quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Dia Nacional do Livro - Adultite e chá de infância

“Para se curar da adultite é preciso tomar chá de infância, virar criança de novo”.

Com a frase acima, de autoria do poeta, escritor, filósofo e professor, Rubem Alves, homenageamos o Dia Nacional do Livro. Nada melhor do que invocar a presença das crianças para propagandear a importância do livro e da leitura. O dia 29 de outubro é o Dia Nacional do Livro. E por que esse dia? Foi nesse dia, do ano de 1810, que se criou a Imprensa Régia em nosso país. Veio no rastro da chegada da Corte Portuguesa que fugia da invasão de Portugal pelo Imperador Napoleão Bonaparte. D. João VI trouxe para o Brasil milhares de peças da Real Biblioteca Portuguesa, formando o princípio da Biblioteca Nacional do Brasil. O primeiro livro publicado foi Marília de Dirceu, do poeta Tomás Antônio Gonzaga que, por ironia tinha sido condenado pela mesma Corte por participar ativamente da Inconfidência Mineira de 1789.

Aqui em Brasília, estamos comemorando esse dia especial com a realização da III Bienal Brasil do Livro e da Leitura, iniciada dia 21 do corrente mês de novembro. Dez dias de festa com lançamentos de livros, palestras e sessões de autógrafos, além de milhares de exemplares à venda com preços bastante acessíveis. E para celebrar o livro e a leitura vamos falar um pouco sobre um dos melhores escritores, Rubem Alves, falecido em julho de 2014. Considero como uma de suas melhores produções, o livro “O amor que acende a lua”, que já se encontra em sua 15ª edição (2011).

Nesse livro ele dá um passeio pelos ensinamentos dos filósofos Nietzsche, Bachelard e outros, além de citar os poetas Cecília Meireles, Drummond e Fernando Pessoa. Uma das descrições que mais gostei foi sobre a diferenciação entre paixão e saudade. Ele ensina que paixão só existe na ausência do objeto amado. É um desejo de posse que se satisfeito deixa de existir, tal qual a fome que desaparece depois da refeição. Mais precisamente, a paixão vive da ausência do objeto amado (a vontade de ter). O apaixonado cria o objeto da paixão, a vontade de possui-lo, mesmo estando presente.

Não é a ausência física, é o olhar do apaixonado que torna o objeto amado encantado. A dor da ausência física tem nome: Saudade. E esta é curada quando o objeto amado volta. Paixão não tem cura, disse Rubem Alves. Interessante, ainda, é a explicação dele para provar que poetas são eternos apaixonados pela vida. “Para eles a vida aparece sempre banhada por uma luz crepuscular”.

E sabe de uma coisa? Ele está certo ao definir o poeta como um “apaixonado pela vida”. Você já viu algum poeta deixar de cantar e exaltar a vida? Costumo dizer que o bom poeta, escritor, contista, ou seja, lá que gênero literário tenha, ele não representa, não inventa. Ele VIVE a história, o poema, o conto ou a crônica. Qualquer assunto é transformado, por palavras, em uma trama ou enredo agradável... Por quê? Porque ele está falando de sua paixão, a VIDA e quer compartilhar essa maravilha com seus leitores.

Surpresa nessa III Bienal do Livro e da Leitura. Assisti, presencialmente, a palestra de outro grande ícone da literatura infantil, Ziraldo. A sessão de autógrafos foi transformada em extensão da palestra, intitulada “Como ler para crianças”. Uma menina de dez anos perguntou-lhe como encontrava tanta inspiração para criar e escrever tantos livros (mais de 50). E a resposta foi a mesma de Rubem Alves, mas, com outras palavras. Explicou à criança que o poeta, escritor e contista é um apaixonado pela VIDA e está ligado, antenado em tudo ao seu redor. A simples queda de uma folha de árvore pode lhe render uma crônica, um conto, onde ele, o escritor, enfeita a situação com palavras, agrega outras lembranças e torna o enredo agradável ao leitor. É uma paixão, escrever é vida para o autor, completou Ziraldo.

Por conta dessa resposta de Ziraldo à criança-leitora, impressionada com a sua elevada produtividade literária, veio-me à mente as sábias palavras de Rubem Alves:
“Os poetas desejam voltar às suas origens. É lá que mora a verdade que os adultos esqueceram. Fogem da loucura da vida adulta. Buscam reencontrar a simplicidade da infância. Para se curar da adultite é preciso tomar chá de infância, virar criança de novo...”.
           
