terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Histórias de aniversário – III: Um aniversário que quase não aconteceu e o legado do Dr Koch

           O Dr Heinrich Hermann Robert Koch foi um eminente médico alemão que nos legou, no final do século XIX, inúmeros estudos e teses no ramo da patologia e bacteriologia. Em 1905 foi distinguido com o Premio Nobel de Medicina pelas suas notáveis contribuições que facilitaram, ainda hoje, a compreensão da epidemiologia das doenças transmissíveis. É provável que poucos profissionais, como os agrônomos que passamos por disciplinas de patologia animal (sim... estudei essa matéria que constava da disciplina de práticas de medicina veterinária, obrigatória nos currículos do curso de agronomia da década de 1960), se lembrem que a técnica de fixação e coloração de bactérias para estudo em microscópio foi criada e desenvolvida por esse cientista. Também a descoberta do agente carbúnculo e seu ciclo se deve ao Dr Koch. E olhe o quanto penamos nos exames teóricos e com as práticas de laboratório para descrever os sintomas do carbúnculo hemático (bactéria antrax - Bacillus anthracis). Trata-se de doença contagiosa que ataca os bovinos e o aluno que não soubesse diferenciá-la do carbúnculo sintomático, a vulgar manqueira, não contagiosa, estava automaticamente reprovado pelo rigoroso e competente Prof. Dr. Edmir Sá Santos.

 Mas, foi também o Dr Koch quem descobriu e dissecou a fundo os segredos da doença da tuberculose. Publicou em 1882 o primeiro artigo em que identificou o bacilo causador desse mal, a Mycobacterium tuberculosis e que depois recebera o nome de Bacilo de Koch. Essa bactéria se aloja no pulmão e se dissemina por meio da tosse, espirros e pelo ar onde podem permanecer por horas. Por essas razões e mais pela falta de tratamento sério os doentes eram segregados. Estima-se que 25% da população do século XIX tinha tuberculose. A enfermidade passou a ser chamada de mal do século e no período romântico, matou inúmeros brasileiros e privou a literatura de grandes talentos. Em passado mais distante são registrados como vítimas fatais os padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta e mais recentemente Casimiro de Abreu, Castro Alves, José de Alencar, Manuel Bandeira, Noel Rosa e vários outros benfeitores da humanidade em todo o mundo. O pânico, em relação à doença, era tanto que sequer era mencionado seu nome completo. Era identificada nos laudos médicos e nas conversas apenas pelas letras - tb. Poucas são as referências, pelas vítimas e familiares, sobre os males da doença. Exceção apenas para o poeta Manuel Bandeira que não fez segredo nenhum, ao contrário, cantou sua doença em versos:
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
- Respire.
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino

Mas por que essa alta incidência da doença no meio artístico? A literatura indica que isso se devia aos hábitos desregrados de vida dos artistas. Noctívagos, se alimentavam mal, eram sedentárias e dependentes de álcool e fumo, além de frequentarem ambientes fechados, com pouca ventilação e grande circulação de pessoas. Além dos bares e tavernas se reuniam à noite, a céu aberto, em praças e outros ambientes sem nenhum agasalho, submetidos à chuva e ao frio (haja romantismo e vontade de impressionar as moças com suas serestas...). Hoje em dia não há mais pânico diante  desse mal, pois há políticas de saúde pública eficientes no combate às doenças chamadas infecciosas. Por outro lado, os tratamentos com modernas drogas debelam a doença em menos de 30 dias. Deixou, portanto, de ser um fantasma para a sociedade depois que as vacinações em massa com o BCG foram popularizadas, embora sua eficácia tenha sido pouco satisfatória para a modalidade pulmonar.
           
Mas, afinal o que tem a ver o legado do famoso bacteriologista, Dr Koch, com a vida de um jovem engenheiro? E o aniversário que quase não aconteceu? Pois bem, a vida em Belo Horizonte era tranquila, prazerosa em quase todos os sentidos, não fora o mal que acometera o jovem, recém-chegado do interior. Gostava da cidade-capital das Gerais e se dera bem no trabalho e na vida sentimental. Porém, no campo da saúde não poderia dar certo, com alimentação deficiente em vitaminas, frutas e nutrientes essenciais, refeições frugais no restaurante Massahud (má saúde, seria mais apropriado, até porque ficava bem próximo da região hospitalar da Santa Casa e outros hospitais da capital mineira). Além disso e para piorar as condições, havia excesso contínuo de trabalho nas intempéries, com chuvas e ventos muito frios nas geladas montanhas das regiões de Ouro Preto e da Serra do Cipó. Não bastasse todo esse quadro, havia também o cigarro constante. Tudo isso somado e ao mesmo tempo, minou a saúde do menino e a evolução de uma simples pneumonia para um quadro gravoso de tuberculose pulmonar, não era, portanto, de se surpreender.

