segunda-feira, 7 de março de 2016

Mulher escrava... (2): ... hoje a gente só pinica na parede

     

Em 8 de março de 2015, no Dia Internacional da Mulher, discorremos sobre a “Mulher escrava”. Neste ano, extasiei-me com a entrevista de uma “escrava do machismo”, de 99 anos de idade. Sim, noventa e nove anos e 18 (dezoito) filhos. Agora desfruta a vida com toda a alegria, aqui no Distrito Federal, onde foi marmiteira, vendedora de comida nos canteiros de obra da cidade em construção. E ela ainda disse essa pérola, que me fez relembrar a infância: “.... hoje,  pinica na parede e tudo clareia, a luz liga e a água sai na pia... “. Dona Pifa (Epifânia), a entrevistada, ainda acrescentou:
            “Hoje é tudo beleza pura. No meu tempo, todo mundo era pobre, da roça. Tinha que pegar lenha no mato para cozinhar, carregar lata de água na cabeça. A gente socava mamona no pilão para fazer óleo para a lamparina”. E ainda disse mais à Revista do Correio (Correio Braziliense), de 06 de março corrente:
            “Quando era jovem, (lá pelos anos 30, do século passado), as mulheres nasciam cativas e assim morriam. Só podiam sair com o pai e, depois de casadas, dependiam dos maridos. Estavam proibidas de falar”. Até parece que ela leu os escritos do Padre Antônio Vieira que, em seus textos dos anos 1600 disse: “A mulher só deve sair de casa três vezes: no batismo, no casamento e no próprio enterro”. Mas a nossa dona Pifa, foi clara ao afirmar que “foi o ato de poder votar que tornou todas iguais. Hoje, as mulheres passam os homens. São bonitas, libertas, vão para onde querem. Eu me sinto bem de ser mulher, dou o maior valor, sabia?”, completou a dona Pifa, do alto de seus 99 anos e mais, se gaba por “não ter vergonha de nada e língua cada vez mais solta a cada ano que passa...” e finaliza: “... velho é o meu passado, e a juventude está na minha cabeça. Estou a cada ano mais alegre, sou muito feliz de viver no mundo civilizado”.

            Impressionante a vitalidade, a alegria e sabedoria dessa senhora que “nasceu escrava”. Escrava do preconceito machista que dominava a mulher, sua escrava, dependente. Veio o direito ao voto nas eleições, a frequência com maior assiduidade à escola e já no final dos anos 60 veio o grito de independência com a queima dos sutiãs em Paris, seguindo-se a superioridade numérica e de escolarização. Daí para a ocupação de seu espaço no mercado de trabalho, numa sociedade mais evoluída, foi um pulo. E nessa evolução social incluem-se, claro, as leis que as protegem contra a discriminação e garantem outros direitos. A Lei Maria da Penha foi um dos grandes avanços sociais em benefício da mulher que com esse arcabouço legal e muita disposição na conquista do mercado de trabalho. Para tanto, se qualificaram mais e em maior número que os homens, segundo estatísticas do MEC. E foi com essa superioridade que elas ocuparam espaço e se empoderaram. Portanto, hoje podemos afirmar que elas já ocupam o lugar que merecem. Adeus à dominação masculina. Dona Pifa sentiu na pele essa evolução e afirmou com gostosa e alegre gargalhada que elas, as mulheres... “... são bonitas, libertas, vão para onde querem...”. Pura verdade. Adeus mulher cativa, escrava. Doía-me o coração ver, ainda nos anos 60, as mulheres submetidas a esses rigores puramente discriminatórios.


Que bom que a Dona Pifa e todas as mulheres não têm mais que socar semente de mamona no pilão para fazer o óleo para alumiar a casa. E nem se subjugarem às severas ordens do pai ou subserviência ao marido. Assim como elas hoje só “pinicam” a parede e a luz acende e a água sai na pia, a máquina lava e seca a roupa automaticamente..., a sociedade também progrediu e a mulher se emancipou. Resquícios do machismo são tratados, hoje, com rigor pela justiça. E não tem homem que não conheça suas obrigações e quando as desrespeitam sabem que os juizes/juizas são severos nas penas. 

Mulher é para ser amada, admirada pelos seus dotes morais e grandeza interior, não importa a sua condição. O amor à mulher é completo, ou assim deveria ser para os homens. Pobre daquele que não tem (ou teve) o amor da mulher mãe, irmã, esposa, filhas, netas e amigas.  Sorte a minha, estou cercado por 1.471.498 mulheres, aqui no Distrito Federal, segundo projeções de dados do IBGE. Há que se ter sensibilidade! São elas que nos movem e hoje, mais ainda, inseridas no mercado de trabalho, já em escala considerável, temos mais essa categoria de mulheres, as colegas de trabalho. Elas sabem, como ninguém, humanizar os ambientes. Têm a delicadeza das flores e flores alegram a alma. Mulher é tudo na vida, as respeito e as venero, pois como disse a Dona Pifa “... são bonitas, libertas, vão para onde querem...”.  Uma benção dos ceus! Assim pensa o menino, de feliz infância passada nas Lavras do Funil e que, literalmente, sempre viveu cercado por elas e nelas viu, sentiu o valor que elas têm.
Que sejam felizes..., e assim nos fazem felizes também!

Brasília, 08 de março de 2016


Paulo das Lavras 

 
 Dona Pifa carregou muitas latas d’água na cabeça




 
colheu as sementes de mamona...
...socou-as  no pilão, para fazer o azeite...

... combustível da lamparina que alumiava


 
A guerreira Epifânia, a Dona Pifa, de 99 anos e muita alegria, em entrevista a um jornal.
Casou-se aos 17 anos. 18 filhos, muitos netos e três tataranetos. Pioneira de Brasília, onde
 vendia marmitas aos operários. Penou na “escravidão” feminina mas, disse ela: "hoje é só pinicar na parede
 e a luz se acende..."


 
Hoje a vida é muito boa, disse ela, na sua simplicidade: “hoje,  pinica na parede

e tudo clareia, a luz liga e a água sai na pia... “


Mulheres têm a delicadeza das flores e flores alegram a alma.
Mulher é para ser amada, admirada pelos seus dotes morais e
grandeza interior, não importa a sua condição.

