terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Lições de viagens e perfil psicossocial

 

Em tempos de quarentena, com isolamento social e sem viagens, o menino pôs-se a recordar seus tempos de viajante pelo mundo. Escaneando seus arquivos encontrou algumas anotações das lições que aprendeu ao longo de suas viagens. Estudou um pouco a psicologia humana durante as longas e demoradas estadas em terras estrangeiras, relacionando-as ao seu dia-a-dia e procurando refletir os valores das experiências de modo a tornar a vida mais feliz. O garoto tímido na infância e na juventude, que pouco falava, especialmente quando fora do ambiente de casa, tinha perfil introspectivo conforme mostrado na série de fotos até os 25/30 anos de idade. Nesse período, quase nunca sorria e mostrava-se sério, compenetrado em seus próprios pensamentos. Mas, ao conseguir relativo sucesso profissional em meio aos top of mind no restrito ambiente da gestão universitária no país e no exterior e receber o reconhecimento de seus pares, o jovem executivo da educação superior experimentou uma mudança radical, de plena liberdade, que expulsou para sempre os sentimentos obscuros e, aquela aura de sucesso, reconhecidamente por todos, nunca mais o abandonou. Foi o turn-point de sua vida e que pode ser facilmente identificado até mesmo pela fotos no meio profissional. Confiança e certeza na responsabilidade de suas ações foram constantes em sua vida desde então.

 Veja o que o menino aprendeu e praticou ao longo de quase 40 anos de vida profissional percorrendo literalmente meio mundo:

1 - As viagens na juventude e estadas em diferentes localidades e contatos com a garotada do meio rural e das cidades como Nepomuceno, Varginha, Volta Redonda, Belo Horizonte, São Paulo, São Carlos, Rio de Janeiro, Perdões, Ribeirão Vermelho, Itaúna e a distante Londrina, no norte do estado do Paraná, dentre outras, ajudaram a moldar a personalidade do menino, pois, o hábito de se mudar de ambiente a cada seis meses do ano, levou-o a desenvolver grande parte daqueles sentidos próprios dos TCK, a chamada Third Culture Kidsfilhos de pais de nacionalidades diferentes, que nasceram num terceiro país, falam pelo menos três idiomas, moraram ou tem relações em mais de três países,  mas não tem ligação forte com nenhum deles. Essas crianças sofrem com a falta de raízes.  

2 - O costume de viajar pelo exterior e conviver com outras culturas, imprimiu no menino um modo diferente de olhar, com curiosidade, que ampliou seus  horizontes enxergando o mundo de forma mais ampla, abrangente, holística e por que não, também a valorizar seus país, suas origens e sua cultura. .

 3 - Gosta, ainda hoje, de viajar e conhecer lugares diferentes, pessoas com hábitos e costumes distintos daqueles cultivados unicamente pelos familiares e vizinhos, sempre procurando respeitá-los e aproveitar o melhor de todos eles.  

4- Adquiriu maneira própria, com outros “parâmetros”, para medir, avaliar e relacionar-se com pessoas “diferentes”. Arguto na arte de “observar” e analisar o comportamento dos outros. Isso facilita a abordagem e aproximação, vez que identifico melhor o perfil cultural das pessoas ao redor, especialmente em viagens, sejam elas no país ou no exterior. Um detalhe curioso é que tanto nos EUA, França e outros países da América do Sul, quando em reuniões sociais, as mulheres apreciam muito ouvir sobre os costumes do nosso país, especialmente no que diz respeito aos direitos femininos, classificando as brasileiras de muito liberais.  

5- Aprendeu a ser mais sociável, relacionando-se mais e melhor com estranhos, fazendo novas amizades em qualquer local que estivesse, mesmo com diferentes idiomas. Por outro lado, Brasília, por ser a capital federal, nos proporciona esse ambiente cosmopolita, seja no trabalho, na vida social ou mesmo com diplomatas residentes a seu lado.  

6- Por necessidade de ofício, sempre procurava estabelecer uma relação sentimental com o local visitado, conseguindo assimilar mais a convivência e o aprendizado que essas novas experiências me proporcionavam, inclusive o domínio do idioma local. Por isso, sempre havia um maior autoconhecimento e melhor inserção no meio social, onde quer que estivesse, qualquer que fosse o idioma.  

