domingo, 28 de dezembro de 2025

Dezembrite - 2025

 
Uma pausa para a reflexão de final de ano. Gratidão à vida! 
Foto: internet


Nunca havia pensado que a criação do calendário do ano civil, com 365 dias, distribuídos em 12 meses, pudesse representar muito mais que o ciclo orbital completo da Terra em torno do Sol. O calendário anual tem lá suas razões. De um lado a física do Universo e por outro, a nossa resiliência. Precisamos de uma pausa em nossas atividades para recarregar as baterias neurais de nosso organismo.  Vá lá que essa conta dos dias físicos do calendário anual não é bem exata, havendo uma fração de 0,25 dias/ano, que acumulada em quatro anos, aumenta um dia ao ano. Mas, isto está previsto e há correção a cada quatro anos. É  o chamado ano bissexto, de 366 dias, quando o mês de fevereiro passa a ter 29 dias. Foi uma tarefa e tanto para o Papa Gregório XIII, em 1582, quando reajustou o calendário até então existente, criando este atual que ainda utilizamos.  Não bastasse a divisão em meses, há ainda as quatro estações do ano, a primavera com suas flores, o verão com tempo de calor e chuvas, o outono das quedas das folhas e colheitas de cereais e por último o inverno, que se caracteriza pelo frio, quando as plantas hibernam e se preparam para a florada, repetindo-se o ciclo. Esses períodos climáticos do ano são devidos à inclinação  do eixo da Terra e seu movimento ao redor do Sol, ora mais perto e com exposição direta do sol, perpendicular, ou então mais inclinada e mais distante, razão pela qual o clima fica mais frio.

Mas, tudo isto é ciência e já conhecemos desde os  tempos iniciais da escola. É o ciclo anual da natureza e que rege nossa vida, com o tempo de plantar e tempo de colher os alimentos, inseridos no ciclo da água, com a evaporação, condensação e precipitação, reabastecendo os mananciais que nos fornecem o precioso líquido, essencial para nossa vida, das plantas e dos animais. Natureza perfeita! Mas, tudo isto está circunscrito ao plano da Natureza da Terra e do Universo. Há, no entanto outro fator, a natureza humana, que se insere e vive neste ambiente do universo. Há quem diga que em dezembro, o último mês do calendário, encerra-se também um ciclo na vida humana. É tempo de festas e celebrações, mas também de se fazer um balanço do ano que se encerrou e quase sempre cheio de melancolia que se transforma em tristeza. Muitos olham para trás e agradecem o sucesso alcançado, outros porém, lamentam o fracasso de suas metas não atingidas e mesmo diante de alguns sucessos, sempre haverá projetos não realizados, causando, na maioria das vezes, frustração e desânimo diante de uma sociedade que só “vende” alegria, felicidade e dinheiro. É a chamada dezembrite, o cansaço, traduzido em desânimo da alma, quando confrontada ao suposto “sucesso” vendido pela massiva propaganda comercial. Alguém, já viu na TV ou mesmo nas redes sociais, alguma propaganda pessimista, de fracasso? Até mesmo para o condenável cigarro, havia propaganda associando-o “ao sucesso... com Hollyw...!” , mostrando a imagem de um jovem sarado, musculoso, surfando em águas azuis de paraísos turísticos. Pois bem, esse clima de sucesso se acentua no final do ano, pois a sociedade exige felicidade constante. E é aí que entra a tal da “dezembrite”, que intitula esta crônica.

