sábado, 30 de abril de 2016

A travessia do Rio Grande: deu com os burros n´água...

     (crônica com 3.855 visualizações em 12/07/2023 - blogger)

Samuel Gammon, fundador do Instituto Gammon, célula mater da Faculdade Gammon de Administração-FAGAM e da Universidade Federal de Lavras- UFLA, atravessou o Rio Grande, de balsa, várias vezes. A primeira foi em março de 1892, quando veio inspecionar a cidade de Lavras para onde desejava transferir o Colégio Internacional de Campinas. A cidade paulista estava sendo devastada pela febre amarela que ceifou muitas vidas entre 1889 e 1899, reduzindo sua população a apenas um terço. Chegou-se a registrar até cinquenta mortes num único dia. Vinte mil ali morreram, atacados pela maldita febre, incluindo dois dedicados companheiros do Reverendo Gammon, os missionários Dabney e Edward Lane. Este, seu grande amigo e incentivador a vir como missionário para o Brasil, quando ainda cursava o Union Theological Seminary, de Farmville-VA. Dr Lane faleceu vitimado pela febre, em Campinas, no dia 26 de março de 1892, e seu amigo Sam recebeu a noticia, via telegrama, no mesmo dia. Diante da dor da perda do amigo que lhe incentivara a vir para o Brasil e também à Lavras, o Rev. Gammon contemplando à sua frente a majestosa Serra da Bocaina que emoldura a cidade, lembrando-lhe a não menos majestosa cordilheira dos Alleghenies, onde passara a infância na fazenda cuidando dos animais desde cedo, tomou a célebre decisão que iria mudar o destino e a sorte de Lavras para sempre: “: “Eis aqui a Terra Prometida pelo Senhor, onde pregarei a sua palavra. Será aqui, nesta cidade, a nova sede do Colégio Internacional, que deixará Campinas o mais rápido possível”. Havia que se apressar a mudança do colégio, pois seria impossível mantê-lo sob ataque da devastadora peste da febre amarela. Embora o acesso à cidade de Lavras não contasse ainda com a ponte metálica sobre o Rio Grande e tampouco a ferrovia, a decisão do Rev. Gammon se baseou nos planos da companhia ferroviária de estender os trilhos até a cidade. Havia a balsa que fazia a travessia ligando-a ao distrito de Ribeirão Vermelho como único meio de transporte até então. Mas ele sabia que Lavras se tornaria importante centro regional e ali teve excelente acolhida pela comunidade. Certamente essas características, aliadas à semelhança do espinhaço da Bocaina com sua terra natal, em Rural Retreat, na Virgínia, foram fatores preponderantes na escolha da nova sede do Colégio Internacional. Lavras foi, sem dúvida, a “Terra Prometida” que ele sonhou aos pés das montanhas Alleghenies, pois até mesmo a serra da Bocaina estava ali, imponente, a lembrar-lhe os sonhos e ideais do jovem missionário. 


Mas, os rios sempre estão presentes no processo de exploração e ocupação de novos territórios. Se por um lado são fontes de água e alimentos de pronto uso, com seus pescados e caças nas matas ao seu redor, também representam obstáculos e dificuldades na sua transposição pelas populações ribeirinhas. Não foi diferente em Lavras com o Rio Grande, de largura de 100 metros ou mais em determinados trechos a partir de Ribeirão Vermelho. Esta cidade, que no passado foi distrito de Lavras, era o centro regional de operações da Cia Estrada de Ferro Oeste de Minas - EFOM. Sua estação ferroviária foi inaugurada em 14 de abril de 1888 e a grande ponte metálica sobre o rio, em novembro de 1892. A ligação ferroviária à Lavras demorou um pouco mais, pois foi inaugurada em solenidade especial com a chegada do trem de ferro somente em 14 de abril de 1894.  Foi notável a importância daquela estação ferroviária do Porto Alegre, assim conhecida a partir do ano de 1880, início da navegação do Rio Grande. Em 26 de novembro de 1889 passou a ser chamada de Estação de Ribeirão Vermelho. Ali era o ponto de entroncamento das bitolas estreita (0,76 m) e larga (1,00 m) da ferrovia entre Barra Mansa-RJ e Catalão-GO. Acrescente-se ainda, à importância da estação ferroviária, a existência do porto fluvial situado estrategicamente ao seu lado e inaugurado em 1880, antes mesmo da ferrovia (1888). A navegação do Rio Grande contava com o mais moderno tipo de embarcação, os barcos a vapor, iguais às do rio Mississipi nos EUA, aliás, lá fabricados e importados pelos diretores da Cia de Navegação, Francisco Alves de Azevedo, José Jorge da Silva Penna e o Capitão Evaristo Alves de Azevedo, avô do famoso escritor Rubem Alves e dono do mais belo sobrado que ficava situado na praça central de Lavras.


Os barcos a vapor percorriam uma rota de 208 km a partir de Ribeirão Vermelho, chegando até o porto de Capetinga, próximo a Capitólio. Transportavam mercadorias, viajantes e seus animais de carga que demandavam as duas cidades vizinhas, separadas por nove quilômetros, Lavras e Ribeirão Vermelho. E como chegar a Lavras, antes daquela grande ponte rodoferroviária de 1892? A travessia do rio era feita por meio de barcas, ou balsas, presas por cabos de uma margem à outra, tal qual ainda existia entre Lavras e Macaia até os anos 1980. O porto fluvial com seus vapores, únicos até então no país e o entroncamento ferroviário ligando os quatro cantos do país, foram motivos de atração para um grande número de imigrantes de toda parte, inclusive de outros países, como Portugal, Itália, Espanha e Líbano. Foram essas, algumas das razões que o Reverendo Sam Gammon declarou em seu relatório, justificando a escolha de Lavras para sediar o colégio. Naquele mês de março de 1892, ele e seu colega de viagem, o Reverendo Chamberlain, atravessaram o caudaloso rio em uma barca ancorada no antigo Porto Alegre. A mudança definitiva do Colégio de Campinas para Lavras chegou em novembro de 1892. Da Estação de Ribeirão Vermelho, os missionários rumaram a cavalo para Lavras e a mudança, composta de móveis, livros e demais utensílios, além dos bens domésticos, seguiu em carros de boi pelos 9 km de caminhos margeando o córrego conhecido por ribeirão vermelho.