        Não à toa meus simples escritos, em forma de crônicas e contos, se referem em sua quase totalidade à simplicidade da infância, como se desejasse a ela retornar. Em sendo impossível, tomamos chá de infância, pois, como bem disse nosso poeta, “As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria! ”
           
           Celebrar esse dia de hoje, em meio à uma Exposição Bienal Dia do Livro e da Leitura, é sem dúvida um privilégio, sobretudo quando levamos as crianças e com ela compartilhamos a alegria da leitura e do convívio com escritores.

Brasília, 29 de outubro de 2016

Paulo das Lavras




 
III – BBLL -Brasília- 21 a 30 de outubro de 2016
Melhor lugar não há para se comemorar o Dia do Livro,
 em companhia dos leitores mirins, futuros escritores

 
Rubem Alves, alguns de seus livros entre outros autores





 
Ziraldo, autografando e respondendo como é capaz de criar e escrever tantos livros....


 
O melhor da vida é mesmo a leitura. Crianças são fascinadas pelas
historinhas, mesmo aqui, entre um voo rasante e outro da Esquadrilha
 da Fumaça, num dia do Aviador e da Força Aérea, à beira do lago de Brasília.





sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Criança tem cada uma: Um olho para o vovô e 120 anos para vovó

Era o mês de setembro, de 2016 e os pais de Pedro Henrique, que contava apenas sete anos de idade, viajaram de férias para o Rio de Janeiro. Foram dez dias que ele, o menino, ficou com os avós e a tia Lu. Rotina estabelecida com escola pela manhã, bem cedo, almoço em casa ou às vezes em restaurantes, academia duas vezes na semana com natação, futebol e judô, estudos diários tutorados pela tia Lu, comida farta com doces e guloseimas (dizem que avós são para estragar os netos e os pais que os corrijam depois...rsrs), brincadeiras na quadra de esportes, não dispensando a “guerra” de travesseiros à noite, longe das broncas da vovó e finalmente  dormir no quarto de hóspedes, para onde o vovô também se deslocou para lhe fazer companhia, cada qual em sua cama. Nos fins de semana contava com a companhia da priminha, Sarah, na cidade ou na chácara, onde as atrações eram mais interessantes, pois incluíam a piscina, extensos gramados para futebol, helimodelismo, lagos para pescaria, fruteiras (amoras e jabuticabas, frutas da estação), cães, galinhas e outros bichos além do cavalo para um passeio em pelo. E ainda podiam pilotar, de fato, o microtrator e passear no jipe sem capota, capaz de passar dentro da lagoa mais rasa, derrapando e jogando lama para todos os lados. É paraíso para qualquer criança submetida à dura rotina semanal de compromissos cronometrados.

 Tudo certinho, novidades a cada dia ajudaram o menino a “esquecer” os pais e concentrar-se na nova rotina, cercado de atenção e carinho por todos da casa. Para o avô, era um prazer renovado a cada manhã leva-lo até a escola. Era como reviver seu tempo de menino, com a diferença que enfrentava o percurso a pé, acompanhado apenas por uma das irmãzinhas que também estudava na mesma escola. Antes de sair para a escola, a vó nos reunia e fazia a oração, agradecendo a Deus pela noite tranquila que passou e invocava as bênçãos para o dia que se iniciava. Aí incluía-se a “viagem” de carro, de seis quarteirões até a escola, pedindo a Deus a proteção para o motorista e o menino, livrando-os do acidente. No caminho o menino observa atento o percurso e as dificuldades do trânsito e as vezes até aconselhando: “deixa ele passar, vovô”, quando um motorista mais apressado forçava a passagem de maneira perigosa.

Dois dias antes do retorno dos pais notamos alguma diferença no comportamento de Pedro Henrique, a começar por querer saber detalhes do dia e hora de chegada, pois havia sido informado sobre a volta deles que já se aproximava. Era uma ansiedade normal para uma criança que foi privada da companhia de seus pais por longos dez dias. Os pais foram recebidos pelo menino, à porta já aberta, com indescritível alegria. Abraços e carinhos, conversas sem fim, a alegria do presentinho recebido, chegou a hora da despedida dos avós e da tia Lu. Antes, porém, a oração conjunta de agradecimento a Deus pelo retorno dos pais. Pedro Henrique se ofereceu para fazer a oração, pois estva acostumado a fazê-la, quase sempre à mesa, antes das refeições. E a faz com muita compenetração e coerência, emocionando a todos. Mas, desta vez ele ultrapassou todos os limites de sua compenetração, causando-nos surpresa pelos inusitados pedidos a Deus. Após vários agradecimentos pela vida de todos, pelo alimento à mesa e que “Ele não deixasse faltar na mesa de ninguém”, pediu a Deus que “conceda 120 anos de vida à vovó, igual a Moisés”. Até aí a oração do menino continuava em ato contrito, mas, após pedir a Deus “ que também “dê outro olho” para o vovô enxergar melhor e não bater o carro na rua”...., ninguém conseguiu se segurar, pois, de fato sou cego de um olho, por acidente aos cinco anos de idade e tenho dificuldade no trânsito intenso, por falta de visão periférica do lado direito.

