sábado, 11 de outubro de 2025

Criança

 
O menino aos 10 anos, primeira comunhão, 
 um costume dos anos de 1950/60

 


 

A alma é movida à saudade, disse Rubem Alves. Para o poeta a alma não tem o menor interesse no futuro. "A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam", completou o ilustre filósofo. Perderam? Será? Que nada, digo eu! O passado, a Criança que fomos, está bem aqui, nos escaninhos da alma. Criança amada, adulto feliz!

E como é bom ser criança! É tão bom que nós os pais e avós, desejamos que nossos filhos ou netos jamais crescessem e fossem eternas crianças. Elas, as crianças, passam o dia se divertindo, criando mundos mágicos sem as preocupações e aflições dos adultos e à noite, se aninham em suas camas e esperam que os pais ou  avós, venham lhe contar histórias, ganhar um beijo e o boa noite. Dormem o somo dos justos. Desconheço um pai que ao ver essa cena, ali ao lado da criança, piscando miudinho, sorrindo e caindo no sono,  não tenha derramado uma lágrima de amor e contentamento, agradecendo a Deus pela dádiva de ser o guardião do filho, aquela lama pura, inocente que sabe que tem a proteção dos pais. Criança é feliz, brinca, canta, grita o dia inteiro, numa algazarra que alegra o ambiente. Quem nunca passou defronte uma escola, na hora do recreio ? Quem nunca viu e ouviu isto num parquinho?

Ah... crianças são dádivas de Deus! Prolongam nossos dias na Terra. Cuidemos delas com muito carinho. Criança amada, adulto feliz!

Brasília,  12 de outubro de 2025

 

Paulo das Lavras



P.S - é fácil voltar a ser criança. Veja, num instante cheguei là:   

 http://contosdaslavras.blogspot.com.br/2016/07/um-seminario-na-decada-de-1950-parte-i.html 





 

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Paolinelli..., um sanfoneiro no MEC

 
Paolinelli, à direita, com o Chefe do Departamento, Carlos Eduardo Volpato e este autor, 
 comemorando o Cinquentenário do Departamento de Engenharia Rural, da UFLA, que 
ele fundou em 1966, quando ainda era professor de Mecanização e Máquinas  Agrícolas. 
Foto, do autor – UFLA, maio de 2016


           Uma missão de empresários percorria imensa plantação de soja na região do cerrado do norte de Minas. Alguém, maravilhado com a quele mar verde, disse: “... e pensar que essa maravilha verde, que revolucionou o cerrado, teve como maestro o então ministro Alysson Paolinelli...”. Este, que estava no banco de trás do veículo, reagiu pronta e humildemente: “Nada disso, eu fui apenas o sanfoneiro dessa orquestra”. O jornalista Silvestre Gorgulho conta-nos essa história, em artigo de jornal de grande circulação em Brasília, demonstrando o caráter humilde e de extrema competência daquela figura que marcou o desenvolvimento tecnológico da agricultura nacional, especialmente na conquista do cerrado, tornando seu solo produtivo, triplicando a produção nacional de grãos com aproveitamento  e melhoria dos solos do cerrado, sem necessidade de desmatamentos na Amazônia, principalmente.

            Na qualidade de diretor do ensino agrícola superior, no Ministério da Educação-MEC, intrigava-me o fato de que, em tendo o Ensino Agrícola Superior sido transferido para o MEC em 1961, por que foi rejeitado, recusado a ser acolhido na sua estrutura educacional por tanto tempo? A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB (Lei 4.024/61) repassou para o MEC toda a responsabilidade pela administração do ensino superior. Este, o ensino agrícola superior, era até então, administrado pelo Ministério da Agricultura (Superintendência do Ensino Agrícola e Veterinário-SEAV, Decreto nº 16.826, de 13 de Outubro de 1944). Somente em 1973, onze anos depois, foi definitivamente instalado no MEC uma coordenação nacional daquele. Por que tanto tempo e tamanha resistência? Saímos a campo em busca de uma resposta satisfatória. No final dos anos 90, paramentado com luvas, óculos e máscaras especiais, equipamentos de proteção pessoal até então quase desconhecidos no país, pois seu uso só se tornou obrigatório em 2020, quando por aqui apareceu a pandemia do COVID, entramos no imenso prédio de arquivos do MEC e em meio às toneladas de pastas e caixas de documentos da antiga SEAV/M.A., algumas intocadas por quase 60 anos, desde que foram transferidas para o MEC. Ali encontramos os registros dos embates travados com a burocracia do Ministério da Educação. A análise daqueles documentos revelou o que já sabíamos por relatos orais do próprio Paolinelli e seus colegas Salim Simão e Almiro Blumenschein da ESALQ/USP e Fausto Aita Gai, da antiga Escola Nacional de Agronomia- ENA, hoje Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ. Travara-se uma longa batalha, com 12 anos de duração, entre os dirigentes de Escolas de Agronomia e Veterinária e o Ministério da Educação que se recusava acolher o ensino agrícola, despejado do Ministério da Agricultura, conforme disposto na LDB de 1961. Se Alysson Paolinelli foi o maestro da obra do desenvolvimento agrícola, como dito até mesmo pelo Nobel da Paz Norman Borlaug, também o foi na liderança e comando da “virada” do Ensino Agrícola Superior no Brasil. E não foi apenas um humilde sanfoneiro daquela orquestra do Agro, como ele próprio rebateu o elogio do gringo especialista em soja. Não, ali no MEC ele foi um refinado , insistente e persistente Maestro da Ciência e da Educação. Soube, com maestria convencer os especialistas educacionais do MEC sobre a importância de ali acolher o Ensino Agrícola Superior,  que, nos padrões modernos se sustentava na pesquisa de produtos e criação de animais adaptados às condições de país continental de clima tropical, sem igual no mundo.

Longa batalha no MEC, ou melhor, longo tempo  no figurado “Conservatório de Música”, diria ele que também amava ensinar em sala de aula. Esse “maestro” levou 12 anos de seu trabalho, junto ao MEC e ali afinou os ouvidos dos “músicos” , dirigentes e assessores da Educação  nacional. Venceu após 12 anos, quando o MEC, finalmente se rendeu e criou diretorias para o Ensino Agrícola. A ser assim, figuradamente, como maestro ou instrumentista, poderíamos dizer que desta vez ele não tocou a “sanfona da orquestra do cerrado”, pois ali no MEC, para os afinados especialistas, formados nas melhores universidades europeias e que dirigiam a Educação no Brasil, ele certamente buscou tocar outro instrumento, de orquestra sinfônica, talvez a flauta, de doce melodia tal qual o flautista de Hamelin encantou as crianças da cidade e todas elas o acompanharam. No MEC, os especialistas se encantaram e dobraram-se ao encanto da melodia do ensino agrícola superior com sua trilogia oriunda dos Land Grants Colleges americanos, implantada pela primeira vez no Brasil justamente na sua Escola Superior de Agricultura de Lavras, em 1908, e transformada em Universidade Federal de Lavras em dezembro de 1994. Ali, em Lavras se praticava a tríade que  associa o ensino à pesquisa e à extensão rural, para a formação de profissionais com qualidade adequada ao desenvolvimento agrícola de país tropical. Não se podia importar uma vaca dos EUA ou da Holanda, esperando que aqui produzisse os mesmos 50 kg de leite ao dia, pois seria atacada pelo calor, carrapato e outras pragas e doenças tropicais e não produziria 10 kg de leite e morreria em meses, com a dura alimentação de capins secos, difíceis de serem digeridos e muito diferentes de sua doce alfafa do hemisfério norte. Da mesma forma a soja importada nada produziria aqui, sob as condições de solos ácidos, pobres em nutrientes e calor de 40 graus. Tinha que haver pesquisas e experimentos para a adaptação à nossas condições de clima e solo. Paolinelli era um expert nesses assuntos.

Um ano e meio antes da aprovação da LDB/1961 já se falava da transferência do ensino agrícola para o MEC e os diretores dessas escolas, em número de 20 (agronomia e veterinária), decidiram criar uma associação para melhor representá-los junto ao governo e à sociedade. Assim, em 1960, reunidos em Piracicaba, foi criada, com a participação e liderança de Alysson Paolinelli, a Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior- ABEAS. Por meio dela passaram a influenciar o MEC, que se recusava a aceitar a transferência do ensino agrícola para aquele Ministério. Foi uma luta pessoal de Paolinelli, que à época era o vice-diretor da antiga Escola Superior de Agricultura de Lavras, hoje Universidade Federal de Lavras- UFLA. Somente em 1967 o MEC capitulou e aceitou o ensino agrícola nos moldes dos Land Grant Colleges, com a trilogia Ensino, Pesquisa e Extensão.  Era caro demais, dizia o MEC, pagar professores em tempo integral, manter fazendas de produção e ainda ir às propriedades ensinar os agricultores... Caro, sim, pois até então O MEC adotava o sistema francês, de ensino academista, sem aquelas despesas adicionais.