7- por falar em necessidade de ofício, deve-se lembrar que o viajante a serviço se diferencia do turista, que é apressado e tem sempre um guia a lhe explicar, razão pela qual não se interessa em relacionar-se com as pessoas do local. Ao contrário, o viajante a trabalho, acaba estabelecendo uma relação sentimental com o local visitado e consegue assimilar mais a convivência e o aprendizado que essas novas experiências lhe proporcionam, inclusive o domínio do idioma local. Advém daí um maior autoconhecimento e melhor inserção no meio social. A arte de viajar, segundo alguns autores, é antes de tudo uma arte de amar, de admirar, uma emoção constante, nem sempre alegre, porém intensa.  

8- Aprendemos a ser mais humilde, tratar melhor e com mais distinção as pessoas, porque quando se é hóspede em um lugar estranho ao seu ninho, não há lugar para a arrogância ou achar que o seu lugar e a sua cidade são melhores. Todo lugar é bom, ainda que só para os nativos e é preciso respeitá-lo.  Portanto, a sabedoria do visitante consiste em saber “penetrar” nesse mundo querido do anfitrião, despindo-se de todos os preconceitos e “curtir” as diferenças, as belezas e os valores de cada local. Aí está um dos maiores prazeres das viagens, sejam elas a trabalho ou simples lazer. Os que ali estão adoram e se enchem de orgulho pela terra onde vivem e ficam contentes em saber que o visitante aprecia o lugar que o recebe. Até mesmo no interior das selvas inóspitas da Amazônia do Peru e Equador, sempre admirei os povos que ali vivem e visitei. Quer ser lembrado para sempre num lugar? Comente sobre um tema que é caro aos nativos, demonstre conhecer e respeitar a cultura local. Se encantam e até nos dizem...mas, como você sabe disso se nem eu mesmo sei? Isto aconteceu, por exemplo até mesmo na culta e bela Paris, pois ficaram extremamente surpresos quando num almoço oficial, pedi licença e cantei, à capela, La Marseillaise, celebrando o 14 de Julho, Dia Nacional da França. Monsieur Michel Gervais, diretor do Ensino e Pesquia Agrícola, perguntou efusivamente, como aquilo era possível se nem eles , os franceses, sabiam de cor seu hino nacional.  

9- A sabedoria do visitante consiste em saber “penetrar” nesse mundo querido do anfitrião, despindo-se de todos os preconceitos e “curtir” as diferenças, as belezas e os valores de cada local. Aí está um dos maiores prazeres das viagens, sejam elas a trabalho ou  lazer.  

10 Graças a esse olhar diferente, com o coração aberto, o menino adquiriu a facilidade de se sentir em casa nas cidades onde já esteve ou mesmo chegando pela primeira vez. Por estar quase sempre só, está mais aberto para se encontrar com outras pessoas, ainda que por pouco tempo.  

11- Quando passa por uma cidade ou país, ainda que rapidamente em escala de voos, sempre dá um alô para os amigos,  mesmo que do aeroporto e sem chances de revê-los, apenas para dizer “estou de passagem por aqui, tudo bem contigo?” Um local novo, diferente desperta mais o interesse,   além dos negócios, se ali já houver  a figura do amigo ou conhecido. E quando ainda não existiam os telefones celulares, os bolsos e valise sempre estavam cheios de moedas/fichas para telefones públicos e lógico um arsenal (estojo e mais tarde notebook) com centenas de cartões de visitas de todos os lugares. Administrávamos mais de 200 (duzentos) brasileiros em cursos de PhD no exterior e outros 500 no Brasil. Some-se a isto o número de dirigentes e professores universitários, orientadores de teses e chegava-se a uma quantia superior a dois mil nomes. Os cartões de visitas eram classificados por país e neste, por cidades, completando às vezes volume superior a uma centena a cada vez que se deslocava  a trabalho para um país.