Pela primeira vez em nossa casa, por mais de 45 anos, o momento sublime e de respeito silencioso da oração, proferida por um membro da família, foi quebrado. Não houve quem segurasse o riso pelos inusitados pedidos do menino de sete anos. Primeiro o amor pela vovó, desejando-lhe uma longevidade como a de Moisés, relatada na bíblia. Segundo, e mais surpreendente ainda, foi o tirocínio do garoto conhecedor de minha deficiência visual e certamente deve ter presenciado, durante os dias em que o levei para escola, alguma dificuldade que teria enfrentado no pesado trânsito de Brasília, especialmente no rush do horário de almoço e, instintivamente, “pediu” a Deus que me concedesse “mais um olho”.... O mais engraçado naquela inocência e amor infantil foi a justificativa de seu pedido a Deus, completando para meu completo constrangimento: “... para o vovô enxergar melhor e não bater o carro na rua.....”. Além das gargalhadas, a minha em primeiro lugar e a consequente interrupção da oração, paguei mico com seus pais que devem ter imaginado que cometi muitas barbeiragens no transito, com o menino a bordo.

Bem, foram dez dias muito felizes, na cidade e no campo. Tenho certeza que o netinho gostou e nem sentiu tanto a falta dos pais. Mas, por via das dúvidas, vou esperar a próxima viagem dos pais para ver se terão coragem de confiar ao avô a guarda e o transporte escolar do menino...rsrs.
Criança tem cada uma....

Brasília, 30 de setembro de 2016

Paulo das Lavras 


A chácara é um paraíso para as crianças de hoje, submetidas
à dura rotina de 10 a 12 horas de agenda diária na cidade.
Ciclone, acostumado a comer cenoura na mão do menino, vem
 correndo ao primeiro chamado e oferece espontaneamente a cabeça para
 um carinho. Alegria e sentimento de compartilhamento entre ambos



Um olho novo para o vovô   não bater o carro na rua

120 anos de vida para a vovó...


Conhecendo o helicóptero de resgate dos Bombeiros, aterrissado
na quadra, ao lado de casa, aguardando um acidentado.

No McDonald´s, crianças adoram


Esporte na quadra em frente de casa, com chute certeiro ao gol, o único da temporada. Cansei de jogar no gol para segurar seus pênaltis.
Descobriu que se chutasse para o lado direito do vovô marcava mais gols, devido à minha falta de visão. Talvez, e também por isso, pediu em oração que Deus desse um olho para o vovô



Pilotando um Grippen, caça sueco, novinho, em exposição da FAB


Pilotar o microtrator e ainda apanhar ameixa amarela (nêspera),
bem acima da cabeça, é tudo que uma criança quer





Bichinhos mansinhos e que gostam de carinho não faltam na chácara





quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Os sinos de Lavras, acordes de Gounod e os canhões de Napoleão

 