Como se pode depreender, o tráfego era intenso e a barca de travessia, ou balsa como era conhecida, se constituía no único meio de transporte de cargas, viajantes e seus animais daquela região. Mais sorte tiveram os habitantes da região do Funil do Rio Grande, onde a ponte metálica, conhecida por Ponte do Funil, foi construída pelos ingleses em 1869, bem antes daquela da ferrovia, em Ribeirão Vermelho. Um pouco mais acima dessa ponte havia outra balsa que fazia a travessia de Lavras para Macaia, onde foi inaugurada outra ponte de concreto já nos anos de 1980.  Um pouco antes de sua desativação, atravessei o rio naquela precária balsa, presa por um cabo de aço a ambas as margens do rio. Chegava a ser amedrontadora a correnteza do caudaloso e largo rio, até atingir a margem oposta, no vilarejo de Macaia. As mercadorias e viajantes transitavam por entre as regiões de ambos os lados do volumoso rio que entrecorta as montanhas e delas recebe seus córregos tributários. Por esses córregos se desenvolviam as explorações do ouro de aluvião e quando se esgotaram essas fontes de riqueza surgiram as fazendas com suas atividades agropastoris. E muitos eram os pontos de travessia. Abaixo de Ribeirão Vermelho, do lado direito do rio, um pouco mais distante da margem estava o arraial de Bom Jesus dos Perdões que mantinha intenso intercâmbio com as fazendas de Lavras, do outro lado do rio. O ponto de travessia daquela região, mais abaixo do antigo Porto Alegre, se localizava nas proximidades da atual ponte da rodovia Fernão Dias, a BR 381. Ali existia outra barca, semelhante à do Porto Alegre e que atendia, pela margem esquerda a população de extensa região, abrangendo as fazendas Três Barras, Criminoso e adjacências, especialmente a da Fábrica de Tecidos, a Cia de Fiação e Tecidos União Lavrense, conhecida por Fábrica Velha. Pela margem direita atendia principalmente à fazenda Bela Vista, cujos proprietários, João de Pádua e filhos residiam em Lavras. Essa zona rural de Lavras e Perdões foi a mais desenvolvida da região. A fábrica de tecidos, inaugurada em 1890, construiu o Porto de Dr Jorge, na margem esquerda do rio, distando cerca de 12 km de Ribeirão Vermelho, onde se situava a ponte mais próxima. Portanto, era imprescindível que ali existisse um serviço de balsa para travessia do rio  Os fazendeiros mantiveram o serviço de travessia na barca até a inauguração da grande ponte da rodovia, em 1959. Interessante notar que todos os moradores da região, das fazendas Três Barras, Rio Grande, Barro Preto, Cervo, Jacuba, Criminoso, Boa Vista, Grotão, Fabrica Velha e adjacências, eram originários de Ribeirão Vermelho. Ali se concentravam os descendentes das famílias Salles e Pádua, primos de primeiro grau, descendentes de Antônio Pádua da Silva Leite (1769-1849), filho do patriarca Manoel da Costa Vale (1704-1783), que imigrou de Portugal para o Brasil em 1720 e chegou a Lavras em 1750 e ali se estabeleceu definitivamente. Sua imensa prole, originada dos dois irmãos  Pádua e Salles, ocupou e povoou  aquela extensa zona rural de Lavras, em ambas as margens do rio (12 x 06 km). Nesse território também tiveram lugar, nas fazendas Grotão e Três Barras, os Castro/Ramalho, Pereira da Silva e Gaspar de Abreu, todos  descendentes de imigrantes portugueses também desceram o rio Grande e  entrelaçaram suas famílias  a partir do início do século 20. Deve-se lembrar que até inicio daquele século, tanto os municípios de Ribeirão Vermelho como de Perdões pertenciam à  cidade de Lavras, mais antiga e desenvolvida.


Nessa barca que, nos anos de 1930 a 1960, ficou conhecida por “Barca do Inácio” aconteceu uma história muito interessante. O fazendeiro das Três Barras, Clóvis Pereira da Silva, o Vico (1906-2007), casado com uma Salles, contava que seu irmão mais velho, João Pereira da Silva (1898-1987), sogro de Júlio Salles (1914-1998), o fundador do Supermercado Rex em Lavras, foi a Perdões visitar José Antônio Salles, seu consogro, o pai de seu genro Júlio Salles. A viagem foi realizada em seu vistoso burro de sela, de nome Diamante, castanho claro, de fina pelagem e marcha trotada, ideal para longos percursos. Na volta, ao chegar à margem direita do rio, avistou a barca ancorada do outro lado. Nela estava o Inácio, tirando uma soneca em pleno meio dia de sol a pino. Nhô, esse era o apelido de João, gritou, gritou, esgoelou e ficou rouco de tanto chamar pelo barqueiro Inácio. Nada de atender aos chamados ao vivo. O sono estava profundo, embalado pelas suaves marolas do caudaloso rio. Lá pelas tantas o barqueiro acordou e o Nhô pôs-se a berrar novamente, gritando a plenos pulmões. Dessa vez Inácio ouviu, ou viu o potencial passageiro, montado em seu vistoso animal de grande porte. Desamarrou a barcaça e tocou para a outra margem para buscar o passageiro e sua montaria. Dinheiro à vista..., mas, antes mesmo de atingir a margem, o já impaciente e irritado, Nhô, chamou o barqueiro de dorminhoco e outros qualificativos em razão da demora de quase duas horas de espera sob sol escaldante. Inácio não gostou. Bocejando e depois de ter feito grande esforço para acertar a proa da barca e vencer os 100 metros de largura do rio de águas profundas e forte correnteza, revidou com outros impropérios. Enfezado, atracou a barca, embicou-a na rampa de qualquer jeito e o Nhô esporeou sua montaria, burro bem esperto que partiu trotando rampa abaixo em direção à barca. Esta era protegida por cercas de taboas nas laterais e porteirinhas nas extremidades, por onde entravam ou saíam os passageiros e seus animais. Ora, o barqueiro Inácio, ainda meio sonolento, ao entrar na barca esqueceu-se de trancar a porteira da extremidade. Era o que faltava para a tragédia no momento do embarque. Ao esporear o animal, o burro desembestou rampa abaixo, entrou a meio galope na barca. Nhô arregalou os olhos, soltou outro impropério contra o barqueiro, também assustado ao ver o iminente desastre. Não deu tempo para mais nada e lá se foi o burro com seu cavaleiro passando direto pela porteirinha aberta e.... tchibum... nas profundezas do rio. Inácio, paralisado pelo torpor ainda gritou:

“ Nossa Senhora dos Navegantes... Socorro! Salva esse homem turrão e seu burrão, não deixe eles morrerem, não, pelo amor de Deus”.

