Há
em Lavras inúmeras histórias e registros de escravos e numa delas informa-se
que o inventário de Joaquim Tavares Coimbra, de 23 de maio de 1872, deixava para
seus filhos 30 escravos, sendo 19 mulheres e 11 homens. Sobre a violência
contra escravos ou deles próprios contra os patrões, Cicarelli (14) pesquisou os arquivos do mapa geral dos
julgamentos proferidos pelo Júri da Província de Minas Gerais e ali se registra
que a Vila de Lavras foi considerada a mais violenta do ano de 1844. Em toda a
Comarca do Rio das Mortes, que compreendia entre outras, São João Del Rei,
Carrancas, Ibituruna e Lavras, ocorreram 13 crimes, sendo oito praticados na
Vila de Lavras. Na vizinha Nepomuceno, que fazia parte de Lavras, há relatos do
historiador João Amilcar Salgado (15), médico e professor da UFMG, com
raízes na família Salles, dando conta da existência de locais com passado
turbulento, cheios de violência. _
A segunda história da
violência escravocrata em Lavras aconteceu na tarde de 05 de dezembro de 1838,
quando o escravo Joaquim Congo, de 28 anos de idade, assassinou o fazendeiro
José Pimenta, o qual lhe dera uma surra pela manhã. O corpo do fazendeiro,
totalmente desfigurado por golpes de enxada, foi encontrado numa mata próxima e
levado de carro de boi para a perícia judicial e depois
Joaquim Congo foi executado em 26 de junho de 1839
e o juiz determinou na sentença dentre outras indicações, que:
Assim, o réu foi escoltado
pelas ruas de Lavras até chegar ao local da forca, na parte mais alta da
cidade, onde hoje se situa o Cruzeiro, próximo às instalações da atual Copasa,
ao lado da Rua Melo Viana. Para completar a demonstração de força dos
fazendeiros, seus escravos foram forçados a
participar do cortejo e assistir à execução para lhes servir de lição.
Impressionante a crueldade do ato, pois não bastasse o longo desfile pelas ruas
da cidade, o cortejo passou, ainda, pelo cemitério ao lado da Igreja do Rosário,
no exato lugar hoje ocupado pelo prédio do CrediReal. Ali, ao lado da igreja e
não no seu interior, era o local destinado ao sepultamento de negros, índios e
mendigos, segundo relatam historiadores de Lavras. Obrigaram o condenado a
entrar na cova para experimentá-la e dizer se estava de acordo. O cortejo
seguiu pela Rua Direita (atual Rua Francisco Salles) e a trilha até o alto da
pedreira, onde a forca foi instalada numa árvore. Este foi o único enforcamento
de escravo ocorrido na cidade. A certidão de óbito, lavrada pelo vigário
Francisco de Paula Diniz, assim registrou:
"Aos vinte e seis dias do mês de
junho de mil oitocentos e trinta e nove, foi sepultado no adro desta Matriz,
Joaquim Congo, escravo pertencente à herança de José Pimenta, de idade de vinte
e oito anos, por execução de sentença de morte natural e foi por mim mesmo
encomendado e dado os apontamentos no dito livro. O vigário Francisco de Paula
Diniz." -Livro de óbitos da Paróquia
- 1815/1843 - folha 173 v”.
2.4- Violência
e assaltos nos caminhos dos Salles nas Lavras do Funil
Como se viu pelos registros
históricos, de certa forma a escravidão em Lavras não deixou de ter o seu lado
violento, contrariando também a equivocada tese de Gilberto Freyre de uma suposta
democracia racial. Os historiadores Gilberto Freyre (Casa Grande e Senzala-
1933) e Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil-1936) difundiram essa
expressão mundo afora. Mas, se olharmos com atenção seus próprios textos vamos
encontrar contradições. Nelas estão nitidamente descritos os poderes incontestáveis da aristocracia rural, que tudo podia e em tudo mandava, inclusive nas vilas,
onde os senhores de engenhos e cafezais dominavam com mão de ferro o sistema
eleitoral e o legislativo, de onde saíam as leis. Esse mandonismo era muito
cruel para contra os escravos, fossem eles índios aprisionados para os combates
nas Entradas e Bandeiras contra as tribos resistentes à invasão de seu
território ou, mais ainda e com maior intensidade, com os negros. A escravidão
sempre foi violenta, a começar pela captura do escravizado no seu país de
origem, arrancando-o à força de seu ambiente familiar, seguindo-se a venda aos
traficantes e transporte em condições sub-humanas em navios negreiros que
cruzavam o Atlântico. Em numero infinitamente maior, os negros chegavam a se
rebelar contra a crueldade de seus senhores e feitores, fugindo mata a dentro e
formando os Quilombos, centros de resistência e independência da escravidão.
A vida do escravo foi uma
constante tortura física e mental e ele sempre, por razões óbvias, buscava a
sua liberdade. A escravidão no Brasil durou três séculos e o que resultou
depois de tanto tempo? Gilberto Freyre afirmou que havia a tal democracia
étnica ou racial, mas ao contrário, Arthur Ramos e outros intelectuais afirmaram
que houve apenas a valorização da mestiçagem e do elemento negro na formação do
país. Para eles a mestiçagem e a mistura razoavelmente equilibrada de costumes
tão díspares, originários de diferentes regiões africanas, incluindo as seitas
religiosas, impediram o preconceito racial no Brasil (17). Classificaram a tese de Gilberto Freyre como equivocada,
baseada em padrões dos E.U.A e a chamaram de “mito da democracia racial”, pois ela inexistiu no Brasil. Outra
autora, Lilia Schwarcz (18) também condena a expressão “democracia racial”
criada por Gilberto Freyre. Aliás, já no início deste capítulo falou-se da
aproximação do negro à família do seu senhor, seja pelo compadrio, frequência
às festas e cultos religiosos. Por parte do colonizador português houve a
predisposição para a miscigenação, o que não aconteceu nos E.U. A e outras
colônias inglesas, inclusive no próprio continente africano como a África do
Sul, onde
_______
(17) Caldas,
A.; Silva, N.G.P. A democracia racial no pensamento de Guerreiro Ramos.
Temáticas, Campinas,
29, (57): 88-116, fev./jun. 2021. Consultado
em 30/12/2021 In: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/tematicas/article/view/13921/10564
(18) Schwarcz,
L.M. Sobre o autoritarismo
brasileiro. 1ª ed.- São Paulo, Cia das Letras -2019, Pág. 17
até recentemente
predominava o regime do “apartheid”. Por aqui o racismo é dissimulado, mas há
muito preconceito de cor e isso prejudica os negros que são discriminados.
Outros autores afirmaram que Freyre,
aparentemente foi influenciado pelos relatos do cientista alemão Von Martius
(1794-1868), que visitou e percorreu boa parte do Brasil por três anos (1817 a
1820), pesquisando e pintando as paisagens tropicais da colônia. Martius também dourou a pílula, defendendo a
tese de que o Brasil era um país sem igual, onde se misturavam gente e povos. Todos
que defendiam essa tese distorceram a violenta realidade do sistema
escravocrata, descrevendo-a como “harmoniosa situação”, como se a miscigenação
dos brancos portugueses com as índias e negras fosse algo natural, pacífico e
consensual. Não foi, pois, a dominação daquelas escravas foi mais que violenta,
cruel. O autor de Casa Grande e Senzala esqueceu-se de que as raízes da
colonização portuguesa no Brasil foram totalmente opostas à dos ingleses na
América do Norte. Os ingleses emigraram com famílias inteiras e ao chegarem à
colônia tiveram como primeira preocupação construir escolas e igrejas para suas
famílias. Os portugueses, ao contrário, aqui chegaram, em sua maioria,
solteiros em busca da aventura de enriquecimento rápido com a exploração dos
recursos naturais, especialmente o ouro e a aventura dos imigrantes solteiros
incluía a miscigenação. Freyre romantizou a situação, falando de miscigenação
pacífica, porém, imaginar que esse entrelaçamento com as mulheres indígenas e
negras foi pacífico, por vontade própria das escravizadas, é minimizar e romancear
a situação de completo domínio do escravizador e jugo das escravizadas. A escravidão
é de todo condenável, pois fere o direito à liberdade e a despeito de uma certa convivência pacífica nas pequenas e médias fazendas do sul de Minas, houve
também excessos de maus tratos contra os escravizados. As rebeliões e fugas,
com criação de quilombos em locais mais distantes das fazendas são provas
irrefutáveis da reação dos escravizados. Hoje, mais distante no tempo e com novos
trabalhos de pesquisas sobre o regime de escravidão e racismo, tem- se no
Brasil uma visão mais realista que nos leva a discordar da teoria da democracia
racial. Por outro lado, é preciso entender que Gilberto Freyre ao formular esse
conceito e descrevê-lo em suas obras de 1930, levou em conta apenas a situação
dos conflitos raciais nos EUA iniciados na década de 1920. De fato, ali
existiam leis raciais discriminatórias. Negros não podiam frequentar ambientes
dos brancos, sequer o transporte publico, igrejas e escolas, o que gerou muita
tensão e acabou por provocar conflitos sangrentos nos anos de 1950/60. Este
autor trabalhou na década de 1970 em Michigan, berço da indústria
automobilística dos EUA e ali pôde, de fato, sentir e presenciar as tensões
raciais pós–assassinato de Luther King, ativista negro que pacificamente obteve
muitas conquistas sociais para seus compatriotas negros. A tensão racial era
uma constante na universidade norte-americana onde trabalhei, pois ali as centrais
sindicais, a maioria de negros, eram muito ativas e praticavam o racismo
reverso, ódio aos brancos. Tempos conturbados naquela nação, porém as
diferenças para o Brasil se encerravam ali, naqueles distúrbios com constantes
manifestações populares, pois embora por aqui não existissem leis semelhantes
às dos E.U. A, a escravidão por si mesma é condenável, aqui como lá.
2.4.1 –
Efeitos e resquícios da violência na
Escravidão em Lavras
Não bastasse a situação da
escravidão, que por si própria gerava muita insatisfação e às vezes revoltas
com sangrentos levantes, havia ainda nos caminhos de Lavras a presença de
assaltantes, negros que viviam aquilombados em diversos locais. Os caminhos das
trilhas que ligavam os povoados próximos à cabeça da Comarca do Rio das Mortes
(S.J.D.Rey) e às cortes da província e da colônia estavam infestados de
salteadores. O medo de se viajar por aquelas paragens já era antigo, pois
segundo registros do Arquivo Público Mineiro pesquisados pelo historiador
Nemeth-Torres (19), o capitão Francisco
Bueno da Fonseca, afirmou às autoridades da província, em 1737, que “... não se
atreveria a descobrir ouro por aquelas paragens na vizinhança de Ibituruna,
pois estavam infestadas de calhambolas (quilombolas) que salteavam os caminhos
e casas dos moradores e por isso lhes estorvavam o sobredito receio”.
O medo de assaltos por
escravos fugidos era tanto que o bispo de Mariana acabou por aprovar a mudança
da paróquia de Carrancas para a vila de Lavras, mais populosa e cujos
habitantes temiam percorrer as seis léguas que as separavam, para assistirem
aos cultos religiosos, especialmente os da semana santa. Some-se a isso a
revolta de Carrancas com a chacina de nove membros da família de um poderoso
fazendeiro e a condenação e execução dos 17 escravos criminosos e mais, o outro
caso do escravo Joaquim Congo também enforcado no alto do Cruzeiro e com
direito a show de desfile pelas ruas da vila e ainda a macabra cena de se obrigar o escravo a
se deitar na cova e dizer se estava adequada e tem-se um quadro de total terror
e pavor de se andar sozinho pelas estradas rurais de Lavras.
