quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Cross country tour pelos EUA

(nº 1 da série: Minha vida nos EUA)  

O jovem executivo numa pausa de fim de semana para conhecer alguns pontos turísticos. 
Na Staten Island-NY, visitando a Estátua da Liberdade.
 Ao fundo as Torres Gêmeas que foram explodidas, anos depois,  por dois
  grandes aviões de passageiros, pilotados por terroristas .
 Foto do autor – 1977 – colorizada by Rogério Salgado 


   
    Quantas casas você já teve? Ou melhor, quantos lugares você visitou, ou passou temporadas de trabalho ou lazer e guardou recordações a ponto de considerar o local como sua segunda casa? Poucos tiveram a chance de estar e trabalhar em tantos lugares como eu. Estive em mais de uma centena de lugares, a metade no Brasil e a outra no exterior,  nas Américas do Sul, Central e do Norte e Europa. Em todos esses lugares passamos temporadas de trabalho, algumas de longa duração, desempenhando missões de governo na área da educação agrícola superior. Rica experiência, não somente profissional como também social. Conhecer a história de diferentes povos, tanto em nosso imenso país como em outros continentes, conviver com seus costumes, tecnologias, comidas e até mesmo a vida familiar em novos contextos, nos trouxeram muitas alegrias e surpresas. Em muitos desses locais a acolhida foi tanta que até nos sentíamos em casa. Foi com esse sentimento de pertencimento, de sua  casa,  que assisti perplexo, ao vivo, a criminosa explosão das Torres Gêmeas de Nova York, que aparece ao fundo da foto que abre esta crônica. 

     Sentir-se em casa? Ah..., em termos, e isto se refere à boa acolhida e aos amigos que lá deixamos, pois, o que contava mesmo e considerado o melhor da viagem... era o regresso, a volta para casa depois de longas temporadas longe do seu lugar. Mas, isto não nos impediu de criar vínculos afetivos com locais visitados mais frequentemente, como  Belo Horizonte, onde morei por um ano e a frequentava, mensalmente, por mais de vinte anos seguidos e agora pelo menos uma ou duas vezes ao ano. Também São Paulo, a capital e a aprazível e progressista cidade de São Carlos, onde estudei engenharia ou em East Lansing, em Michigan, Estados Unidos. Ali trabalhamos por temporadas, durante três anos, administrando 250 professores brasileiros matriculados em cursos de doutorado nas universidades norte-americanas. O mesmo podemos dizer da França onde também desempenhamos missões de governo em temporadas, no decorrer de mais de quatro anos. E a terra natal? Ah, esta é hors concours. Das centenas de crônicas já publicadas. 99% se referem ou citam o lugar onde nasci e o deixei há exatos 50 anos, justamente para correr o mundo, literalmente. Interessante notar que, durante as estadas no exterior, qualquer local ou evento, mesmo com mínimas semelhanças a acontecimentos anteriores, de nossa terra natal, despertavam, aguçavam as emoções e nos levavam para longe, bem longe no espaço e no tempo. A mente entorpecia, se enlevava e nos recordava pequenas histórias de um passado querido, amado, vivido na infância ou na juventude, na distante terra natal, como num "banzo" vivido pelos degredados. Tudo servia de gatilho para despertar e buscar nos escaninhos da alma as mais doces recordações. Pedaços de nossas vidas.
 
      Nesses mais de 50 anos de profissão, sendo quarenta e três com carteira assinada, de terno e gravata, sujeito às jornadas superiores a dez horas e os demais anos como consultor educacional, muitos causos e eventos marcantes se passaram em diversos desses lugares onde trabalhei. As narrativas a seguir não seguem necessariamente a ordem cronológica dos fatos e se restringem aos eventos ocorridos apenas nos Estados Unidos. E neste país, acabei criando vínculos e sempre há um desejo latente de voltar e rever a casa. Minha segunda casa por mais de três anos e a qual revisitei 10 anos depois. Na verdade, foi uma visita de trabalho, de uma semana inteira, bem ali no centro político do mundo, no Departamento de Estado, em Washington-DC. 

       Um célebre ator americano produziu um filme de muito sucesso – We Are The World e ao final contou que seu pai lhe recomendara: “... filho, aproveite quando for para casa, porque vai haver um momento em que você não poderá voltar para a casa”. Mas, pai, o que quer dizer com isso? ... Vai haver um momento em que as pessoas não vão estar mais lá. A casa estará, mas os entes queridos não”. Assim é a vida, com o tempo não será mais possível reencontrar as pessoas que amamos ou que um dia dividimos tarefas, compartilhamos alegrias, vitórias e derrotas. Embora falaremos apenas de nossa vida nos Estados Unidos, cabe registrar que  deixamos, há mais de 50 anos, a terra natal de Lavras, no sul de Minas, território cheio de tradições históricas e na qual minha família, os ancestrais, se inserem desde sua fundação. Nesse tempo de caminhadas encontrei em diferentes lugares novos amigos, aqui e no exterior. Carrego comigo o sentimento de que um dia, ali também foi minha casa. Mas, tempus fugit ! É hora de reencontros e assim, outro dia, 20/07/2024, marquei encontro com o passado de 66 anos. Reunimos quase uma centena de ex-colegas de internato do Seminário de Itaúna. Foi como voltar à casa, repleta de entes queridos. Mais de sessenta anos depois “a casa” estava lá, com os entes queridos, setentões e alegres. Agora, passados cinquenta anos de minhas andanças  pelos EUA, lá voltarei em novo cross country tour e pelo menos em um local, sei que vou encontrar uma sobrinha que lá vive e trabalha numa empresa multinacional de produção de blueberry, o mirtilo que, aliás, começa a ganhar mercado no Brasil. 
   Mas, vamos aos casos, de uma série de mais de uma dezena de crônicas, começando pelo roteiro de viagens (Cross country tour nos EUA) e passando por muitas cidades  daquele imenso país. Embora a missão tenha sido profissional, não entraremos em detalhes técnicos dos trabalhos ali desenvolvidos. Apresentaremos ao final, na 13ª crônica, alguns dos resultados técnicos de nosso trabalho naquele país, com o título: Minha vida nos Estados Unidos e o progresso das Ciências Agrárias no Brasil.


