sábado, 15 de abril de 2023

Um desastre no aeroporto de Confins

As notícias sobre acidentes aéreos provocam calafrios naqueles que têm o avião como meio de transporte e dele fazem uso constante. Mas, na noite de 20 de julho de 1989, assistindo ao noticiário de TV, não pude evitar o calafrio e grande estupefação ao ver as cenas do grave desastre com um DC-10/10 da United Airlines, em Sioux/Iowa, pois havia se passado apenas dois anos que eu sofrera o terceiro acidente aéreo, ocorrido no aeroporto de Confins em Belo Horizonte, no qual poderiam ter morrido todos os passageiros, caso tivesse havido explosão ao cair no solo. Os dois acidentes anteriores com o jovem executivo internacional aconteceram ali mesmo nos EUA. Nesse desastre de Sioux, que acabara de assistir, havia 296 pessoas a bordo, sendo 285 passageiros e 11 tripulantes. Destes, 111 morreram, 285 sobreviveram, dos quais 172 tiveram ferimentos e 113 saíram ilesas entre os escombros em chamas. Problemas hidráulicos causaram o desastre, tornando o avião incontrolável, sem flaps ailerons, profundores, leme de direção e freios auxiliares do trem de pouso. Diante da TV, com aquelas cenas chocantes, um filme tenebroso passou pela minha mente, relembrando os desastres aéreos pelos quais passei, especialmente um deles com as mesmas panes hidráulicas na aeronave, assim que decolou de Washington-DC. O outro acidente, que sofri nos EUA, foi em Las Vegas/Nevada. Neste, em voo de Chicago para São Francisco e quando já estávamos na metade da rota, de quatro horas de voo, houve incêndio a bordo, com pânico total entre tripulantes e passageiros das primeiras poltronas. Curvou à esquerda e em voo de quase ponta cabeça alternou para o aeroporto mais próximo, Las Vegas, onde uma tripulante ficou internada, com ferimento nos olhos e intoxicada por inalação de fumaça. Durante esse acidente ainda estava um pouco traumatizado com o anterior, de Washington, ocorrido apenas 10 dias antes, no voo para Cleveland/Ohio. Partimos do aeroporto Nacional de Washington-DC, com escala programada para Cleveland e destino a Lansing, a capital de Michigan, onde tínhamos o escritório central de nosso projeto nos EUA, na Michigan State University.  O voo, num Boeing 727-200, com bem mais de 100 passageiros, prometia ser tranquilo, tempo bom, num final de tarde do dia 14 de novembro de 1977, uma segunda feira.  Logo após a decolagem de Washington-DC,  cerca de 15 minutos de voo, a viagem foi abortada e alijou-se o combustível sobre o mar. Foi desviada a rota para o Dulles International Airport, no estado da Virgínia, terra de Samuel Rhea Gammon o fundador da Universidade Federal de Lavras, minha terra natal e onde eu ainda era professor. A aeronave perdeu totalmente o sistema hidráulico, ficando sem nenhum controle de direção horizontal e vertical, tal qual aquele DC-10 de Sioux. Mas conseguiu pousar numa pista maior, com espuma anti-fogo e redes de aço no final da pista, já com dezenas de carros de bombeiros e ambulâncias a postos. Felizmente ninguém se  feriu. A tragédia de Sioux foi evidentemente maior e traumatizante, com inúmeras perdas de vidas. Ao contrário, e felizmente, nosso avião conseguiu pousar no eixo da pista e parou com o bico na rede metálica que havia sido montada no final da pista, no aeroporto de Dulles/Virgínia. Em vez de ambulâncias, usamos ônibus para chegar à estação de passageiros, sãos e salvos e em seguida conduzidos a um hotel, em  Reston-VA, onde passamos a noite nos recuperando do susto.

             Mas, voltemos a Confins. Naquela noite de 13 de dezembro de 1987 embarcamos com muita animação, em Brasília, com destino a Belo Horizonte, onde participaríamos de uma reunião do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia – CONFEA na sede do CREA-MG. A animação incluía a escolha do voo. Havia dois voos com diferença de apenas cinco minutos naquele horário de partida, por volta das 19:00 horas. Nos tempos da chamada Ponte Aérea, as passagens eram vendidas em sistema “code share” e podia-se escolher voos em qualquer companhia aérea, a Varig, Vasp e TransBrasil, únicas operadoras da Ponte Aérea.  O voo da Varig, saiu antes, mas preferi o TransBrasil, pois estava praticamente estreando os novos Boeings recém lançados no mercado, o 737-300. Havia lido na imprensa que esses novos Boeings eram motorizados com turbinas GE, super silenciosas e mais possantes que as antigas Rolls-Royce que equipavam os 737-200, barulhentos. Tanto assim que, logo em seguida aviões com essas barulhentas turbinas, como o Sucatão da Presidência da República, um velho Boeing 707, com quatro dessas turbinas, foram proibidos de pousar em Nova York e principais aeroportos dos EUA.

            Avião novinho em folha, estofamento impecável com cores neutras, som estereofônico disponível em cada poltrona, um luxo e tinha apenas 300 horas de voo, informou-me o comandante a quem visitei na cabine, antes da decolagem. Uma hora de voo e a aproximação e descida foram feitas com bastante turbulência ao romper algumas nuvens cúmulos-nimbus, os temíveis CB, nuvens negras, espessas, pura água condensada, quase uma rocha de gelo. Uma forte tempestade assolava o aeroporto de Confins. Ainda assim, ao contrário do voo da Varig, que decolara cinco minutos antes do nosso e que desistira do pouso, arremetendo a proa para o Rio de Janeiro, o nosso garboso e novíssimo 737-300 de prefixo PT-TEA, comandado por um destemido piloto, aventurou-se a pousar em meio à forte tempestade de chuva e ventos. Desalinhou do eixo da pista e simplesmente caiu sob forte rajada de chuva e vento. Despencou de uma altura de uns dez metros, atirado que foi pela violência da tempestade. Partiu a asa esquerda, que bateu primeiramente no solo. Também o trem de pouso e a turbina ficaram para trás, aos pedaços e a aeronave adernou para esquerda.