Por
outro lado, a decretação da abolição da escravatura não foi suficiente para
resolver a insatisfação e estancar as constantes revoltas dos escravos. Os
negros, recém-libertados foram abandonados ao relento, deixados à própria
sorte, literalmente, sem abrigo e sem comida. Muitos sequer tinham nomes, simplesmente
carregavam o nome do patrão ou da fazenda onde trabalhavam. Quantos negros,
hoje, conseguem levantar suas ancestralidades? Não conseguem avançar mais que
duas ou três ascendências e se deparam com a falta dos registros de posses de
escravos. Temendo pedidos ao governo de indenizações pela perda de escravos, o
todo poderoso ministro da Fazenda, Rui Barbosa, mandou queimar todos os
arquivos dos “Registros de Posse de Escravos”. Por essas e outras razões, os
escravos e seus descendentes não tinham nomes, certidões, filhos registrados e
sempre caíam nas expressões comuns de escravo, cativo, negro forro de fulano de
tal, ou negro cabinda, congo e outras denominações, deixando claro a sua
condição de negro escravo ou ex-escravo. Até mesmo na questão da identidade dos
negros havia violência, pois muitos deles eram filhos bastardos dos senhores da
casa grande e por isso nem sempre eram registrados para não causar
“constrangimentos”. Mas, e o constrangimento das negras obrigadas a coabitar,
violentadas por seus senhores? Vidas negras importam, como diz o slogan
norte-americano contra a recente violência racial naquele país. Por aqui, após
a abolição, os negros tiveram que construir suas próprias identidades, adotaram
sobrenomes da natureza ou de santos de sua devoção ou até mesmo de seus antigos
senhores. Ainda assim, mesmo com a decretação da abolição, alguns permaneceram
junto aos seus senhores quase na mesma condição de escravo, mas a maioria
fugiu das fazendas, amontoando-se nas periferias das cidades. No Rio de Janeiro
o início das favelas se deu um pouco antes da abolição. Foi em 1870 com o término da guerra do Paraguai,
quando os negros, que eram a maioria dos soldados (daí a origem do apelido de
“macacos” que os paraguaios deram aos brasileiros. Os argentinos nos chamam
de “los macaquitos”), voltaram para ficar ao lado da corte onde pensavam que
seriam recompensados. Não havia lugar nem trabalho suficiente para eles e foram,
então, ocupar os morros da cidade. O mesmo aconteceu depois da abolição e as
favelas cariocas cresceram ainda mais.
_________
(19)
Nemeth-Torres, Geovani. 2018 op.
cit. P. 57
2.4.2- O porte de armas dos fazendeiros
Em Lavras não foi diferente do que aconteceu no
pós-abolição na corte do Rio de Janeiro e outras cidades. Os negros expulsos
das fazendas se instalaram precariamente nas periferias da cidade. Construíam barracos
de madeira e se viravam para o sustento da família, se é que tinham uma, pois
na maioria das vezes eram vendidos separados. Muitos caíram na marginalidade e
isso aterrorizava os fazendeiros, antigos senhores de escravos. Temiam ataques de
negros, isolados ou em grupos, como acontecia antes, porém apenas nas
proximidades dos quilombos. Mas, com a abolição os assaltos migram para todas
as estradas e periferias de cidades. Por
isso, a população urbana e especialmente os fazendeiros, nunca se aventuravam a
se afastar de casa, a pé ou a cavalo, sem que houvesse pelo menos um ou dois
acompanhantes e sempre munidos de armas de fogo na cintura ou mais comumente na
algibeira da albardana da sela de seus cavalos. Esse era o costume em Lavras, o
porte de armas por qualquer fazendeiro, especialmente quando se deslocava para
a cidade e tinha que atravessar os bairros da periferia, onde se acumulavam os
ex-escravos. Este autor participou nos anos de 1950, de alguns deslocamentos a
cavalo, das fazendas até a cidade, ou mesmo entre as fazendas da família e
ainda se lembra dos cuidados com o ritual do porte de armas de fogo para a
viagem. Era comum os fazendeiros treinarem seus filhos, a partir dos doze anos de
idade, no manuseio de armas de fogo para defesa e caça. Antigamente, pelo menos
até os anos de 1950, não faltavam em Lavras armas importadas, comercializadas
por tropeiros ou estabelecimentos comerciais. Havia espingardas cartucheiras
Beretta de vários calibres, a famosa e cobiçada carabina Winchester do papo
amarelo, calibre .44, pistolas Luger, Mauser e revólveres Smith & Wesson,
H.O e mais tarde Rossi e Taurus e outras mais antigas como as garruchas de um
ou dois canos.
Tantos
cuidados assim e o porte de armas pelos fazendeiros de Lavras faziam sentido. O
receio de assaltos era real e muito grande entre a população, senão vejamos: O
próprio governador da província de Minas Gerais, dom Lourenço de Almeida,
escreveu carta ao rei de Portugal, em 1730, reclamando dos constantes ataques e
roubos nas estradas por parte de indígenas e negros. Pedia, inclusive, a
aprovação da pena de morte (20). Tanto
era verdade que, um pouco mais tarde, em 1737, o capitão Francisco Bueno da
Fonseca, um dos fundadores de Lavras, escreveu ao governador informando que não
se arriscaria a andar em busca de ouro pelas paragens de Ibituruna, pois
estavam infestadas de negros fugidos que salteavam os caminhos e casas dos
moradores. Pouco tempo depois, em 1746, o governador enviou ofício às câmaras municipais pedindo ajuda para a formação de tropas para atacar o Quilombo do
Campo Grande, o maior de Minas Gerais e cujos reforços de tropas contaram com a
participação dos Bueno de Lavras. Essas campanhas contra os quilombos e o medo da população se estenderam até o final do século XVIII.
Quando os cientistas Spix e Martius passaram pela região de Lavras em 1818, com
sua expedição científica, estava claro e evidente o medo, verdadeiro pavor, que
os fazendeiros tinham por conta de possíveis ataques de negros quilombolas. Os
cientistas se impressionaram com aquele cenário de apreensão e medo da
população. Observaram e descreveram as características e os costumes das
pessoas típicas de Minas Gerais com seu comportamento de elevada autoestima,
prestativas, comedidas e sobretudo muito asseadas. Destacaram os viajantes
alemães que os fazendeiros só saíam de casa montados em mulas bem arreadas,
incluindo freios e estribos de prata, e ainda portando (grifamos) espada e arma de fogo (21). As mulas, que também
_____________
(20) Gomes, Laurentino. Escravidão: da
corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte e dom João ao Brasil.
Vol II. 2021. Rio de Janeiro: Globo Livros. 512p. pp 388-389
(21) Spix, J.
B. e Martius, C.F.P. (1824). Travels in Brazil, in the years 1817-1820. Vol. 2 London.
impressionaram
os cientistas, eram importadas de Sorocaba, entreposto de comercialização das
tropas vindas do Rio Grande do Sul.
Minas chegava a comprar dez mil muares por ano.
Como se viu, o receio de assaltos por parte de
escravos rebelados e escondidos nas estradas foi notado até mesmo por visitantes
estrangeiros na região de Lavras. Além dos embates do século XVII, que
chegaram a mobilizar tropas da província e com participação dos municípios, seguiram-se mais tarde,
já nos meados dos anos de 1800, os trágicos acontecimentos da chacina de
Carrancas e o enforcamento do escravo Joaquim Congo, no alto Cruzeiro, em
Lavras. Se antes tinham medo, agora, com essas novas escaramuças, os cuidados
aumentaram e era evidente que todos os fazendeiros se armaram para a proteção
de suas famílias e o patrimônio. Os Salles e Pádua, fazendeiros de Lavras, como
Antônio de Pádua da Silva Leite (1765-1849), filho do patriarca Manoel da Costa
Valle, e seus filhos Fortunato Antônio de Salles (1813-1877) e Saturnino de
Pádua (1811-1888), conheciam os relatos diretos de ancestrais participantes das
guerras contra os quilombolas e em seguida presenciaram os atos consequentes da
chacina de Carrancas, de1833 e a execução do escravo Joaquim Congo em 1839. Não
só esses três ancestrais conviveram com todos aqueles trágicos acontecimentos do
século XIX ocorridos em Lavras. Seus filhos Domingos Pereira de Salles (1850-1927),
meu bisavô e João de Pádua, nascido em 1844, também fazendeiros em Lavras,
tinham motivos suficientes para serem adeptos do porte de armas para se
defenderem, pois viveram bastante tempo ainda nos tempos da escravidão e das
revoltas escravas. Em alguns dos
inventários da família Salles, do século XIX, constavam na relação de bens as armas
de fogo como espingardas e pistolas. Portanto, os avós e nossos pais, nascidos
entre 1864 e 1920 (o bisavô Fortunato Antônio de Abreu, 1864-1954 e Nanato 1920-2019),
carregaram esses costumes herdados de seus respectivos pais, os quais tangidos
pelas circunstâncias eram obrigados a portar armas de fogo para defesa pessoal.
Este autor e vários de seus primos, que frequentavam as fazendas, também
adquiriram esse costume. Um deles, inclusive se acidentou nos treinos com
espingarda cartucheira, quando o tiro saiu, literalmente, pela culatra e
feriu-lhe gravemente o antebraço. Definitivamente, armas de fogo não devem
mesmo fazer parte dos costumes de hoje e felizmente saíram de cena já nos anos
de 1960/70, quando surgiram as modernas estradas asfaltadas e veículos mais
rápidos, além do que a situação dos descendentes de escravos já havia melhorado
um pouco. Cessaram, portanto as razões
para se andar armado pelas estradas rurais, costume dos tempos das rebeliões
escravas quando ninguém saía sozinho de casa, mesmo de uma fazenda para a outra
e não importava a distância, se três ou vinte quilômetros, viajava-se
acompanhado e sempre portando armas de fogo. Aliás, parece que a década de 1960
foi mesmo um período de mudanças em Lavras, pois além de cessar o costume do
porte de armas, encerraram-se as atividades do Clube de Tiro ao Alvo, cujo
stand de tiro se situava na Avenida Ernesto Matioli, em frente ao Corpo de
Bombeiros e o Fórum de Lavras. Este clube foi muito ativo e era mantido por
fazendeiros acostumados ao uso de armas e
adeptos do esporte de caça. Havia muitos adeptos do esporte de tiro ao alvo,
como o prof. Adolpho Moura, Anísio Alves de Abreu Filho e Gilvan de Souza que eram
frequentadores e exímios atiradores em alvos móveis, pratos lançados por uma
catapulta. Os dois últimos mantinham coleção de armas e possuíam um ônibus
especial adaptado para viagens de caça e pesca ao Pantanal, levando mais de
vinte cães das raças perdigueiro e pointer, usados na caça esportiva. Na
atualidade, já no início deste novo milênio, foi criado em Lavras novo clube de
tiro e caça, porém com finalidades estritamente esportivas e para
colecionadores, nada tendo a ver com as motivações do passado relativas ao medo
de ataques de escravos nas estradas rurais. Assim também em Brasília, o autor
praticava tiro ao alvo por puro lazer, talvez pelas reminiscências das caçadas
nas fazendas e lagoas às margens do Rio Grande. Introduziu e treinou os filhos
nessa modalidade de esportes, a partir dos 12 anos, e até conseguiram medalhas
em campeonatos nacionais.
Mas,
todos esses acontecimentos estavam inseridos num cenário de muita miséria para
os negros. Eram maioria no município, cuja economia girava em torno das lavouras,
especialmente o café, altamente exigente de mão de obra escrava. Com a abolição
da escravidão tiveram que abandonar as fazendas. Aqueles que foram morar à
beira das estradas, às vezes conseguiam, além de sua precária choupana, pequeno
espaço para plantar, colher e criar algumas galinhas ou mesmo um porquinho de
engorda para o sustento da família. Porém, para quem morava nas periferias de
Lavras, com casebres amontoados, isso não era possível e a fome era constante.