Inácio, o velho e conhecido barqueiro, devoto de N.S. dos Navegantes, como manda a tradição portuguesa, assim contava a meu pai, o Vico, seu velho freguês naquelas travessias, que só se lembrava que a última coisa que viu, quando o Nhô e seu burro foram tragados pelas águas turvas do rio, foi o chapéu de palha que logo ficou boiando e levado pela correnteza. De repente, alguns metros mais adiante, apareceu a cabeça do burro e, em fração de segundos, a careca do Nhô, golfando água e se equilibrando nos arreios. Os dois sacos de compras especiais, ajojados na garupa do burro, por cima da albardana (sim, “ajojados”, assim dizia meu pai. Albardana era uma espécie de mochila de lona, com várias presilhas de couro afiveladas na parte traseira do arreio, ficando sobre a garupa do cavalo. Servia para guardar a pesada e impermeável capa de chuva da marca Ideal), se desprenderam do arreio, boiavam na correnteza, tingindo a água de branco. Tragédia..., mas, Nhô atracou-se no pescoço do animal e sequer caiu do cavalo, ou melhor do burro, que se revelou exímio nadador e conseguiu chegar à outra margem, ainda que quase um quilômetro rio abaixo, por causa da correnteza. Inácio esqueceu-se logo da tragédia, soltou as amarras da barca e tocou para o outro lado. Chegaram juntos, o barqueiro e o pretenso passageiro que caíra na água e se salvara. Porém, o mais surpreendente, acredite se quiser, foi que Inácio, o barqueiro, cobrou o frete de Nhô, um mil reis, alegando que fizera a viagem solicitada aos gritos pelo passageiro. Nhô esbravejou, respondeu que não pagaria, pois atravessou o rio a nado com seu valente burro, por culpa do barqueiro que deixara a cancela aberta e mais, que ele, Inácio, lhe pagasse os 20 quilos de farinha de trigo e de polvilho que a sua mãe encomendara e foram perdidos na correnteza do rio. Meu pai, o Vico, não soube explicar quem pagou a quem. Muito provavelmente ninguém pagou a ninguém. O certo é que o tio Nhô jurou nunca mais passar naquela barca e só voltou a Perdões muitos anos depois, em 1959, a bordo de lustroso e reluzente caminhãozinho Chevrolet-51, de seu genro, Júlio Salles. Mas, dessa vez, passou por sobre a nova ponte do Rio Grande, da recém-concluída rodovia Fernão Dias. 

 Contava meu pai, o Vico, irmão da vítima, que ao passar pela ponte, depois de longo tempo evitar o caminho por conta do acontecido, maravilhou-se com a beleza e a grande extensão da ponte e a vista, longa, das curvas do rio. Olhou para esquerda, onde ainda se encontrava a barca do Inácio e disse: “Ôh, Júlio.., hoje eu nem vou comprar farinha de trigo e “porvio” (polvilho..., era assim que se falava na roça) em Perdões..... Mas, se comprasse o porvio eu as jogaria, daqui de cima da ponte, bem na cabeça do desaforado Inácio...”. Soltou uma sonora gargalhada e assim se reconciliou com o passado de dez anos atrás, quando o barqueiro descuidado e desaforado, deixou-o cair nas águas profundas do rio e, para piorar ainda mais, quis cobrar-lhe o frete. Adeus burrico, adeus barca, viva a modernidade do caminhão do genro na enorme ponte de concreto, lisinha, bonita e com belíssima vista do rio e suas curvas. Júlio Salles teve um incontrolável ataque de riso, pois nunca ouvira de seu sogro uma única palavra sobre o desastre que virara piada em toda a região e muito menos a suposta "vingança" de jogar um saco de "porvio" na cabeça do barqueiro. As gargalhadas foram tantas que foi preciso parar o caminhão em plena ponte, quase deserta. Deitou e rolou de tanto gargalhar da inusitada história que tinha tudo para ser trágica. Não foi, mas guardava resquícios dez anos depois. Virou-se para o Nhô, que também achava graça, e disse: “Graças a Deus que o senhor se salvou. Mas, desculpe-me, meu sogro, o senhor, deu mesmo com os burros n´água...”. Burros? Sim a sua montaria, o burrão Diamante que o salvou e o outro..., o insensato que conduzia a barca.... Ficamos sem saber o que aconteceu em seguida, pois nunca ninguém teve coragem de perguntar ao primo Júlio Salles qual foi a reação do tio Nhô, seu sogro. A única certeza é que, antes, ambos riram muito, mas, também nem se comprou “porvio” naquele dia, lá pelas bandas de Perdões. Só sei que, hoje, passados muitos anos, um dos filhos de Júlio Salles, contou-me que o próprio pai também gostava de contar e gargalhar da história. Mas também não contou aos filhos sobre a possível reação diante da  piada “dos burros n´água”. Certamente não gostou, pois ninguém da família jamais ousou perguntar ao Nhô como foi que ele “deu com os burros n´água...” .


Brasília, 30 de abril de 2016

Paulo das Lavras



 
O imponente Rio Grande e a cidade de Ribeirão Vermelho. Atravessá-lo, antes
da existência da ponte ferroviária, era um desfio só vencido pelas barcas, presas por cabos
ligando as duas margens. A ponte foi inaugurada em fins de 1892.
Foto : arquivo de Renato Libeck

 
A majestosa serra da Bocaina que emoldura a cidade de Lavras, fez o Reverendo
Samuel Rhea Gammon relembrar sua terra natal, aos pés das montanhas Alleghenies,
na Virgínia- EUA.  Foto de Catarina Júlia
  

 
 O missionário Samuel Gammon(3º da esquerda para a direita, primeira fila) e seus
companheiros em Lavras, com John Wheelock, Benjamim Harris Hunnicutt,
Bernard Bartels e outros. 
Foto : ano de 1929 -arquivo de Renato Libeck



Passageira no porto de Ribeirão Vermelho aguardando embarque no Vapor Dr. Jorge. Meu
pai, Clovis Pereira da Silva, conhecido por Sr. Vico,  contador de “causos”, viajava nesse grande barco de passageiros
quando ia visitar os parentes em Ribeirão Vermelho.    
Foto : arquivo de Renato Libeck


 
Vapor Dr. Jorge ancorado no porto fluvial de Ribeirão Vermelho. A elegância dos
passageiros se destaca. O barco gastava um dia e meio para descer os 208 km até o porto de
Capetinga. Fazia escala no distrito da Fábrica de Tecidos – Fábrica Velha, no porto também
 chamado de Dr Jorge. Na subida do rio gastava três dias e meio de viagem.
Foto : arquivo de Renato Libeck


 
O sobrado do Capitão Evaristo Alves, um dos diretores e proprietário
 da Companhia de Navegação do Rio Grande
Foto : arquivo de Renato Libeck

 
A ponte do Funil, importante travessia do Rio Grande, 
inaugurada em 1869. 
Foto de  Anízio Rezende 

