinou que "a gente continua morando na velha casa em que nasceu". Então, deve ter sido por isso que gostei, amei conviver por um dia com a simplicidade do campo e sua gente trabalhadeira que retira da terra o seu sustento. Vale a pena preservar as culturas afro-brasileira e portuguesa existentes no Quilombo do Mesquita. Reconhecido já está pelo governo federal. Que venha o seu tombamento.

Brasília, 15 de janeiro de 2016

Paulo das Lavras


Ricardo faz, há 25 anos, a marmelada Santa Luzia,
 na Fazenda Pindaibal




Quilombo do Mesquita a 3 km


Santuário de N.S. da Abadia, Quilombo do Mesquita


Programa da 14ª Festa do Marmelo


Corrida de Reis, Quilombo do Mesquita


“Kalango Corredor Exótico Cabuloso” e seu 187º troféu

Até que, com certo esforço, consegui imitar o gesto típico da tribo,
 mas..., raspar a cabeça, tatuar-me por inteiro não consigo e
 tampouco pregar peercings no nariz, face, orelhas e...
... na língua! Demais para o menino véi...



O ponto alto dos festejos do Quilombo, a santa missa,
 em ação de graças


 A igreja toda decorada com motivos da terra



Os celebrantes e coroinhas que acolitavam a missa


Produtos da terra como oferendas no altar


A entrega no ofertório, palmito e cesto de verduras


... mais produtos da terra dos quilombolas


...produtos artesanais do quilombo, vassoura de folhas de palmeiras



... marmelos e outras frutas cultivadas no quilombo completam o ofertório



a padroeira do Quilombo do Mesquita, N.S. da Abadia




Os coroinhas, Ronaldo e Taliene. O meninão, que um dia
também foi coroinha, nunca tinha visto uma menina-coroinha




...trazendo a prenda para o leilão, belíssimos marmelos,
 que  o produtor exibe com orgulho



Sr João Pereira e a prenda de sua produção, Marmelada Santa Luzia




outro produtor da Marmelada Santa Luzia, Sr Leopoldo, da Fazenda Pindaibal




Os festeiros, Sr João e Dona Helena, anunciando a Orquestra do Povo




hora de botar fogo no fogão, com o Sr Cesar Alves





 ... o doce já fumegando... e tomem fumaça, vapor e espirros de massa.
Produção ao vivo, que foi servida como sobremesa na festa




..apurando o ponto da marmelada, no grande tacho da Fazenda Pindaibal


 Bonita caixinha de madeira – produto da Fazenda Pindaibal- Quilombo do Mesquita


A marmelada da Fazenda Mesquita, de João Pereira




outra marmelada de Santa Luzia, de rótulo rosa, produzida pelo Sr Carlúcio



Dois meninos, de 11 e 12 anos, moradores do Quilombo. Semblantes tristes,
com o meninão que nessa idade também estava triste no internato do
Seminário, bem distante de casa. Compartilhar dos sonhos dessas
crianças humildes foi muito emocionante.





terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Peruano..., se Deus quiser

Não, não é o habitante andino, do Peru e sim a crença do homem do campo. A fé do homem do campo que move montanhas tem fundamento climático. Olhos para o céu, mãos firmes segurando a enxada inseparável, e a esperança renovada de um ano para o outro. Dezembro, mês das chuvas, as roças de milho, café, arroz e feijão estão viçosas e então a crença, na virada do ano, é que se a chuva continuar vai ser bom para a agricultura. Afinal, esforçou-se para lavrar a terra, semear, adubar, capinar e agora só resta esperar que “para o ano”, ou como diz o mineiro da zona rural “peruano” que vem que a chuva continue e a colheita seja boa!

O agricultor é um sábio que convive muito bem com a natureza e talvez por isso quase nunca falha a sua fé, a esperança de farta colheita. Na vida colhemos aquilo que plantamos e mais certo ainda é que só colhemos depois que plantamos. Colhemos apenas onde plantamos e melhor ainda, a colheita é infinitamente maior do que o número de grãos que semeamos. Uma semente de milho produz várias espigas com centenas e até milhares de grãos. Assim deve ser a nossa vida. Plantar sempre as sementes do amor, da esperança e da verdade. E onde? Em todos os ambientes, mas de preferencia naquele em se vive diariamente. Plantando o bem e a paz certamente colheremos felicidade, traduzida nos mesmos ingredientes, porém multiplicados como a semeadura do agricultor.