Diante dos entraves impostos pelo MEC e ainda sob a alegação de que não dispunha de pessoal qualificado para gerir o ensino agrícola, foi aprovada em 1968 a criação, por decreto presidencial, a Comissão de Especialistas de Ensino de Ciências Agrárias- CECA, que seria responsável pela implantação, no MEC, das medidas necessárias à administração do ensino agrícola superior. Surpreendentemente o MEC novamente reagiu, alegando não haver condições para implantar o ensino agrícola nos moldes dos Land Grant Colleges americanos, que exigiam enormes despesas, transferências ou aquisição de fazendas, gado, benfeitorias, máquinas agrícolas e pessoal em tempo integral (na ocasião, os professores de universidades vinculadas ao MEC eram contratados em regime de hora/aula). O impasse perdurou por mais cinco anos até que, finalmente, em 1973 foi implantada a CECA que, felizmente iniciou rapidamente estudos aprofundados de diagnóstico das demandas no campo do ensino agrícola superior.

Alysson Paolinelli esteve à frente de toda essa luta de bastidores no Ministério da Educação e que durou cerca de 12 anos (1961/73). Enfrentou, em um jeep Willys, as péssimas estradas da montanhosa Minas Gerais até o Rio de Janeiro e Brasília, onde funcionavam repartições do MEC. O Brasil deve mais essa a Alysson Paolinelli, a implantação do ensino superior agrícola com a trilogia Ensino/Pesquisa/Extensão, numa luta sem trégua por longo tempo e que hoje resultou no melhor ensino agrícola superior, que tem formado técnicos com competência para nos alçar à condição de maior e melhor produtor de alimentos do mundo. Nada acontece por acaso. Não bastou Paolinelli ter sido Ministro da Agricultura, foi também o grande mentor do ensino agrícola superior brasileiro nos moldes hoje adotado pelas universidades. O Brasil muito deve a esse benfeitor da paz alimentar mundial e da excelência do ensino agrícola superior, mundialmente reconhecida.

De fato, além de “tocar uma sanfona” na orquestra da conquista do cerrado brasileiro, Paolinelli também foi um maestro, ou na sua sempre humilde interpretação, apenas um violinista ou pianista  no sofisticado “ Concerto das Sinfonias” de ideias que antes eram contrárias à aceitação do ensino agrícola no MEC. Sanfoneiro, de ritmo mais acelerado que desperta movimentos rápidos na dança ou um virtuoso pianista ou mesmo violinista de acordes mais sincronizados e melodiosos que incitam a meditação, Paolinelli, foi não apenas um instrumentista, foi de fato um grande Maestro no  MEC, onde ensinou e afinou a música do ensino agrícola superior, formando técnicos que ensejaram ao país a condição de potência mundial na produção de alimentos. Passei mais de 30 anos como diretor no MEC e a figura de Alysson Paolinelli sempre foi ali lembrada com respeito, tanto por ministros como dirigentes do ensino superior.  Um grande Maestro!

 

Brasília, 30de setembro de 2025

      Paulo das Lavras

 


 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

50 anos em Brasília – a trajetória do menino

 

  
Um avião desenhado no chão, visto da janela de outro avião. 
Vista deslumbrante, cintilante de luzes amarelas da cidade de Brasília. Foi assim 
que a vi, na madrugada de 05 de agosto de 1975, quando aqui cheguei para ficar.


Cinco de agosto de 1975 e hoje, em 2025 o mesmo 05/08. Chorei..., naquele distante dia, tal qual o mesmo menino  de 12 anos que deixava a casa dos pais ao  embarcar para o internato, no Seminário de Itaúna, bem longe, a 16 horas de trem maria-fumaça. A cinquenta anos atrás, em 1975, a data era o dia 05 de agosto, quando chegava à Brasília, no escuro das cinco  horas daquela fria madrugada de inverno. Dirigindo o próprio carro, um Chevrolet-Opala/GM, quatro portas, novinho, silencioso e os dois passageiros dormiam tranquilos, Anizinho, meu irmão, com o qual revezava ao volante nas 12 horas de viagem (960 Km) e o Sr José, radiotelegrafista da ESAL/UFLA. Sim, radiotelegrafista, responsável pelas comunicações entre o MEC e as instituições de ensino federais, espalhadas por todo o Brasil. Era o canal direto do Ministério da Educação com seus dirigentes nas universidades, pois a telefonia interurbana era incipiente e ainda não existia a Internet que só apareceu 20 anos depois. Ele vinha visitar seu filho  João Chocolate e o amigo José Marcio de Carvalho, o “Tenório” ex-aluno do Gammon e chefe da Rede de Telecomunicações do MEC – RETEMEC. Viajamos a noite inteira, passando por Perdões, Campo Belo, Formiga, Bambui, São Gotardo, Patos de Minas, Paracatu e finalmente Brasília. Sozinho, com meus pensamentos, dirigindo calmamente pela madrugada e meditando sobre a importante guinada que dera em minha vida profissional, deixando a Universidade Federal de Lavras para desempenhar funções no Ministério da Educação. Deixava tudo, casa, fazenda, parentes próximos, amigos e as atividades de professor e Pró-reitor de Pós-graduação, O que me esperava aqui? Como seria esse futuro diferente. A família que chegaria de avião, logo mais ao meio-dia, procedente de Belo Horizonte, terra de minha mulher, iria gostar da cidade e se adaptariam ao novo e desconhecido ambiente? Mineiros gostam de viver em meio aos parentes e amigos e agora, ali, na cidade grande, capital política do país, como seria? De repente, deslumbra-se à frente, ainda na rodovia BR-040, um cenário maravilhoso. Do alto da região da cidade satélite do Gama, aparece Brasília, lá embaixo, fulgurante, deslumbrante, com seu formato inconfundível de asas de avião, toda iluminada com luz amarela de vapor de sódio. Um amarelo citrino, brilhante e cintilando na madrugada escura e límpida, do clima seco do mês de agosto.

Chorei..., mas não foi apenas naquela fria madrugada, com a bela vista da cidade a uns 10 km de distância. O dia anterior também foi duro para os sentimentos. Segunda feira 04 de agosto, foi o dia da aula inaugural do segundo programa de mestrado da ESAL/UFLA, o curso de Administração Rural, pioneiro no Brasil, destinado a estudar a gestão do agronegócio. Não existiam professores especialista no país e tivemos que buscar alguns no exterior. Me lembro do Prof. José Cal Vidal, pois, fui buscá-lo na Califórnia/Santa Clara, ao sul de San Francisco e assim obtivemos a aprovação da Capes/MEC.   Aula Magna, autoridades, convidados, discursos enaltecendo a iniciativa pioneira da universidade que certamente teria grandes impactos na agronegócio brasileiro, que já despontava no mundo, até mesmo com elogios de Norman Borlaug, o Nobel da Paz, na área da Agricultura com sua chamada “Revolução Verde” e que aqui esteve a convite do Ministro Alysson Paolinelli. Quase ao final da cerimônia, uma aluna do curso de mestrado de Fitotecnia, iniciado em março, cinco meses antes, como o primeiro mestrado da ESAL/UFLA, foi convidada à mesa da solenidade. Leu uma carta dirigida a mim, de agradecimento e despedida dos alunos daquele curso de mestrado. Foram as palavras mais carinhosas que recebi até então. Emocionado pelo reconhecimento ao trabalho que ali desenvolvemos para o progresso do ciência e do ensino agrícola superior, segurei as lágrimas, mas, poucos minutos depois,  e após encerramento da solenidade, deixei o local e em despedida fui até o estacionamento, ao lado do prédio da reitoria, estacionei o carrão sob uma árvore que ainda hoje lá está, contemplei o belíssimo cenário da cidade com a Serra da Bocaina emoldurando os seus arredores, tendo atrás de mim, o novo campus universitário de apenas cinco anos de existência, o qual ajudei a construir, desde a locação da principal avenida aos primeiros 10 prédios que serviram de início para suas atividades em 1970. E agora ali estava, pronto para partir, deixar aquela que ajudamos a construir e nela implantamos os primeiros cursos de pós-graduação, como parte de um plano maior de transformar aquela Escola em Universidade, o que aliás, se concretizou pouco tempo depois. E então, deixar tudo e enfrentar o desconhecido na distante Brasília, onde novos desafios nos esperavam. Abri a carta recebida na cerimônia, com a assinatura de todos os alunos do mestrado de Fitotecnia. Li, reli, desabei em choro, ali no silêncio de meu carro, tendo pela frente a majestosa Serra da Bocaina e a cidade, berço onde nasci e atrás, a poucos metros o primeiro prédio do campus, sede da administração da Escola,  construído em 1969 e com nossa participação. Ah... emoção demais. Não consegui segurar as lágrimas. Seis horas depois, já no final da tarde, dei partida no carro e ganhamos a estrada, para uma longa e demorada viagem para o novo destino, mas estava com a alma e os sentimentos divididos. Na chegada, ao avistar  a  fulgurante Brasília naquela madrugada de um dia como o de hoje, 05 de agosto, foi como um bálsamo para alma, um sentimento de “terra prometida” e que Deus estava no comando, presenteando-me com aquela bela visão de um cenário sem igual. E estava, Ele esteve comigo o tempo todo nesses 50 anos que aqui estou residindo!