A velha balsa de Macaia/Ijaci, antigos distritos de Lavras, Funcionou
 até os anos 80, a poucos quilômetros  acima da ponte do Funil.
 Foto : arquivo de Renato Libeck

 
 A Fábrica de Tecidos União Lavrense, inaugurada em 1890. A seu lado
 funcionava o porto Dr Jorge, situado 12 km abaixo de Ribeirão Vermelho.
Foto : arquivo de Renato Libeck


 
Um caminhão Chevrolet 51 sobre a recém inaugurada ponte do Rio
Grande, na BR 381. Ano de 1959. Na foto, Toniquinho de Pádua e
família. Sua fazenda fazia duvisas com os demais herdeiros dos irmãos  Joao e Antonio de Pádua. O porto 
e a barca do Inácio, ficavam nas fazendas Bela Vista e Rio Grande, logo abaixo da nova  e bonita ponte.
Foto : arquivo de Renato Libeck


 
A BR 381 foi inaugurada em janeiro de 1959. Não havia quase nenhum
trânsito de automóveis. Havia um fotógrafo de plantão que explorava o
ponto de atração turística, a grande ponte sobre o Rio Grande. Na foto,
meu avô Anizio Alves de Abreu  e  filhas, com seu carrão Ford Mercury, cor vinho.
Foto de fevereiro de 1959.


 
Clovis Pereira da Silva, lúcido até os 101 anos de vida. Na foto em entrevista concedida ao Ministério da Aeronáutica, comemorando seu centenário de vida, em 2006, juntamente com a invenção do avião, em feliz coincidência que lhe granjeou a homenagem da FAB.
 Ele gargalhava ao relembrar o caso de seu irmão, João Pereira da Silva, o tio Nhô, que deu com os burros n´água. E ainda dizia: “sorte de meu irmão,  porque se estivesse montado num cavalo, e não em um burro forte e esperto, ambos teriam se afogado no caudaloso e profundo Rio Grande, pois um cavalo não teria força suficiente para atravessar a nado o largo rio com o cavaleiro montado e agarrado em seu pescoço...”

Foto - SECOMSAER





Um belo burrão bem arreado, exibido na internet, tal qual do tio Nhô
Sorte dele, pois, se fosse  um cavalo teria se afogado ao cair no caudaloso
 e profundo rio, contava seu irmão.


 
 Não é fácil se manter montado, quando o cavalo está submerso
 e se debatendo para se manter à tona. Já experimentei, na lagoa
da fazenda Jacuba, de meu pai, à margem esquerda do Rio Grande,
a quatro quilômetros de Ribeirão Vermelho


 
 Julio Salles, genro da vítima  “dos burros n´água”. Nascido em Ribeirão Vermelho, 
na Fazenda do Meio, casou-se nas Três Barras/Lavras e nessa cidade 
fundou , no ano de 1970, a rede de Supermercados Rex

Foto: acervo Família Julio Salles


 
Até os anos 60, Júlio Salles morava na fazenda Três Barras,
ao lado de seu sogro. Sua casa e o Armazém ao lado


 
Não havia quem não parasse na nova ponte para uma foto.
Verdadeira atração, que nem o próprio Nhô resistiu. Nessa foto,
 seu genro Júlio Salles, esposa e o filho Carlinho, voltando de
uma pescaria no reluzente caminhãozinho Chevrolet 51, o mesmo que levou
seu sogro para um passeio. Dali do alto avistou a barca do Inácio...rsrs

Foto: acervo Família Julio Salles



Tempos difíceis para as populações ribeirinhas quando São Pedro
decidia despejar muita água. A ponte metálica foi levada na década de 1990
 e logo em seguida reconstruída. Não encontrei registros sobre
o que acontecia, quando das enchentes nos tempos das barcas de
 travessia do rio.

Foto: arquivos de Renato Libeck 








segunda-feira, 7 de março de 2016

Mulher escrava... (2): ... hoje a gente só pinica na parede

     

Em 8 de março de 2015, no Dia Internacional da Mulher, discorremos sobre a “Mulher escrava”. Neste ano, extasiei-me com a entrevista de uma “escrava do machismo”, de 99 anos de idade. Sim, noventa e nove anos e 18 (dezoito) filhos. Agora desfruta a vida com toda a alegria, aqui no Distrito Federal, onde foi marmiteira, vendedora de comida nos canteiros de obra da cidade em construção. E ela ainda disse essa pérola, que me fez relembrar a infância: “.... hoje,  pinica na parede e tudo clareia, a luz liga e a água sai na pia... “. Dona Pifa (Epifânia), a entrevistada, ainda acrescentou:
            “Hoje é tudo beleza pura. No meu tempo, todo mundo era pobre, da roça. Tinha que pegar lenha no mato para cozinhar, carregar lata de água na cabeça. A gente socava mamona no pilão para fazer óleo para a lamparina”. E ainda disse mais à Revista do Correio (Correio Braziliense), de 06 de março corrente:
            “Quando era jovem, (lá pelos anos 30, do século passado), as mulheres nasciam cativas e assim morriam. Só podiam sair com o pai e, depois de casadas, dependiam dos maridos. Estavam proibidas de falar”. Até parece que ela leu os escritos do Padre Antônio Vieira que, em seus textos dos anos 1600 disse: “A mulher só deve sair de casa três vezes: no batismo, no casamento e no próprio enterro”. Mas a nossa dona Pifa, foi clara ao afirmar que “foi o ato de poder votar que tornou todas iguais. Hoje, as mulheres passam os homens. São bonitas, libertas, vão para onde querem. Eu me sinto bem de ser mulher, dou o maior valor, sabia?”, completou a dona Pifa, do alto de seus 99 anos e mais, se gaba por “não ter vergonha de nada e língua cada vez mais solta a cada ano que passa...” e finaliza: “... velho é o meu passado, e a juventude está na minha cabeça. Estou a cada ano mais alegre, sou muito feliz de viver no mundo civilizado”.

            Impressionante a vitalidade, a alegria e sabedoria dessa senhora que “nasceu escrava”. Escrava do preconceito machista que dominava a mulher, sua escrava, dependente. Veio o direito ao voto nas eleições, a frequência com maior assiduidade à escola e já no final dos anos 60 veio o grito de independência com a queima dos sutiãs em Paris, seguindo-se a superioridade numérica e de escolarização. Daí para a ocupação de seu espaço no mercado de trabalho, numa sociedade mais evoluída, foi um pulo. E nessa evolução social incluem-se, claro, as leis que as protegem contra a discriminação e garantem outros direitos. A Lei Maria da Penha foi um dos grandes avanços sociais em benefício da mulher que com esse arcabouço legal e muita disposição na conquista do mercado de trabalho. Para tanto, se qualificaram mais e em maior número que os homens, segundo estatísticas do MEC. E foi com essa superioridade que elas ocuparam espaço e se empoderaram. Portanto, hoje podemos afirmar que elas já ocupam o lugar que merecem. Adeus à dominação masculina. Dona Pifa sentiu na pele essa evolução e afirmou com gostosa e alegre gargalhada que elas, as mulheres... “... são bonitas, libertas, vão para onde querem...”. Pura verdade. Adeus mulher cativa, escrava. Doía-me o coração ver, ainda nos anos 60, as mulheres submetidas a esses rigores puramente discriminatórios.


