terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Vovô, você foi importante?

    Pedro Henrique  pronto para recortar    a Revista ELITTE, edição  de jan 2014 (capa ao lado) com o artigo Terra dos Ipês e das Escolas - Lavras                                                      
 
Pedro Henrique, com cinco anos de idade, passou uma tarde após o carnaval na casa dos avós e uma de suas atividades foi recortar figuras em revistas. Pegou qualquer uma no porta-revistas da sala de estar e pediu autorização à vovó para recorta-la. Na verdade era uma revista que continha um artigo que escrevi sobre a história da educação em Lavras e as razões do porque de seu lema: Terra dos Ipês e das Escolas. Vovó, matreiramente, disse a ele para perguntar-me. Adentrou meu escritório e foi logo perguntando: Vovô posso recortar essa figura? Antes de qualquer resposta pedi a revista e a abri na pagina 30, mostrando-lhe a foto do autor do artigo, eu próprio. O menino arregalou os olhinhos e surpreso perguntou:

Vovô..., você é importante?

Sim....! O vovô já foi importante, olhe aí quanta gente bonita aparece nas fotos, a começar pela capa e eu estava lá entre eles, contando histórias..... Você acredita? Ah..., então eu não posso cortar sua foto na revista. Escolheu outras figuras e autorizei os recortes.

Instantes depois fui à sala verificar o seu “trabalhinho”. Um mosaico de variedades, começando por duas malas de viagem bem vermelhas,  moedas, bolo, tênis, roupas, tablet, telefone celular e outras coisinhas. Perguntei a que se destinariam os recortes e ele disse: É para a minha viagem, já tem mala, comida, tênis... e agora só falta o dinheiro. Você me dá um real? E para onde será a sua viagem? Para Nova York, vovô, mas é de mentirinha...., respondeu o sorridente garoto.

Criança é joia. É preciso que as tratemos assim, com muito amor. Uma benção de Deus!

Brasília, 06 de março de 2014

Paulo das Lavras
                                                             
                                   Preparativos da "viagem" imaginária para Nova York
pg 27-  A História da Terra dos Ipês e das Escolas- Lavras
        
pg 28

pg 29

                                                                                pg 30


domingo, 5 de janeiro de 2020

Saudades de minha terra




Nascido na fazenda Retiro dos Ipês, ali permaneci até os três anos de idade. Naquele ano de 1948 nos mudamos para a cidade. Era tempo das irmãs mais velhas frequentar a escola e também para facilitar os cuidados da saúde do menino que se recuperava de uma grande cirurgia torácica. O viver na fazenda, livre para andar nos amplos espaços não foi perdido na cidade. Ali, morei numa grande chácara com todas as características de fazenda, o pomar, a matinha, o córrego com límpida e transparente nascente e lambaris em profusão, o curral, as vacas de leite, galinhas, o cavalo manga-larga marchador, bom de sela e até mesmo um ou dois cevados na engorda para a produção de carne e banha, costume mais que tradicional nas fazendas. Um privilégio para o menino, correr pelos pastos, cavalgar, sentir o cheiro da mata e da natureza com seus frutos, pássaros e até alguns bichos selvagens como o ouriço-caixeiro, tatus, gambás, lontras, coelhos e preás, além das temidas, embora raras, cobras que habitavam as matas e os brejos. Tudo isso com a vantagem de se estar na cidade e poder frequentar as melhores escolas, além de angariar uma plêiade de amiguinhos atraídos pelo fascínio dos animais, o cavalo, principalmente, caçadas com estilingue e tudo mais que meninos livres tinham direito. Infância feliz, sem dúvida! Lembranças que carrego comigo, que muito me influenciaram e certamente tem a ver com a minha preocupação com as crianças de hoje, encerradas em apartamentos, presas aos dispositivos eletrônicos virtuais, que em muitos casos as deixam totalmente alienadas do convívio social com outros e sobretudo da natureza, nossa maior professora, educadora, que nos mostra os verdadeiros valores da vida.