Um barulhão aterrorizante, tanto pela queda brusca ao solo como pelos impactos da asa esquerda e turbina arrancada ainda na pista, aumentando assustadoramente o barulho da lataria e metais arrastados pelo asfalto afora, gramado e lama, numa velocidade inicial de 400 km/h. Nada resistiu ao impacto e tudo foi se arrastando pelo chão, parte atolando no gramado e outra pelo asfalto soltando fagulhas. Pedaços do avião, fuselagem, turbinas se desprenderam e, no interior da aeronave, além do pânico e gritaria, objetos “voavam” sobre nossas cabeças, as maletas, mochilas, tudo, tudo mesmo que estava no bagageiro superior veio abaixo, ferindo levemente alguns passageiros. E o pior foi que assim que bateu no chão, apagaram-se as luzes da cabina. Escuridão total. Verdadeiro terror, portas e janelas de emergência que não se abriam, gritaria geral e pânico total entre os mais de cem passageiros. Diante da iminência de desfecho fatal, o subconsciente em pânico logo disparou a imagem das filhas pequenas e da esposa que ficariam sem o arrimo e... a exclamação em surdo brado “Oh meu Deus”, apelando a Ele pela vida.  Havia muitas crianças, pois era período de férias e a gritaria ficou maior ainda com o choro dos pequenos e das mães ou acompanhantes. Passou-se uma “eternidade”, sob pânico total  e nada das portas se abrirem. As aeromoças pareciam estar em desespero, para não dizer pânico, diante do emperramento da porta dianteira esquerda da aeronave retorcida. Depois de alguns segundos no escuro, que pareceram uma eternidade, as luzes da cabine se acenderam. Respirei aliviado, imaginei que haveria tempo suficiente para a fuga dos escombros. A presença de luzes era sinal que não havia incêndio e o piloto religou a A.P.U. (APU,  Auxiliary Power Unit, pequena turbina embutida na cauda do avião e que fornece energia para os sistemas de comunicação/iluminação e refrigeração). Ainda não..., pensei eu, não há fogo, mas a explosão do combustível derramado dos tanques situados nas asas, que estavam despedaçadas.... “Perna para que te quero”. Mas, como sair daquele charuto, fechado, que poderia explodir? Para piorar, havia fumaça na asa direita, justamente do meu lado e embora a janela de emergência situada sobre a asa já tivesse sido aberta pelos passageiros, ninguém se aventurou a sair por ali, até porque a fumaça começou a invadir o interior da aeronave, causando tremendo pavor nos passageiros ainda abalados com o choque brusco do avião no solo. Felizmente, vimos depois, que não se tratava de fumaça de incêndio, mas apenas vapor d’água de chuva sobre os restos das turbinas fumegantes. Mesmo assim, a única coisa que vinha à mente de todos era o iminente e temido incêndio, precedido de explosão, tal qual se vê nos filmes. Crescia o pânico entre as mais de 100 pessoas que ali estavam confinadas. Da sexta fileira de assentos (6C), no corredor já apinhado de gente apavorada, e sem condição de me mover, gritei para dois homens, jovens e fortes, para ajudarem as aeromoças a forçar a porta dianteira, que estava emperrada. Por sorte, uns três homens conseguiram abri-la, mesmo depois de tentarem forçá-la para fora, quando o certo seria puxá-las para o interior da cabina. Aberta a porta, as comissárias, então, acionaram imediatamente a rampa inflável, o tobogã, para alívio do sufoco coletivo.

Por incrível que pareça, após a abertura daquela porta da salvação, aumentou-se a confusão. Uma mulher, jovem ainda, entrou em pânico, com descontrole total. Estava nas últimas poltronas e ao ouvir a gritaria quando da abertura da porta dianteira, e sem ter como se locomover pelo apinhado corredor, simplesmente subiu nos espaldares das poltronas e em desabalada carreira passou por cima da cabeça de todos, e com olhos arregalados e grande estupor, gritava: “meu noivo é piloto e sei que o avião vai explodir“. Vazou pela porta de saída, aos gritos e atropelando a todos que se abaixavam para proteger a cabeça de sua tresloucada caminhada por cima de todos. Iniciada a fuga, de nada adiantaram os apelos das aeromoças para que todos se livrassem de pequenas bagagens de mão, sapatos, objetos cortantes, pontiagudos ou simples metais e plásticos rígidos que porventura estivessem portando nas roupas. Atropelo geral e no “salve-se quem puder”, nem as crianças tiveram prioridade, embora chorassem muito e as mães aos gritos para alcançar em primeiro lugar a porta com a rampa inflada. Logo chegou minha vez, pois a massa de passageiros comprimidos era tal que não foi possível dar prioridade a ninguém. Só mesmo em situações com cheiro de morte para as pessoas se sentirem possuídas do verdadeiro instinto animal de sobrevivência a qualquer custo, incontrolável. Passar por cima dos outros, empurrar e gritar eram atitudes perfeitamente “normal” para todos em pânico.  Antes dessa confusão infernal eu havia tirado os sapatos, caneta e chaves do bolso do paletó, retirando também a gravata, tal qual mandam os manuais de segurança aeronáutica. E lá fui rampa abaixo, empurrado pela multidão apressada. A descida foi rápida pelo improvisado tobogã, mas...,  a surpresa maior foi cair sentado sobre uma verdadeira piscina de mais de 10 mil litros de querosene, o combustível de aviação altamente inflamável e que ainda escorria dos tanques sob as asas quebradas. Mal senti o terrível e temível cheiro do combustível, que prenunciava incêndio iminente, tive o ímpeto de me levantar rapidamente e correr para longe.  Correr?... Ah..., antes mesmo de levantar-me, levei uma estocada lancinante nas costas, de quebrar as costelas. Uma mulher, de físico avantajado, não retirou os sapatos de salto alto. Este, muito comprido e de ponta bem fina e, como um petardo, de peso multiplicado por 10, em razão da velocidade e força G, causou-me um impacto de quase uma tonelada nas costas. Fui atirado novamente ao chão, quase afogado no alagado de água e querosene e, pior, com o salto do sapato cravado nas costas, me lambuzei ainda mais e quase me afoguei de vez. Ah..., não! Pensei, o que é isso? Já me afoguei aos três anos num grande reservatório de água e agora em meio à lama de água e querosene e ainda com risco de ser incendiado como um homem tocha?