Aprendi com meu pai que, com os olhos para o céu, nos últimos dias de dezembro, exclamava: “Peruano”, se Deus quiser, a chuva vai continuar e a colheita vai ser boa! Ter feito a sua parte, a semeadura e os tratos culturais nas plantações dava-lhe a certeza de que Deus não falharia com as chuvas. Assim, restou-me a certeza de que devemos fazer a nossa parte e a colheita virá multiplicada. Esse é o segredo para se viver bem, fazer tudo a seu tempo..., viver cada dia, cada momento, como o agricultor que prepara a terra, planta a semente, cuida com extremo zelo para colher fartura. Por isso, fim de ano, enquanto muitos se preocupam em fazer longas listas de metas e objetivos para o ano que vem, lembro-me do “peruano” esperançoso do agricultor.

Portanto não planejo nada de especial que não seja para os próximos dias. Nada de longo prazo, pois a vida é curta e precisamos viver com intensidade o dia de hoje. Estar em harmonia com a família, a natureza e os amigos é importante. Tem problemas? Sim, todos os temos, mas porque não se desfazer das coisas velhas e dar lugar ao novo? Velhos hábitos pessoais, roupas velhas, arquivos de papeis ou do HD, tablet ou smartphone e até, quem sabe, uma faxina nas redes sociais, por que não? Quem teve a ideia de dividir o tempo em fatias, dando-lhe o nome de ano, fez certo, foi genial como disse Carlos Drummond de Andrade, pois o corpo humano cansa, chegando a quase exaustão ao seu final. Assim, com um brake para as festas natalinas e férias do trabalho cotidiano, as esperanças se renovam.

Que o Ano Novo, de número 2016, seja para você, como também para mim, de 365 dias vividos a cada dia, apreciado e degustado com muita alegria de se viver. Nada acontece por acaso. Desde que o mundo é mundo o ser humano sabe que tem que semear para colher. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre, disse o poeta Drummond. Olhe o Ano Novo com novo olhar. Mas, também não se esqueça de agradecer a Deus pela colheita do ano que se encerra, pois não há alegria maior que olhar para trás e sentir orgulho do dever cumprido, da vida vivida com alegria. Essa é a verdadeira felicidade, permanente.

Que a sua colheita seja farta, repleta de alegrias “peruano” que vem, 2016, que se inicia daqui a pouco.

Paulo das Lavras


Brasília, 30 de dezembro de 2015


 Um grão de milho semeado produz várias espigas com milhares de grãos.
Por isso semeie a bondade e terá farta colheita. O Ano Novo está em você

 
Sr Vico aos 84 anos. Voltando da capina para o almoço das 10:30h. Braços fortes,
mãos calejadas. Sorriso alegre..., tarefa cumprida! “Peruano” (para o ano) que vem
a chuva vai continuar e a colheita vai ser boa!
Viveu 101 anos em plena harmonia com a natureza e as pessoas ao seu redor


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Uma história de Natal, diferente e real

Não, não é um conto de ficção. É uma história real, acontecida em casa e cujos resultados engrandecem a alma, proporcionando-nos a alegria de compartilhar e apoiar aos mais necessitados. Dois episódios cujas ações e efeitos marcaram a família para sempre. Manhã de 15 de novembro de 1999, no feriado nacional que comemorava os 110 anos da Proclamação da República, desembarcou em nossa casa um tio de minha esposa que até então morava em São Paulo. Veio acompanhado por dois sobrinhos, um de Belo Horizonte e a outra de Penedo-RJ.  Os primos explicaram que havia uns três meses transferiram o tio Orlando, por motivos de saúde, para a bucólica e turística cidade de Penedo. Idoso, não se adaptou ao local e foi levado para a casa de sua irmã em Belo Horizonte. Não ficou uma semana sequer e declarou que queria ir para Brasília, para a casa de sua sobrinha querida. Aqui chegou nessas condições e sob cuidados dos sobrinhos, pois em São Paulo o porteiro reportara algumas vezes que o Sr Orlando, morador solitário, por mais de 50 anos no mesmo prédio, começava a apresentar, esporadicamente, lapsos de memória. Decidimos acolhê-lo em definitivo. Em poucos meses seu estado de saúde se agravou com o Alzheimer se instalando e debilitando suas funções vitais. Depois de muito tempo sob nossos cuidados o Senhor o levou para o descanso eterno. 