            A vida profissional e acadêmica me levou por muitos caminhos. Trabalhei, estudei, cresci como profissional e como pessoa. Passei por muitas cidades, universidades, museus aqui e em muitos outros países, mais de duas dezenas, em missões de trabalho ou simples passeios. Aprendi muito, amei todas as experiências, mas, no período em que estive fora – e beira meio século, a cidade natal e seus encantos da infância e da juventude nunca saíram de meu pensamento. Minha mente fervilha a cada estímulo em relação a ela, seja na literatura ou presencial ou mais frequentemente virtual. E o pensamento voa, batimentos do coração acelerados e a vontade de voltar sempre presente, cada dia falando mais alto. Ah..., os filósofos e especialmente os poetas degredistas sabem muito bem do que falam. Proust disse que "os verdadeiros paraísos são os que perdemos" e o poeta Mário Quintana ensinou que "a gente continua morando na velha casa em que nasceu". Casemiro de Abreu escreveu a Canção do Exílio, exaltando as palmeiras onde canta o sabiá e eu canto os ipês e as escolas, como escreveu nosso poeta lavrense, Jorge Duarte.  Olavo Bilac e Guilherme de Almeida falaram da Pátria e do coração que é verdadeiro, puro, belo e não muda nunca, embora “tudo muda, tudo passa nesse mundo de ilusão, vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão”. Assim, ser degredista é assumir uma volta ao passado da terra natal e fazer que todos saibam disso, conforme escreveu outro poeta. Afinal, só se compreende a vida mediante um retorno ao passado para melhor viver o presente. É como se restaurássemos nosso sistema operacional e assim funciona melhor. E que neste novo ano, que ora se inicia, nossas esperanças sejam renovadas em todos nós. 

De nada adianta pensar que isso, a nostalgia, o amor à terra natal, a vontade de voltar, é apenas uma pseudo-doença dos dias de hoje, por conta da mobilidade à jato ou estímulos virtuais com imagens recebidas a toda hora pela internet. Não é! Tem-se notícia disso há mais 2.600 anos. Foi no século VI A.C que os judeus foram escravizados pelo rei da Babilônia. Viveram no cativeiro por cerca de 70 anos, quando então o novo rei permitiu o regresso dos escravizados à terra de Judá. Enquanto no cativeiro, imperava a nostalgia, a saudade, o choro da ausência de seus lugares e símbolos queridos que marcam para sempre seu território, seu lar, sua fortaleza moral. O compositor Verdi soube muito bem interpretar aquele sentimento do povo degredado compondo a belíssima ópera “Nabuco”. Ali canta as dores e os sonhos de regresso à pátria onde nasceram os judeus,as encostas e as colinas, onde os ares são tépidos e macios, com a doce fragrância do solo natal. Saúda as margens do rio Jordão e as torres abatidas de Sião”, escreveu Verdi.

Embora eu tenha somente 45 anos de exílio dourado, a uma distância de 1.000 km, a mesma que separava os judeus de Jerusalém à Babilônia (hoje Bagdá, no Iraque), tenho a vantagem de vencê-la em apenas uma hora, de jatinho, enquanto os judeus levavam 40 dias a pé ou em camelos para vencer a mesma distância pelos desertos da região. Mas ainda assim, o sentimento de perda, de saudade, é o mesmo e posso também dizer, plagiando Verdi, “saudades da silhueta da bela serra azul da Bocaina que emoldura a cidade e que trazia a brisa da chuva que descia a serra com seu cheiro de terra molhada, a fragrância inconfundível e inesquecível do solo natal; me lembram ainda as margens do rio Grande com suas lagoas apinhadas de curimbatãs e a bela ponte da rodovia, o velho monumento  abatido, do Cine Theatro Municipal, onde nós, as crianças saíamos chorando das matinês da Sexta Feira Santa após as cenas chocantes do filme Paixão de Cristo, mostrando a crueldade de sua crucificação e tortura com lanças e azorragues...
Ooh, minha terra querida dos tempos que não voltam mais. Oh, solo querido e gentil, perdido há tanto tempo, mas que a toda hora incomoda o nosso peito e nos faz chorar a ausência de seus símbolos e sobretudo os amigos de infância que ali deixamos. Falem, mostrem, sim, suas lindas praças, das belas e históricas igrejas, colégios, clubes, faculdades, dos bondes, tudo enfim, até mesmo dos pequenos aviões do aeroclube.  Reacendam a memória no nosso peito, Falem-nos do tempo que passou e dos amigos que ali deixamos ou até mesmo daqueles que já nos deixaram para sempre. Também eu, um dia, quero voltar, ainda que em cinzas e que elas repousem para sempre aos pés dos ipês e das escolas que florearam alimentaram a nossa alma! Voa pensamento, voa. Voa para o doce solo da terra natal, bem assim como cantado na ópera. Emocione-se, ouça e veja a encenação da ópera de Verdi em curto vídeo, cujo link vai abaixo e diga se é capaz de não se tocar, sentir o amor à terra natal.