Encerrava-se assim a primeira fase da pavorosa fuga. Mergulhado, pisoteado e quase afogado no mar de querosene sufocante sob o peso de vários passageiros que caiam velozmente da rampa, enquanto alguns até nos ajudaram a sair daquela perigosa situação. Perigosa e engraçada, pois havia uma mulher presa, pelo pé, nas minhas costas. Éramos todos candidatos a virar uma tocha sem salvação caso eclodisse um incêndio.  Ainda assim, lembro-me que achei graça naquela inusitada cena, uma  mulher com as pernas para cima, em “V”, mostrando toda a sua anatomia, dentro da poça de lama, gritando e esperneando,  iluminada pelas lanternas dos comissários. Mas, não havia tempo nem clima para apreciar a inusitada cena daquela senhora, com pernas para o ar, pois o combustível da aeronave, com a asa estraçalhada e barriga enterrada, continuava jorrando ali sobre todos nós. Em outra circunstância até daria para ficar ali a contemplar o esquisito e intrigante cenário de uma mulher deitada de costas na lama  e o pé agarrado nas minhas costelas perfuradas. Mais aterrorizante foi passar ao lado dos escombros da turbina, com superfície em brasa, fervilhante, fumegando, fazendo barulho de fritura e soltando fumaça sob a chuva que caía. Parecia espargir fagulhas, porém debeladas pela própria chuva torrencial. Paradoxalmente, descobri depois, que a própria chuva evitou a explosão do avião que deslizava de barriga e arrancava fagulhas no asfalto que eram apagadas pela enxurrada de mais de um palmo de altura. Não fosse isso, as fagulhas entrariam em contato com o combustível derramado (que flutua sobre a água) e  nem estaríamos aqui para contar a história. Mas, na hora ninguém se lembra disso e prevalece o pânico e, na iminência do pior, quando você sabe que não há mais jeito, eis que os pensamentos adquirem força e afloram, de novo, as imagens da família, das  filhas pequenas e da esposa que ficariam desamparadas. “Oh, my God”, o que será delas? Cuide para que eu não falte. E graças a Esse bom Deus... o avião (os restos) não explodiu e todos se salvaram.

             Alguns, no entanto, tiveram  ferimentos leves, provocados por objetos que “voaram” dos bagageiros superiores ou quando pularam direto para o chão, sem a rampa inflável. Uma mulher grávida, quase no fim da gestação, foi empurrada pela porta traseira, que finalmente conseguiram abrir, porém desprovida de rampa inflável. A gestante caiu na lama e rompeu a bolsa amniótica. Foi a primeira a ser socorrida pelos bombeiros que chegaram cinco minutos após a queda da aeronave. Novamente, pernas em ação e agora em pânico incontrolado. Mesmo atolado num mar de querosene, descalço, saí em desabalada carreira, em meio à escuridão da noite, iluminada apenas pelo lusco-fusco das luzes do distante terminal de passageiros e os faróis e roto-lights das ambulâncias e bombeiros que se aproximavam em velocidade e ao mesmo tempo evitavam atropelar os passageiros em desabalada fuga para longe dos destroços. Em segundos ganhei a pista de pouso lateral, ainda que com dores lancinantes da estocada nas costas. Corri até atingir local supostamente seguro. Ao longe pude visualizar as luzes do terminal de passageiros, que me pareceram situar-se a quilômetros de distância, tal o desespero da fuga diante de iminente explosão da aeronave em pedaços. Muitos carros e ambulâncias do Corpo de Bombeiros chegaram em socorro, com seus faróis iluminando a escuridão daquela trágica noite de tempestade. Recolhido, resgatado e levado em ambulância para o terminal de passageiros, onde fui  medicado e, ainda na sala de atendimento médico, pedi para fazer uma ligação interurbana, pois ainda não existia o aparelho celular e se existisse estaria perdido, danificado pois estávamos mergulhados e encharcados de querosene e lama.

            Agora, quando descrevo esses fatos, muitos anos depois, minha esposa lembrou-me que estranhou as minhas palavras naquele telefonema. “Você verá pelo noticiário da TV que o avião em que eu viajava caiu, aqui em Confins, mas eu estou bem, só levei uma estocada nas costas, de sapato de salto alto, de uma mulherona...rsrs”. Nada mais comentei, despedi-me, dizendo que iria para o hotel tomar um bom banho e antes pedir à companhia aérea que fornecesse roupas ou recuperasse minha bagagem deixada na cabine do avião.

