Nove meses se passaram com o menino no
colo das pessoas queridas, que se dedicavam
com extrema atenção e afeto nos cuidados e incentivo à curiosidade daquela franzina
criança. Convalescente de grave cirurgia
torácica, recebia atenção especial 24 horas ao dia. Celebravam acada dia, a alegria por
estar vivo aquele menino, pedacinho de gente com enorme sonda nas costas e
dificuldade para respirar. Os adultos tinham o dom maravilhoso de acalmá-lo em
sua incômoda imobilização e dor provocada por aquele corpo estranho que
teimava, às vezes, em escapar, exigindo-se novas intervenções médicas no
distante Hospital Vaz Monteiro, situado a 20 km da fazenda. Não só o acalmavam,
mas, sobretudo, abriam-lhe as portas da imaginação infantil, contando-lhe mirabolantes
e incríveis histórias sobre as estrelas cadentes no céu escuro da fazenda
e ainda as terríveis feras, os bichos que viviam nas matas, rios, altos
dos morros ou qualquer outro lugar que distasse o suficiente para os adultos
supostamente nos perderem de vista. Assim, para não nos perderem de vista,
inventavam mil e umas estórias amedrontadoras, além dos famosos contos dos
irmãos Grimm sobre o lobo mau, Joãozinho
e Maria que se perderam na floresta e outras ainda mais aterrorizantes para os
pequenos. Esses contos alemães, verdadeiros terrores para as crianças, ficaram
de tal forma gravados na memória do
menino que, mesmo depois de quase trinta anos, ao percorrer o circuito de Fórmula
1, de Hokenheimring, na Alemanha, numa bela e possante BMW, ao se deparar, de repente, cruzando uma
floresta com a placa indicando seu nome, Schwarzwald (Floresta Negra), eu não
acreditei no que via. Surpreso, perguntei ao guia alemão se era mesmo a famosa
floresta onde se passaram os contos dos irmãos Grimm. Confirmado, imediatamente
disparou o gatilho das reminiscências da infância, vividas a 11.000 km longe
dali, um filme de incrível nitidez , relembrando o menino amedrontado, fosse com
o lobo mau ou outras feras que ameaçavam Chapeuzinho Vermelho ou Joãozinho e
Maria, perdidos na tal Floresta Negra que, até no próprio nome já era aterradora. Fiquei estatelado, momentaneamente
paralisado, com a mente congelada por instantes, pois lá estava a placa
indicativa. Era verdade, não havia dúvida, não era engano, ali estava a tal
Floresta Negra que tanto nos atormentou na infância e sempre as comparávamos,
imaginariamente com as matas, verdadeiras, que nos cercavam na fazenda.
O
impacto daquela inesperada imagem da Floresta Negra foi tão forte que,
confesso, desapareceu o interesse pelo traçado da pista de corrida, palco de
vitórias de Ayrton Senna e Nelson Piquet, brasiliense que conheci e apresentei
meus filhos a ele e suas possantes máquinas com as quais ganhou prémios na
Europa. Até mesmo a supermáquina BMW, na
qual “voávamos” na pista com velocidade acima de 220km/h, nunca antes
experimentada, deixou de me interessar. Minha mente logo se destravou, galopou
em flashback no tempo e espaço na velocidade da luz, jogando-me novamente no
colo de meus pais e parentes que encenavam aqueles apuros dos personagens dos
irmãos Grimm. Então..., era ali o palco daquelas histórias que nos deixavam
amedrontados e nos mantinham longe das matas ao redor da casa da fazenda, tal
qual desejavam nossos pais... Nunca havia imaginado que um dia ali estaria e de forma tão surpreendente, sem aviso
prévio, quase voando numa máquina também famosa e que sempre foi minha paixão,
uma BMW, fabricada bem ali ao lado na mesma Alemanha, na Bayerische Machine
Werke – BMW (Fábrica de Motores da Baviera). Ainda hoje não sei dizer o que foi
mais emocionante na visita à pista de
Hockenheimring, se a veloz corrida à bordo da BMW ou as inesperadas
reminiscências das histórias apavorantes da Floresta Negra, contadas ao menino
de apenas dois ou cinco anos de idade. O mais importante, no entanto, foi
sentir-se acolhido na infância e agora ali estar “vivo”, com a mesma alegria de
criança e com a mente privilegiada por guardar aquelas lembranças como as
bolhas de sabão, num mundo em que tudo passa, tudo muda na ilusão, indo para o
céu a fumaça e ficando na terra o carvão, como disse o príncipe dos poetas
Guilherme de Almeida.
