segunda-feira, 8 de agosto de 2022

7 de Setembro: roubaram minha bandeira nacional, dois casamentos e outras histórias

 

 França, Estados Unidos e Brasil- símbolos Nacionais


Desci a pequena escadaria da igreja, caminhei até a porta do bonito carro da noiva, que estava radiante em seu belo vestido branco e segurando um buquê de flores. Seu largo sorriso de felicidade encantou ainda mais seu pai. Era a tarde do dia 09 de setembro, há vinte e poucos mais anos, logo após a nossa querida e memorável festa da Independência. O casamento da filha, ocorreu pontualmente às 21h, conforme o rígido protocolo militar, era motivo de alegria para a família naquela tarde de estiada de chuva temporã. Por ser uma oficial do Exército Brasileiro, a noiva tinha direito às honras militares de praxe, incluindo o chamado “teto de aço”. Ali fora já estava um pelotão de oficiais do Exército, com as companheiras de trabalho no Quartel General do Exército - QGEx. As garbososas oficiais, em trajes de gala, estavam prontos para perfilarem em honra à noiva que se casaria com militar que também servira naquela unidade militar. Cidadão civil, fiquei curioso para ver e participar da cerimônia de casamento ao estilo militar. Curioso porque pouco conhecia sobre os costumes militares à exceção dos desfiles de 7 de Setembro, pois sequer tinha prestado o serviço militar obrigatório aos 18 anos, devido à deficiência acidental e total da visão de um dos olhos que, por ironia, era exatamente aquele que deveria visar a mira do fuzil do soldado do Tiro de Guerra. Era assim que chamávamos o serviço militar obrigatório, Tiro de Guerra! Portanto, nem mesmo a convivência com a práxis da caserna eu tivera e, talvez por isso mesmo, bateu-me aquela curiosidade sobre como seria tal cerimonia cívico-militar.

Tudo que lembrava do serviço militar era a provocação que fazíamos a um professor, muito sério, rígido e coerente com sua origem natal. Era o padre alemão Luiz Tings, que mal falava o português e lecionava inglês no colégio. Ao fazer a chamada de presença dos alunos na primeira aula do dia, às 07:00 horas, sempre dava uma pausa naqueles nomes em que não havia a célebre e automática resposta: “presente!”. Levantava o senho, encarava a turma como a procurar o aluno que não respondera à chamada de presença. Antes, porém, de levantar a cabeça para perscrutar o ambiente da classe, os meninos respondiam em coro: Tiro...! Queríamos apenas ajudá-lo, informado que o colega estava no cumprimento do dever cívico do serviço militar e tinha direito a chegar  com meia hora de atraso, pois a instrução do TG-0264, terminava às sete horas e não raras vezes tinham que se trocar, pois os Sargentos Paulo, Valmor e  Gonçalves (mais tarde meu colega de magistério na UFLA e sempre  me visitava no MEC, pois era um dos executivos da universidade que frequentavam Brasília)  não davam moleza e até os faziam rastejar na lama do córrego vizinho. Tinham que se banhar e trocar de roupa, daí, a sábia tolerância para entrarem em sala de aula a qualquer momento. Gostávamos de vê-los chegar com a farda militar e respeitosamente retirando o quepe para entrar na sala de aula. Mas, a farra maior era mesmo nas aulas do padre Luiz, o alemão sério que quase nunca sorria. A cada aluno faltoso a turma repetia o refrão e, invariavelmente, lá pelo terceiro ou quarto ausente, batíamos o pé no assoalho com bastante força, imitando uma marcha militar ou aqueles comandos de ordem unida tão comuns nas tropas militares, “sentido..., descansar arma!”, com aquele barulho característico de dezenas de coronhas dos fuzis repicando no granito do paralelepípedo do pátio ou da rua. E para melhor imitar a cena militar, ou até mesmo para provocar o padre professor, gritávamos rapidamente o refrão “tiro...!” e pá...pá com os pés no assoalho de madeira. Ora, a sincronia do movimento de bate-pés não era perfeita e então se prolongava um pouco na sequência, aumentando efeito sonoro naquele ambiente fechado, em verdadeira cascata de som ampliado, estremecendo até mesmo o teto do piso inferior, onde havia outras salas de aula. Some-se à essa intensa vibração física pedalar, o grito já em volume bem mais alto da palavra de ordem ... “Tiro!” e pode-se imaginar a repercussão louca na cabeça do rígido professor alemão. Ruborizado, seus olhos azuis pareciam saltar pelas lentes dos óculos. Ameaçava expulsar da sala de aula alguns dos flagrados, mas não adiantava e a farra continuou até o dia em que chamou o diretor e este impôs a disciplina germânica, pois era também outro alemão de forte sotaque, o padre Érico Alher. Ninguém queria ser expulso ou ter os pais chamados ao colégio. Corria-se o risco de, efetivamente, ser expulso como aconteceu com meu irmão que levou um tapão do diretor, ao estilo “telefone” e revidou com um soco na barriga do padre. Não teve perdão, foi expulso no mesmo dia.

Bem, depois desse longo preâmbulo passo a falar da bandeira que metaforicamente me roubaram no 7 de Setembro. A linda cerimônia do “teto de aço” ao final do casamento da filha, quando desfilava com o noivo à saída da igreja lindamente decorada e ainda aquele pelotão feminino em seus belos uniformes de gala do Exército Brasileiro, calou fundo no coração do pai. À voz de comando do oficial comandante, colega de turma da noiva, o pelotão empunhou as espadas e cruzando-as ao alto, formou-se um corredor, um túnel conhecido por “teto de aço”, com as pontas das espadas se tocando e tintilando umas nas outras, variando a cadência a cada voz de comando. Neste momento e ainda sob o comando do oficial, os noivos desfilam pelo túnel de teto de aço. Quando o casal estava bem ao meio da caminhada, o mestre de cerimônia, posicionado lá trás, no início da formação do túnel, gritou o nome da noiva e ela, surpresa parou, virou-se para trás e então pipocaram flashes de luzes e as espadas se tocando ao alto tintilaram mais intensamente. Foi emocionante acompanhar esse ritual e só então, após o reinício da caminhada dos noivos, foi permitido que os pais e padrinhos os acompanhassem. Linda cerimônia, sob melodiosos acordes especialmente preparados pela orquestra militar.