Brasília, 05 de janeiro de 2020

Paulo das Lavras


Veja a bela e breve encenação de parte da ópera Nabuco, de Verdi: https://www.youtube.com/watch?v=FJ8JRD4xVmQ


A terra natal é o refugio da alma para aqueles dela vivem distantes.
Lavras nos anos de 1940/50. Igreja Matriz de Santana, vendo-se ao fundo da foto
O telhado alto da Escola Firmino Costa, onde estudou o menino
Foto: acervo de Renato Libeck



Cidade de Lavras, mais recente, emoldurada pela belíssima serra da Bocaina
Foto: acervo de Renato Libeck


A grande chácara onde morou o menino. Rua Progresso, hoje Vila Cruzeiro do Sul.
A belíssima vista para a serra azul da Bocaina, ficou marcada para sempre na alma do menino



A bonita ponte da BR 381, sobre o Rio Grande, inaugurada em 1959. As vazantes do rio enchiam as pequenas lagoas  nas margens com grande cardumes de curimbas e douradas.
Foto: acervo de Renato Libeck- 1960


Cine Theatro Municipal, demolido nos anos de 1960. Ali as crianças assistiam às sessões de matinês aos domingos. Nos filmes da Paixão de Cristo, durante a Semana Santa, era comum sirem chorando por causa das forte cenas da crucificação.
Foto: acervo de Renato Libeck



A principal praça da cidade, Dr Augusto Silva, ou simplesmente “jardim” e
o antigo  bonde, que rodou até o ano de 1967
Foto: acervo de Renato Libeck



A mesma praça com as imponentes e majestosas Palmeira Imperiais, que contornam
 a Escola Carlota Kemnper, vinculada ao Instituro Presbiteriano, que chegou à cidade em 1893
Foto: acervo de Renato Libeck


No coração da cidade, a igreja do Rosário, inaugurada em 1754. A seu lado o sobrado
do Capitão Evaristo Alves e mais adiante o Castelinho.
Foto: acervo de Renato Libeck


Sobrado da esquina, Colégio Aparecida, onde o menino cursou o ginásio e o científico
Foto: acervo de Renato Libeck


A velha Escola Superior de Agricultura de Lavras- ESAL, hoje Ufla,
que formava  os jovens no curso de agronomia.
Foto: acervo de Renato Libeck


Os pequenos aviões de treinamento eram a atração dos meninos no antigo campo de aviação.
Foto: acervo de Renato Libeck



Rodei o mundo, trabalhei bastante, no país e no exterior, mas mesmo com todos os encantos,
a saudade da terra natal nunca me deixou. Aliás, interessante, até mesmo os artistas
que passaram por Lavras ainda mantém vínculos com a cidade.
Foto do autor,  NY-1978


... é o caso da famosa cantora da Jovem Guarda, Wanderléa. Voltou à Lavras,
 onde viveu  dos 4 aos 11 anos, como mostra a foto na rua Dr Gammon,
 visitando a antiga casa onde morou.
Foto: acervo de Renato Libeck