Sozinho em meus pensamentos, reduzi a velocidade do carro, quase parando na rodovia ainda com pouco movimento e me extasiei com aquela bela e silenciosa visão quase fantasmagórica em meio à escuridão do cerrado do Planalto Central. Nunca havia visto aquele cenário dourado-luminoso, pois as viagens anteriores , sempre de avião, aconteceram durante o dia. Exclamei para mim mesmo: Eis a minha terra prometida. Que o Senhor abençoe minha vida aqui, ainda que fique por pouco tempo. Aqui cheguei com as bênçãos de Deus e hoje, no dia em que comemoro os 50 anos de estada em Brasília, acordei quase às mesmas cinco horas da matina, abri a janela, respirei o ar puro, um pouquinho frio e contemplei as luzes da cidade que, embora tenham sido trocadas há poucos meses pela cor branca do led, aposentando as luzes neon amarelas de sódio, ainda assim relembrei aquele dia 05 de agosto de 1975, a visão repentina e deslumbrante das luzes de neon dourado  e os sonhos que então imaginei..., como seriam meus dias por aqui, pedindo a Deus que abençoasse a mim e minha família naquela nova jornada que ora se iniciava. Sonhos de um jovem menino de trinta anos e hoje sou mais que grato a Deus por tudo que aqui vivi. Pois bem, chegando ao novo e amplo apartamento, que havia sido alugado  alguns dias antes, lá já estava o motorista da universidade, Sr Antônio Teodoro, que chegara com o caminhão de mudança poucas horas antes, ainda de madrugada. Acomodamos os móveis e antes de seguir para o aeroporto, parei na Igrejinha de Fátima e agradeci a Deus. Nos dirigimos para o aeroporto para recepcionar a família, a esposa, filhas, cunhada e a  babá, que cuidava das gêmeas desde novinhas. No desembarque e antes de todos os passageiros,  eis que surge à frente ninguém menos que o presidente JK que também viera no mesmo voo, procedente de BH. Sorridente, cumprimentou a mim e meu irmão e ainda lhe dirigi a palavra: “Então, Presidente, veio visitar sua filha-Brasília? Obrigado por nos dar essa maravilhosa cidade”. Agradeceu com um sorriso, sua marca registrada e caminhou apressadamente para o carro que já o aguardava. JK era proibido de se dirigir ao povo e frequentar a cidade. Tinha que ir direto para sua fazendinha a 50 km de Brasília. Pois bem, começávamos bem o dia com aquela inesperada alegria de cumprimentar Jk, o pai da cidade que nos acolheria.

 

Chegamos com a família ao Bloco I da SQS 308, a superquadra mais charmosa de Brasília, considerada quadra-modelo, com obras de arte de Niemeyer, Athos Bulcão e jardins de Burle Marx, um luxo.  Ali estavam, dentre outras,  a belíssima e histórica Igrejinha de Fátima, em forma de chapéu de freira, mandada construir por dona Sarah Kubistchek e inaugurada em  1958, em promessa pela cura de tuberculose de sua filhinha, ainda no Rio de Janeiro, antiga capital federal. Ali também havia o Clube Vizinhança, a Escola Parque – modelo, e a Escola Classe onde as filhas gêmeas, de apenas três anos de idade, frequentaram. Uma Escolinha diferente, que até recebeu a visita da Rainha Elizabeth II, da Inglaterra. Nunca tínhamos visto tanto conforto na vida comunitária, com jardins caprichados e muito bem arborizada. Um paraíso para a família e em especial para as crianças. Foi dali, da janela daquele imenso apartamento que também  pude ver o féretro de JK, exato um ano depois daquela atenciosa saudação que dele recebi à chegada, no aeroporto. Esta foi uma das poucas tristezas que passei em Brasília, a despedida de Jk, que faleceu tragicamente em acidente de carro na via Dutra, em agosto de 1976.

Os primeiros dias e semanas em Brasília foram de outras e constantes explorações de seus amplos e ajardinados espaços. Muito diferentes de tudo que conhecíamos como cidades.  Árvores em todos os lugares, ao redor dos prédios bem espaçados, e enormes canteiros ao lado de avenidas. Aliás, ruas e avenidas sem nome. Sim, estranho para nós, acostumados ao padrão brasileiro de suas cidades. Aqui,  os endereços são classificados pela orientação dos pontos cardeais, norte, sul, leste e oeste, sudoeste, noroeste, e outras designações em função da utilização, como Setor Habitacional, Setor Comercial, Bancário, Autarquias, Militar, Indústria, Ministérios, Três Poderes,  Residencial e tantas outras e sempre acompanhados da especificação local sul ou norte, sudoeste e noroeste. Apenas alguma avenidas são nominadas como a W3 (oeste 3) a L2 (leste 2) e diferenciadas com a localização sul ou norte. Mas e as ruas próximas aos prédio? Simplesmente não têm nomes. Aqui quem é denominado é o quarteirão, que se chama Superquadra. Estas são numeradas de 01 a 16 sul ou norte e se estiver do lado leste (L) seria 202, 402, 203, 403 e assim por diante até o numeral 16. Se a Superquadra estiver localizada do lado oeste (W) a numeração é 102, 302, 103, 303... E qual seria a linha divisória do L (leste) e do W (oeste)? É a linha que corresponde à nervura central da asa do avião que é uma enorme avenida de três faixas em cada sentido e uma faixa de metros de largura ao meio, chamada faixa presidencial. Asa de avião? Sim, a cidade foi projetada em forma de avião e temos aas asas Sul e norte, a parte dianteira do avião é a Esplanada dos Ministérios e a cabine do piloto seria o Palácio da Alvorada. Difícil entender e se locomover nesse labirinto sem nome de rua. A cabeça do motorista recém-chegado dá um nó, pois estava acostumado aos quarteirões e ruas retilíneas formando quadriculados, cheios de esquinas (Belo Horizonte tem uma esquina  a cada 20 metros nas confluências com a Avenida Afondo Pena). Aqui, não! Só linhas curvas  e o pior de tudo..., não há esquinas.... Sim não há esquinas, pois os cruzamentos são em forma de trevo de rodovia, com viaduto e tudo e são chamados de “tesourinhas”.   Meu Deus, é confuso demais para quem chega. Gatei mais de um mês para aprender a andar de carro próprio por aqui. Os domingos eram reservados para flanar de carro, errar muito os caminhos, manobrar e retornar, pois e entrarmos numa Superquadra... adeus, tem que manobrar e voltar pela mesma e única entrada. Privacidade, disse Lúcio Costa, só entram os moradores e não é caminho para ninguém. Quem ali entra tem que voltar pelo mesmo caminho, semelhante a um condomínio fechado. Mas, confesso, em pouco tempo me rendi, aprendi e sou, até hoje, um admirador da malha viária de Brasília, com pistas de 30, 60 e 80km/h e ainda conta com o Metrô. Apesar dos mais de 2 milhões de veículos em circulação, incluindo carros, motos, caminhões e ônibus, com índice de 1,3 habitantes por veículo, o maior do Brasil, ainda assim o trânsito flui bem, sem engarrafamentos e com razoável velocidade. Aqui ainda não se pode falar que chegamos atrasado a um compromisso por causa de engarrafamentos. Interessante notar que hoje a cidade conta com mais de três milhões de habitantes e quando aqui cheguei , havia apenas 600 mil habitantes e 120 mil veículos. Os jornais diziam à época, orgulhosamente, que em caso de catástrofe e necessidade de evacuação da cidade, todos os habitantes caberiam na sua frota de veículos. Coisas de Brasília, única no país, onde as pessoas têm cabeça, tronco e ... rodas.