Não à toa, as propagandas de Natal se iniciam no mês de outubro, dois meses antes, de modo a ir preparando a mente e o bolso para a gastança da “suposta felicidade” de final de ano. Natal já deixou de se ser festa cristã, pois foi sequestrado pela ganância comercial. A “felicidade” propagandeada deve ser mesmo apenas para os comerciantes e veículos de comunicação. Basta ler as manchetes... “comerciantes esperam aumento de x% nas vendas, ou ainda, “o 13º injetará bilhões no comércio”, ou seja, tudo gira em torno dos negócios, do faturamento, do lucro alheio, que vem embalado na enganosa venda de !felicidade”. Natal e Ano Novo representam, hoje, apenas negócios. Acabou aquela devoção da natalidade celebrada pelos cristãos. Apenas festas e faturamento com a falsa propaganda da felicidade e de sucesso (desde que você compre o produto anunciado, logicamente...). Ora aí está a fonte da tristeza, da frustração do cidadão comum, pressionado pela propaganda comercial sente-se frustrado por não fazer parte dessa “gente feliz”, com carro zero Km, viagens internacionais, maravilhosos e caríssimos presentes natalinos. Some-se a isto o balanço negativo, com contas a pagar, a promoção profissional que não veio, a ameaça de perda do emprego, o filho problema, a saúde de familiares, o luto, as perdas pessoais, o amor que se foi, a solidão enfim, e eis que a tristeza se instala, fica calado, mudo, quase em deprê, por sentir-se “fora” desse mundo alegre e festivo de final de ano. Esta é a chamada dezembrite. Tudo isto acontece em nome de um suposto sucesso..., e assim chega-se à exaustão no final do ano, quando todos procuram fechar um ciclo e planejam o próximo. Daí o costume de se desejar “um próspero Ano Novo”, pois a mente persegue, sempre, o sucesso. A propaganda sabe explorar isto muito bem. Não deveria ser assim, por que não focar o oposto? Contar as conquistas conseguidas no decorrer do ano, a começar pelo trabalho que não lhe falta, a saúde, a família e a alegria de um lar.

É preciso respeitar-nos...,sim, a nós próprios! Qualquer pausa que fazemos, qualquer descanso que nos propomos, já os consideramos como tempo perdido. Não é assim, ao contrário, é uma forma de respeito aos nossos limites físicos e da própria alma. Talvez por isso, cheguemos ao final do ano estressados e pessimistas, esquecendo-nos das vitórias que conseguimos. Nesse clima pessimista, as festas de fim de ano perdem o brilho e muitos ficam a lamentar, até mesmo lutos passados que, durante as festas tradicionais de natal e ano novo, tonam-se saudades  doloridas e por isso, se recolhem no silêncio. Essas perdas não se restringem ao passamento de entes queridos, acabam se estendendo às separações, doenças de familiares, o emprego que não veio e outras tantas razões que passam a dominar a alma já sofrida.

Estas, com certeza, são as razões pelas quais cunhou-se a nova expressão “dezembrite”. Cabe a nós, no entanto, escolher a forma de encarar este final de ciclo anual. É estafante? Sim, porém, precisamos nos conscientizar que as férias, a pausa individual, são importantes. Neste ano adotei o conhecido recesso-de-fim-de-ano,  paralisando completamente as atividades profissionais, de 20 de dezembro a quatro de janeiro do ano novo. Nada de palestras, reuniões, telefonemas, mensagens ou outros compromissos profissionais. Recesso total, com 14 dias de descanso, nem mesmo dirigir carro pelas ruas da movimentada cidade grande. Compras de natal?  Ah... viva o Uber, sem sobressaltos ou assaltos de flanelinhas e de estacionamentos com exorbitantes cobranças de estacionamentos nos shoppings. A vida em cidade grande exige postura mais realista e prática. O descanso é fundamental e faz um bem imensurável para a mente, a começar pelo tempo que se pode dedicar às leituras dos livros que já estavam na fila de espera. Bálsamo para alma, pois descansados e sem correrias, até os planos futuros soam melhores, mais leves.

Boas Festas, aproveite os feriados de final de ano, reserve alguns dias de recesso. São ótimos para fazermos um balanço do que se foi, corrigir rumos e estabelecer metas com otimismo e alegria. Ah, não se esqueça que em 2026 haverá eleições e ainda há tempo suficiente para se pensar numa boa escolha. Que tal banir aqueles que cortaram milhões de reais do orçamento das universidades e os transferiram para os bilhões reservados para si próprios, em emendas secretas. Mas, em todas essas reflexões, próprias para essa ocasião de encerramento do ciclo anual da vida, nunca se esqueça de agradecer a Deus pelo maior presente que Dele recebemos: a Vida. Basta esta para  nos sentirmos felizes, sempre!

Amém!

 

Brasília, 28 de dezembro de 2025

Paulo das Lavras.


 Um Natal de anos passados: “dois velhinhos” bem alegres. 
Assim deve ser a vida. Amém! 
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