Foto: Ufla- J. M. Faria





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Família Salles de Lavras – Um bisneto espevitado e o padre nocauteado

(2.119 visualizações até 06/09/2022, cf  estatísticas do Blogger)

Brevemente publicaremos um livro contando a história da família Salles, de Lavras. Há mais de uma centena de colaboradores espalhados pelo país e até em Portugal, reunidos em um site especialmente criado para esse fim. Muito se tem escrito sobre os Salles e a região onde viveram. O Arquivo Público Mineiro tem sido a principal fonte dessas informações, além de pesquisas diretas e publicações de historiadores como Firmino Costa, Ary Florenzano, Bi Moreira, Hugo de Oliveira e mais recentemente Geovani Nemeth Torres e Renato Libeck dos mais atuantes pesquisadores da história da região e ainda o ribeirense Marcio Salviano Vilela. Todos os autores destacam as figuras públicas mais conhecidas como Firmino Salles, Francisco Salles que foi senador e governador de Minas Gerais, e ainda Saturnino de Pádua, Costa Pereira e até mesmo o próprio Firmino Costa, os quais têm ascendência direta a Antônio de Pádua da Silva Leite (1769-1849), o avô dos Salles, dos Pádua, Costa e Costa Pereira. Mas, hoje vamos falar de uma história mais amena e recente, ocorrida a 55 anos atrás, envolvendo familiares da 6ª geração do patriarca português, Manoel da Costa Valle. Este, o patriarca, chegou à região durante a febre do ouro. Estabeleceu-se no recém-criado Arraial de Sant´Anna das Lavras do Funil, bem ali do outro lado da margem do rio, na cidade pérola do Rio Grande, Ribeirão Vermelho, distrito da freguesia de Lavras. Foi bem ali que um bisneto de Manoel da Costa Valle, Domingos Pereira de Salles (1851- 1929),  viveu toda a sua vida, na Fazenda do Meio.


Domingos Pereira Salles foi o genitor de um grande número de descendentes que se espalham por Minas, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rondônia e outros estados, além de Portugal a terra-mãe de toda essa geração. Mas, antes de falar de Domingos Salles, nosso bisavô e sua geração, é importante lembrar que o grande patriarca, imigrante português, Manoel da Costa Valle, nascido há 300 anos, chegou a Lavras em 1750. Teve como filho Antônio Pádua Silva Leite, nascido em 1769 (o sobrenome Pádua, foi uma homenagem expressa do pai ao santo nascido português e falecido em Pádua, na Itália. Era comum naquela época as pessoas incorporarem apelidos e nomes de santos ao seu próprio nome.). Na segunda geração nasceu Fortunato Antônio Salles - 1813/1877 (aí está a origem do nome Salles, os pais quiseram homenagear outro santo: São Francisco de Salles), que teve como filho, Domingos Pereira de Salles (1851-1929), constituindo assim a terceira geração de Manoel da Costa Valle. Na quarta descendência vem, entre os nove filhos, nossa avó, Lucinda Augusta de Salles (1896/1963), casada com Anísio Alves de Abreu (1895/1977).
Domingos Pereira de Salles casou-se em 06 de junho de 1874 com Lucinda Maria de Jesus (1854/1922)  e foram morar na Fazenda do Meio, de sua propriedade, à margem direita do Rio Grande, um pouco abaixo da cidade de Ribeirão Vermelho. Além da exploração agrícola e pecuária, Domingos Salles era marceneiro de mão cheia e até trabalhou para a Rede Ferroviária na fabricação de vagões. Anízio, o bisneto espevitado, herdou de nossa vó um martelinho, ferramenta que o pai, Domingos Salles usava na profissão de marceneiro. Nosso avô, Anísio Alves de Abreu, contou-lhe, ainda em vida, que amarrava o cavalo na casa de um amigo à margem esquerda do rio, depois de ter cavalgado mais de sete quilômetros, por entre serras e riachos, pegava um pequeno bote à remo e atravessava os mais de 100 metros de largura do profundo e veloz Rio Grande para namorar a donzela de apenas 17 anos com quem se casou, Lucinda Augusta Salles, a filha de Domingos, bem ali, do outro lado da margem, na Fazenda do Meio. Namorado apaixonado, corajoso enfrentava as fortes correntezas do rio numa época que não havia coletes salva-vidas. O futuro sogro, Domingos, era pessoa de semblante sério, postura respeitosa, com longas barbas, olhos verdes que inspiravam mais ternura que austeridade, disse uma neta, ainda viva e que hoje mora no Paraná.


A Fazenda do Meio, onde vivia a família Salles, contava com um porto próprio, e uma casa de morada, assoalhada, coberta de telhas, forrada, terreiro de café, moinho, monjolo, paiol coberto de telhas e água que movia o moinho, contando com mais de 80 alqueires de terras em cultura, pastos e cafezal, compreendendo um bananal à beira do Rio Grande. Tudo isso sobre a fazenda foi descrito em detalhes pelo historiador ribeirense, Marcio Salviano (VILELA. Marcio Salviano. MINHA ALDEIA – A Pérola do Rio Grande. INDI Gráfica e Editora. Lavras, 2014). Recentemente familiares visitaram a fazenda, que hoje não mais pertence aos descendentes da família Salles, e ficaram encantados com o lugar com suas antigas casas e benfeitorias mantidas intactas, além das construções mais modernas que abrigam uma pousada.


 A “Pérola do Rio Grande” recebeu, em 19/02/2016, a visita de dois bisnetos, Anízio, meu irmão, garoto espevitado e o primo Ademir. Foram conhecer a casa onde viveram os bisavós que eles próprios não conheceram. Na mesma casa moraram nossos respectivos avós, com os quais convivemos até os anos de 1960/70.  Um dia só foi tempo curto demais, mas ainda assim foi possível levantar, em cartório e na igreja, as certidões de nascimento, casamento e óbito dos ancestrais. Uma rápida visita ao túmulo dos bisavós, Domingos Pereira de Salles e Lucinda Maria de Jesus, oitenta oito anos depois da morte do primeiro. Foi um momento de muita emoção e reflexão sobre os valores da vida e sobretudo à memória daqueles ancestrais aos quais tanto devemos.  Era visível a expressão de emoção do bisneto Anízio ao ler os dizeres da lápide, com o nome e data de nascimento e falecimento da bisavó que não conhecera. Mas, nem assim deixava de merecer todas as honras de matriarca que, juntamente com seu marido que também ali jazia a seu lado. Ambos constituíram um lar digno, com produção própria na grande fazenda às margens do rio e deram início essa imensa família Salles que hoje povoa a região de Lavras e tantos outros municípios brasileiros e até em Portugal. A visita à fazenda ficou para outo dia, pois as pesquisas na sede do município se estenderam propiciando até mesmo um agradável encontro com o historiador Salviano que recebeu a ambos em sua casa e autografou seu último livro, já citado acima e que acabo de receber.