Este era o cenário de Lavras, pelo menos até os anos de 1960, conforme pesquisas
de campo aqui citadas.
Como se viu, as consequências
da violência contra os negros não se encerraram com a abolição da escravidão.
Em certo sentido até se acentuou, pois, se de um lado cessaram os açoites
físicos, por outro, acirraram-se as sequelas da alma ressentida, com a miséria
e a fome em razão, principalmente, do abandono a que foram relegados pela
sociedade e até mesmo a absurda negação de sua identidade civil. Tudo isso
contribuiu para empurrá-los para o analfabetismo funcional e a marginalidade. Grande
dívida social tem a sociedade brasileira para o reparo dessas injustiças
cometidas contra os negros. Ainda bem que no limiar do século XXI medidas
corretivas começaram a ser tomadas para mitigar os males de antes.
2.4.3- Consequências
da escravidão - racismo e preconceitos
Há racismo no Brasil? Difícil de responder. Se
considerarmos, no entanto, que o racismo é a herança de todas as relações
construídas durante séculos de escravidão, onde o negro era comprado e tido
como instrumento de trabalho e o branco europeu, o português, considerava
injurioso e indigno o trabalho braçal, de fato havia discriminação racial no
Brasil. Porém, essa discriminação racial tinha como base a equivocada crença de inferioridade das raças escravizadas,
incluindo costumes, valores e comportamentos. Ainda que integrados à família do
senhor dos escravos, o negro até chegava a gozar de simpatia. Porém se criasse
algum problema era logo enquadrado como negro, escravo trabalhador braçal,
seguindo-se adjetivações pejorativas. Este conceito de trabalho, reservado
exclusivamente a escravos, felizmente não mais perdura. Entretanto, em recente
passado ainda presenciamos tratamentos semelhantes dispensados aos negros. Junte-se
a isso a falta de escolaridade e a subalternidade no trabalho e tinha-se um
ambiente propício à continuidade da discriminação do período de escravidão que,
diga-se, durou mais de 300 anos. Felizmente a situação começou a mudar com leis
positivas e maior educação do brasileiro em geral. Em nada, mas nada mesmo e
comprovado cientificamente, se baseia
a equivocada crença de inferioridade
das raças escravizadas (grifo nosso). Não gosta do nariz mais achatado da raça
negra? Os padrões internacionais elegeram como modelo de beleza o nariz fino da
raça que tem o crânio dolicocéfalo? Ora, ora, por que tamanha ignorância
científica dos adeptos das falsas teorias racistas? Seriam elas baseadas apenas
em valores estéticos? Como engenheiro gostamos de citar e comparar pesquisas da
área de mecânica dos fluídos. Está demonstrado e comprovado que tubos
estreitos, de menor diâmetro, comprimem e aquecem o líquido ou o ar neles
injetados sob pressão. Ora a respiração humana o que é, senão a sucção (pressão
negativa) do ar através das fossas nasais? Então..., para os esquimós, ou os
moradores das gélidas regiões nórdicas, é certo que eles tenham “dutos nasais”
mais estreitos, pois “aquecem” um pouquinho o ar gelado que respiram. Se eles
se mudarem para a África, de clima seco e tórrido, ou mesmo para Teresina, no Piauí, onde temperatura diária é de 40/42º C e nem
se pode abastecer o avião depois das onze horas da manhã (perguntei isto ao
comandante do avião e a resposta técnica: sujeito à evaporação e explosão do
combustível), os esquimós teriam o ar aspirado com mais calor e desconforto. É
por isso que os habitantes dos trópicos, no caso os negros, têm as fossas
nasais mais alargadas. Portanto, nesse quesito fisiológico ou de estética, nada
a ver com falsas teorias racistas. Não há espaço para racismo, somos iguais na
alma e nos direitos e deveres humanos. Qualquer alteração é produto do meio e
não racial entre os humanos. Há muito preconceito de cor e isso já é combatido
pela educação e leis modernas que coíbem e punem infratores.
O historiador
Laurentino Gomes ensina em seus livros sobre racismo que há dificuldades na
sociedade brasileira em acertar as contas com o passado de escravidão. Para
ele, a razão está no fato de que “a escravidão não é só um comércio de
gente. Ela é uma estruturação da sociedade, de poder, distribuição de recursos,
de terras, riquezas, de benefícios e de privilégios. Um grupo tem acesso a
riqueza, a privilégios, a confortos, à repartição dos recursos públicos, e
outro não”. Uma pena, pois segundo ainda o historiador, citando uma frase do padre Antônio Vieira, do finalzinho do século XVII: “O Brasil
tem o seu corpo na América, e a sua alma na África. Ou seja, a
essência, o povo, o elemento mais importante de constituição da sociedade
brasileira era de matriz africana e nós sempre valorizamos muito as riquezas físicas
nacionais, mas não o povo, sua gente”.
Passada
abolição começou outra série de problemas para os ex-escravos. Precisava-se de trabalhadores, porém
ex-escravo era perigoso sob a ótica dos fazendeiros. Então pressionaram o
imperador para abrir a imigração para estrangeiros. Vieram os italianos a
partir de 1890. Aceitavam-se quaisquer imigrantes, exceto negros e asiáticos.,
começando-se aí a discriminação oficial dos negros após a abolição. Antes mesmo
do decreto de imigrações veio a lei da vadiagem que tipificava a prática
pública da capoeira, esporte e dança de negros, como crimes. Não pararam por
aí as ações do governo, pois em novembro de 1890, Rui Barbosa, Ministro da
Justiça, determinou a queima dos arquivos oficiais de registros de escravos. No
século XX, Getúlio Vargas sancionou a
Lei de Contravenções Penais, de 1940, impondo pena a quem for
considerado vadio, ou seja o negro que perambulasse pelas ruas e sem emprego.
Em 1945, novamente Getúlio Vargas regulamentou a imigração, limitando-a aos
estrangeiros de “ascendência europeia”, em clara desconsideração à cidadania do
negro. Foi a Lei Afonso Arinos, de 1951, a primeira no Brasil a incriminar a
discriminação e preconceito racial, seguindo-se, em 1985, a lei que proibiu a
discriminação em elevadores, reforçada pela a Lei 7.716/89, tipificando como crime atos de discriminação
de cor, raça, etnia, religião ou procedência nacional. Somente mais tarde, em
2002, surgiu o Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH, que dá suporte às
políticas de discriminação positiva, as chamadas ações afirmativas, com vistas
a devolver a cidadania plena aos descendentes de escravos, culminando com a
aprovação a lei das cotas raciais nas universidades.
Com
certeza esses novos dispositivos legais têm condições de abrir o caminho tão
desejado para produzir as transformações necessárias à sociedade brasileira
que, por tanto tempo, negou o direito à cidadania plena aos negros, os escravos
de antes que eram destinados somente aos trabalhos braçais na construção do país
que, ao final, recusou-lhes a plena cidadania. Assim foram mantidos até
recentemente, nos mais baixos níveis da escala social, sem instrução e sem
empregos qualificados. Grande dívida social!
3- Os
Salles e o trabalho escravo nas fazendas e na cidade
Manoel
da Costa Valle, pentavô e patriarca da família, chegou a Lavras em 1750, justo
quando se esgotou o ouro das lavras faisqueiras de beira de riachos. O declínio
das atividades de mineração provocou profundas mudanças na economia da recém-criada
Capitania das Minas Gerais, que se separou de São Paulo em 1720. Nosso
ancestral, optou pela exploração agropastoril às margens do Rio Grande. As
condições geográficas e as terras férteis e virgens eram propícias ao
desenvolvimento da produção agropecuária. Outro fator que contribuía para o
sucesso do empreendimento de produção agrícola era a proximidade das terras da
fazenda com o estreitamento do Rio Grande, a chamada garganta do funil. Seus
cem metros de largura se estreitavam para apenas vinte, formando uma garganta
rochosa que facilitava a construção de ponte capaz de suportar carroças e
animais. Para lá convergiam os viajantes que precisavam atravessar suas tropas de
comboios que rumavam para o norte e centro-oeste. Assim, a vila das Lavras do
Funil, ou “arraial dos Bueno” se constituía em cruzamento natural das rotas da
estrada real. Por isso, se tornou importante produtora agropecuária para o abastecimento
do comercio de tropeiros que ali, obrigatoriamente faziam seu ponto de pouso
para descanso, alimentação da tropa de burros cargueiros e compra de víveres
para a longa jornada seguinte, de retorno à corte do Rio ou em sentido oposto,
em direção às províncias de Goiás e Mato Grosso ou ainda às comarcas mineiras
mais ao norte. Além da construção da ponte do Funil, a região também foi dotada
de um porto para embarque de mercadorias, o Porto Alegre, onde hoje é a cidade
de Ribeirão Vermelho. Ali havia também modernas embarcações para passageiros, barcos
a vapor, iguais aos do Rio Mississipi, nos E.U. A, de onde, aliás foram
importados. Esse porto, veio a ser mais tarde (1890) o principal ponto
comercial da navegação do Rio Grande. O porto se integrava à rede ferroviária
da EFOM, cuja estação de Ribeirão Vermelho foi inaugurada em 1888.
Por
conta dessa efervescência nas rotas do ouro dos caminhos reais, a população da
comarca do Rio das Mortes saltou de 49.485 em 1767, para 209.664, em 1821,
sendo respectivamente 26.891 e 71.147 escravos (22).
O arraial de Sant´Anna das Lavras do Funil já contava com 1.000 habitantes no
ano de 1760. Pouco mais de cinquenta anos depois, em 1813, o arraial foi
elevado à categoria de Freguesia e desmembrado de Carrancas e a população
registrada contava 10.612 almas. A imensa população da Comarca do Rio das
Mortes demandava considerável volume de produção de alimentos,
acrescentando-se, ainda o crescente comércio de venda de alimentos de
subsistência aos tropeiros a caminho do interior
___________
(22) - Castro, B.M. – Forjando Liberdades na
Encruzilhada da Escravidão: as alforrias cartoriais do termo de São João del
Rei (c.1830 – c.1860). Curitiba: CRV 2021, pág. 32-33
da colônia. Havia também os comerciantes que buscavam
produtos para outras praças, especialmente para a corte do Rio de Janeiro, de
onde também traziam sal, produtos manufaturados importados da Inglaterra e
especiarias. Não foi à toa que Manoel da Costa Valle escolheu a região de
Lavras para fincar raízes e estabelecer seu próspero negócio de produção
agropecuária. Aliás, outra eminente figura teve os mesmos motivos para se
instalar em Lavras, o missionário norte-americano Samuel Rhea Gammon, em 1892, quase
um século e meio depois de Manoel da
Costa Valle. O Dr Gammon também enxergou potencial na região devido a sua
estratégica posição geográfica que facilitaria o desenvolvimento. Foi assim que
instalou em Lavras uma Escola Internacional, transferida de Campinas e que se
transformou numa das melhores universidades do país, a UFLA. Da mesma forma e
quase simultaneamente, empresários da E.F.O. M- Estrada de Ferro Oeste de
Minas, compraram em 1892 a Fazenda do Engenho, localizada onde se situa a
cidade de Ribeirão Vermelho e que pertencia aos avós paternos deste autor. Ali
instalaram, em 1895, o complexo ferroviário com a estação, rotunda e ponte
metálica sobre o Rio Grande com ramal ferroviário estendido até a sede da
cidade de Lavras. Como se vê, o pentavô das famílias Salles, Pádua e Costa, não
foi o único a antever o potencial daquele ponto estratégico da região de
Lavras. O patriarca pioneiro acertou em seus prognósticos, pois a população
cresceu vertiginosamente e a demanda por alimentos aumentou, como de fato se
comprovou ao longo do tempo.