Mas, nessa alegria da vida, é importante se lembrar que, na primeira
infância, entre os dois e seis anos, é que se dá o maior desenvolvimento neural
dos ser humano. Chegam a produzir um milhão de sinapses neurais por segundo, é
a chamada janela de genialidade, onde, segundo os cientistas, as crianças
aprendem facilmente idiomas, matemática básica, música e artes, ou qualquer
outra área de conhecimento. Têm uma capacidade extraordinária de assimilar o
que lhe é ensinado e, melhor ainda, dispõem de incrível curiosidade. É nesta
fase que os estímulos dos adultos se tornam importantes. Quanto mais incentivo,
maior será a capacidade da criança de desenvolver habilidades. Estimule a
curiosidade da criança e seu cérebro se desenvolverá mais, muito mais que
qualquer outra que não tenha tido estímulos. O presente mais valioso que se
pode dar a uma criança é acender a chama
da curiosidade, conforme destacamos no início desta crônica.
Pois bem, ali na Floresta Negra, circulando pelas curvas e retas do
circuito de Formula 1 de Hockenheimring, disparado que foi o gatilho das
reminiscências da infância, pude entender o valor que teve para meu
desenvolvimento neural, aqueles nove meses em que recebi 100% de atenção dos
adultos. Literalmente me carregavam no colo e “respondiam a todas as perguntas
e indagações” por mais estapafúrdias que fossem. Minha mãe dizia que o menino
queria saber de tudo, desde o porquê as estrelas caíam do céu, e apenas algumas
e não todas elas e onde caíam e por que
não podíamos ir até lá, para vê-las no chão e se ainda brilhariam. Estendia as
perguntas para diversas outras questões, como os bichos do mato, serras, rios
animais e até sobre os aviões que passavam roncando nos céus. Estímulos por parte dos adultos não faltaram,
pois o amor era maior que os cuidados que dedicavam à aquele frágil menino.
Todos davam graças a Deus por poder cuidar e acompanhar a sua recuperação,
mesmo tendo de cuidá-lo 24 horas no colo. Promessas e orações em grupos eram
frequentes. Assim era a alegria de todos os familiares, ver e sentir que o
menino estava vivo, muito vivo, um milagre e para garantir seu progresso, a
fórmula era continuar dispensando-lhe 100% de atenção. Haja neurônios novos e sinapses neurais se
desenvolvendo e armazenando ensinamentos e experiências, até mesmo no
aprendizado precoce da leitura e gosto pela literatura clássica. Havia uma
brincadeira salutar na família, que consistia na leitura em grupo, com
premiação para quem conseguisse ler sem
um único tropeço ou erro, uma página inteira do livro de Português com seus
contos e poemas de afamados escritores e poetas da língua portuguesa.
Por
tudo isto, o menino teve ambiente propício ao desenvolvimento privilegiado do
cérebro, criando sinapses neurais em quantidades muito além daqueles que não tiveram
tanto estímulo e por tempo prolongado. Um ambiente de afeto e muito amor, com
estímulos à sua intensa curiosidade, oferecendo-lhe segurança, tão necessária
ao desenvolvimento, proporcionando tranquilidade e normalidade, contrapondo-se
à “anormalidade” causada pelo estado especial de convalescência da cirurgia.
Verdadeira “alegria de estar vivo” não só para os entes queridos que
contribuíram para sua recuperação e desenvolvimento intelectual privilegiado,
mas sobretudo para o próprio “menino” que hoje reconhece com mais intensidade e
propriedade o esforço da família e os benefícios que lhe acompanham por toda a
vida. E quem diria..., lá se vão oito décadas nessa alegria de estar vivo.
Assim é a alegria de estar vivo. A alegria de olhar para trás e reconhecer a
própria trajetória com os afetos preservados e agradecer a Deus pelo dom da
Vida, justamente nesta data, em que recebi a infausta notícia do falecimento de
uma das queridas babás que também tanto cuidou do menino e agora, aos noventa e dois anos de vida, partiu para a
Glória do Senhor. Saudade é o amor que fica.
Amém!
Brasília,
31 de março de 2026
Paulo das Lavras.
Foto: internet

Nenhum comentário:
Postar um comentário