Mas, vamos aos casos vividos pelo bisneto espevitado. Retornando a Lavras, após a visita a Ribeirão Vermelho, encontrou-se com um primo, residente em Barra Mansa-RJ, que lhe apresentara uma foto bem antiga, de 1961. Bingo... era a Fazenda Barreiro, vizinha à do Meio e onde moraram duas das filhas de Domingos Pereira Salles, nossas tias-avós, Claudina Augusta Salles (Tia Dina) e Altina Augusta Salles. Anízio, era frequentador assíduo daquela casa e bateu-lhe uma doce recordação que o fez, ali mesmo na rua, correr a uma loja de serviços de digitalização eletrônica e copiar a tal foto que tantas recordações lhe traziam. Primeiramente, é preciso lembrar que ela, a tia Claudina, casada com José Eugênio Pereira, foi pessoa muito bondosa, de grande e caridoso coração e ainda acolheu sua irmã, Altina Augusta de Salles, solteira, que tinha um problema de saúde. Claudina foi casada com José Eugenio Pereira e teve dez filhos e grande número de netos, muitos dos quais são, hoje, profissionais da pesquisa e ensino agrícola por todo o país.


Anízio olhou bem aquela foto antiga e um filme rodou em sua memória. Nosso entrevistado conta que saía a cavalo da fazenda onde morava com nosso pai, Clovis Pereira da Silva (marido de Maria Alves de Abreu, sobrinha de Claudina), situada no Sítio Retiro dos Ipês, ali nas Três Barras, exatamente onde se concentrava a maioria dos Salles, Abreu, Pádua e Villas Boas, famílias entrelaçadas. Cavalgava uns 6 km até alcançar a ponte sobre o Rio Grande, na BR 381 (Fernão Dias). A uns 3 km acima, depois do posto Graal, ou mais precisamente no antigo Posto e Restaurante Cacho de Ouro, pegava a estradinha de terra à direita. Dois ou três km adiante alcançava a casa da tia Claudina. A mesma casa da foto que o primo de Barra Mansa lhe mostrara. A data da foto, 1961,  coincide com a época que ele a frequentava. Sentiu até o cheirinho gostoso do café com biscoitos e bolachas que a tia Dina lhe oferecia. Ao chegar em casa, dona Neusa, sua esposa estava esperando-o para o café da tarde. Com a foto na mão e como a sonhar, tomou aquele café com as queridas tias Dina e Altina que estavam bem presentes em sua memória. Doce recordação, 55 anos atrás, e parecia ainda presente. A alma não mente... nossos entes queridos não morrem nunca, pois vivem eternamente em nossos corações.


O menino contava apenas 13 ou 14 anos e já era negociante de gado de corte, pois foi “expulso” do colégio, onde revidou a um violento tapa que lhe desferira o padre diretor, um alemão de porte avantajado, com proeminente barriga que sobressaía sob a batina preta. O aluno-espevitado revidou com um certeiro e forte murro naquela enorme barriga do padre e saiu voando como um mosquito ligeiro pela janela da sala.  Mas o moleque era atrevido demais e mereceu levar o tapa nas orelhas. Só não sei dizer se foi o famoso “telefone”, como aqueles tapas violentos aplicados pela policia de antigamente quando queria arrancar uma confissão do malandro. Embora fosse padre, ele não queria, como faz a polícia, uma confissão, queria mesmo dar uma lição naquele irrequieto e atrevido estudante que ali estava de castigo. Havia sido expulso da sala de aula e por isso estava ali, isolado, numa pequena sala onde se guardavam os instrumentos da fanfarra. E eram muitos os instrumentos. Podia escolher o que quisesse tocar. Mas, o menino não era bobo, resolveu zoar e escolheu o mais estridente dos instrumentos que só eram utilizados nos desfiles de 7 de Setembro. O danado literalmente colocara a boca no trombone, ou melhor, numa corneta ou clarim, soltando um milhão de decibéis, estrondando, pela janela que dava para o pátio do colégio, os ouvidos de professores e centenas de alunos em salas de aula. Parecia um soldado arregimentando a tropa em combate, ou talvez, saudando a chegada do Comandante do Batalhão, tal qual ele estava acostumado a ouvir, todas as manhãs, de nossa casa situada um quilômetro antes do Quartel do 8º batalhão de Infantaria, hoje BPM, de Lavras. O colégio parou..., o que seria aquilo? O bispo ou o papa estariam chegando, ou o ET de Varginha que iria aparecer pela primeira vez em Lavras? Era muita pompa para aquela época sem festas e com acordes perfeitos de toques conhecidos nas paradas militares. Os professores iriam interromper as aulas? Festa à vista em pleno mês de maio? Todos correram às janelas e portas das salas de aula, inclusive este menino das Lavras. Mas a festa, ou melhor, os acordes estridentes do clarim, executados até com maestria, cheios de volteios, altos e baixos, duraram apenas um minuto ou pouco mais, tempo suficiente para o padre alemão atravessar correndo o pátio... E ainda pensamos que ele estava a buscar o suposto ilustre visitante à entrada do grande portão do colégio. Não era..., vimos quando ele entrou na salinha, situada no pavimento térreo do enorme auditório, a poucos metros de minha sala de aula. Esbaforido, bateu a porta com força e em poucos segundos escutamos os gritos e vimos um moleque voar pela janela, caiu no pátio, um pouco de mau jeito. Seu estupor era visível, olhos arregalados, parecia ter visto o diabo ou a terrível mula sem cabeça, aquela que solta fogo pelas ventas e que os adultos diziam existir, sempre à noite, nas matinhas à beira da casa da fazenda (pura crueldade, só para manter as crianças dentro de casa e dormir cedo). Refez-se, levantou-se e em desabalada carreira, ainda deu uma gargalhada em frente a minha sala de aula, como a dizer: venci..., nocauteei o “Golias”, Fugiu, para sempre...


Nunca mais pôde voltar ao colégio, nem mesmo foi à minha formatura, dois anos depois e que naquela época era toda cheia de cerimonia e pompa. Ainda me lembro do padre alemão me perguntando naquele pomposo dia de formatura: ... e seu irrrrrmãohhhh, criou juízo? Ele não está aqui, está?... Meu Deus..., o padre deve ter apanhado e sido muito humilhado, pois ainda não esqueceu e nem perdoou o garoto atrevido que lhe deu um baita murro jogando-o de costas ao chão... Se o padre não se esqueceu e ainda me espicaçou, imagine o que sofri durante os dois ou três anos que me restaram no colégio, enquanto ele, o protagonista de toda essa confusão estava exilado na fazenda do pai. Perdi a identidade, ganhei outra, “o irmão do doido que surrou o padre diretor”. Mas, voltando ao fatídico episódio, do alto de meus quinze ou dezesseis anos de menino estudioso, aplicado, que disputava os primeiros lugares da turma, gelei quando vi e reconheci a cara do menino que voou da janela, era ninguém menos que meu irmão, Anízio. Lá vem encrenca, pensei! Acertei!