Por conta desse progresso havia necessidade de
elevada quantidade de mão de obra para tocar as lavouras e os rebanhos de gado
de leite e corte, suínos e até mesmo ovinos para produção de lã. A mão de obra,
como não poderia ser diferente naqueles tempos, era quase que exclusivamente escrava,
fosse na mineração do ouro ou na produção agropastoril. Lavras, se não teve tanto ouro como se esperava,
tanto que até a batizaram com um nome referente à mineração, foi privilegiada
geograficamente e também pela fertilidade do solo e abundância de água. Ponto ideal
para a logística das viagens exploratórias dos séculos XVIII e XIX havia na
comarca do Rio das Mortes e em especial no Termo da Vila de São João Del Rei,
intenso comercio de grãos, couros, tecidos grosseiros de algodão (tradição
também em Lavras até os anos de 1950/60).
Na fazenda dos pais e avós do autor havia rebanhos de ovelhas para
produção de lã e pequenas plantações de algodão (23).
Também eram produzidos nas fazendas de Lavras, com destinação ao comercio
tropeiro, a banha de porco, toucinho
defumado, farinhas, queijos, açúcar, carne de sol, reses e suínos para abate.
Nos
anos oitocentos, a cidade de São João Del Rei drenava grande parte da produção
agropastoril e funcionava como centro creditício para os fazendeiros promovendo
financiamentos para a produção e comercialização. Assim, com a crescente
produção agrícola, puderam realocar a força de trabalho dos escravos já ociosos
sem o ouro para garimpar. Por outro lado, as cidades oitocentistas ainda
carregavam o estilo português, já
_____________
(23)
Silva, Paulo Roberto. Preciosidades de Minas: o Algodão, ovelhas, fruticultura e o papel da mulher na lida do campo, nos séculos XIX e XX, na região de Lavras. http://contosdaslavras.blogspot.com/2019/03/o-algodao-as-ovelhas-de-producao-de-la.html O autor, ainda criança, participou
nos anos de 1950 de mutirões de preparação da lã, para a fiação nas fazendas da
família. Os novelos de lã, depois de tingidos eram enviados para as tecelagens
artesanais localizadas no distrito de Rosário, entre Lavas e S.J.D. Rei.
comentado
anteriormente, ou seja, para a maioria dos habitantes da comarca, a cidade
representava apenas o ponto de encontro nos finais de semana ou em dias de
festa. Quase todos moravam nas fazendas e os poucos moradores urbanos tinham
suas chácaras na cidade com enormes quintais onde produziam alguns alimentos,
especialmente a criação de galinhas. Era comum até mesmo a engorda de suíno para consumo
próprio, costume esse que perdurou até os anos de 1960/70. Quando Manoel da Costa Vale chegou às Lavras por volta de 1750, a
virada do perfil econômico já havia acontecido e logo iniciou as atividades agrícolas.
Não havia, ainda, naquele século XVIII nenhum
tipo de mecanização nas atividades agrícolas e tudo era feito por mão de
obra escrava e a importação de negros foi bastante elevada, principalmente em
Minas Gerais no período 1750/1850.
Nossos antepassados não fugiram à regra do país escravocrata. Nas grandes
fazendas era comum haver mais de trinta escravos. Estudos em inventários de 103
fazendas sanjoanenses, revelaram que mais da metade, 54 fazendas tinham mais de
30 escravos. Basta dizer que o café, produto que demanda grande quantidade de
braços para seu cultivo, exportou no ano de 1800 apenas 150 quilos produzidos
na província de Minas Gerais e representava apenas 1 ou 2% das exportações até
1830, saltou para 45% nos anos seguintes, dobrando em relação ao açúcar em
declínio. O café foi, portanto na segunda metade do século XIX, a salvação dos
fazendeiros, pois as exportações de
açúcar, algodão e tabaco haviam caído vertiginosamente. Manoel da Costa Valle e mais tarde seus
descendentes, Salles e Pádua, seguiram a mesma trilha dos fazendeiros da
região. Com terras férteis às margens do Rio Grande, tratou logo de instalar
lavouras para subsistência e pequeno engenho de produção de aguardente e
açúcar. Trouxe consigo o costume português de consumo de frutas de clima
temperado e seus deliciosos doces, como o marmelo, figo, pera, pêssego e
outras. Para completar, descobriu que a deliciosa goiaba, fruta nativa, se
prestava também à fabricação de doces e geleias em substituição ao marmelo
ainda inexistente por aqui, mas abundante em Portugal, de onde importou algumas
mudas de marmeleiro, iniciando assim a tradição dos lavrenses de sempre cultivar
essa deliciosa fruta em seus pomares domésticos para produção de geleias e
marmelada.

Manoel
da Costa Valle também cultivava em suas fazendas o fumo, que tinha grande
procura e o algodão para produção de fibras para tecidos. A criação de ovelhas
também era outra tradição portuguesa, para produção de lã e confecção de
colchas que aqueciam no rigoroso inverno montanhês do sul de Minas. O Rio
Grande, piscoso por natureza, fornecia o pescado, as curimbas, piracanjubas e
dourados em abundância. Em 2016 visitamos as fazendas do Meio e do Açude,
propriedade dos Salles e posteriormente transformada em pousada e lá ainda
encontramos os pequenos açudes e tanques, de água corrente e límpida, que
serviam para a colocação dos peixes recém-pescados no rio e usados para a
alimentação e venda aos viajantes de acordo com a demanda. Some-se a tudo isso, ainda,
a criação de gado, muares e principalmente de suínos, responsáveis pela
produção de banha e carnes cozidas e armazenadas em latas de 18 litros,
conservando-se por três meses, sem nenhuma refrigeração ou aditivos químicos.
Havia ainda na fazenda a produção de aguardente, açúcar e rapadura, produtos
que associados à farinha de mandioca (cultivo indígena e logo absorvido pelos
portugueses) e mais tarde o café produzido em grande escala. Assim, produzia-se
tudo que um viajante tropeiro necessitava para a longa travessia dos sertões
das gerais rumo ao interior. Evidente
que todas essas atividades das fazendas dos Salles exigiam grande número de
escravos para que se mantivesse uma escala de produção comercial.

Fala-se muito da produção de café nas
fazendas de Lavras, mas, não se pode esquecer que o fumo, um dos cultivos
tradicionais entre o Salles, também ocupou considerável espaço. Seu cultivo exigia
muita mão de obra e era um produto de consumo muito difundido entre a população
das fazendas e das vilas. Ainda hoje, no século XXI, existem plantações de fumo
nas fazendas das colinas do rio Grande, incluindo-se a terras das fazendas
Limeira, do Meio, Barreiro, Bela Vista, Fábrica Velha e tantas outras que ainda
hoje permanecem na posse dos Salles e Pádua. No mesmo período do café também
cresceram muito as produções de milho, feijão e mandioca que eram plantados
entre as fileiras de café,
costume
trazido para Minas pelos paulistas (24). Para tantas e
intensas atividades agrícolas, os fazendeiros tinham que investir pesado na
aquisição de escravos. Saint Hilaire descreveu, em sua viagem de 1822 pelo vale
do Paraíba, que os fazendeiros gastavam todas as suas rendas na compra de
escravos e estes se dividiam em trabalhadores da lavoura, condução de carros de
bois, tropas de burros, cuidados com o gado de leite, aves e porcos para
produção de banha, carne e toucinho. A produção desses alimentos básicos,
utilizados na subsistência e venda aos tropeiros viajantes, era bastante
intensa em Lavras, pois ali era ponto de parada obrigatória para descanso e
reabastecimento da tropa.
Não
eram muitos os escravos da família Salles, embora ocupassem grande faixa de
terras ao longo de ambas as margens do Rio Grande e depois subdivididas em
várias fazendas, conforme registrou o historiador Marcio Salviano Vilela (25). Sobre
a relação numérica de escravos dos Salles ainda não foi possível encontrar
dados que cubram todo o período desde a chegada à Lavras de Manoel da Costa
Valle, nem mesmo nos poucos testamentos deixados a herdeiros. Mas, pelos
relatos de parentes nascidos entre 1895 e 1920 e a presença dos descendentes
dos escravos nas fazendas dos Salles, não restam dúvidas que a quantidade deles
foi limitada. Em 2016 o autor entrevistou o mais longevo membro da família
Salles, Fortunato Pereira Sales Filho (1920-2019),
conhecido por Nanato, tendo falecido aos 99 anos de idade. Era filho de Fortunato
Pereira de Salles e neto de Domingos
Pereira de Salles (1850-1929) e Lucinda Maria de Jesus Salles. Nasceu na
Fazenda do Meio, de propriedade de seu avô, onde passava temporadas e viveu a
maior parte de sua vida na fazenda Três Barras, onde constituiu família.
Relatou ter convivido com filhos de escravos, com os quais brincava e pescava
no Rio Grande.

Nanato - Fortunato Pereira Salles Filho,
aos 96 anos, com o autor e Anizio Pereira da Silva. Nascido em 1920, conviveu
com filhos de escravos na fazenda do Meio e depois nas Três Barras, onde se radicou.
Memória viva, lúcida, contou-nos diversas passagens de sua vida na companhia de
descendentes
de escravos que com ele trabalhavam nas
fazendas.
Foto do autor - 2016,
Lavras,
Segundo
Nanato, existiam vários descendentes de escravos na fazenda de seu pai e outros
parentes, na região de Ribeirão Vermelho e Perdões, principalmente nas fazendas
do Meio, Açude, Limeira e Barreiro. Alguns desses descendentes de escravos se
mudaram para a região das Três Barras, onde já moravam alguns Salles. Ele próprio
levou um deles para a sua propriedade rural. Confirmou que os descendentes de escravos tinham
habilidades
_________
(24)
Del Priori. Mary. Histórias da gente
brasileira: volume 2: Império. São Paulo: LeYa, 2016. 520p. pp58-
83
(25)
Vilela, Marcio Salviano. Minha Aldeia, a pérola do Rio Grande. Indi-
Editora, Lavras 2014. 736p.
específicas,
uns eram carreiros, outros balaieiros, carpinteiros, ferreiros e vaqueiros mas,
a maioria trabalhava nas lavouras de milho, arroz, feijão, café, algodão e fumo
cuja produção era tradição entre os Salles. O fumo era comercializado para
outras cidades do sul de Minas, de onde vinham os compradores, especialmente de
Itanhandu. As produções de algodão e lã de carneiro eram usadas para a
tecelagem de colchas. Além dos Salles, todas as fazendas das regiões das Três
Barras, Fábrica Velha, Criminoso, Cervo , Ribeirãozinho tinham camaradas
descendentes diretos de escravos, informou Nanato. Na fazenda das Três Barras,
de Amanda Custódia de Abreu (Samanda), avó paterna deste autor, havia também
alguns descendentes diretos de escravos, já citados, conhecidos de Nanato e com
os quais também convivemos.
4- Os anos de 1950/60 e as influências da escravidão em Lavras
A
escravidão em Lavras teve acontecimentos marcantes como as revoltas descritas anteriormente.
No entanto, predominaram as características próprias do lugar, com fazendas de
médio porte, com até dez escravos na propriedade onde moravam os próprios
fazendeiros e suas famílias. Castigos e torturas para escravos revoltosos eram acontecimentos
mais comuns nas efervescentes capitais de províncias como Ouro Preto, ou mesmo
São João Del Rei, cabeça de comarca. Embora tivesse havido um pelourinho em
Lavras, seu uso não era frequente, a julgar pela escassez de registros. Há que
lembrar que as torturas de escravos eram mais comuns em grandes fazendas, cujos
senhores moravam fora e deixavam os escravos, em grande número, sob o comando
de feitores, verdadeiros carrascos que exigiam esforço desmedido dos cativos. Nada
mais natural do que desejar e buscar a liberdade, livrando-se do jugo da
escravidão e seus cruéis castigos. Mas, a maioria das fazendas de Lavras, pelo
menos

Pelourinho- Negro no tronco.
