sábado, 28 de fevereiro de 2026

Minha segunda casa

 

 Banco de Crédito Real , encravado no coração da cidade de Lavras. Ali, na casa de um colega, 
no quarto da janela do segundo andar, à direita, passei um ano inteiro, estudando. 
Foto: Acervo Renato Libeck – anos de 1960 


A perda de entes queridos sempre deixa marcas profundas em nossa alma. Quando partem prematuramente, como foi o caso de minha mãe, aos 49 anos, deixa-nos um enorme vazio na alma. Foi justamente nesse crítico período que Deus mandou  um anjo do céu para confortar o menino. A foto postada recentemente, no grupo Memórias e Patrimônios de Lavras-MG, acionou o gatilho de minhas reminiscências, de lembranças passadas neste lindo prédio, cuja foto dos anos 60 abre esta crônica. Uma crônica de memórias como bem sugere o nome do referido grupo nas redes sociais.

Era o ano de 1963, cursava o 3º ano do curso científico (2º grau) do Colégio Aparecida, fundado por um grupo de voluntários, incluindo meu avô, Anísio Gaspar. Havíamos combinado com o colega, Fernando, que estudaríamos juntos para o vestibular de Agronomia da ESAL/UFLA. Ainda não era uma escola federal, mas de grande reputação nacional, pois nela estudavam alunos do Brasil inteiro. Começamos em março, com rígida rotina que se iniciava às 13:00 horas e se estendida até às 18:00, de segunda à sexta-feira e de 08 às 16:00 horas aos sábados, dia da diversão semanal, a sessão das 18:30 horas do Cine Brasil e depois o footing no jardim da principal e bela praça da cidade.

Naquele janelão, que aparece na foto à direita do 2⁰ andar, ficava o quarto do Fernando Santa Cecília, filho do gerente do Banco de Credito Real, Sr Clélio. Passamos aquele ano inteiro ali, estudando para o vestibular. Às vezes, íamos estudar em minha casa, na tranquilidade de uma grande chácara de 20 hectares, mais parecendo uma fazendinha, a 200 metros da principal rua da cidade, Pela manhã assistíamos no colégio as aulas do 3⁰ científico. Éramos alunos aplicados no colégio, onde inclusive desempenhei monitoria de Física e Química, matérias ministradas pelo saudoso Prof. Russaulière Mattos.  Elaboramos um plano de estudos para todas as matérias do vestibular, utilizando as 32 horas semanais programadas, divididas entre as matérias de Física, Química, Biologia e Matemática. Somando-se as horas de aulas no colégio, pela manhã, atingíamos uma carga bem pesada de quase 60 horas  de estudos. O resultado foi fantástico. Conseguimos vencer todo o programa exigido para o exame vestibular. Logramos o 1⁰ e o 4º lugares na classificação daquele que foi, em janeiro de1964, o primeiro vestibular federal da ESAL/UFLA, que havia sido federalizada no dia 23 de dezembro de 1963, apenas dez dias antes. Alegria demais..., esforço recompensado. Calouros em festa, cabelos pintados de azul metileno, depois raspagem total, boina com o emblema da Agronomia, orgulho geral. Início das aulas, calouros com ferradura dependurada no pescoço e éramos atirados, com roupa e tudo, no lago da fonte luminosa do jardim, aos sábados. Seguimos os estudos e nos graduamos quatro anos depois. Cada um seguiu seu rumo em diferentes atividades, ele na Extensão Rural e eu em Planejamento Agroflorestal e Paisagismo em BH. Pouco tempo depois nos reencontramos na mesma Escola, agora como professores, onde desempenhamos nosso trabalho até o final da carreira profissional.

Tenho as melhores lembranças daquele prédio, não como um banco financeiro, como ele foi por muito tempo, mas como minha segunda casa. Ali fui acolhido num momento de profunda dor, quando minha mãe faleceu prematuramente em abril daquele ano. Alma dilacerada, enorme desafio à frente: passar no vestibular. E então aparece um anjo caído do céu, dona Elisa, mãe de Fernando, que me acolheu como se filho fosse. Remédio melhor para alma não há. Benção de Deus! Mas, por que estou a escrever sobre esse prédio e um pouco de sua história? Fotos antigas despertam nossas lembranças e as redes sociais são pródigas em hospedar sites e grupos de história. Não foi diferente agora. A foto que ilustra a abertura desta crônica funcionou como um gatilho que disparou e abriu os escaninhos da alma saudosa do menino, que já está há 50 anos fora de sua terra natal.  Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei. Saudades da minha infância, do primeiro amor, de quem eu deixei e de quem me deixou. Tudo à distância é mais dolorido, a falta dos familiares, amigos de infância  e dos tempos dourados da juventude, as ruas e praças..., ou mesmo a cidade inteira que nos viu nascer, criou, ampliou horizontes, deu-nos a formação profissional, a cultura e a finesse social... Tudo, enfim! Ah..., dizem os poetas que a saudade é o amor que fica e é mesmo!

