terça-feira, 31 de março de 2026

A alegria de estar vivo – mais um aniversário

 

 O menino aos três anos de idade, já recuperado de grande 
 cirurgia, depois de passar nove meses no colo. O valor da Vida! 


Nove meses se passaram com o menino no colo  das pessoas queridas, que se dedicavam com extrema atenção e afeto nos cuidados e incentivo à curiosidade daquela franzina criança.  Convalescente de grave cirurgia torácica, recebia atenção especial 24 horas ao dia. Celebravam acada dia, a alegria por estar vivo aquele menino, pedacinho de gente com enorme sonda nas costas e dificuldade para respirar. Os adultos tinham o dom maravilhoso de acalmá-lo em sua incômoda imobilização e dor provocada por aquele corpo estranho que teimava, às vezes, em escapar, exigindo-se novas intervenções médicas no distante Hospital Vaz Monteiro, situado a 20 km da fazenda. Não só o acalmavam, mas, sobretudo, abriam-lhe as portas da imaginação infantil, contando-lhe mirabolantes e incríveis histórias sobre as estrelas cadentes no céu escuro da fazenda e ainda as terríveis feras, os bichos que viviam nas matas, rios, altos dos morros ou qualquer outro lugar que distasse o suficiente para os adultos supostamente nos perderem de vista. Assim, para não nos perderem de vista, inventavam mil e umas estórias amedrontadoras, além dos famosos contos dos irmãos Grimm sobre o lobo mau,  Joãozinho e Maria que se perderam na floresta e outras ainda mais aterrorizantes para os pequenos. Esses contos alemães, verdadeiros terrores para as crianças, ficaram de tal forma  gravados na memória do menino que, mesmo depois de quase trinta anos, ao percorrer o circuito de Fórmula 1, de Hokenheimring, na Alemanha, numa bela e possante BMW,  ao se deparar, de repente, cruzando uma floresta com a placa indicando seu nome, Schwarzwald (Floresta Negra), eu não acreditei no que via. Surpreso, perguntei ao guia alemão se era mesmo a famosa floresta onde se passaram os contos dos irmãos Grimm. Confirmado, imediatamente disparou o gatilho das reminiscências da infância, vividas a 11.000 km longe dali, um filme de incrível nitidez , relembrando o menino amedrontado, fosse com o lobo mau ou outras feras que ameaçavam Chapeuzinho Vermelho ou Joãozinho e Maria, perdidos na tal Floresta Negra que, até no próprio nome já era  aterradora. Fiquei estatelado, momentaneamente paralisado, com a mente congelada por instantes, pois lá estava a placa indicativa. Era verdade, não havia dúvida, não era engano, ali estava a tal Floresta Negra que tanto nos atormentou na infância e sempre as comparávamos, imaginariamente com as matas, verdadeiras, que nos cercavam na fazenda.

 

 O impacto daquela inesperada imagem da Floresta Negra foi tão forte que, confesso, desapareceu o interesse pelo traçado da pista de corrida, palco de vitórias de Ayrton Senna e Nelson Piquet, brasiliense que conheci e apresentei meus filhos a ele e suas possantes máquinas com as quais ganhou prémios na Europa. Até mesmo a  supermáquina BMW, na qual “voávamos” na pista com velocidade acima de 220km/h, nunca antes experimentada, deixou de me interessar. Minha mente logo se destravou, galopou em flashback no tempo e espaço na velocidade da luz, jogando-me novamente no colo de meus pais e parentes que encenavam aqueles apuros dos personagens dos irmãos Grimm. Então..., era ali o palco daquelas histórias que nos deixavam amedrontados e nos mantinham longe das matas ao redor da casa da fazenda, tal qual desejavam nossos pais... Nunca havia imaginado que um dia ali estaria  e de forma tão surpreendente, sem aviso prévio, quase voando numa máquina também famosa e que sempre foi minha paixão, uma BMW, fabricada bem ali ao lado na mesma Alemanha, na Bayerische Machine Werke – BMW (Fábrica de Motores da Baviera). Ainda hoje não sei dizer o que foi mais emocionante na visita à pista de  Hockenheimring, se a veloz corrida à bordo da BMW ou as inesperadas reminiscências das histórias apavorantes da Floresta Negra, contadas ao menino de apenas dois ou cinco anos de idade. O mais importante, no entanto, foi sentir-se acolhido na infância e agora ali estar “vivo”, com a mesma alegria de criança e com a mente privilegiada por guardar aquelas lembranças como as bolhas de sabão, num mundo em que tudo passa, tudo muda na ilusão, indo para o céu a fumaça e ficando na terra o carvão, como disse o príncipe dos poetas Guilherme de Almeida.