Estados Unidos – Um sonho? 
         Quando menino do 2º e 3º anos do curso ginasial, atuais 7ª e 8ª série do ensino fundamental, os professores de geografia exigiam que os alunos desenhassem um mapa de cada um dos principais países do mundo e nele fossem localizadas as principais cidades. Os professores de línguas estrangeiras exigiam, por outro lado, que decorássemos a conjugação de verbos e vocabulários temáticos, como viajando de trem ou avião, se registrado em hotéis, frequentando restaurantes e museus, encenando assim a  nossa presença numa grande cidade europeia (na década de 1950 e início dos anos 60, o Brasil era fortemente influenciado pela cultura francesa, passando, em seguida para a influência norte-americana do pós-guerra. Os professores eram tão exigentes que acabávamos memorizando a geografia dos principais países. Na década de 1950 falava-se muito da Inglaterra, França, Alemanha e Itália e muito pouco sobre Portugal, nossa pátria mãe. Hoje, distante no tempo, analisando as possíveis razões para isso penso que foi por causa do protagonismo daqueles países nas guerras mundiais. Por aqui, era notória a influência tecnológica da Inglaterra que dominava o mundo e o abastecia com suas modernas tecnologias e produtos de qualidade em ferrovias, navegação, tecidos, louças e utensílios domésticos, além de máquinas industriais - até mesmo a famosa enxada de capinar, da marca Duas Caras, tinha origem na similar inglesa Two Faces. No campo da cultura e das artes, a França imperava no Brasil. Moda e perfumes, somente parisienses. O idioma francês era ensinado desde o primeiro ano do ginásio (6ª série do ensino fundamental de hoje), ou seja, logo aos 10 ou 11 anos de idade dos estudantes. O idioma inglês começava  um ano depois, no 2º ano. Já o idioma Espanhol só era ensinado em um único ano, no curso Científico que corresponde hoje ao ensino médio, quando os alunos têm em média, 15 ou dezesseis anos de idade. Mas, o interesse do Brasil, no campo de ensino de idiomas, mudou após a Segunda Grande Guerra. Os Estados Unidos passaram a ser o grande protagonista no campo da economia mundial. Antes mesmo do término da grande guerra, os EUA convocaram a famosa Conferência de Bretton Woods, em New Hampshire, criando um sistema monetário e financeiro internacional para o pós-guerra, determinando dentre outras decisões, que o dólar seria a moeda padrão do mundo. A  partir de então passou a liderar as políticas mundiais de reconstrução e desenvolvimento dos países que participaram da guerra ou sofreram consequências. O Brasil participou da citada conferência, tendo inclusive coordenado a primeira reunião da ONU- Organização das Nações Unidas. Foi então que se criou o Fundo Monetário Internacional e o BIRD, braço financeiro da reconstrução mundial, sempre com a liderança dos EUA. Foi na esteira dessa Conferência que também se criou a USAID, a agência norte-americana de assistência internacional que, hoje vem sofrendo duros ataques por parte do próprio governo americano que está prestes a fechar, encerrar em definitivo as atuações dessa agência. Naquele contexto de pós-guerra, o Brasil alinhou-se às políticas emanadas de Whashington, assinando  vários convênios de cooperação, destacando-se os  acordos Militar (rompido por Geisel em 1978) e o da Educação, tendo como agente coordenador e financiador a USAID.

      Voltemos, pois, à influência americana no Brasil e no mundo do pós-guerra. No campo da cultura predominavam os filmes hollywoodianos, os farwest e todos os demais gêneros. Na minha cidade, Lavras, não se passavam outros filmes que não os americanos, à exceção de um ou outro francês. Os carros americanos começaram a chegar em abundância e houve grande ampliação de revendas das marcas GM/Chevrolet, Ford e Willys , responsáveis à época por mais de 80% das vendas de automóveis, furgões, caminhonetes e caminhões em todo o Brasil. No âmbito das indústrias, o Tio Sam tratou logo de financiar  a construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, ainda no decorrer da guerra mundial. Financiou a indústria de base nacional, estradas e incrementou a produção automobilística, implantando fábricas nacionalizadas das gigantes GM- Chevrolet (1957), Ford (1958) e outras, chegando a dominar 48% dos investimentos durante o governo JK.

     “No way”, sem chance, estava tudo dominado a partir dos anos 60 com supremacia inconteste, econômica,  industrial, militar e cultural.  E o menino das Lavras não foi diferente, sofreu toda essa influência cultural e tecnológica. Aprendeu a conversação fluente do inglês já aos 15 anos, depois de dispensar o curso de Alemão, oferecido gratuitamente pelo Padre Erico Alher, então diretor do Colégio Aparecida, onde estudava. Preferiu o cursinho gratuito, do Peace Corps. Não sabemos ainda, mas é bem provável que sim, se esta ONG também estaria engajada na política americana descrita nos arquivos da Biblioteca LBJ, como um dos braços da Casa Branca, que utilizava seus serviços de inteligência para obter informações, como era o caso da USAID e que hoje está sob acusação e investigação do governo americano e ameaçada de ser fechada em definitivo. No entanto,  essa realidade fugia à compreensão do menino que estava interessado apenas em praticar o idioma inglês com o jovem americano Bob,  no Colégio Carlota Kemper , todas as noites, de segunda a sexta feira. Era um prazer conversar e praticar o idioma estrangeiro com o simpático jovem voluntário do Corpo da Paz. Mais tarde  o menino matriculou-se no Yázigi, da professora Eliany Cicarelli, em salas do edifício onde funcionava a sede do Centro Acadêmico de Agronomia e a Rádio Cultura de Lavras. “No way”...., a cultura americana já estava impregnada no menino que gostava de John Kenedy e dos pop rocks Elvis Presley, Chubby Checker, Paul Anka, The Platers, .... and so on... Não havia internet naquela segunda metade do século passado e as únicas fontes para se ouvir a língua inglesa eram as rádios The Voice of America – VOA e a BBC-Londres. Músicas? Ah..., estas tocavam o dia inteiro nas rádios de Lavras, Rio e São Paulo, as mais sintonizadas na região.

           Interessante notar que o menino, ainda com os mapas desenhados por ele mesmo, aos 13 anos, sabia de cor e salteado a localização das principais cidades,  L.A., S.F. Detroit, Chicago, New York, a capital Washington-DC e outra não menos famosa: Miami, cuja grafia era lida como se fosse “me ame”, em português e não “maiemi”, com pronúncia em inglês (interessante notar que em todos os países latino-americanos se pronuncia daquela forma, tal qual o menino lia antes  de dominar o inglês). O menino sabia de cor a sua localização, ao sul da Flórida, mas, nunca imaginou que um dia conheceria aquela cidade com o esquisito nome “me ame”, com dois “i” e menos ainda que trabalharia naquele enorme país  com imensas distâncias que chegam a 4.500 km de costa a costa e cerca de 3.000 km  de norte a sul.

