terça-feira, 30 de setembro de 2014

Agosto dos Ipês e das Siriemas



O mês de agosto se caracteriza pelo tempo seco enfumaçado pelas queimadas e também pela beleza dos ipês em plena floração nas cores roxa, rosa, branca e destaque especial para o amarelo. Outra característica do mês de agosto, especialmente para aqueles que têm mais contato com a natureza, é a presença das siriemas, correndo pelos campos em busca de alimentos. Seu canto triste e estridente pode ser ouvido a um quilômetro de distancia e quase sempre andam em casais ou grupos de até cinco aves. O voo das siriemas é curto e baixo e só usado quando estão em perigo. Em compensação podem correr em velocidades de 40 a 70 km/h com suas longas pernas. O bico é bastante forte e tem na base, próximo aos olhos, um feixe de penas eriçadas para adiante. Alimentam-se de gafanhotos, roedores e até cobras. São muito ariscas e chegam a se deitar atrás de troncos de árvores para se esconderem. 

As siriemas são muito elogiadas pelas pessoas que moram no campo. Seu canto é apreciado e segundo eles, traz o prenúncio das chuvas que chegam no mês seguinte. Param o afazer e se põem a escutar o seu canto e a contemplar o horizonte como a buscar o sinal da chuva que ainda demora. Mas, na contramão desse amor estão ou estavam os meninos da roça. Não tinham piedade e saíam à sua caça, o que era comum naqueles idos de 1950/60 quando não havia a preocupação com a educação ambiental. O filósofo escritor Rubem Alves descreve muito bem essa tendência dos meninos. Disse ele que a gente nasce com a alma de caçador e que a caça é desafio. Pegar o que não pode ser pego, que corre mais, que voa nas alturas dos céus, que se esconde no fundo dos rios. E se não pode ser pego, continua o autor, como pode ser pego? Aí entra a inteligência, a artimanha, o engano. E segundo Rubem Alves, o caçador é um enganador. Ele conhece os hábitos da caça e por isso a apanha com armadilhas e armas. Parece que no mundo inteiro os meninos nascem caçadores e então ele relata com tristeza a primeira rolinha agonizante em suas mãos a olhar para ele e morrer em seguida. Enterrou-a e nunca mais usou o estilingue. Assim aconteceu também com o menino que caçava pelos campos de Sant´Anna das Lavras do Funil. 

Neste agosto de 2014 recebi uma bela foto de uma siriema, pousada majestosamente na cerca do quintal da casa sede do Sítio Retiro dos Ipês. Rodeada por inúmeros ipês amarelos em plena floração estava pronta para iniciar seu canto estridente. Extasiado com a beleza do pássaro com seu imponente porte, fui sacudido pela triste lembrança que um dia, atocaiado, acertei uma delas com o tiro de uma luxuosa espingarda italiana da marca Beretta, pertencente a meu pai. Alegria total do caçador, de doze anos de idade. Adentrou a casa, naquele ano de 1957, com o enorme troféu nas mãos, de pernas muito longas e asas de grande envergadura. Para sua surpresa ali estavam as freiras professoras e dirigentes do Colégio de Lourdes, as Irmãs Angélica e Isabel e mais onze alunas. Esta última, professora de matemática, nem era tão querida pela simples razão de ser a mestra da temida matéria de cálculo, logaritmos e outros conteúdos detestados pelas alunas. As irmãs-professoras e alunas tinham ido ali para uma visita à família que mantinha seis moças no colégio. Aproveitavam para fazer um piquenique sob o eucaliptal, o mesmo que aparece ao fundo da foto da siriema, tomada em 31 de agosto de 2014, exatos 57 anos depois. Surpresas e até mesmo com espanto, as visitas admiraram a siriema que o menino trazia a tiracolo como um troféu. Madre Isabel quis logo saber a que família do reino animal pertencia a enorme ave, pernalta, com um grande penacho em forma de crista e olhos avermelhados. Não me lembro se a olharam com alegria, tristeza ou simplesmente espanto.  O certo é que hoje todos lamentariam ver aquela bela ave abatida a tiro de espingarda cartucheira. O próprio menino certamente teria preferido apenas contemplá-la na natureza e com a mesma astúcia de caçador disparar outro tipo de flash luminoso, sem explosão, o da máquina fotográfica, com zoom calibrado, tal qual a sobrinha-neta, Larissa, o fez e me presenteou a foto.