 A subnutrição é uma das principais causas para a instalação do bacilo de Koch. Mas, nesse caso outro fator agravante, além daqueles já mencionados, contribuiu para a aquisição do temível bacilo. No mesmo local de trabalho residia o menino, num minúsculo quarto, dividido com outro colega, ambos fumantes inveterados. A atmosfera poluída era respirada a noite toda. Mas, o pior era que essa residência/escritório de trabalho se situava a um quarteirão de grandes hospitais como a Santa Casa de Belo Horizonte e o Hospitais da Faculdade de Medicina da UFMG e o São Lucas e outros. Não bastasse a poluição autoprovocada pelo cigarro, os arredores não eram nada recomendáveis em termos de salubridade e qualidade do ar que se respirava. Estava, portanto, montado o cenário que, associado à frágil compleição física, e carga de trabalho em excesso, se tornaria propício para o certeiro ataque da tal micobactéria. O jovem engenheiro de 23 anos, recém-chegado do interior de ares mais puros e sadia alimentação, não resistiu ao ataque daquele bichinho identificado pelo Dr Koch. Incrível a sucessão de fatores desencadeantes, tal qual acontecia com os artistas que levavam vida desregrada em constantes noitadas. À exceção da vida noturna que inexistiu para o jovem engenheiro, tudo contribuiu, a começar pela pobre alimentação, fumo constante, ambiente fechado e altamente poluído, sedentarismo, vivencia de 24 horas/dia nas proximidades de grandes hospitais públicos onde certamente o ar estava contaminado por bactérias, vírus e bacilos de toda ordem. E pior, quando executava tarefas no campo, havia sobrecarga de trabalho sob chuva e ventos gelados nas regiões montanhosas de Ouro Preto e da Serra do Cipó, município de Conceição do Mato Dentro, próximo à Diamantina. No way..., não tinha jeito, o bacilo de Koch encontrou terreno fértil!

Mas, sabe-se lá o destino de cada um, pois na própria Belo Horizonte, no ano de 1924 ou 25, esse mesmo bacilo colheu também outro jovem, coincidentemente de mesma idade, 23 anos, que trabalhava muito, até altas horas da noite, madrugadas inteiras, como telegrafista para custear seus estudos de medicina. Seu nome, Juscelino Kubitschek de Oliveira, o nosso ex-presidente JK. Seu tio o socorreu financeiramente para que pudesse parar de trabalhar, se tratar e continuar os estudos de medicina. O tio desse jovem órfão, desde os três anos de idade, residia em Diamantina e era irmão de seu pai. O pai de JK, João César, havia morrido prematuramente, aos 34 anos, também com essa mesma e terrível tuberculose. No livro “O essencial de JK”, o autor, Ronaldo Costa Couto, descreve a prematura partida do pai de JK apontando a causa como a exposição ao vento gelado das serras. É verdade, sei disso por experiência própria. A exposição aos ventos gelados do espinhaço de Diamantina, ou mais precisamente, a 60 km ao sul da cidade, na Serra do Cipó, na Fazenda do Palácio, na antiga Estrada Real, caminho das jazidas de diamante até Ouro Preto e dali para a capital da corte, Rio de Janeiro, também me abateu e fraquejaram os pulmões. Ali estive, durante algumas semanas, executando projetos florestais debaixo de chuva fina e os fortes e uivantes ventos gelados. Não há quem aguente isto por muito tempo. Coitado de João César, caixeiro viajante, a cavalo sob chuva e frio naquelas montanhas, dormindo ao relento, mal alimentado e certamente, não contava com os recursos terapêuticos que o jovem engenheiro pôde desfrutar no Hospital Militar de Belo Horizonte. Não havia ainda, para ele, o milagroso e eficaz antibiótico penicilina, descoberta pelo cientista Alexander Flemming em 1928 e disponibilizada como medicamento em 1941, durante a II Guerra Mundial. E ainda lembrar que foi nesse mesmo Hospital que o filho de João Cesar, JK, veio a se tornar o Major-Médico, cirurgião, que logo em seguida foi atuar no front da Revolução de 1932 no Túnel da Mantiqueira.