Ainda naquele ano de sua chegada, duas semanas depois, nos deparamos com uma matéria em jornal, de grande circulação da capital federal, dando conta que um missionário chegara do Piauí e trouxera uma menina de 10 anos, cega e com dificuldade de locomoção. Entramos em contato com o missionário e o convidamos para vir à nossa casa para que pudéssemos leva-la à clínica oftalmológica de um médico amigo e vizinho de longos anos. Dia seguinte ao chegar para o almoço encontrei a família em alvoroço e comoção com uma criança no colo. Embora tivesse estatura própria dos dez anos de idade, mas muito magra, deixando transparecer subnutrição, a ponto de não se sustentar de pé, se comportava como um bebê de apenas dois anos. No colo ficava a abraçar a gente, passando a mão pelo nosso rosto como se quisesse identificar a pessoa. Deliciava-se com as guloseimas, especialmente os chocolates. Verdadeiro bebezinho que diante da situação nos levava, a todos, às lágrimas. Um ser totalmente dependente, carente de amor, do simples toque, um abraço apenas. Tinha dificuldade na fala e além da total deficiência visual estava muito debilitada. Logo em seguida a levamos ao médico. Entretanto este nos disse que nada poderia ser feito para a recuperação de sua visão. Havia lesões internas irreparáveis, agravadas pelo extremo grau de subnutrição. Uma pena. Ficamos todos comovidos e esperançosos de que a superalimentação oferecida pelo pastor e os cuidados médicos pudessem recuperá-la e voltar para a sua casa.

O missionário arrecadava doações para celebrar o natal daquelas crianças paupérrimas, do distante município de Santa Luz, no estado do Piauí. Foi então que decidimos, toda a família, arrecadar fundos para a compra de brinquedos, roupas e artigos de primeira necessidade. Surpreendentemente, o Sr. Orlando sacou uma vultosa quantia de dinheiro e disse que também queria ajudar no natal daquelas crianças carentes, cuja coleguinha estivera em nossa casa e a todos comovera. Compramos muitos, mas muitos brinquedos, roupas, calçados e ainda arrecadamos mais. Embalamos cada pacote de presente contendo brinquedos, guloseimas, roupas e enfeites alusivos ao natal. Ao final o missionário alugou um caminhão baú e partiu para o sertão do Piauí alguns dias antes do natal, abarrotado de doações que conseguira. Deu-me uma vontade enorme de acompanha-lo, juntamente com os equipamentos de irrigação que faziam parte da carga natalina e orientar a produção agrícola que seria possível desenvolver a partir de então. Mas, as obrigações do trabalho no Ministério da Educação não me permitiam ausentar do trabalho e por aqui não temos o ano sabático, como nos EUA, onde os profissionais podem se ausentar para outras atividades.