Dois dias depois cheguei em casa, de roupa nova, completa, terno, gravata e sapatos, comprados na loja Delano, esquina de Afonso Pena com Espírito Santo, ali mesmo em BH, pois cheguei ao hotel enlameado, sem os sapatos que havia perdido na louca correria, , roupa danificada, cheiro terrível de querosene, pronta para descarte. Coincidência, no voo de volta a aeronave também era um Boeing 737-300, novo, de prefixo PT-TEB, irmão gêmeo do acidentado, cujo prefixo, matrícula, se diferenciava por uma única letra sequenciada. Fiz boa parte da rota na cabine de comando, pois naqueles tempos ainda eram permitidas visitas, e ali conversei com o comandante sobre o acidente anterior e normas de segurança de voo. Depois, no silêncio de minha poltrona, contemplando o infinito céu azul, a dez mil metros de altitude e na tranquilidade da alma relaxada em comunhão com Deus, agradeci pela Vida, por mais aquele livramento e cheguei à conclusão que nenhum trauma ficaria, ou seria capaz de fazer-me abandonar a paixão de voar. É verdade que, em acontecendo, o desastre desestabiliza o emocional, mas tudo tem seu valor, por pior que seja o acontecimento. Na viagem de volta, o silêncio da alma falou mais alto. Na descrição sobre o silêncio da alma, tão bem colocada por Rubem Alves, encontrei a explicação do porquê quando estou nas alturas, voando a quase mil por hora, encontro inspiração para meditar e colocar a alma no lugar certo, mesmo com as apavorantes lembranças dos dois acidentes aéreos sofridos anteriormente nos Estados Unidos e este, de Confins, mais grave ainda.

Pode parecer paradoxal, mas como continuar apaixonado por aviões depois desse acidente? Outros já haviam acontecido nos EUA e como, então, depois de tantos apuros ainda conservar o fascínio pelos voos? Simples..., acalento o "Sonho de Ícaro",  o sonho e a paixão por voar, voar... subir, subir... asas de ilusão... sonho audaz de balão ... como expressou o cantor e compositor Biafra. Ali, nas alturas, no silêncio da aeronave e a contemplar as nuvens e a imensidão do espaço, é praticamente o único lugar onde consigo relaxar e soltar completamente a alma. Ali, literalmente nas nuvens, não tem o stress urbano, com noticiário escabroso da TV mostrando tragédias, assaltos e tudo quanto é desgraça humana e ambiental. Somente as nuvens, o infinito e a terra lá embaixo, distante e com diminutas formas visíveis. Em minhas reflexões cheguei à conclusão que já derrotei a Dona Morte várias vezes. Cinco ao todo, três acidentes aéreos, dos quais não carrego traumas. Ao contrário disso, os traumas que tenho são com os outros dois acidentes/incidentes acontecidos na infância. O primeiro, uma grave cirurgia aos dois anos de idade e o segundo, um afogamento aos quatro anos. Desses dois, ainda hoje, carrego sequelas físicas e psicológicas. Mas, também tenho de um deles a gostosa lembrança de passar inteiramente outros nove meses, 24 horas ao dia, no colo dos pais, irmãs e amigos da família,  com suas doces canções de ninar e causos de bichos na floresta, que ainda tenho registrados na memória. Relembro-os com carinho e doçura na alma. Nunca os esqueci, como também a cena de choro de todos ao redor do menino, ainda com três anos apenas,  reanimado do afogamento, enrolado em toalhas e expelindo golfadas de água com as massagens e respiração boca a boca feitas pela mãe que desesperada clamava a Deus pela vida do filho.  Assim, diante de tamanhas e reiteradas sortes, estou vencendo aquela Velha de capa preta e foice na mão, por 5 x 0. Mas, sabemos também que se ela, a dona Morte, vencer uma única partida neste jogo da vida, de nada adiantará o novo placar de 5 x1, pois prevalecerá a única vitória dela.

Não penso nisso! Melhor é ter, sempre, um projeto de vida, qualquer que seja a sua faixa etária. Ter um projeto de vida é encontrar coisas que se goste de fazer, aprender a dizer ‘não’, dar muita risada, enfrentar o medo e buscar felicidade, o sucesso junto à família e amigos, que são as dádivas que Deus colocou no mundo para tomar conta de nós. Amém!

                                                                                                       

Brasília, 12 de janeiro de 2016

 

Paulo das Lavras


 PT- TEA  737-300 TransBrasil- avião novinho em folha, com apenas 300 horas de voo. Asa e turbina esquerdas quebradas, deixando  pedaços na pista e arrancando fagulhas que se apagavam sob a enxurrada de um palmo de altura... 
Foto: Airspeed – Planespotters.net



 
Jornal O Globo 15/12/19 


 Jornal F. de S. Paulo 15/12/1987
As empresas aéreas omitem informações à imprensa, por receio
 de repercussões negativas à sua imagem








sábado, 25 de março de 2023

Segurança de Alimentos

          O IFS-International Featured Standards promoveu em Brasília, no dia 23/03/2022, um Roadshow sobre Gestão de Segurança de Alimentos. O evento teve como objetivo a apresentação de palestras sobre a implantação do Sistema de Gestão da Segurança de Alimentos atrelado às exigências das normas sanitárias para as indústrias que fornecem para o varejo e mercados consumidores. O Agro  é uma das áreas mais importantes nessa questão de segurança dos alimentos, pois a qualidade dos produtos agrícolas começa na escolha da semente para a semeadura, o preparo do solo, o plantio, uso de fertilizantes e defensivos contra pragas e doenças, qualidade da água no processo produtivo e de beneficiamento, colheita, armazenamento e transporte para o mercado consumidor. São atividades consideradas “dentro da porteira” e de inteira responsabilidade do produtor rural, embora algumas empresas atacadistas se responsabilizem  por parte cadeia de armazenagem e comercialização. A participação do Engenheiro Agrônomo é fundamental em todo o processo, de modo a garantir a aplicação das melhores técnicas e seguir as normas estabelecidas pelos padrões de qualidade exigidos por leis e regulamentos federais, estaduais e municipais. 