Que bom que a Dona Pifa e todas as mulheres não têm mais que socar semente de mamona no pilão para fazer o óleo para alumiar a casa. E nem se subjugarem às severas ordens do pai ou subserviência ao marido. Assim como elas hoje só “pinicam” a parede e a luz acende e a água sai na pia, a máquina lava e seca a roupa automaticamente..., a sociedade também progrediu e a mulher se emancipou. Resquícios do machismo são tratados, hoje, com rigor pela justiça. E não tem homem que não conheça suas obrigações e quando as desrespeitam sabem que os juizes/juizas são severos nas penas. 

Mulher é para ser amada, admirada pelos seus dotes morais e grandeza interior, não importa a sua condição. O amor à mulher é completo, ou assim deveria ser para os homens. Pobre daquele que não tem (ou teve) o amor da mulher mãe, irmã, esposa, filhas, netas e amigas.  Sorte a minha, estou cercado por 1.471.498 mulheres, aqui no Distrito Federal, segundo projeções de dados do IBGE. Há que se ter sensibilidade! São elas que nos movem e hoje, mais ainda, inseridas no mercado de trabalho, já em escala considerável, temos mais essa categoria de mulheres, as colegas de trabalho. Elas sabem, como ninguém, humanizar os ambientes. Têm a delicadeza das flores e flores alegram a alma. Mulher é tudo na vida, as respeito e as venero, pois como disse a Dona Pifa “... são bonitas, libertas, vão para onde querem...”.  Uma benção dos ceus! Assim pensa o menino, de feliz infância passada nas Lavras do Funil e que, literalmente, sempre viveu cercado por elas e nelas viu, sentiu o valor que elas têm.
Que sejam felizes..., e assim nos fazem felizes também!

Brasília, 08 de março de 2016


Paulo das Lavras 

 
 Dona Pifa carregou muitas latas d’água na cabeça




 
colheu as sementes de mamona...
...socou-as  no pilão, para fazer o azeite...

... combustível da lamparina que alumiava


 
A guerreira Epifânia, a Dona Pifa, de 99 anos e muita alegria, em entrevista a um jornal.
Casou-se aos 17 anos. 18 filhos, muitos netos e três tataranetos. Pioneira de Brasília, onde
 vendia marmitas aos operários. Penou na “escravidão” feminina mas, disse ela: "hoje é só pinicar na parede
 e a luz se acende..."


 
Hoje a vida é muito boa, disse ela, na sua simplicidade: “hoje,  pinica na parede

e tudo clareia, a luz liga e a água sai na pia... “


Mulheres têm a delicadeza das flores e flores alegram a alma.
Mulher é para ser amada, admirada pelos seus dotes morais e
grandeza interior, não importa a sua condição.

Foto: Ufla- J. M. Faria





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Família Salles de Lavras – Um bisneto espevitado e o padre nocauteado

(2.119 visualizações até 06/09/2022, cf  estatísticas do Blogger)

Brevemente publicaremos um livro contando a história da família Salles, de Lavras. Há mais de uma centena de colaboradores espalhados pelo país e até em Portugal, reunidos em um site especialmente criado para esse fim. Muito se tem escrito sobre os Salles e a região onde viveram. O Arquivo Público Mineiro tem sido a principal fonte dessas informações, além de pesquisas diretas e publicações de historiadores como Firmino Costa, Ary Florenzano, Bi Moreira, Hugo de Oliveira e mais recentemente Geovani Nemeth Torres e Renato Libeck dos mais atuantes pesquisadores da história da região e ainda o ribeirense Marcio Salviano Vilela. Todos os autores destacam as figuras públicas mais conhecidas como Firmino Salles, Francisco Salles que foi senador e governador de Minas Gerais, e ainda Saturnino de Pádua, Costa Pereira e até mesmo o próprio Firmino Costa, os quais têm ascendência direta a Antônio de Pádua da Silva Leite (1769-1849), o avô dos Salles, dos Pádua, Costa e Costa Pereira. Mas, hoje vamos falar de uma história mais amena e recente, ocorrida a 55 anos atrás, envolvendo familiares da 6ª geração do patriarca português, Manoel da Costa Valle. Este, o patriarca, chegou à região durante a febre do ouro. Estabeleceu-se no recém-criado Arraial de Sant´Anna das Lavras do Funil, bem ali do outro lado da margem do rio, na cidade pérola do Rio Grande, Ribeirão Vermelho, distrito da freguesia de Lavras. Foi bem ali que um bisneto de Manoel da Costa Valle, Domingos Pereira de Salles (1851- 1929),  viveu toda a sua vida, na Fazenda do Meio.


Domingos Pereira Salles foi o genitor de um grande número de descendentes que se espalham por Minas, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rondônia e outros estados, além de Portugal a terra-mãe de toda essa geração. Mas, antes de falar de Domingos Salles, nosso bisavô e sua geração, é importante lembrar que o grande patriarca, imigrante português, Manoel da Costa Valle, nascido há 300 anos, chegou a Lavras em 1750. Teve como filho Antônio Pádua Silva Leite, nascido em 1769 (o sobrenome Pádua, foi uma homenagem expressa do pai ao santo nascido português e falecido em Pádua, na Itália. Era comum naquela época as pessoas incorporarem apelidos e nomes de santos ao seu próprio nome.). Na segunda geração nasceu Fortunato Antônio Salles - 1813/1877 (aí está a origem do nome Salles, os pais quiseram homenagear outro santo: São Francisco de Salles), que teve como filho, Domingos Pereira de Salles (1851-1929), constituindo assim a terceira geração de Manoel da Costa Valle. Na quarta descendência vem, entre os nove filhos, nossa avó, Lucinda Augusta de Salles (1896/1963), casada com Anísio Alves de Abreu (1895/1977).
Domingos Pereira de Salles casou-se em 06 de junho de 1874 com Lucinda Maria de Jesus (1854/1922)  e foram morar na Fazenda do Meio, de sua propriedade, à margem direita do Rio Grande, um pouco abaixo da cidade de Ribeirão Vermelho. Além da exploração agrícola e pecuária, Domingos Salles era marceneiro de mão cheia e até trabalhou para a Rede Ferroviária na fabricação de vagões. Anízio, o bisneto espevitado, herdou de nossa vó um martelinho, ferramenta que o pai, Domingos Salles usava na profissão de marceneiro. Nosso avô, Anísio Alves de Abreu, contou-lhe, ainda em vida, que amarrava o cavalo na casa de um amigo à margem esquerda do rio, depois de ter cavalgado mais de sete quilômetros, por entre serras e riachos, pegava um pequeno bote à remo e atravessava os mais de 100 metros de largura do profundo e veloz Rio Grande para namorar a donzela de apenas 17 anos com quem se casou, Lucinda Augusta Salles, a filha de Domingos, bem ali, do outro lado da margem, na Fazenda do Meio. Namorado apaixonado, corajoso enfrentava as fortes correntezas do rio numa época que não havia coletes salva-vidas. O futuro sogro, Domingos, era pessoa de semblante sério, postura respeitosa, com longas barbas, olhos verdes que inspiravam mais ternura que austeridade, disse uma neta, ainda viva e que hoje mora no Paraná.