        Foi assim que lá cheguei, sem previamente almejar e sem nada buscar. Simplesmente cheguei para trabalhar, cumprir uma missão de governo, instalando-me em  amplo escritório na Michigan State University. Logo em seguia iniciei meu cross country tour cruzando os quatro cantos dos EUA. Chegava via Miami ou Nova York, duas vezes ao ano e em outras ocasiões também pela capital Washington, para temporadas de três a seis semanas no gelado estado do Michigan, mais ao norte, na região dos Grandes Lagos. Dali partíamos em constantes viagens para visitas a quase duas dezenas das 32 universidades norte-americanas, com as quais mantínhamos contratos para treinamento de nossos 250 professores brasileiros em cursos de PhD e especializações, da área de ciências agrárias. De nosso escritório, do Brazil-MEC/MSU Project, em East Lansing, partíamos em longos voos, de Lansing, a capital do estado de Michigan. Deste seguíamos para Detroit ou Chicago com um dos maiores e mais movimentados aeroportos daquele país (O´Hare, que, à época, operava com pousos e decolagens a cada 20 segundos). A partir destes nos dirigíamos para a costa leste, em Nova York,  Virgínia, Washington-DC, Carolina do Norte e Flórida,  ou para o centro, norte e sul como Ohio, Illinois, Wisconsin, Indiana, Texas, Novo México, Georgia, Arizona e para a costa oeste, na Califórnia, em verdadeiro cross country tour que movimentava todo um staff de apoio, dirigentes universitários e boa parte das mais de duas centenas de bolsistas de nosso projeto financiado pelo Acordo MEC-USAID/ AID 512 - L 090.

East Lansing – Michigan, nosso Headquarter
       Nosso escritório central nos EUA, com um staff de 12 colaboradores, situava-se nas dependências do Latin American Studies Center- LASC, no campus da Michigan State University, em East Lansing, ao lado da capital do estado, Lansing. Não foi pouco tempo naquele local, cuja coordenação direta estava a nosso cargo. Inaugurado em 1974, funcionou até junho de 1978, quando encerrou-se em definitivo o Acordo de Empréstimo AID 512- L 090 e o contrato com a Michign State University. Também não foram poucas milhas percorridas, com centenas de horas de voos, estada em aeroportos e hotéis, sem contar as inúmeras reuniões de trabalho na USAID,  no Departamento de Estado, na capital americana, e em várias das 32 universidades daquele país, contratadas para o treinamento dos professor brasileiros. Nessas universidades eram discutidos os  projetos de treinamento em  cursos de doutorado, cuja maioria das pesquisas foi realizada no Brasil, com a participação in locco, dos professores orientadores. Em todas essas viagens estivemos acompanhados por eficientes secretárias, como Mrs. June Mills, de nosso escritório de Michigan que se encarregava da logística e preparo das agendas de serviço em cada local e elaboração de memorandos de cada evento. 

       
Com a secretária, Mrs June Mills, nos jardins do edifício do Latin American Studies Center, na Michigan State University, onde se situava nosso Escritório. Eficiência e cordialidade no trato das complexas relações de nosso Projeto MEC/MSU- Brazil-MEC Project, AID 512-L 090 com 32 universidades norte-americadas e ainda a agência financiadora, USAID e o Departamento de Estado. Sua dedicação foi exemplar e conseguimos chegar a bom termo com todos os 250 professores brasileiros que lá estavam matriculados em treinamento nos cursos de PhD e Mestrado na área de Ciências Agrárias.
Foto do autor – LASC/MSU-MI, 1976    

 Os americanos são extremamente organizados, metódicos e isto facilitava nossos trabalhos. Qualquer reunião era seguida de relatório escrito e registrado. Até mesmo as conversações à distância, por telefone, eram transcritas em Memorandos  que chegavam imediatamente via telex ou ofício. Por isso, causou-nos grande estranheza e constrangimento. quando de nossa participação na International Conference on Agricultural Higher Education, patrocinada pela USAID-W e realizada de 02 a 08 de outubro de 1988, em Reston- VA. Havia 26 países, 116 participantes, mas, sobre a mesa apenas 25 relatórios impressos à disposição dos participantes estrangeiros. Faltou um..., justamente o do Brasil. Algo de errado deveria ter acontecido. Como pôde ocorrer tamanha falha, justamente o relatório daquele país, o Brasil, que melhor aproveitou os recursos financiados pela USAID, dobrando as metas de treinamento de docentes em cursos de PhD ali nos EUA? Seus impactos na educação agrícola superior e no desenvolvimento agrícola do Brasil foram notáveis. Ficamos a imaginar, ali, surpresos, de que adiantou abrir a portas e arquivos do MEC e das Universidades brasileiras, especialmente da UFRGS e UFV, UFMG,  UFRRJ, UFC e ESALQ-USP, para a comissão da USAID-W verificar o desempenho do programa de empréstimo daquela Agência Internacional? Por mais de um no e meio (1986/88), a comissão especial da USAID estudou a questão aqui no Brasil. Coordenada pelo professor William B. Lacy, do College of Agriculture/University of Kentucky e Margaret Sarles/USAID, passaram semanas no MEC e visitaram universidades brasileiras que participaram do referido  programa, decorrente do Acordo de Empréstimo daquela Agência Internacional. Conheciam todos os resultados e os impactos positivos que o programa desempenhou em nosso país. Mas, a USAID não liberou o relatório final. Foi bastante frustrante não encontrar ali o relatório da Agência sobre o desempenho do Brasil naqueles acordos de empréstimo. De qualquer forma, apresentamos para os outros 115 participantes do mundo inteiro e dos Estados Unidos, nosso volumoso relatório com os números comprovados do excelente desempenho do Projeto AD-512-L-090,  em forma de slides e lâminas de retroprojetor (overhead projector, o datashow de então, da era pré-internet). Somente ao final do evento, já no coquetel de despedidas conseguimos saber as reais causas de não se ter o relatório da USAID sobre seu desempenho no Brasil. O enigmático funcionário do Departamento de Estado disse, olhando para as pedras de gelo girando em seu copo de whisky: “heads were rolled”. Cabeças rolaram por aqui..., e não mais se estendeu nesta sensível questão. Embora eu imaginasse as óbvias razões , pude ainda, em outras conversas, confirmar  os reais motivos de não ter havido aquele único relatório da USAID. Mais de dois anos depois, em 21/02/1991, enviamos o Of. 595/91/MEC ao representante da USAID no Brasil, cobrando o referido relatório, mas não obtivemos resposta.  Mas esta é outra longa história a ser contada nesta série de crônicas.
 
      Naquele longo e demorado cross country tour pelos Estados Unidos foram  feitos muitos registros fotográficos e, lógico, aconteceram muitas outras  histórias interessantes e fatos inusitados como os dois acidentes aéreos que sofremos em Washington e Las Vegas. Quer saber mais? Tive, ainda, que ouvir um inusitado conselho: “quer ter um amigo em Whashington? Compre um cachorro”. 