 O padre, contava-me o pivô do imbróglio, logo chegou esbaforido, soltando os diabos pelas ventas, abriu a porta com violência e avançou sobre o atrevido e incorrigível menino. E tomem bofetadas nas duas caixas auriculares do danado. Mas, o enunciado da Lei de Newton, aquele que diz que “a toda ação corresponde igual reação, porém em sentido contrário....”, funcionou... e o padre foi abaixo, pois ao levar o murro na bojuda pança, foi jogado para trás e levou uma rasteira de uma caixa de instrumentos musicais que se encontrava no chão. Desequilibrou-se e ali se estatelou, ficou sem fala e estirado, apenas gemendo. O menino, apavorado, pensando que havia acabado com o padre, pulou por cima dele e ganhou a janela, pois a porta havia sido trancada e as chaves estavam no bolso da batina, a qual esvoaçou por sobre o rosto do enorme padre alemão ali, caído de costas no chão de cimento, mais parecendo um defunto com a cara coberta. O menino apavorado, adrenalina a mil, voou como um mosquito ligeiro para a janela e caiu “voando” no pátio. Pernas para que as quero. Escafedeu! E eu ali, na porta da sala de aula e todos a gritar: é seu irmão, é seu irmão e kkkkkkk... , gargalhadas sem fim. Silêncio, gritou o professor, todos para dentro, já. Não me lembro se naquele dia a aula continuou, pelo menos para mim, não. Enquanto isso o padre diretor se recompôs do nocaute técnico inesperado, dirigiu-se à secretaria, tomou um copo d’água gelada e ordenou a um bedel que chamasse o “irrrrmãohhh do agrrrrhhhessorhhhh (sotaque alemão, carregado que os contemporâneos Zé Planche, Itamar, Salvador, Dirceu e Edson Serra Negra, sabiam imitar muito bem). Lá fui eu, morrendo de medo e nem sabia ainda da surra que o padre havia levado.... Para encurtar a prosa, o Anizinho, meu querido irmãozinho, de olhos azuis, admirado pelas tias Salles, foi “convidado” a nunca mais aparecer no colégio. E eu ainda servi de moleque de recado para levar a convocação a meu pai, para comparecer ao colégio e ouvir a ladainha. O jeito foi afastar o Anizinho da cidade, tamanha a repercussão. Por uns tempos abrigou-se lá na fazenda de nosso pai e ali, tornou-se negociante de bois de corte, invernando-os em outra propriedade da família, a Jacuba, às margens do Rio Grande, quase em frente à Fazenda do Meio, dos Salles, que ficava do outro lado do rio.


            Pois bem, um de seus sócios, Hercílio de tal, que não era nosso parente, morava a um quilômetro da casa de tia Dina, daí a razão de fazer da casa dela, seu “escritório” de negócios da pecuária de corte. Ali comprou um belo potro, da raça manga-larga marchador, de nome Mimoso e as pastagens dos arredores da casa da tia serviram de local de recria para o seu recém-adquirido cavalo, até que atingisse a idade de ser adestrado para a sela. Foi então que se tornou o queridinho das bondosas e caridosas tias que o acolhiam com alegria e muita comida... saudoso, e com a foto antiga à mão, voltou ao local, mas não encontrou mais a casa onde viveram as tias. Não se fez de rogado, contemplou a paisagem serrana, a mesma de meio século atrás e partiu em visita aos sobrinhos daquelas duas tias. Com eles matou a saudade, contando e ouvindo casos dos nonagenários e igualmente queridos primos. Melhor ainda, o cafezinho com quitandas foi servido do mesmo jeito que as tias o recebiam naquela velha casa, cuja foto exibia a todos e a todo instante.


 Não sei dizer se o Anizinho, que usava brilhantina glostora no cabelo, arranjou alguma namorada por lá, pelas bandas de Perdões e Ribeirão Vermelho, cujas distâncias eram equivalentes. Isso ele não contou, pois, quando concedeu a entrevista estava ao lado de sua esposa , a dona Neusa, companheira há 47 anos e pela qual nutre grande respeito. Mas desconfio que depois de umas duas doses de vinho em suas próximas visitas a Brasília..., algum coelho sairá desse mato. Gosto de ouvir essas histórias e como um cronista, eu não invento, apenas aumento um pouquinho para apimentar os causos. Apenas me lembro que algum tempo depois ele andou me convidando para ir a Red River City para conhecer umas lindas morenas de ascendência sírio-libanesa. Mas. Essa é outra história ainda a ser contada.


Mas, voltando à tia Dina, Anízio contou que era a pessoa mais doce desse mundo.  Os almoços eram verdadeiros banquetes para o “menino” de olhos azuis e cabelo abrilhantinado, filho da querida sobrinha Liquinha (esse era o apelido de nossa mãe) e neto de sua irmã Lucinda Augusta Salles, bisneto do patriarca Domingos Pereira Salles (1851- 1929). Faltou alguém dizer a ela que ele era o mais “custoso” dos meninos de toda a família Salles, pois até “bateu” em padre, de batina e tudo, diretor de colégio e celebrante de missas, que distribuía a comunhão para nossos pais e todos da cidade..., um sacrilégio à época. Mas, se à época foi repreendido e penalizado duramente, hoje certamente seria absolvido por “ato de legítima defesa”... Menino custoso era o eufemismo que os antigos usavam, em Lavras, para caracterizar os meninos incontroláveis, espevitados. E bota custoso nisso... até eu tinha medo de suas estripulias.

Brasília, 23 de fevereiro de 2016


Paulo das Lavras



 
 Domingos Pereira de Sales e Lucinda Maria de Jesus, casaram-se em 06/07/1874 
Foto - arquivos de Dilma de Abreu






 
Ferramenta de Domingos Salles, marceneiro de mão cheia. Fabricava vagões de
 madeira para a Rede Ferrovaria. Herdei de minha mãe,uma cama estilo marquesa,
 lindamente trabalhada em madeira imbuia, feita por ele.
  Foto: Anizio Pereira da Silva


 
A cama Marquesa, lindamente trabalhada em madeira imbuia, com detalhes de marcheteria. 
Foto do autor- Fazenda Sítio Retiro dos Ipês- Lavras/MG


 Entalhe de marcheteria na cabeceira da cama marquesa 
Foto do autor- fazenda  Sítio Retiro dos Ipês – Lavras/MG




 
Dá para não dizer que essa carinha de sapeca, com 1 ano de idade, se tornaria o “menino custoso”, artioso ao extremo?....  
Foto - arquivos da familia Salles/Abreu/ Pereira