Coloquei as mãos sobre aquele histórico canhão das tropas de Napoleão que lutaram na Sibéria. Enregeladas pelo cortante frio abaixo de zero na capital francesa, onde estavam expostos alguns daqueles canhões, fechei os olhos em busca dos “arquivos” da mente sobre a história que tanto me fascinava nos tempos colegiais. Respirei fundo, destravou-se o gatilho da alma que disparou as imagens armazenadas nos escaninhos da mente e que sempre são "exibidas" quando nos deparamos com um objeto ou situação que tem relação com os eventos. Imerso naquele filme que rolava na imaginação e depois de alguns segundos naquela letargia, ouvi a voz do colega que me acompanhava:  Professeur.., professeur, est ce que vous n´êtes pas bien? Apenas gesticulei com a mão e prossegui no meu sonho em quase estado hipnagógico. E esse gostoso estado de transcendência acontece com bastante frequência quando o menino se põe a ouvir a belíssima composição do russo Tchaikovsky, a Abertura de 1812. Ali não foi diferente, com o forte apelo presencial daqueles canhões verdadeiros e que foram protagonistas de um dos mais significativos eventos da História, tinha tudo para dar continuidade ao “filme” mental e não se deixar interromper pelo chamado do amigo ali presente, preocupado com a demora daquela "estátua" meditativa, paralisada e apaoiada com a mão sobre o congelado canhão. Mas, a ópera, cujo filme rodava em minha mente, um belíssimo épico que termina com o troar dos canhões disparando várias vezes com furor e o repicar de uma alegre e festiva sinfonia de fortes badaladas dos sinos de toda a cidade de Moscou anunciando a derrota do invasor, Napoleão Bonaparte. E as emoções não param por alí, ou melhor, começam logo na abertura da obra por uma melodia leve e tranquila evocando o hino russo. Em seguida o ambiente torna-se pesado e angustiado, retratando a ameaça das tropas napoleônicas. E nesse contexto entram os acordes da "Marselhesa", em tom triunfal, revelando a vitória dos franceses. Mas, como dito no começo, foi uma vitória inicial apenas, pois ao final da guerra o exército de Napoleão, que contava com 600.000 homens, ficou reduzido a apenas 40.000. Ele não contava com o “general inverno” e a destruição de Moscou que os russos incendiaram, justamente para não dar guarida ao inimigo. E aí então termina esse épico concerto de Tchaikovsky com o fragor dos canhões que disparam 16 tiros, seguindo-se o repicar dos sinos da catedral de Moscou e de toda a cidade, comemorando a vitória final sobre Napoleão. São elementos muito fortes que imprimem um profundo caráter emotivo na alma. Não há como não se entrar no enredo e não se deixar emocionar pelos acordes que têm cadencia muito dinâmica e diferenciada, de paz, bravura, euforias e tristezas do povo russo retratado como pacífico, que vive nos campos e sofre a violência da invasão napoleônica.

Diante de tanta beleza e harmonia sinfônica, que o menino sempre ouve em casa, no carro ou mesmo no avião, como ainda outros elementos marcantes de sua infância e juventude ali presentes, é impossível não disparar o gatilho que deslancha o filme na memória distante das doces reminiscências. Assim, chegam-lhe aos ouvidos, ou melhor, à memória, os sinos de sua cidade natal e outras reminiscências. Em todas as pequenas cidades do interior das “Geraes” o repicar dos sinos das igrejas fazia parte do cotidiano, nas festas de Semana Santa com suas procissões, nas missas de domingo, nos casamentos e até mesmo nos enterros.  Cada qual com seus toques e cadências próprios, característicos e facilmente reconhecidos, disparando emoções ora alegres, ora tristes.

Mas, além dos repiques dos sinos, havia em Lavras outro sonar bem característico. Às seis e trinta da matina, invariavelmente, a sirene da fábrica de tecidos nos avisava que o dia estava começando. Era o primeiro dos avisos para que às sete horas estivéssemos todos a postos, meninos na escola ou os operários na fábrica e nas Oficinas da Rede Mineira de Viação- RMV. Dali, da Fabril Mineira, ecoavam as estrondosas sirenes, ouvidas a cinco quilômetros morro acima. Até parecia que a longa Rua Direita servia de canal sonoro, tal era o volume de decibéis propagados. Era também a hora de o bonde deixar a sua garage, a famosa Distribuidora, onde a energia elétrica trifásica era transformada em monofásica e lançada à rede aérea para movimentar o pesado veículo sobre trilhos. Em cinco minutos chegava e partia de seu ponto final na confluência das ruas Melo Viana e Otacílio Negrão. Hora dos meninos se aboletarem nos estribos e driblar o cobrador Gerson e o motorneiro Cirilo que, compreensivamente, faziam vistas grossas à meninada que ia para o colégio e não tinha os cinquenta centavos para pagar a passagem.

