quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Silêncio

 

Sonho que se sonha só,

 é só um sonho que se sonha só,

Mas sonho que se sonha junto é realidade.


                                                                              (Raul Seixas- “Prelúdio”)


 

O curto poema em epígrafe, escrito por um cantor popular, revela toda a essência de um sonho. Se sonhamos sós ou então em conjunto, compartilhando os desejos e planos para a vida, faz toda a diferença, E os sonhos planejados são ainda mais factíveis quando acontecem em parceria.  Já os sonhos oníricos quase sempre revelam situações ainda não resolvidas, armazenadas, escondidas nos escaninhos da alma e que afloram de vez em quando. Estes, por se tratar de eventos que fogem ao nosso controle quase sempre nos intrigam e neles a questão tempo e espaço se confunde, numa mistura de eventos distantes tanto no tempo como no espaço físico. Há quem diga que na alma não há espaço e tempo distintos medidos como comumente o fazemos. É possível medir as distâncias em metros ou em quilômetros, mas, no fundo do coração, tempo e distâncias são iguais. Estão distantes e próximos!  Veja que pérola de declaração. “Às vezes, recordo um episódio com uma pessoas específica em minha terra natal e, quando algo parecido acontece aqui, bem distante, sinto que vivo em toda parte”, disse Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, que vive em exílio dourado na cidade Eterna de Roma. Acrescento, ainda, que isto também acontece com as coisas materiais. Uma ponte em arco ou uma bela torre metálica avistada por aqui, me remetem a distantes lugares como Paris ou Nova York, relembrando-me aqueles passeios que um dia fiz por lá. Mas, sem dúvida as lembranças de pessoas queridas nos levam até elas, onde quer que estejam. Por isso se diz que não há tempo nem espaço nas lembranças em nossa alma.  O coração não se engana e não mente nunca com aquilo que amamos. O príncipe dos poetas, Guilherme de Almeida assim se expressou:

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!

 

Tempo e espaço são iguais no fundo do nosso coração..., e quer saber? São mesmo! E tem mais, com o passar do tempo as alegrias aumentam e isso nos faz esquecer que o tempo passou. Não me sinto velho, naquela acepção de cansado, triste, sem sonhos, apenas aguardando a finitude de meus dias. Nada disso. Nas vezes que penso na idade, ela me parece errada, falsa. Não pode ser..., penso,  eu com essa idade? Isso tudo? Dou uma boa gargalhada e, do fundo do coração, digo para mim mesmo..., não é possível..., sinto-me como uma criança que adora a vida, a alegria de viver e sempre compartilhando a vida com os amigos por meio de minhas crônicas! Só alegria? Até parece criança que só pensa no “hoje, o agora”. Mas não estou só, pois outro poeta e filósofo, que foi professor em minha cidade, Rubem Alves ( 1933- 2014), assim escreveu:

As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo.

 As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!

 

 

            E assim vou levando a vida onde vivo, enganando a saudade, sem pensar no tempo e no espaço que me separam da infância e juventude que são caros a todos. Ah..., ainda tem o tempo de professor universitário, ensinando aos jovens. Talvez daí decorra o fato de sempre pensar que somos iguais a eles, jovens, que têm que aprender uma profissão e pensar no futuro. Vício de professor. Para mim, tempo e distâncias são mesmo iguais e o coração não se engana, como dizem os poetas:

 

Tudo muda, tudo passa, neste mundo de ilusão; Vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão... e mais, as almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo.  As crianças sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!

E os sonhos fazem parte da Vida..., Sempre! E hoje, nesta data, vou me tornar criança no show de Paul McCartney. É dia de recordar daquela cartinha, em inglês, que recebi de uma amiga da Dinamarca, de apenas  16 anos, em abril de  abril de1963. Na cartinha, com desenho feito por ela, à bico de pena, mostrava uns caras cabeludos com guitarras e outros instrumentos, com a legenda “The Beatles”, aqueles quatro meninos que saíram de Liverpool e foram tentar a sorte em Hannover na Alemanha, onde ela, a garotinha dinamarquesa, fora assistir seus shows. Voltou ensandecida com o estilo dos garotos de Liverpool. Eu morria de inveja dela que, a toda hora atravessava o canal da Mancha e ia assistir a seus shows, já com o sucesso estrondoso daquele conjunto de rock na Europa. Aqui no Brasil o sucesso deles só começou alguns anos depois e em 1968, minhas noites solitárias em BH, eram embaladas ao som das rádio Atalaia de BH e a famosa Rádio Mundial do Rio de Janeiro, em meu não menos icônico radinho de pilha e fone de ouvidos, da marca Mitsubishi. Só tocavam músicas dos Beatles, Hey Jude, Obladi, obla da, Imagine, Yesterday do vocalista destaque da banda e tantas outras. 

 

Ah... Rubem Alves explicou... os velhos se tornam crianças... e, literalmente me tornei assim em 2014 quando fiquei mais de seis horas no show de Sir Paul McCartney, no Estádio Nacional de Brasília...

E hoje tem... já “estou” criança de novo!

 

Brasília, 30 de novembro de 2023

      Paulo das Lavras


 
Paul McCartney na noite de ontem, 29/11/2023. Brindou a cidade, de última hora, com um show privado para 500 pessoas neste famoso clube de Brasília, relembrando seus tempos do Cavern Club em Liverpool, sua cidade natal. Virou menino saudoso e até pintou o nome de sua cidade na camiseta vermelha e eu, ao ler aquele nome de Liverpool, lembrei-me da cartinha dinamarquesa e também me tornei criança no tempo e espaço, “mirando” aquele desenho de bico de pena, com os cabeludos e suas guitarras, onde se lia: The Beatles- Liverpool. Para ele também, Paul McCartney, aqui no Clube do Choro, tempo e distâncias eram iguais. Ambos “estávamos” em Liverpool e não sabíamos... Puras crianças, como disseram os poetas e filósofos. 
Foto: internet, de 30/11/2023 



 ... e hoje, repetirá o show, cujo nome é bastante simbólico: Got back, voltei!
Foto: internet


 
Nesse show, de 2014, em Brasília, o Menino (literalmente) das Lavras estava 
bem ali, no gargarejo. Valeu a pena! 