 
Ainda hoje, mais de 65 anos depois (de pé, na foto), Anízio ainda conserva
a cara descontraída, do mesmo jeito. 
Foto do autor- 2016



 
 Alegria e descontração no café com o sobrinho nonagenário das tias Dina e Altina
 Foto do autor- 2016




Lucinda Augusta Salles e Anísio Alves de Abreu,
Bodas de ouro do casamento, em 10/10/1964
 Foto - família Salles/Abreu





 
Antiga casa das tias Dina e Altina, foto que despertou a saudade no coração do menino custoso
Foto - arquivos de Anízio P. Silva

 





 
Tia Altina, não se casou e foi morar na casa da irmã Dina 
Foto - arquivos de Anízio P. Silva

 



 
Mapa da região da Família Salles, Fazendas do Meio e Barreiros, um pouco acima
 da grande ponte sobre o Rio Grande, BR 381, em baixo, à esquerda 
Foto - Google



 
 Ano de1959. Havia um fotógrafo de plantão. Não havia movimento algum de veículos, pois a ponte havia sido recém-inaugurada por JK. Podia-se estacionar, montar o tripé e fazer as fotos, tranquilamente, naquela atração turística. Até os cavaleiros posavam para fotos. Nesta, pelo lado de Perdões, meu avô Anísio Alves de Abreu e as filhas Irene, com bebê no colo, Américo e Eumar Abreu . O carro é o luxuoso Ford Mercury Monterrey, cor vinho, vendido posteriormente a um taxista de Lavras. Passeei muito nesse automóvel e também deixei marcas do acendedor de cigarros no banco de couro bege... Não era só o espevitado Anizinho que fazia “artes”... 
Foto - arquivos da família Salles/Abreu


 
A mesma ponte de quase 400 metros de comprimento. Vista pelo lado de Lavras.
Foto de 1959, caminhão e a família de Toniquinho de Pádua, primos dos Salles.
Foto - arquivos de Renato Libeck

 


   
A antiga casa da Fazenda do Meio, ao fundo. Ali viveu Domingos Salles
e toda a família. Um dos filhos a conservou até os anos de 1990.
Atualmente funciona ali uma pousada. As instalações antigas foram preservadas. 
Foto do autor 2016

 


 
Bica d’água na Fazenda do Meio, preservada com antigo tanque para peixes pescados no rio 
Foto do autor 2016

 


 

A nova varanda com vista para o Rio Grande, caudaloso, mas nem assim intimidava o garoto Anísio Abreu que o atravessava, à remo, para namorar a donzela de apenas 17 anos, Lucinda Augusta Salles, com quem se casou em 1914 
Foto do autor 2016



Padre Erico Alher, o diretor de sotaque alemão, duro na disciplina do Colégio
Foto - arquivos de Renato Libeck



















sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Quilombo do Mesquita e o doce de Marmelo artesanal



              Menino da roça das Lavras do Funil, depois engenheiro agrônomo e professor de agronomia e engenharia ambiental, nascido e criado em meio à natureza, não podia mesmo tolerar mais que cinco anos de “esgravatura” na capital federal sem que houvesse um refrigério para o corpo e a alma. Gravata de segunda a sexta feira e às vezes, também aos sábados e domingos em almoços e jantares de serviço. Era mesmo um sufoco, mesmo em ambientes aclimatados com ar condicionado no MEC ou no frio cortante de zero grau, de Michigan no norte dos E.U.A, na região dos Grandes Lagos, onde trabalhava certa parte do ano. Não demorou muito e o menino passou a procurar uma chácara para lazer. Colocar os pés no chão, sentir o cheiro da terra molhada pela chuva que nos alimenta e faz brotar o verde, era mesmo imprescindível, para quem nela fora criado e estudou-a a fundo. Porém a busca foi desanimadora e demorou anos. Áreas de cerrado inóspito sem água corrente e muito próximas às cidades. Mas, no primeiro dia útil de janeiro de 1981, visitei um novo empreendimento. Ao descer um altiplano em direção a uma bonita várzea, passei por três grandes fazendas com extensas áreas de criações de gado de leite e de bois de corte da raça nelore que, com suas pelagens brancas, se destacavam nas verdes pastagens de capim braquiária. Cruzei o ribeirão Santana, anunciado na placa rodoviária, seguindo a linha de energia elétrica e logo adiante uma escola rural. Logo na entrada da fazenda avistava-se ao longe, inacreditavelmente, uma cordilheira de pequenas serras, coisa rara no Planalto Central, como a recordar as montanhas das Minas Gerais. Gostei do cenário. Senti-me em casa, longe das planuras e com montanhas na linha do horizonte, ainda que pequenas. Ainda assim podiam servir ao desejo de escala-la para ver o que haveria do outro lado..., tal qual o menino das Lavras sonhava diante da imponente Serra da Bocaina que emoldura a sua cidade natal no distante sul de Minas. E não é que depois fui explora-la, de ponta a ponta, numa cavalgada coletiva? 

              A alegria foi maior quando adentrei a sede da antiga Fazenda Barreiros, que fora subdividida em chácaras. A centenária casa sede, com fogão a lenha, água corrente na pia da cozinha, aquecimento de água no fogão a lenha, com serpentinas e boiler originais da França, como pude identificar pelo nome do fabricante. Cheguei à porta da cozinha e nem acreditei no que vi, uma extensa plantação de marmelos, como nunca antes havia visto. Era mês de janeiro já quase próximo à colheita e os frutos reluziam seu amarelo marmorizado. Corri e apanhei um belo fruto e o degustei apreciando, num primeiro momento, o aroma que me transportou à infância no casarão da chácara na minha cidade natal. Era como se ali estivesse aos seis, ou oito anos, passando a mão naquele fruto lisinho, com algumas penugens facilmente removíveis. Poucos metros adiante estava o curral e a seu lado um canal de água para o gado, que se distribuía por todos os piquetes de pastos seguintes até atingir outra nascente e escoar várzea abaixo até o ribeirão, de onde, seis quilômetros acima, fora desviada sua água pelo canal construído por escravos. Tratei de logo escolher a minha chácara próxima à sede antiga e dali retirar a energia elétrica, aproveitar o abundante canal de água e ainda usufruir da proximidade da antiga casa de caseiro, onde morava o velho “Carioca”, originário do Quilombo do Mesquita e empregado da antiga fazenda então subdividida. Herdara uma chácara e tinha suas plantações de milho, arroz e feijão. Dele ganhei deliciosas mangas, apanhadas com um bambu, de frondosas e imensas mangueiras. Contar com vizinhos afeitos à lida da roça era tudo que eu queria..., nada de cidade grande. Pessoas simples, humildes, tais quais os das fazendas de meu pai nas Lavras do Funil. 