Brasília , hoje, é uma cidade-parque, com mais de 6 milhões de árvores, muitas das quais são fruteiras que atraem pássaros e outros animais como saruês e micos. As Superquadras são verdadeiras quadras-parque, cercada de árvores em lindas alamedas, nas quais o pedestre pode caminhar sob sol a pino, porém desfrutando de passarelas e ciclovias sob sombras, protegido do sol, a qualquer hora do dia. Amo as caminhadas entre quero-quero,  curicacas, gaviões carcarás, maritacas sabiás e pasmem: araras canindé e tucanos. Verdadeiro paraíso da natureza. Nenhuma cidade do mundo tem essa qualidade de vida. Trabalhei em grande parte do mundo. Nova York, se quisermos caminhar temos que ir em busca do Central Park , Londres idem e em Paris tem que se pegar o metrô. Vancouver, Lisboa, Madrid e outras capitais europeias também não dispõem de áreas verdes como aqui. De meu prédio, na Asa Sul, ando apenas uns 10 ou 15 passos e já estou na alameda com passarelas para pedestres e sob sombra de árvores frondosas de 50 ou 60 anos de idade. Ar puro, flores e pássaros alegram a caminhada.  Sinceramente, além do sucesso profissional, que é outra história a ser contada, minha permanência em Brasília por esse longo tempo se deve, também, a esses fatores de qualidade de vida para a família, especialmente os filhos que aqui chegaram ainda no colo e encontraram espaço e excelentes condições de vida escolar e social.

Brasília..., vim para passar apenas três ou no máximo cinco anos, enquanto durasse aquele governo que me convidou para aqui estar e administrar um grande programa internacional para desenvolvimento da educação agrícola superior. Convites reiterados, com a concordância de minha Universidade Federal de Lavras, acabei sendo seduzido por essa cidade sui generis, planejada, ótima para se criar os filhos e campo de trabalho ímpar no Ministério da Educação. Os filhos cresceram, chegaram os netos..., agora é colher os frutos desse longo cultivo.

Valeu, Brasília..., 50 anos de convivência, completamos hoje. Amém!

 

Brasília, 05 de agosto de 2025

 

Paulo das Lavras

  

P.S.   O   menino só não fala da saudade da terra natal. No entanto, ela  está tão impregnada na alma quanto no pseudônimo de cronista, que gosta de contar as coisas da infância e da juventude ali vividas com muito amor, carinho, cultura e formação profissional, sem falar da Universidade  que ajudou a construir, auxiliando seu grande arquiteto Alysson Paolinelli. Mas estas são outras histórias, algumas já contadas neste blog.


quinta-feira, 31 de julho de 2025

O autista, mal-educado, esquerdista ou de direita. O que você foi, ou ainda é?

 

Sou autista..., eu disse recentemente, em alto e bom tom, ao iniciar uma palestra para alunos de graduação de uma universidade federal. Nem mesmo os cumprimentei, como de praxe fazem os professores ao iniciarem uma aula. Silêncio constrangedor. Chocados, todos me encararam. Propositadamente, também os encarei, em silêncio e com ar ainda mais sério, arrematei: também não sou esquerdista e nem de direita. Continuamos, todos, em silêncio por mais alguns instantes. Mas..., será possível que trouxeram para palestrar um doido, ou no mínimo um esquisito que não fala com ninguém, vai ficar mudo e de cara fechada...? Foi o que alguns pensaram, disse-me depois, no cafezinho, um dos alunos que também disse que ficou muito curioso para ver em que final aquilo chegaria.

A moda atual é o diagnóstico tardio de Transtorno do Espectro Autista – TEA, para qualquer um que tenha pelo menos uma das características desse transtorno de neurodesenvolvimento. Não bastam os diagnósticos para as crianças e adolescentes, os quais, diga-se, os pais não mais dão conta ou nunca as educaram o suficiente. Estavam muito ocupados com o trabalho fora de casa e terceirizaram a educação às creches ou babás mais em conta, de pouca ou quase nenhuma instrução, mas de tempo integral e ainda fazem outros pequenos serviços  da casa. É o “normal” dos dias de hoje, de uma sociedade ainda patriarcal, onde o marido machista não pode dividir as tarefas domésticas com a mulher. Esta, coitada, tem de cumprir jornada tripla e ainda estar à disposição do maridão que, tranquilamente assiste seu futebol na TV, o “descanso do guerreiro”, como gostam de dizer.  Pois bem, agora, não só os filhos, mas, também os pais recebem tal carimbo de autista. E parece que a moda pegou mesmo, pois o que ouço de amigos se “gabando”, sorridentes, ah..., eu também sou ou fui autista... Isto parece que alivia a culpa pelo mal que aflige o filho. Mas, pelo que fui e vivi na infância e juventude, tenho minhas dúvidas sobre tal diagnóstico para os adultos ou idosos de hoje. Não sou nenhum especialista em psicologia ou psiquiatria, mas tenho lá as minha observações, até mesmo para esses TEAs atribuídos às crianças, quando portadoras de algum problema comportamental. O problema está, na maioria das vezes, nas raízes. São mal-educadas e impõem vontades desmedidas, pois foram criadas sem a presença dos pais.

Outro dia assisti a um vídeo de um professor, relatando um caso interessante. Sua aluna norte-americana chegou mais cedo na sala de aula e foi conversar com o professor, pediu licença para fazer uma crítica aos brasileiros. Disse que estava assustada, porque aqui ninguém faz nada! Como assim, indagou o professor. Ninguém estuda, a sala de aula parece um mercado persa, uma vende trufas, outra, plano de viagem e outras, ainda, insistem para que compremos uma profusão de roupas, sapatos, e bijuterias de suas sacolas cheias e ainda organizam festas e vendem rifas. Nos Estados Unidos, quando eu não estava em sala de aula, estava estudando na biblioteca. Aqui, eu vou à biblioteca todos os dias e não encontrei um aluno. Ninguém faz nada aqui, não estudam! As pessoas falam sem saber o que estão falando. O professor simplesmente respondeu-lhe: bem-vinda ao Brasil! O que essa aluna norte-americana viu e sentiu é o retrato da realidade brasileira. Aqui, a realidade é o inverso da lógica, da seriedade, e é propagada pela TV, tornando-se um mote nacional: levar vantagem em tudo, na leveza e malandragem. Ninguém estuda, não cumpre sua obrigação, disse a garota norte-americana com a concordância do professor brasileiro. Mal sabe ela que o primeiro “civilizado europeu” que aqui pisou, no anos de 1.500, tratou logo de mandar ao “El Rei”, uma carta pedindo benesses para si. Outros vieram mais tarde para, literalmente, saquear o ouro, aproveitando também para amasiarem-se com as escravas índias e africanas e, assim, levarem vantagem em tudo, pois quem fazia o trabalho duro era o escravo. Tudo isso  ao contrário dos ancestrais da garota estrangeira, que chegaram de navio fretado, com a família e ao se instalarem nos Estados Unidos, a primeira providência foi construir uma escola para os filhos e uma igreja para a prática do culto de gratidão a Deus. Dedicaram-se à terra, derramando seu suor para conseguir o sustento de sua família. Esta é a diferença cultural, construir/fazer contra o levar vantagem em tudo, sem nada fazer. Uma garota estrangeira, com apenas alguns dias em nosso país, constatou isso. Por lá, existe um senso arraigado de se preparar para enfrentar os percalços da vida, trabalhar e produzir, com imenso sentimento de patriotismo. Numa uma rua em Nova York você pode contar dezenas de bandeiras americanas hasteadas nas fachadas dos prédios. Aqui em Brasília, a capital da república, contei apenas duas, fora da Esplanada dos Ministérios. Uma no início da W3 Norte e outra na L2 Sul – 613.

 

          Pura verdade o que a estudante estrangeira disse ao professor brasileiro. Aqui a regra é inversa à lógica e por isso, provoquei: “Sou Autista!”, reverberei aos alunos. Este teria sido o meu diagnóstico quando criança e adolescente. Com certeza, pois destoava de todos os demais. A moda era se enturmar, jogo de futebol, bola de gude, finca, ping-pong (tênis de mesa), natação nos riachos, caçadas de passarinhos e cavalgadas. Quando maior, as diversões em turma eram matar aula para jogar sinuca, fumar escondido (Continental mais forte ou Hollywood mais suave, eram os cigarros mais famosos, sem filtros nos anos 50 e com filtro nos 60 e eu os fumei bastante... rsrs). Lá pelos 17 anos, além das estrepolias mais comuns, apareciam as visitas a boates e as suas atrações de praxe. O menino que gostava de leituras e mais tarde metido a estudar, ler, compreender e absorver os conceitos de um tratado de literatura, química, física e matemática, ou aprender idiomas estrangeiros,  dedicava mais tempo a esses atividades em vez de enturmar-se em botecos e outros locais não muito recomendáveis. Assim, esses raros casos, atípicos entre a rapaziada, não raras vezes recebiam pechas de calados, entupidos, retraídos, caxias, cdf e outros qualificativos semelhantes ou piores. Tudo isso porque às vezes, ou quase sempre se recusavam a juntar-se à turma. Mas, o que faziam esses poucos “pirados” entre tantos outros? Ora, os “normais” eram os demais..., que nada faziam de produtivo para seu futuro. O “anormal”, pirado, encucado, meio tan-tan, seja lá que apelido recebesse,  cumpria sua obrigação de estudar, ir à biblioteca, pesquisar o assunto, matricular-se num curso complementar de línguas estrangeiras... “Normal” era mesmo não fazer nada e só flanar.