Sir McCartney passeando pelo parque da cidade de Brasília- 2014 


 Tickets in hands - 2014… Two "boys" very happy. They were there,
close to the stage...  just to remember the 60´s. So..is the lifetime. 





 ... Vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão, pois tudo muda, 
 tudo passa  neste mundo de ilusão. 
Só tú coração, não mudas porque és puro, és bom,

 








 



 



domingo, 15 de outubro de 2023

Dia do Professor – lembranças daqueles que nos moldaram

 

 

O Professor é o berço de todas as profissões, frase lapidada por um educador e que reflete com profundidade o papel que eles representam em nossas vidas. Desde o primeiro dia de aula, já durante a  alfabetização, estabelece-se um vínculo de confiança entre o aluno e seu professor. Na adolescência eles nos inspiraram e plantaram a semente da busca do saber, o amor à ciência, ao conhecimento que nos liberta dos tabus e nos tornam livres. O Professor é um agente transformador e hoje, mesmo decorridos mais de 70 anos depois do primeiro dia em sala de aula, somos capazes de nos lembrar da alegria do aprender a ler e do sorriso da professora ao ver nossos progressos. O gosto pela leitura e as ciências foram sendo incentivados e, ao final, chegamos a um nível desenvolvimento suficiente para a escolha da profissão e sempre com os professores nos orientando. Era, e ainda hoje é notável a dedicação dos mestres, pura devoção em prol de seus alunos. Foram e são agentes de transformação na  vida de seus alunos, todos nós, sem exceção.

Hoje, 15 de Outubro, é o dia de comemoração, de celebração aos Professores. Não há como não se recordar de alguns deles que além de detentores de esmerado e avançado conhecimento, nos marcaram de forma particular, exercendo forte influência na moldagem de nosso caráter, nossa vida. Nos educaram com arte, paciência, dedicação e amor acima de tudo e quando lhe perguntávamos o que seriam, caso não fossem professores, a resposta era uma só: PROFESSOR ! Nunca se arrependiam, embora nem sempre tivessem o reconhecimento e valorização profissional que mereciam. Sentem-se gratificados quando veem o sucesso profissional de seus ex-alunos. E essa era a única recompensa que esperavam e que também reflete seu próprio sucesso como educador.

Orgulho de ser Professor. Salve o Professor neste seu dia especial, hoje e sempre!

 

Brasília, 15 de outubro de 2023

Paulo das Lavras 


 
Prof. Canísio Lunkes, meu professor no colégio e fundador do UNILAVRAS 
Foto: arquivos UNILAVRAS


 Nelson Werlang, meu professor de matemática 
Foto: Coleção Renato Libeck 


Russauliere Mattos, meu professor de Física e Química e paraninfo no Colégio 
Foto do autor




 Paulo de Souza, meu professor e paraninfo na Agronomia. 
Foto: Coleção Renato Libeck 


 Alysson Paollineli e Alfredo Sheid Lopes. 
Meus professores e expoentes da Universidade Federal de Lavras. 
Foto do autor 


 Segui o exemplo dos mestres também me tornei professor em universidade, 
 mas, o “virus” de professor se estendeu  à doce tarefa de educar os netos 


 



 


 Diploma de honra ao mérito pelos 40 anos dos cursos de Pós-graduação, 
 criados quando ocupamos o cargo de Pró-reitor na UFLA. Recebido das mãos do reitor Scolforo
Foto: arquivos da UFLA




  Colégio N.S. de Lourdes- Lavras, onde ministrei, como monitor, aos 17 anos de idade, 
a primeira aula de Matemática, seguindo os passos dos mestres inspiradores. 
Foto: Coleção Renato Libeck


 








 







quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Dia da Criança... e o adulto-criança

 

 
9                                 11                                         3 

 Não importa que tivésemos 3, 9 ou 11anos. Ainda éramos crianças... E depois, adulto de 25 anos, na flor da idade e mais tarde na adultice dos 70 ou mais... ainda somos e permanecemos eternas crianças. E neste 12 de Outubro celebra-se o Dia da Criança, quando se comemora a infância, que é a etapa mais importante do desenvolvimento físico e intelectual da criança. Elas são livres, almas puras que tentam voar, não ficar de canto, amarradas ou limitadas a espaços e ações cerceadas, completa o escritor e filósofo.

 Rubem Alves, como ninguém, assim definiu a alma de criança:

As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria! 

 
25                          70

      As redes sociais estão cheias de mensagens otimistas dos amigos cinquentões ou setentões e todos celebram a infância, ou melhor o tempo feliz de sua própria infância com doces recordações. Quer alegria maior que  recordar os tempos da infância? Nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo, aqueles que têm belezas dentro de si e essas belezas nasceram e prosperaram na infância.

 

            Criança feliz..., adulto feliz e se o adulto tem prazer em recordar e contar as alegrias da infância, com certeza ele foi uma criança feliz! E o menino parece que gostava de gravata desde os 9 anos e a usou durante toda a vida profissional e sempre a cantar a infância guardada nos escaninhos da alma

            Vivam as crianças! Bençãos de Deus em nossas vidas. Saúde para aqueles que, já na adultice,  tomam chá de criança e vivem alegres como elas.