A Fazenda do Meio, onde vivia a família Salles, contava com um porto próprio, e uma casa de morada, assoalhada, coberta de telhas, forrada, terreiro de café, moinho, monjolo, paiol coberto de telhas e água que movia o moinho, contando com mais de 80 alqueires de terras em cultura, pastos e cafezal, compreendendo um bananal à beira do Rio Grande. Tudo isso sobre a fazenda foi descrito em detalhes pelo historiador ribeirense, Marcio Salviano (VILELA. Marcio Salviano. MINHA ALDEIA – A Pérola do Rio Grande. INDI Gráfica e Editora. Lavras, 2014). Recentemente familiares visitaram a fazenda, que hoje não mais pertence aos descendentes da família Salles, e ficaram encantados com o lugar com suas antigas casas e benfeitorias mantidas intactas, além das construções mais modernas que abrigam uma pousada.


 A “Pérola do Rio Grande” recebeu, em 19/02/2016, a visita de dois bisnetos, Anízio, meu irmão, garoto espevitado e o primo Ademir. Foram conhecer a casa onde viveram os bisavós que eles próprios não conheceram. Na mesma casa moraram nossos respectivos avós, com os quais convivemos até os anos de 1960/70.  Um dia só foi tempo curto demais, mas ainda assim foi possível levantar, em cartório e na igreja, as certidões de nascimento, casamento e óbito dos ancestrais. Uma rápida visita ao túmulo dos bisavós, Domingos Pereira de Salles e Lucinda Maria de Jesus, oitenta oito anos depois da morte do primeiro. Foi um momento de muita emoção e reflexão sobre os valores da vida e sobretudo à memória daqueles ancestrais aos quais tanto devemos.  Era visível a expressão de emoção do bisneto Anízio ao ler os dizeres da lápide, com o nome e data de nascimento e falecimento da bisavó que não conhecera. Mas, nem assim deixava de merecer todas as honras de matriarca que, juntamente com seu marido que também ali jazia a seu lado. Ambos constituíram um lar digno, com produção própria na grande fazenda às margens do rio e deram início essa imensa família Salles que hoje povoa a região de Lavras e tantos outros municípios brasileiros e até em Portugal. A visita à fazenda ficou para outo dia, pois as pesquisas na sede do município se estenderam propiciando até mesmo um agradável encontro com o historiador Salviano que recebeu a ambos em sua casa e autografou seu último livro, já citado acima e que acabo de receber.


Mas, vamos aos casos vividos pelo bisneto espevitado. Retornando a Lavras, após a visita a Ribeirão Vermelho, encontrou-se com um primo, residente em Barra Mansa-RJ, que lhe apresentara uma foto bem antiga, de 1961. Bingo... era a Fazenda Barreiro, vizinha à do Meio e onde moraram duas das filhas de Domingos Pereira Salles, nossas tias-avós, Claudina Augusta Salles (Tia Dina) e Altina Augusta Salles. Anízio, era frequentador assíduo daquela casa e bateu-lhe uma doce recordação que o fez, ali mesmo na rua, correr a uma loja de serviços de digitalização eletrônica e copiar a tal foto que tantas recordações lhe traziam. Primeiramente, é preciso lembrar que ela, a tia Claudina, casada com José Eugênio Pereira, foi pessoa muito bondosa, de grande e caridoso coração e ainda acolheu sua irmã, Altina Augusta de Salles, solteira, que tinha um problema de saúde. Claudina foi casada com José Eugenio Pereira e teve dez filhos e grande número de netos, muitos dos quais são, hoje, profissionais da pesquisa e ensino agrícola por todo o país.


Anízio olhou bem aquela foto antiga e um filme rodou em sua memória. Nosso entrevistado conta que saía a cavalo da fazenda onde morava com nosso pai, Clovis Pereira da Silva (marido de Maria Alves de Abreu, sobrinha de Claudina), situada no Sítio Retiro dos Ipês, ali nas Três Barras, exatamente onde se concentrava a maioria dos Salles, Abreu, Pádua e Villas Boas, famílias entrelaçadas. Cavalgava uns 6 km até alcançar a ponte sobre o Rio Grande, na BR 381 (Fernão Dias). A uns 3 km acima, depois do posto Graal, ou mais precisamente no antigo Posto e Restaurante Cacho de Ouro, pegava a estradinha de terra à direita. Dois ou três km adiante alcançava a casa da tia Claudina. A mesma casa da foto que o primo de Barra Mansa lhe mostrara. A data da foto, 1961,  coincide com a época que ele a frequentava. Sentiu até o cheirinho gostoso do café com biscoitos e bolachas que a tia Dina lhe oferecia. Ao chegar em casa, dona Neusa, sua esposa estava esperando-o para o café da tarde. Com a foto na mão e como a sonhar, tomou aquele café com as queridas tias Dina e Altina que estavam bem presentes em sua memória. Doce recordação, 55 anos atrás, e parecia ainda presente. A alma não mente... nossos entes queridos não morrem nunca, pois vivem eternamente em nossos corações.