 

Tinha razão a estudante norte-americana ao criticar as colegas de sala de aula. Talvez nem soubessem, onde era a biblioteca da escola. Nos anos 60 eram poucas as escolas que mantinham biblioteca. No meu caso, na matemática, física, química, geografia e ainda nos idiomas inglês, francês e espanhol, me valia das bibliotecas particulares de cada professor. Além de atuar como monitor, ainda fazia, já no final do segundo grau,  traduções de textos técnicos de Física,  que eram distribuídos pelo professor Roussaulière Mattos aos alunos. De 250 colegas do segundo grau, somente um colega, Adelino Moreira de Carvalho, fazia o mesmo que eu e por isso, nos tornamos amigos desde então. Ele gostava e praticava o idioma alemão com os padres alemães do colégio, e também recebia livros emprestados dos professores. Na faculdade, apenas uma colega, Andirana Veiga, se aproximava desse perfil de interação com os mestres. Dos mestres, havia dois que se destacavam, os professores de Solos, Alfredo Scheid Lopes  e o de Fitopatologia, Paulo de Souza. Estavam sempre a nos incentivar e nos emprestavam seus livros particulares. Para o de fitopatologia, fiz traduções de artigos sobre doenças do tomateiro e da batata inglesa, retirados de capítulos de livros produzidos na Universidade da Carolina do Norte, onde o Prof. Paulo de Souza fizera mais tarde seu curso de doutorado (PhD). Lembro-me que, por ocasião se seu doutorado, eu trabalhava na Michigan State University,  na coordenação de 250 outros professores brasileiros em cursos de PhD espalhados por 32 universidades americanas e, de forma descontraída, brinquei: quer que eu ainda traduza artigos de fitopatologia, como nos meus tempos de seu aluno? Este e alguns outros, foram professores que fizeram diferença. Alfredão, de quase dois metros de altura, atleta medalhado no país e no exterior, especialista em Solos do Cerrado,  encaminhou-me para um estágio em São Paulo, em uma grande empresa produtora de fertilizantes e ali percorremos vários municípios produtores de hortifrutigranjeiros, cana de açúcar e café. Foi o maior aprendizado que absorvi na área do agronegócio.

 

Mas ainda no campo das bibliotecas, encontrei terreno fértil na USP, na Escola de Engenharia de São Carlos quando, no início dos anos 70, cursei pós-graduação na engenharia civil,  nas áreas de Hidráulica e Meio Ambiente. Nos conhecimentos biológicos dominava perfeitamente pois é parte essencial da agronomia, já na computação, aliás área emergente na ocasião, a dedicação precisou ser redobrada em Matemática superior, com Matrizes, Vetores, Probabilidades, Transformadas de Laplace, Álgebra Linear e outras que faziam parte dos  mínimos conhecimentos exigidos para se aprender Programação Computacional e criação de aplicativos. Não era fácil e o jeito era “morar, viver “ na biblioteca. Bibliotecárias qualificadas, experientes, bastava indicar o assunto e em poucos minutos retornavam com os principais títulos de livros e periódicos. Era só escolher os melhores, checando a ficha catalográfica que ficava na parte interna da capa e mostrava todas as consultas já realizadas  naquele título. Hoje temos o Dr Google que em segundos nos fornece o resumo de cada obra e mais, ainda, a inteligência artificial- IA que já compõe o texto desejado pelo cliente.  Mas, vejam, mesmo naquela Escola de Engenharia,  uma das melhores do país, a frequência à biblioteca não era como esperado, mesmo sem a existência da internet que hoje tudo resolve.  Já nos anos 90, passei a frequentar a biblioteca da UNB com maior assiduidade. Internet ainda engatinhando, uma novidade nos sistema de consultas e já me pareceu que os alunos a frequentavam com mais intensidade. Mas, ainda assim, essa suposta "intensidade", estava ainda a anos-luz da situação que prsenciei na biblioteca da Michigan State University, quando traballhei por lá, na gestão de treinamento de professores brasileiros em cursos de PhD, em todo os EUA. Observei, o que a estudante americana disse ao seu professor brasileiro na USP, que o hábito do estudante americano, de efrequentar a biblioteca, é notável. Melhor assim, pois isto é o certo, como bem observou a estudante estrangeira que, também notou, além da falta de vontade de se dedicar aos estudos, que o estudante brasileiro apenas dá uma lida na matéria no dia da prova.

 

Mas, e a questão de se posicionar como de esquerda ou de direita? Ora, trabalhei no MEC por 35 anos, sendo trinta e quatro em tempo integral e mais um ano, anterior, como consultor eventual. Atravessei períodos distintos de governos de direita e de esquerda. Observei que a nossa Educação está impregnada das ideias do educador Paulo Freire que aliás, foi declarado, em 2012,  patrono da Educação Brasileira. Freire prega que a Educação deve ser um instrumento de libertação, conscientizando a população para uma transformação social, libertando o indivíduo da opressão, tornando-o participativo na sociedade. Para ele, o principal objetivo da Educação é criar consciência de classe. Educadores críticos à essa ideia, acham que Freire defende uma pedagogia doutrinária, que promove o comunismo, criando classes de cidadãos, tal qual na tese marxista, ao invés de se preocupar com a educação como instrumento de ampliação do conhecimento, para se formar cidadãos de fato, conscientizados, a serviço da produção e desenvolvimento da sociedade. Não se pode, como defende Freire, limitar a formação de massa de militantes da esquerda, pois no mundo inteiro os parâmetros de qualificação profissional são os do conhecimento das ciências. Por isso o Brasil é fraco, extremamente fraco, nos índices mundiais de classificação dos alunos, como o PISA-Programa Internacional de Avaliação de Alunos  e o IDEB, que é o índice de desenvolvimento medido nas avaliações de aprovação e desempenho no Sistema de Avaliação da Educação Básica no Brasil (Saeb). No PISA, a última avaliação, de 2022, o Brasil ficou, na área da Matemática,  entre os últimos colocados, com apenas 379 pontos, 93 abaixo da média (472 pontos). Em ciências, a pontuação foi de 403 pontos, 82 abaixo da média (485 pontos). Em leitura, o desempenho brasileiro foi de apenas 410 pontos, muito abaixo da média de 476,  dos países da OCDE. O PISA também avalia domínios inovadores como resolução de problemas, letramento financeiro e competência global.  Há algo de muito errado na Educação Básica brasileira e enquanto perdura a tesse esquerdista de foco na formação de classes sociais, ficará difícil  para o Brasil sequer alcançar os índices de seus vizinhos Chile e Argentina, por exemplo, sem falar de países mais desenvolvidos.

 

Por outro lado, aqueles que. aqui no Brasil, se preocupam mais com a qualidade da Educação nas áreas tecnológicas, são às vezes taxados de “direitistas” e acusados de ignorar a educação de classes de cidadãos, como massas sociais. Não se trata disso, a educação não pode ser dividida dicotomicamente e nesse sentido colocar o foco principal, como desejado por Freire, unicamente no social, para supostamente “libertar o cidadão da opressão”. Formação social? Sim, mas não se pode colocar em segundo plano o desenvolvimento científico e tecnológico . Precisamos melhorar em Ciências, Matemática, Física, Química, Computação, Inteligência Artificial e quantas mais necessárias ao progresso técnico, científico e social.  Felizmente, na nossa área de atuação profissional contamos com verdadeiras e avançadas ilhas de desenvolvimento tecnológico, em condições privilegiadas de competição mundial na Agricultura e algumas subáreas da Engenharia.