Não só Wanderléa, como também os amigos dos tempos de colégio, Nilson Naves,
Ministro do STJ;  José Márcio de Carvalho, também do MEC (penultimo da direita) e
 Salvador de Miranda (residente em BH), estão sempre a visitar  Lavras, a cidade natal.
Foto do autor- Brasília, solenidade no STJ



Não tem jeito, o poeta Mario Quintana acertou em cheio: "a gente continua morando na velha casa em que nasceu". Levei para Brasília o carro de boi que pertenceu à família, em Lavras e o Jeep, comprado do Exército, de S.J. Del Rei, como a relembrar a vida na fazenda.
Foto do autor 



Ah... o calor humano dos mineiros de Lavras... Saudade das gostosas comidas da cozinheira “do Carmo”, na casa da Ponte de dona Edna, às margens do rio Capivari em Itumirim. Saudades de ser recebido na cozinha, pois além do calor humano e da prosa. o calor do fogão a lenha também nos aquece.
Minas é Minas e  mineiro... não tem igual!

Foto do autor - Itumirim, MG, 2017 




terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Lavando a alma, farta colheita


             
Minhas visitas à terra natal têm rendido boas colheitas. As sementes que ali semeei germinaram e frutificaram, pois caíram em boa terra. Como dito na Bíblia, tendo sido boa a semeadura, a colheita será boa (Mt 13-3). Realmente foi e tem sido assim na terra das Lavras do Funil, desde o ano de 1750, quando meu penta-avô, Manoel da Costa Vale, imigrante português, ali chegou e criou sua prole que se multiplicou com diferentes sobrenomes: Costa (de Firmino Costa), Pádua (de Misseno, Saturnino e João Oscar de Pádua) e Sales (de Francisco Sales) . Ali, na terra dos ipês e das escolas a seara foi mais que fértil, reproduzindo matrizes que se multiplicaram dezenas, centenas e milhares de vezes. Seus filhos e alunos de toda parte receberam os ensinamentos da semente- mãe, os mestres. Alguns desses alunos seguiram a trilha dos mestres, tornando-se também professores e assim a semeadura se multiplicou exponencialmente. Foi assim com o menino das Lavras, pois exemplos e incentivos não lhe faltaram para a carreira do magistério e, agora, voltando à cidade ainda que por curto período de visita, revisitando esse passado cheio de ensinamentos, colhemos os frutos então semeados e pudemos voltar para casa com a alma confortada, transbordando, renovada pela força do amor e do carinho ali recebidos.

            Mesmo depois de muito tempo ausente da cidade, por quase 50 anos, revisitando-a, andando pelas ruas e restaurantes, reencontramos velhos amigos que nos surpreendiam, lembrando-nos com imensa alegria, com largo e amoroso sorriso, fatos que nós mesmos sequer nos lembrávamos. Convidavam-nos a adentrar sua casa, ir direto para a cozinha, com cheiro de cafezinho e pão de queijo. A tradição mineira de bem receber vem desde os tempos dos desbravamentos desse imenso e rico território. Não fossemos colonizados pelos portugueses teríamos sido bem diferentes, com outros costumes na arte de bem receber. O modelo de exploração de territórios desconhecidos, como era o nosso caso, ainda nos séculos XVII e XVIII, foi muito diferente entre os colonizadores espanhóis e lusos. Os primeiros valorizavam as cidades. Começavam a explorar o território construindo uma cidade e partir dela faziam pequenas incursões. Os portugueses, ao contrário, partiam para longas jornadas às quais chamavam de Entradas e Bandeiras. Iniciavam a caminhada pela manhã, logo ao raiar do sol e paravam ao meio dia, montando o acampamento para seu descanso e da tropa de burros de carga. Em cada lugar que paravam a cada três a seis léguas ou um pouco mais, deixavam uma pequena plantação de milho e mandioca, pois houve época em que os reis de Portugal baixaram determinação nesse sentido, obrigando os bandeirantes e tropeiros a deixarem plantios para sustento dos próximos viajantes. Foi assim em Minas, especialmente nas regiões auríferas. É só dar uma olhadinha nos mapas de hoje e notar que as cidades, ainda hoje pequenas, não distam mais que 15 ou 20 km entre si. Estas eram as distâncias das caminhadas diárias pelas tropas com suas cargas, por entre córregos, rios e montanhas.