 

Brasília, 12 de outubro de 2023     

 Paulo das Lavras 






sexta-feira, 29 de setembro de 2023

O primeiro amor de um (ex) Seminarista

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O meu primeiro amor- Renato e seus Blue Caps:

Demorei, mas encontrei
O meu primeiro amor.
Para mim tudo na vida
Agora tem valor...

O meu primeiro amor,
Que eu tanto quis, enfim
Chegou pra mim - o amor...

Como é bom a gente ter
Na vida alguém pra amar.
Tudo agora é tão lindo,
Eu vivo a cantar...

Foi só no primeiro olhar e eu senti, então
Senti, então, bateu forte como nunca o meu coração...

O meu primeiro amor!...

 

Ricardo sempre foi um menino certinho, como era normal nos anos 50  a  60 e, tal qual na música de 1965, dos Beatles, You Gonna Lose That Girl, versão cantada por Renato e seus Blue Caps, com a letra na íntegra, acima, demorou para encontrar o seu primeiro amor, pois foi seminarista, ainda que apenas por um ano só. Mas não demorou nem tanto assim, pois foi ali, naquela ampla varanda da casa da fazenda de uma tia, que sentiu pela primeira vez o bafejo do amor, o coração palpitar a mil por minuto, por amor de uma linda menina, vitória e glória de sua vida pelos próximos anos.

            A educação em um Seminário, com seu regime enclausurado, monástico, é um regime bastante triste, para se dizer o mínimo. Era assim nos anos 50 do século passado. Não era maneira de se formar homens sociais, com certeza! Tolhe, inibe, coíbe todas as manifestações espontâneas da alma, a imaginação e o desenvolvimento afetuoso do coração dos meninos. Aquele devotismo austero, rígido e os rituais eclesiásticos cultuados 24 horas ao dia com liturgias, sermões, cânticos gregorianos, missas e leituras infindáveis do breviário em latim, em constante oração, não deixavam espaço e tempo para nada mais do que o culto à vocação e o aprendizado litúrgico e teológico. Os meninos não eram preparados para enfrentar a vida, mas apenas para serem os pregadores de doutrinas e conhecedores das raízes teológicas. Doutrinas e dogmas que, ao mesmo tempo,lhes cerceavam o direito de viver em sociedade, tornando-os inábeis para o convívio com pessoas normais que trabalham, se divertem, constituem família, praticam esportes, tiram férias e, enfim, levam a vida com normalidade, com erros e acertos comuns a todos os seus semelhantes. Os clérigos constituem-se em castas, de regime de vida fechado, isolado da vida real, lutando contra as manifestações do corpo e da alma.  Aqueles que passam alguns anos reclusos em seminários e desistem de seguir a carreira eclesiástica, apresentam problemas quando voltam para casa. Quanto mais tempo no seminário, maior o problema de reajuste à vida social. Por mais inteligentes e instruídos que sejam, passam por dificuldades quando em sociedade. Ficam inibidos, retraídos ao extremo e, pior, se porventura têm natureza tímida ficarão assim para sempre.

 

Ricardo foi para o Seminário ainda menino, aos 12 anos, por única e exclusiva vontade própria. Ninguém lhe sugeriu e tampouco o obrigou, mas, mesmo assim lá ficou apenas um ano e voltou definitivamente para casa. Não tolerou a clausura e o freio que lhe foram impostos, embora até apreciasse a rotina litúrgica com seus cânticos em latim, as aulas de piano e o domínio da voz no coral ensaiado diariamente no horário de recreio. Clausura, freio psicológico e ausência dos entes queridos não são coisas facilmente toleráveis. Ficar preso entre quatro paredes, em meio a dezenas de colegas, em absoluto silêncio, amarrado aos estudos e à oração, era de fato uma tortura para o menino de 12 ou 13 anos acostumado que foi à liberdade, seja na cidade ou na fazenda onde passava férias. 

 O seminarista de 12 anos em atos litúrgicos - rotina diária

        Além da clausura, Ricardo se digladiava com sua própria consciência que se recusava a aceitar certos dogmas da igreja. As respostas dos padres para essas questões mais espinhosas nunca eram convincentes. Um deles respondeu-lhe de pronto: “O povo gosta de circo”. A pergunta se referia ao culto de imagens e certos ritos religiosos, indagando-lhe, qual a razão de haver procissões com imagens de barro carregadas em andores e encenações de crucificação se o nosso Deus é Espírito e quer apenas a felicidade de seu povo e não o sofrimento?  “O povo gosta de circo”... e Ricardo se calou, porém não concordou e contou mais tarde aos amigos que havia pensado em responder ao padre, dizendo-lhe que não se pode fazer o povo de escravo da ignorância. Era preciso instruir o povo, explicando melhor sobre a espiritualidade de Deus e não transforma-lo em imagem de barro e colocar um cofre a seus pés para oferendas de promessas e graças supostamente alcançadas por “intercessão” de intermediários divinos, os santos de devoção de cada fiel. Ricardo pensava tudo consigo próprio e suas meditações eram verdadeiras orações dirigidas diretamente ao Criador. Contou aos amigos, anos depois, que aquele frustrante diálogo se passara em abril, durante a Semana Santa e se porventura tivesse replicado à resposta imbecil daquele padre teria sido expulso no ato.