 

        Mas, nessa alegria da vida, é importante se lembrar que, na primeira infância, entre os dois e seis anos, é que se dá o maior desenvolvimento neural dos ser humano. Chegam a produzir um milhão de sinapses neurais por segundo, é a chamada janela de genialidade, onde, segundo os cientistas, as crianças aprendem facilmente idiomas, matemática básica, música e artes, ou qualquer outra área de conhecimento. Têm uma capacidade extraordinária de assimilar o que lhe é ensinado e, melhor ainda, dispõem de incrível curiosidade. É nesta fase que os estímulos dos adultos se tornam importantes. Quanto mais incentivo, maior será a capacidade da criança de desenvolver habilidades. Estimule a curiosidade da criança e seu cérebro se desenvolverá mais, muito mais que qualquer outra que não tenha tido estímulos. O presente mais valioso que se pode dar a uma criança é  acender a chama da curiosidade, conforme destacamos no início desta crônica.

 

        Pois bem, ali na Floresta Negra, circulando pelas curvas e retas do circuito de Formula 1 de Hockenheimring, disparado que foi o gatilho das reminiscências da infância, pude entender o valor que teve para meu desenvolvimento neural, aqueles nove meses em que recebi 100% de atenção dos adultos. Literalmente me carregavam no colo e “respondiam a todas as perguntas e indagações” por mais estapafúrdias que fossem. Minha mãe dizia que o menino queria saber de tudo, desde o porquê as estrelas caíam do céu, e apenas algumas e não todas elas e  onde caíam e por que não podíamos ir até lá, para vê-las no chão e se ainda brilhariam. Estendia as perguntas para diversas outras questões, como os bichos do mato, serras, rios animais e até sobre os aviões que passavam roncando nos céus.  Estímulos por parte dos adultos não faltaram, pois o amor era maior que os cuidados que dedicavam à aquele frágil menino. Todos davam graças a Deus por poder cuidar e acompanhar a sua recuperação, mesmo tendo de cuidá-lo 24 horas no colo. Promessas e orações em grupos eram frequentes. Assim era a alegria de todos os familiares, ver e sentir que o menino estava vivo, muito vivo, um milagre e para garantir seu progresso, a fórmula era continuar dispensando-lhe 100% de atenção. Haja  neurônios novos e sinapses neurais se desenvolvendo e armazenando ensinamentos e experiências, até mesmo no aprendizado precoce da leitura e gosto pela literatura clássica. Havia uma brincadeira salutar na família, que consistia na leitura em grupo, com premiação para quem conseguisse ler  sem um único tropeço ou erro, uma página inteira do livro de Português com seus contos e poemas de afamados escritores e poetas da língua portuguesa.

 

       Por tudo isto, o menino teve ambiente propício ao desenvolvimento privilegiado do cérebro, criando sinapses neurais em quantidades muito além daqueles que não tiveram tanto estímulo e por tempo prolongado. Um ambiente de afeto e muito amor, com estímulos à sua intensa curiosidade, oferecendo-lhe segurança, tão necessária ao desenvolvimento, proporcionando tranquilidade e normalidade, contrapondo-se à “anormalidade” causada pelo estado especial de convalescência da cirurgia. Verdadeira “alegria de estar vivo” não só para os entes queridos que contribuíram para sua recuperação e desenvolvimento intelectual privilegiado, mas sobretudo para o próprio “menino” que hoje reconhece com mais intensidade e propriedade o esforço da família e os benefícios que lhe acompanham por toda a vida. E quem diria..., lá se vão oito décadas nessa alegria de estar vivo. Assim é a alegria de estar vivo. A alegria de olhar para trás e reconhecer a própria trajetória com os afetos preservados e agradecer a Deus pelo dom da Vida, justamente nesta data, em que recebi a infausta notícia do falecimento de uma das queridas babás que também tanto cuidou do menino e agora, aos  noventa e dois anos de vida, partiu para a Glória do Senhor. Saudade é o amor que fica.

Amém!

 

Brasília,  31 de março de 2026

 

Paulo das Lavras.

 

 Por que as estrelas caem? Onde caem? Elas brilham no chão? Podemos ir lá, 
 para ver a estrela cadente? Assim era o menino curioso, que tudo perguntava.

Foto: internet




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