A perda de
entes queridos sempre deixa marcas profundas em nossa alma. Quando partem
prematuramente, como foi o caso de minha mãe, aos 49 anos, deixa-nos um enorme
vazio na alma. Foi justamente nesse crítico período que Deus mandou um anjo do céu para confortar o menino. A
foto postada recentemente, no grupo Memórias e Patrimônios de Lavras-MG,
acionou o gatilho de minhas reminiscências, de lembranças passadas neste lindo
prédio, cuja foto dos anos 60 abre esta crônica. Uma crônica de memórias como
bem sugere o nome do referido grupo nas redes sociais.
Era o ano de
1963, cursava o 3º ano do curso científico (2º grau) do Colégio Aparecida,
fundado por um grupo de voluntários, incluindo meu avô, Anísio Gaspar. Havíamos
combinado com o colega, Fernando, que estudaríamos juntos para o vestibular de
Agronomia da ESAL/UFLA. Ainda não era uma escola federal, mas de grande
reputação nacional, pois nela estudavam alunos do Brasil inteiro. Começamos em
março, com rígida rotina que se iniciava às 13:00 horas e se estendida até às
18:00, de segunda à sexta-feira e de 08 às 16:00 horas aos sábados, dia da diversão
semanal, a sessão das 18:30 horas do Cine Brasil e depois o footing no jardim
da principal e bela praça da cidade.
Naquele janelão, que aparece na foto à direita do
2⁰ andar, ficava o quarto do Fernando Santa Cecília, filho do gerente do Banco
de Credito Real, Sr Clélio. Passamos aquele ano inteiro ali, estudando para o
vestibular. Às vezes, íamos estudar em minha casa, na tranquilidade de uma
grande chácara de 20 hectares, mais parecendo uma fazendinha, a 200 metros
da principal rua da cidade, Pela manhã assistíamos no colégio as aulas do 3⁰
científico. Éramos alunos aplicados no colégio, onde inclusive desempenhei
monitoria de Física e Química, matérias ministradas pelo saudoso Prof.
Russaulière Mattos. Elaboramos um plano
de estudos para todas as matérias do vestibular, utilizando as 32 horas
semanais programadas, divididas entre as matérias de Física, Química, Biologia
e Matemática. Somando-se as horas de aulas no colégio, pela manhã, atingíamos uma
carga bem pesada de quase 60 horas de
estudos. O resultado foi fantástico. Conseguimos vencer todo o programa exigido
para o exame vestibular. Logramos o 1⁰ e o 4º lugares na classificação daquele
que foi, em janeiro de1964, o primeiro vestibular federal da ESAL/UFLA, que
havia sido federalizada no dia 23 de dezembro de 1963, apenas dez dias antes.
Alegria demais..., esforço recompensado. Calouros em festa, cabelos pintados de
azul metileno, depois raspagem total, boina com o emblema da Agronomia, orgulho
geral. Início das aulas, calouros com ferradura dependurada no pescoço e éramos
atirados, com roupa e tudo, no lago da fonte luminosa do jardim, aos sábados. Seguimos
os estudos e nos graduamos quatro anos depois. Cada um seguiu seu rumo em
diferentes atividades, ele na Extensão Rural e eu em Planejamento Agroflorestal
e Paisagismo em BH. Pouco tempo depois nos reencontramos na mesma Escola, agora
como professores, onde desempenhamos nosso trabalho até o final da carreira
profissional.
Tenho as melhores lembranças daquele prédio, não como um
banco financeiro, como ele foi por muito tempo, mas como minha segunda casa.
Ali fui acolhido num momento de profunda dor, quando minha mãe faleceu
prematuramente em abril daquele ano. Alma dilacerada, enorme desafio à frente:
passar no vestibular. E então aparece um anjo caído do céu, dona Elisa, mãe de
Fernando, que me acolheu como se filho fosse. Remédio melhor para alma não há.
Benção de Deus! Mas, por que estou a escrever sobre esse prédio e um pouco de
sua história? Fotos antigas despertam nossas lembranças e as redes sociais são
pródigas em hospedar sites e grupos de história. Não foi diferente agora. A
foto que ilustra a abertura desta crônica funcionou como um gatilho que
disparou e abriu os escaninhos da alma saudosa do menino, que já está há 50
anos fora de sua terra natal. Sinto saudades de amigos que nunca mais
vi, de pessoas com quem não mais falei. Saudades da minha infância, do primeiro
amor, de quem eu deixei e de quem me deixou. Tudo à distância é mais dolorido,
a falta dos familiares, amigos de infância e dos tempos dourados da juventude, as ruas e praças...,
ou mesmo a cidade inteira que nos viu nascer, criou, ampliou horizontes,
deu-nos a formação profissional, a cultura e a finesse social... Tudo, enfim! Ah..., dizem os
poetas que a saudade é o amor que fica e é mesmo!