            Mas, o garoto, adolescente abandonou o Seminário logo no final do primeiro ano letivo. De volta à casa, passou os primeiros meses inibido, cansado de dar explicações aos familiares e amigos que se surpreendiam com sua presença na cidade já no período aulas. Passou por momentos difíceis com a sua própria alma, sua vida. Aos poucos foi se libertando daquele “problema” de ter deixado o seminário, contrariando certos dogmas da igreja e abandonado o desejo de ser padre, pastor de almas e ainda ter que dar explicações para todo mundo. Afinal, lá ficou um ano só, o suficiente para renegar o estilo de vida monástica e conhecer certas hipocrisias de alguns religiosos que pregavam algo e agiam de outra forma. Pesou muito aquela posição de ironia e culto à ignorância dos fiéis, quando lhe responderam que o povo gosta de circo. Ora, as coisas de Deus não podem ser tratadas como circo ou diversão. A alma é sublime., grandiosa e reflete a presença de Deus.

Pouco mais de um ano se passou e as férias escolares chegaram. Como era costume no interior, com famílias conservadoras, aos meninos era permitido passar férias na casa de parentes, geralmente nas fazendas de tios ou mesmo em outras cidades. Ricardo, já recomposto e integrado  ao seu meio, embora ainda com algumas reservas, foi passar as férias na fazenda Vista Alegre, pertencente a uma de suas inúmeras tias, situada bem próxima fazenda de seus pais. Lugar conhecido, casa grande, bonita e ampla vista para as distantes montanhas, gado, cavalos para passeios, era tudo que Ricardo queria..., descansar, desfrutar do bucólico lugar e meditar sobre a nova vida que se iniciava.

O tio levava semanalmente revistas e livros de bolso de histórias de far-west. Não era bem o estilo de leitura de Ricardo que estava acostumado aos clássicos, mas acabou gostando de O Coyote, escrito por J. Malorqui, um seriado mensal de umas 100 páginas em formato de livro de bolso, com histórias da resistência dos hispânicos à conquista americana da Califórnia. As leituras desse estilo literário serviam-lhe para atenuar o turbilhão de conflitos religiosos que ainda povoavam sua mente. 

 

Mas, tudo isso, as cavalgadas, os passeios pelas matinhas e ribeirões e até a leitura do Coyote, desapareceu como num passe de mágica desde o dia em que chegou à fazenda a linda menina, Glória Augusta, irmã de coração de Tibério, o marido de sua tia Ivana. Ricardo ficou desconcertado com a menina de seus 14 anos e simpatia sem igual. Cabelos longos, sedosos e sorriso maravilhoso, foi logo flechando o menino inexperiente nessas questões do coração. Como na letra da versão de Renato e seus Blues Caps, o menino Ricardo assim se sentiu:

Foi só no primeiro olhar e eu senti, então, senti, então..., bateu forte como nunca o meu coração...., encontrei o meu primeiro amor! Para mim, tudo na vida agora tem mais valor, tudo é tão lindo e eu vivo a cantar!”

Motivos não faltaram a Ricardo para se sentir daquela maneira, pois, além de tudo, a linda menina, Glória, revelou-se muito culta, polida e estudava no melhor colégio interno da cidade. Irradiava alegria com seu belo sorriso. Coincidentemente, viera também usufruir da hospitalidade e belezas da fazenda Vista Alegre. Mas, imediatamente alguém percebeu o “clima”,  foi a tia Ivana, que fez o maior gosto naquele despertar juvenil para o amor.

Os dias se passavam, passeios juntos pelo pomar em busca de frutas, o moinho de fubá, a usina de produção de energia elétrica com um pequeno gerador movido pela água represada acima, os passeios a cavalo, tudo agora lhe parecia encanto ao lado da formosa donzela. Em menos de uma semana Ricardo entrara definitivamente no “paraíso”, das paixões recíprocas, talvez pelo elo comum de que ambos passaram por experiências quase idênticas, o internato. Ela com menor rigidez, pois no seu internato colegial lhe era permitido passar alguns fins de semana com parentes, na cidade ou na fazenda de seus pais. Mas, nos primeiros dias a aproximação, ou melhor, a revelação dos sentimentos mútuos foi bem difícil. Olhares de soslaio, sempre temerosos da reprovação da tia que a tudo estava atenta e, principalmente a inibição própria dos adolescentes. Como iniciar uma conversa? O que dizer? Como se expressar? A grande emoção do primeiro amor lançou uma nuvem sobre a alma do menino e mais, com o coração disparado faltava-lhe fôlego para falar. Falar o que se a língua ficou paralisada, travada, engasgada mesmo. Dia seguinte, ainda meio mudos em relação aos sentimentos, estavam os dois na varanda coberta da casa da fazenda conversando amenidades de colégio, professores e colegas, quando Glória, sorridente e com ar provocador, correu para o canto da varanda. Ricardo levantou-se, correu atrás e a encantoou entre a parede e o guarda corpo da varanda em ângulo de 90º, cercando-a com os braços abertos. Surpreendentemente ela o abraçou, com olhar mudo e o primeiro beijo aconteceu espontaneamente, apenas o roçar dos lábios, puro, e por um átimo de tempo, mas o bastante para marcá-los como “eternos” apaixonados. Refeitos do “susto”, trataram de se afastar um pouco, até por medo de que a tia os vissem. Mudos estiveram antes e durante aquele enlace espontâneo. Parecia que o mundo desabou, tal a intensidade dos sentimentos. Nenhuma palavra foi dita. Já assentados nas cadeiras de balanço da varanda, cada qual imergiu em profunda meditação, imaginando o quão lindo era aquele estado de paixão da alma. Como era lindo o amor. Com o coração a mil, Ricardo caiu na real e deu graças a Deus por aquele belo e puro sentimento de amor. Adeus seminário, aliás, adeus às lembranças daquele tempo de clausura, adeus a rezar e fazer penitências diárias com promessas de futura carreira ,sacerdotal... Tudo fugiu de repente, desapareceu da mente do menino adolescente, pois a paixão pela linda, meiga e sorridente menina foi maior que tudo e prometia um futuro só de alegrias e amor. Que benção, tudo diferente e infinitamente melhor, pois o amor compartilhado reforça os sentimentos da alma que se une a outra e nunca mais se sentirá só ou aprisionada O amor liberta e o poeta Renato Barros bem disse em sua canção acima: ... Para mim, tudo na vida agora tem mais valor, tudo é tão lindo e eu vivo a cantar!”.