Encomendamos ao missionário que nos trouxesse fotos das festas natalinas e o nome de uma família, da zona rural, à qual pudéssemos contribuir com uma bolsa alimentação. E assim o fizemos por mais de uma década. Mas, das fotos e dos casos contados pelo missionário que voltou à Brasília, o mais interessante, além do sucesso do caminhão do Papai Noel que chegou abarrotado de presentes à pequena comunidade e fez a alegria de todos, foi o caso de um menino que estava doente e não pode comparecer à distribuição dos presentes de natal. Os organizadores tiveram o cuidado de guardar um dos pacotes preparados em nossa casa. E eis que, logo que pode, correu em busca do prometido e tão esperado presente. Mas, ele veio acompanhado de um amiguinho, de longe, e que também não estivera ali no dia da festa.  O que fazer se só havia um pacotinho de resto? Por sorte, em cada pacotinho destinado aos meninos, minha família havia colocado dois lindos caminhõezinhos, além das guloseimas e outros mimos. Assim, as organizadoras locais não tiveram dúvidas. Abriram o pacote e o dividiram ao meio. Cada qual saiu todo alegre com seu bonito caminhãozinho... Essa foi a parte que mais nos tocou e muito nos gratificou. Lógico, durante os anos seguintes repetimos a ação. Mas, já no ano seguinte o Sr Orlando, grande colaborador dessa obra, não podia mais participar, indo às compras dos presentes para as crianças. Ele também se tornara uma criança que exigia 24 horas de cuidados. Viveu em nossa casa, cercado de atenção e carinho, por mais oito anos. E essa, a experiência de cuidar de um idoso, foi também a mais emocionante lição de vida que aprendemos. Encheu-nos de humildade e compreensão de que é preciso plantar para colher. Nada mais fizemos do que retribuir-lhe o amor que dedicara à sua sobrinha querida e mais tarde aos nossos filhos, crianças amadas por ele desde que nasceram em São Paulo, estado que ele adotara desde que foi admitido na Secretaria da Fazenda de MG, na representação do Escritório de Exportação de Café.

Criança é uma joia que Deus coloca em nossas mãos. E o idoso é como uma criança, disse o poeta e filósofo Rubem Alves. Nossos natais, desde então, nunca mais foram  os mesmos. Aquela criança, de apenas de 10 anos e profundamente carente em todos os sentidos e o idoso, solitário, tal qual uma criança carente e que buscou abrigo e aconchego em nossa casa, tocaram fundo nossos corações. Agora é época de ligar para o missionário, receber notícias e confirmar a chegada dos presentinhos. 

Façamos uma criança Feliz neste Natal. 

Boas Festas

Brasília, 22 de dezembro de 2015


Paulo das Lavras



Poinséttia, ou bico de papagaio, com suas cores vermelha e verde, símbolos do Natal 


 
De volta para o Piaui... Em 2008, Marta, uma dos sete filhos da família que
adotamos, veio nos visitar.  Foi muito bom recebe-la e ouvir os progressos da
humilde família da castigada zona rural do município de Santa Luz



sábado, 5 de dezembro de 2015

40 anos da Engenharia Agrícola e o velho brasão da ESAL-UFLA

          No dia 23 de novembro de 2015 foi celebrado em sessão solene do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Lavras, os 40 anos do curso de graduação e 25 de pós-graduação da Engenharia Agrícola. Foram homenageados vários professores e dentre eles foi incluído o nosso nome, na categoria de “Idealizador do Curso de Engenharia Agrícola”. Assim escreveu o jornalista Mateus Lima, da Assessoria de Comunicação da Universidade:
“Comet: evento celebra 40 anos de graduação e 25 anos da pós-graduação em Engenharia Agrícola.
Uma significativa parte da história da Universidade Federal de Lavras (UFLA) foi relembrada na noite de 23/11, na abertura da I Semana de Engenharia e do I Congresso Mineiro de Engenharia e Tecnologia. Os eventos prestaram homenagem aos 40 anos do curso de graduação e aos 25 anos do programa de pós-graduação em Engenharia Agrícola.
O presidente do evento, professor Ednilton Tavares de Andrade, fez o primeiro pronunciamento, trazendo números da I Semana de Engenharia: a programação será ministrada por mais de 80 profissionais; há 20 palestras; serão apresentados 180 artigos científicos; e há mais de 600 participantes inscritos. Ednilton também destacou a interdisciplinaridade da programação. Em seguida, a inspetora chefe do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG), professora Andréa Aparecida Ribeiro Corrêa, falou sobre os recentes avanços do Conselho.
Os professores Paulo Roberto da Silva e Jair Vieira (diretor da ESAL, na época) integraram a mesa de abertura como idealizadores do curso de Engenharia Agrícola. Eles falaram sobre os desafios na implantação, mas também no pioneirismo da Universidade: como o curso de Agronomia se preocupa mais com a fitotecnia, era necessária uma graduação que abordasse a engenharia no campo, englobando aspectos como a mecanização e a eletrificação. E com essa preocupação o curso foi criado na UFLA, sendo o terceiro no Brasil.
O chefe do Departamento de Engenharia (DEG), professor Carlos Eduardo Silva Volpato, observou que o evento reuniu cinco gerações de professores e enalteceu o empenho de cada um deles para que a Instituição alcançasse reconhecimento nesta área. Também participaram da mesa de abertura o reitor em exercício, professor Alcides Moino Júnior, o professor Alysson Paulinelli, ex-diretor da ESAL e a professora Mirléia Aparecida de Carvalho, coordenadora do curso de Engenharia Agrícola.
Após a abertura, a professora Mirléia conduziu uma série de homenagens à primeira turma do curso, aos atuais e ex-coordenadores do DEG e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Agrícola e aos técnicos administrativos que participaram da consolidação dos cursos”.