12- Dominar idiomas foi fundamental e fez a grande diferença no sucesso e prazer das viagens internacionais. No México, por exemplo, tem-se verdadeira adoração pelo Brasil e seu idioma português (teria sido por causa do campeonato de futebol de 1970, quando a seleção canarinho sagrou-se campeã mundial?) e muitos faziam questão de exercitá-lo e para tanto, sempre tínhamos que dar atenção e ser gentil, corrigindo com carinho as frases ditas por eles, pois entendíamos aquele gesto, de esforço para falar o português, como forma de nos agradar e demonstração de carinho para com nosso “maravilhoso” país, como diziam eles.  

13- Essa multiplicidade cultural proporciona uma mente mais aberta, receptiva, compreensiva (empatia) e com horizontes mais amplos, além de nos proporcionar felicidade relativa durante nossas longas permanências em terras estrangeiras. O hábito da curiosidade nos leva às descobertas por conta própria e isto foi desenvolvido desde criança quando sonhava em escalar a serra da Bocaina para “ver” o que havia do outro lado do “mundo”. Mas, se por um lado tudo isso contribuiu para o progresso profissional, de outro, o menino que sonhara com novos horizontes e depois ganhou o mundo e nele passava boa parte dos 365 dias do ano, também herdou e desenvolveu outra característica dos TCK, o sentimento da falta de raízes, dos amigos de infância e a parentela criada a seu redor, gerando algumas vezes stress, o banzo – saudade da terra natal.  

14- Quando se passa um tempo razoável fora, em viagens internacionais, sofre-se muito mais que o normal pela falta das raízes da Pátria distante, a saudade dos familiares ascendentes, descendentes e colaterais, dos amigos de infância e dos colegas de faculdade, especialmente daqueles que não pudemos dar um último adeus. O banzo ataca sem dó. Já fui vítima de pelo menos dois ataques de angústia, quase depressão, nos EUA e na França.  

15- Em todos os lugares que visitou, o menino deixou amigos que ainda hoje, depois de quase cinquenta anos, mantém laços de amizade. E quando falta um deles, dói e dói muito, principalmente por não ter estado mais tempo com eles e não ter podido dar um adeus. Ah..., sim, dói muito, pois a distância se encarrega de multiplicar a dor.  

16 – Há, porém, um contraponto das viagens, o lar, o porto seguro onde estão os verdadeiros laços e a razão do viver, e ali matamos de vez a saudade. A alma relaxa, dentro daquela que é a sua fortaleza, o abrigo contra a violência do mundo.  

17- Aproveite cada dia de sua vida. Nunca deixe a ociosidade ocupar a sua mente. Se nada há para se fazer, leia um livro, escreva, busque um site interessante que lhe acrescente algo. A escrita equivale a uma terapia da alma, pois, você mesmo vai gostar de reler sua produção daqui a alguns anos. Diz um velho ditado que a ociosidade é a oficina do diabo.  

18-  Mesmo que esteja de férias, ou em um lugar qualquer, não deixe de ler, estudar, explorar o local, conhecer novidades, outras pessoas e seus costumes. Se estiver num avião em longa viagem (o melhor lugar para se relaxar e literalmente se sentir nas nuvens), aproveite também para meditar sobre o valor da vida, as boas coisas, a família e os amigos. A vida nada vale sem eles e nem importa se vocês estiver num hotel cinco estrelas, pois sozinho estará vulnerável e as garras do inconsciente poderão lhe atacar com a ansiedade, o pânico e a dor da saudade, Experimentei isso por duas vezes, em quarenta anos de viagens pelo mundo, algumas, no exterior, quando estive por mais de um mês fora de casa.  

19- Leia e viaje muito, tanto quanto puder. A leitura e as viagens abrem nossos horizontes e nos faz crescer espiritualmente, fazendo-nos sentir melhor. Pratique ainda a boa ação, se puder e tiver chance.  - Seja gentil com o estrangeiro em seu país, melhor ainda com o povo que o recebe.  

20- Mas, afinal, qual é mesmo o melhor de uma viagem? Bem... , o melhor da viagem é a volta, a chegada em casa, o porto mais bonito, gostoso e seguro de todo o mundo.... Com certeza! É esse o único lugar onde desligo os radares da mente, os freios sociais, sempre na certeza que ali posso relaxar. Viver é perigoso demais...