 

 

            Fanatismo e Inteligência  nunca moram na mesma casa, já dizia o poeta e pensador Ariano Suassuna. Mas, diante de tantas diversidades e adversidades, que atitude o jovem de hoje deveria tomar? Recomendo aquilo que eu e poucos colegas de faculdade fizemos e deu certo: fazer diferença. Ah..., e a diferença não é ser o mais inteligente da turma. Provavelmente pelo menos uns dez por cento tem QI igual ou superior ao seu. A questão é fazer diferença em outro campo: DEDICAÇÃO! Não fui autista coisa nenhuma, apenas fui focado nos objetivos e metas de estudar e me preparar profissionalmente. Talvez, possa ser admitido o caso de um TEA  bem leve, na categoria de alta performance, o que explicaria a facilidade que tinha para aprender matemática, física, química inglês e os idiomas francês, espanhol, italiano e até mesmo o Latim, língua que ainda era utilizada nos textos sacros. aprendido e utilizado no Seminário onde estudei por algum tempo. É bem verdade que tive dificuldades de me enturmar, jogar futebol e outras atividades comuns aos jovens, preferindo ficar só..., estudando, lendo ou ouvindo as rádios estrangeiras para praticar os idiomas. Confesso que me preocupava por conta desse comportamento, estigmatizado como “anormal” à época. Somente muito mais tarde vim a compreender que tenho o direito de ser do jeito que sou e sinto-me aliviado e contente por sido assim e pude “fazer diferença”

 

  

Por ser assim, focado nos estudos e na aprendizagem, não me sobrou tempo para ocupar a mente com bobagens dicotômicas de esquerdismo ou de direita. Apenas estudei com afinco. Hoje passaram a chamar isto de “hiperfoco” e está classificado como sintoma de autismo, mas não é o único. Nem sempre o isolamento, para se dedicar às tarefas, pode ser classificado como autismo. Na maioria das vezes passa-se apenas como sujeito mal-educado, que só estuda, mas, lembrado com “distinção” nos dias de provas, quando aqueles seguidores da lei do Gerson, corriam a reservar para você um lugar bem ao lado deles, no fundos da sala de aula. Identificada essa “distinção” interesseira, tratávamos de ser o último a entrar na sala de aula e ocupava os lugares vazios, bem na primeira fileira,  ignorando os chamados despistados: seu lugar está reservado aqui, lá no fundão.  

 

Façam diferença, estudem muito! Desenvolvam suas habilidades e talentos. Educação faz diferença e um bom começo é meio caminho andado para o sucesso. E o sucesso vem mesmo! Eu garanto, pois ele não vem por acaso.

 

Brasília, 31 de julho de 2025

 

Paulo das Lavras



 Foto: Senado Federal

 


quarta-feira, 18 de junho de 2025

Dia Internacional dos Trabalhadores Domésticos e atavismo escravocrata

 

Blog: 429.748 visualizações até 15/06/2025

 O jantar – prancha 7, 2º Tomo -  Debret – 1835 
As ilustrações de empregadas domésticas atuais ,encontradas na internet, 
são glamourizadas. Lindos uniformes, belos penteados, unhas bem-feitas e maquiagem 
impecável. Não retratam a realidade, por isso optamos pela ilustração artística do famoso pintor
Debret que esteve no Brasil  de 1817 a 1831e retratou a realidade brasileira de então.


 

            Há dois dias, em 16 de junho, celebrou-se o Dia Internacional dos Trabalhadores Domésticos, cuja data coincide com a assinatura, no ano de 2011, da Convenção 189 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Foi um ato de notável relevância,  assinado por grande maioria dos representantes de governos, empregadores e trabalhadores,  recomendando medidas para que o trabalho doméstico seja um trabalho digno e valorizado. O Brasil ratificou a referida Convenção, embora não tenhamos visto nenhuma comemoração oficial. Isto, Talvez, se deva à tradição católica brasileira que considera a data de 27 de abril como o dia da empregada doméstica. Esta data foi escolhida pelo Papa Pio XII, nos anos 40, proclamando Santa Zita como a padroeira das empregadas domésticas. Argumentava a igreja que Santa Zita foi empregada doméstica desde os 12  anos de idade, criança, ainda. Era muito humilde, caridosa e se contentava em trabalhar em troca de comida, roupa e um local para dormir. Não é de se estranhar, portanto, que na cultura brasileira, originada no estilo do colonizador português, a empregada doméstica tenha sido uma constante nos lares das famílias mais abastadas, desde os tempos da escravidão, como bem retratou o pintor francês Jean-Batiste Debret que aqui esteve por 14 anos. Quanto ao estereótipo adotado pela igreja católica,  em relação aos empregados domésticos, é preciso, antes, entender que ela sempre ignorou a escravidão, ao contrário, até mesmo estimulou essa prática quando o papa Nicolau V, em 1452, baixou uma bula papal concedendo a Portugal o direito de capturar e escravizar os negros da África, reduzindo-os à submissão perpétua, com o único o argumento de que não eram cristãos. À parte os atavismos e maus costumes de desrespeito à vida humana, fiquemos com os dias atuais que embora melhores, ainda temos muito a fazer.

Até há pouco tempo, era costume a empregada doméstica residir na casa dos patrões, sendo tratada quase que em regime de escravidão, com longas jornadas que se estendiam até à noite e sem nenhum direito trabalhista. Em minha cidade natal, no sul de Minas, berço das minerações de ouro e com grande número de escravos, as figuras de uma , duas e até três empregadas domésticas na casa grande era comum, até o final dos anos 70 do século passado. Vivi, convivi e presenciei essas situações muito comuns à época. Mas, história à parte, tratemos da importância do trabalhador doméstico, seja ele ou ela o responsável pela limpeza da casa, cozinha de forno e fogão, governanta, cuidador de idosos, babás, lavadeiras, motoristas particulares, caseiros jardineiros, vigias e empregados mensalistas, conforme são chamados hoje em dia. Representam um contingente de mais de 6 milhões de profissionais no país, conforme a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad) de 2023. Cerca de 91% dos trabalhadores domésticos são mulheres e estas ainda não contam com creches suficientes para seus filhos, deixando-os em casa aos cuidados de terceiros, geralmente os filhos mais velhos, crianças ainda, ou então com vizinhos. A taxa de informalidade beira os 75%, sem nenhum direito trabalhista, a começar pelo acesso à seguridade social, jornadas justas, férias e outros benefícios.

Por outro lado, essa situação injusta tem melhorado e recentemente o Ministério do Trabalho e Emprego lançou a Campanha Nacional pelo Trabalho Doméstico Decente, com o tema “O controle da jornada das trabalhadoras domésticas como direito essencial ao trabalho decente”.  Aquele regime de semi-escravidão,  que perdurou até os anos 70, é raro, pois, nos últimos 50 anos mudou-se o regime social brasileiro. Raramente há a “casa grande”, prevalecendo a moradia em apartamentos de cidades com mais de vinte mil habitantes. O quarto de empregada (um cubículo de 2 x 1,50m) nem existe mais nos prédios construídos nos últimos anos. Cresceu, por outro lado, o número de diaristas e babás, mas, com jornadas de trabalho dentro da lei e salários regulados com direito a vale transporte e outros benefícios. Houve, de fato, progressos sociais na profissão de trabalhador doméstico no Brasil. Afinal, reveste-se de grande importância e é reconhecido como “trabalho de cuidados”, envolvendo todas as atividades do lar, da casa, da cozinha aos cuidados  com crianças e idosos. Trabalho de cuidados essenciais para as famílias, a sociedade enfim. Mas, não tem recebido  atenção que merece e quase sempre há outros fatores que impedem seu justo reconhecimento . É um trabalho invisível e se torna mais injusto ainda quando envolve o sentimento, o afeto de quem se dedica, por exemplo aos cuidados com as crianças e idosos da família. Portanto, falar de sua importância não é difícil, pois seu trabalho possibilita que os membros da família tenham mais tempo para se dedicar a outras atividades e, muitas vezes, esses trabalhadores tornam-se verdadeiros membros da família, com laços afetivos duradouros. Esta é uma das principais características do trabalho doméstico e não à toa 91% das pessoas que o realizam são mulheres, que se destacam na dedicação, amor e afeto à casa, ao lar. 

 

Cuidador... ? Todos nós cuidamos e seremos cuidados ao longo de nossas vidas. Hoje, cuidamos de nossos entes queridos e das crianças e idosos que merecem atenção. Amanhã seremos nós que vamos merecer cuidados.  Por isso, nesse dia dedicado aos trabalhadores domésticos, devemos refletir sobre o seu trabalho e dedicar-lhes mais valor e respeito a seus direitos. É uma ótima oportunidade para a reflexão, reconhecer seus direitos, valorizá-los  e respeita-los, dando-lhes um ambiente de trabalho justo e digno para aqueles que cuidam de nosso lar com zelo, carinho e dedicação. Muitas vezes somos traídos pelo costume e não nos lembramos desta importante e necessária valorização. Num país com raízes escravocratas, onde tivemos a presença constante da ama-de-leite, da babá, do (a) menino(a) de companhia, cozinheira, lavadeira, quitandeira e quantos mais títulos houver na lida doméstica, nos acostumamos a esse atavismo e nem nos lembramos de valorizá-los hoje em dia. Agora, mais do que nunca, os empregados domésticos são mais que importantes, pois com a ascensão social da mulher, que busca seu lugar no mercado de trabalho, levou-a a se ausentar do lar e, portanto, entra a figura, a presença da empregada doméstica que passou a ser a gestora da casa, além de cuidar das crianças, em especial.  A empregada doméstica é, hoje, figura mais que importante na vida das famílias brasileiras. E já se foi o tempo em que eram tratadas em regime de semi-escravidão.