 
Paulo Roberto e Marjorie Stemler, no Roadshow sobre Segurança Alimentar 
Foto: M. Stemler

A Associação dos Engenheiros Agrônomos - AEADF se fez representar nesse evento pelo seu Diretor Secretário, Eng. Agr. Prof. Paulo Roberto da Silva. Também presente a Presidente do CREA-DF, Eng. Fátima Có e a Eng. Agrª Marjorie Stemler, diretora da Globba Soluções Corporativas e membro do Conselho Fiscal da AEADF.  A programação do Roadshow- IFS foi a seguinte:

-Abertura - Fátima Có - Presidente do CREA-DF

-Novidades IFS e Previsão para IFS Food 8 - Caroline Nowak - IFS (International Featured 

            Standards)

-Case IFS: Dificuldades e gargalos de um processo de certificação - Keila Bisinoto - Linea  

           Alimentos

-Abordagem comparativa: Legislações Sanitárias e a Certificação das Indústrias de  

           Alimentos Madalena Maria S. Coelho - DIPOVA/SEAGRI

- A importância das embalagens para a segurança dos alimentos - Irene Popper - IFS

- Fiscalização da propaganda de alimentos/Panorama sobre as regras de propaganda sob a

              perspectiva sanitária - Renata de Araujo Ferreira - ANVISA

-Programa de Gestão de Fornecedores - Milena Fernandes - QIMA/WQS

 -A importância da Análise de Pesticidas em Alimentos - Fernanda Juliano - Eurofins

- Requisitos da Política de Recursos Hídricos para a Gestão da Água na Indústria Alimentícia           Gustavo Antônio Carneiro - ADASA

-Mesa Redonda - As legislações sanitárias frente a aplicação das normas IFS -      

              IFS/ANVISA/ADASA/SEAGRI

 

No contexto da Segurança Alimentar, propusemos em nome da AEA-DF, a formação de um grupo de trabalho para levantamento das normas existentes, atualizá-las e incluir propostas com novas diretrizes regulatórias da Qualidade da Produção Agrícola, lembrando que os produtos que chegam ao mercado, especialmente os de origem de pequenos produtores, nem sempre atendem aos requisitos necessários. Citamos, por exemplo, um caso simples que comumente ocorre no mercado de frutas e legumes: a colheita precoce. Isto afeta a qualidade dos produtos, pois são colhidos muito antes de se atingir o ponto ideal de “grana”. Os frutos colhidos prematuramente perdem qualidade e têm pouca massa, menor concentração de açucares, tornando-os insípidos e sem as demais características organolépticas desejáveis de cor, brilho, transparência, textura, odor e sabor. São comuns os casos de bananas, manga, uva, pêssego, figo, abacaxi (bem azedo e polpa com pouco suco) e outras frutas que, adquiridas nos supermercados e frutarias, levadas para a casa nunca conseguem chegar ao ponto “maduro”. Tendo saído da câmara fria dos Ceasas ou supermercados, os frutos entram em decomposição acentuada e em apenas três ou quatro dias enrugam a casca e fermentam, tornando-se impróprios para o consumo. Alguém volta ao supermercado para reclamar da fruta perdida? Não! Prejuízo certo,  com descarte imediato e sensação de ter sido enganado e ainda ter deixado de consumir a fruta preferida.

 A venda de frutos extremante verdes é comum  porque os comerciantes atacadistas querem ganhar tempo antes da fruta amadurecer e assim evitar perdas imediatas. Passam dias e dias na estrada sob lona e sol.  A banana, manga e abacaxi são os casos mais comuns em Brasília. Veja a foto a seguir, banana comprada em supermercado e exibida no roadshow. 

 

A imagem fala mais que tudo - magra, mirrada, sem massa e vai apodrecer em três ou quatro dias fora da câmara fria do supermercado e bem ali na sua fruteira da cozinha.  Faltou um engenheiro agrônomo nessa cadeia de comercialização. Por que  as CEASAs aceitam tais produtos, mesmo tendo profissionais engenheiros agrônomos em seus quadros? Só mesmo um estudo propositivo poderá trazer indicações para sanar tais falhas.  O Engenheiro Agrônomo é o único profissional que estuda a fundo a Fisiologia Vegetal, para melhor produzir  e sobretudo a Fisiologia de Pós-colheita, de modo a garantir a plena qualidade dos frutos. Ele sabe gerenciar desde a escolha da semente para a semeadura, o solo, uso de fertilizantes, água de qualidade para a irrigação, produtos fitossanitários menos ofensivos e na dosagem certa (isto é matéria regulamentada e somente profissionais habilitados podem prescrever em receituários agronômicos, com os devidos cuidados). O gerenciamento da produção, pelo profissional habilitado, passa ainda pelos demais  tratos culturais e a colheita na época certa, além dos cuidados no armazenamento e embalagem. Todos esses fatores têm influência no sabor, consistência e qualidade da polpa, sem se esquecer que o uso indevido de agrotóxicos causam males irreversíveis à saúde. Tecnologia agrícola, quando bem aplicada, é sinônimo de Qualidade do Fruto in natura.  Tecnologia à serviço dos consumidores, desde a seleção de sementes e do  solo à colheita, embalagem e entrega ao consumidor. Aliás, gerentes de frutarias e supermercados já me conhecem por aqui, pois, sempre que me deparo com aquelas bananas cheias de quinas, pergunto-lhes: se levar as bananas, ganho lixas? Lixas, como assim? Para lixar as quinas das bananas de modo que suas quinas não cortem minhas mãos...