O menino contava apenas 13 ou 14 anos e já era negociante de gado de corte, pois foi “expulso” do colégio, onde revidou a um violento tapa que lhe desferira o padre diretor, um alemão de porte avantajado, com proeminente barriga que sobressaía sob a batina preta. O aluno-espevitado revidou com um certeiro e forte murro naquela enorme barriga do padre e saiu voando como um mosquito ligeiro pela janela da sala.  Mas o moleque era atrevido demais e mereceu levar o tapa nas orelhas. Só não sei dizer se foi o famoso “telefone”, como aqueles tapas violentos aplicados pela policia de antigamente quando queria arrancar uma confissão do malandro. Embora fosse padre, ele não queria, como faz a polícia, uma confissão, queria mesmo dar uma lição naquele irrequieto e atrevido estudante que ali estava de castigo. Havia sido expulso da sala de aula e por isso estava ali, isolado, numa pequena sala onde se guardavam os instrumentos da fanfarra. E eram muitos os instrumentos. Podia escolher o que quisesse tocar. Mas, o menino não era bobo, resolveu zoar e escolheu o mais estridente dos instrumentos que só eram utilizados nos desfiles de 7 de Setembro. O danado literalmente colocara a boca no trombone, ou melhor, numa corneta ou clarim, soltando um milhão de decibéis, estrondando, pela janela que dava para o pátio do colégio, os ouvidos de professores e centenas de alunos em salas de aula. Parecia um soldado arregimentando a tropa em combate, ou talvez, saudando a chegada do Comandante do Batalhão, tal qual ele estava acostumado a ouvir, todas as manhãs, de nossa casa situada um quilômetro antes do Quartel do 8º batalhão de Infantaria, hoje BPM, de Lavras. O colégio parou..., o que seria aquilo? O bispo ou o papa estariam chegando, ou o ET de Varginha que iria aparecer pela primeira vez em Lavras? Era muita pompa para aquela época sem festas e com acordes perfeitos de toques conhecidos nas paradas militares. Os professores iriam interromper as aulas? Festa à vista em pleno mês de maio? Todos correram às janelas e portas das salas de aula, inclusive este menino das Lavras. Mas a festa, ou melhor, os acordes estridentes do clarim, executados até com maestria, cheios de volteios, altos e baixos, duraram apenas um minuto ou pouco mais, tempo suficiente para o padre alemão atravessar correndo o pátio... E ainda pensamos que ele estava a buscar o suposto ilustre visitante à entrada do grande portão do colégio. Não era..., vimos quando ele entrou na salinha, situada no pavimento térreo do enorme auditório, a poucos metros de minha sala de aula. Esbaforido, bateu a porta com força e em poucos segundos escutamos os gritos e vimos um moleque voar pela janela, caiu no pátio, um pouco de mau jeito. Seu estupor era visível, olhos arregalados, parecia ter visto o diabo ou a terrível mula sem cabeça, aquela que solta fogo pelas ventas e que os adultos diziam existir, sempre à noite, nas matinhas à beira da casa da fazenda (pura crueldade, só para manter as crianças dentro de casa e dormir cedo). Refez-se, levantou-se e em desabalada carreira, ainda deu uma gargalhada em frente a minha sala de aula, como a dizer: venci..., nocauteei o “Golias”, Fugiu, para sempre...


Nunca mais pôde voltar ao colégio, nem mesmo foi à minha formatura, dois anos depois e que naquela época era toda cheia de cerimonia e pompa. Ainda me lembro do padre alemão me perguntando naquele pomposo dia de formatura: ... e seu irrrrrmãohhhh, criou juízo? Ele não está aqui, está?... Meu Deus..., o padre deve ter apanhado e sido muito humilhado, pois ainda não esqueceu e nem perdoou o garoto atrevido que lhe deu um baita murro jogando-o de costas ao chão... Se o padre não se esqueceu e ainda me espicaçou, imagine o que sofri durante os dois ou três anos que me restaram no colégio, enquanto ele, o protagonista de toda essa confusão estava exilado na fazenda do pai. Perdi a identidade, ganhei outra, “o irmão do doido que surrou o padre diretor”. Mas, voltando ao fatídico episódio, do alto de meus quinze ou dezesseis anos de menino estudioso, aplicado, que disputava os primeiros lugares da turma, gelei quando vi e reconheci a cara do menino que voou da janela, era ninguém menos que meu irmão, Anízio. Lá vem encrenca, pensei! Acertei!


 O padre, contava-me o pivô do imbróglio, logo chegou esbaforido, soltando os diabos pelas ventas, abriu a porta com violência e avançou sobre o atrevido e incorrigível menino. E tomem bofetadas nas duas caixas auriculares do danado. Mas, o enunciado da Lei de Newton, aquele que diz que “a toda ação corresponde igual reação, porém em sentido contrário....”, funcionou... e o padre foi abaixo, pois ao levar o murro na bojuda pança, foi jogado para trás e levou uma rasteira de uma caixa de instrumentos musicais que se encontrava no chão. Desequilibrou-se e ali se estatelou, ficou sem fala e estirado, apenas gemendo. O menino, apavorado, pensando que havia acabado com o padre, pulou por cima dele e ganhou a janela, pois a porta havia sido trancada e as chaves estavam no bolso da batina, a qual esvoaçou por sobre o rosto do enorme padre alemão ali, caído de costas no chão de cimento, mais parecendo um defunto com a cara coberta. O menino apavorado, adrenalina a mil, voou como um mosquito ligeiro para a janela e caiu “voando” no pátio. Pernas para que as quero. Escafedeu! E eu ali, na porta da sala de aula e todos a gritar: é seu irmão, é seu irmão e kkkkkkk... , gargalhadas sem fim. Silêncio, gritou o professor, todos para dentro, já. Não me lembro se naquele dia a aula continuou, pelo menos para mim, não. Enquanto isso o padre diretor se recompôs do nocaute técnico inesperado, dirigiu-se à secretaria, tomou um copo d’água gelada e ordenou a um bedel que chamasse o “irrrrmãohhh do agrrrrhhhessorhhhh (sotaque alemão, carregado que os contemporâneos Zé Planche, Itamar, Salvador, Dirceu e Edson Serra Negra, sabiam imitar muito bem). Lá fui eu, morrendo de medo e nem sabia ainda da surra que o padre havia levado.... Para encurtar a prosa, o Anizinho, meu querido irmãozinho, de olhos azuis, admirado pelas tias Salles, foi “convidado” a nunca mais aparecer no colégio. E eu ainda servi de moleque de recado para levar a convocação a meu pai, para comparecer ao colégio e ouvir a ladainha. O jeito foi afastar o Anizinho da cidade, tamanha a repercussão. Por uns tempos abrigou-se lá na fazenda de nosso pai e ali, tornou-se negociante de bois de corte, invernando-os em outra propriedade da família, a Jacuba, às margens do Rio Grande, quase em frente à Fazenda do Meio, dos Salles, que ficava do outro lado do rio.