Castigo publico com açoites.
Foto:
Biblioteca Publica de N. York. Gravura de Debret, em Viagem pitoresca e
histórica ao Brasil- 1834.
a partir da
segunda metade do século XIX, era de tamanho médio com menos se dez escravos e
diretamente administrados pelos próprios donos que não tinham interesse em
criar conflitos com seus cativos. Assim, os relacionamentos com os negros eram pacíficos,
em sua grande maioria, criando-se até mesmo laços afetivos. Convidavam seus
senhores para apadrinhar filhos e frequentavam os cultos religiosos na fazenda
ou na cidade e tudo isso como forma de agradar ao poderoso senhor das terras e
de seu destino. Também promoviam festas como a congada, folia de reis, festa do
Divino Espírito Santo e outras do calendário religioso, sempre buscando agradar
e se aproximar socialmente dos fazendeiros, seus senhores absolutos. Na família
Salles, já na primeira metade do século XX, havia grande integração dos homens
em atividades esportivas com pelo menos dois times de futebol registrados e que
disputavam campeonatos regionais. Outra forma de aproximação social dos
escravos era manter a esposa

ou filhas
trabalhando na cozinha da casa grande. Assim, criavam-se vínculos afetivos com
toda a família do fazendeiro. Além disso, os costumes negros trazidos de
diferentes regiões da África tiveram influências no idioma e na culinária dos
brasileiros. Um exemplo típico é o modo
de falar dos mineiros do sul de Minas, colocando o diminutivo de forma
carinhosa em quase tudo – um pouquinho, carrinho, pedacinho, comidinha,
cafezinho e assim por diante. Essa foi uma das marcas da influência das amas
secas que cuidavam da filharada da Casa Grande, pois no Brasil colonial a
sociedade era rural e patriarcal com grande miscigenação, o que não ocorria em
outros países. Aqui, os colonizadores chegaram solteiros, sem a família na
maioria das vezes em busca da riqueza do ouro. Seguindo a tradição das fazendas, este autor conviveu, quando
menino, com camaradas (empregados rurais) descendentes de negros e italianos
que labutavam no eito ou na casa grande. Nesta estavam as amas de leite,
cuidadoras de crianças e as encarregadas dos cuidados domésticos. No retiro
(assim era chamado o curral de gado leiteiro) estava o negro Abílio que também levava
o leite em latões na tropa de burros até a fabrica de laticínios da fazenda
Criminoso. Os vaqueiros Maé e Paixão, negro alto, forte, de porte atlético, com
enorme chapéu de palha e laço de couro trançado, pronto para laçar o animal que
lhe fosse pedido, incluindo as ovelhas na época da tosquia, quando os meninos
adoravam pegar no colo os cordeirinhos de lã macia e sedosa, enquanto a
ovelha-mãe era tosquiada. Havia, ainda, em nossa fazenda, o folclórico negro,
Lázaro Simão, de uns 40 anos, calvo, o melhor e mais requisitado
balaieiro/cesteiro da região. Era capaz de tecer com taquaras de bambu os mais
diversos tipos de cestos. Teceu um grande cesto, com formato de barco, chamado
de rede de balanço. Dependurada no madeiramento da cozinha, a criança ficava na
rede sob os cuidados da cozinheira.

Havia
também, entre os negros outro camarada, de origem italiana, Vitor Amaro. Olhos
azuis e pele muito clara, que o obrigava a usar um enorme chapéu de palha. Era
o carreiro, que cuidava dos bois de carro e os conduzia com maestria, bastando
apenas chamar, com vozeirão de barítono, o nome de cada boi e o mesmo o
obedecia fielmente. Nunca maltratava nenhum deles, nem mesmo nas dificuldades
de atoleiros ou íngremes subidas dos morros daquelas serras à beira do Rio Grande. Ao contrário, sempre os
agradava com uma espiga de milho ou sal que os animais tanto gostam. Seus
gritos no comando da boiada, o tintilar da vara de ferrão bem na cara do boi,
mas sem no entanto esbarrar no animal, o cantar do carro cheio de milho ou café
recém-colhido, eram música e alegria para os meninos aboletados no alto da
carga do carro de boi a descer e subir os morros à beira do Rio Grande ou das
cachoeiras do ribeirão Água Limpa.
Na
fazenda Jacuba, pertencente à nossa família e situada às margens do Rio Grande,
na divisa com a fazenda Maria Jerônima de Naná Pádua, herdeira do Sr Tonico de
Pádua e bem próximo à cidade de Ribeirão Vermelho, trabalhava outro negro. Personalidade
marcante, o Sr Benedito, alto, forte e também dono de vozeirão, sempre nos
recebia com muita cordialidade e às vezes, com ele e sua família almoçávamos
depois de hora e meia de cavalgada pelas estradas íngremes que cortavam as
fazendas da Serra de Iraci Salles e da Cachoeira de Tonico de Pádua. Sr
Benedito tinha gosto especial pelo feijão preto, costume dos cariocas que ele
conservava. Por ser um feijão de sabor mais acentuado, os meninos não gostavam
muito, mas sempre havia alguém a dizer-lhes que aquele feijão era especial e
fazia engrossar a voz, tal qual a do Sr Benedito. Nas demais fazendas da família
havia outros negros como o retireiro (aquele que cuida das vacas leiteiras) Tião
Gaudêncio, Antônio carreiro, Euclides, Calixto, Vitão, que era um bom jogador
do time Três Barras Futebol Club cujo “diretor” era o nosso avô, Anísio Gaspar,
casado com uma Salles. Era o proprietário da fazenda, do campo de futebol e do
apito do jogo, quando ele mesmo não estava jogando no ataque de seu time. Pelo lado feminino, havia
a Tódia (Nelzira Afonso Gaudêncio), Fia e a famosa Sá Benedita e sua neta Maria
e o irmão menor, Rogério, que chegou a ser adotado por uns tempos em nossa
casa.

Na
cidade, além das que trabalhavam na casa, havia sempre a companhia de dona
Elzira, vizinha e madrinha de mais de uma centena de afilhados e que tratava a
todos com extrema doçura como se filhos fossem. Aliás, educou todos os filhos
até a faculdade, tornando-os profissionais liberais, professores e até oficiais
das Forças Armadas. Uma de suas filhas alfabetizou o próprio pai que era
militar. Isto sem contar os inúmeros negros da cidade com os quais nos relacionávamos,
como famoso açougueiro Tote e
seu irmão, Grilo, motorista do ônibus- lotação urbano. Mas, a fazenda era o nosso espaço, onde as crianças
passavam os meses de férias com os netos de escravos, alguns um pouco mais
velhos como as pajens e adultos que estavam sempre ao nosso redor, formando uma
imensa família, de puro amor e respeito recíproco, como era exigido pela
matriarca da família.
De
certa forma todas essas pessoas nos marcaram e deixaram um legado de amor que
ainda hoje, setenta anos depois, os lembramos com carinho. Interessante que até
mesmo aquela negra que assustava as crianças, Sá Benedita, está entre as
reminiscências da infância e hoje vemos o caso com outra lente. Como era
inadequado o tratamento que se dispensava às crianças. Havia sempre o falso
“terror”, incentivado pelos parentes como modo de se “educar” as crianças artesoas.
Bastava falar que iriam contar tal traquinice à velha Benedita para os meninos
se aquietarem, tal era o medo que causava em todos. Tinhas olhos embaçados e um
único dente incisivo à mostra e ela gostava de exercitar esse “poder” sobre os
pirralhos, “menino custoso”, como era
chamado em Lavras. Havia sempre a promessa de que “o homem doido” ou Sô Juvenal
iriam colocá-los num saco, sequestrá-los e levar para bem longe (crueldade...
para com os miúdos). Aliás, encontramos a origem dessa lenda do “homem do saco”
que sequestra criancinhas. Laurentino Gomes conta que a história é verdadeira,
registrada na autobiografia de um escravo nigeriano, Olaudah Equiano, alforriado
nos E.U.A. O ex-escravo relata em seu livro (26)
que “havia a prática indiscriminada de sequestrar e escravizar pessoas em toda
a região onde morava. Os traficantes levavam consigo grandes sacos, usados para
imobilizar os sequestrados, especialmente crianças e adolescentes”. Ele próprio,
com apenas dez anos de idade, foi vítima desse tipo de sequestro quando estava
sozinho em casa, com os irmãos, enquanto os pais trabalhavam fora. Foi levado
para a Inglaterra
e ali, em 1776, comprou sua liberdade e passou a lutar pela abolição da
escravatura e término de comercio escravo. Ora, tivessem nossos pais ou
professoras do curso primário, conhecido a origem dessa história do terrível
homem do saco que sequestra crianças na rua..., este autor e demais meninos dos
anos de 1950 não teriam tido tanto medo dos juvenais, beneditas e tantos outros
nome que circulavam em Lavras como seguidores daquele costume de 200 anos antes
na distante Nigéria, colônia dos ingleses na África.

O menino Olaudah
Equiano e sua história. Sequestrado aos 10 anos foi metido num saco e levado ao
capitão do navio inglês. Transformado em escravo conseguiu a alforria em 1776 e
tornou-se ativista na causa da abolição da escravidão na Inglaterra. Foto: internet
Certamente
os escravos que viviam em Lavras tiveram amigos e parentes que passaram por
situação semelhante, ou conheciam a história do sequestro de Olaudah Equiano,
de triste memória. Histórias de sequestros de crianças, tristes e verdadeiras,
mas que transpostas no tempo e no espaço serviam como “fakes” para amedrontar as crianças artiosas que as próprias amas
ou pajens negras cuidavam. Lavras era cheia dessas histórias contadas por
escravos e repetidas pelas mães aos meninos travessos, como o autor que era
chamado de “menino custoso”. Infância recheada de influências dos negros
ex-escravos e seus descendentes que representavam a metade da população da
cidade
_____________
(26)
Olaudah Equiano. The interesting
Narrative and other writings pp 37 e 47. In:
Gomes, Laurentino. 2019 op cit., p.
163
A
convivência em meio à família com os negros, durante toda a infância e
juventude, foi apenas uma das características marcantes nas Lavras da segunda
metade do século passado. Os meninos negros eram companheiros de caçadas,
pescarias, “peladas” de futebol, seguidas de mergulhos no ribeirão e lagoas às
margens do Rio Grande e tudo mais que se podia fazer com plena liberdade na
imensidão dos espaços das fazendas e da chácara na cidade. Já os adultos
estavam sempre solícitos a qualquer pedido dos garotos como apanhar frutas,
arrear os cavalos e acompanhar na natação nas enchentes dos ribeirões, com
jangadas improvisadas com os pseudocaules das bananeiras ou mesmo nas
cavalgadas pelos campos, serras e margens do Rio Grande onde, mais tarde,
promovíamos caçadas com as espingardas cartucheiras. Das mulheres negras
restaram as lembranças das amas, amigas, contadoras de histórias e que estavam
sempre prontas a cuidar da meninada com muito amor e carinho além de preparar
quitutes, arrumar nossas bagunças e cuidar dos demais afazeres do lar. Todos
eram mesmo considerados pessoas da família, tratadas com respeito e
compartilhavam tudo em igualdade com todos da família. Tanto assim que seus
casamentos eram realizados em nossas casas e seus filhos continuaram esse
relacionamento familiar.