Mas e a bandeira que dá título à crônica? Ao olhar para cima durante a passagem no túnel do teto de aço no casamento da filha e combinando as cores do templo, da decoração com variegados arranjos florais, tive a impressão de que estava andando pelas ruas embandeiradas de Wall Street. Quando a trabalho em Nova York gostava de ver aquelas ruas do coração financeiro da cidade cosmopolita carregada de grande, diria até mesmo exagerada, quantidade de bandeiras dos Estados Unidos. Eram dispostas nas fachadas dos prédios, um pouco acima dos pórticos das portas, em mastros inclinados cerca de 60 graus em relação à parede. Contemplá-las era como ver aquele corredor do teto de aço da cerimônia militar que ali presenciei pela primeira vez. Achava linda aquela avenida do centro financeiro de Nova York e ficava a imaginar por que não temos esse costume de se hastear a Bandeira Nacional na fachada dos prédios aqui no Brasil? Ainda hoje, mesmo na capital federal, não há o hábito de se expor a nossa bandeira nacional. Em toda a cidade apenas uma única bandeia fica hasteada permanentemente na fachada de um prédio na Avenida W3 Norte, afora lógico os prédios públicos que têm obrigação legal de manter hasteado o pavilhão nacional.

Portar ou exibir a Bandeira Nacional em nosso país só mesmo em duas ocasiões, dia de jogo da seleção de futebol ou no 7 de Setembro. Não me esqueço nunca da primeira Copa do Mundo, de futebol, ouvida pelo rádio em 1958, quando estudava, interno, no Seminário de Itaúna. Ouviu? Sim, naquele ano ainda não havia transmissões pela TV, que estava engatinhando no Brasil. Mas, precisamos mudar esse costume, ampliar o uso da bandeira nacional. Gosto de ver e contemplar a bandeira nacional e quantas e quantas vezes passei em frente às embaixadas brasileiras na Avenida Pensilvânia, em Washington ou na Champs Elisées em Paris quando lá servia nosso país, simplesmente para ver, contemplar o auriverde pendão de nossa pátria tremular ao vento. E a sensação de ver nos aeroportos um avião da Varig com a bandeirinha brasileira na sua fuselagem ou então uma verdadeira bandeira tremulando no mastro de um navio que zarpa do porto de Nova York..., ah era para chorar mesmo, de saudade da pátria, da infância na escola, que nos reunia para cantar o hino nacional, perfilados diante da bandeira e também nos levava a desfilara no 7 de Setembro. Sabedor do culto à bandeira, mais nos Estados Unidos que na França, sempre recebia consultores norte-americanos e franceses, por força dos convênios que administrava no Ministério as Educação, os levava para um almoço típico brasileiro em minha chácara e lá hasteava as duas bandeiras, a do país do hóspede e a do Brasil, lado a lado. Às vezes até três bandeiras, juntando-se ainda aquela outra, branquinha com um triângulo no centro com os dizeres “Libertas quae sera tamen”. Ah, que saudades das terras mineiras onde nasci... Mas, por falar em saudades, de tanto ver as centenas de bandeiras vermelhas e azuis estreladas e ouvir o hino nacional dos americanos, The Star Spangled Banner, acabei por aprender o hino daquele país, emocionando-me com a sua letra que lembra o clarão vermelho dos foguetes e bombas estourando no ar e iluminando a bandeira estrelada que ainda tremulava, para orgulho de seus bravos soldados que lutavam por um país livre, o lar dos valentes. E assim, ouvindo aquele belo hino da nação americana, cantado em todas as solenidades, batia uma saudade doída na alma do menino que cantava as belezas de nosso país, a Pátria amada idolatrada das solenidades de hasteamento da bandeira e cantando o Hino Nacional no pátio do colégio. Por isso e para atenuar o banzo, levei algumas bandeirolas verde-e-amarelas para os States e presenteava os brasileiros que lá residiam, principalmente os 250 professores que cursavam pós-graduação sob nossa supervisão e muito dos quais visitei em casa ou nas universidades onde desenvoviam seus estudos. Na gaveta mantinha algumas, mas uma, em especial, ocupava lugar de destaque permanente sobre minha escrivaninha do escritório, no Latin American Studies Center, na Universidade de Michigan State. As vezes o banzo atacava forte, mas..., o trabalho estava por fazer. Pior foi o dia em que, passando pelas proximidades do porto de Nova Yok, avistei um navio cargueiro com a bandeira brasileira tremulando em seu mastro. Pedi ao motorista que parasse o carro, saltei, cheguei ao alambrado e fui contemplar aquela cena que evocava a pátria e me imaginava a bordo voltando para casa, pois ali já estava havia bastante tempo, só e sem a família. Em minutos de obsequioso silêncio e meditação sobre a distante pátria, eis que o navio apitou algumas vezes, naquele sonido triste, lúgubre como a despedida de um ente querido. Foi demais, a emoção desabou de vez. A Bandeira mais uma vez presente!

Bandeira? Para que serve a bandeira de um país? A bandeira é a personificação do patriotismo, o símbolo mais importante da nação. Ela representa o amor à pátria e é por isso que nos emocionamos quando diante dela estamos. Quanto mais longe, distante da pátria, mais emocionante é avistá-la. Seus símbolos despertam toda a nossa história, a nossa nacionalidade. E como era difícil ver em terras estrangeiras a bandeira brasileira, numa época que não existia a internet. Só mesmo nas embaixadas ou escritórios da Varig Linhas Aéreas. Por isso sempre carregava uma bandeirinha de papel na mala de viagem. A bandeira nacional representa sim os símbolos de nossa pátria e nos conforta com o sentimento de cidadão. Eduquei os filhos com a bandeira verde-amarela estendida na janela e bandeirolas nas mãos, nas arquibancadas da Esplanada dos Ministérios, saudando o Dia da Pátria. Como será agora nesse próximo 7 de Setembro? Sair pelas ruas carregando uma bandeira, ou simplesmente trajando cores verde-amarelo? Fiquei triste ao ler nos jornais que estão sendo convocadas manifestações políticas com as cores ver-amarelo, para o dia das celebrações da Independência do Brasil. Que pena, 200 anos, o bicentenário e não me sinto à vontade em participar de manifestações político-partidárias.