Que triste sina do nosso saudoso JK. Perdeu, aos dois anos de idade, o pai que era um jovem de 34 anos e depois, ele próprio aos 23 anos, também se contaminara com aquela terrível bactéria da tuberculose. Não fora aquele caridoso tio ele não teria sido curado e nem se formado em medicina. Teria morrido, de madrugada, em cima do manete do telégrafo dos Correios, pois dependia do salário para sobreviver e estudar. Hoje não teríamos também a nossa bela capital Brasília. E eu nem estaria aqui, na Brasília de 56 anos de existência, desfrutando dessa maravilhosa cidade-parque. Mas, as crueldades dessa fatalidade, apelidada de “tb”, sobre JK não pararam por aí. Novamente a insidiosa doença lhe açoitou a alma. Não bastassem o pai e ele próprio terem contraído aquele mal, também sua filha passou pela mesma via crucis aos 13 anos de idade. Foi afastada do colégio, no Rio de Janeiro, onde ele exercia o honroso cargo de Presidente da República, para que ele e a própria filha fossem poupados, e não houvesse especulações em torno da família. Em menos de um ano estava curada, pois os recursos médicos estavam avançados e, afinal ele, o pai, também era médico, disse Ronaldo Costa Couto em seu livro.

Mas, o jovem engenheiro agrônomo, como JK e seu pai João Cesar, também iniciou o tratamento no mesmo Hospital Militar de Belo Horizonte, situado a uns três quarteirões de sua residência e escritório com aquele quartinho poluído pelo cigarro... E com a mesma sorte que o ex-presidente JK, também contou com uma alma caridosa, amorosa, que lhe estendeu a mão e o salvou da morte certa. Não haveria aniversário naquele 5 de abril, em Belo Horizonte. Sim, tudo se encaminhava para tal. A começar pela falta de senso próprio quanto à alimentação inadequada, sobrecarga de serviço sob intempéries, persistência no vício do cigarro, moradia inadequada, além da proximidade da grande área hospitalar com inevitável contaminação do ar. E pior, ainda, a grande resistência em ir ao médico e seguir as prescrições, ou simplesmente cuidar-se. Hoje, analisando a situação, é difícil entender por que predominava, à época, tamanha falta de senso ou conhecimento, a ponto de não se saber avaliar o risco que corria a própria vida. Não é a toa que a literatura médica aponta as mulheres como mais cuidadosas da própria saúde. O especialista em cirurgia torácica, Dr EvilazioTeubner, recomendou a cirurgia do nervo intercostal para aliviar as dores do peito e nas costas. Seria extirpado um pinçamento do nervo intercostal, um nervo entre as costelas dilaceradas, sequela de antiga cirurgia de pleurite que o menino se submeteu aos dois anos de idade, em Lavras. Sim, pleurite aos dois anos de idade e somente foi salvo pela perícia do Dr Jacinto Scorza, ex-prefeito da cidade, que usou e abusou da então recém-descoberta, penicilina. Também não era para menos, pois até então, antes do aparecimento dos antibióticos, milhares de pessoas morriam de doenças bacterianas, como a pneumonia, ou de infecções depois de cirurgias. Santo antibiótico, embora outros médicos como o Dr. João Amilcar Salgado e Dr. Armando Greco, da Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG, ambos com ligação à cidade de Lavras, condenassem o abuso de antibióticos e diziam, naquele final da década de 1940, que a medicina estava em lua de mel com os antibióticos e os hormônios, medicamentos cada vez mais eficazes. 

Embora com toda essa anamnese nada animadora, o jovem engenheiro continuava insensível às recomendações médicas. Outro médico, o pneumologista Mário Marques, ainda recomendou que se deixasse de fumar. Nada foi seguido, apenas o tratamento à base de hidrazida do ácido isonicotínico. Mas, pior que o diagnóstico foi o prognóstico desse médico que, felizmente, revelou-se totalmente equivocado. Ele recomendou à namorada do jovem: “leve-o de volta para a cidade natal, para morrer”. Ainda bem que essa cruel recomendação só me foi contada alguns anos depois pela própria pessoa que a recebeu diretamente daquele nada sensível médico do serviço público. Ao saber disso e juntando as peças dos acontecimentos da época, só então o jovem engenheiro pode avaliar a extensão do perigo pelo qual passara.