Além
das doces memórias das traquinices e dos carinhos recebidos dos negros e negras
nos tempos de infância e juventude, mais tarde surgiram outros garotos negros
como Antônio Augusto, colega do 4º ano do Grupo Escolar Padre Dehon e que certa
vez presenteou-nos com um belíssimo e desconhecido fruto, o caju, bem vermelho,
de cheiro inebriante, saboroso e raro no sul de Minas. Ainda hoje quando saboreamos
aquela fruta, a imagem e o forte aroma experimentado há tanto tempo vêm à mente
a memória daquele negrinho amigo, comunicativo, alegre e esperto nas corridas. Era
imbatível no ”pique”. Ninguém o pegava nessas brincadeiras e por isso ganhou o
apelido de “mosquito elétrico”. Logo em seguida, em 1957, emigrou com seus pais
adotivos para o norte do Paraná onde se estabeleceram no mesmo ramo da produção
agrícola e de gado de leite. Ali, segundo alguns Salles que também imigraram
para lá, dispensou todos os cuidados a seus pais adotivos quando eles mais
precisaram e sempre gozou do carinho e respeito de toda a família e amigos.
Toninho Resende. O doce e alegre menino dos anos de 1950 faleceu recentemente
no Paraná, onde sempre morou com os Resende.
Mas,
o relacionamento com os amiguinhos negros não foi apenas de alegrias. Histórias
tristes também aconteceram. Um pouco mais tarde, já no colégio, perdemos dois
de três colegas negros que tiveram que
interromper os estudos para trabalhar e ajudar no sustento dos irmãos, conforme
descrito mais adiante. Porém, pode-se afirmar, com segurança que a convivência
entre filhos de fazendeiros de toda a região de Lavras e os camaradas das
fazendas, negros ou não, foi muito pacífica, embora nem sempre as condições de
trabalho tivessem sido as melhores naquela metade do século XX. Da mesma forma,
o acesso à educação foi muito dificultado pela carência generalizada de escolas
rurais. Nas diversas fazendas dos Salles/Pádua, na região das Três Barras,
Queixada, Cajuru do Cervo, Lagoinha, Boa Vista, Criminoso (27) e
Fábrica Velha, havia pelo menos uma escola primária em cada local. Embora
____________
(27) O historiador Nemeth-Torres, do
Instituto Histórico e Geográfico de Lavras – IHGL, publicou a ata de
inauguração da capela da Fazenda Criminoso, ocorrida em 1933, então pertencente
à família Salles. Ali funcionou, desde a inauguração da capela, uma escola
primária, vinculada à rede municipal ensino. In: https://www.facebook.com/groups/1630561507216102
faltassem condições,
com grandes dificuldades próprias da época como a inexistência de professoras, e
muitas eram leigas e quase sempre as mesmas abnegadas mulheres da família
Salles, ainda assim alguns fazendeiros se esforçaram para manter o ensino regular
em suas fazendas. Embora precárias e geralmente com professoras leigas, essas
escolas eram supervisionadas pela municipalidade e nelas todas as crianças eram
atendidas, filhos de proprietários de terras ou de simples trabalhadores
rurais. Mas, ainda assim, a realidade para
Capela N.S.do Perpétuo Socorro, inaugurada em 1933
na Fazenda Criminoso, então propriedade de Anísio Alves de Abreu e Lucinda
Augusta Salles. No seu interior funcionava a escola primária . Foto do autor - 2013
os negros foi mais
dura, pois não puderam prosseguir os estudos na cidade. A consequência foi que
anos mais tarde nenhum daqueles meninos negros
da década de 1950 ocupou cargos na administração pública ou na iniciativa
privada (grifo nosso). Nunca tivemos em Brasília, com mais de vinte mil cargos
de assessoria, um único chefe negro. Nem mesmo algum professor que fosse negro.
Constatou-se o óbvio nas recentes pesquisas do MEC, confirmando a situação
educacional dos negros. Viveram o drama de ficar para trás e pior, inchando as
periferias pobres de nossas cidades, padecendo dos males do desemprego, das
drogas, prostituição, da marginalidade e tudo mais de ruim que possa existir
quando se falta a dignidade do trabalho remunerado. Por isso, conhecendo essa
realidade por meio a convivência com os negros nas fazendas, na cidade e nas
escolas, nos dedicamos com afinco na defesa, no MEC e no Palácio do Planalto, a
criação das cotas educacionais como política de inserção dos negros. Temos uma enorme
dívida social para com os descendentes
negros e aqueles que sempre conviveram com eles, fraternalmente, compreendem
melhor o alcance social dessas medidas sociais, ainda que paliativas.
Assim,
em meio à família Salles, vivemos e convivemos com os camaradas das fazendas, ainda
“meio-escravos” no século 20, pois até os anos de 1950 não havia salário para
trabalhador rural. Permanecia o velho sistema das fazendas do sul de Minas,
onde o empregado, chamado de “camarada”, morava numa pequena casa, sem água
encanada e tampouco energia elétrica, facilidades inexistentes, aliás, até
mesmo nas sedes das fazendas de café e gado de leite. Trabalhavam até o meio
dia para o patrão no regime de plantio à meia.
Recebiam a terra preparada, arada e gradeada, sementes e adubos. O
camarada cuidava da capina e da colheita e a produção era dividida igualmente
com o patrão. Ao redor de sua casinha ele mantinha pequenas plantações, criação
de galinhas e um ou dois porquinhos de engorda que lhe produziam carne, o
toucinho e banha para a cozinha. Escola para os filhos quase não existiam e
assim muitos cresceram analfabetos, mas, lamentável e dolorosamente estavam prontos
para o trabalho na enxada aos 12 anos de idade. Infelizmente esse era o costume
nas fazendas da região de Lavras, até os anos de 1950/60 e os meninos
analfabetos assim permaneciam pelo resto de suas vidas. Dura realidade para as
crianças, filhos de negros nas fazendas do Brasil colonial escravocrata e cujos
costumes e efeitos ainda se estenderam por quase todo o século XX.
Havia
na fazenda muitos outros negros e até italianos, brancos, de
olhos azuis, como as famílias Nicola, Amaro
e Magliano (Mariano, para nós). Pelo
lado feminino as negras Marieta, Tódia, Fia, e a famosa Sá Benedita e sua neta
Maria do Gaspar, nos deixaram as lembranças de amas, amigas, contadoras de
histórias e que estavam sempre prontas a cuidar da meninada com muito amor e
carinho, além de preparar quitutes, arrumar as bagunças e demais afazeres do
lar. Todos, homens e mulheres, eram mesmo considerados pessoas da família,
verdadeiros agregados que compartilhavam tudo em igualdade. Tanto assim que
seus casamentos eram realizados em nossas casas e seus filhos continuaram esse
relacionamento familiar de compadrio. Todas permaneceram agregadas à família até se
casarem e a ultima, até sua morte, no ano de 2020, aos 75 anos de idade e
cercada de atenção e carinho pela família Salles que a adotara desde criança.
As famílias sanguíneas dos agregados tinham também fortes vínculos com os
Salles. Frequentemente os visitavam e anualmente, também íamos às festas juninas
em suas humildes casas, geralmente situadas em fazendas vizinhas. Nunca ouvimos
de nossos pais e avós notícia alguma sobre violência com negros nas fazendas, o
que demonstra que o sistema escravocrata de antes da abolição e principalmente
após a Lei Áurea, foi mais brando no quesito violência. Em Lavras, podemos
afirmar que os descendentes dos escravos criaram vínculos de amizade e respeito
mútuos, na cidade e no campo, até porque eram poucos numericamente em cada
fazenda. Uma senhora negra, de extrema empatia e que era vizinha na cidade,
Dona Elzira, se gabava naqueles anos de 1950, que tinha mais de cento e vinte
afilhados e os padrinhos de seus próprios filhos eram cidadãos de prestígio, como
o Dr Lourenço Menicucci, Francisco Dessimoni e outros, demonstrando o grau de
proximidade e o orgulho da amizade entre negros e brancos na cidade de Lavras.
Mais
tarde, convivemos com outros negros, o garoto Rogério da Benedita, adotado por
nossa família e na escola primária com Antônio Augusto Resende. Para encerrar a
seleção parcial de nomes que marcaram nossas vidas, avançamos para a década de
1990. Em Brasília aconteceu um fato marcante na convivência com os negros. Acolhemos
o garoto Edson, de apenas dez anos, despachado de Luanda, capital de Angola,
por ordem judicial. Por coincidência, do mesmo país que mais forneceu escravos
para Lavras e toda Minas Gerais, conforme descrito no prefácio deste artigo.
Desta vez, diferentemente, como dito antes, o menino não foi sequestrado e nem
colocado em saco e entregue ao comandante do navio negreiro. Viajou com todo
conforto aos cuidados do comandante da luxuosa e enorme aeronave Airbus 330.
Ali estava mais uma oportunidade para sanar um pouco os erros do passado. Tinha
forte sotaque angolano, inibido, vestia roupas surradas e trazia apenas uma
sacolinha de papelão contendo quase nada. Efetivamente, todo apoio lhe foi dado,
mereceu toda a atenção de nossa família, professoras e vizinhos que dele se
compadeceram. Difícil foi conter a emoção, ainda mais quando contou que passava
fome e dormia em cima de árvores para fugir das minas enterradas pelo chão das
ruas descalças da periferia de Luanda.
Ainda
em Brasília tivemos contato e convivência com outros negros. O velho Carioca,
remanescente do Quilombo do Mesquita, na divisa do Distrito Federal com Goiás,
foi quem cuidou dos plantios de fruteiras da chácara recém-adquirida, em 1981.
Mais tarde visitei o Quilombo do Mesquita, onde os costumes negros eram os
mesmos de Lavras. Aliás, situado próximo aos municípios de Luziânia e Cristalina, terra das
minerações de ouro desde os anos de 1763, quando os bandeirantes paulistas
partiam do funil do Rio Grande, pela picada de Goiás iniciada pelos Buenos de
Lavras, a concentração de escravos tinha as mesmas características da região do
arraial de Sant`Anna das Lavras do Funil, onde já estava o patriarca dos Salles
com seus negócios a abastecer os viajantes e tropeiros que pegavam a picada
pata Goiás. Em 2016 este autor participou da Festa do Marmelo no Quilombo do
Mesquita (28)
e se sentiu em casa com os costumes dos negros, os mesmos praticados em Lavras.
O cultivo do marmelo naquele quilombo foi um costume que os portugueses também
deixaram aqui, tal qual em Lavras e todo o sul de Minas.

Fotos do autor – fazendo doce de marmelo com o orgulhoso quilombola. na Festa do Marmelo - Quilombo Mesquita, Luziânia-Go, 216
Finalizando o breve histórico sobre a
vida dos negros nas fazendas de Lavras e região, pode-se dizer que os casos
violentos de Carrancas e de Francisco Congo, foram exceções. A conduta dos
mineiros, pequenos e médios fazendeiros, em relação a seus escravos sempre foi
pacífica, pois eram bem integrados ao estilo de compadrio e se acercavam da
casa grande, com trabalhos e festas. Isto, no entanto, não descaracteriza a
violência da escravidão em si. Definitivamente, a escravidão no Brasil deixou
marcas indeléveis, tanto nos descendentes dos negros escravizados como em nós
que com eles convivemos nas fazendas e nas cidades. Os negros tiveram menos oportunidades na
educação e no trabalho e isso não foi diferente em Lavras, como se viu pelos
relatos apresentados. Desde o início da abolição em 1888, os negros lutaram em desigualdade
e mal se mantinham, subsistiam. A partir
de então, a.