Sempre que vou a Lavras, passo por ali, contemplo aquela janela, sobre a qual às vezes nos debruçávamos para respirar e descansar a mente em ligeiras pausas. Nessas visitas, como agora ao contemplar aquela foto, vêm as lembrancas de puro afeto e acolhimento que ali tive, em dificil momento de minha vida. Nao consigo olhar para lá e não me lembrar da alegria daquela numerosa família e o acolhimento que ali recebi. O Sr Clélio de Lima Santa Cecília e a dona Elisa gostavam de provocar amorosamente os filhos, à mesa, falando sobre os namorados das filhas e ainda me lembro do nome de um dessesnamorados, Nemésio, que nem era namorado, apenas um flerte. Pura alegria de pai amoroso que, também nos incentivava nos pesados estudos para o vestibular. Família abençoada! Dona Elisa, à toda hora ia ao nosso local de estudos para ver se precisávamos de algo. Na verdade, era mesmo para levar um copo d´água, um biscoitinho ou um bombom de chocolate. Coisa de mãe zelosa, e mantinha a mesa sempre posta, pronta para o lanche e, aos sábados, quando estudávamos o dia todo, o almoço na hora certa com todos da família. Aquela especial deferência amenizava a nossa dor da perda materna e nos mantinha com o espírito confortado e concentrado nos estudos. Não havia, ali, espaço para tristeza, pois imperava o amor familiar, compartilhado com quem tanto precisava. Gratidão!
Que Deus os tenham, Dona Elisa e Sr Clélio de Lima Santa Cecília e continue a abençoar seus filhos. Sou eternamente grato à essa generosa família. Obrigado Lavras, por ser assim, berço de ouro e abrigar gente tão acolhedora, como essa estimada família, que veio de Monte Carmelo, no triângulo mineiro e sua grande parte radicou-se em Lavras. Aquele pequeno quarteirão era cercado de famílias tradicionais, ao lado (Rua Getúlio Vargas) tinha o casal dona Yeda, professora de piano e Sr Dalmi Teixeira. Mais abaixo, a Casa Rosada, de dona Zica e o famoso caseiro Sr. Juvenal que jogava pedra nos meninos ao ouvir a provocação “tá seguro dona Zica”. Foi assim várias vezes na rua encascalhada do colégio Aparecida, quando por azar ele passav na hora do término das aulas. Os alunos provocadores quase sempre se camuflavam no meio daquela multidão fervilhante de meninos correndo ao final da aula, mas a pedrada era certeira, no primeiro que quele mirsse aleatoriamente. Perigo, por isso, o Pe. Raimundo, sempre ficava à saída do colégio, defronte o casarão , em estilo mouro, do Dr Homero Chagas Felisberto. O padre recomendava a não provocar o Sr Juvenal, velhinho, barbudo, com seu indefectível chapéu de palha, mas de gênio explosivo, incontrolável diante das provocações, pois fora acostumado a correr e a espantar os garotos atrevidos que pulavam os muros daquele casarão rosado, para surrupiar mangas e outras frutas.... Não era difícil manter a disciplia dos alunos, pois tínhamos respeito máximo aos dirigentes do colégio e ademais, bastava controlar os lideres como Zé Planche, Itamar, Dirceu, Artur, Edson e outros colegas que já se destacavam desde os tempos de estudantes do curso secundário. Bons tempos.
Mas, a foto em tela nos remete também às
reminiscências de outras famílias. Ao fundo, à esquerda da foto, na Rua
Cincinato de Pádua, a casa de Doninha
Pádua e Dr Paulo Lourenço Menicucci. Fechando o quarteirão, está a Praça João
Oscar de Pádua, com a histórica e tricentenária Igreja do Rosário, à esquerda
do prédio e que não aparece na foto. Notam-se ainda, os trilhos e a fiação
elétrica dos bondes, que funcionaram até o ano de 1967, ano de minha formatura
na ESAL/UFLA. Lá se vão mais de 60 anos, quando ali passei um ano inteiro
estudando para o vestibular e curando a alma em meio ao amor de uma abençoada
família. Minha segunda casa. Amém!
Brasília, 28 de fevereiro de 2026
Paulo das Lavras
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