            Nossa proposta, de criação de um grupo de trabalho para estudar a questão, foi bem aceita no sentido de que devemos buscar parcerias com os órgãos envolvidos, Ministério da Agricultura, Secretaria de Agricultura, Anvisa (há plantas medicinais), ADASA (qualidade da água para irrigação e outorgas), OAB e outros como empresas certificadoras e universidades para o desenvolvimento de pesquisas de campo. O escopo seria criar um rol de normas regulatórias que garantam não somente as qualidades  químicas e biológicas para os alimentos, pois já existem muitas normas regulatórias para os semi-processados e processados e com elevados padrões de exigência. Assim, por outro lado, temos que criar e estabelecer normas para o respeito às qualidades organolépticas, o ciclo fisiológico da planta que é extremamente variável entre as diversas espécies e condições climáticas, incluindo-se o período de maturação e o ponto ideal de colheita. Nesse sentido, representantes da OAB, do Ministério da Agricultura e ADASA já nos contactaram durante o evento e estão dispostos a integrar  nesse projeto que ora se descortina.

Concluímos, portanto, que essa importante área de atuação da Agronomia deva ser, de fato, implementada pela AEA-DF, promovendo a união e compartilhamento de ações entre todos os órgãos envolvidos, públicos e privados.

 

Brasília, 23 de março de 2023

Eng. Agr.  Paulo Roberto da Silva

                                                Secretário - AEADF

 




 





 

domingo, 12 de março de 2023

Miragem entre as árvores?... Não! É um Mirage

 Mirage III  F103 FAB 4924 – Um pouso para repouso definitivo em lugar de honra. 
Foto do autor- março 2023 - Cassab- Brasília-DF   (editada/sem pedestal, por Rogerio Salgado)


Que susto..., ao sair de um Centro de Convenções e virar uma esquina num setor exclusivo de clubes recreativos e centros de eventos, deparei-me inesperadamente com um caça supersônico F-103 Mirage III da FAB em pouso num gramado próximo à orla do Lago Paranoá, em Brasília, a poucos metros da rua onde transitava com meu carro. Sua silhueta em formato delta é inconfundível e como poderia ele efetuar aquele pouso, se mesmo em pistas de 4.000 metros necessita de apoio de paraquedas (a 160 nós) para auxiliar os freios e parar totalmente, tal qual presenciei numa demonstração em Anápolis? Incrível... Mas, aquele pouso mostrado na foto acima foi o último. O pouso para repouso. Merecido  é verdade, depois de 33 anos operando, de 1972 a 31/12/2005. Este guerreiro, interceptador de matrícula FAB 4924, atinge velocidade máxima de 2.400 km/h (mach 2). Fez 4.986 pousos e voou 3.940 horas. Integrou o 1º Grupo de Defesa Aérea – GDA, sediado na Base Aérea de Anápolis/GO, . Agora, o guerreiro ali repousa, tranquilo, ainda que sem suas entranhas violentas de possante turbina SNECMA de 13.230 lb de empuxo e os pesados armamentos, dois canhões DEFA de 30mm, bombas, foguetes e mísseis, chegando a cerca de 13.500kg de peso máximo de decolagem. Agora ali repousa respeitosamente, com a imponência digna de um guerreiro que por tanto tempo patrulhou, defendeu seu território, justamente a cidade de Brasília. Quantas vezes também os vimos em belíssimas exibições de abastecimento pelo KC-130 nos céus de Brasília, em dias de comemoração do 7 de Setembro. Quantas lembranças!

 Pois ali está, o icônico Mirage III - FAB 4924, para deleite  dos pilotos, mecânicos e pessoal de apoio da Aeronáutica. Bem ali, às margens do Lago Paranoá, no Clube de Associados da Aeronáutica de Brasília – CASSAB e bem à vista dos passantes. 

 Instalado em pedestal apoiado sobre um poço com fontes de luzes multicoloridas,
o grande e belo guerreiro impressiona pela sua imponência.
Foto do autor (luz natural às 18:00h, sem edição).  Clube dos Assoc. da Aeronáutica - Brasília, março 2023


O susto inicial se transformou em grata surpresa, pois apaixonado por aviação (pax com mais de 3.500 horas de voo em quatro continentes) não se contenta em apenas ver, tem que conhecer, admirar e conhecer a história dos aviões com os quais se deparou ao longo de 50 anos de profissão executiva em meio mundo. E ponha história da aviação na vida do menino das Lavras. Desde os T6 da Esquadrilha da Fumaça, ainda nos anos de 1950/60, em apresentações na cidade natal, aos voos em aeronaves do GTE/ FAB (missões à serviço do Governo), ou ainda em grandes e modernos jatos comerciais em voos internacionais e até mesmo em pequenas aeronaves nos aeroclubes. Muitas são as memórias em aviões militares. Um desses ficou gravado, com certo medo. Era uma aeronave Bandeirante da FAB, na rota Brasília/Carajás, com direito a pouso cego, no aeroporto de escala em Carolina/MA. Apenas um treinamento para um cadete, co-piloto, devidamente monitorado pelo comandante. Sentado  próximo à entrada da cabine dos pilotos, pudemos acompanhar toda a manobra do pouso cego... (fecha-se com cortinas blackout toda a cabine, vidros laterais e frontal... tudo mesmo). Coisa aterrorizante para civis não acostumados aos manches e os poucos instrumentos do turbo-hélice Bandeirante. Felizmente o pouso foi tranquilo, mesmo com as ordens finais do oficial piloto, em tons bem elevados e rápidos ..., cabra..., cabra ... (cabrar - levantar o nariz do avião), assim que o trem de pouso tocou a pista.