Roubaram-me a bandeira verde-amarela que tanto admiro, amo e até a levava para o exterior onde passava temporadas a trabalho. Penso que não serei capaz de sair às ruas em meio a aqueles que usurpam o patriotismo que o augusto símbolo da paz encerra em nosso peito. Verdadeira divisão fratricida, patrocinada por políticos que não alcançam o significado patriótico de amor à Pátria, por todos os brasileiros sem distinção de cores políticas, raça ou religião. Patriotismo não se mistura com ideologias políticas que são efêmeras e na maioria das vezes são apenas engodos à caça de votos. Por que não separamos política e patriotismo? Gostaria de celebrar o nosso bicentenário da Independência com o mesmo garbo que os amigos americanos celebraram em 04 de julho de1976. Recebi deles um mimo, a alegoria ao “Spirit of 76”. Pena que ainda não estava lá, pois assumi a coordenação internacional de programas do MEC naquela país apenas duas semanas depois daquela memorável data. Da mesma forma, não estive presente, em 14 de julho de 1989 às celebrações dos 200 anos da Revolução Francesa, marco civilizatório do mundo ocidental. Embora à época já prestasse serviços com temporadas naquele país e não podendo comparecer, os amigos franceses, convidaram-me mais tarde para servir de Juiz de Paz e celebrar um casamento civil à francesa, o PACSÉ, portando a faixa oficial bleu, blanc, rouge, as cores da bandeira da França. Mais uma vez as lembranças da bandeira vieram-me à mente e bem distante da Pátria. Ali, em Paris, numa cerimônia oficial, investido de autoridade e portando uma faixa com as cores da bandeira da França, também me lembrei da bandeira do Brasil e até ofereci aos noivos a linda praia de Copacabana ou a beleza natural da Amazônia – paixão dos franceses – como local paradisíaco para a lua de mel. Se não pudessem, então que considerassem o Brasil como opção de possível asilo em caso de acontecer algo inesperado entre o casal...

Mas, reminiscências à parte, saudades que se foram e ainda hoje reavivam o nosso amor às cores da Pátria, vamos esperar com otimismo o nosso 7 de Setembro. Afinal falta ainda um mês para celebrarmos os 200 anos da Independência do Brasil. Tomara que as festividades desse tão importante acontecimento... 200 anos da Independência, não sejam palco, como foram as invasões da Bastilha em 1789 e a invasão do Capitólio nas últimas eleições dos E.U.A., quando inescrupulosos políticos, com base em fake news incentivaram a invasão.  Que venham lindas comemorações do nosso 7 de Setembro e que evoquem o nosso mais belo e puro sentimento de amor à Pátria.

Brasília, 07 agosto de 2022   

 

 Paulo das Lavras


 Esquadrilha da Fumaça, saudando o pavilhão nacional na Praça dos Três Poderes, em Brasília


 Teto de aço - ritual de casamento de militares

 


Investido da autoridade autoproclamada de Maire da charmosa comunidade de Saint Savin sur Guertampes, o Monsieur Dasilva, portando a faixa Bleu, Blanc et Rouge, as cores da bandeira francesa, lê as regras do matrimônio pactuado sob a nova modalidade Pacsé. Por se tratar de contrato de duração limitada, ofereceu à noiva, que é médica em Paris, se necessário, asilo no distante Brasil tropical... Irreverentes e como adoram o Brasil, os franceses caíram na gargalhada... e tomem champagne... 


 
Bandeira americana em todo lugar, até nos gabinetes



 
Os norte-americanos têm verdadeira adoração pelos seus símbolos nacionais. 
Cheguei aos Estados Unidos poucos meses depois da festa do Bicentenário da Independência. 
Lamentei a perda daquele importante evento, mas de tanto falar isto, os gringos do nosso escritório, 
em Michigan, logo me presentearam com esse mimo, que havia sido lançado 
para a grande festa do Bicentenial, de 04 de julho de 1976.

 



Mas, cansado de tantas bandeiras azuis e vermelhas, nostalgicamente passava pela embaixada
 do Brasil em Washington, só para ver a auriverde


 ... e também na de Paris, onde a bandeira verde amarelo se destacava bem ao alto do prédio. 


 Mas, sabe onde mais nos sentíamos em casa? Na chique loja  da Varig no endereço
 mais sofisticado de Paris,  a Avenida Champs Elysées. 
Ali, além da enorme bandeira nacional, o gostoso  cafezinho promovido 
pelo antigo IBC e jornais brasileiros estavam  sempre disponíveis.
 Ah,,, que bálsamo dos tempos em que não existia a internet. 


 Trajando as cores do Brasil ao lado de argentinos e franceses, num jogo entre 
França e Nigéria, na Copa do Mundo disputada em Brasília.
 Entusiasmos patrióticos não faltaram.



 As uruguaias, numa atitude simpática, trajavam camisas do Brasil, mas
 não se esqueceram de sua bandeira nacional


Belíssimo ipê que coloriu o 7 de Setembro em frente à PGR  


 ... veja, ainda, a linda a frase que a Esquadrilha da Fumaça escreveu nos céus da cidade. 
Tive tempo de registrar em foto (dê um zoom)


 Crianças adoram os desfiles militares de 7 de Setembro, principalmente quando 
veem um jeep igual ao nosso, de aventuras na chácara.


 Vovô, você ganhou do Exército aquele Jeep, da chácara? 
Sim foi adquirido de um oficial do Exército, de Minas Gerais...


 

 
Desfilar no Sete de Setembro com os “Pracinhas “da FEB é um orgulho 
Foto do autor - Brasília 2017

 



 






 




 





 








 












sábado, 9 de julho de 2022

09 de Julho – Revolução Paulista, JK e Lavras

 
Juscelino Kubitschek, o primeiro à esquerda, no front da Revolução 
de 1932 à boca do túnel da Mantiqueira 
Foto- Coleção Renato Libeck


Neste dia, 09 de Julho, há exatos 90 anos, explodiu a Revolução de 1932, deflagrada pelos paulistas contra a ditadura de Getúlio Vargas. Os mineiros, governistas lutaram contra os paulistas e as batalhas do túnel da Mantiqueira, no túnel de Passa Quatro/MG para Cruzeiro/ SP ficaram famosas. Ali, esteve um combatente especial, o jovem médico e tenente, Juscelino Kubitscheck de Oliveira., que mais tarde governou Minas e o Brasil.

Lavras participou dessa luta enviando voluntários que se alistaram nas forças governistas. Dois anos mais tarde, em 1934, ganhou a instalação do Batalhão de Caçadores Mineiros (depois 8º Batalhão de Infantaria e hoje Batalhão da Polícia Militar), por ser um local estratégico na distribuição das forças do estado de Minas Gerais.