 A viagem de retorno definitivo para sua cidade natal foi feita praticamente deitado no banco do veículo, com dificuldade de respiração e intensa dor no peito. A namorada, seu anjo caridoso, deixou o trabalho em Belo Horizonte e chorosa levou o jovem para Lavras, onde “morreria” junto aos familiares, conforme predição do equivocado médico. Ali permaneceu por uma semana, orando e confortando a todos e inclusive ensinando aos familiares sobre a superalimentação e cuidados necessários no tratamento, pois tinha bastante prática de residência médica. Ela levou muito a sério as palavras finais daquele médico, porém só me revelaria aquele equivocado prognóstico  muito tempo depois. Não fora seu cuidado, fatalmente aconteceria o pior, pois o menino ignorava, não tinha conhecimento e tampouco sensibilidade para avaliar a gravidade e os cuidados que a situação requeria. Assim como JK teve a sorte de ter a assistência do tio, o jovem e teimoso engenheiro, que ignorava os perigos desvendados pelo Dr Koch, também contou com uma alma caridosa e amorosa, sua namorada, com quem veio se casar algum tempo depois, já completamente restabelecido e em plena atividade profissional. Deus foi muito generoso com aquele jovem teimoso e descuidado com o bem mais precioso, a saúde, a própria vida. Sua carreira profissional mal acabara de iniciar e poderia ter sido encerrada prematuramente, ali mesmo na capital mineira. Teria tido um triste final, a começar que não teria viajado de volta, para a cidade natal, com a cabeça recostada no macio e acolhedor colo de sua amada, mas, transladado numa nave de madeira, dura, envernizada e lacrada, para sempre.

Pois então..., o aniversário no 5 de abril seguinte, que quase não houve, aconteceu, sim! E mais, dois anos depois houve ainda o casamento, lá mesmo em BH, na belíssima Catedral de Lourdes, onde recebi nos braços aquela que me deu a mão nos momentos cruéis da vida. E os aniversários já têm se repetido umas cinquenta vezes depois daquele quase trágico encontro com o bacilo de Koch. Graças a Deus! E também à mão caridosa de alguém que conhecia o métier e foi protagonista naquela plena recuperação, como também a assistência de toda a família. Foram quarenta dias assim, em plena recuperação. Sim, a vida é bela, sobretudo aos 71, com muita saúde e disposição para o trabalho e curtir a vida, a família e os amigos, principalmente depois de ter sobrevivido a esse e mais três outros dribles na dona morte com sua foice pronta para ceifar vidas. Numa das vezes, a primeira, o ex-prefeito e médico cirurgião, Dr. Jacinto Scorza salvou-lhe a vida. Na segunda vez foi salvo pela mãe que o resgatou do fundo de um reservatório d´água. Na última vez, a foice da dona morte não teve vez, num desastre aéreo em grande aeronave, quando salvou-se por milagre. Mas essas são outras histórias.

Saúde e tim-tim neste aniversário, com um brinde à vida, com os familiares e amigos. Sempre! Deus é grande e sempre nos reserva uma missão aqui na terra. E o melhor é exercê-la com muita alegria e amor no coração. A cada aniversário me lembro disso e dou graças a Ele!


Brasília, 5 de abril de 2016


Paulo das Lavras


 
No rigoroso inverno de Ouro Preto,                   
escalando montanhas da região para
execução de projetos de reflorestamentos
 de siderúrgicas sob chuva e frio cortante.

Revisitando o local quase 50 anos depois

 
Nos tempos de BH


 
Recuperando-se em Lavras     
                               
 
dois anos depois..., pronto...


... para a lua de mel – Poços de Caldas (mas,
ainda com maço de cigarros no bolso da camisa..)