Com muita honra recebemos, juntamente com o Prof. Jair Vieira, as homenagens como idealizadores do curso de graduação de Engenharia Agrícola, num trabalho que demandou esforços de toda a equipe do antigo Departamento de Engenharia Rural. O curso recém-criado pelo MEC e com apenas dois deles em funcionamento, em Pelotas-RS e Viçosa-MG, apenas um ano d funcionamento. Por se tratar de nova profissão no país, a sua criação, com projeto curricular e detalhamentos de laboratórios específicos para as diversas áreas como eletrificação rural, motores e máquinas, mecanização agrícola, irrigação e drenagem, construções rurais e armazenamento, foi bastante complexa e exigiu muitas consultas a centros especializados. Sobre o projeto do curso e as inúmeras reuniões no MEC escrevemos alguns artigos já publicados. Por isso falaremos hoje sobre novo assunto ligado às engenharias no âmbito agrícola.

 Durante o evento de abertura das comemorações dos 40 anos da Engenharia Agrícola da UFLA nos deparamos, ali no Salão de Convenções, com uma bandeira que ostenta um brasão, bem característico, criado em 1937. Fizemos questão de tomar uma foto ao lado do chefe do Departamento de Engenharia, empunhando a bandeira do histórico brasão com a inscrição “Ciência e Prática”. E coloquem história nesse brasão com o sugestivo e significativo lema. Vejam o que encontrei nos EUA, quando lá estava gerindo o acordo de cooperação na área de educação agrícola superior. Trata-se de uma história inédita sobre a origem do brasão:

O brasão oficial da ESAL/UFLA foi adotado em 1937, quando foi mudado o nome de Escola Agrícola para Escola Superior de Agricultura de Lavras. Dei-me ao trabalho de pesquisar o assunto, pois em 1978, quando trabalhava nos EUA, como gerente do Brazil/MEC- MSU Project, com a responsabilidade de gerenciar os 250 professores brasileiros da área de ciências agrárias em 32 universidades norte americanas que os acolheram para programas de doutorado, encontrei o mesmo brasão na Iowa State University, ou mais precisamente na fachada de um dos prédios do College of Agriculture and Mechanic Arts, onde alguns de nossos professores estavam cursando PhD. Não acreditei no que vi, pois nunca alguém escrevera sobre aquela semelhança. Fiquei admirado pela total semelhança entre ambos, o da ESAL e de Iowa. Ao retornar ao Brasil procurei pesquisar um pouco mais sobre a questão. Tudo começou com um dirigente da velha Escola Agrícola de Lavras, Mr. Wheelock.


John Henry Wheelock (1898/Colfax, Iowa – 1961/Campinas, SP) dirigiu a Escola pela primeira vez de 1927 a 1935. Reassumiu o cargo de diretor em 1945, seguindo-se ainda outros dois períodos, de 1953 a 1956 e 1958 a 1959. Wheelock cursou agronomia em seu estado natal, no Iowa State College of Agriculture and Mechanic Arts. Chegou a Lavras no ano de 1922, ainda jovem, com apenas 24 anos de idade. Inicialmente atuou como professor e mais tarde, como diretor. Neste cargo sucedeu a Benjamin Harris Hunnicut - o fundador. O estimado e respeitado Wheelock, ou Sô Mister, como era carinhosamente chamado, foi apelidado por Bi Moreira de “o Consolidador” (Gammon, o Idealizador; Hunnicut o Fundador; Wheelock o Consolidador e Alysson Paulinelli o Dinamizador).