Sinos..., ah, os sinos. O repicar dos sinos nas noites de natal ou nas festas de Semana Santa....A igreja matriz de Lavras, com sua imponente torre, era por assim dizer o ícone da cidade. Nela podiam ser vistos o enorme campanário mostrando parte dos sinos de bronze e os mecanismos do relógio de quase dois metros de diâmetro. Podia ser avistada de longe e seu relógio badalava a cada meia hora. Havia também um alto-falante de cada lado e que servia para a reprodução da Ave- Maria as seis, doze e dezoito horas. Não há quem não se lembre daquele tenor despertando a todos, bem cedo, com os melodiosos acordes de Gounod, ou então, a mesma Ave-Maria orquestrada com violinos a engalanar uma cerimônia de casamento com pompa e circunstância na igreja matriz, a mais preferida pelas noivas. Mas, o mesmo sino festeiro também provocava emoção oposta com seus tristes repiques nas cerimônias fúnebres. Talvez pelo sentimento de perda de um ente querido, amigo ou mesmo de um simples cidadão, ouvíamos compungidos aquele toque dolorido, espaçado como a nos convidar a refletir sobre os valores da vida. Vida efêmera que ali estava representada por aquele que partia para sempre. Em respeito, o comercio baixava as portas, numa especial deferência ao féretro em direção à última morada, logo ali adiante a quatro quadras da igreja. Morador que fui, por quase um ano, nas proximidades da esquina de Francisco Sales com Barbosa Lima, a poucos metros da Matriz, presenciei inúmeras vezes essas cerimonias. O sino da matriz de Lavras marcou profundamente a vizinhança com suas alegrias e tristezas e hoje, em distantes terras, resta-nos a alegria de suas reminiscências.

Mas, havia também outro sino, o da igrejinha de Santa Efigênia, no 8º Batalhão de Infantaria, nos altos da cidade. Construída em 1952/53 por pedreiros militares, como o saudoso amigo, sargento Bahia, o menino pôde acompanhar, de longe, toda a sua obra. Anos mais tarde, coroinha da paróquia se Santana, da Igreja Matriz, ajudava aos padres Tito, Luiz Tings, Miguel Moretti, Henrique Boeing e Raimundo Weillerman a celebrarem as missas de domingo, às oito horas da manhã naquela capela. Mas, o melhor mesmo era chegar mais cedo e tocar o sino de 15 em 15 minutos. Nem era preciso subir os degraus estreitos do campanário. Bastava alcançar o mezanino onde ficava o coral e dali se agarrar à corda e balançar de lá para cá, num espaço de pouco mais de três metros. Era como se fosse uma gangorra amarrada num galho de árvore. Aventura melhor não havia para o menino de 10 anos. Além de tocar o sino se divertia e enchia de inveja os demais garotos que não tinham autorização para subir até o campanário. Some-se a isso a alegria de contar para os adultos quem era o tocador do sino que chamava os fiéis para a missa dos domingos. Anos mais tarde, já interno no Seminário na distante Itaúna, assistiu ao filme “Marcelino Pão e Vinho”, e qual não foi a sua alegria ao ver a cena do pequeno Marcelino gangorreando na corda do badalo do sino de uma igreja, tal qual fazia na capela militar de Santa Efigênia. Mais tarde ainda, em visita ao Museu des Arts et Métiers, em Paris, assistiu à demonstração do efeito do Pêndulo de Foucaut, cuja experiência consistiu em amarrar uma corda no alto da cúpula da igreja e balançar continuamente, em movimento pendular, comprovando-se o movimento de rotação da terra. Ver aquele corpo balançando para lá e para cá, numa enorme corda de 67 metros de comprimento, pendendo da cúpula ao lado da igreja de Saint Martin des Champs, foi como um replay do menino balançando no campanário da igreja de Santa Efigênia badalando o sino para arregimentar os fiéis aos domingos.

Se antes o menino se emocionou com as imagens do filme de Marcelino agora tem presenciado, ao vivo, as salvas de tiros de canhão em Brasília. E os canhões foram majestosamente associados ao badalar dos sinos na belíssima composição de Tchaikovsky, a Abertura de 1812. Na capital, Brasília, excetuando-se o troar, ao vivo, numa única encenação daquela ópera na Esplanada, em comemoração ao Dia da Pátria, os canhões efetuam, frequentemente, a famosa salva de 21 tiros dando boas vindas aos dignitários estrangeiros nas visitas de Chefes de Estado. Essas tradicionais cerimônias protocolares, realizadas diante da rampa do Palácio do Planalto, além de outras próprias das comemorações militares, são executadas pelo Batalhão Caiena, da Guarda Presidencial, com seus reluzentes uniformes de gala ainda dos tempos do Império.