  
Relembrando JK, quase 50 anos depois, no
 lançamento de mais um livro sobre sua
bela história, ao lado de uma de suas netas



Disposição para o trabalho nunca faltou..., aos 50 (à direita), visitando
 a UFLA, com o ministro da Educação Murilo Hingel  que cumprimenta
 a Profª Marília Lunkes e o prof. Canísio Lunkes, que aparecem de costas.
O prof. Silas Costa Pereira, primeiro reitor da UFLA, ao centro



A mesma disposição aos 70. Batalhando no Congresso Nacional



...ou aos 71, com o colega professor da UFSJDR. Saúde é tudo. Muitos
aniversários têm sido comemorados, depois de dar grandes dribles naquela
tenebrosa senhora da foice... Acho que vivi uma história alegre e com
 missão cumprida, pois já a venci  por 4 x 0











sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O voo de urubu em Lavras e no Planalto Central

O urubu, voa. E voa bonito, muito bonito. Não adianta achar que é ave feia ou até mesmo agourenta, pois isso não vai diminuir a beleza de seu voo. Só quem voa de avião, helicóptero, ultraleve, paraquedas, asa delta e parapente, sabe apreciar a beleza e a técnica do voo do urubu. Técnica de voo? Sim, verdadeira engenharia aeronáutica os urubus nos ensinaram. Seus voos planados em alta velocidade e com pouca perda de altura, invejavam os humanos e suas máquinas de voar. Desde que esse mundo é mundo os urubus já vêm de fábrica com os winglets na ponta de suas asas. Ah..., que estabilidade nas planagens e glissagens (curvas descendentes, bem fechadas)... e pensar que os engenheiros aeronáuticos só vieram a descobrir e usar isto muito recentemente, não mais que 20 anos (o winglet – aba na ponta da asa, dobrada verticalmente, para cima, que diminui o arrasto, melhora a estabilidade, dá mais velocidade ao avião e proporciona economia de combustível). A EMBRAER, uma das maiores indústrias de aviões, foi uma das precursoras na descoberta e uso dos winglets, dos pequenos aos maiores aviões a jato, como o ERJ-170.

Mas, não é do urubu, “inventor” natural do winglet que quero falar. Quero falar dos urubus de Lavras. Algum tempo atrás escrevi uma crônica intitulada Meu Sonho de Ícaro e nela falei do sonho de criança, de voar tal qual o urubu. Mestres no voo de planeio e ataque vinham do alto da majestosa Serra da Bocaina e pousavam próximo ao curral da enorme chácara onde eu morava, na Rua Progresso, hoje Vila Cruzeiro do Sul. Maravilhas de voos, suaves, tranquilos, flutuando no céu azul, mas, de repente, ao avistar uma presa ou petisco no solo, despencavam em altíssimas velocidades, geralmente para a captura de alguns restos de carnes esquecidas no local do abate de animais domésticos para consumo, prática muito comum nas fazendas, chácaras e até mesmo em casas da cidade com grandes quintais.

Mas, também não são desses urubus que vamos falar hoje. Melhor mesmo foi o sucesso do urubu no Vitória Palace, o mais chique e charmoso hotel em estilo colonial da cidade de Lavras. No dia 18/03/2011, em visita à cidade natal, estava ali hospedado, com minha família e na hora do jantar vi um bem produzido cartaz anunciando o Voo do Urubu. Fiquei intrigado, mas, me aproximando verifiquei tratar-se do lançamento de um livro com aquele título. Esquisito, para se dizer o mínimo. Entretanto, como já me inspirara em seus voos planados, decidi procurar o salão onde acontecia o referido evento, pois seria surpreendente conhecer alguém que também “gostasse” de urubu, ou melhor, do seu belo voo. Surpresa! Era o Dr Paulo Rodarte, médico urologista e escritor lavrense, que estava lançando seu mais novo livro e com aquele mesmo título estampado no cartaz no hall do hotel. Beberiquei um champagne e fui prosear com toda sua família, gentilíssimos ao saber que eu era apenas um hóspede curioso, embora lavrense, mas vindo de longe. Descobri que a esposa dele, estilista, conhecera minha esposa 35 anos atrás e havia feito algumas roupas para ela, recém-chegada de Belo Horizonte e que ainda não conhecia ninguém em Lavras. Amizade que se consolidou, de imediato.