Das reminiscências marcantes do jovem executivo a bordo de aeronaves da FAB, há ainda outro destaque pitoresco. Foi o  “voo perdido no espaço aéreo, sem rumo” na rota Brasília/Santo Antônio do Amparo (num HS-125,  FAB - VU 93-2117),  quando o plano de voo previa, erroneamente, o pouso em São João Del Rei ( SNJR) e não Santo Antônio do Amparo (SNAM), onde deveria pousar, pois Lavras, nosso destino final (Universidade Federal, que aguardava a visita do Ministro da Educação), ainda não contava com pista asfaltada (a pista do SSOL foi inaugurado em 08 de julho de 2001). Do aeroporto de S.A. do Amparo seguiríamos de carro, num curto percurso pela rodovia BR 381. Mas..., com o característico solavanco da aeronave, baixando o trem de pouso, olhei pela janela e identifiquei a silhueta inconfundível da Serra de São José, paralela à pista de pouso, situada entre as cidades de São João Del Rei e Tiradentes.  Alertado por um sonoro grito do menino, e repetido pelo ex-ministro Alysson Paolinelli, também presente no voo, o comandante recolheu os flaps e arremeteu antes de tocar a pista, acelerando ao máximo as duas barulhentas turbinas Rolls Royce do jatinho de fabricação inglesa.  A surpresa foi que não havia um plano B e o comandante nem sabia para onde rumar a aeronave, pois sequer tinha ouvido o nome da cidade de Lavras antes de decolar. Sem plano prévio de voo. E agora?... , gritou de dentro da cabine, enquanto o jatinho já ganhando altura no sentido leste, rumando para o litoral, oposto ao rumo de Lavras que ficara 100km para trás . Corri para a portinhola da cabine e de pé, orientei: 180º à direita (para se livrar do paredão rochoso da serra de São José), proa na BR 265/represa de Itutinga/leito serpenteado do Rio Grande/ Bom Sucesso e... Santo Antônio do Amparo, aeroporto de destino, onde as autoridades estavam a nos esperar... Ufa..., o menino nunca imaginou que um dia tivesse a chance de ser o navegador visual de um jatinho HS 125- VU-93, da FAB, a 2.000 pés de altura e baixa velocidade de 200 nós, serpenteando entre montanhas e o vale do Rio Grande, por 10 a 15 minutos, até encontrar o SNAM (Sto Antônio do Amparo), aeroporto de destino.

Mas, a melhor de todas as experiências com aeronaves militares foi a visita à Base Aérea de Anápolis, onde até simulamos pilotagem do Mirage III-EBR (não consegui pousá-lo no Galeão). Naquela visita estava a nos receber o piloto militar Eduardo Pastorello que, num Mirage (o 4929 ou o 4931 ? Alguém saberia?), interceptou um grande Yliushin, de matrícula do governo cubano, invadindo espaço aéreo brasileiro, sem autorização, quando se dirigia à Argentina. Ali, em Anápolis, pude admirar, tocar e até voar no simulador, além de receber completa aula sobre defesa aérea e conhecer o plano operacional da Base Aérea em casos de emergência, como de fato já havia acontecido (alerta de 03 minutos, com o piloto aguardando já no cockpit). O intruso foi prontamente interceptado, de madrugada, sob chuva, na região do estado de Mato Grosso e escoltado para a Base Aérea de  Brasília, em abril de 1982.

 
Voando (1º à direita) num Bandeirante até as minas de ferro e manganês de Carajás. Foi nesse voo que o piloto militar treinou seu "pouso cego"..., santo Deus, nunca mais passarei por medo assim...rsrs. 
Foto do autor- 1981 


 Base Aérea de Anápolis, Mirage, em hangar camuflado, com o piloto de caça Eduardo Pastorelo (o mais alto, com o autor à direita da foto), o qual interceptou o Yliushin cubano invadindo nosso espaço aéreo. 
Foto do autor- Base Aérea de Anápolis -1982




 Ainda na Base Aérea de Anápolis. O autor, em primeiro plano, examinando 
o cockpit e a operação de armamento de um Mirage III. 
Foto do autor 


O Mirage sempre esteve presente em minha trajetória. O amigo TC Eduardo Almeida, Cmte do Esquadrão Jaguar – Mirage, de Anápolis, sempre relatava casos da Força Aérea. Um fato interessante foi a escolta, comandada por ele, da chegada do DC-10-30 que trazia de volta a Seleção Brasileira de Futebol após a conquista de mais um título mundial.


 Acima, a primeira foto, o Mirage III, pilotado pelo e TC Aviador Eduardo Almeida, então Cmte do Esquadrão Jaguar- Mirage/Anápolis, em escolta do avião, na chegada a Brasília, com os Campeões da Seleção Brasileira de Futebol, em 2002. 
Na segunda foto, o autor, à esquerda com  o amigo Cmte Eduardo Almeida. 
Fotos: 1- Arquivos do Cmte Eduardo Almeida. 2-  Foto do autor, dez 2018