             Sempre que vou a Lavras, passo por ali, contemplo aquela janela, sobre a qual às vezes nos debruçávamos para respirar e descansar a mente em ligeiras pausas. Nessas visitas, como agora ao contemplar aquela foto,  vêm as lembrancas de puro afeto e acolhimento que ali tive, em dificil momento de minha vida. Nao consigo olhar para lá e não me lembrar da alegria daquela numerosa família e o acolhimento que ali recebi. O Sr Clélio de Lima Santa Cecília e a dona Elisa gostavam de provocar amorosamente os filhos, à mesa, falando sobre os namorados das filhas e ainda me lembro do nome de um dessesnamorados, Nemésio, que nem era namorado, apenas um flerte. Pura alegria de pai amoroso que, também nos incentivava nos pesados estudos para o vestibular. Família abençoada! Dona Elisa, à toda hora ia ao nosso local de estudos para ver se precisávamos de algo. Na verdade, era mesmo para levar um copo d´água, um biscoitinho  ou um bombom de chocolate. Coisa de mãe zelosa, e mantinha a mesa sempre posta, pronta para  o lanche e, aos sábados, quando estudávamos o dia todo, o almoço na hora certa  com todos da família. Aquela especial deferência amenizava a nossa dor da perda materna e nos mantinha com o espírito confortado e concentrado nos estudos. Não havia, ali, espaço para tristeza, pois imperava o amor familiar, compartilhado com quem tanto precisava.  Gratidão!

 Que Deus os tenham, Dona Elisa e Sr Clélio de Lima Santa Cecília e continue a abençoar seus filhos. Sou eternamente grato à essa generosa família. Obrigado Lavras, por ser assim, berço de ouro e abrigar gente tão acolhedora, como essa estimada família,  que veio de Monte Carmelo, no triângulo mineiro e sua grande parte radicou-se em Lavras. Aquele pequeno quarteirão era cercado de famílias tradicionais, ao lado (Rua Getúlio Vargas) tinha o casal dona Yeda, professora de piano e Sr Dalmi Teixeira. Mais abaixo, a Casa Rosada, de dona Zica e o famoso caseiro Sr. Juvenal  que jogava pedra nos meninos ao ouvir a provocação “tá seguro dona Zica”. Foi assim várias vezes na rua encascalhada do colégio Aparecida, quando por azar ele passav  na hora do término das aulas. Os alunos provocadores quase sempre se camuflavam no meio daquela multidão fervilhante de meninos correndo ao final da aula, mas a pedrada era certeira, no primeiro que quele mirsse aleatoriamente. Perigo, por isso, o Pe. Raimundo, sempre ficava à saída do colégio, defronte o casarão , em estilo mouro, do Dr Homero Chagas Felisberto. O padre recomendava a não provocar o Sr Juvenal, velhinho, barbudo, com seu indefectível chapéu de palha, mas de gênio explosivo, incontrolável diante das provocações, pois fora acostumado a correr e a espantar os garotos atrevidos que pulavam os muros daquele casarão rosado, para surrupiar mangas e outras frutas.... Não era difícil manter a disciplia dos alunos, pois tínhamos respeito máximo aos dirigentes do colégio e ademais, bastava controlar os lideres como Zé Planche, Itamar, Dirceu, Artur, Edson e outros colegas que  já se destacavam desde os tempos de estudantes do curso secundário. Bons tempos.

Mas, a foto em tela nos remete também às reminiscências de outras famílias. Ao fundo, à esquerda da foto, na Rua Cincinato de Pádua,  a casa de Doninha Pádua e Dr Paulo Lourenço Menicucci. Fechando o quarteirão, está a Praça João Oscar de Pádua, com a histórica e tricentenária Igreja do Rosário, à esquerda do prédio e que não aparece na foto. Notam-se ainda, os trilhos e a fiação elétrica dos bondes, que funcionaram até o ano de 1967, ano de minha formatura na ESAL/UFLA. Lá se vão mais de 60 anos, quando ali passei um ano inteiro estudando para o vestibular e curando a alma em meio ao amor de uma abençoada família. Minha segunda casa. Amém!

 

Brasília, 28 de fevereiro de 2026

Paulo das Lavras


 
Minha casa, numa grande chácara, à rua Progresso esquina com Lázaro de Azevedo, 
onde hoje se situa a Vila Cruzeiro do Sul, cujo loteamento foi projetado pelo 
Eng. Tista Hermeto, no final dos anos 50.

 

 
      O jornal O Agrário fala da federalização da Esal/Ufla e   
a primeira turma de vestibulandos


 Turma de agronomia em visita à Brasília- maio 1966 . O menino é o 4º, em pé, 
da esquerda para a direita e Fernando Santa Cecília , o 9º.

 

As moto-Vespas eram bem comuns entre os jovens de Lavras nos anos 60.      


 Formávamos uma turma animada para passeios à ponte do Rio Grande, represa de 
Camargos, ponte do Funil e outros locais. Gilson Arruda, Oto Penido, Plínio Matiolli,   
Toninho Chalfun, Clóvis e Almir do banco Real, Ari fotógrafo, João Sampaio e outros, 
 além deste menino, integravam esse animado grupo. Namoradas, nunca, jamais, podiam 
passear na garupa de uma moto-Vespa ou Lambreta... 
Foto: coleção Renato Libeck



 
Turma de Agronomia/1967, celebrando 45 anos de formatura. 
               Fernando, de camisa amarela e o menino, o último , de pé, à direita. 


 50 anos de formatura – 2017. 
O tempo passa e a saudade é o amor que fica

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