Adquirido o livro, devidamente autografado, num relance vi as mais de cem crônicas contando casos e causos passados em Lavras. Dei muitas gargalhadas com a leitura dinâmica de algumas delas, ali mesmo, na mesa de jantar enquanto a família, em outro salão do hotel, degustava as delícias do filé de tilápia a belle meunière, especialidade do restaurante do charmoso Vitória Palace. Aprendi, com as palavras rimadas, da poetisa Simone Almeida, que “O urubu é o Mestre do voo, divino réu./ Anjo de cor, gari do céu./ No imenso azul e branco véu./ Cumpre, urubu, seu papel”. E o Dr Paulo Rodarte completa: “Se eu fosse um urubu, não faria caso (do descaso humano) e avoaria sempre, fugindo do descaso de quem torce o nariz aos urubus. Ah! Se não fossem os urubus”... Perfeitas, as louvações ao gari de terno preto, acrescento eu!

Além de escritores e admiradores dessa ave, como este menino que almejava suas asas para voar da Serra da Bocaina até a varanda de sua casa ou pousar no alto da torre da igreja matriz de Santana, há ainda os fanáticos como aquele cambuiense que criou e ensinou um urubu a voar. Uma impressionante história em que ele próprio voa num paraglider ao lado de sua ave, a “loira”, aluna e acompanhante das delicias dos planeios por entre montanhas do sul de Minas. Não acredita? Confira o vídeo indicado abaixo e depois diga se é ou não o mais belo dos voos? O voo do urubu! E Lavras tem pelo menos dois Paulos que gostam do voo do urubu. Sobre o primeiro, o editor do já citado livro escreveu: 
“.... admirador confesso dos urubus, escreveu e amou tanto as pessoas, sobretudo os obreiros humílimos que com ele se cruzam, nas madrugadas frias ao descer a rua de Lavras. Ele, de um jeito extrovertido, controvertido e divertido, vê a vida sob um prisma de arco-íris. Com todas as cores. Mais do que as têm o arco-íris. O segredo de tanta criatividade e alegria? Benditas endorfinas. Seu remédio, sua sina. Voo do urubu é maravilhoso. Podem dizer que urubu é asqueroso. Feio, repelente. Voo do urubu voa. Como avoa o doutor Paulo Rodarte. Sem sair do chão. Sem asas. Com muita imaginação…”

Bem, quanto ao menino das Lavras, continuo com a fascinação dos voos planados daquela ave. Seja a dez mil metros de altura a bordo de grandes aviões de carreira, na rota Brasília/Rio, quando contemplo a serra da Bocaina e a cidade e a imaginação recorre ao voo planado do urubu, com vontade de saltar da aeronave e pousar lá embaixo. Ou ainda quando voo no ultraleve, ou mesmo da varanda de minha chácara, tento acompanhar um ou outro urubu que avisto pelas nuvens, tal qual aquele adestrador de Cambuí. Mas, nunca consegui acompanhar suas bruscas curvas descendentes em altíssimas velocidades, como em um verdadeiro looping da Esquadrilha da Fumaça. Afinal essas aves têm winglet nas pontas das asas e por isso têm maior agilidade, melhor desempenho em voo.  No silêncio do espaço, anônimo, ouço o silêncio reconfortante da alma em pura alegria de menino que sonhava voar. Pena que não tive a sorte do Celinho, de Cambuí-MG. Meus voos, de ultraleve sem winglets, não têm a companhia de uma “loira”, um urubu treinado para acompanhar os voos nas planuras do planalto central. Até porque aqui não temos montanhas. Mas, não importa, pois naquelas montanhas de Lavras também eu voo por aqui, sem sair do chão, apenas com as asas da imaginação batendo, com o coração apertado e o filme da majestosa Bocaina, rodando com o cenário então contemplado diariamente desde a infância e que acalentou meu Sonho de Ícaro. E agora, depois de mais de 60 anos daqueles devaneios pueris, posso dizer que desafiei o poema do príncipe dos poetas, Guilherme de Almeida:
“tudo muda, tudo passa
nesse mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
“fica na terra o carvão”.

Como a fumaça, cantada em verso, também fui aos céus, graças ao invento de Santos Dumont e até voei mais alto que o urubu e certa vez de ponta cabeça, em manobra de “perda” num pequeno ultraleve de instrução, também despenquei em altíssima velocidade. Portanto, a “fumaça” do poema, que se espargiu nos céus, para mim não foi ilusão, materializou-se em voos pilotados. Mas, recordo e concordo com o restante do poema, ou melhor, seu início. E dele faço vida:
“Lembrança quanta lembrança
 dos tempos que já lá vão
 Minha vida de criança,
minhas bolhas de sabão...”