Mas, alegria diferente foi poder tocar e sentir os canhões de Napoleão com os quais lutou no rigoroso inverno russo. Por coincidência minha visita se dera justamente no período de inverno e a temperatura estava abaixo de zero grau. Aqueles canhões das longas batalhas napoleônicas, forjados em liga de ferro e bronze, estavam ali enfileirados, gelados e tendo ao fundo a bandeira nacional “Bleu, blanc et rouge”, na Place des Invalides. Aquele cenário, com todos esses elementos incluindo o ar gelado, me fez “embarcar” na célebre ópera de 1812, de Tchaikovsky, com a marcha da Marselhesa e depois os acordes das marchas russas comemorando a derrota do Imperador Napoleão, diante do tal “general inverno”, mais rigoroso que aquele gelado dia de dezembro de 2013 na capital francesa. Foi emocionante repousar a mão sobre o enorme e gelado canhão napoleônico e ao mesmo tempo desfilar na mente os acordes daquela belíssima ópera associada ao badalar dos sinos de minha cidade natal e também aos canhões do Batalhão Caiena em Brasília. Cenário perfeito para uma "viagem" no espaço e no tempo, de mais de dois séculos, pela milenar cidade de Paris, pelos campos gelados de São Petersburgo, a Praça dos Três Poderes, de Brasília e os sinos das igrejas da terra natal, tão presentes na memória.

Sinos..., por quem eles dobram? Eles dobram por ti, respondeu Hemingway em seu famoso romance imortalizado no cinema. Embora aquele autor fale muito da morte, da perda de vidas e os sinos nos chamem à reflexão, há também o enaltecimento à alegria da vida que as igrejas celebram em matrimônios, batizados e outras festas da liturgia. O próprio ato de convocar os fiéis, por meio dos sinos, já é uma celebração à vida, pois nenhum ser humano é uma ilha e congregar é preciso e faz bem à alma. Poucos se dão conta que os sinos dobram para eles que o escutam. Sei muito bem disso, pois entre nós que o tocávamos, a expressão era simplesmente: “vamos chamar o povo para a missa”. Quem nunca ouviu um sino repicar, ou não se recorda deles a soarem como que convidando-nos à reflexão, na alegria e na tristeza? E os acordes de Gounod, da belíssima Ave-Maria, ecoados do alto da torre da igreja?  E as salvas de canhões, entremeadas com efusivos repiques de sinos, imortalizados por Tchaikovsky em sua majestosa ópera? Ah... quem é que hoje, ao ouvi-los em qualquer lugar do mundo, não “viaja” de volta ao doce passado dos campanários das igrejas com seus sinos, relógios e alto-falantes?

Doces reminiscências..., os sinos e as sirenes da indústria de Lavras, os acordes de Gounod e os canhões do Batalhão Caiena, os de Napoleão rugindo ao lado dos sinos em belíssima sinfonia. Sabemos, sim, para quem dobram os sinos. Eles dobram por ti para que te lembres deles para sempre em doces recordações.

Brasília, 1º de agosto de 2014


Paulo das Lavras


 Igreja Matriz de Lavras e sua imponente torre. Década de
1960- rua calçada com paralelepípedo.
    Foto: arquivos de Renato Libeck

  

Igreja matriz de Lavras.
 Foto: do autor- 2015

Os relógios, alto falantes e o campanário dos sinos
Foto: Cristiano Assis


 
Belíssima foto, de autoria de Catarina Júlia, com o relógio e alto-falantes em detalhe.




A esquina de Barbosa Lima com Francisco Sales, a menos
de 100 metros da Igreja Matriz. A Ave Maria de Gunod me
despertava às 06:00 horas, com elevados decibéis e os sinos
 nos anunciavam as festas e crimônias de luto.
Foto do autor - 2015

Igrejinha de Santa Efigênia – 8º BPM – Lavras, onde o menino
gostava de tocar o sino nas manhãs de domingo.
Foto dos arquivos de Renato Libeck


Cia Fabril Mineira – fábrica de tecidos em Lavras. Sirenes que
 ecoavam às 6:30h, chamando a todos para o trabalho
Foto: arquivos de Renato Libeck


O bonde, que partia em sua primeira viagem, ao som das sirenes
                   da Fábrica de Tecidos, levando
operários e estudantes para o início das jornadas às 7:00 h em ponto.
Foto: arquivos de Renato Libeck



Cúpula de 67 metros de altura onde está pendurado o
Pêndulo de Foucault. Museu Des Arts et Métiers,  Igreja 
Saint Martin des Champs – Paris, dezembro de 2013
Foto do autor