Ninguém dormiu naquela noite, tal a excitação da alma. Nem Ricardo, nem a menina Glória que, dia seguinte lhe dissera isso entre risos de alegria. Aliás, o dia seguinte foi a vez de ambos falarem. Ricardo, sentiu-se livre  contou as agruras que passara no Seminário, mas que tudo se evaporara na tarde daquele memorável dia anterior. Desapareceram por completo aquelas lembranças dos tempos de solitário internato. Agora, já de mãos dadas, ali na mesma varanda onde tudo se iniciou, sentia-se leve, solto, flutuando. Glória contou-lhe sobre a rotina de seu internato, comandado por religiosas norte-americanas com disciplina bem rígida e sem nenhum contato com rapazes. Tinham permissão apenas para ficarem, nas noites de sábado, debruçadas sobre a mureta que separava o colégio em dois níveis, com a calçada da principal praça da cidade um pouco mais baixa. Morriam de inveja dos casais de namorados e muitos outros rapazes e moças que  faziam footing. Apenas olhavam de longe sob supervisão das missionárias. Nenhum rapaz ousava se aproximar daquela calçada e se dirigir às meninas, mas mesmo assim Glória fez Ricardo prometer que todos os sábados fosse vê-la, ali naquela mureta, ainda que distante, pelo outro lado da rua e sem se aproximar da mureta. Fizeram juras de amor e  trataram de achar uma forma de dizer à tia Ivana e pedir-lhe para que não deixasse Tibério saber do romance. Temiam que ele não aprovasse e os mandassem de volta, cada qual para a casa de seus pais. Nunca soubemos se ela contou ao marido, pois o importante era que ela, a tia, vibrou com o romance de seus queridos adolescentes, relembrando-lhe sua própria juventude. Também ele, o tio apreciador de contos do velho Oeste, nunca presenciou qualquer situação que pudesse denunciar a proximidade dos jovens apaixonados.

Ricardo, o seminarista até os 13 anos e tanto, tinha 15 ao iniciar o namoro com a menina Glória de 14 anos. Trocaram juras de amor e se encontravam nas férias escolares do meio do ano e nas de dezembro a fevereiro, sempre na fazenda dos tios onde tudo começou. Costumavam passear a cavalo, com os tios até a fazenda de seus pais, numa cavalgada de uma légua.  Era divertido passar ali alguns dias, onde também se reuniam os primos e até mesmo algumas colegas de internato de Glória. Difícil era suportar os olhares das amiguinhas que ainda não tinham tido um amor para curtir. Mais difícil ainda era guardar segredo de modo que os pais da menina de nada soubessem. Ricardo era muito benquisto e por isso não despertava suspeita alguma. A fazenda dos pais de Glória era bem maior, com ampla produção de café e leite, com fábrica de laticínios que produzia os melhores queijos da região, exportados para o Rio de Janeiro, maior consumidor desses famosos produtos do sul de Minas.

            O romance do menino ex-seminarista durou quase três anos. Terminaram o namoro nas férias de um fim de ano. Ricardo temia a reação dos parentes, especialmente de Tibério que estava sempre atento e rigoroso como era, jamais admitiria  que algo pudesse acontecer com  aquela jovem hóspede de sua  fazenda.  As famílias eram muito ciosas naqueles anos 50/60 e o namoro, para os padrões patriarcais de então, somente era permitido quando os jovens já tinham planos e condições para se casar. Muito cedo ainda para os jovens de 16/17 anos. A última vez que Ricardo viu sua adorada e bonita Glória Augusta, foi em março de 1964, já algum tempo depois de terem terminado o namoro. Participava do trote de calouros da faculdade, os quais eram obrigados a desfilar de tanga e ligeiramente alcoolizados, ao longo da mureta que separa o colégio da praça principal da cidade. Todas as demais 200 meninas do internato ali estavam, debruçadas a contemplar aquele bizarro desfile de calouros da faculdade. Glória lá estava e sabia a quem deveria procurar com os olhos entre os calouros fantasiados e em plena algazarra semi-etílica. Felizmente ela não viu aquele com o qual dividiu seu coração por bastante tempo e que ali estava e nunca mais o vira.  Ricardo portava um grande cocar de penas coloridas e tinha a cara pintada de vermelho e preto. Ao avistar Glória, a linda menina que foi a vitória augusta de sua vida, bem ali, a um metro acima de seu colorido cocar indígena e cercada pelas colegas por sobre a mureta assistindo ao ridículo espetáculo, o rapaz bastante envergonhado cobriu o rosto pintado com o lenço que estava dependurado em sua lança indígena simbolizando uma bandeira de guerra ou competição. A flecha que flechou seu coração não existia mais, quebrou-se para sempre. Passou-lhe pela mente aturdida um misto de alegria e tristeza, sem ainda entender os desígnios do destino. Ricardo nunca mais viu a menina Glória, que, no ano seguinte concluiu os estudos, deixou o internato, casou-se e foi cuidar de negócios da família numa cidade vizinha, disse-lhe sua tia Ivana muito tempo depois. Ricardo também se casou e constituiu família.