            Interessei-me pela plantação de marmelo da antiga fazenda. Pretendia comprar a sede, preservar o casarão de 200 anos, com serpentina francesa e recuperar a plantação de marmelo. Não foi possível, pois o empreendedor a reservara para seu próprio uso. Contou-me ele que os registros encontrados na fazenda indicavam que a produção de doce, a marmelada Santa Luzia, era toda exportada para a Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro. O transporte demandava até dois meses e era feito em jacás, no lombo de burros, até Uberlândia. Dali seguia de trem para o Rio de Janeiro. Algum tempo depois, já na década de 1940, a estrada de ferro da Rede Mineira de Viação- RMV chegou até Catalão, ligando-a a Angra dos Reis e encurtando mais de 200 km nas jornadas da tropa de burros cargueiros. Nunca imaginei que o doce ali produzido pudesse viajar tão longe, em demorada viagem. Deveria ser muito boa a qualidade do produto, pois na ocasião já existiam as plantações de marmelo em Delfim Moreira e Marmelópolis na Serra da Mantiqueira, no sul de Minas, bem mais próximo do Rio de Janeiro e com rodovias asfaltadas desde os anos de 1930, época do presidente Getúlio Vargas, assíduo frequentador das estâncias hidrominerais da região. 

            A sede da Fazenda Barreiros não durou mais que dois anos e tudo veio abaixo para atender à especulação imobiliária. Os dez hectares da sede foram retaliados e vendidos. No lugar da velha casa com portais e portas de madeira maciça foi erguida uma nova casa em estilo urbano. O pomar com marmeleiros, laranjas e outras fruteiras, deu lugar a um lago de pesque-pague. Desde então perdi contato com a história dos marmelos e as marmeladas de Santa Luzia, até que um dia, no final dos anos de 1990, encontrei num restaurante de estrada, entre Luziânia e Cristalina, a caixinha de Marmelada Santa Luzia. Presenteei amigos em Lavras com o estoque da deliciosa marmelada que ali mesmo saboreei. Fez sucesso! Entrei em contato com o produtor rural e marquei uma visita à Fazenda Pindaibal, a sete quilômetros de minha chácara, onde era produzido o doce artesanal embalado em caixinhas de madeira. Rever a plantação de marmelo despertou as reminiscências, não só pelas frutas como também por suas longas varas, vergadas sob o peso dos marmelos. Foram surpreendentes, também, as reações dos amigos nas redes sociais sobre as lembranças da vara de marmelo. Muitos pais faziam uso desse corretivo nas crianças arteiras. O menino foi um que experimentou o “santo remédio” de alguns vergões nas canelas nos idos da década de 1950. Outro mais antigo relembrou que as professoras dos anos de 1920/30 também faziam uso da vara de marmelo. Mas, de maneira geral, todos relembravam a vara sem nenhum trauma, pois os meninos eram mesmo mais que travessos, pois desfrutavam de plena liberdade de espaço, com enormes quintais e as ruas que sequer tinham veículos como hoje. Predominaram, no entanto, comentários mais que elogiosos ao doce de marmelo, sempre com a figura de familiares preparando-o nos grandes tachos ou mesmo na cozinha. Em Lavras, origem da maioria dos comentários, era comum haver pelo menos um pé de marmelo no quintal, numa clara demonstração de que tanto lá, como cá, nas cercanias de Brasília, os costumes dos portugueses e dos escravos das minerações de ouro deixaram marcas idênticas, como essa da marmelada.

Quilombo do Mesquita, tradição da marmelada artesanal   

O estado de Goiás foi explorado nos séculos XVII e XVIII pelos bandeirantes paulistas, tal qual aconteceu nas Minas Gerais. Vieram em busca do ouro e de pedras preciosas. Índios e negros foram seus escravos na extração desses minerais, principalmente o ouro. Formaram-se muitos povoados, hoje cidades, que ainda guardam os traços culturais da época colonial. Cristalina e Luziânia (fundada em 1746), próximas à Brasília, são exemplos bem característicos dessa colonização. Muitos escravos conseguiam fugir do jugo violento e do açoite dos feitores das minas de ouro e de plantações de mandioca, arroz, milho e feijão, culturas de subsistência da escravaria e dos familiares. Em fuga, formavam os “quilombos” em meio às matas, quase sempre às margens de córregos e pequenos rios da região. Ali permaneciam, longe dos senhores que também não se atreviam a ir busca-los. A mata era traiçoeira e emboscadas eram fatais. Assim nasceram os Quilombos do Mesquita e do Xavier, a 50 km de Brasília e menos de 20 de Luziânia, que até 1943 se chamava Santa Luzia. 

O arraial de Santa Luzia chegou a ter, em 1763, no auge da exploração do ouro, algo como 16.529 habitantes, dos quais 12.900 eram escravos (78%). Portanto, não é de se estranhar o surgimento de alguns quilombos na região. Contam-se histórias muito engraçadas sobre o arraial. Uma delas é a história do rego das cabaças. Cerca de 2.000 escravos escavaram um imenso canal de dois metros de largura por 2,8m de profundidade, saindo do ribeirão Saia Velha (Gama-DF).  Atravessava 42 km de serras, várzeas, matas e muitas pedras até chegar ao destino, a mina de ouro do Cruzeiro, na parte alta da cidade de Santa Luzia. Estava assim garantido o garimpo. O canal levou mais de dois anos para ser concluído. Iniciado em 11 de abril de 1768, foi motivo de muita discussão. O major José Pereira Lisboa dizia em tom de gozação que “a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro, não em rego ou canal, mas em cabaças”.  O historiador Gelmires Reis conta que na manhã do dia 11 de setembro de 1770, bem cedo, foi inaugurado o canal e..., “quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e a água jorrou barulhenta pela Rua do Rosário abaixo” e nelas muitas cabaças rolando e a negrada batendo com porretes, quebrando-as e cantando: “água trouxe cabaça, cabaça não trouxe a água”. Ofendido, o major Lisboa saltou da cama e foi para a rua, armado, mas antes que agredisse os negros foi interceptado pelo juiz José Rodrigues Costa, que teve a peruca arrancada pelo raivoso falastrão. Condenado, saiu da cadeia dois anos depois. Por isso o canal ficou conhecido com Rego das Cabaças.