 
“Quer ter um amigo em Washington?... Compre um cachorro”, disse-me o alto funcionário do Departamento de Estado Norte-americano... No, Sir, thank you..., prefiro ir sozinho visitar o Museum of Air and |Space e outros monumentos. 
Foto do autor 

      Além desses percalços, aconteceu ainda uma prisão-relâmpago ao desembarcar no aeroporto de Miami, com descabido interrogatório que recusei-me a responder a maioria das perguntas e pedi a presença de representante consular brasileiro, pois tinha Passaporte de Serviço visado pela Embaixada Americana, para exercer atividades de trabalho nos Estados Unidos, de interesse de ambos os governos. Também houve outra abordagem policial, bem estranha, de agentes secretos americanos, durante minha passagem, com registro fotográfico, próxima a uma manifestação de estudantes iranianos, em frente ao prédio de nosso escritório. Protestavam contra o regime do ditador Xá Reza Pahlavi, apoiado ostensivamente pelos EUA.  
 Mas, além dos eventos já narrados, há ainda, as memoráveis visitas às cidades de Nova York com suas Torres Gêmeas e a Estátua da Liberdade, e ainda  Washington-DC com seus inúmeros museus, monumentos, prédios públicos e o Cemitério Nacional de Arlington, onde se encontram sepultadas iminentes figuras históricas, como o ex-presidente John Kennedy, que tanto nos inspirou na juventude.  Ainda me lembro de sua famosa frase na campanha eleitoral de 1960: “Don´t ask what the United States can do for you..., but what united you can do for the Unirted States”.  Não menos interessantes cenários de filmes de farwest de Old Sacramento/Califórnia  e Old Tucson/Arizona. Quem não se lembra do badalado filme “A Primeira noite de Homem”, com a trilha sonora de The Sound of Silence, de Simon e Garfunkel? Foi ambientado na Universidade de Berkeley, a mais antiga universidade da Califórnia, e ali acorri, ciceroneado por uma bolsista brasileira daquela universidade, após uma gostosa feijoada de sábado, e pude, assim, contemplar aquele belo cenário. Essas e outras histórias interessantes, serão contadas na sequência desta série  sobre a minha vida na  terra do Tio Sam. Foram três anos, em temporadas de muitas viagens, em verdadeiro cross contry tour, travessias, cruzando o país de norte a sul e de costa a costa, com bastante proveito e aprendizado na gestão de projeto de treinamento de mais de duas centenas de professores brasileiros naquele país.

   
Sede da USAID em Washington-DC. Em vez de comprar um cachorro, preferi andar pela cidade e conhecer seus monumentos e museus. Na segunda foto, a Casa Branca, aos fundos, bem distante da grade que cerca a sede do Governo Norte-americano.
Fotos: Washington DC, 1- Internet . 2- do autor


      A convivência com os americanos, em especial nosso staff em Michigan, foi bastante prazerosa, pois tratavam-nos com distinção e muito respeito em nossas estadas naquele país, incluindo a visita de cortesia alguns anos depois. Foi uma rica experiência! Ali encontrei terreno fértil para cultivar as lembranças dos tempos de juventude. Lembranças calcadas na influência social e econômica, alicerçadas nos princípios de idealistas como J.F.Kennedy e seus antecessores que tinham como objetivo a política  da aproximação e da boa vizinhança. Naquele passado do pós-guerra, fomos, os jovens, conquistados mais pela empatia da atração cultural, estilo de vida,  música (rock´n´roll, twist, country...) e sobretudo pelo cinema hollywoodiano. Estes foram os elementos que moldaram nossa mente e o desejo de aprender o idioma inglês, embora as condições para isso fossem muito incipientes à época. Ao contrário de hoje, assusta-nos o retorno, ainda que de forma travestida, porém em  maior espectro, a política do big stick, que agora se apresenta de forma mais truculenta, para proteger os interesses econômicos dos Estados Unidos, o hard power. A coerção já chegou a alguns países da Europa e do continente americano como México e Canadá, com sérias e efetivas intervenções políticas e econômicas. Embora todo esse turbilhão político esteja atualmente em curso na América, sou grato ao seu povo, que sempre recebeu bem a este menino, especialmente a USAID, desde os queijos chedar no internato, aos 12 anos, até às duras discussões para modificações nas metas de treinamento de docentes brasileiros nos EUA e afinal aprovadas, passando ainda pelos gabinetes de trabalho em Michigan,  e escritórios de governo em Washington e, principalmente, na cooperação interuniversitária para o desenvolvimento da educação agrícola superior no Brasil, a base para o nosso progresso e liderança mundial neste setor, nos dias atuais. 

       Concluindo, podemos dizer que a travessia – cross contry tour -  que empreendemos pelos EUA foi longa e demorada, mas muito produtiva, com enorme sucesso científico e tecnológico para o nosso país. Mas, foi também muito prazerosa. Podemos, ainda, reafirmar com absoluta convicção que aquele ditado chinês, do filósofo Confúcio, está completamente certo, corretíssimo. Diz o ditado:  “Escolha um trabalho que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia sequer na vida”.  E assim aconteceu com o Menino das Lavras. Foi um trabalho muito dinâmico, interessante e jamais tomado pela rotina. Cada hora era diferente, literalmente. Pessoas diferentes, de diferentes lugares e nacionalidades, que acorriam aos meus gabinetes no Ministério da Educação em Brasília, em Michigan, nos Estados Unidos ou em Paris, na França, onde também trabalhei em missões de governo. Tudo isto agitava nossa mente fervilhante e o prazer do dever cumprido nos proporcionava enorme sensação de felicidade, sem igual. Ainda hoje, quando recordo aqueles tempos, é assim, com o coração e mente de menino. 
Amém


Brasília, 28 de fevereiro de 2025

Paulo das Lavras


 
Chegando por  Miami, Nova York ou Washington-DC, nosso country tour começava por essas três cidades. De Detroit ou Chicago, na região dos Grandes Lagos,  dotadas de grandes e movimentados aeroportos, partíamos para outras viagens por aquele imenso país. Nosso escritório ficava em East Lansing, no Michigan, cidade universitária, ao lado da capital do estado, Lansing,
 a 140 km de Detroit



  
Aproveitando o tempo de escala de voo internacional em Miami e 
conhecendo suas famosas marinas. Miami era uma das principais entradas nos EUA.
 Na segunda foto, no bondinho pelas ruas em declives de San Francisco na Califórnia
Fotos do  autor


  
Nas andança pela capital Washington (e sem cachorro...), uma vista à National Library
 e  ao Lincoln Memorial.
Fotos do  autor