Sufocada a paixão ainda latente no peito, outras preocupações ocupariam a mente do menino. Já adulto, na universidade, era hora de priorizar seus projetos profissionais, mas as lembranças de Glória lhe traziam satisfação, pois aquele amor, puro, quase pueril, serviu-lhe para apaziguar a alma angustiada que muito lhe incomodava antes de conhecê-la. A dúvida estava sempre a martelar sua mente. Aquela drástica decisão de abandonar o Seminário. Teria sido correta? Não deveria ter se proposto a realinhar suas críticas aos dogmas eclesiais? Mas, a  dura rotina clériga e enclausurada e principalmente as suas “desavenças”, nos mais profundos escaninhos da alma, o deixaram confuso, introvertido, diante de uma sociedade que tudo lhe inquiria e queria saber. Teria agido certo, sufocar aquela vocação de pastor de almas? Por que tantos lhe cobravam explicações? Teria sido algo muito errado? Mas, Deus, zeloso para com seus filhos puros de coração, cuidou de mandar-lhe um consolo para o coração ferido.   A encantadora menina Glória, com sua meiguice d´alma, simpatia e beleza natural, dedicou-lhe afeto e assim, indiretamente, o fez compreender que a vida é amor e que há caminhos distintos para ser feliz. Ricardo nem entendera muito bem o quão auspicioso foi para a sua alma a presença de Glória Augusta. Ela lhe trouxera confiança, paz, amor pela vida sofrida diante da emblemática e dolorosa decisão  que tivera que tomar, abandonando a vocação sacerdotal. Gostava de dizer, tempos depois,  que o sacerdote, ou pastor, alimenta a alma das pessoas e ele, Ricardo, não conseguiu ser um pastor de almas para a seara do Senhor, como desejava aos 12 anos, mas tornou-se produtor de alimentos e assim, na seara dos campos das terras do Senhor, produziu alimentos que nutriram, não a alma, mas os corpos que são o sacrário da alma. Há lugar para todos que praticam o bem. Deus foi misericordioso demais para com o menino que tomou importantes decisões desde os 12 anos de idade. Enfrentou a solidão e o isolamento em clausura, longe dos amiguinhos e da família, enfrentou dilemas dogmáticos na religião e sofreu cobranças de todos por esses atos. A presença de  Glória  Augusta, que inesperadamente chegou para ocupar seu coração, foi um bálsamo para a sua alma sofrida.

Ricardo, sempre foi grato a Deus por lhe conduzir nos caminhos certos da vida e afirmava isto com frequência aos amigos. Para ele, a estada no Seminário se por um lado foi dura, cheia de solidão e dilemas religiosos, por outro moldou-lhe o caráter na retidão, iniciando-o na arte da meditação, como decorrência dos momentos de solidão quase sempre devotados à oração a Deus. Ali, pôde também cultivar e esmerar o aprendizado das artes, da cultura, das letras e muitos idiomas estrangeiros, além das músicas clássicas e cânticos gregorianas, num ambiente de respeito, de estudos e muita fé, que nunca lhe deixava tempo e espaço para os maus pensamentos. Sua volta para casa foi seguida de questionamentos e colocada em dúvida por todos e às vezes vacilava em relação à drástica decisão tomada por conta própria. Mas, em meio a esse turbilhão de dúvidas que lhe ocupavam a mente, apareceu Glória Augusta que por três anos ajudou-lhe a compreender que havia outros caminhos para a vida, lindos, e que mereciam viver a cantar com a alma repleta de alegrias. Seus tios, Ivana e Tibério, sem querer e sem saber, abriram-lhe a janela  descortinando a nova vida para o coração do menino em puro e doce amor juvenil. Deus estava presente.

 Certamente foi assim, pois, Ricardo embora nunca mais tivera visto Glória Augusta, contava essa história  até o dia de sua partida final, em paz!


Brasília, 29 de setembro de 2023

             Paulo das Lavras 


 

 



domingo, 13 de agosto de 2023

Uma geração que se vai e a dor compartilhada

 Quantos anos você tem? Perguntou-me o amigo. Notando sua intenção jocosa, atirei de raspão...,  10, talvez uns 15. Deixe de brincadeira, cara, retrucou-me o amigo. Você já tem uns 80, pois já o conheço aqui em Brasília há uns 50 anos... Foi então que mirei no alvo e acertei-o para valer:  sim já tive, quase os oitenta que você mencionou. Se já os vivi, não os tenho mais, portanto já tive e o que tenho pela frente talvez dez ou um pouco mais, como lhe disse. Sem graça pelo erro de colocação, ele se corrigiu..., é não parece, você está bem conservado... Atirei de novo..., detesto essa palavra quando se refere às pessoas. Ora, conservado se usa para expressar o estado de decomposição ou não de material qualquer, um móvel, um carro ou até mesmo a comida cheia de aditivos chamados de conservantes, edulcorantes e outros adjetivos. Foi o tiro de misericórdia no velho amigo (somente a estes podemos ainda provocar, neste mundo de gente estressada pós-pandemia)...  e para amenizar um pouco, completei:  Ah, entendi, você quis dizer que tenho aparência de bem cuidado, com saúde. Ah, sim, obrigado, poucas rugas, cabelos fartos, embora encanecidos, pele saudável, postura ereta, sempre alegre e de bem com a vida ..., de fato me cuido conforme preceitos dos geriatras. Obrigado! Não se atreveu a mais provocações...