________________
(28) https://contosdaslavras.blogspot.com/search?q=quilombo+do+mesquita
sociedade brasileira
reafirmou a sua hierarquização em classes que perpetuou os negros nos extratos
subalternos e o racismo passou a ser velado e, por isso, mais difícil de ser
combatido.
4.1- As favelas na cidade de Lavras, 1888 -
1968
Na segunda metade do século XIX os levantes de
escravos se alastravam por todo o Império e o governo já não suportava mais as
pressões externas e internas para por fim ao absurdo da escravidão. Assim, no domingo
de 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, libertando os
escravos. Porém, sem nenhum amparo aos libertos, os negros se viram abandonados
na estrada. Sem apoio algum, muitos permaneceram junto aos seus senhores, quase
na mesma condição de escravo, enquanto outros perambulavam pelos caminhos em
direção às cidades, vez que eram escorraçados das fazendas por onde passavam em
busca de comida e trabalho. Começou aí, com maior intensidade, o processo de
favelização das periferias das cidades. Foi assim também em Lavras. Os
ex-escravos tinham apenas duas opções, continuar nas fazendas ou ir para a
periferia das cidades. Grande parte foi para a cidade e os das fazendas
continuavam sem salários dignos, trabalhando expediente corrido, de seis da
manhã até o meio dia para o patrão e depois cuidando de plantar sua roça de
milho, feijão ou outra, no regime de “meia”. Esse sistema perdurou até a
chegada da “Reforma Agrária” de 1964, quando então os trabalhadores rurais foram
expulsos de vez das fazendas e mais uma vez, 76 anos depois da abolição da
escravidão, migraram para a periferia das cidades.
Todas
as estradas de chegada à cidade de Lavras foram tomadas pelos escravos expulsos
das fazendas, em duas ocasiões, em 1888 e 1964. Ao chegarem à cidade, onde
desembocavam as estradas, eles se acamparam definitivamente. As diversas saídas
da cidade de Lavras para as fazendas, como as ruas do Capim, Serrinha, Rosas, da
Cava, Chapada, Charquinho, do ribeirão Vermelho, da Ponte do Funil, Estação
Experimental, Aquenta Sol, do ribeirão Santa Cruz e Poço Bonito, enfim todas as
entradas da cidade foram tomadas pelas levas de retirantes expulsos das
fazendas. Alguns acampamentos foram avançando em direção ao centro da cidade,
como no caso da atual Rua Donato Bauti que era apenas uma trilha, conhecida por Rua do Fubá, uma cava de
tráfego de carros de bois e tropeiros que vinham da direção do Rosário,
Itumirim e Luminárias, passando ao lado do antigo campo de aviação e chegando
ao túnel da RMV, no final da atual Rua Otacílio Negrão. Todas essas entradas foram
ocupadas pelos negros e lá estavam, na década de 1950, quando este autor as
percorria a cavalo, em direção às fazendas. Morava ali, numa dessas precárias
casinhas, uma filha de escravos, nascida ainda nos anos de escravidão. Sá Malvina,
bastante idosa, era portadora de bócio endêmico, com protuberância na região do
pescoço, formando enorme papo que chamava atenção das crianças, e era assistida
por nossa família. O menino sempre ia levar cestas básicas com produtos vindos
da fazenda. Pôde assim, conviver e testemunhar a precariedade dos casebres, a
maioria de pau a pique, com paredes construídas com bambu trançado, amarrados
com cipó e reboco de barro misturado com estrume de gado. A cobertura com
telhas rústicas de barro, feitas pelos próprios negros nas olarias às margens
dos córregos e modeladas nas coxas (essa é a verdadeira origem da expressão
“feito nas coxas”). Aquele reboco primitivo apresentava-se com muitas
rachaduras e ali se alojava o mosquito transmissor da doença de Chagas,
conhecido por barbeiro. Assim nos ensinavam na escola e o menino ficava
impressionado com aquele perigo das casas de pau a pique à beira da estrada, a
poucos metros do túnel da estação Costa Pinto.
Ainda
no campo dos estudos das ciências agrárias e convivência com os descendentes de
escravos libertos, o autor participou, em 1967, juntamente com colegas do curso
de agronomia, de uma pesquisa domiciliar nas ruas periféricas de Lavras. Como
parte dos estudos da disciplina de Sociologia Rural, orientados pelo professor
Guaracy Vieira, fizemos o levantamento sociológico de toda uma rua, à época
conhecida por “saída para a Ponte do Funil”. Iniciamos as entrevistas
domiciliares logo acima da Estação de Lavras da RMV até o final da rua, no alto
do morro, onde hoje se situa o bairro COHAB. Situação mais que penosa dos
moradores. A maioria era de negros, sem
instrução, família numerosa, sem empregos, sobrevivendo de “bicos” em trabalhos
eventuais na cidade e nas fazendas , principalmente em época de colheita do
café. Incrível que mesmo depois de oitenta anos da abolição, já na terceira
geração, os descendentes negros, ainda enfrentavam
a mesma situação de antes, o abandono, a falta de empregos, o analfabetismo e a
ausência do poder público. Oitenta anos depois..., sim oitenta anos e a
situação pouco ou quase nada havia mudado. Ingrata escravidão que tolheu a
liberdade e discriminou os negros, relegando-os a segundo plano na sociedade
patriarcal brasileira do século XIX e quase todo o século XX, com profundos
reflexos em nossas vidas e o saldo de uma enorme dívida social.
5- A
Educação e a ascensão social dos negros em Lavras
Mas, nem só de violência viveu
a Vila das Lavras do Funil na época da escravidão, ou ainda no pós- escravidão.
A abolição se deu em 13 de maio de 1888, porém, a notícia oficial somente
chegou à cidade no dia 28 de maio, quinze dias depois, por meio de
correspondência do Palácio da
Presidência da Província de Minas Gerais, de Ouro Preto, datada de 16 de Maio
de 1888, que manda publicar e fazer cumprir a Lei nº 3.353, de 13/05/1888, em
virtude da qual foi abolida a escravidão do Império. Por outro lado, há que se lembrar de que mesmo durante a
escravidão e mais frequentemente após a abolição, muitos negros se destacaram
nas artes e ofícios na comunidade lavrense e gozavam de grande estima e consideração
de todos. Alguns passavam à condição de
agregados da família, pois tinham elevado grau de dedicação e com mútuo respeito.
Na família Salles foi assim com as amas de leite, auxiliares domésticas,
artífices de carpintaria, marcenaria, trabalhos manuais em vime e bambu
(confecção de cestos e balaios, esteiras para carros de boi) tão úteis nas
fazendas.
A influência da cultura negra nos costumes
brasileiros tem sido objeto de inúmeros trabalhos de pesquisa e tem se mostrado
muito importante em diversos setores, até mesmo na incorporação de palavras e
forma de se falar. O mineiro, por exemplo, se expressa com formas diminutivas
das palavras, o que segundo os filólogos tem origem nas amas negras, que
cuidavam das crianças dando-lhe a “comidinha, o brinquedinho...”. Na cidade de
Lavras, contam-nos os cronistas e jornalistas que muitos negros se destacaram
como líderes, ente eles o professor e jornalista José Luiz de Mesquita que
fundou jornais, criou a escola noturna e alfabetizou milhares de pessoas, além
de criar entidades filantrópicas. Foi um verdadeiro líder comunitário, tendo,
inclusive, iniciado no Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural- IPHAN, o
processo para o tombamento da nossa quase tricentenária Igreja do Rosário.
Havia também líderes negros que fundaram clubes de futebol, salões de dança e
ainda verdadeiros artistas da música que fundaram a banda Euterpe Operária.
José Luiz de Mesquita foi, segundo os historiadores Hugo de Oliveira e
Bi-Moreira, a expressão máxima da raça negra em Lavras, morreu pobre em 16 de
junho de 1967, deixando um legado de mais de cinco mil alfabetizados. Sua herma
encontra-se ao lado da Igreja do Rosário, a qual foi tombada pelo IPHAN, em
1948, por sua iniciativa.
Lamentável
foi, portanto, a proibição do acesso dos negros à educação desde o início do Império
e que perdurou por mais de cem anos. Nos anos de 1950, havia razoável número de
negros no curso fundamental, gratuito. Entretanto, à medida que as séries
escolares avançavam, escasseavam-se os negros nos bancos escolares. No curso
ginasial, a partir dos 12 anos, em colégio privado, portanto pago (não existiam
colégios estaduais, gratuitos em Lavras), havia cinco turmas de 50 alunos.
Apenas dez eram negros e desses, somente três conseguiram chegar ao final do
curso de segundo grau. Ainda assim, dois deles tiveram que interromper os
estudos por sete anos para trabalhar e ajudar os pais no sustento da família.
Coincidentemente os dois jovens negros, ex-colegas de colégio, foram alunos
deste autor, no quarto e último ano do curso de agronomia na UFLA em 1974.
5.1- As cotas raciais nas universidades
Diante dos acontecimentos pós-abolição pode-se
afirmar que se a Princesa Isabel tivesse logrado êxito em seu projeto
de indenizar os escravos, teríamos na atualidade outra situação social para os
negros. Muito melhor, com certeza, se tivesse havido a inserção de dois outros
artigos na Lei Áurea, o primeiro doando um pequeno pedaço de terras e o segundo
garantindo que a Educação seria para todos e obrigatória.
Foi cruel a
discriminação dos meninos negros desde o nascimento. Permaneciam analfabetos
nas fazendas e ainda que estivessem na cidade, eles eram apenas 4% (quatro por
cento) das matrículas colegiais dos anos de 1950/60. Somente 1,2% (um vírgula
dois por cento) conseguia concluir a universidade, ainda assim com anos de
atraso em relação a seus colegas de mesma idade. Isto, numa sociedade onde os negros
represenatvam quase 60% da população. Eles tinham que optar entre trabalhar
para comer ou estudar. Esta foi a lição mais clara sobre a desigualdade racial
que o autor pôde presenciar em Lavras. Uma desigualdade que nos dividia, separava,
apartava os amiguinhos, não só pela quantidade de dinheiro que permitia montar
casa na cidade e estudar nos melhores colégios pagos, pois inexistiam colégios
publicos, gratuítos, mas, também pelas oportunidades que nos eram oferecidas
desde então e ao longo de todo o tempo. Mas, por outro lado, felizmente, ainda
que muito mais tarde, 50 anos depois, entre 2003 e 2005, este autor teve a
oportunidade de contribuir para minorar a terrível situação do difícil acesso
dos negros à Educação. Integrou a comissão especial do Ministério da Educação,
onde trabalhou por 35 anos na Educação Superior, a qual elaborou as bases para
a Lei das Cotas Raciais nas Universidades (Lei 12.711/2012), reservando 50% das
vagas universitárias para os negros, vez que, o censo revelou que em 1997
apenas 1,8% dos jovens entre 18 e 24 anos, que se declararam negros, havia
frequentado uma universidade. Índice baixíssimo para uma população majoritariamente
negra em nosso país e sem chances de melhorias.
Em contrapartida a
aquele baixíssimo índice de diplomas superiores, bastou a criação da lei das
cotas raciais e já se verificou, em cerca de 20 anos de sua existência, um
salto bastante elevado no que tange a presença de negros na universidade,
representando quase 40% dos estudantes matriculados em 2020. Este percentual ainda precisa crescer
mais, pois os negros representam 56% da população brasileira. Talvez nossos
netos, daqui a cinco ou dez anos, encontrem e sejam atendidos por profissionais
negros, médicos, advogados, padres, professores de faculdades, dentistas, juízes,
engenheiros, empresários e tantas outras profissões liberais que lhe foram
negadas antes.