 
Museu do Ar e Espaço (foto 1). Tudo sobre a história da aviação e nada sobre Santos Dumont. Só cultuam os irmãos Wright como inventores do avião. Aqui, admirei  o original do avião 
Spirit of St Louis, no qual o piloto  Charles Lindbergh relizou o primeiro voo solo,
 cruzando o Atlântico sem escala, em 1927. 
Na foto 2 o não menos famoso Museu Ford, em Detroit, berço do automobilismo.
Fotos do  autor


Nosso staff contava com eficientes colaboradoras. Além da secretária Mrs June Mills,  havia a Srtas Pam, Rhonda e Debbie que, alem dos planos de viagens, 
relatórios e preparação de agendas de encontros nas diversas Universidades ou
 no próprio Escritório em Michigan, como se vê nas fotos seguintes 
Foto do autor




Agenda no Escritório em Michigan
Foto do autor





Até mesmo recados telefônicos, recebidos de todo os EUA, eram registrados e processados
Foto do autor



Planos de viagens para a Cornell University/Ithaca-NY;  Univ. Wisconsin/Madison;
 Ilinois University/Champaing;  Purdue University./West Lafayette – Indiana e
 Michigan State University- East Lansing 
Foto do autor



Washington; East Lansing; San Francisco/Cal- University of Berkeley; 
University of California - Davis/Sacramento; University of Arizona/Tucson;  
Georgia State University/Athens e  Univ. of Flórida- Gainsville.
Foto do autor


 
Os bilhetes de passagens aéreas internacionais eram emitidos quase que
 exclusivamente para uso na empresa PanAm e raramente pela Varig
Foto do autor


John Hunter, coordenador local de nosso escritório em Michigan, era extremamente organizado. Reuniões e até mesmo telefonemas eram registrados em memoranduns com as principais decisões tomdas nas conversações à distância. Não havia internet nos anos 70/80
Foto do autor


Memorando de John Hunter - conversa telefônica sobre  agenda em Nova York
Foto do autor





Com Charles Laughling, em frente ao prédio da MSU. Grande colaborador, eficiente consultor 
em nossos escrtitórios nos EUA e também aqui MEC  e, mais tarde na ESALQ-USP. 
Faleceu prematuramente. Era , ainda, escritor de contos infantis.
Foto do autor



Capa de relatório 

  Flâmula que  mantínhamos em nosso escritório. Sobre o bureau, deixávamos bandeirinhas do Brasil para distribuição aos “chorões” de saudades da Pátria. Todos eles levavam uma para casa. Não resistiam, e se não a pediam, eram oferecidas.
Fotos do autor





Madison, a capital do estado de Wisconsin, onde está sediada 
a Universidade Estadual de Wisconsin e a maior bacia leiteira dos EUA
Foto do autor


Momento de descontração à caminho do aeroporto na viagem de volta. O menino que, na infância era fascinado pelos westerns, foi despertado pelo folheto turístico de  Old Tucson/Arizona, cidade cenário de filmes hollywoodianos.  
 Ali assistiu show de bang-bang, ao vivo, com Xerife e o bandido caindo “morto”,  do alto do telhado. Levantou-se, após a cena e tendo visto minha empolgação, pois consegui fotografar a cena da queda (foto 2), ofereceu-se para encenar um assalto para tomar meu passaporte ali no velho Oeste, conforme foto a seguir.  

Mrs June Mills, não estava muito afeita à minha máquina fotográfica e por isso barbeirou no enquadramento. 
Mas ainda assim, mostrei aos filhos e contei a história desse “assalto” no velho oeste americano...rsrs.
 Pena que antigamente não havia smartfones com fotos digitais, onde se pode repeti-las e editar inúmeras vezes. 
Aqui foi em máquina Kodak com rolo de fita colorida e não dava para repetir a cena....
Fotos-  Od Tucson, folder turístico/Arizona. Fotos 2 e 3, do autor




























 

 







sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

O menino, a perda de entes queridos e a graça de Deus

 Feliz aquele que na adversidade encontra apoio,

 força e conforto espiritual oferecidos por almas

 amorosas, sem nada pedir em troca. Graça de Deus!



Sueli, 29/06/1943 -  29/09/1959


          As redes sociais criadas pelos empresários Elon Musk e Mark Zuckenberger, são a oitava maravilha do mundo na área da comunicação. Não há quem, de sã consciência conteste isto. No entanto, aqui no Brasil, esses dois empresários, detentores das redes sociais mais populares, têm sido  muito combatidos por governantes que não gostam de ver, em tempo real, suas trapalhadas divulgadas e condenadas pelos cidadão comuns. Hoje, felizmente, foi revogada uma das  mais controversas encrencas de exagerada intromissão na vida privada dos cidadãos, e na esteira das discussões, juízes afoitos ameaçando até mesmo a proibição de tais redes por aqui. Ora, nós, os cidadão comuns, seríamos privados do uso de tais redes de comunicação? Teríamos que voltar a escrever cartas manualmente, enviar pelo correio, de malotes pelas estradas e encravados na burocracia da lenta distribuição ao destinatário?  E as fotos coloridas? Teriam que ser também impressas – caríssimas e ainda pagar tarifas do lento correio monopolizado pelo governo? Ligações de voz voltariam a ser via  DDD, pela Embratel, também do governo e que cobrava preços exorbitantes a cada segundo registrado? Ora, ora, hoje assisti a dois eventos marcantes e de certa forma relacionados entre si. O primeiro foi a revogação do tumultuado decreto governamental que interferia nas operações via PIX, a forma  de pagamento direto, instantâneo, sem burocracia e cuja lambança governamental, indevida e protestada com veemência pelos cidadãos, foi capaz de reduzir em poucos dias em 30% as transações comerciais e entre pessoas. Mas, as redes sociais, adoradas pelas pessoas em geral, têm outras vantagens. É por meio delas que nos comunicamos com os familiares e amigos distantes geograficamente. Não basta a comunicação verbal ou escrita instantâneas, pois há as chamadas de vídeo e os links para participação em eventos. Posso participar de uma reunião no Rio de Janeiro e outra em Manaus com diferença mínima de tempo entre uma e outra,  ou reunir familiares em vídeo-chamadas coletivas, sem que haja necessidade de deslocamentos, cada qual em sua casa, nas mais distintas regiões do país ou no exterior.   