E por falar em passado escravocrata, outro dia assisti na TV um show deprimente, condenável, de um senador da República destratando uma mulher negra, humilde, porém, educada, ocupando cargo de Ministra de Estado. Ela foi firme contra os ataques misógino e racista, resquícios, segundo a crítica de um intelectual, o ex-senador Cristovam Buarque, da cultura atávica escravocrata que, a qualquer motivo gritava para os escravos: “ponha-se no seu lugar”, tal qual aquele outro senador atacara a ilustre Ministra, ali, ao vivo em audiência pública no Senado Federal. Deprimente e condenável, pois se ali no Senado Federal, não se respeita a humilde origem de trabalhadora rural e a cor de sua pele, imagine  em meio à sociedade com seus cidadãos comuns. Outro cidadão, indignado com esses tratamentos, veio à imprensa e se manifestou dizendo que o Brasil não aboliu a escravidão: terceirizou-a e casos como os das empregadas domésticas que cuidam de sua casa, virou racismo de estimação, concluiu o autor. Aquele senador que gritou, publicamente, “ponha-se no seu lugar”, como a perpetuar o pensamento da cultura escravocrata sobre alguém de cor negra e de humilde origem rural, não teria gritado assim com seus colegas, concluiu Cristovam Buarque, em recente artigo de jornal.

 

Mas, apesar desses percalços, o Brasil progrediu e continuará nessa linha de progresso social. Leis existem, a sociedade tem consciência do valor do trabalhador doméstico e todos lutamos por melhor educação e assistência a todos os brasileiros. Somente por meio da Educação e consequente conscientização de todos, atingiremos os níveis necessários para o respeito e valorização da profissão do trabalho doméstico.

 

Brasília, 18 de junho de 2025

 Paulo das Lavras

 

 


terça-feira, 27 de maio de 2025

Uma palestra na UNB e os sonhos da juventude

 
                                                                                                                                                         UnB- 13/05/2025 


 

Voltei à Universidade de Brasília-UNB, instituição que marcou minha vida profissional na capital de nosso país, quando diretor no Ministério da Educação. Os constantes contatos, na gestão de programas de melhoria do ensino superior, com reitores e professores como o saudoso diretor da  Agronomia, Prof. Roberto Meirelles de Miranda, carioca, atuante no ensino e na pesquisa, oriundo da antiga Escola Nacional de Agronomia-ENA, hoje UFRRJ e do Instituto de Pesquisas Agrícolas do Ministério da Agricultura. Nossos programas de desenvolvimento do ensino agrícola superior, sob nossa coordenação no MEC, proporcionaram à UNB, um desenvolvimento destacado na melhoria de seus cursos de graduação e pós-graduação da área agrícola. Foram anos de convívio e mais tarde, antes da virada do século, ali frequentamos o curso de pós-graduação de Planejamento e Avaliação Institucional de Universidades e da Educação Superior, patrocinado pela Unesco, onde travamos conhecimento com as inovações mundiais e renomados autores e pesquisadores internacionais daquela nascente e importantíssima área que, logo em seguida gerou no Brasil o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – SINAES (Lei nº 10.861/ 2004). Ali retornamos algumas vezes para eventos técnico-científicos ou mesmo para  proferir palestras. E hoje, voltamos para mais um contato com os alunos, para falar sobre a carreira da Agronomia e o exercício da profissão.

Palestrar é uma das atividades mais prazerosas  para um professor, qualquer que seja o público. Tenho proferido palestras em diversos e distintos locais e ambientes ao longo de mais de 50 anos de carreira profissional, seja para estudantes, profissionais das ciências agrárias e executivos. Palestras, simpósios e congressos nas universidades e conselhos profissionais foram os locais mais frequentes, no país e no exterior. Por força de ofício no desempenho do cargo de diretor do Ensino Agrícola Superior, e na diretoria de Avaliação das Universidades e da Educação Superior, no Ministério da Educação, visitamos e palestramos em todas as 53 universidades federais  existentes no país, até o ano de 2005 e depois em outras tantas novas universidades criadas no período de 2003 a 2010. No exterior, além de universidades, predominavam as palestras em órgãos de governo, sempre interessados em estabelecer convênios de cooperação com seus pares brasileiros. Foi assim nos Estados Unidos, em mais de uma dezena de universidades (onde treinamos 250 – duzentos e cinquenta- PhDs) e ainda no Departamento de Estado, na USAID e na Associação Nacional de Universidades Estaduais e Land Grant Colleges, onde tivemos oportunidade de falar sobre a educação agrícola superior no Brasil e assinar convênios de cooperação. Da mesma forma palestramos na  França, em Paris, Nancy e Montpellier e em Centros de Pesquisas Agrícolas.  Nas Américas ministramos palestras em quase todos os países, da Argentina  ao Canadá. Era incrível o interesse desses países em estabelecer convênios com as universidades brasileiras. Nossa Agricultura Tropical era única e gerava tecnologias que despertavam interesse mundial.  Mas, a palestra que mais nos empolga é aquela dirigida aos alunos dos cursos da área de Ciências Agrárias. Incentivar, estimular a carreira da engenharia agronômica, mostrando-lhes o potencial da profissão neste imenso país, celeiro do mundo e ao mesmo tempo falar dos desafios e caminhos que eles devem seguir, é por demais gratificante.

Foi assim, recentemente, na Universidade de Brasília-UNB, com os alunos da série inicial do curso de Agronomia-2025. Falamos sobre a carreira de engenheiro agrônomo, suas características, campo de trabalho e responsabilidade social. Antes de iniciar o tema técnico propriamente dito, focamos a atenção na vida estudantil, suas responsabilidades, liderança e desempenho acadêmico. Mas, antes de adentrar nas questões da formação do Engenheiro Agrônomo, falamos da importância da Agronomia, chamando a atenção para o fato de que, desde os primórdios da humanidade, a relação entre o ser humano e a terra sempre foi de respeito e dependência. A agricultura, como atividade essencial, moldou civilizações, sustentou populações e inspirou inovações ao longo dos séculos. É na interação com o solo que encontramos não apenas sustento, mas também um profundo aprendizado sobre equilíbrio, perseverança e gratidão, e agora, ao chegar ao final de minha carreira profissional, de Engenheiro Agrônomo,  posso dizer com absoluta convicção as seguintes afirmações:

           1 - Não existe profissão mais digna que a Agricultura, pois dela o homem colhe e se     

                alimenta do produto que semeou e cultivou

 

   2- A Agricultura é a primeira das artes. Após a colheita seguem-se as demais como a   

         indústria, o comércio e os serviços.

 

  3- Nunca faltarão atividades profissionais no ramo  da produção de alimentos..., a       

     Engenharia Agronômica

 

  4- O Homem não interfere no Clima Global e sim apenas no microclima

(Luiz Carlos Molon - Climatologista)

 

 5- Sejamos gratos ao Solo. Ele e nos alimenta na vida e nos acolhe na morte

 

 

Passando para a área técnica, discorremos sobre a  origem e evolução da Ciência e do Ensino da Agronomia no mundo e no Brasil, a história antiga e moderna da Educação Agrícola Superior em nosso país, os programas e ações de destaque do MEC e ainda a nossa atividade no Ministério da Educação, na Diretoria de Ensino de Ciências Agrárias. Abordamos a questão do surgimentos das novas carreiras profissionais (Florestas, Eng. Agrícola, Pesca e outras), a evolução e distribuição da oferta de cursos no país, as reformas curriculares a partir de 1961 e as mudanças e inovações na formação  profissional para o Século XXIOutra questão que levanta muitas dúvidas e abordada na palestra, foi a Educação à Distância na Agronomia, pois o MEC está prestes a aprovar novas regras para esta modalidade de ensino. A Educação à Distância não pode ser aplicada integralmente à Engenharia Agronômica. Admitimos um máximo de 20 a 30%  de ministração de conteúdos nessa modalidade e com provas presenciais.Abordamos também sobre as Associações Classe e a regulamentação da profissão, com destaques para os papeis do CREA, CONFEA e Mútua de Assistência, bem como as leis, regras e ética no exercício profissional. Finalmente focamos atenção sobre as questões afetas ao mercado de trabalho no campo da Agronomia. 