            Concluindo, gosto de lembrar que o menino um pouco introvertido na infância e mais ainda na juventude, mudou radicalmente seu comportamento à medida que o tempo passava. Certamente os 40 anos de viagens pelo país e meio mundo, com quase 200 dias/ano fora de casa, contribuíram muito para essa saudável mudança de comportamento diante da vida. Aliás, esta, a Vida nem é perigosa. É para lá de gostosa, boa de se viver.

Viajemos, pois! (agora sim, acabou-se a pandemia de dois anos)

 

Brasília, 28 de fevereiro de 2023

Paulo das Lavras


 Criar vínculos de amizade em viagens? Eis aí, com a filhinha de um amigo, 
 em almoço de domingo em Paris. 
Foto do autor - Paris 1988




terça-feira, 31 de janeiro de 2023

A infância mais livre do mundo e o Café de Flore em Paris

 

 Menino das Lavras no badalado Café de Flore, em Paris, degustando o melhor café du Brésil 
com biscoitos croissant et Madeline


Minha infância foi vivida com a maior liberdade possível, de todo o mundo. Por isso sempre fui grato a meus pais pela infância que me proporcionaram. Uma infância sem medo, sem portas trancadas, sem grades e até mesmo sem muros. Infância de quem cresceu diante da imensidão de espaços vazios, verdes pastagens e coloridas do outono ao verão, matas córregos, lagoas e até um grande rio, o Rio Grande na segunda fazenda de invernada das vacas prenhes e bezerrada desmamada em regime de engorda para o abate. Espaços capazes de acolher o vazio da natureza com suas variadas fauna e flora. Lugares onde a vista se perde até encontrar o horizonte das montanhas. E que montanhas... , do Queixada, da Jacuba, do Grotão, da Fábrica Velha, das Três Barras, Jacuba à beira rio e mais..., principalmente, a mais majestosa de todas, a Serra da Bocaina, que emoldura a cidade natal, Lavras. Ah..., a belíssima Bocaina, cantada em versos pelo saudoso jornalista e poeta Hugo de Oliveira, o sonho de todo exilado, ainda mais quando o exílio dourado já dura quase meio século:

Há muito tempo afago esta esperança:

dar vida aos sonhos de voltar à terra,

de me perder nos alcantis da serra

e reviver meus tempos de criança;

voltar onde se exala um ar que amaina

a flama de tristeza do exilado...

 

Sim, ali, do azul das serras e dos verdes campos de minha terra, de onde lançava olhares desimpedidos, livres do concreto e da poluição, o menino sonhava voar, voar como os pássaros, principalmente como aquelas aves de rapina com seus velozes e certeiros voos de caça, ou simplesmente flanando ao sabor das correntes de ventos ascendentes. Até pareciam pairar no ar de tão suave e leve aqueles voos com asas de grande envergadura e pontas arrebitadas para cima, tal qual o winglet nas pontas das asas dos grandes aviões de hoje. Aliás, os engenheiros aeronáuticos só descobriram o valor das pontas das asas arrebitadas quase cem anos depois que Santos Dumont inventou o avião.