Logo em seguida, JK ingressou na política, foi prefeito de BH, governador de Minas e presidente da República. Construiu Brasília, onde moro desde 1975

Revolução de 1932, dos paulistas?  Tenho para mim que, além das conquistas sociais, como a nova constituição de 1934, o país ganhou um grande político, JK e minha cidade natal se tornou sede de um dos maiores contingentes da Polícia Militar de Minas, além de ter ganhado a simpatia de Jk que sempre a prestigiou. Sou grato a ele pelo seu descortino, visão de futuro e grande patriota que foi e infelizmente, penou no exílio. Em 2013 tive a oportunidade de promover na cidade de Lavras o lançamento de um livro sobre sua vida.

 

Brasília, 09 de julho de 2022

Paulo das Lavras


 
 Cartaz de convocação para o alistamento na luta da Revolução paulista de 1932 


 Jk, o revolucionário de 1932 e eterno amigo de Lavras, no baile do 
centenário da cidade em 1968, com Silvio Menicucci e Judy Macieira 
Foto- Coleção Renato Libeck


 Lançamento do livro de Jk, com o autor Carlos Murilo Felício dos Santos 
Foto do autor 2013

 









 

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Memórias da Infância - sinapses da vida e os esquecimentos

Você sabe por que você tem facilidade ou dificuldade em relembrar fatos acontecidos na sua infância? 

Você sabe por que você chega ao supermercado e só se lembra de  um item dos três que deveria  comprar?                                                               


 
O melhor da vida é mesmo a leitura. Crianças são fascinadas pelas Historinhas. 
Mesmo aqui, como mostra a foto, entre um e outro voo rasante da Esquadrilha 
da Fumaça, num Dia do Aviador e da Força Aérea, à beira do lago de Brasília. 
Leia, mas leia muito para as crianças. Elas adoram! 
Foto do autor  

          Às vezes me pego a pensar e a perguntar a mim mesmo: por que tenho tão vivas as lembranças da infância, desde os dois ou três anos de idade? E por que vou ao supermercado para comprar três itens e na hora da compra só me lembro do primeiro? Muitos amigos dizem que admiram o grau de detalhes de minhas narrativas nas crônicas, sempre comprovadas por parentes mais velhos e testemunhas dos fatos descritos. Lembro-me com extrema nitidez de cenas do período de convalescência de cirurgia torácica, aos dois anos de idade. Também presentes, ainda hoje, as cenas de “ressuscitação” após afogamento num grande reservatório d´água aos três anos de idade e o desespero de minha mãe ao tentar salvar-me. Lembro-me de seu semblante de desespero e no colo dela recebendo massagens no abdome e forçando-me a respirar. Da mesma forma, me lembro do acidente em que perdi totalmente a visão de um olho, aos cinco anos de idade, como também dos três acidentes aéreos dos quais saí ileso. Bem, mas alguém poderia dizer... ah, foram fatos traumatizantes e qualquer um se lembraria. Talvez seja verdade, mas também seriam capazes de se lembrarem da letra da canção de ninar, ouvida aos dois anos, no colo do pai que às vezes fazia o menino dormir, apesar de incômoda sonda cirúrgica nas costas? Ah..., todas essas reminiscências me trazem doces lembranças do amor dos pais e familiares que ficaram gravadas para sempre na memória do menino!

 

Descobri que pesquisadores da Universidade da Pensilvânia demonstraram que crianças, em ambientes com laços afetivos fortes, desenvolvem mais rapidamente habilidades nos campos da linguagem e da memória. As crianças sujeitas a estímulos cognitivos, como jogos e atividades educativas, se saíam melhor em exercícios de linguagem, enquanto as que recebiam mais atenção se destacavam em testes relacionados à memória. As crianças foram observadas dos 4 aos 8 anos e o teste foi repetido com elas já adolescentes. Concluiram os autores, diante de testes cognitivos e exames de ressonância magnética no cérebro, que aquelas que receberam maior atenção e estímulos aos 4 anos, tinham a região do hipocampo maior e respondiam com maior acerto as questões. O hipocampo é a região do cérebro responsável por guardar lembranças e experiencias. E por que alguns guardam mais lembranças que outros? Simples, segundo Rubens Wajnsztein, neurologista da infância e da adolescência, tudo dependerá de como a criança foi tratada, criada na primeira infância. Os primeiros mil dias de vida são um dos principais momentos para a criança adquirir um ganho maior de aprendizagem. Por isso, atenção e afeto são fatores importantíssimos nesse período e hoje, compreendo melhor que as mães que trabalham fora deveriam matricular seus bebês em creches, em vez de os deixarem com babás, a maioria desqualificadas para a educação infantil. Nessa fase de crescimento são formadas trilhões de conexões neurais, as trilhas chamadas de sinapses. 


 
Memórias são armazenadas no hipocampo e é na primeira infância que esse 
processo de criação se desenvolve com maior eficiência. 
foto: internet

A criança precisa receber estímulos. Sem estímulos não se formará a trilha neural responsável pelo encontro dos impulsos elétricos das células. Assim, sem estimulação, setores específicos do cérebro deixarão de funcionar, pois “não foram treinados” e deixaram de abrir, criar, a “trilha” por falta de trânsito intenso. Assim, não aconteceu o engrossamento, o espessamento do calibre neurológico. Quanto mais “grosso”, espesso esse caminho, maior terá sido o “tráfego do treinamento”, como na decoreba em que repetimos muitas vezes o enunciado que queremos decorar, memorizar. Por outro lado, quanto maior o calibre do circuito neurológico, mais rápido e intensamente circularão os impulsos neurais (elétricos) em busca das informações ali armazenadas. Quanto mais “stress” (as repetições da decoreba, por exemplo), mais se engrossa o calibre da trilha e assim, por essa “larga e ampla avenida” chega-se mais rápido ao armazém da memória. Simples assim, o processo repetitivo da “decoreba” engrossa os feixes de neurônios a tal ponto que depois, devido a velocidade facilitada naquela grossa via, instantaneamente nos lembramos da resposta à questão perguntada nas provas do colégio.