 Ah... como evoluímos..., Rubem Alves e eu, se crianças fôssemos, hoje não teríamos cometido tamanha barbárie contra os indefesos habitantes da natureza que só nos alegram com seu cantar e enfeitam o nosso meio ambiente. Só espero que o vizinho do Sítio Retiro dos Ipês também tenha se arrependido por ter abatido a pauladas um baita gavião Carcará que se atreveu a avançar sobre os pintinhos de sua galinha garnisé. Bichinha para lá de valente! Antes que a ave de rapina vitimasse um de seus filhotes, atacou-a rapidamente, pulando sobre seu dorso e bicando violentamente a cabeça do gavião. Este, tal qual numa rinha de galo, não resistiu às fortes bicadas na cabeça e literalmente, desmaiou. Foi aí que o vizinho entrou em ação e deu cabo à vida do carcará. 

Hoje, tal qual o menino da siriema, se assim procedesse, teria prisão inafiançável por crime contra a natureza. Ainda bem que evoluímos e para penitenciar ou mitigar esses malfeitos cuidei logo de plantar muitos ipês e árvores frutíferas para deleite da passarada aqui no planalto central. Nesse paraíso florido e frutificado ainda não vi as siriemas, embora ouça seus cantares não muito distante, do outro lado do ribeirão. E quando isso acontece a saudade aperta e a lembrança do menino caçador e seu mal feito vem à memória. O canto da Siriema ecoa triste e saudoso por aqui também, trazendo as lembranças da infância e juventude nos Campos de Sant´Anna das Lavras do Funil. Mas em compensação inúmeras outras aves como sabiás, rolinhas, bem-te-vis, corruíras,  canarinhos da terra e até um casal de tucanos do bico amarelo me visitam constantemente, ou melhor, vêm saborear mamão e outras frutas plantadas especialmente para eles. Só assim me reconciliei com a natureza e tenho prazer redobrado ao contemplar os passarinhos, por menor que sejam, a se deliciarem com as frutas que lhes ofereço no paraíso especialmente construído para eles.
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Brasília, 30 de setembro de 2014 

Paulo das Lavras


A bela Siriema, fotografada em 31/08/2014, no quintal da casa sede do Sítio Retiro dos Ipês




Ipês amarelos e o canto da Siriema. Bela combinação! E bem ali, defronte  à janela do quarto onde o menino das 
Lavras nasceu, no Sítio Retiro dos Ipês.




Até a Siriema cantou por mais tempo e se deixou fotografar, deslumbrada que estava com a beleza dos ipês amarelos bem à sua frente. Tudo em sacrossanta harmonia... o canto, as cores...
 





                             E deixem-na cantar com sua gostosa estridência que alegra os corações
 




                                                   Para depois se juntar às companheiras e....




                                    Se alimentar com a sua caça preferida, pequenos répteis








segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Educação, erotização infantil e os políticos


Em época de eleições presidenciais surgem todos os tipos de questões. Uma das últimas foi a retirada do projeto de programa de governo, por parte de uma candidata, do apoio a algumas causas do movimento LGTB. Entre as questões chamou atenção as referentes à legalização do casamento igualitário no Brasil, que permite a união entre pessoas do mesmo sexo. Além disso, foi eliminada, do programa da candidata, a defesa de um projeto em tramitação no Congresso que criminaliza a homofobia.Tais questões envolvem mais que meras propostas para agradar a grupos de eleitores. Não faz muito tempo o país esteve envolvido em discussões dessa natureza por conta de ingerências governamentais em questões que dizem respeito às famílias, a educação sexual infantil. Não há dúvidas que a erotização infantil é uma realidade que deve ser enfrentada. Cada vez mais aumentam as redes de pedofilia com exploração sexual de crianças. Os relatórios e noticiários policiais estão a confirmar isso diariamente. E pior, há no Brasil uma intenção deliberada em implantar políticas educacionais e culturais de erotização infantil. O próprio MEC em recente passado foi obrigado a recolher, por pressão contrária da sociedade, o chamado kit gay. Tratava-se de material didático composto de três vídeos e quatro cartilhas e livros paradidáticos com textos e ilustrações explícitas de relações sexuais destinados à educação sexual de crianças. Obviamente a sociedade brasileira não concordou e um constrangido Ministro da Educação foi obrigado a anunciar a retirada desse material destinado às escolas publicas. Não só os governos federal e estadual, mas também os partidos políticos e movimentos sociais embarcaram nessa onda. Aproveitaram os argumentos de combate às doenças sexualmente transmissíveis e também às discriminações para inserirem ideologias que corrompem os valores da sexualidade e mais agravante, ainda, a violação do direito da família na prioridade da educação sexual dos filhos. Sim, talvez poucos saibam, mas o Brasil é signatário da Convenção Americana de Direitos Humanos, a chamada Convenção de São José da Costa Rica. Esta convenção, adotada pelo Brasil desde 1992, diz em seu artigo 12:  “Os pais têm direito a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.”