Bem, depois dessa “amistosa” saudação em forma de duelo com fina ironia, a conversa fluiu e acabou se iniciando pelas faltas recentes de amigos. Você soube que o seu amigo e ex-ministro Paolinelli faleceu? Perguntou-me  o amigo  já recomposto do impacto de minhas provocações. Grande homem, continuou ele, benfeitor da humanidade no campo da produção de alimentos. Invariavelmente, depois de certa idade, principalmente passados os setenta, as conversas entre amigos incluem esse doloroso tema, rememorar os amigos que se foram. É um assunto difícil, pois nesta nossa idade, a morte de pessoas próximas, parentes, amigos, colegas de trabalho ou mesmo conhecidos e artistas queridos, é cada vez mais frequente. Sempre vem aquele sentimento de que a nossa hora está chegando, o que é inevitável, mas que nunca o tínhamos quando éramos jovens e “imortais”.  Agora, com o avançar do tempo e o aparecimento de novas tecnologias da comunicação e ainda com as redes sociais que nos conectam a milhares de pessoas, a toda hora chegam as notícias de óbitos de amigos, conhecidos e colegas de trabalho.  Isto sem dizer das figuras públicas estimadas, especialmente artistas ou do meio cultural. Pessoas com as quais nos identificamos e admiramos pelas suas qualidades pessoais e profissionais. Nesta semana lá se foi a artista Aracy Balabanian, um pouco antes perdemos vários outros como Olivia Newton John, Erasmo Carlos, Gal Costa, Rolando Boldrin, Jô Soares, Arnaldo Jabor, Tina Turner, Rita Lee e tantos outros que de uma forma ou outra nos influenciaram ou deixaram mensagens positivas e nos alegraram na arte e na cultura. Um vínculo afetivo não precisa necessariamente ser presencial, basta um livro, um filme, palestra ou a música de determinado cantor para nos tornarmos amigos/admiradores e assim deixá-los ocupar um lugar em nossos corações.

No rol de amigos destacam-se aqueles com os quais convivemos desde tenra infância, passando ainda pelos tempos de estudante ou de atuação profissional. Para quem mora distante da terra natal onde se concentra o maior número de amigos e influenciadores, receber a notícia do passamento de um deles é duplamente dolorido. A distância aumenta a dor, impedindo um último adeus. Especialistas dizem que a dor do luto não é pela morte da pessoa querida, pois ela, a pessoa que morreu, continua com você, no seu pensamento. Você continua se lembrando dela, sempre,  no abraço, ou nas alegrias que nunca mais receberá de quem se foi para sempre. Pior para quem mora longe e não há tempo para se chegar e dar o último adeus. Não que o último adeus vá acabar com a dor da perda, mas, de certa forma ajuda a mitigar a dor, Compartilhar com os amigos, ali presentes à despedida, nos ajuda a diminuir um pouco a dor, pois vemos neles o mesmo sentimento e ao compartilhar nos sentimos reconfortados. Restará a saudade que nada mais é do que o amor que fica.

 Nossa geração está indo embora. Afora alguns artistas citados acima, doeu-nos, particularmente a partida recente daqueles com os quais convivemos e não pudemos dar-lhes um adeus e compartilhar a dor da despedida com familiares e amigos. Dentre tantos, Evandro Menicucci,  Marcos Possato, Maria Adélia Possato, Alysson Paolinelli, Ygor von Thiessenhause  e agora, na semana passada, João Oscar de Pádua Gonçalves. Dolorido pelo impacto da notícia, sem chances de ir se despedir em um último adeus, a mente trava e o gatilho dispara as reminiscências da vida junto a aquele amigo que subitamente partiu sem aviso.  O pior de tudo é que a saudade não conta o tempo. Tanto faz se o ente querido partiu a poucos dias atrás, como João Oscar, ou se já faz tempo, anos e anos. Minha mãe se foi prematuramente aos 47 anos e já se vão exatos 60, quando eu tinha apenas 17 anos, cursava o colégio e me preparava para o vestibular dali a poucos meses. A dor da perda a saudade cortante que, dependendo das reminiscências, ainda arranca lágrimas, como se o desenlace tivesse acontecido ontem. E assim acontece com todos. O Prof. Paulo de Souza se foi há 25 anos e ainda hoje relembro suas aulas magníficas no curso de agronomia, cheias do saber e sabedorias para os alunos que se preparavam para a profissão. Tinha especial carinho para comigo que traduzia capítulos de seus livros norte-americanos, de onde fizera pós-graduação com distinção na Carolina do Norte, para reprodução em mimeógrafos e distribuição gratuita aos alunos, pois naqueles idos dos anos 60 a bibliografia nacional era inexistente na agronomia. 

Da mesma forma, Alfredão, Prof. Alfredo Scheid Lopes, conhecido internacionalmente, pelos seu brilhante trabalho de domínio da fertilidade dos solos de Cerrado, tornando-os produtivos, elegeu-nos com a distinção, por conta de nosso ótimo desempenho em sua disciplina de Fertilidade dos Solos, para frequentar estágios em empresas paulistas do ramo de fertilizantes e depois proporcionando nosso primeiro emprego, numa empresa de planejamento agrícola, florestal e paisagismo em Belo Horizonte. Não bastasse isso deu-nos a todos os alunos uma lição que me serviu e ainda serve durante toda a vida: comprem livros, formem sua biblioteca, pois eles são as referencias do conhecimento e sem eles vocês não saberão discernir um fato, um problema agronômico ou sequer saber que tipo de doença ou deficiência nutricional que a planta apresenta... Toda vez que entro numa livraria, presencial ou virtual, me lembro de seu conselho e me tornei um leitor voraz.