            Pois bem, um de seus sócios, Hercílio de tal, que não era nosso parente, morava a um quilômetro da casa de tia Dina, daí a razão de fazer da casa dela, seu “escritório” de negócios da pecuária de corte. Ali comprou um belo potro, da raça manga-larga marchador, de nome Mimoso e as pastagens dos arredores da casa da tia serviram de local de recria para o seu recém-adquirido cavalo, até que atingisse a idade de ser adestrado para a sela. Foi então que se tornou o queridinho das bondosas e caridosas tias que o acolhiam com alegria e muita comida... saudoso, e com a foto antiga à mão, voltou ao local, mas não encontrou mais a casa onde viveram as tias. Não se fez de rogado, contemplou a paisagem serrana, a mesma de meio século atrás e partiu em visita aos sobrinhos daquelas duas tias. Com eles matou a saudade, contando e ouvindo casos dos nonagenários e igualmente queridos primos. Melhor ainda, o cafezinho com quitandas foi servido do mesmo jeito que as tias o recebiam naquela velha casa, cuja foto exibia a todos e a todo instante.


 Não sei dizer se o Anizinho, que usava brilhantina glostora no cabelo, arranjou alguma namorada por lá, pelas bandas de Perdões e Ribeirão Vermelho, cujas distâncias eram equivalentes. Isso ele não contou, pois, quando concedeu a entrevista estava ao lado de sua esposa , a dona Neusa, companheira há 47 anos e pela qual nutre grande respeito. Mas desconfio que depois de umas duas doses de vinho em suas próximas visitas a Brasília..., algum coelho sairá desse mato. Gosto de ouvir essas histórias e como um cronista, eu não invento, apenas aumento um pouquinho para apimentar os causos. Apenas me lembro que algum tempo depois ele andou me convidando para ir a Red River City para conhecer umas lindas morenas de ascendência sírio-libanesa. Mas. Essa é outra história ainda a ser contada.


Mas, voltando à tia Dina, Anízio contou que era a pessoa mais doce desse mundo.  Os almoços eram verdadeiros banquetes para o “menino” de olhos azuis e cabelo abrilhantinado, filho da querida sobrinha Liquinha (esse era o apelido de nossa mãe) e neto de sua irmã Lucinda Augusta Salles, bisneto do patriarca Domingos Pereira Salles (1851- 1929). Faltou alguém dizer a ela que ele era o mais “custoso” dos meninos de toda a família Salles, pois até “bateu” em padre, de batina e tudo, diretor de colégio e celebrante de missas, que distribuía a comunhão para nossos pais e todos da cidade..., um sacrilégio à época. Mas, se à época foi repreendido e penalizado duramente, hoje certamente seria absolvido por “ato de legítima defesa”... Menino custoso era o eufemismo que os antigos usavam, em Lavras, para caracterizar os meninos incontroláveis, espevitados. E bota custoso nisso... até eu tinha medo de suas estripulias.

Brasília, 23 de fevereiro de 2016


Paulo das Lavras



 
 Domingos Pereira de Sales e Lucinda Maria de Jesus, casaram-se em 06/07/1874 
Foto - arquivos de Dilma de Abreu






 
Ferramenta de Domingos Salles, marceneiro de mão cheia. Fabricava vagões de
 madeira para a Rede Ferrovaria. Herdei de minha mãe,uma cama estilo marquesa,
 lindamente trabalhada em madeira imbuia, feita por ele.
  Foto: Anizio Pereira da Silva


 
A cama Marquesa, lindamente trabalhada em madeira imbuia, com detalhes de marcheteria. 
Foto do autor- Fazenda Sítio Retiro dos Ipês- Lavras/MG


 Entalhe de marcheteria na cabeceira da cama marquesa 
Foto do autor- fazenda  Sítio Retiro dos Ipês – Lavras/MG




 
Dá para não dizer que essa carinha de sapeca, com 1 ano de idade, se tornaria o “menino custoso”, artioso ao extremo?....  
Foto - arquivos da familia Salles/Abreu/ Pereira

 
Ainda hoje, mais de 65 anos depois (de pé, na foto), Anízio ainda conserva
a cara descontraída, do mesmo jeito. 
Foto do autor- 2016



 
 Alegria e descontração no café com o sobrinho nonagenário das tias Dina e Altina
 Foto do autor- 2016




Lucinda Augusta Salles e Anísio Alves de Abreu,
Bodas de ouro do casamento, em 10/10/1964
 Foto - família Salles/Abreu





 
Antiga casa das tias Dina e Altina, foto que despertou a saudade no coração do menino custoso
Foto - arquivos de Anízio P. Silva

 





 
Tia Altina, não se casou e foi morar na casa da irmã Dina 
Foto - arquivos de Anízio P. Silva

 



 
Mapa da região da Família Salles, Fazendas do Meio e Barreiros, um pouco acima
 da grande ponte sobre o Rio Grande, BR 381, em baixo, à esquerda 
Foto - Google



 
 Ano de1959. Havia um fotógrafo de plantão. Não havia movimento algum de veículos, pois a ponte havia sido recém-inaugurada por JK. Podia-se estacionar, montar o tripé e fazer as fotos, tranquilamente, naquela atração turística. Até os cavaleiros posavam para fotos. Nesta, pelo lado de Perdões, meu avô Anísio Alves de Abreu e as filhas Irene, com bebê no colo, Américo e Eumar Abreu . O carro é o luxuoso Ford Mercury Monterrey, cor vinho, vendido posteriormente a um taxista de Lavras. Passeei muito nesse automóvel e também deixei marcas do acendedor de cigarros no banco de couro bege... Não era só o espevitado Anizinho que fazia “artes”... 
Foto - arquivos da família Salles/Abreu


 
A mesma ponte de quase 400 metros de comprimento. Vista pelo lado de Lavras.
Foto de 1959, caminhão e a família de Toniquinho de Pádua, primos dos Salles.
Foto - arquivos de Renato Libeck

 


   
A antiga casa da Fazenda do Meio, ao fundo. Ali viveu Domingos Salles
e toda a família. Um dos filhos a conservou até os anos de 1990.
Atualmente funciona ali uma pousada. As instalações antigas foram preservadas. 
Foto do autor 2016

 


 
Bica d’água na Fazenda do Meio, preservada com antigo tanque para peixes pescados no rio 
Foto do autor 2016

 


 

A nova varanda com vista para o Rio Grande, caudaloso, mas nem assim intimidava o garoto Anísio Abreu que o atravessava, à remo, para namorar a donzela de apenas 17 anos, Lucinda Augusta Salles, com quem se casou em 1914 
Foto do autor 2016



Padre Erico Alher, o diretor de sotaque alemão, duro na disciplina do Colégio
Foto - arquivos de Renato Libeck