Pêndulo derrubando a sequencia de pinos. Museu des Arts et Métiers
Foto:  Musée des Arts et Métiers 


Igreja de Saint Martin, onde está o museu do Pêndulo de Foucault,
Experiência de 1851 que comprovou o movimento de rotação da terra.
Paris- dezembro de 2013. Foto do autor


Canhões do Batalhão Caiena - Guarda Presidencial. Salva de
21 tiros nas solenidades de recepção a Chefes de Estado
Foto: PR

O troar assustador em dia de festa no QG do Exército, em Brasília
Foto: SecomEx


Os canhões de Napoleão, Praça des Invalides- Paris. Gelados, a menos
de zero grau, como a relembrar-me a derrota no inverno russo de 1812. Não
há como não imaginar e “ouvir”, ali mesmo e emocionar-se com a célebre ópera de 1812,
de Tchaikovsky, com a marcha da Marselhesa e
depois os acordes das marchas russas comemorando a derrota do
Imperador Napoleão, diante do tal “general inverno”, mais rigoroso que
        aquele gelado dia de dezembro de 2013 na capital francesa. 
 A lembrança dos acordes finais da ópera com a sinfonia dos sinos pipocando em regozijo pela vitória russa, e minha mão repousando sobre aquele canhão gelado, despertou lágrimas de emoção, pois também "ouvi e vi", ali na Praça des Invalides- Paris, naquele exato momento de emoções, os repiques dos sinos de minha distante cidade natal.

Paris, 13/12/2013. Foto do autor

 





E ouça o repicar dos sinos da Catedral de Moscou, ao final, e veja a beleza da ópera de Tchaikowsky:  https://www.youtube.com/watch?v=ZrsYD46W1U0




terça-feira, 26 de julho de 2016

Dez mil Ipês florescendo em Lavras...

Nos meses de julho e agosto florescem os ipês. Primeiro vem o ipê roxo, como aquele belíssimo em frente à Escola Firmino Costa. Depois chegam os amarelos, o branco e o rosa, quase sempre nessa ordem. São maravilhas que deslumbram nossa vista. Lavras, conhecida no passado por Terra dos Ipês e das Escolas, vem perdendo essa posição de destaque nas Minas Gerais. Um giro pela internet e vemos que muitas outras cidades mineiras ostentam seus ipês como pontos de atração para o turismo. Belo Horizonte, Varginha, São João Del Rei, dentre outras se destacam nas redes sociais. Isso sem contar Guaxupé, que já se auto intitula “terra do mel, do leite, do café e dos ipês”.

Mas, e nós, o que temos feito em relação aos ipês? Excetuando os cuidados na preservação das árvores já existentes, pouco temos feito para honrar o lema criado por Jorge Duarte. É verdade que no campo educacional, temos feito bonito. Aí estão a Ufla, o UniLavras, a Fadiva, Fagammon e outras escolas superiores além de inúmeras e tradicionais escolas de ensino fundamental e médio. Fazemos história desde 1720, quando chegaram os primeiros exploradores dos campos das lavras do funil. A igreja do Rosário é de 1724, a primeira escola, que funcionou nessa igreja, iniciou as aulas em 1783, há exatos 233 anos. Temos história com as Escolas e com muita honra pelos êxitos e isso é inegável. Temos mais de 30.000 alunos matriculados na cidade. Mas, porém, todavia, entretanto, contudo, não obstante, até porque e ainda assim... (ufa!), estamos perdendo terreno no tocante aos ipês.  Por isso, lanço aqui um desafio aos lavrenses, suas lideranças, para iniciarmos um projeto de plantio de 10.000 (dez mil) pés de ipê. Sim, dez mil, ao longo da rodovia 265, desde o trevo da Fernão Dias até a sede do Parque de Exposições, pouco depois do antigo aeroporto, numa extensão aproximada de 16 km. Também a Rodovia Zito de Abreu, que liga Lavras à Ribeirão Vermelho, com seus 9 km, merece o mesmo tratamento paisagístico. Seriam, portanto, 25 km de vias, além das principais ruas e avenidas da cidade. Amarelo de um lado, florido em agosto e roxo do outro, com as flores pujantes no mês de julho, tal qual se apresenta agora em toda a região..