 Assim é a vida, amigos que se vão e levam um pedaço de nós. Não há como não se sentir menor diante da perda de um amigo. Paolinelli, que partiu há uns 15 dias, deixou-nos a todos enlutados. Desejei-lhe um repouso eterno em verdes pastos celestiais, iguais ou mais bonitos do que aqueles verdes campos de trigo, soja, milho ou alvos como as plantações de algodão às vésperas da colheita. Ou quem sabe amarelo ouro das plantações de girassóis que também povoam o cerrado por ele desbravado e que hoje, com fartas colheitas, alimenta o mundo, literalmente. Mas, por que relembrar tantos amigos e conhecidos que já partiram? É que agora ainda dói a saudade deixada por João Oscar de Pádua Gonçalves e como disse antes, a saudade não conta tempo. Assim, com o impacto de seu passamento me pego a recordar os tempos de juventude em Lavras e Belo Horizonte, onde se estreitaram os laços de amizade e camaradagem com João Oscar. Ele se dava ao trabalho de me buscar em casa, próximo à Faculdade de Medicina da UFMG onde ele estudava. Quase todos os finais de semana íamos para Lavras em seu fusquinha e tínhamos prazer nas viagens. Era o tempo em que aqueles dois jovens de 23 anos lamentavam a ausência da cidade, suas histórias, as paqueras e namoros, os amigos de sempre, fins de semana nas fazendas  e a vida familiar, de onde nunca tínhamos nos separado. Dois chorões umbilicais dos costumes de nossas famílias do mesmo tronco. Sim, Pádua e Sales (minha mãe) descendem de Manoel da Costa Vale (1703-1784), imigrante português que chegou a Lavras em 1750. A seus filhos e netos deu nomes de santos de sua devoção e aos quais devia graças alcançadas: Santo Antônio de Pádua e São Francisco de Salles. 

Mas, voltando ao ano de 1968, me lembro que ao passar por Igarapé avistávamos a grande serra em frente (divisa dos municípios de Igarapé e Itaguara) e nela o perfil de seu topo semelhante à figura de um gigante deitado, ensinava-me o João Oscar. Verdade, lá ainda está aquele gigante deitado no topo da serra que é avistada logo que se passa o trevo da BR 262 na rodovia BH/Lavras (BR 381). Passei ali centenas de vezes ao longo desses 55 anos passados desde que ele me ensinou a observar o gigante deitado e, todas as vezes eu me lembrava de João Oscar contando e apontando o gigante à frente. Pequenas coisas, mas que nos marcam e estreitam os laços de amizade. Passados alguns poucos anos João Oscar voltou para Lavras, casou-se e foi ser meu vizinho novamente. Eu já havia retornado definitivamente para Lavras, como professor da ESAL/UFLA e ali no Bairro Centenário, onde morava, veio a residir também o ex-vizinho de B.H e companheiro de viagens. Ali ele construiu uma bela casa, depois vendida ao UniLavras e que ainda se encontra do mesmo jeito, hospedando a reitoria daquele educandário. Estivemos sempre por perto, tanto em BH como em Lavras, nossa querida terra natal.

A dor da saudade existe e está sempre presente quando se trata de pessoas queridas e com as quais convivemos ou fomos influenciados por elas, mas sofrimento não existe onde há boas memórias compartilhadas. Mais uma vez repetimos, a saudade é o amor que fica e isso, em vez de sofrimento traz-nos conforto à alma. Que descanse em paz o nosso amigo João Oscar que se foi para sempre  e nos deixou o grande legado do amor. Muitos de seus amigos, em quantidade impressionante, compareceram e levaram centenas de coroas de flores que simbolizam o amor, o reconhecimento a um vitorioso e que servem de consolo à família enlutada. As flores representam tudo isso e ainda a esperança de que a pessoa que partiu possa descansar em paz, além do que o singelo presente representa também a gratidão de quem o oferece, como reconhecimento de que em vida aquele amigo lhe era muito querido e respeitado. João Oscar foi assim. Todos que ali compareceram deram testemunho de quão  atencioso, cordial e caridoso foi para com todos, sempre praticando o bem. A profusão de coroas de flores, que antigamente eram colocadas na cabeça dos vitoriosos de guerras e competições esportivas, agora acompanhadas de mensagens de carinho e afeto aos familiares enlutados revelaram isto. Ele foi sempre um vitorioso pela sua competência profissional como médico e virtudes da alma.

Não pude estar na sua despedida e na saudade sempre presente, com doces reminiscências da convivência compartilhada desde os tempos de infância e juventude, envio, hoje, essa minha coroa de flores em forma de crônica e a compartilho com todos. Crônica que simboliza a saudade..., o amor que fica e não a dor, o sofrimento, como sugerido no título e aqui agora, negado. Nada melhor do que falar de amor neste Dia dos Pais, sobretudo quando nos lembramos daquele pai amoroso, profissional médico competente e dedicado que partiu há duas semanas!

Brasília, 13 de agosto de 2023 (Dia dos pais)

Paulo das Lavras


  Em 2017, João Oscar de Pádua Gonçalves recebeu Diploma de Honra ao Mérito como o melhor aluno de sua turma do curso científico do Instituto Presbiteriano Gammon. Tive a honra de estar presente ao ato e cumprimentá-lo. 
Foto: arquivos do IPG


 Coisa simples, banal, mas sevia para estreitar laços de amizade. Apenas a imaginação de João Oscar que, de dentro de seu fusquinha, “enxergava” no topo da Serra de Igarapé, naquele ano de 1968, a imagem de um gigante deitado. Cabeça à esquerda (em determinado angulo vê-se o enorme nariz) mãos sobre o peito  e os pés à direita). Centenas de vezes passei por ali, e sempre o relembrava. Certamente da próxima vez o farei com um misto de saudade e gratidão por ter convivido com aquele amigo, de caráter e doce índole, que me elegeu seu companheiro de viagens para a terra natal. 
Foto do autor 2017


Revendo meu baú, encontrei essa antiga agenda de bolso (era o celular da época), onde em 17/03/1968 anotei o nome, endereço e o telefone da casa de João Oscar em BH. Se estivesse na rua e quisesse falar com ele, naquele número – 2 2390. teria que ir a um orelhão, colocar a ficha cunhada com ranhuras próprias e o nome “Telemig”.