Melhor ainda é a história do Quilombo do Mesquita, criado há mais de 200 anos e que foi certificado pelo Governo Federal em 07/06/2006. Hoje abriga cerca de 300 famílias negras que mantém a tradição da vida rural e lembranças do regime escravocrata dos séculos XVII e XVIII. As terras pertenciam ao capitão português Paulo Mesquita, que as abandonou por causa do declínio da mineração do ouro. Deixou-as para três escravas alforriadas. A fazenda, que acabou se tornando um quilombo, produzia alimentos para a subsistência das famílias dos escravos fugidos e os excedentes da produção, especialmente a farinha de mandioca, eram vendidos na cidade. Nesse quilombo a plantação de marmelo e a produção artesanal da marmelada têm tradição de 200 anos. Alguns moradores dizem que as próprias ex- escravas, herdeiras da fazenda, iniciaram o cultivo do marmelo, cujas primeiras mudas vieram de Portugal. Muitos de seus costumes são originários do Congo, país africano que mais forneceu escravos ao Brasil. Recentemente uma missão de músicos africanos, do Mali, visitou o Quilombo do Mesquita e identificou muitas semelhanças nos costumes africanos como o uso da farinha como alimento básico, a mandioca com carne, biscoito de polvilho assado e até o covo, que é um balaio afunilado nas extremidades para a pesca de peixes. Hoje, uma das preocupações da comunidade é o tombamento de algumas casas antigas como herança do povo do Congo. Essa referência me fez lembrar o negro Lázaro Simão, camarada (empregado) da fazenda de meu pai e exímio fazedor de balaios e cestos de bambu. Certamente era um negro de origem congolesa, pois adorava a festa anual de Congada, muito comum em Lavras.

Hoje o cultivo do marmelo está em extinção e poucos agricultores ainda o mantém. Além de pequenas plantações, apenas quatro fazendas ainda os produzem em larga escala na região de Luziânia. Mesmo nessas, a produção do doce de marmelo é artesanal. O doce de marmelo, conhecido por marmelada, tem origem portuguesa e é feito a partir da polpa dos frutos, cozida em açúcar em grandes tachos de cobre. Durante a festa foi produzido uma “tachada” de doce, com 10 kg de polpa e 15 kg de açúcar. Um dos produtores informou que a quantidade de açúcar pode variar um pouco. Sua receita é de 15 kg de polpa de marmelo para 20 kg de açúcar e 15 litros de água. Outro produtor, cuja marmelada é bastante procurada, usa 20 kg de polpa para 25 de açúcar e 20 litros de água. Leva-se mais ou menos uma hora de cozimento, sendo que primeiramente faz-se a calda durante vinte minutos, ou pouco mais, até engrossar e chegar-se ao ponto semelhante ao melado. Só então se despeja cuidadosamente a polpa sobre a calda em ebulição. Não se pode parar de mexer a massa e para isto usa-se uma colher de pau de longo cabo. Experimentei a arte de mexer a massa e pude sentir que não é nada confortável. O calor é demasiado, a fumaça da lenha crepitante incomoda e ainda há o vapor saído da massa escaldante deixando-nos banhados de suor. Isto sem falar dos espirros da massa quente que queima a pele. Há que se proteger bem. Mas, quem faz gosta do que faz. O Sr. Cesar Alves, que aparece numa das fotos ajudando-me a mexer a massa fumegante, disse que adora aquele ritual e tem prazer em servir o seu produto. Outro, Ricardo, da Fazenda Pindaibal, disse que está no ofício há 25 anos e gosta da arte. Perguntei por que tanto açúcar e um produtor da Marmelada Santa Luzia disse que, devido ao fato de não se usar conservantes e aditivos, o açúcar, além do sabor, tem também a função de conservar o doce por até seis meses. 

O capricho na produção artesanal da marmelada se estende até mesmo às embalagens. Curioso que, por um acordo celebrado na prefeitura da cidade, todas as marmeladas têm o mesmo nome: Marmelada Santa Luzia. São diferenciadas apenas pelo nome do produtor que vai logo em seguida, no rótulo. São embaladas em caixinhas de madeira de pinho que, segundo eles, conservam melhor o sabor da marmelada. Interessante notar que é o mesmo costume usado na zona rural de Lavras, onde também se faziam marmeladas e ainda hoje as famosas goiabadas lisa ou cascão. 

A Festa do Marmelo

            Neste ano de 2016 o Quilombo do Mesquita celebrou a sua 14ª Festa do Marmelo. Em 15 anos conseguiram, em regime de mutirão, erguer a Igreja de N. S da Abadia, a padroeira da comunidade. Neste ano a campanha é para aquisição dos bancos da enorme capela, capaz de abrigar quase mil fiéis. Foi muito interessante observar a organização do evento. No primeiro dia, sábado, houve a grande cavalgada com almoço oferecido numa fazenda do roteiro. Dia seguinte, o segundo domingo de janeiro, quando a colheita do marmelo está no auge, foi o ponto alto da festa. Iniciou logo cedo com a Corrida de Reis. Uma centena de corredores que chegavam exaustos da meia maratona. Nas estradas as patrulhas policiais paravam os motoristas e recomendavam cautela para com os corredores que compartilhavam a pista. Não pude deixar de notar uma figura exótica na hora da foto de um grupo de corredores que acabara de chegar..., o “Kalango Corredor Exótico Cabuloso”. Cinquenta e seis anos de idade, com seu 187º troféu em mãos. Figura realmente notável pelo seu estilo e principalmente pelo espírito competitivo nas corridas de rua. Afinal, já participou de quase duas centenas de corridas e daqui a apouco fará jus ao registro no Guinness Book. Mas antes do guinnesbook, posou para uma foto no facebook...

Após a chegada dos corredores seguiu-se a missa, tão esperada pelos devotos de N. S. da Abadia. Os cânticos do coral amoleceram o coração do menino arredio às liturgias religiosas. Tocou-me profundamente a singeleza do momento do ofertório. Os fiéis levavam até o altar as oferendas, produtos exclusivos da terra que eles cultivam com amor e dedicação. Bandeja de marmelos, cestos com hortaliças, um palmito inteiro recém-colhido, pratos de doces artesanais e caixinhas de marmelada. Até mesmo uma vassoura artesanal, lindamente confeccionada com folhas de coqueiro e cabo de guatambu, estava presente no ofertório. Que Deus continue abençoando essas mãos prendadas que cultivam a terra e dela tiram o sustento para toda a família..., assim orei silenciosamente, em ato contrito, invocando as bênçãos para toda aquela gente honrada que ali estava cuidando do alimento da alma. Em certo momento me ausentei e lá fora, nas escadarias da igreja, encontrei dois meninos com semblantes tristes. Não se conheciam. Aproximei-os, lembrando-me das missas que também eu assistia na zona rural de Lavras, nas Três Barras, Dr Jorge-Fábrica Velha, Cajuru do Cervo e Faria. Como eles, também eu passava, à época, boa parte alheio à cerimônia, brincando e correndo como fazem as crianças nessas ocasiões. Tinham 12 e 11 anos de idade, a mesma que numa missa rural o menino havia respondido ao Padre Silvestre que queria ser padre e ano seguinte foi para o Seminário de Itaúna. Não ficou mais que um ano no seminário, pois a tristeza pela ausência de casa tomou conta do menino e não mais voltou ao distante internato. Assim, aquela aparente tristeza dos dois garotos, na escadaria da igreja, remeteu-me ao distante passado. Perguntei a mim mesmo o que seria deles? O que o futuro reservaria a aqueles tristes meninos? Estudavam? Estariam acompanhados no evento? Iriam almoçar ali? Antes que as lágrimas me traíssem os convidei para o almoço no galpão ao lado e fizemos uma foto ali mesmo, nas escadarias da igreja. Mas a emoção com meninos de 11 anos não foi só esta. Os coroinhas, que ajudavam na celebração da missa, trajavam batinas vermelhas e sobrepelizes brancas. As mesmas que o menino das Lavras usava na Paróquia de Santana e nas capelas da periferia, ajudando nas missas celebradas pelos padres Miguel Moretti, Luiz Tings, Carlos Zirke, Raimundo Weilherman, Henrique Boeing e outros. Também valeu uma foto, com a surpresa de que um dos coroinhas era uma menina, o que nunca havia visto antes.  