 

Em relação à essa teoria comprovada pelos cientistas, de estímulo e desenvolvimento da capacidade cognitiva, tenho duas experiências opostas e muito marcantes ocorridas na infância. A primeira, bastante positiva foi que, em decorrência de delicada cirurgia torácica, passei, literalmente, nove meses no colo de mãe, pai e demais familiares. Com 100% de atenção e afeto o menino pôde desenvolver, com melhores condições, as habilidades cognitivas como a memória, linguagem, raciocínio lógico, percepção e aprendizado. A segunda experiência, porém, de cunho negativo, foi um acidente que feriu o olho direito, cegando-o, por impedir a entrada de luz. Decepcionado, anos mais tarde, quando quis fazer um transplante de retina, mas, ouviu do médico oftalmologista: “impossível você enxergar, ainda que uma nova retina lhe seja implantada, pois seu cérebro não “criou” as trilhas que levam a luz captada e reproduzida pela retina e a transforme em imagens”. A parte de seu cérebro, responsável por receber a luz, não saberá identificar os estímulos luminosos, completou o oftalmologista. Assim, perdi para sempre a visão do olho direito pois à época do acidente, aos 5 anos de idade, não havia recursos técnicos para implante de retina. Não entrou luz nenhuma depois e, então, as trilhas se retraíram, “morreram” e hoje aquela parte do cérebro não tem capacidade para produzir imagens. Assim, de nada adiantaria um transplante com nova retina. Dois exemplos, portanto, um com estímulo e outro sem estímulo algum. No primeiro desenvolveu-se a inteligência, enquanto no outro “matou-se” completamente a visão de um olho por falta de estímulo proveniente da retina. Contento-me com a visão monocular, mas por outro lado regozijo-me pela facilidade de raciocínio cognitivo e principalmente pela memória privilegiada em relembrar, com clareza, os acontecimentos desde os dois anos de idade, como também a facilidade nas ciências exatas, letras e aprendizado de idiomas. Felizmente não prosperou em mim a sofomania, mas sim a curiosidade pelo saber e facilidade no aprendizado.

 

 De outra parte, em situação oposta, temos os exemplos de crianças rejeitadas na infância e que na vida adulta se tornam revoltados, de mal com a vida e não raras vezes escambam para a marginalidade. O Dr Antônio Lisboa, conceituado pediatra em Brasília, mapeou a vida de inúmeras crianças e afirma com segurança:

“do ponto de vista da personalidade, do caráter e do comportamento, somos o que éramos aos 6 anos de idade, ...., portanto, as medidas para prevenir os distúrbios da personalidade e do caráter terão que ser tomadas antes dos 6 anos, preferencialmente antes dos 3”.

Felizmente, sempre haverá maioria de crianças que têm assistência completa dos pais durante a primeira infância, com melhores chances de se tornarem adultos dotados de mentes sadias e brilhantes. Uma amiga, contemporânea, órfã de pai, teve sua infância cercada de atenção e afeto por parte de familiares e amigos, desde os primeiros dias da orfandade, quando sequer conhecera o pai, pois ainda era um pequeno bebê de colo. Sua vida foi distinguida pelo brilho da inteligência e grande capacidade de amar o próximo. No colégio era a preferida pelos professores, tanto pela sua alegria como pela destacada inteligência. Não resta a menor dúvida que o amor dedicado às crianças se reverte em benefícios imensuráveis por toda a vida.

 

Mas e a questão do “esquecimento” da lista de apenas três itens de compras no supermercado? Esta é outra questão e nada tem a ver com a formação das trilhas neurais, sinapses, durante a infância. Aqui trata-se de outra questão, o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade, conhecido por TDAH. É o mesmo que não se lembrar onde deixou a chave do carro ou o celular. Essa é uma angústia mais comum que se possa imaginar, não saber onde colocou o controle remoro da TV, aquele documento especial bem guardado..., enfim são lapsos que podem ocorrer com qualquer pessoa, independentemente da idade. Mas, geralmente acontecem com mais frequência com aqueles que tem mentes agitadas, inquietas, fervilhantes e que sempre as têm ocupadas na busca de solução de problemas outros ou novas ideias que neles surgem a todo instante. Perdemos as coisas por desatenção, pois não nos concentramos naquela ação de guardar um livro ou memorizar a pequena lista de supermercado. Pensamos outras coisas e não naquela pequena tarefa. Por essa razão, a desatenção, não codificamos na memória a informação de onde guardamos as chaves, o livro ou o que devemos comprar, embora a lista de itens seja mínima. Nossa mente estava ocupada com outros pensamentos mais importantes do que aquelas pequenas tarefas e daí vem o esquecimento que, neste caso, é conhecido por “transiência”, ou redução da acessibilidade da memória com o decorrer do tempo (transitório, que não dura). É o oposto do stress da decoreba, da repetição do assunto para que fique gravado na memória para sempre, ou na melhor das hipóteses até o dia da prova da matéria do curso. Ou seja, no caso da “transiência” não houve formação de sinapses, as trilhas neurológicas.

                  
              Homens quando vão ao supermercado são assim... A esposa tem que lhe ditar ao telefone. 
                                  São incapazes de se lembrar de apenas três itens de compras.
                  À direita, resgatando documentos esquecidos num congresso de profissionais. 
                                                                  Fotos: 1-internet    2- do autor 

Muitos se preocupam com tais esquecimentos e até pensam que a mente está falhando e talvez seja sinal da doença de Alzheimer, mas nem se lembram que o fato se repete desde jovem e nada tem a ver com declínio cognitivo, a chamada demência e sim com o déficit de atenção, próprio das mentes fervilhantes, inquietas. Para quem já sofreu muito com esses “esquecimentos” de pura desatenção, recomendo alguns truques que tenho usado há tempos e que nos salvam do desespero, da agonia de não nos lembrarmos de algo importante, ainda que momentaneamente. Neste particular, aprendi muito com os norte-americanos, com os quais trabalhei por quatro anos aqui e nos EUA. São extremamente organizados e obedecem às hierarquias dos cargos e funções. Registram tudo que lhes foi dito, em forma de Memorandum, seja em reuniões presenciais ou via telefone, conforme cópia abaixo, onde foram transcritas todas as decisões tomadas num simples telefonema, daqui do Brasil com o administrador de nosso escritório nos EUA.

 Um clássico Memorandum vindo do nosso escritório em Michigan, nos EUA. Registram-se todas as decisões tomadas na conversação telefônica entre o diretor/Brasília e o coordenador de campus.  