Em 1936 sucedeu-lhe Benedito de Paiva na direção da então Escola Agrícola de Lavras e em 1937 houve a mudança do nome da instituição de ensino para Escola Superior de Agricultura de Lavras. Certamente, em suas inúmeras viagens aos EUA conseguira autorização da Iowa State College of Agriculture, onde se graduara, para usar o mesmo brasão-símbolo daquele College, para também usá-lo como emblema de sua querida Escola Agrícola de Lavras que tivera seu nome recém-modificado. Assim, logo que houve a mudança de nome para Escola Superior de Agricultura de Lavras, Mr Wheelock tratou de adaptar aquele belo brasão para as condições de um país tropical. Refiro-me a país tropical porque aqui não se produzia trigo e sim café. Portanto, Mr. Wheelock sabiamente trocou os dois ramos de trigo do brasão do State College of Agriculture de Iowa, estado norte americano produtor desse grão, por dois ramos de café entrelaçados e com seus grãos bem vermelhos. Se atentarem bem para o brasão de Iowa notarão que os dizeres Science With Practice, não foi traduzido com fidelidade, pois foi adaptado para Ciência e Prática no brasão da ESAL, conforme se vê nas reproduções fotográficas, de Iowa e da ESAL/UFLA, que ilustram esta crônica.


A propósito , o slogan “Science With Practice” representa a filosofia, o pensar e o objetivo principal do Morril Act de 1862 que criou os famosos Land Grant Colleges nos EUA. Por essa Lei o governo norte-americano financiava escolas, doando terras para o ensino prático de agricultura. O lema dessas escolas era exatamente aquele que justificou a criação da lei (Morril Act), o ensino das ciências associado à prática visando a melhor produção de alimentos. Para tanto o governo daquele país criou e associou às escolas as Estações Experimentais Agrícolas (1890). Um pouco mais tarde incluiu outra importantíssima linha de ação, a divulgação desses conhecimentos aos agricultores, ou seja, a Extensão Rural. Assim fechou-se a trilogia até hoje usada pelas universidades: Ensino, Pesquisa e Extensão.


A ESAL, segundo pesquisas que realizei, foi a primeira Escola do Brasil e da América do Sul a implantar um ensino nos moldes do Land Grant College, associando-se ao ensino propriamente dito a Pesquisa e a Extensão Rural. As outras três primeiras escolas de agronomia, a de Cruz das Almas (1877), hoje Universidade Federal do Recôncavo Baiano, a Elizeu Maciel, da Universidade Federal de Pelotas (1883) e a Luiz de Queiroz, ESALQ-USP, de Piracicaba (1901) foram, todas elas, criadas no modelo francês que privilegia conhecimentos acadêmicos. Essas três primeiras escolas de agronomia tiveram os currículos de seus cursos importados e implantados por professores de Grignon, o hoje Institut Nationale Agonomique Paris-Grignon - INA-PG que visitei algumas vezes em missões do Ministério da Educação. Por outro lado, o modelo americano, dos Land Grant Colleges tinha como objetivo a Ciência com Prática e com os quais também trabalhei, na Michigan State University em convênio com o MEC para o desenvolvimento de nossas universidades e faculdades agrícolas. Em apenas cinco anos, de 1975 a 1980, treinamos 250 PhDs brasileiros nas universidades americanas. Estes, somados aos treinados no país e mais ainda, os da EMBRAPA, formavam, já no ano de 1980, uma massa crítica de cerca de 1200 (um mil e duzentos) doutores docentes e pesquisadores das ciências agrárias. Equipe sem similar no Brasil, tanto em qualidade como em quantidade. Nenhuma outra área da Ciência e Tecnologia se desenvolveu tanto no Brasil quanto as Ciências Agrárias. Não é a toa que lideramos rankings mundiais de produção e exportação de produtos agrícolas desde o final dos anos de 1980 e início de 90. Temos berço..., a filosofia dos Land Grant College com sua característica tríade Ensino-Pesquisa-Extensão, deu cero aqui na ESAL/UFLA desde o seu nascimento em 1908.