Mas, ainda assim, admirando aqueles lindos voos planados o  menino não se contentava apenas com os sonhos aeronautas. Caçar, nadar, pescar e cavalgar pelas seis fazendas de seu pai, Retiro dos Ipês (sede), Três Barras/Barro Preto, Cachoeira (próxima à Bebela), Jacuba/Rio Grande, Faria e Corguinho também nas Três Barras e a mais próxima, a apenas dois quilômetros. A mais distante, a invernada do Faria, ao lado da Estação de mesmo nome, se estendia ao longo da via férrea, que ainda hoje interliga Lavras à Três Corações, distava  umas três léguas, quase em linha reta, passando pela Fazenda Ribeirãozinho, do Sr. Quincas Guimarães. Em todas elas, onde meu pai tinha gado solteiro e plantações de café, milho e feijão, fazíamos visitas quinzenais ou mensais, geralmente nos finais de semana ou nas férias escolares, sempre a cavalo, em marchas que duravam até três horas para vencer a maior distância, na Estação do Faria. Essa distância era um pouco maior que a sempre preferida, entre a fazenda sede e a casa da cidade, uma grande chácara de 20 hectares situada no final rua Progresso (hoje Vila Cruzeiro do Sul), cujo traçado avançava somente até a esquina da rua Sabino Lustosa, antiga 15 de Novembro. Essa cavalgada era a melhor de todas, passava pelo espigão do Passa Vinte, onde hoje se situa o Bairro Serra Azul, em direção ao Queixada, cuja estrada de boiadeiro passava exatamente por sobre o atual trevo de Ribeirão Vermelho na BR 265. Dali descia-se à esquerda do espigão do Queixada até a Fazenda Dessimoni, atravessando o ribeirão Água Limpa, já na divisa da fazenda Retiro dos Ipês, nossa propriedade, sonhado e desejado paraíso. Eram 16 km, vencidos em exatas duas horas de cavalgada, com direito a guaraná gelado em geladeira movida à querosene, na venda (armazém) do Vico do Cristóvão, na região da serra do Queixada. Ah..., que aventura, prazer de criança, um simples guaraná gelado com biscoitos da marca Confiança, que soavam como um crepe royalle do Café de Flore em Paris, onde a nata da sociedade parisiense se reunia e escritores como Gustave Flaubert escrevia seus contos e romances.  

 
 Café de Flore/Paris – foto 1de Ygor Coelho. Na foto 2, do autor, o Menino das Lavras no badalado Café de Flore, degustando o melhor café du Brésil com biscoitos croissant et Madeline, posando com o charme do cachimbo a imitar os famosos escritores. . Assim, com um laptop à mão, o menino pôde, em doce reminiscência relembrar a simplicidade de sua infância no Armazém do “Cristóvo”, na serra do Queixada, com o guaranazinho e o biscoito Confiança.... Infância feliz! 






Quem não se lembra dos Biscoitos Confiança, vendidos na cidade nos anos de 1950 e 60? Havia um fornecedor em Lavras, Sr. Arnaldo Corradini, que, com seu furgão Chevrolet ano 51, abastecia  os comerciantes da cidade e região. Residia na Rua Umbela, hoje Azarias Ribeiro. Para abastecer os bares da situados na Praça do Trabalhadores e o tradicional Armazém do Julinho, estacionava seu furgão em frente à casa de meu avô, Anízio Abreu (Rua Francisco Sales - 794/812), também conhecido por Anízio  Gaspar. Ali, a meninada ficava a espiar a abertura da porta do furgão lotado de doces, balas, biscoitos, chocolate Falchi, jujubas e todo tipo de guloseima.... Vontade louca de se esconder ali dentro do veículo e se fartar.... Desafios aos coleguinhas não faltavam, mas sequer se atreviam a chegar perto do Sr. Arnaldo Corradini, amigo de nosso avô e que parecia adivinhar as traquinagens dos meninos de olhos arregalados. 

 Esse era o furgão de entrega aos comerciantes. Meninada de olho grande e pensando
 em se esconder no seu interior e fartarem-se com as guloseimas. 
Foto: internet


Tempos bons, de meninos livres, que podiam brincar na rua e nas chácaras. Aprendi, assim, que a liberdade na infância é fundamental para a formação com visão de largos horizontes, quer na planura dos campos das fazendas ou do alto das montanhas alvenses.  Deve ser por isso que me encantei, algum tempo depois com os espaços abertos de Brasília e aqui me instalei, onde os horizontes também se perdem de vista, dando-nos aquela sensação de liberdade, tal qual desfrutada na infância. E já se vão 48 anos longe daqueles lugares sagrados da infância e a todo momento vêm à lembrança os sonetos de outro poeta, Casimiro de Abreu, em seu poema Meus Oito Anos:

Oh! que saudades que tenho, da aurora da minha vida,

 da  minha infância querida que os anos não trazem mais!

 Como são belos os dias de despontar da existência!

 Respira a alma inocência. Livre filho das montanhas,

 eu ia bem satisfeito, da camisa aberto o peito,

 pés descalços, braços nus...”.