Vida, sim, pois sou eterna criança embalada em sonhos de Ícaro, fazendo, ainda hoje, voos planados na imensidão do azul do céu do planalto central, de onde posso ver das alturas, em pura realidade, o pássaro dourado, de asas abertas, no chão, ideado por Lucio Costa e plantado por Niemeyer, a belíssima Brasília com suas asas. Posso dizer e confirmar que as almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria! Assim disse outro poeta, Rubem Alves, que também viveu boa parte de sua vida contemplando a belíssima serra da Bocaina, em Lavras.

Velho? Criança...? Até nisso, mais uma vez, o príncipe dos poetas confirma, em sua última estrofe:
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!

E vale repetir: Benditas endorfinas./ Meu remédio, minha sina./Voo do urubu é maravilhoso./ Podem dizer que urubu é asqueroso./ Feio, repelente. Voo do urubu voa. Como avoa no ultraleve o Menino das Lavras e também o doutor Paulo Rodarte. Este sem sair do chão. Sem asas, como dito pelo prefaciador do livro, de quem copiei este parágrafo, ligeiramente adaptado. Ambos viajamos, com muita imaginação, nas asas da ave do mais belo voo, seja do urubu, do falcão, da águia, ou mesmo da alma destravada, transbordando amor aos nossos leitores.


Brasília, 15 de dezembro de 2016

Paulo das Lavras




 
A fotógrafa, Catarina Júlia, flagrou o belo planeio de um urubu, em Lavras.
Asas arrebitadas nas extremidades e estabilidade no voo

 
A Embraer, indústria aeronáutica, brasileira, foi das pioneiras a “copiar”
 a lição das pontas de asas arrebitadas. São os chamados winglets, inexistentes até
a década de 1990. Na foto, da internet, um modelo EMB- ERJ-135


 
O menino, a bordo do G3- 737-800, de prefixo PR- GUD,
de Confins para Brasília, aterrisando, em 12/12/2015.
 Esse é um dos  maiores  winglet, com
 aproximadamente, 2,5m de atura 


O detalhe do “winglet” de uma águia em voo estabilizado 


Da varanda da casa da chácara, o menino contemplava
os rasantes dos voos dos urubus, que vinham
do alto da serra da Bocaina. Sonho de Ícaro, voar, voar



 
...para pousar no topo da torre da igreja matriz..
....sonho de menino

 
...realizado de outra forma, muitos anos depois, num ultraleve. Voei vetorando a proa 
 para a  lateral norte da linha de cumeada da montanha. Voar paralelo 
 e nivelado com o cume 
da bela Serra da Bocaina que emoldura a cidade de Lavras, foi  mais emocionante 
que o sonho do menino de tenra idade... 
Ainda demos uma “glissada” na pequena aeronave Aeroboero e nos lembramos 
do perfeito voo doo urubu,  que arrebita as pontas das asas 
e desce velozmente, com estabilidade.

 
Sonho também do médico e escritor Paulo Rodarte, consolidado
 em livro de crônicas com sugestivo nome.
Autografado com peculiar dedicatória, de quem tem aguçado senso de observação... e o menino
o trouxe para casa com especial gratidão


 
..levou seu “Voo do Urubu” para o salão nobre do majestoso e imponente Vitória Palace Hotel
Foto: arquivos de Renato Libeck


 
Dr Paulo Rodarte, autografando seu livro
Foto: Jornal Lavras 24 Horas



 
Celinho, de Cambuí-MG, com seu urubu “Loira”. Voos de paraglider
acompanhados pela ave em verdadeiro show de acrobacias
foto: internet



A paixão do Menino das Lavras, "pilotando" ultraleve. Revoadas no céu azul 
do planalto central, ainda que sem montanhas e
  sem winglets no ultraleve, mas
a lembrança do voo planado do urubu é constante


Revoadas à noite nos mostram, da altura do voo de um pássaro, outro
belo e dourado pássaro de asas abertas,
repousando no chão..., a cidade de Brasília, que não é sonho, é realidade de
outro sonhador, maior que todos, JK...!