            A tradição de mais de 300 anos dos bandeirantes e tropeiros dos tempos do Brasil colônia, especialmente nas “Minas Geraes”, de encontrar um acampamento para pouso e comida, de graça, e quase sempre novos moradores que os acolhiam, influenciou a maneira de ser da nossa gente. Receber um visitante era motivo de alegria, que quebrava a monotonia e o isolamento do povoado distante do litoral, onde as vilas eram mais numerosas. Assim, no acolhimento do viajante, a comida era mais que bem vinda, além da prosa, notícias da corte e as novidades comerciais trazidas pelos mascates para o hostil sertão. Ainda guardo na memória as lembranças do final dos anos de 1940 e início dos 50, quando era comum os viajantes, à cavalo, pararem em nossa fazenda e pedir “um pouso”. Havia um anexo a casa, chamado de quarto de visitas, próprio para esses casos. Era isolado da casa grande, sem nenhum risco para os moradores. Naqueles tempos ainda era comum os viajantes, a cavalo, andarem armados para sua própria defesa pessoal nos isolados caminhos. Eles próprios entregavam ao fazendeiro suas armas e as recebiam de volta quando partiam. Ao visitante era oferecido o jantar e café da manhã. Seus animais eram desarreados e colocados no pastinho com água corrente, logo ao lado, não sem antes receberem algumas espigas de milho.  Nunca era cobrado nada pelos préstimos. Sempre foi cortesia dos fazendeiros e o faziam com orgulho e satisfação.  Os meninos curiosos gostavam de se aproximar dos viajantes e na despedida sempre ganhavam um mimo, sob o olhar dos pais. Assim é a tradição no sul de Minas, de origem exclusivamente portuguesa, receber bem, de preferencia na cozinha com cafezinho moca e gostosas quitandas (quitandas são os confeitos artesanais, broas, pamonhas, biscoitos de polvilho, pães de queijo, etc. Ao contrário, em Belo Horizonte e outras partes do Brasil, “quitanda” é um pequeno comercio de frutas, verduras e alimentos).

            Ainda hoje perdura em Lavras essa tradição de bem receber e, como a nos confirmar a sabedoria bíblica, que nos ensina que se semearmos a boa semente em férteis terras, a colheita será sempre farta. Sou grato a Deus por ter-me concedido tantas oportunidades de semear a boa semente, nessa terra que me viu nascer, educou-me para a vida e certamente, um dia, acolherá minhas cinzas, embora habite há bastante tempo em outro distante lugar.

            Com esse longo preâmbulo, que por si já se constituiria uma crônica, vamos falar de três recentes “colheitas” que encheram nossa alma de alegria e satisfação, quando de nossas andanças pela terra natal. A primeira, de um colega, professor de Solos, da UFLA, Geraldo de Aquino Guedes e sua esposa, Gracinha Guedes, que nos abordaram em um restaurante com largo sorriso e fortes abraços. Relembraram-nos um fato ocorrido em 1979 quando a mudança do casal para os E.UA ainda era apenas um projeto. Surpreso, pois sequer nos lembrávamos do fato, ouvimos seus relatos contando a saga que enfrentaram para concretizar o sonho de cursar doutorado em Solos, nos E.UA. Ele, segundo disse, ainda não tinha contrato com a Esal/ Ufla e por isso, precisava de um contrato como professor e bolsa de estudos para ser aceito em definitivo na pós-graduação da Universidade da Flórida/EUA. Viajou ao MEC, relatou-nos seu projeto e diante da exibição da carta de pré-aceitação no curso de doutorado na área de solos, na Universidade da Flórida, em Gainesville, aprovamos seu pleito e comunicamos ao então diretor, Jair Vieira, para preparar o contrato e sua liberação para a viagem ao exterior. Em vinte dias apenas, desde o nosso encontro em Brasília, disse ele, pode seguir viagem com sua família.  Concluiu o mestrado e o doutorado em 1982 e desde então integrou o Departamento de Solos da ESAL, onde foi dos primeiros a atuar na implantação de cursos de pós-graduação, sob a coordenação do emérito Prof. Alfredo Scheid Lopes. Durante a estada no exterior, sua esposa Gracinha aproveitou para também obter o mestrado em Educação, na Florida State University e quando retornou a Lavras fundou a Escola Fisk de ensino do idioma inglês. Encontrar o casal depois tantos anos e saber do sucesso e obras que deixaram em Lavras, e ainda receber o carinho de ambos e seus familiares foi um bálsamo para alma. A boa semente produziu frutos. Parabéns ao casal e toda família que, aliás, segue sua obra na Escola Fisk.