Foto do autor- arquivos do MEC


Contumaz deficitário de atenção no clássico modelo psicanalítico, adotei de imediato o sistema americano de tudo registrar, até mesmo como lembrete para mentes agitadas que, quando sintonizadas em problemas maiores e mais importantes, não prestam atenção e por isso não codificam na memória as informações menos importantes que são recebidas naquele momento. Os registros manuscritos, digitados ou de imagens, são as maneiras mais práticas de se combater a desatenção, a dificuldade de se lembrar algo que, dada a circunstância, não foi “registrado” na mente, no típico padrão de TDAH. Nem sempre podemos contar com eficientes secretárias e assistentes técnicos que tudo anotam, preparam expedientes e até nos lembram dos cuidados com a saúde no clima seco de Brasília que exige constante hidratação do organismo. 

         

  Nos EUA, em viagens de inspeção de projetos de pesquisas/teses e programas de doutorado dos   
250 professores brasileiros que lá estudavam, contávamos com equipes de assistentes (Lacy, 
a primeira e June Mills a segunda) que nos assessoravam. À direita da primeira foto, Mrs. Elizabeth Cheng,                            bolsista, na Universidade da Florida/Gainesville.

Na segunda foto, equipe de assitentes técnicos e secretária, em Brasília, tendo ao centro o zeloso garçon com cafezinho e água de hora em hora, providência sempre esquecida pelos que têm déficit de atenção. Ali, estávamos bem assessorados e não havia “esquecimento” da água no seco clima do planalto central.

                                                                                                      Fotos do autor  

Mesmo com todas as facilidades proporcionadas pelas assessorias e serviços, buscamos criar regras e pequenas atitudes que pudessem minimizar os efeitos dos constantes “esquecimentos” do portador de TDAH. Experimente, veja as dicas que colecionei em 50 anos de atividade profissional, principalmente de outras culturas, como a sociedade norte-americana que é bastante pragmática:

 

– escreva bilhetinhos com lembretes. Liste as atividades para o dia que se                               inicia. Carregue-os consigo e confira algumas vezes as tarefas. Hoje os celulares têm dispositivos de agenda e anotações, com busca extremamente facilitada.

- deixe cada coisa no lugar certo, não troque de lugar objeto nenhum, nem                                              mesmo a escova de dentes ou as roupas em gavetas já definidas.

- não desarranje o layout de seu escritório. Em dias de faxina, supervisione a empregada e comande a operação. Não confie nos arranjos e decoração de autoria dela. É preferível sua bagunça onde você sabe e vê o lugar de cada livro, documentos ou objetos de uso no ambiente.

- quando estacionar o carro observe bem o local, anote ou fotografe a placa indicativa do setor, principalmente em grandes shopping centers. Certa vez num deslocamento do MEC para um hotel onde deveria apresentar palestra em evento, fui no próprio carro, pois o carro oficial demoraria. Terminada a palestra o carro oficial já estava me aguardando e tranquilamente voltei nele para o Ministério. À noite, no final do expediente, bateu o pânico... “roubaram meu carro aqui no estacionamento do MEC”, bradei para o segurança da portaria. Mas, professor..., eu vi o senhor chegar, depois do almoço, no carro oficial e não no seu próprio... Só então atinei para o fato de que havia esquecido o carro no hotel e lá fui buscá-lo, gargalhando do meu déficit de atenção, da cara de espanto do porteiro do Ministério e o riso contido do mesmo motorista.

 

   - Cuidados em viagens:

               - quando dormir em hotéis ou ambientes estranhos, memorize o layout do quarto: os armários, geladeira, telefone, tv, portas de saída e principalmente do banheiro, etc. Apague a luz, tente localizá-los mentalmente e depois acenda a luz e confira. Faço isto sempre, desde quando, ao levantar-me no escuro, bati com a cabeça na TV afixada na parede.

            - fazendo as malas... Antes disso, ainda em casa, faça uma checklist de documentos de trabalho, roupas e objetos de uso pessoal que deverão ser levados na viagem. Ao deixar o hotel, confira cada ambiente de seu quarto, abra armários, gavetas e toque o seu interior com as mãos, como a tatear em busca de algo, pois assim haverá tempo para se concentrar e o cérebro racionar em cima de possíveis objetos ali guardados e esquecidos. Não deixe de olhar debaixo da cama e no cofre, locais campeões para se esquecer algo, até mesmo passaporte e dinheiro. Barbeadores elétricos havia coleção no escritório, pois os hotéis nos EUA costumam fazer a cortesia de devolvê-los pelo correio.

            - cole uma fita bem colorida circundando sua mala de viagem. Isto ajuda a identificá-la na esteira do desembarque nos aeroportos e evita enganos de se pegar malas alheias ou levarem a sua. Certa vez emprestei uma mala para a filha. Ao desembarcar em Florianópolis lá estava um colega de trabalho a esperá-la. Ao ver a fita espalhafatosa com as cores do arco-íris quis saber a razão. É de meu pai, disse ela. De pronto o amigo perguntou: ele é gay?...rsrs. Quando me contou, tratei de retirar a faixa “colorida de arco- íris” e coloquei uma vermelha bem destacada.

- na recepção do hotel, quando do checkout, confira os bolsos para não levar as chaves do quarto. Nos EUA as chaves tinham etiqueta de plástico com o nome e endereço do hotel. Caso você a levasse por esquecimento, bastaria colocá-la na primeira caixa de correio que encontrasse, em qualquer parte do país. Hoje quase não é necessário pois a maioria das chaves é digital.

 

            Em outras situações:

     - use trechos de música ou frases mnemônicas para se lembrar de seus itens. Quando estudante de agronomia, o professor da disciplina de Geologia, Alfredo Sheid Lopes, fazia-nos memorizar a escala de dureza dos minerais com a seguinte frase mnemônica:  Tia Gertrudes, CAso Fores Passear, QUeira Trazer COisas Doces... Assim era fácil se lembrar escala de dureza mineral: 1-talco, 2-gipsita, 3-calcita, 4-fluorita, 5-phósforo (assim mesmo, com “ph”), 6-quatzo, 7-topázio, 8-corindon e 9-diamante, o mais duro dos minerais e até usado para cortar vidros. Numa de minhas viagens à Lavras, 55 anos depois daquele ano de 1965, quando aprendi a escala de dureza dos minerais, encontrei-o no banco da praça central. De longe gritei aquela frase mnemônica que ele nos ensinara..., gargalhou muito e exclamou... “o Paulo bagaço sempre foi bom aluno...”. Meses depois, em 23 de maio de 2020, ele, o querido e saudoso Prof. Alfredão, faleceu. Inesquecíveis, ele e seu método de ensino. Uma parte de nós que se foi, mas ficou eternamente no coração a figura do grande mestre.