        Foi assim que hoje recebi um lindo vídeo, pela rede social da família de Lavras, gravado pela sobrinha Jane, na fazenda Retiro dos Ipês, da varanda da casa na  qual nasci, situada a 1.000 km de Brasília, onde vivo há 50 anos. O vídeo mostra quatro Siriemas passeando tranquilamente pelo lindo jardim frontal, com belíssima palmeira triangular (Dypsis decaryi) e uma majestosa  mussaenda totalmente florida na cor rosa. Não bastasse a beleza paisagística do local, ainda aparece como fundo musical uma trilha sonora, o tintilar ao vivo e estridente dos cantos de joão-de-barro e alguns canarinhos da terra, também chamados de “cabeça de fogo”. Linda e sonora sinfonia para o elegante desfile daquelas não menos elegantes “senhoras” em desfile para nosso deleite. Vi, revi e revi algumas vezes..., inacreditável a cena! Não por acaso disparou o gatilho do inconsciente. Um turbilhão de lembranças aflorou à mente do menino das Lavras. A primeira, evidente, o amor àquela fazenda onde nasceu, a infância ali vivida até os três anos, quando então se mudaram para  cidade e as estadas passaram a ser apenas nos finais de semana ou períodos de férias escolares. 

 
Um vídeo mostrando Siriemas desfilando calmamente pelo jardim frontal da casa da fazenda onde nasci,
 tendo como trilha sonora o tintilar dos canarinhos e joão de barro, foi o suficiente para disparar o 
gatilho das reminiscências da infância juventude.
Foto: Jane Lima -  jan. 2025

           
             A segunda lembrança, diante daquelas linda imagens, que calaram fundo o coração do menino, foi a visita que fiz ao primo e então vice-prefeito de Lavras, Edson Alves de Abreu, o Duti que reside na mesma casa de meu bisavô, na sede principal da Fazenda Três Barras, bem ali junto ao trevo da rodovia que liga a cidade de Nepomuceno à Fernão Dias, (BR 381). Era um dia de chuva fina, pegamos o Ford Ecosport, traçado 4x4 e vencemos a colina de estrada de terra molhada, escorregadia e 1.800 metros adiante chegamos à Fernão Dias. Dali, 500 metros à esquerda, sentido São Paulo, alcançamos o trevo de entroncamento da ligação de Nepomuceno. Neste, há uma entrada para a antiga e bonita sede da fazenda, carregada de lembranças da infância. 

          Com esse doce e saudoso preambulo, passamos ao foco principal anunciado pelo título da crônica. Desde cedo o menino experimentou a dor do luto. Aos dez anos acompanhou a perda de seu bisavô, Fortunato Gaspar de Abreu, querido pelas crianças que gostavam de pegar e puxar sua longa barba branca e dele receber carinhos, sempre sentado em sua confortável cadeira à porta da copa da grande casa de sua fazenda, ali na zona rural das Três Barras, município de Lavras,  às margens da BR381- rodovia Fernão Dias, inaugurada cinco anos depois de sua morte. O féretro foi acompanhado por centenas de pessoas da região que, em veículos próprios ou coletivos, o levaram até a cidade. Minha mãe, sua neta, rodeada por toda a família, estava inconsolável. Ali nascera, naquela casa de fazenda, cercada de carinho do avô que ora partia para sempre.  O menino, vestido de calça e paletó de casimira, conforme mandava o costume daquele ano de 1955, aguardou juntamente com os demais irmãos na casa do avô, à rua Francisco Sales, 794, onde terminaria o velório. Foi a sua primeira experiência dolorosa, sobretudo por presenciar a dor, o pranto incontido da mãe, que fora recebida  como filha, na casa do avô Fortunato, onde nascera como a primeira netinha do patriarca e mais tarde ali frequentava, quase todos os finais de semana com seus filhos, incluindo  este menino. O primeiro luto foi bastante dolorido para o menino, pois seu bisavô, a quem todos chamavam carinhosamente de Padrinho Nato, deixou lembranças calorosas e muitas saudades, pois naquela grande fazenda éramos tratados com carinho e atenção por todos e não apenas pelo quase centenário velhinho de fartos e encanecidos cabelos e barba branca bem tratada. Seus olhos eram azuis, herdados de seus ancestrais que emigraram de Portugal em busca das riquezas e vida melhor, ali no arraial dos Campos de Santana das Lavras do Funil. Naquela fazenda havia de tudo para as crianças se divertirem, córregos, pomar com todas as frutas imagináveis, moinho de fubá com amplo rego d´água onde deslizávamos sobre tábuas e troncos de madeira imitando jangadas,  amplos terreiros para secagem de café, onde podíamos brincar e jogar futebol com os adultos, curral cheio de vacas leiteiras, carro de bois, ovelhas, cavalos de sela e ainda o melhor de tudo, a hora do lanche com mesa farta de quitandas típicas dos mineiros, saladas de frutas e doces. Verdadeira festa semanal, afora aquelas do calendário cultural de então, como Folia de Reis, São João,  e tantas outras, sempre precedidas de missa e leilão de prendas. Verdadeiro santuário de memórias. Doces reminiscências da infância a toda hora relembradas. Minhas passagens por ali nunca cessaram, pois fica bem à margem da Fernão Dias e era mais emocionante, ainda,  quando passava por cima, voando de Brasília para o Rio ou de São Paulo para BH, cujas rotas se cruzam exatamente nesse ponto geográfico. A bordo e no silêncio dos grandes aviões comerciais ou de jatinhos executivos da FAB, o menino contemplava toda aquela área onde passou a infância e não conseguia conter as lágrimas, com vontade louca de saltar de paraquedas e ali ficar ao lado dos pais, avós e bisavós, curtindo os doces tempos da infância. A dor da saudade dos entes queridos não acaba nunca e parece ser mais dolorida quando se está à distância e muito mais quando se está a bordo de um avião, contemplando os lugares, a casa, tudo enfim e não se pode tocar, sentir.