            O segundo encontro, ao lado do historiador e repórter fotográfico, Renato Libeck, foi com a amiga Heloisa da Costa Rolim, que veio ao nosso encontro e foi logo dizendo ao Renato que precisava me agradecer. Sem que me lembrasse de qualquer ato que merecesse a atenção, fui logo indagando de que se tratava. Relatou que seu filho havia se formado em engenharia mecânica, foi aprovado no mestrado na UNIFEI-Itajubá, mas não mais existiam bolsas disponíveis naquela universidade. Por telefone ela nos contatou e assim, por meio de nossa diretoria, no MEC, conseguimos que uma bolsa extra fosse consignada à universidade e ele pôde ser aceito no curso de mestrado. Concluiu o curso e hoje é especialista auditor e consultor em sua área profissional, arrematou com orgulho mais que justo. Renato e eu a cumprimentamos e desejamos sorte para o filho. Mais uma vez a alma se regozijou com a boa semente plantada e que deu frutos.  

            Assim foi o caminhar pelas ruas de Lavras, a Terra dos Ipês e das Escolas, lugar fértil para a educação e a cultura. Outro evento marcante nessa última estada foi a visita à universidade, a UFLA. Convidado pelo Departamento de Engenharia - DEG, onde atuamos até o ano de 1975, quando fui cedido para prestar serviços no MEC em Brasília, lá comparecemos para proferir palestra aos coordenadores dos diversos cursos de engenharia ali ministrados. Anfitrionado pelo coordenador do setor de Áreas Básicas de Ingresso, ABI, Prof. Carlos Eduardo Volpato, pudemos rememorar a saga daquele Departamento. Da sua criação em 1966, entrando logo em seguida na construção do novo campus inaugurado em 1970, à criação dos cursos de Engenharia Agrícola, logo em 1975, a passagem pelo Programa de Desenvolvimento de Ciências Agrárias do MEC- PRODECA que desencadeou verdadeira aceleração na expansão do Departamento. Logo em seguida surgiram os programas de pós-graduação e mais tarde a criação de diferentes cursos de engenharia, sob o patrocínio de outro programa do Ministério da Educação, o REUNI – Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, também sob nossa coordenação até o ano de 2008. Destacamos o vertiginoso desenvolvimento do DEG, com inúmeros prédios, amplos laboratórios de ultima geração, alunado sempre crescente, tanto na graduação como na pós-graduação, como também o elevado índice de qualificação e dedicação de seus professores. Também relembramos a criação do DEG, seguindo-se a construção do novo campus, começando pela abertura da avenida que liga o Campus Histórico ao novo, o atual campus, a criação do curso de engenharia agrícola (o terceiro do país), a introdução da Aviação Agrícola, os novos cursos e a adoção do currículo básico comum (ABI), destacando-se a intensa e cooperativa dedicação dos professores. Rememorar o embate que enfrentamos em 1974 no MEC, como representante da velha ESAL e ainda na qualidade de pró-reitor de pós-graduação, para conseguir autorização para a criação de cursos de graduação de engenharia agrícola e posteriormente outros de pós-graduação, não foi tarefa fácil. Enfrentamos a oposição de uma escola congênere que colocou em dúvida a capacidade da pequena ESAL. Porém, aquela escola não contava que a Diretoria de Ensino Agrícola Superior, sob nossa direção no MEC, viesse responder com relatório de desempenho das Instituições Federais de Ensino Superior, contrariando as afirmações daquela que dominava o então incipiente ensino de pós-graduação de ciências agrárias. A ESAL de então, hoje Ufla, ostentava o primeiro lugar no ranking nacional da área com quase 80% de seus professores titulados com mestrado e doutorado, quando a média nacional beirava apenas 30%, menos da metade do elevado desempenho da ESAL. Ponto final na querela daqueles que dominavam o mercado e ao que tudo indica, queriam, à época, exclusividade na oferta de cursos de pós-graduação na área agrícola. Mais uma vez a dedicação e a competência de nossos professores sobressaíram nos relatórios do MEC, tal qual ainda hoje nos rankings da Capes/MEC. Dedicação e qualificação são as marcas registradas da Ufla, desde os tempos da velha Esal. E tudo começou com o ousado Plano Diretor, de 1969, elaborado e executado por Alysson Paulinelli, um dos maiores dirigentes de todos os tempos da velha Esal/Ufla.