               - diga em voz alta o lugar dos objetos que você guardou

               - procure não entrar em pânico com os esquecimentos, naquele famoso “deu branco”, pois se estiver calmo o cérebro poderá até se lembrar dali a instantes. É como se você tivesse feito um boot no computador (desliga/religa) quando ele não está respondendo. Ao religar, a memória será reiniciada sem o tilt.

               - nos livros e anotações destaque as palavras-chaves com marca textos

               - no computador ou celular use a tecnologia digital, com alarmes, para marcar datas, eventos e anotações.

              - use o GPS do carro ou do celular, sempre.


 O saudoso Prof. Alfredão, assentado, durante a reinauguração do campus histórico da Esal. Nos ensinou, além de tantas coisas da Agronomia, o uso de frases mnemônicas para gravar na mente a escala de dureza dos minerais. Ainda a tenho na memória, como também a indelével lembrança do mestre e pesquisador nato.

Foto do autor – Esal/Ufla 2012 



Como se vê, para tudo pode-se dar um jeito. Não deixe que o TDAH torne sua vida um inferno. Nem ligo mais para os meus esquecimentos ou lerdeza, como se dizia antes. Já no campo das memórias e sinapses positivas, relembro aqui um velho e verdadeiro adágio que reforça as teses dos pais, avós, psiquiatras infantis, psicólogos e pediatras que julgam que o amor, afeto e atenção à infância estão na base do desenvolvimento da personalidade, do caráter da saúde mental e sobretudo da inteligência da criança, adulto de amanhã:

 

“Aquilo que o coração amou a memória não esquece. Criança amada, adulto feliz!”

 

... e ainda acrescento que esse adulto se torna mais aguçado e curioso, fazendo perguntas inteligentes, desenvolvendo o senso crítico de busca do saber, distinguindo-o do adulto comum que se limita a repetir conhecimentos que lhe foram repassados. Faça diferença, “eduque” uma Criança. A sociedade agradece e para finalizar, cabe ainda lembrar que um dos maiores efeitos da atenção e carinho dedicados à criança, é sem dúvida a felicidade do adulto. O idoso que assim viveu a infância sente-se mais jovem do que a idade real, têm mais satisfação na vida e menos emoções negativas como culpa e raiva, proporcionando-lhe, assim, um aumento geral da sensação de bem-estar. Ao contrário, indicam as pesquisas científicas, aqueles que não têm boas recordações da infância e guardam mágoas no coração, envelhecem mais rápido e aparentam ter mais idade que a real. Eles sabem disso, sentem-se mais velhos e a expressão facial deles tem estampada a tristeza e as rugas implacáveis do tempo cruel. Viu um adulto feliz, gargalhando por qualquer coisa? Pode ter certeza e aplicar o adágio acima: Criança amada, adulto feliz!

 

 Brasília, 30 de junho de 2022

  Paulo das Lavras

 

 Criança feliz, certamente será um adulto feliz. Contar história é o maior atrativo para uma criança. 
Faça um grande bem para toda a humanidade... Eduque uma criança! 
Foto do autor




 



 



 





 


 

 
 



 
 







terça-feira, 31 de maio de 2022

Preconceito etário ou choque de gerações?

             Nem preconceito, nem choque. Professor desde os dezesseis anos, aprendi a conviver com alunos de 15 a 70 anos. Sou da geração baby- boomer, aquela nascida entre 1945 e 64, ou seja a geração, do período do pós-guerra, quando a humanidade se deparou com grandes avanços tecnológicos, mudanças políticas e viu o homem ir a lua, presenciou o início das lutas pelos direitos humanos e a liberação da mulher (Twiggi de minissaia e outras ativistas como Betty Friedan que queimou o sutiã em praça pública). Foi a época da explosão demográfica do pós guerra, com todas as mudanças pelas quais o mundo passou, incluindo até mesmo o surgimento de novos estilos musicais como o Rock´n´roll, Twist. Ah... suspiram os mais velhos..., quem não viu, vibrou, dançou em festas abrilhantadas pela turma da Jovem Guarda? Wanderlea, Vanderley Cardoso, Carlos Gonzaga, Roberto Carlos e tantos outros em shows na cidade de Lavras? Para quem não sabe, Roberto Carlos, em início de carreira, no ano de 1962, apresentou-se num pequeno circo instalado na Praça Santo Antônio, ali na minha cidade natal, Lavras. Alegria geral da meninada adolescente empolgada com a Jovem Guarda do yeh, yeh, yeh .  Bem depois dessa turma do pós-guerra, cujos princípios focavam no intenso trabalho em busca da prosperidade e valorização da família com costumes tradicionais e elevada religiosidade, chegou a nova geração, a Geração X

Acostumei-me a trabalhar com os jovens e isto levou-me a absorver os  seus hábitos e jeito de encarar a realidade. Conectar-se à diversidade de assuntos dos jovens e perceber seus ideais e então orientá-los para a vida profissional, mais que o ensino das ciências, era um desafio ao qual me impus. Costumava dizer a eles, meus alunos, que o mais inteligente era aquele sabia fazer perguntas desafiadoras ou até mesmo inusitadas diante de um problema e não aqueles que tinham a resposta da múltipla escolha do certo, errado, não sei. Ora, se já havia resposta certa, alguém já havia se debruçado na questão e encontrado a solução. Se já existe resposta certa, para que, então, uma empresa iria querer um profissional medíocre que decora as respostas? Não, o mundo corporativo vai atrás de talentos e os talentosos não se contentam apenas com a decoreba do certo, errado, não sei. Os talentosos são curiosos, exploram o desconhecido em busca de soluções, inovadoras, para o problema da empresa que está inserida no mundo corporativo de grande e acirrada competitividade. Assim, sempre consegui acompanhar a agitação dos jovens e estar à frente e junto a eles. Nunca apliquei uma prova de múltipla escolha com o famigerado certo, errado, não sei. Sempre foram estudos de casos, com consulta à bibliografia, internet e outros meios, com resolução individual ou em grupos e ainda com orientação do professor. Trabalhoso? Sim, demais, ler, corrigir, ouvir explanações em grupos...! Mas, valia a pena, pois estávamos lidando com jovens ávidos pelo saber e ansiosos por ingressar no competitivo mercado de trabalho, hoje mais voltado para o empreendedorismo. Todo educador sabe que devemos formar profissionais de  nível superior para serem “empregados” e sim empreendedores. Antigamente, até os anos de 1970, os cursos de graduação primavam em formar “empregados”, principalmente para o serviço público. Era comum terminar a graduação e o recém formado já ter o emprego garantido no serviço público como no caso das ciências agrárias, na EMATER, M. da Agricultura, Secretarias estaduais e municipais de fomento e pesquisas agrícolas. Hoje, ao contrário, impera o agronegócio com avançadas tecnologias e estudos de mercados internos e externos, bem apropriados às gerações  Z e Alpha que lidam com a Agricultura 4. 0 e suas sofisticadas ferramentas de otimização integrada da produção e gestão agrícola em diferentes estágios, com a precisão de controles remotos, monitorados por satélites, drones, softwares e outros dispositivos, como também forma de se trabalhar e gerenciar tudo à distância, no conforto de seu home-office.  Assim, não há por que se falar em conflitos de gerações, sejam elas X , Y,Z ou Alpha. Na minha experiência de mais de 60 (sim, sessenta) anos de magistério posso afirmar que todo profissional, ou mesmo quem não se adaptar às novas exigências corporativas está fadado ao esquecimento ou a mediocridade. O que  viria primeiro, o esquecimento ou a mediocridade?  Não sei, penso que caminham juntos. Minha adaptação às diversas gerações aconteceu automaticamente, com o convívio diário em sala de aula e foi fantástica pois vivia e respirava o ar e as inquietações dos jovens que são ágeis, rápidos. A diferença era que, em sendo mais velho e experiente, sentia-me na obrigação de incentiva-los a desenvolver sua próprias capacidades intelectuais, sintonizando-os com os problemas atuais e buscar soluções criativas, empreendedoras como agentes ativos dessa mudança que está acontecendo a cada dia. 