             Três anos depois da partida do querido bisavô, em 24/03/1958, o menino passou por outro grande e terrível trauma, a morte por afogamento de seu coleguinha de internato no distante Seminário de Itaúna. Fui o último a deixar o vestiário após o banho de piscina e notei que restavam as roupas com as iniciais JVS, de José Valter dos Santos, o baianinho. Não tendo sido encontrado em nenhum local do clube, só restava a fatalidade. Depois de muitos mergulhos de alguns adultos, o corpo foi encontrado na parte mais funda da piscina, cujas águas, um pouco turvas, não permitiam visualizar o fundo. Após o resgate e embora todas as técnicas de ressuscitação tivessem sido aplicadas, o Baianinho estava morto, pois ficara demasiado tempo no fundo da piscina sem que ninguém notasse sua falta. Ali, ao lado, só restava-me chorar em desespero, inclusive com a terrível lembrança da própria “quase morte” num grande reservatório de água, mas que, por graça da pronta ação de minha mãe, que conseguiu resgatar-me do fundo e aplicou imediata técnica de salvamento de respiração e massagem cardíaca, fez-me ressuscitar, expelindo água pela boca, nariz e todos os poros da pele. Me lembrava perfeitamente dessa operação de meu próprio salvamento e o desespero da mãe com o menino de 3 anos no colo. Agora, estava ali, diante de situação idêntica. O velório de Baianinho, à noite toda, foi um dos grandes sofrimentos do menino no distante Seminário, longe dos entes queridos, seus familiares.
No ano seguinte, já de volta para casa, faleceu Sueli, com apenas 16 anos de idade, a  mais nova das cinco irmãs. Duro golpe, totalmente inesperado para o menino de 14 anos, embora ela fosse portadora de reumatismo infeccioso e passasse mal com crises cardíacas, durante todos os períodos de inverno. Nunca imaginávamos que aquela doença, nem tão grave assim, pudesse levá-la à morte. Porém, numa tarde, cinco minutos após receber medicação endovenosa, sofreu choque anafilático e veio a óbito instantâneo. Inacreditável, ali desfalecida, ainda na cama, em casa, onde recebera os cuidados de enfermeiro. Aquela linda jovem, de olhos  claros e bonitos cabelos cor de mel, ali estava, inerte. Como podia ser aquilo? Dor lancinante para todos os demais seis irmãos e a mãe ali ao redor. Deus cuidou de consolar os corações de toda a família que, de repente se viu sem a presença daquela amada e linda menina. Mais quatro anos se passaram e o pior aconteceu, a partida de nossa mãe, com apenas  49 anos de idade. Naquela tarde de abril de 1963, voltava do colégio, por volta das 17 horas e passei na casa de meu avô, onde ela se encontrava convalescendo de forte crise de hipertensão. O médico da família, Dr. Silvio Menicucci, lá esteve no final da manhã. Disse a meu avô, seu amigo na política municipal, que ela não passaria daquele dia, tendo em vista o elevado grau de dilatação do coração.  Cauteloso, o avô não disse isto a ninguém. Sequer imaginávamos que o desfecho estava próximo. Após a vista naquela tarde fui para nossa casa a cinco quarteirões de distância. Às 22 horas fomos acordos com a infausta notícia de que nossa mãe acabara de falecer. Pânico geral nos seis filhos. Nosso pai foi imediatamente buscado na fazenda. Se o choques das perdas do bisavô, do Baianinho e da irmã de apenas 16 anos, foram doloridos e intensos demais, receber a notícia da perda da mãe foi algo imensurável. Vencer aquela pequena distância, a bordo do carro do tio que fora nos buscar, pareceu uma eternidade. Chegar ao quarto e vê-la ainda nos braços da irmã mais velha que a acompanhava, foi a coisa mais terrível que aconteceu em toda a vida do menino. Seu corpo, embora ainda quente, mas inerte, não respondia ao abraço desesperado dos filhos. Dor lancinante no coração. A mãe que lhe dera a luz, lhe salvara a vida no afogamento, lhe acariciava e confortava quando aos cinco anos de idade perdera totalmente a visão de um dos olhos em acidente doméstico, a mesma mãe que lhe carregara no colo por quase dez meses em convalescência de cirurgia de pleurite aos dois anos, a mãe que acompanhava seus bons desempenhos nos estudos e torcia para que passasse no vestibular de Agronomia dali a pouco mais de seis meses... Não..., era demais para o menino, não podia ser verdade que aquela doce criatura de apenas 49 anos nos deixava e não mais estaria entre nós para colher os frutos de seu amor, traduzidos em sucessos para os filhos... 

               A ausência prematura da mãe deixou um imenso vazio em nossos corações e mal havíamos sido curados da dor do passamento prematuro de uma imã. Juntos, os seis irmãos, enfrentamos as adversidade da ausência da mães e fortalecemos nossos laços. A irmã mais velha assumiu a direção da casa e com a ajuda de tios e tias e ainda nosso pai que passou a vir da fazenda mais vezes que o usual de antes, apenas nas quartas e sábados, pudemos continuar dali para a frente. O menino recebeu bênção especial, pois estudando que estava para o vestibular, encontrou almas caridosas na família do Sr. Clélio de Lima Santa Cecília, a esposa dona Elisa e filhos que o acolheram, diariamente, todas as tardes para estudos juntamente com o colega de colégio, Fernando Costa Santa Cecília. Deus foi magnânimo e misericordioso com menino, pois conseguiu sublimar a dor da perda da mãe, concentrando-se nos estudos e lograr êxito no vestibular, classificando-se em primeiro lugar na Esal/Ufla federalizada apenas dez dias antes. Fernando também se classificou nos primeiros lugares do mesmo vestibular e nos formamos juntos. No dia da  formatura minha mãe não estava, mas tive certeza de que aquele abraço apertado, amoroso, de dona Elisa Santa Cecília tinha um recado e o perfume de minha mãe que se encontrava, havia quatro anos, na Glória do Senhor. E ela, Dona Elisa, ainda me lembrou, com lágrimas nos olhos; “Eu não disse, quando você chegou à minha casa, que Deus é misericordioso e que tudo iria dar certo? Deu certo, você e Fernando estão se formando hoje e terão um futuro brilhante e uma vida muito feliz!”.  Vocês merecem, completou dona Elisa, levando-nos às lágrimas. Feliz aquele que na adversidade encontra apoio, força e conforto espiritual oferecidos por almas amorosas, sem nada pedir em troca. Graça de Deus!      

Mesmo diante do mais duro golpe, a perda prematura da mãe, Deus foi duplamente misericordioso, 
pois deu ao menino uma segunda mãe que o acolheu durante os estudos para o vestibular e
 ainda o presenteou com o primeiro lugar no vestibular de Agronomia. 
Foto: Coleção Renato Libeck 

             Não há nada mais dolorido que ver a partida prematura, seja de um ente familiar ou mesmo um amigo. Foi assim, também, com a menininha Beatriz Guimarães, prima de apenas seis anos de idade, vitimada por insidioso mal. Ali, naquela noite de agosto de 1966, ficamos ao lado de poucas pessoas, toda noite velando aquele anjinho que nos ensinou a meditar sobre os valores da vida. A perda desses e outros entes queridos ensinou ao menino a valorizar a vida e expressar o amor enquanto ainda há tempo. Foi assim com meu saudoso pai. Deus nos recompensou pelo curto tempo de vida de nossa mãe, concedendo ao Sr. Clovis,  a graça de viver até os 101 anos (sim, cento e um anos...) e assim pudemos retribuir-lhe todo amor, carinho e atenção que mereceu. Seu passamento foi muito sentido, mas não com o amargo dolorido que experimentamos com a falta dos entes queridos que partiram prematuramente.  Por conta de sua longevidade e o carinho recebido em vida, tivemos a  certeza de que cumprimos com o dever de filho, retribuindo-lhe amor e carinho. Minhas memórias escritas, em forma de crônicas são cheias de gratidão aos pais e aos entes queridos que nos cercaram em vida, cuidaram de nós e no apoiaram nessa longa jornada. Mantenho vivas as suas memórias, celebrando suas vidas e legados, com muito respeito, ternura e amor. Assim, hoje, dedico esta crônica à minha irmã, Maria José de Abreu e à Dona Elisa Santa Cecília – in memoriam, duas mães que Deus enviou para acolhimento e conforto da alma do menino.