Após a missa houve o leilão típico dos costumes de pequenas comunidades. É a maneira mais comum de se arrecadar recursos para as obras da igreja. Muitos chegavam trazendo as prendas, geralmente produtos artesanais confeccionados por eles mesmos além de comidas, doces e animais. Aliás, os animais foram os primeiros a serem leiloados. Uma novilha foi arrematada por mais de seiscentos reais e o mais interessante foi que a mesma não estava lá, não havia telões mostrando-a em vídeo e sequer uma foto. Fiquei a imaginar como poderiam oferecer lances sem vê-la, tal qual acontece nos grandes leilões? Confiaram apenas na descrição que o leiloeiro fez do animal e principalmente no nome do doador. Confiança total. Coisa de pequenas comunidades onde todos se conhecem, respeitam-se mutuamente e a palavra tem valor. Grande lição! Mas, antes do leilão, em grande espaço coberto, apresentou-se a Orquestra do Povo com sanfoneiro, violas, violões, cavaquinhos e atabaques, com variado repertório de música caipira. Ao mesmo tempo foi servido o almoço a preços módicos. Enquanto isto a movimentação era intensa em frente ao grande tacho de cobre sobre fogão a lenha. Muitos queriam ver a produção do doce de marmelo, a saborosa Marmelada Santa Luzia. Curioso, fui dos primeiros a ajudar a atear o fogo na lenha e tomar os primeiros vapores ao mexer a massa. Ao final a marmelada foi distribuída gratuitamente como sobremesa. O Sr. Cesar Alves, do alto de seus calejados 80 anos de labuta na roça e fazendo tachas e tachas de marmelada, sorriu satisfeito. Sua alegria é ver o povo saborear e elogiar a sua deliciosa Marmelada Santa Luzia, ao vivo, ali mesmo na linha de produção de seu fogão a lenha com reluzente tacho de cobre batido, fumegando e exalando o cheiro adocicado e meio acre do marmelo. 

São 200 anos de tradição! Participar da Festa do Marmelo, no Quilombo do Mesquita, foi sem dúvida uma prazerosa imersão nos costumes e nas raízes de nossa gente que muito deve à cultura negra. É como voltar ao passado de nossos avós, de ascendência portuguesa, que viveram como protagonistas dessa história, no sul de Minas e que também é comum em outras partes de nosso imenso país. Proust tinha razão quando disse que "os verdadeiros paraísos são os que perdemos" e o poeta Mário Quintana ensinou que "a gente continua morando na velha casa em que nasceu". Então, deve ter sido por isso que gostei, amei conviver por um dia com a simplicidade do campo e sua gente trabalhadeira que retira da terra o seu sustento. Vale a pena preservar as culturas afro-brasileira e portuguesa existentes no Quilombo do Mesquita. Reconhecido já está pelo governo federal. Que venha o seu tombamento.

Brasília, 15 de janeiro de 2016

Paulo das Lavras


Ricardo faz, há 25 anos, a marmelada Santa Luzia,
 na Fazenda Pindaibal




Quilombo do Mesquita a 3 km


Santuário de N.S. da Abadia, Quilombo do Mesquita


Programa da 14ª Festa do Marmelo


Corrida de Reis, Quilombo do Mesquita


“Kalango Corredor Exótico Cabuloso” e seu 187º troféu

Até que, com certo esforço, consegui imitar o gesto típico da tribo,
 mas..., raspar a cabeça, tatuar-me por inteiro não consigo e
 tampouco pregar peercings no nariz, face, orelhas e...
... na língua! Demais para o menino véi...



O ponto alto dos festejos do Quilombo, a santa missa,
 em ação de graças


 A igreja toda decorada com motivos da terra



Os celebrantes e coroinhas que acolitavam a missa


Produtos da terra como oferendas no altar


A entrega no ofertório, palmito e cesto de verduras


... mais produtos da terra dos quilombolas


...produtos artesanais do quilombo, vassoura de folhas de palmeiras



... marmelos e outras frutas cultivadas no quilombo completam o ofertório



a padroeira do Quilombo do Mesquita, N.S. da Abadia




Os coroinhas, Ronaldo e Taliene. O meninão, que um dia
também foi coroinha, nunca tinha visto uma menina-coroinha




...trazendo a prenda para o leilão, belíssimos marmelos,
 que  o produtor exibe com orgulho



Sr João Pereira e a prenda de sua produção, Marmelada Santa Luzia




outro produtor da Marmelada Santa Luzia, Sr Leopoldo, da Fazenda Pindaibal




Os festeiros, Sr João e Dona Helena, anunciando a Orquestra do Povo




hora de botar fogo no fogão, com o Sr Cesar Alves





 ... o doce já fumegando... e tomem fumaça, vapor e espirros de massa.
Produção ao vivo, que foi servida como sobremesa na festa




..apurando o ponto da marmelada, no grande tacho da Fazenda Pindaibal


 Bonita caixinha de madeira – produto da Fazenda Pindaibal- Quilombo do Mesquita


A marmelada da Fazenda Mesquita, de João Pereira




outra marmelada de Santa Luzia, de rótulo rosa, produzida pelo Sr Carlúcio



Dois meninos, de 11 e 12 anos, moradores do Quilombo. Semblantes tristes,
com o meninão que nessa idade também estava triste no internato do
Seminário, bem distante de casa. Compartilhar dos sonhos dessas
crianças humildes foi muito emocionante.