Ao final, na parte reservada aos debates, um aluno perguntou: “Professor, o que é preciso para se ter sucesso na profissão da Agronomia?”. Respondi-lhe secamente, de alto e em bom tom: Sorte!... Muita sorte... Seguiu-se um silêncio proposital de minha parte. Olhares desconfiados dos alunos... e, após alguns instantes prossegui. Não é aquela “sorte” aleatória de se ganhar na loteria ou ser premiado com a companhia da moça mais bonita da festa. Não! A sorte à qual me refiro são as boas escolhas na vida, a “dedicação e fazer diferença”.  Não basta ser inteligente. Muitos também são assim dotados. A principal condição para se alcançar o sucesso é, simplesmente, fazer diferença! Seja diferente! Dedique-se aos estudos, pois este é o mais importante quesito para se alcançar o sucesso profissional. Leia muito, tudo aquilo que se refira ao tema em estudo. Seja questionador em sala de aula e lembre-se, os mais inteligentes não são aqueles que sabem todas as respostas e tiram 10 nas provas, mas sim, os que fazem perguntas instigantes e para as quais talvez ainda não haja respostas. É fácil decorar respostas, mas o melhor é ter espírito crítico, observador e questionador para todas as coisas da ciência. Aprenda a ser crítico, analítico, pois é assim que funciona na prática do mercado de trabalho. Pesquise as fontes de consultas, busque respostas para as questões, proponha soluções. Por outro lado, se seu colega tiver dificuldade, ajude-o, ensine-o, pois o ato de ensinar reforça e consolida o saber. Até mesmo os poetas confirmam essa verdade. A poetisa Cora Coralina escreveu: “Feliz aquele que transfere o que  sabe e aprende o que ensina”

Nessa linha do “fazer diferença”, na dedicação aos estudos, há um outro fator de relevância e que poucos alunos se dão conta de sua importância: aproxime-se dos bons professores. Eles adoram tutorar seus alunos. Tive três professores excepcionais no saber e competência profissional, na didática e no trato com os alunos. Me agarrei a eles, os professores Alfredo Scheid Lopes (o pai do Cerrado, que assessorou o ministro da Agricultura Alysson Paolinelli a conseguir desbravar esse tipo de solo), Paulo de Souza, da área de Fitopatologia,  mas nos iniciou na arte do cultivo do café e da pesquisa agrícola, pois acumulava a função de diretor da Estação Experimental Agrícola do M. Agricultura e o Professor Alysson Paolinelli, da área mecanização agrícola, diretor da ESAL/UFLA e foi o ministro que revolucionou a agricultura brasileira. Eles tinham o dom de cativar e influenciar os alunos, incentivando-os na futura profissão, levando-os a participar de congressos, exposições e dia-de-campo. Faziam diferença. Portanto, este é um fator importantíssimo na formação do futuro profissional. Identifique esses professores e se aproximem deles. Eles vão adorar essa missão adicional de tutorar seus pupilos. A maior alegria de um mestre é ver seu pupilo ultrapassá-lo e alcançar o sucesso.

Bem, o sucesso profissional, vocês querem saber como alcançá-lo? Já falamos algum requisitos e aqui vai outro, muito importante: seja ético e cumpridor de suas obrigações, pois todos estão de olho em você, especialmente os professores. Eles sabem identificar talentosos e desinteressados... Lembre-se que  talvez um único deslize  de sua parte possa lhe fechar as portas, ainda na faculdade. Melhor fazer diferença pelo lado positivo. Todos notarão sua assiduidade, dedicação, interesse e competência  no trato das questões profissionais. Como se vê, o sucesso não vem por acaso... e ironicamente podemos dizer que depende de muita sorte..., a sorte nas escolhas certas e muita ralação. Ralei muito, horas e horas de estudos, sem futebol, noitadas, jogo de sinuca (era um vício nos tempos de estudante) e aproveitava o tempo para estudar. Não importavam os apelidos de Caxias, cdf e outros tantos (hoje se chama bullying) que só eram compensados (vingados, melhor dizendo...) em dia de prova, pelo assédio de passar-lhes “cola”. Era divertido, pois nesse dia de prova, deixávamos para ser o último a entrar em sala. Olhava e via os  gestos de “seu lugar está reservado aqui- venha para cá, ao meu lado...”, quase sempre lá no fundão. Cumprimentava o professor, que já estava de olho nos “arranjos” e... me assentava na primeira fileira, quase vazia...

 Posso dizer que tive muita “sorte”, fiz as escolhas certas e trilhei caminhos certos. Estudei muito mais que os colegas, brinquei menos do que podia, sempre andava com pessoas mais velhas e com eles aprendia mais, dormia menos tempo que os colegas, passava boa parte das noites não em farras e diversões, mas ouvindo o enorme rádio de válvulas, com chiados, sintonizado na BBC de Londres, na Voice of América de Washington/EUA, na Radio France, RAI- Itália, Deutsche Welle/Alemanha e a Belgrano de Buenos Aires, pois, seis ou sete décadas atrás não havia os recursos de hoje para se aprender idiomas, sequer cursinhos de línguas. Mais tarde, já no exercício da profissão, enfrentava com disposição as constantes intempéries, nos altos das montanhas de Minas Gerais, as salas de aula e a vida de executivo da educação superior com 200 dias de viagens por ano em todo o país, literalmente, e por várias partes do mundo. Não esmorecia nunca, noites sem dormir, fusos horários que interferiam no metabolismo do corpo, palestras e debates em diferentes idiomas, que exauriam o cérebro em velocidade vertiginosa (tradutores simultâneos trabalham apenas quarenta minutos e descansam uma hora, devido ao esgotamento mental).  Mesmo assim, o entusiasmo e o gosto pela profissão predominavam, como a confirmar quele velho adágio: ... “escolha uma profissão que goste e sinta-se como se nunca tivesse trabalhado um dia sequer”. Façam o mesmo. Façam as escolhas certas, dediquem-se e sejam felizes nos estudos e principalmente nessa maravilhosa profissão de Engenheiro Agrônomo, pois esse tipo de  “sorte” não falha nunca. É o caminho certo e seguro para o sucesso!

Nessa fase de estudante, apeguem-se aos mestre enquanto podem. Reverencie-os, pois neles está a sabedoria que não se encontra nos livros, a convivência na escuta de seus problemas, suas dúvidas,  na partilha das experiências acumuladas, onde o saber não é apenas  técnica, mas também a ética que é a narrativa do sentido real da vida. A vida é maior que tudo e o saber é, antes de mais nada é um cuidado, um afeto para a alma inquieta que tudo quer saber, quer aprender. O saber é também um cuidado com a natureza - a vida! E isto é próprio da Agronomia – a Vida, a água, o solo a planta, os animais e os alimentos que nutrem a vida humana. E neste contexto, nossos bons mestres, nos inspiram, apontam caminhos possíveis entre o conhecimento, o saber e a técnica, confrontando-os com a  ética e o respeito humano. A eles, ainda hoje, sou eternamente grato e devedor pelos ensinamentos e dedicação recebidos.

Sejam felizes, realizem seus sonhos nesta mais bela e digna profissão, que cuida do solo e produz alimentos para o corpo, cuidando da VIDA. A vida animal, incluindo nós mesmos, a vida vegetal e vida do Solo.  Aliás, sempre começo minhas palestras para estudantes e profissionais da Agronomia, com os seguintes dizeres:

Sejamos gratos ao Solo, pois ele nos alimenta na vida e nos acolhe na morte.

 Finalmente,  ao olhar para trás, vejo uma agricultura moderna, que abastece nosso país e o mundo. Vejo os cuidados com a natureza, o solo-mãe de nossos alimentos, nossos rios e a pureza do ar. Dou Graças a Deus pela dádiva da Vida e pela mais bela e digna de todas a atividades – a Agricultura. A primeira, a maior e mais importante escolha vocês acabaram de fazer: a  profissão de Engenheiro Agrônomo. Outras escolhas virão, como por exemplo, qual a especialidade a seguir? Qualquer que seja a especialidade no campo da Agronomia, vocês certamente chegarão ao sucesso. Sonhem alto, mas com os pés no chão, o mesmo chão que lhes sustentará.

Sucesso sempre!

 Brasília, 27 de maio de 2025 

  Paulo das Lavras


 
Com o Prof. Felipe/UNB, da disciplina 
“Legislação e Ética Profissional”


 
O uso de drones na Agricultura tem aumentado bastante, pois seus resultados 
 têm se destacado como fator de melhoria na produção e com forte apelo na Agronomia 
Foto: internet