Que a nossa cidade tem um acervo cultural invejável e belezas naturais mais que elogiadas, incluindo as mais belas mulheres de Minas Gerais, isso é inegável. Nesse último quesito, por exemplo, lembro das palavras de JK e também de seu secretário particular, Carlos Murilo Felício dos Santos, que recentemente esteve em Lavras para lançamento de seu mais novo livro sobre o ex-presidente da República. Para ambos, as moças mais bonitas de Minas Gerais são de Lavras. Da mesma forma se expressavam inúmeros outros visitantes e estrangeiros, que acompanhei à cidade em várias visitas à Ufla. Mas, por que não cuidarmos também da beleza paisagística que dá suporte ao lema de nossa terra? Plantemos ipês, muitos ipês, um para cada aluno matriculado e teremos então 30, 40 ou 50 mil árvores floridas em amarelo, roxo, branco e rosa. Porque não? Aqui em Brasília temos 140.000 pés de ipês distribuídos em toda a cidade. São 40.000 só de amarelos que estão começando a florescer, na sequência dos roxos que estão terminando a belíssima floração e que, agora, colorem o chão com suas pétalas formando um tapete carmesim. Maravilha, puro êxtase!

           Quero chegar à Lavras e ter o prazer de ler uma baita placa, um belíssimo outdoor fincado no trevo da Fernão Dias: “BEM VINDO À TERRA DOS IPÊS E DAS ESCOLAS” e entrar numa rodovia multicolorida, de mais de 12 km.  Minhas férias de julho/agosto serão passadas aí, sob o manto dos ipês floridos.... Estou sonhando?.... Acho que não! Ao contrário, acordei para a realidade de que estamos perdendo o título criado por Jorge Duarte (veja na internet a profusão de cidades que usam o ipê como atrativo turístico). O lema “Terra dos Ipês e das Escolas” é de autoria do jornalista e poeta Jorge Duarte, exaltando em poema as semelhanças entre as escolas e os ipês. Estes passam o ano inteiro despercebidos se preparando para as magníficas floradas de coloridos deslumbrantes nos meses de julho e agosto. Verdadeira festa multicolorida admirada, fotografada e cantada por todos da cidade, bastando ver nas redes sociais.  Também as escolas, segundo Jorge Duarte, à semelhança dos ipês, passam o ano inteiro preparando seus alunos, silenciosa e anonimamente, sem despertar a atenção para sua grande obra. No final do ano, então, começam as festas de formatura e a cidade se engalana para celebrar as vitórias. Só então aparece o resultado de um labor fecundo. “Os ipês florescem em agosto. As escolas florescem em novembro”, escreveu Jorge Duarte em seu poema de louvor aos mestres e à cidade. Belíssima analogia Escolas/Ipês. Façamos jus ao título de Terra dos Ipês e das Escolas, na sua totalidade.

Quem se habilita a apoiar a ideia de “reflorestar” a cidade com ipês? Vamos nessa? Veja, nas fotos a seguir, algumas rodovias enfeitadas com ipês amarelos e roxos. E diga para si próprio e externe sua opinião: É bonito demais! Vale a pena apoiar esse projeto. Eu acho. E você?

Brasília, 26 de julho de 2016

Paulo das Lavras

 
Ipê na entrada da cidade de Lavras.  
Foto dos arquivos de Renato Libeck


 
Estrada rural de Lavras. Alguém saberia localizar essa estrada?
Foto de Raimundo Danés – Agripoint, 1996, enaltecendo a Terra dos Ipês e das Escolas

 
Ipê em frente à janela do quarto onde nasci. Sítio Retiro dos Ipês - Lavras-MG


 
Cidade de Guaxupé-MG, autointitulada terra do mel, do leite, do café e dos ipês....
Lavras precisa cuidar para conservar seu lema criado pelo poeta Jorge Duarte



  
Rodovia, cidade de Ubiratã-PR  (foto: internet)


 
Rodovia não identificada     (foto: internet)


 
Avenida em Pato Branco- PR                (foto: internet) 



 
Descalvado- SP   (foto: internet


 
Belíssimo Caminho dos Ipês- Reserva Ambiental da EMBRAPA Suínos e Aves- SC
(foto: internet)


 
Estrada rural  com ipês roxos . 
  (foto:internet


 
Um ipê na cidade onde moro. Colírio para os olhos. Aqui são 140.000 ipês. Brasília-DF



 
Um ipê que plantei em minha chácara – Brasília




O Ipê de Rubem Alves, o poeta que tinha raízes em Lavras. Ele sabia porque amava os ipês. Dizia
 que as flores são a face visível de Deus, pois alegram a alma.