terça-feira, 24 de maio de 2022

Oh... Carol, o show de Frei Albino Aresi em Lavras e a Santa

 

          Frei Albino Aresi, fazia enorme sucesso desde os anos de 1960 até a sua morte em 1988. Pertencia à Ordem dos Franciscanos Menores. Era formado em Filosofia, Teologia e Psicanálise, com especialização em Psicologia Educacional, Hipnologia, Neurologia e Parapsicologia e foi a Lavras para um show de hipnose. Recentemente um amigo dos tempos de colégio enviou-me pelas redes sociais um link do Youtube, que se encontra ao final desta crônica, com a famosíssima musica de rock´n´roll que foi cantada à exaustão nos anos de 1960. Perguntava-me, o amigo, se me lembrava do show de Frei Albino Aresi e de minha tosca performance cantando aquela música em inglês. Pronto..., ao ouvi-la depois de mais de sessenta anos destravou o gatilho do subconsciente e a memória cintilante despejou as imagens da época.  O Salão Paroquial, anexo à igreja matriz, ficou lotado. Eu estava lá e fui escolhido, juntamente com outros meninos das primeiras fileiras, como cobaias para a sessão demonstrativa de hipnose do frei Aresi. Subimos ao palco e o hipnotizador fez miséria com os meninos. Mandou-nos tirar a camisa e tomar banho simulado de chuveiro, escovar dentes e pentear o cabelo diante de um espelho ilusório (naqueles tempos as mães não deixavam os meninos saírem de casa sem lenço e pente no bolso de trás da calça).  Em determinado momento encarou-me a uns dois palmos de distância. Seus olhos azuis brilhavam e embaralhavam a minha mente. Fez um gesto com as mãos como se me puxasse apenas pelo vácuo. Tombei para frente caindo duro como um poste e ele amparou-me antes que fosse ao chão. "Ressuscitou-me” e em seguida fez-nos, a todos os meninos que estavam no palco, ver N.S. Aparecida iluminada à porta de entrada do salão. Pura ilusão que, aliás, não vi.

Frei Aresi percebeu minha resistência em confirmar a suposta visão da santa e então dirigiu-se a mim, fixou-me com seu forte olhar e com gestos fez-me flutuar para cima e para baixo. Senti, estonteado, o subir e descer com a leve pressão de suas mãos sobre minha cabeça. Ainda que fosse pequena a elevação, de fato a senti e fiquei desestabilizado por instantes. Convencido que tinha vencido a resistência do menino, transformou-me no cantor mais pop da ocasião, o norte-americano Neil Sedaka e ordenou que eu cantasse seu sucesso do momento: “Oh Carol”. Esta música era o maior hit da história do rock em todo o mundo. Ocupava os primeiros
lugares na Radio Cultura de Lavras e do país. TV era ainda muito rara e por isso nem sabíamos como era o tal cantor Neil Sedaka. Éramos todos louquinhos pelo rock´n´roll, especialmente os de Elvis Presley, Paul Anka, The Platters e outros. Fui aplaudido pela "performance", cantando a musica inteira, em inglês e no dia seguinte, no colégio, todo mundo queria saber como era ser hipnotizado pelo famoso Frei Albino Aresi. Até mesmo o padre Elói Dorvalino Kock, professor de português, se interessou e deixou o assunto correr em sala de aula. E lá se vão 62 anos.

Pura nostalgia, e como era difícil entender o inglês naqueles tempos sem internet, youtube e tantas facilidades de hoje. Devido a essas dificuldades, havia uma frase que nunca entendi corretamente na letra da música, até que um dia, 15 anos depois, hospedado num hotel no Rio de Janeiro, o sistema de som ambiente do restaurante tocou a famosa Oh Carol, no original. Cutuquei o gringo, de Wooster/Ohio, que me acompanhava e disse-lhe em inglês: preste atenção neste trecho e soletre a frase para mim.   E ele repetiu o trecho da letra: “ no matter what to do... “. Quero ver você escutar a musica pelo link abaixo e tentar entender a pronuncia daquele trecho... Difícil mesmo!

“… I will always want you for my sweet heart

No matter what you do

Oh! Carol

I'm so in love with you

 

 Brasília, 24 de maio de 2022

Paulo das Lavras  

https://www.letras.mus.br/neil-sedaka/75790/#radio:neil-sedaka


 
 Frei Albino Aresi, psicólogo famoso desde os anos de 1960


 Jerry Haltermann, da Ohio State University, que nos assessorava no Ministério da Educação (o segundo,  da direita para a esquerda, a meu lado, o primeiro), captou a pronúncia enrolada de Neil Sedaka. No chão, ao centro a enorme pedra bruta de ágata que ganhou em Cuiabá.

Foto do autor: 1975, na Universidade Federal do Mato Grosso