Por ser um tratado internacional, subscrito pelo Brasil, tem o mesmo nível hierárquico da Constituição Federal, segundo o Supremo Tribunal Federal. Aliás, nem é preciso de leis para se afirmar que o direito da família de educar seus filhos sobre moralidade, religião e outros temas é inalienável. É direito natural de a família determinar que seus filhos só recebam educação moral de acordo com as convicções da própria família. E nessa lógica inquestionável cabe perguntar por que o governo tem que se meter nisso? Por que devemos deixar que um funcionário público do MEC ou de Secretarias Estaduais determine o que se deve ensinar em termos de moral e sexualidade aos nossos filhos, crianças e adolescentes?  E de que tendências os professores se valeriam para a moral e a sexualidade? Ora, certamente as modas exibidas pelas novelas não ficariam de fora e acresçam-se também as “modernidades” estrangeiras, as das minorias que controlam o MEC e as secretarias de educação. E os temas, quais seriam? A julgar pelos conteúdos das cartilhas produzidas pelos “experts” do MEC, poderiam ser orientação sexual, questões de gênero, “direitos reprodutivos”, incluindo aborto, modelos familiares, ética, etc. E por que o MEC colocou nas suas cartilhas dirigidas às crianças e adolescentes a discussão de questões polêmicas e delicadas, como masturbação, iniciação sexual, o “ficar” e o namoro, homossexualidade, aborto, disfunções sexuais, prostituição e pornografia? E o pior, com tendências que não condizem com as orientações das famílias. Daí a reação da sociedade e consequente recuo do MEC retirando as tais cartilhas. Foi um constrangimento sem igual para as autoridades educacionais por mim presenciado.

É uma ação imprópria do estado e por outro lado, os políticos candidatos não têm que se meter nisso com fins apenas eleitoreiros. Até então, antes da reação da sociedade e recuo do MEC, tudo foi feito por iniciativa exclusiva de funcionários do MEC e das secretarias de educação e professores de escolas que decidiam por conta própria o que deve ser ensinado aos nossos filhos em matéria de moral, principalmente moral sexual. Se a sociedade desejar que o Estado colabore na educação da moralidade sexual das crianças e adolescentes, que se faça por meio de leis. Hoje já há projetos de lei, tramitando no Congresso Nacional, tentando regulamentar a matéria e que respeitam os princípios da Convenção de São José da Costa Rica. Um desses projetos de lei diz que os parâmetros curriculares nacionais respeitarão as convicções dos alunos, de seus pais ou responsáveis, tendo os valores de ordem familiar precedência sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa. O mesmo projeto veda a transversalidade ou técnicas subliminares no ensino desses temas. Boa ideia, se aprovada e respeitada colocará fim a esses devaneios de políticos e grupos de interesses nem tão explícitos. Não se pode esquecer, no entanto, que há muito tempo as questões de fisiologia sexual e reprodução já são abordadas de maneira transversal e integrada nas disciplinas biológicas em qualquer currículo escolar. Quanto à questão moral..., bem essa deve mesmo permanecer a cargo da família e não pode o Estado provocar conflitos morais no seio da família, a base de sustentação de uma Nação.

Brasília, 08 de setembro de 2014

Paulo das Lavras