As cotas nas universidades vieram
em boa hora para o Brasil, embora tardia, buscam corrigir a antiga
discriminação, sentida até mesmo em Lavras, a terra dos ipês e das escolas. Aliás,
os efeitos da discriminação pode ser sentido e medido em qualquer lugar. Em
Brasília, o autor trabalhou por quase quarenta anos em meio a mais de vinte mil
cargos de assessoria e nunca teve ou viu um único chefe negro. As cotas raciais
nas universidades permitirão um grande progresso na tão desejada ascensão
social dos negros. É incompreensível por que muitos brasileiros ainda acham que
a lei das cotas raciais é injusta. Não é! Basta conhecer a realidade e essa se
torna bastante clara para quem vivenciou e observou a situação dos negros desde
os tempos de criança, passando pelas escolas, faculdade, empresas e órgãos públicos
e ainda assiste, nos dias de hoje, manifestações de negros no país e no
exterior, clamando por seus direitos.

Neste
prédio da cidade de Caienne, Guiana francesa, participamos de jantar de
confraternização de um congresso internacional sobre floresta amazônica (março
de 1990). Da sacada do salão de festas, no segundo andar, presenciamos uma
manifestação de negros, chamados de “creoles”, reclamando “liberté, liberte´ ”
para uma das últimas colônias das Américas. Cento e sessenta oito anos (168) se
passaram desde a nossa proclamação da Independência e ali os negros ainda clamavam
“Liberdade..., Liberdade” para os visitantes de diversas nacionalidades,
incluindo este autor, constrangido e triste por e recordar o passado.
A
década de 1990 não foi das melhores nas minhas lembranças sobre escravidão. Foi
iniciada com esse triste episódio de Caienne/Guiana e encerrada com o drama do
menino angolano acolhido em minha casa.
Foto: internet
6- Conclusão
Não é fácil falar sobre
escravidão em casa, nosso país com 60% de pessoas com sangue negro,
mestiços, pardos como os classificam o IBGE. Com essas palavras iniciamos o
texto sobre a convivência da Família Salles com a escravidão em Lavras. Quando
escreveu sobre o tema, Gilberto Freyre preferiu não adentrar com profundidade
na questão e se limitou a explorar a aproximação dos negros com seus senhores e
principalmente a miscigenação entre brancos e negros, formulando a tese da
“democracia racial”. Nunca acreditei nessa tese, pois vivenciamos, ainda na
década de 1950, a dura realidade da vida dos descendentes de escravos. O autor
de Casa Grande e Senzala não estava totalmente errado em sua tese, mas valeu-se
apenas da metade da verdade. Foi seguido por outros historiadores e contestado
por muitos, pois a realidade da escravidão foi bastante dura, cruel mesmo,
ainda que pesem a seu favor a boa convivência entre senhores e escravos na
maioria das vezes.
O
patriarca da família Salles/Costa/Pádua, imigrante português Manoel da Costa
Valle, chegou à Lavras em 1750 acompanhado de escravos negros para a exploração
do ouro. Tendo escasseadas as jazidas, tratou de estabelecer-se no negócio da
produção agrícola e pecuária para subsistência e venda de víveres aos viajantes
que passavam por aquele importante entroncamento. Ocupou as margens do Rio
Grande em enorme faixa de terras, logo abaixo da atual cidade de Ribeirão
Vermelho, abrangendo ainda partes de Perdões e Nepomuceno. Evidente que para
tocar a sua produção agrícola teve que contar com o braço escravo. Não foi
possível ainda levantar o número exato de escravos das fazendas dos Salles.
Entretanto, entrevistamos membros da família, nascidos entre 1895 e 1920 com
relatos de suas convivências com descendentes de escravos que foram libertos
pouco antes. A convivência com os descendentes de escravos nas escolas, no
trabalho e principalmente na fazenda, onde também trabalhavam imigrantes
italianos que vieram substituir os negros nas plantações de café do sul de
Minas, proporcionou ao autor uma ampla e importante experiência, acompanhando
seus trabalhos na dureza do eito e sobretudo ouvindo suas histórias do tempo da
escravidão. No entanto, bagagem maior foi adquirida com o olhar perscrutador,
investigativo na literatura e pesquisas acadêmicas, com livros, revistas
técnicas e jornais nacionais e de outros países, muitos deles escritos e
produzidos por intelectuais negros. Estes, os relatos dos descendentes de
escravos, têm considerável valor, pois refletem a ótica dos vencidos, dos
subjugados. Também muito contribuíram as reuniões da Comissão de Igualdade
Racial, da qual participamos como representante do Ministério da Educação junto
ao Palácio do Planalto. Ali, conhecemos relatos de protagonistas, os próprios descendentes
de escravos negros, que embasaram as razões para a aprovação da lei das cotas
raciais nas universidades.
Conhecer a história
apenas pelo lado do vencedor tem sido a praxe universal nas escolas e na
literatura, Entretanto conhecer os fatos sob a ótica dos vencidos pode mudar a
história. Nunca tivemos dúvida sobre a enorme dívida social que nosso país tem
para com os negros e logo no início deste capítulo de livro foram formuladas
algumas questões e dentre elas, se alguém já havia perguntado a opinião dos
negros, as vítimas da escravidão. Não só as fizemos diretamente aos negros,
como também conhecemos e estudamos várias publicações onde expressam suas
opiniões, dores, frustrações e esperança de dias melhores no contexto social
brasileiro, a sua pátria, vez que foram arrancados à força de suas nações
africanas em distante passado.
O advento da lei das
cotas raciais foi mais um passo contra a antiga resistência e má vontade da
aristocracia rural das fazendas de café e gado de leite em relação aos negros,
a começar pelo baixíssimo número de escolas nas fazendas. As escolas eram
malvistas por alguns fazendeiros que achavam que elas tomavam o tempo dos
trabalhadores (crianças e adolescentes), principalmente durante a colheita do
café. Serviam, as escolas, segundo a típica atitude do dominador
escravocrata, para encher a cabeça do
trabalhador com outras ideias, contrárias aos interesses dos fazendeiros.
Mas, é importante lembrar que nas fazendas dos Salles, ao contrário dessas
ideias e atos escravocratas, muitas contavam com escolas primárias, ainda que
em condições precárias. Mas, isto, por si só, não redime o crime da escravidão.
E como foi a escravidão em Lavras? Não foi
diferente de outras partes do Brasil. No entanto, exceto as poucas exceções aqui
descritas, a convivência com os escravos e depois com seus descendentes foi de
certa forma tranquila, corroborando até mesmo a tese de Gilberto Freyre, aqui
contestada, pois a boa convivência não apaga o crime da escravidão. Ao longo dos
últimos setenta anos acompanhamos a lenta evolução social daqueles cujos pais
trabalharam na escravidão e depois dela. Foi uma convivência prazerosa entre crianças e
jovens brancos e negros. Não havia discriminação entre eles. Gostavam da
natureza e brincavam como iguais, companheiros de verdade na tranquila e pacata
vida no campo, de onde trouxemos doces recordações. Porém, mais tarde, ao
chegar à cidade, sentimos a ausência dos meninos negros. Os pouquíssimos
colegas de colégio e faculdade tiveram que sacrificar anos e anos de sua vida
com o doloroso dilema de escolha entre trabalhar para comer ou estudar. Aquele
reencontro na universidade, do professor com seus únicos ex-colegas negros que foram
obrigados a abandonar por uns tempos a escola secundária, e então, quinze anos
depois reaparecem como seus alunos no último ano da faculdade, foi um choque de
consciência, um soco na alma. Despertou no autor a questão da enorme dívida
social que a sociedade brasileira tem para com os negros. Tanta injustiça, as
proibições de frequência dos negros à escola desde os tempos do Império, com
leis expressas já em 1824, seguindo-se vários outros decretos cerceando-lhes o
direito aos estudos e privilegiando a elite rural, em 1968 com a lei do boi que
garantia 50% das vagas em cursos de agronomia, veterinária e técnicos
agrícolas, exclusivamente para filhos de fazendeiros, muito antes do surgimento
das cotas raciais em universidades.
Porém, ainda que tardiamente, surgiu a lei das cotas raciais nas
universidades. Um grande progresso, louvável ascensão social dos negros, tal
qual intitulamos este capítulo, valendo encerrá-lo com a bela ilustração
abaixo, mostrando os formandos da Universidade
Afro-Brasileira, que desde 2010 trabalha na reparação histórica de séculos
de segregação e injustiça social.
Não é fácil falar sobre a escravidão em
casa. Não era! Agora tornou-se mais fácil quando se olha com amor aqueles que
ajudaram o Brasil a crescer e hoje conquistam a sua completa cidadania, com os
mesmos instrumentos que o eminente lavrense, negro, José Luiz de Mesquita fez
desde o início do século XX: com a Educação!
Tomando
emprestadas as palavras da ex-chanceler alemã, Angela Merkel, digo: Os crimes
cometidos contra os negros e seus descendentes são e permanecerão parte da
história do Brasil, e essa história deve ser contada repetidamente.
Finalmente, cabe registrar: O símbolo da
ascensão social dos negros em Lavras pode, com justiça, ser atribuído a uma
figura marcante, digna de homenagens, o educador, Professor José Luiz de
Mesquita. A comunidade reconheceu e concedeu-lhe grande honra, ao colocar seu
busto na praça central da cidade, bem em frente à Igreja de Nossa Senhora do
Rosário dos Pretos, para a qual ele batalhou e conseguiu, junto ao IPHAN, o
tombamento daquele patrimônio cultural da cidade. Ali, naquela igreja funcionou
desde o ano de 1783 a primeira escola do Arraial de Sant´Anna das Lavras do
Funil e finalmente autorizada em 1792 pela rainha D, Maria, de Portugal. E hoje
passados quase 240 anos da fundação da primeira escola de instrução em Lavras e cem da atuação daquele professor negro, ainda

é necessário reconhecer que será pela Educação que conseguiremos reduzir
a distância do bem-estar social previsto na Constituição para todos os
brasileiros e em especial para os negros. Para eles, o racismo e a intolerância
continuam prevalecendo em nosso país, aumentando-se a cada dia as desigualdades
sociais com a miséria destruindo vidas. O professor José Luiz de Mesquita tinha
razão, pois é no banco das escolas que os negros e pobres vão mudar seus destinos.
Este é o caminho, único, para mudar essa assustadora situação: a Educação! Devemos
acreditar nisso e somente assim poderemos acabar com aquelas tristes frases,
ditas algumas vezes pelos próprios negros: “Isso não é para gente como nós. Nosso
lugar é no eito e na cozinha”. Triste, saber que os negros sentem diariamente a
discriminação, deixando-os inibidos para a busca da melhoria de suas vidas,
tolhendo-lhes iniciativas de progresso. Felizmente, outra educadora, também
negra como o professor José Luiz de Mesquita, acreditou na Educação e venceu
essa barreira psicológica, discriminatória. Joana Angélica Guimarães, reitora
da Universidade Federal do Sul da Bahia. Venceu e tem consciência de que é
acolhida em seu meio e enfatiza a falta que faz a Educação para os negros nesse
contexto e assim vencer a discriminação.Façamos a nossa parte, sociedade e
governo, criando e executando políticas publicas consistentes que contribuam
para a ascensão social dos negros. E sabemos qual é o caminho, a Educação!
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- Autor:Domingo Martínez
Castilla/Universidade do Missouri - Ao germe o que é do germe: doenças
europeias e destruição da civilização andina. Tradução: Jaime de Almeida, doutor em História Social pela
Universidade de São Paulo e pós-doutorado pela Universidade de Paris I. E-mail:
jaimeida@terra.com.br . In: https://www.academia.edu/52562424/Ao_germe_o_que_%C3%A9_do_germe_doen%C3%A7as_europeias_e_destrui%C3%A7%C3%A3o_da_civiliza%C3%A7%C3%A3o_andina