 
 Serra da Bocaina em Lavras (foto 1). O menino sobrevoando-a em um AeroBoero, como a matar as saudades da infância, quando invejava as aves de rapina que dela vinham em voos planados até  sua casa na cidade. Planar sobre ela e depois vetorando a proa rumo norte, em direção à cidade, foi por demais emocionante, como se o menino tivesse transformado seu sonho pueril em realidade.     Foto 2- vetorando cabeceira 023. Serra da Bocaina ao fundo. 
Fotos do autor  


O menino das Lavras não se cansava de cavalgar por entre rios e montanhas. Doce infância, doce juventude, vividas na Terra dos Ipês e das Escolas e o belo jardim para o footing dos fins de semana, onde desfilavam lindas meninas. Ah..., mas como pôde o poeta Hugo de Oliveira, tirar as minhas palavras que fazem doer a alma? Não, não é bem assim, poetas são românticos sabem trabalhar as palavras para, mais que ninguém, expressar com mestria a alegria da alma:

“Àquela terra se eu voltar um dia,

Mais velho, embora, assim, menos rapaz,

Terei corpóreo o sonho que queria:

De Lavras ter o amor de suas manhãs,

Viver seus dias e morrer em paz,

Sob canções de ipês e flamboyantes”.

                                                                                                     (Hugo de Oliveira)

 

            E se assim não for, que as cinzas do menino repousem sob os ipês amarelos da janela onde nasceu, na Fazenda Retiro dos Ipês. Lindo pedaço de terra, cercado pelos ribeirões Água Limpa e Maranhão e toda enfeitado de ipês, berço santo da infância e da juventude, que lhe proporcionou serenidade e toda a alegria da vida de quem, literalmente, percorreu meio mundo, conheceu gente e trabalhou no melhores centros mundiais de tecnologia educacional e pesquisas. Mas, sempre grato à terra que lhe deu tudo, da vida à formação profissional, alargando seus horizontes. Doce infância, doce juventude na terra onde nasci.

 

 Brasília, 31 de janeiro de 2023

 Paulo das Lavras


 ... e se não puder voltar à terra natal, que as cinzas, então, um dia, repousem à sombra 
do ipê amarelo, à janela deste quarto onde nasci. 
Foto do autor—Fazenda Sítio Retiro dos Ipês- Lavras


 
Estação do Faria, inaugurada em 1928, distando 25km de Lavras na rota para Três Corações. 
 A seu lado havia igreja, escola, venda e casas de família. A fazenda alugada por meu pai ficava a poucos 
metros à direita, com pastagens de invernada para gado solteiro (vacas prenhes e garrotes)

Foto: internet

 


 



 






 



 





domingo, 18 de dezembro de 2022

18 de Dezembro de 1967 - 55 anos de Formatura

 

 
O velho e icônico portão  da Esal/Ufla em 1965. 
Foto – Coleção Renato Libeck 


Celebrar este dia 18 de dezembro é voltar ao passado. Um passado de gloriosa juventude, entusiasmo de sadia convivência com os colegas de turma, professores e colaboradores da velha ESAL/UFLA. Exatos 55 anos se passaram desde aquele dia de glória, dia da formatura tão almejada, sonhada pelos jovens e entusiastas rapazes e uma única moça. Bons tempos de estudante, pois tínhamos uma vida inteira pela frente. Tudo era possível e dependia apenas de nossa vontade para onde ir, onde trabalhar e o que produzir no vasto campo da Agronomia. Como não pude comparecer à celebração realizada na ESAL/UFLA em setembro passado e abraçar os colegas, resolvi publicar algumas fotods relembrando o passado dessa inesquecível turma de 1967.

 

A solenidade da formatura aconteceu no dia 18 de dezembro de 1967, no salão Lane-Morton, do Instituto Gammon. O paraninfo foi o saudoso professor Paulo de Souza.  Dia seguinte houve o baile de gala no Clube de Lavras. O tempo voa...  Doces recordações! 55 anos são passados, muitos colegas já se foram e nos deixaram saudosos, mas, a grande maioria aí está junto à família, filhos e netos, gozando merecida aposentadoria.

 

Celebro o dia de hoje com o carinho de sempre dedicado aos colegas e para tanto reuni alguma fotos relembrando momentos da vida acadêmica e dos encontros quinquenais na velha Esal/Ufla, onde muito aprendemos no campo do ciência e na arte do conviver, do coleguismo, consolidando amizades e vínculos que perduram até os dias de hoje..