Assim, aquele susto inicial ao topar com o FAB 4924 em meio ao gramado e sob frondosas árvores, logo se transformou em alegria e doces recordações em conversas com servidores da Aeronáutica, ali em seu clube. As memórias de Anápolis afloraram, assim como as belíssimas exibições dos Mirages em Brasília. Parabéns a todos que contribuíram para a preservação desse patrimônio cultural, ali instalado. Parabéns ao Clube dos Associados da Aeronáutica de Brasília por oferecer a seus associados e a todos nós, civis, que também amamos a aviação e a nossa  Força Aérea, o prazer de ali contemplar um dos grandes ícones da aviação de caça brasileira. Quem disse que cidadãos civis não amam a aviação militar? Depende, se sua cidade natal tem história, como a daquele piloto da Aviação do Exército que pousou emergencialmente numa pastagem, em Lavras-MG, em outubro de 1930 (nem existia ainda o Ministério da Aeronáutica), com um Morane Saulnier, pilonou por sobre um tronco de árvore, danificou a aeronave, os mecânicos da Rede Mineira de Viação recuperaram-na totalmente. Depois, com a ajuda de muitos, usaram picaretas e carroças tracionadas por burros e construíram e uma pista para decolagem. Ficou ali por mais de mês, como se fosse uma base aérea,  para voos de aterrorização das populações urbana e rural, durante a Revolução de  1930... Por causa desses razantes   meus pais e seus camaradas deixavam as ferramentas na roça e corriam para dentro de casa... Instalou-se verdadeiro terror, pânico na população como meio de cooptação para apoio às forças legalistas que lutavam contra os paulistas. A população se alarmava com o barulhão que vinha do céus, produzido pelo voo rasante daquele “caminhão em cruz” (assim diziam, pois eram o unico veículo barulhento que conheciam), coisa esquisita que nunca tinham visto antes. Pior que, em 1944, a história se repetiu em Lavras. Criou-se o Aeroclube e ali foram treinados mais de 20 pilotos como reservas para treinamento e combates aéreos na Itália, na 2ª Guerra Mundial. Estes eram mais terríveis que o piloto de 1930, pois além de voarem o dia inteiro, em verdaderas esquadrilhas, faziam rasantes morro abaixo a poucos metros acima da cabeças dos cidadãos que andavam pelas ruas dos bairros sem postes de energia ou nas fazendas próximas. Meus pais e avô contavam-nos essas história dez anos depois do término da guerra. Às vezes constrangedoras pois, frequentemente havia alguém que, de fato sofrera aqueles sustos repentinos e correra para debaixo da cama, pois ainda eram crianças e mais amedrontadas. São histórias verdadeiras, com testemunhas e fotos que já contei em crônicas e agora estou compilando num livro: História da Aviação Militar em Lavras, com inúmeros casos, desde bombardeios simulados da enorme ponte sobre o Rio Grande, por caças da Base Aérea de Santa Cruz (Lockheed T 33), faziam o tracking em rasantes sobre a fazenda de meu pai até mesmo o pouso forçado do bicudo F5-E em rodovia , próximo a fazenda de um ex vice-presidente, no sul de Minas.

Por essas e outras tenho especial admiração pela aviação de caça. Agora tenho mais um, bem à vista e ao lado de casa. Num curto espaço de uma semana, já  visitei duas vezes o F103 - FAB 4924, que está estacionados em doce repouso em uma bonita área verde, com merecido repouso! Ainda falta visitar o MUSAL no Campo dos Afonsos, a joia máxima da Memória da Força Aérea Brasileira.

 

Rasília12 de março de 2023

 

Paulo das Lavras



 F103- FAB 4924 – Cassab/Brasília. 
Foto do autor – março 20123


 KC-130 abastecendo Mirages. 
 Foto – internet   




Dois Mirages defendendo Brasília (Asa Sul).
Foto – internet


 
O irmão gêmeo do 4924,  F 103 – FAB 4929 que interceptou o Yliushin cubano.
Foto – internet


 Repouso definitivo do Mirage III- FAB 4324, sob frondosa árvore nos jardins de Brasília. Mais que merecido,
 pois defendeu a capital do país por longos 33 anos. Silhueta inconfundível em formato delta,
 reconhecido até mesmo debaixo de uma árvore. 
Joia do Patrimônio Cultural /Aeronáutico de nossa Nação! 
Foto: Google

 








 





 



 




 

 



 


 

sexta-feira, 3 de março de 2023

Preto no branco.... 50 anos no aniversário e as Vespas Piaggio


50 anos se passaram entre uma e outra foto: 1966 - Lavras/MG e  2016 - Brasília . Há coerência nas fotos: Vespa branca - cabelos brancos   e Vespa preta- cabelos pretos....    



                                                                                                                           

            50 anos de uma foto para outra...,  surpresa para o menino das Lavras neste aniversário, de 5 de abril. Ao sair para uma caminhada até uma agência bancária, aqui em Brasília, deparei-me com um motoqueiro, quarentão, natural de Marseille, na França, residente de Bruxelas e recém-chegado à capital como oficial da Embaixada da Suécia, onde também trabalha a diplomata, sua esposa. Bon parlant em francês, foi logo contando que aquela moto-Vespa foi o seu veículo na França. Também lhe contei  sobre minhas estadas de trabalho em Paris, Nancy, Djon e Montpellier, mas sem Vespa.

Sim, 50 anos de diferença entre uma foto e outra. Na vespa preta, Na pracinha do Colégio de Lourdes, à caminho da Esal/Ufla. O cabelo era preto no menino de 21 anos. Agora, 50 anos depois, o cabelo branco combina com a cor da vespa do franco-belga-sueco. Bela e saudosa coincidência de 50 anos depois.

 Outras lembranças:

1990- Roma/Itália   e...                                     2013- Brasília, Expo Vespas e Lambretas

                 


               Nas ruas de Brasília em 2022              1966 – Praça Augusto Silva- Lavras

               


Não adianta..., quem teve uma Vespa nunca a esquece. Não nos conformamos em avistar uma qualquer na rua..., paramos o proprietário e “choramos” as lembranças. Dá resultado... rsrs, oferecem para a darmos uma voltinha e ainda mais se for um idoso, “choroso”, saudoso dos tempos da Vespa. E isto aconteceu até mesmo na Itália, berço da fábrica Piaggio, subsidiária da Fiat. Adorei. Muita emoção, pois nunca pensara antes  que, un dia, daria uma voltinha de Vespa na sua terra de origem.. Pena que o dono da Vespa não caprichou na foto e cortou um pedaço... rsrs

 

Brasília, 13 de novembro de 2022

 Paulo das Lavras


Vespa prs  vers 1 - 1967