Brasília, 31 de janeiro de 2025

Paulo das Lavras




 
Dona Liquinha, aos 34 anos, partiu prematuramente alguns anos depois 

 
Sr. Vico, aos 80, viveu até os 101 anos



Casa de Sr. Clélio e dona Elisa Santa Cecília. A janela à direita, no segundo 
andar, era a sala de estudos de Fernando e este menino.
Foto: coleção Renato Libeck


Mariinha, irmã mais velha, assumiu a casa na ausência da mãe.





















quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

... e 2025 chegou!



... e 2025 chegou! Um Novo Ano, um novo dia que brilha. Renovemos nossos desejos, nossos planos e metas. Cuidemos com amor das três maiores preciosidades que Deus nos concedeu:
nosso corpo (a saúde – a vida); nossa família e nossos amigos

Brasília, 01/01/2025 


    

 

domingo, 29 de dezembro de 2024

Um Papai Noel escritor-historiador

 

       Recebi pelo correio um pacote de Papai-Noel com vários livros, totalizando quase 2.500 páginas de leitura. Presentão para quem gosta de literatura memorialista. Embora o primeiro mensageiro tenha entregado o pesado pacote na casa de um familiar em Lavras, este cuidou de encaminhá-lo a meu endereço em Brasília. Chegou às vésperas do natal.  Mas, esse Papai-Noel generoso não teve como ficar no anonimato, pois suas impressões digitais, mais que isto, estavam gravadas nas páginas iniciais de cada livro: tem nome, foto e ligeira biografia.  Trata-se de um papai-noel especial, o Dr João Amílcar Salgado que, além de médico e historiador da Medicina no Brasil, também foi professor na UFMG e produziu ensaios sobre o ensino médico em nosso país. Pena que não o conheci antes, quando dirigi, no Ministério da Educação, por algum tempo,  os programas de Residência Médica, pois certamente o teria convidado a integrar a Comissão Nacional de Residência Médica- CNRM, atividade primordial na formação de médicos, pois normatiza, credencia e financia bolsas de estudos para os médicos residentes. 

     Não bastasse seu campo profissional, o Dr. Amílcar adentrou e com competência a área da genealogia e por meio dela enriqueceu e continua a enriquecer a história, a memória de sua terra natal, a Vila de Nepomuceno e região, que abrange Lavras, berço da família Salles, ramo do qual ambos, primos, fazemos parte. Já me deliciei com os causos do “Sargado” em sua farmácia na Vila onde os “coronéis”, incluindo um dos meus tios, faziam ponto para contar casos e causos escabrosos e passar medo nos meninos arteiros. Como fui um desse “arteiros”, me lembro bem das ‘ameaças” do canivete para fazer suposta e aterrorizante cirurgia nos meninos, verdadeira tortura mental aos pirralhos que tratavam de evitar aqueles adultos, mas nunca deixavam de fazer estripulias. 

      Terei leitura por um bom tempo, ainda mais nos causos do riso dourado da Vila, pois gosto de ler, reler, assinalar com marca-texto e “viajar” no tempo e no espaço, pelos locais onde vivi e conheci, relembrando pessoas que nos marcaram. Deixo aqui o meu abraço de agradecimento pelo carinho da amizade desse notável professor da UFMG, de reconhecida competência na Medicina e na sua história de nossa terra. Desejo a ele e toda família um Ano Novo cheio de realizações.

Brasília, 27 se dezembro de 2024

Paulo das Lavras


 
Papai-Noel sempre foi generoso. Nunca se esquece de ninguém. Desta vez, nas vestes de escritor memorialista e historiador, bateu à minha porta com um volumoso pacote. Cinco livros, sendo quatro de sua autoria, totalizando 1.902 páginas para leitura, além de outro, o Erário Mineral, de 532 páginas. Presente melhor não há para quem, como eu, gosta e se dedica à leitura e ainda arranha algumas linhas escritas no gênero da narrativa memorialista.

 









 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Meu conto de Natal - 2024

 Chegou o Natal... e é incrível observar como nós, os adultos, também nos transformamos em crianças. Relembramos aquela Criança que um dia fomos, sonhando o tempo todo com a chegada do Papai-Noel carregado de presentes e com a certeza de que não faltaria presente para nenhuma criança. Todos receberiam o mimo de Natal. 

Haja expectativa, mas, hoje, para nós, a expectativa é maior, ao contemplar a alegria inata das crianças, os olhinhos brilhando em busca do Papai Noel ali no shopping ao entregar-lhe um cartinha contendo seus pedidos e, no dia de Natal, correr para a árvore enfeitada em busca do seu sonhado presente. Não esperam nem a ceia familiar da meia noite, tamanha a curiosidade, ansiedade para receber o pacote e ver com seus próprios olhinhos o que haveria dentro de tantas embalagens enfeitadas. 

Será que o Papai-Noel atendeu meu pedido, indagam a todo momento. Ah..., hoje, para vovôs corujas..., não tem dinheiro que pague contemplar esse cenário de pura alegria, puro amor infantil. E foi assim que rebuscando meus arquivos encontrei uma crônica que escrevi, para o Dia dos Pais, há alguns anos e que bem retrata esse sentimento, o amor das crianças, muito bem retratado na metáfora do conto “O Pássaro Encantado”. O autor, Rubem Alves, muito bem nos definiu, a nós os adultos, especialmente os avós: Adultos que tem crianças morando dentro de si e têm medo da solidão”! 

“As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!” (Rubem Alves)

E neste Natal de 2024, quero, por meio da crônica a seguir, que retrata o amor das crianças, levar o meu abraço a todos os amigos e leitores de minhas crônicas e contos. Natal é época maravilhosa em que celebramos o nascimento do Menino Jesus. Tenho muitas crianças morando em mim e agora é hora de festejar, abraçar, dar e receber presentes, como gostam as crianças. Que as crianças, que também moram dentro de você, extravasem a alegria, o Amor. 

Saúde...! Boas Festas e um Ano de 2025 cheio de realizações. 

Veja a crônica:  (copie o link e cole-o no seu navegador)

  https://contosdaslavras.blogspot.com/2018/08/a-saudade-que-encanta-as-pessoas-e-o.html