 

Meu abraço a todos os colegas e amigos que compartilharam momentos nessa longa caminhada.

 

 

Brasília, 18 de dezembro de 2022

 

Paulo das Lavras

 

 
Foto de 1958, no antigo auditório do predio Odilon Braga. Muitos foram nossos professores a partir de 1964: Paulo de Souza, José Otávio de Souza, Alcebíades Cartaxo, e Weber Almeida sentado à direita. Em pé, o terceiro da esquerda para a direita é Eduardo King Carr, seguindo-se Jaziel Rezende, Tancredo Weguelin Paranaguá, Marcelo Penido, (Clidenor Galvão??) e Edmir Sá Santos. 
Foto: arquivos Esal/Ufla


 
 Professores da Esal em 1964, ano de nosso vestibular e 1º ano do curso de Agronomia. Outros professores ingressaram à partir de 1965, dentre eles Jair Vieira (Hidráulica/irrigação , Luiz Carlos Gonçalves Costa (Laticínios), Guaraci Vieira (Economia Rural) e Carlos Hermeto (Construções Rurais)


Jornal   O Agrário - março 1964, noticiando o ingresso na Esal/Ufla da primeira turma da então federalizada Escola

 

 No canteiro central da Esal/Ufla  em 1965 – No alto, da esquerda para a direita: Francisco Godinho, José Maria de Oliveira, José Lessa, José Clodoveu, Thadeu de Pádua, João Virgílio, Andirana, Gilnei, Antônio Ernesto e Paulo Roberto. Sentados: Milton, Afonso, João Júlio, Antônio Carlos, Fernando Duque, Glauco e Gilvan. 
Foto: arquivos do autor 


 Excursão em Brasília- maio de 1966 – Palácio da Alvorada. 
Foto: arquivos do autor










 Turma de Agronomia - 1967 


 


 A velha Esal se transformou em Universidade. Uma das melhores do país, segundo avaliações do MEC






 Tradição dos formandos, colocar um banco no campus histórico da Esal


 
 Comemorando 45 anos de formatura - Afonso, João Marcos, Augusto, Fernando, Andirana, 
 Antônio Ernesto e Paulo Roberto. 
Agachados: Gilnei, Francisco Godinho, José M. Vilela e Arnaldo
Foto do autor 2012 


 


 Com a camisa comemorativa dos 50 anos de formatura. 
Lavras (2017)


 2017- Jubileu de Ouro da formatura / turma de 1967


 Vista panorâmica do Campus Histórico e parte do novo Campus da Ufla-2021 
Foto- Leonardo Renoir 

 O novo Campus - 2016


 Tive a honra de encontrar dois eminentes personagens na história da Esal/Ufla. Alysson Paolinelli, nosso então diretor e Eudes de Souza Leão. Este, evitou o fechamento da Esal em 1963 e Paolinelli a federalizou em 23/12/1963. Dez dias depois nossa turma prestou o 1º Vestibular da Esal já Federalizada. A Esal/Ufla deve enorme gratidão a esses beneméritos e sempre presta-lhes homenagens agraciando-os com títulos e honrarias. 
Foto do autor- reunião da Abeas em Recife – 2007 


 


 Como não pude rever os colegas na comemorações dos 55 anos, em setembro deste ano, em Lavras, convidei a todos para uma visita à Brasília. Aqui, se hospedarão neste bucólico e florido ambiente.  Manoel, Gilson, Augusto, Gilnei e outros já passaram por Brasília. Espero que todos possam vir com as respectivas famílias
Foto do autor 


 Aviso de antemão que, aqui na chácara, acontecem fenômenos agrícolas estranhos.... Inacreditável, meu irmão, Anízio, veio de Lavras para colher minha produção multivariada em um único pé de pera, aqui no cerrado do Planalto Central: um tomate vermelho; uma manga ubá; duas peras e duas maçãs vermelhas variedade fuji...., tudo junto e misturado na mesma fruteira. Produtos de clonagem...ou melhor, colagem ....rsrs 
Foto do autor