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ratoeira e tempo fechados na Esplanada - Ontem e hoje

        Participamos, ontem, 04/12/16, de uma belíssima manifestação cívica na Esplanada dos Ministérios: Contra a Corrupção! Pacífica, sem os baderneiros contratados à base de pouco dinheiro e sanduiches. Felizmente o aparato policial, com revistas individuais a todos os que adentravam o local e tropas de prontidão para garantir o direito de manifestação, foi suficiente para impedir vandalismos e agressões como aconteceu na semana passada com a destruição do térreo do meu local de trabalho por mais de 35 anos, o MEC. Mesmo sob ameaça meteorológica de tempestade, como comprovam as fotos que fiz, muitas famílias, jovens, crianças e idosos lá compareceram para levar seu apoio ao combate à corrupção generalizada no país.

            Interessante notar, logo à chegada, um enorme banner que cobria toda a lateral do carro de som. Uma ratoeira, prendendo o rabo de uma ratazana. E não é que na data de hoje a ratoeira desarmou, pela segunda vez, cassando o poder de um dos réus acusados de corrupção?

            As nuvens negras, de chuva, desabaram sobre nossas cabeças durante a manifestação. Muitos idosos aparecem nas fotos com capas de chuva, providencialmente vendidas pelos ambulantes, com lucro de 11 (onze) vezes o valor original. Nem assim deixamos de compra-las na hora do dilúvio, pois dizem que “pneumonia em idoso é fatal”.... Vai que.... Portanto foi melhor pagar o preço extorsivo e além disso o que adiantaria economizar, levar o dinheiro para a cova?...rsrs...

 Melhor sorte tiveram os policiais da tropa de choque da Polícia Legislativa Federal, que guarneciam as rampas de acesso ao Congresso. Receberam, cada um, uma capa igualzinha a que comprei.... Não me contive e durante aquela entrega de capas aos policiais, gritei para o comandante:

 “Pensei que os jovens, guapos e malhados rapazes da tropa fossem mais fortes que os idosos e não temessem a pneumonia.... Parabéns, comandante...”. Não houve, mesmo na tropa, quem não risse da piada oportunista.

Brincadeiras à parte, chamou-me a atenção o ato final dos manifestantes. Terminada a manifestação e mesmo sob chuva, fizeram um “arrastão” no gramado, por inteiro... Êpa, espera aí. Não se confunda, pois foi um arrastão de limpeza tal qual os japoneses fizeram e nos ensinaram, aqui no Estádio Nacional, por ocasião da Copa Mundial de Futebol. Também no local da manifestação cataram todo o lixo ali deixado e o dispuseram em sacos plásticos trazidos pelos organizadores. Nota 10 no quesito civilidade, do qual também participamos com prazer.

Foi muito bom e expressivo o ato cívico de ontem e hoje, ainda, mais gratificante com a notícia da destituição do poder de um réu da corrupção.

Vejam as fotos da manifestação cívica de ontem.


Brasília, 05 de dezembro de 2016


Paulo das Lavras 



 
A ratoeira no carro de som, ontem... E hoje, parece que se fechou mais
e cortou  o poder de um réu por corrupção.



 
Tempo já fechado, momentos antes do início da manifestação



 
começando a chuva...


 
e são muitos os que estão na mira, veja os cartazes



 
mas, muitos, muitos mesmo...., haja espaço para os
 partidos que não cabem no cartaz, segundo
 a autora, ao centro da foto


 
que vão parar no Moro


 
com morte política, sim!


 
é o que querem muitos jovens que estavam na manifestação


 
e nem, tampouco, se esqueceram do Pixuleco


 
manifestantes se aproximando das rampas de acesso ao Congresso Nacional
e a policia logo adiante...


 
a tropa de choque da Polícia Legislativa Federal se posicionando, com todo seu arsenal de bombas de efeito moral, gás lacrimogênio, spray de pimenta e
a temida Taser, arma de choque elétrico.
Mas, não houve confronto algum....


 
e a chuva caiu forte. Idosos encapados...rsrs... Xô, pneumonia...
 (mas a jovem também não se aventurou a se molhar...)


 
a faxina voluntária no gramado, mesmo sob chuva 


 
e veja, o gramado ficou impecável, nenhum lixo deixado para trás,
 só mesmo a chuva ficou por lá



 
a crença de dois amigos curitibanos 



 
e não é que até o Obama lá estava, distribuindo simpatia e cumprimentos?..rsrs 



voltando para a casa e o tempo ainda estava carrancudo, mas,
 nos ofereceu esse belo espetáculo: uma moldura de fundo branco,
em perfeita harmonia com o grande edifício,
ao lado da Esplanada, na Asa Norte.