            Encheu-nos de alegria retornar ao campus da Ufla. Foi muito prazeroso rever o antigo DEG, as avenidas e prédios que, literalmente, construímos no período de 1967 a 75 e depois apoiamos, até o ano de 2008, quando ainda dirigíamos no MEC a expansão física e acadêmica das universidades federais. Melhor ainda, foi constatar e sentir o quanto o espírito acadêmico ali prevalece. A dedicação e qualificação de seus docentes são notórias e todos os relatórios oficiais da educação superior no Brasil e no exterior apontam isso. Não bastasse tudo isso a engrandecer-nos, o Prof. Volpato ainda relembrou nossa participação na reestruturação das engenharias, começando pela Engenharia em Ciclos que implantamos na Universidade do ABC, ainda em 2006/2008. Na Ufla, participamos, a partir de 2012, do grupo de trabalho misto, UFLA/UFABC/Unicamp, para a reestruturação dos cursos de engenharia com tronco comum na Ufla, originando-se o sistema ABI (áreas básicas de ingresso), atualmente em vigor e com pleno sucesso acadêmico. Assim, receber os diplomas de honra ao mérito por ocasião dos 50 anos de aniversário de criação do DEG e ainda pelos 40 anos do início da pós-graduação e do primeiro mestrado, de Fitotecnia, foi uma grande honraria, ímpar na vida de professor e gestor da Educação Superior.

Visitar Lavras é sempre motivo de orgulho. Mais que isso, é se fartar na colheita, encher a alma, lavando-a com o carinho e amor dos lavrenses, pois diz o ditado que a gente só oferece aquilo que tem e os lavrenses têm muito amor no coração e sabem receber os amigos, como manda a tradição de 300 anos. Sou grato a Deus por ter tido a oportunidade de retribuir um pouquinho daquilo que sempre recebi da Terra dos Ipês e das Escolas. Os poetas têm razão quando dizem: “Quando eu tiver asas e puder voar, voltarei a minha terra natal e todos aqueles que sempre chamei de amigo serão amigos... serão meus irmãos”. Ser degredista é assumir uma volta ao passado da terra natal e fazer que todos saibam disso, disse outro poeta. Afinal, só se compreende a vida mediante um retorno ao passado para melhor viver o presente. É como se restaurássemos nosso sistema operacional e assim funciona melhor.

Ah... ainda tem muitos outros encontros para contar, como a recente visita a outra casa de ensino muito especial, o UNI-LAVRAS. Mas, este e outros ficam para a próxima vez. Sim, com o é bom pisar o solo natal. A alma agradece especialmente aos que aqui foram citados, cidadãos que muito contribuíram para o desenvolvimento da comunidade e nos enchem de orgulho.
Que o Ano Novo continue assim, como os anteriores e este que se finda, generoso para aqueles que têm a boa semente no coração e continuam a semeá-la.