Mr. Wheelock, notável profissional que era, importou muitas novidades e tecnologias avançadas para a prática agrícola na ESAL. Sempre com a motivação de “Ciência e Prática”, não só naquele belo brasão aqui reproduzido, à imagem e total semelhança com o da escola onde se graduara nos EUA, mas, principalmente por criar e realizar a 1ª Exposição Agrícola do estado de Minas Gerais, em 1922, ali na praça central do Campus Histórico da UFLA. Também trouxe o primeiro trator agrícola para a região e estrategicamente importou raças suínas do tipo carne, como o Duroc-Jersey, Landrace, Large White e outras, para fomentar entre os agricultores a melhoria de seus rebanhos. Foi também o criador da primeira publicação oficial da ESAL, a revista "O Agricultor". No mesmo ano, o então diretor Hunnicut inaugurou o prédio "Álvaro Botelho", onde hoje está o Museu Bi Moreira.


Definitivamente, o brasão da ESAL/UFLA, aqui reproduzido, expressa a alma mater do sucesso da Agronomia, com a sua Ciência e Prática, que representa a filosofia do Land Grant College, hoje ainda cultuada com a trilogia Ensino, Pesquisa e Extensão.  Esse brasão foi criado, com muito amor e dedicação à causa, pelo admirado e respeitado Mr Wheelock, cultor e defensor da filosofia dos Land Grand College. Sua ação na ESAL como professor, extensionista pioneiro no Brasil e diretor por três vezes, representa o que foi de mais sagrado na consolidação dessa centenária instituição, que hoje é conhecida e reconhecida no Brasil e no exterior, por Universidade Federal de Lavras. Esse brasão da ESAL era a sua alma. Representava o amor da Pátria-mãe, onde se graduou e mais, ainda, o amor à terra e à Escola que escolheu para exercer sua profissão de educador e empreendedor da modernização da agricultura num país carente de técnicos qualificados para seu desenvolvimento. Prestemos, portanto, um tributo a esse cidadão de dupla nacionalidade – John Henry Wheelock e ao brasão, por ele estilizado, que simboliza a essência da trilogia consolidada na ESAL/UFLA: Ensino, Pesquisa e Extensão. O historiador Bi-Moreira estava certo ao atribuir-lhe a alcunha de “O Consolidador”. 

Conhecer a história é valorizar o presente para olharmos o futuro com otimismo e confiança.

Brasília, 05 de dezembro de 2015


Paulo das Lavras  


Encontrar a bandeira com o brasão criado em 1862, e adaptado em 1937
 para a ESAL, com o slogan – Ciência e Prática, que  encerra a filosofia do
 Land Grant College, com a tríade: Ensino, Pesquisa, Extensão, foi surpresa
 mais que agradável, emocionante, ao relembrar a figura de Mr Wheelock. 



Science whith Practice, created by the Morril Act/Land Grant College - USA 
Foi carinhosamente estilizado para as condições de país tropical...

  

Os ramos de café, com seus grãos vermelhos, do país
       tropical, substituíram os de trigo na versão original de Iowa 
                                                                                                       

 John Henry Wheelock, Ex-aluno
da Iowa State College of Agriculture.
Diretor e consolidador da ESAL. Sabiamente
adaptou o brasão da ISU para a sua Escola em Lavras

Sessão de abertura do Congresso de Engenharia- UFLA 40 anos da Engenharia Agrícola 


 
Recebendo a homenagem como idealizador do curso


 
 Palestrando e agradecendo a homenagem


 
Ex-ministro Paulinelli, Marcelo Alves e Ednilton Andrade,
no coquetel de abertura do evento 

 
 Carlos Volpato, Mirléia, Jair Vieira, Paulinelli, Paulo Roberto e Ednilton



 
Coquetel de abertura do Congresso de Engenharia da UFLA 


Encontrar ao lado do Departamento de Engenharia, o Avião Agrícola Ipanema,
doado pelo extinto CENEA, como prêmio pelo desempenho no ensino de Engenharia Agrícola
na Ufla, foi uma enorme satisfação para quem foi o idealizador do curso prontamente aprovado pelo MEC em 1975