Brasília, 31 de dezembro de 2019

Paulo das Lavras


Lavras – 300 anos de História. Os portugueses aqui chegaram por volta de 1720. Trinta anos depois nosso pentavô, Manoel da Costa Vale aqui aportou, dando origem às famílias Costa, Pádua e Sales. Quatro anos após sua chegada inaugurou-se a antiga Igreja Matriz do Arraial de Santana das Lavas do Funil, hoje Igreja do Rosário, plantada na praça central da cidade
Foto: acervo de Renato Libeck 



Prof. Geraldo Guedes e esposa, Gracinha, comemorando os 40 anos de chegada à Gainesville-Flórida. Nascidos na Zona da Mata mineira se radicaram em Lavras há mais de 40 anos, onde ambos se dedicaram ao bem servir à comunidade na área do ensino e criando sua família.  O espírito mineiro, de origem portuguesa, de bem receber os amigos e trabalhar em prol a comunidade encontrou terra fértil em Lavras e hoje se orgulham de suas escolhas e desfrutam do que aqui plantaram.
Foto: acervo de Geraldo Guedes - 2018



Heloisa Costa Rolim e os filhos, Luciano e Ana Flavia, engenheiro mecânico em Minas e ela arquiteta de restauros de patrimônio históricos em São Paulo. Filhos de Lavras que engrandecem a terra.
Foto: acervo Helô Costa- 2019


Prof Carlos Eduardo Volpato, chefe do Departamento de Engenharia
da Ufla, juntamente com a Vice- reitora, Édila Von Pinho, na entrega de homenagem
 pelos 50 anos de criaçãodo Departamento.
Foto- Ascom/Ufla, dezembro 2015



Prof. Alysson Paolinelli, em inauguração do Campestre Clube/Lavras.
Responsável pela federalização e expansão da ESAL, mais tarde transformada
em Universidade Federal.  Grande benfeitor, semente boa que geminou
e frutificou na Terra dos Ipês e das Escolas.
Foto- acervo de Renato Libeck


Celebrando os 50 anos do Departamento de Engenharia, com
Carlos Volpato/Chefe do Departamento e o fundador,
Alysson Paolinelli
Foto: acervo do autor - dezembro de 2015



Os programas especiais de melhoria e expansão da educação superior,
 que administramos no MEC, proporcionaram inúmeras contratações e treinamento de docentes na velha Esal/UFLA. Encontrar-se, na celebração dos 40 anos do mestrado de Fitotecnia, com três ex-alunos que mais tarde se tornaram professores, Maria das Graças Carvalho, Milton Moreira de Carvalho e Pedro Milanêz, e deles receber o carinho, foi um bálsamo para alma..., farta colheita, boas sementes, até porque a professora da foto se tornou especialista em qualidade de Sementes para a agricultura.
Foto: acervo do autor - novembro de 2015


Andar pelo Campus da Ufla é apreciar os frutos da boa semeadura. Aí está, defronte ao Departamento de Engenharia, o avião agrícola Ipanema, fruto da cooperação da ESAL com o MEC, quando a introduzimos no seleto grupo do ensino da Aviação Agrícola, em convênio com o MEC, EMBRAER e M.Agricultura. .
Foto: acervo do autor - 2015


Nas andanças pela cidade natal, também fotografamos ruas e monumentos como a Igreja Matriz de Santana. Prazer renovado, rever os locais por onde passamos a infância e juventude.
Foto: acervo do autor - 2019



A mesma Igreja do Rosário, de quase 300 anos e que funcionou como
igreja matriz de Lavras até o inicio do século 20.
Foto: acervo do autor - 2019


Mesmo em outras  andanças pelo Brasil, proferindo palestras sobre planejamento e
avaliação da educação superior, às vezes somos surpreendidos com inusitados reencontros.
 Alysson Paolinelli e Eudes de Souza Leão, dois grandes benfeitores da Esal/Ufla, no Congresso Brasileiro de Educação Agrícola Superior, em Recife. O Prof. Eudes foi quem evitou o fechamento da Esal em 1963, contrariando ordens do então ministro da Educação.
Foto: acervo do autor – Recife, outubro 2007